Artigo

30 de julho de 2026

Fintechs no Brasil: demanda e fatores determinantes para a captação de recursos no setor

Francielle Aparecida Oliveira Cebalos Ruppelt; Lucineide Bispo dos Reis Luz

DOI: 10.22167/2675-6528-202600809

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

Fatores determinantes da demanda por crédito das fintechs no Brasil foram investigados, considerando sua crescente relevância no Sistema Financeiro Nacional em um contexto de intensificação tecnológica, digitalização e expansão de novos modelos de negócios financeiros. O estudo objetivou identificar e analisar empiricamente os elementos microeconômicos e macroeconômicos que afetam essa demanda, avaliando a sensibilidade das fintechs às condições do mercado de crédito. Adotou-se abordagem quantitativa, empregando modelos econométricos de regressão linear múltipla com dados do Banco Central do Brasil e da plataforma Distrito. Foram aplicados procedimentos de seleção de variáveis (Stepwise), teste de endogeneidade (Durbin-Wu-Hausman) e de multicolinearidade (Variance Inflation Factor). Os resultados demonstraram que variáveis macroeconômicas, especialmente a taxa Selic, exerceram influência significativa sobre a demanda por crédito das fintechs, enquanto fatores microeconômicos, como estágio de maturidade e setor de atuação, apresentaram impacto limitado. Constatou-se que o modelo mais aderente ao comportamento do setor foi o de capital de giro com prazo de até 365 dias, que exibiu maior poder explicativo e melhor captação da dinâmica de curto prazo típica das fintechs. Concluiu-se que as fintechs respondem de forma mais intensa às condições macroeconômicas do que às suas características operacionais, reforçando a importância da estabilidade monetária e regulatória para o desenvolvimento do setor.

Palavras-chave: Custo de captação; Demanda por crédito; Determinantes do crédito; Financiamento empresarial; Sistema Financeiro Nacional.

1. Introdução

O mercado financeiro desempenha um papel central na organização econômica moderna, atuando como um mecanismo essencial para a alocação eficiente de recursos, a gestão de riscos e o financiamento de pessoas e empresas. A trajetória de sua evolução reflete as transformações sociais e econômicas, adaptando-se às estruturas produtivas e às formas de organização econômica ao longo do tempo.

Historicamente, a formação do mercado financeiro está intrinsecamente ligada ao avanço das atividades comerciais e à crescente demanda por financiamento. Desde a Antiguidade, civilizações como a Mesopotâmia, Grécia e Roma já contavam com templos e comerciantes que exerciam funções de custódia e concessão de crédito. Na Idade Média, o florescimento do comércio europeu impulsionou o surgimento de casas bancárias e cambistas, notadamente em centros urbanos italianos. Esses desenvolvimentos lançaram as bases para o sistema financeiro moderno (Kindleberger, 1993; Roover, 1963).

O processo de institucionalização financeira ganhou força entre os séculos XVII e XVIII, com o aperfeiçoamento do sistema bancário europeu e o estabelecimento das primeiras bolsas de valores, sendo a criação do Banco da Inglaterra em 1694 um marco significativo (Kindleberger, 1993). Com a Revolução Industrial, nos séculos XVIII e XIX, a intermediação financeira ampliou sua relevância, financiando infraestrutura e atividades produtivas, e estimulando o desenvolvimento dos mercados de capitais, o que acelerou o crescimento econômico (Levine, 2005).

No século XX, o sistema financeiro tornou-se progressivamente mais complexo e globalizado, impulsionado pela expansão dos mercados e pelo surgimento de novos instrumentos, além de avanços regulatórios focados na estabilidade econômica (Mishkin, 2019). No Brasil, a modernização do sistema financeiro foi intensificada a partir das reformas da década de 1960, que instituíram o Banco Central do Brasil (BCB) e o Conselho Monetário Nacional (CMN). Posteriormente, a criação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em 1976 consolidou as bases regulatórias do mercado de capitais brasileiro (Assaf Neto, 2018).

Conceitualmente, o mercado financeiro é um arranjo institucional que engloba normas, instrumentos e entidades dedicadas a intermediar a transferência de recursos entre agentes superavitários e deficitários. Nessa estrutura, os contratos financeiros são estratégicos para reduzir assimetrias de informação e custos de transação, facilitando a alocação intertemporal de recursos e decisões de consumo e produção (Andrezo e Lima, 2007; Levine, 2005). Contudo, no contexto brasileiro, a elevada concentração bancária e os custos de crédito historicamente altos têm limitado o acesso ao financiamento, especialmente para empresas emergentes (CVM, 2022).

Esse cenário de restrições abriu espaço para inovações no setor financeiro, que buscam ampliar a competição, reduzir barreiras e modernizar a intermediação no país. Os avanços tecnológicos e a digitalização dos serviços financeiros promoveram transformações estruturais no Sistema Financeiro Nacional (SFN). A incorporação de plataformas digitais, big data e inteligência artificial contribuiu para a redução de custos operacionais, o aumento da eficiência e a ampliação do acesso aos serviços financeiros (Diniz, 2021).

Nesse ambiente, emergiram novos modelos de negócios intensivos em tecnologia, como as fintechs, que redefiniram a experiência do usuário e desafiaram as instituições financeiras tradicionais. O termo “fintech”, abreviação de “financial technology”, refere-se ao uso inovador de tecnologia na criação e oferta de produtos e serviços financeiros (Fórum Econômico Mundial). Sua origem remonta a referências incipientes na década de 1980, com Peter Knight, e ganhou forma contemporânea a partir do final da década de 1990, com o surgimento de soluções como o PayPal e o modelo de empréstimos peer-to-peer da Zopa em 2005 (Diniz, 2020).

No Brasil, a consolidação das fintechs está diretamente ligada ao avanço do arcabouço regulatório promovido pelo Banco Central do Brasil e pela Comissão de Valores Mobiliários. As Resoluções CMN nº 4.656 e nº 4.657, ambas de 2018, regulamentaram a atuação das Sociedades de Crédito Direto (SCD) e das Sociedades de Empréstimo entre Pessoas (SEP), formalizando sua participação no SFN e estimulando a concorrência. O país também apresenta características estruturais favoráveis, como um grande mercado consumidor, alta penetração de internet e uso de dispositivos móveis, que atraíram empreendedores e investidores para explorar as ineficiências do sistema bancário convencional.

Apesar do ambiente promissor, a sobrevivência dessas instituições nos primeiros anos de operação depende crucialmente do acesso a recursos financeiros para o desenvolvimento de seus produtos e serviços. Fintechs frequentemente demoram a apresentar resultados financeiros e contábeis positivos, tornando o acesso a financiamento essencial até que seus negócios atinjam a maturidade (Souza, 2022). As principais formas de financiamento incluem o crédito bancário tradicional, a captação via mercado de capitais e os investimentos de fundos de venture capital. O custo do crédito, representado pela taxa de juros, como a taxa Selic definida pelo Banco Central do Brasil, é um fator fundamental que influencia diretamente a oferta de crédito e o custo de captação das instituições financeiras (Assaf Neto, 2018).

Diante das lacunas existentes na literatura e da necessidade de uma análise integrada de fatores microeconômicos e macroeconômicos que condicionam a criação, desenvolvimento e sobrevivência das fintechs no Sistema Financeiro Nacional, este estudo se justifica pela relevância de compreender a dinâmica da demanda por crédito nesse setor emergente. Assim, o presente artigo tem como objetivo identificar e analisar empiricamente os elementos microeconômicos e macroeconômicos que afetam a demanda por crédito das fintechs no Brasil, avaliando a sensibilidade dessas empresas às condições do mercado de crédito.

2. Material e Métodos

Para o desenvolvimento deste estudo, adotou-se uma abordagem de pesquisa quantitativa, com base em pesquisa bibliográfica e análise de dados secundários. A metodologia empregou modelos econométricos de regressão linear múltipla, visando identificar e analisar empiricamente os elementos microeconômicos e macroeconômicos que afetam a demanda por crédito das fintechs no Brasil, conforme o objetivo estabelecido.

Os dados secundários utilizados foram coletados de duas fontes principais: o Banco Central do Brasil (BCB) e a plataforma Distrito. O período de coleta e análise dos dados abrangeu de janeiro de 2020 a julho de 2025, fornecendo uma base temporal para a observação das variáveis econômicas e financeiras relevantes ao setor de fintechs.

A variável dependente considerada nos modelos foi a demanda por crédito das fintechs, representada pelo volume de concessão de crédito às pessoas jurídicas. Para uma análise abrangente, foram exploradas três modalidades de crédito: capital de giro total, capital de giro com prazo de até 365 dias e capital de giro rotativo, cada uma refletindo diferentes necessidades de financiamento.

As variáveis independentes selecionadas incluíram fatores macroeconômicos e microeconômicos. Entre os macroeconômicos, considerou-se a taxa de juros (Selic), que influencia diretamente o custo do crédito, e a cotação do dólar, devido ao seu impacto cambial sobre os investimentos externos, especialmente de venture capital.

Os fatores microeconômicos englobaram o número de rodadas de investimento e o volume de capital investido, que serviram como indicadores do histórico de financiamento e da confiança do mercado. Adicionalmente, o estágio de maturidade da fintech foi utilizado como proxy para o grau de consolidação da empresa, e o setor de atuação foi incluído como uma variável categórica para indicar propensão ao risco e atratividade para financiadores.

Para a estimação dos modelos, utilizou-se a ferramenta estatística Stat’s Studio. Procedimentos de seleção de variáveis, como o método Stepwise, foram aplicados para identificar as variáveis mais relevantes para a composição dos modelos de regressão linear múltipla, conforme a abordagem de Gujarati e Porter (2011).

A fim de mitigar possíveis problemas de endogeneidade dos regressores, aplicou-se o teste de Durbin-Wu-Hausman (DWH). Este teste avaliou a exogeneidade das variáveis explicativas, orientando a escolha entre a estimação por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO) e Instrumental Variables (IV)/Two-Stage Least Squares (2SLS), buscando garantir a consistência dos estimadores. Utilizaram-se defasagens da taxa Selic como instrumentos excluídos para a variável ln(Selic).

Para identificar e corrigir o problema de multicolinearidade, aplicou-se o teste Variance Inflation Factor (VIF), que mensura o grau de inflação da variância dos coeficientes devido à correlação entre os regressores. Uma estratégia de poda automática por VIF, com limiar de 10, foi empregada, removendo-se iterativamente a variável com maior VIF até que todos os preditores apresentassem um VIF aceitável para a modelagem.

Adicionalmente, para capturar efeitos sazonais da pandemia de Covid-19, foram utilizadas variáveis dummies sazonais. Para a taxa de câmbio, empregou-se uma média móvel de 12 meses para suavizar oscilações de curto prazo, e o Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) foi utilizado para deflacionar essa variável. Uma variável de tendência estrutural também foi incorporada para refletir mudanças econômicas ao longo do tempo.

A escolha do modelo final baseou-se na sua adequação teórica e operacional para representar a dinâmica de financiamento de curto prazo das fintechs, considerando a teoria econômica e as finalidades associadas a cada modalidade de crédito para capital de giro. A transformação logarítmica natural (ln) foi aplicada às variáveis quantitativas para linearizar relações não lineares, reduzir assimetrias e facilitar a interpretação dos coeficientes como elasticidades (Belfiore e Fávero, 2017).

3. Resultados e Discussão

A presente seção apresenta e discute os resultados obtidos a partir da estimação de modelos econométricos de regressão linear múltipla, com o objetivo de analisar os determinantes da demanda por crédito das fintechs no Brasil. A análise concentrou-se na relação entre as variáveis explicativas selecionadas e o volume de concessão de crédito às pessoas jurídicas, especificamente para financiamento de capital de giro, que foi utilizado como variável dependente. Os achados são interpretados à luz da literatura e dos objetivos propostos, buscando identificar padrões, significância estatística e implicações para o funcionamento do mercado de financiamento de fintechs no país, com dados coletados do Banco Central do Brasil e da plataforma Distrito, abrangendo o período de janeiro de 2020 a julho de 2025.

Inicialmente, para identificar os determinantes da demanda por crédito, foram consideradas variáveis explicativas como a taxa de juros (Selic), o prazo médio da carteira de capital de giro de pessoas jurídicas, a cotação do dólar, o número de rodadas de investimento e o volume de capital investido em fintechs, o estágio de maturidade da fintech e o setor de atuação. Para capturar efeitos sazonais da pandemia de Covid-19, foram utilizadas variáveis *dummies* sazonais. A taxa de câmbio foi tratada com uma média móvel de doze meses e deflacionada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), e uma variável de tendência foi incorporada para refletir mudanças estruturais. As variáveis quantitativas foram transformadas em logaritmo natural para linearizar relações, facilitar a interpretação dos coeficientes como elasticidades, reduzir assimetrias e mitigar heterocedasticidade.

A estimação do primeiro modelo, que incluiu a tendência estrutural e considerou a demanda de operações de crédito para capital de giro total, resultou em um poder explicativo (R²) de 51,48%, que ajustado pelos graus de liberdade, caiu para 46,53%. As variáveis tendência, taxa Selic, taxa de câmbio real, volume de investimentos e setor *backoffice* apresentaram significância estatística. Contudo, observou-se que apenas o volume de investimento em fintechs apresentou o sinal esperado, enquanto a taxa Selic e a taxa de câmbio real exibiram sinais divergentes da teoria econômica, que prevê uma relação negativa entre a taxa de juros e a demanda por crédito.

Em um segundo modelo, sem a inclusão da tendência estrutural, o poder explicativo (R²) foi de 47,27%, caindo para 44,17% após ajuste. Neste modelo, as variáveis taxa Selic, setor ambiental e setor *backoffice* foram estatisticamente significativas, mas novamente, nenhuma delas apresentou o sinal esperado. A persistência do sinal positivo para a taxa Selic, contrariando a expectativa teórica de que o aumento dos juros reduziria a demanda por crédito, sugeriu a necessidade de investigações adicionais sobre a endogeneidade e o contexto específico da amostra, como o período pandêmico.

Considerando que a finalidade da contratação de crédito pode variar conforme a urgência da pessoa jurídica, fez-se necessário estimar a demanda também para operações de crédito com prazo de até 365 dias, que são de curto prazo e destinadas a financiar atividades operacionais. O modelo estimado para essa modalidade, incluindo a tendência estrutural, apresentou um poder explicativo (R²) de 71,74%, que ajustado, foi de 66,83%. As variáveis tendência, taxa Selic, taxa de câmbio real, setor *backoffice*, setor engajamento consumidor, setor meios de pagamento, setor poder computacional e setor tecnologia foram todas estatisticamente significativas.

Neste modelo de capital de giro de até 365 dias, os sinais dos coeficientes para os setores de engajamento consumidor, meios de pagamento, poder computacional e tecnologia estavam de acordo com o esperado, indicando uma relação positiva com a demanda por crédito. No entanto, a taxa Selic e a taxa média de câmbio real continuaram a apresentar divergência de sinal em relação à teoria econômica, um achado que se tornou recorrente nas análises e que aponta para a complexidade das interações no mercado de crédito das fintechs, especialmente em um período de instabilidade econômica.

Ao remover a tendência estrutural para a modalidade de crédito de capital de giro de até 365 dias, o poder explicativo (R²) do modelo caiu para 66,99%, e para 61,25% após ajuste. A taxa de câmbio tornou-se insignificante neste cenário. Embora o modelo tenha se mostrado significativo, apenas as variáveis de prazo médio de contratação e os setores de engajamento consumidor, ensinos específicos, meios de pagamento e poder computacional apresentaram os sinais esperados para seus coeficientes, reforçando a complexidade da relação entre as variáveis e a demanda por crédito.

A análise também incluiu a perspectiva das operações de crédito rotativo, uma modalidade de financiamento para atividades operacionais com limites reutilizáveis. Para o crédito rotativo, o modelo com tendência estrutural apresentou um R² de 71,53%, que ajustado, foi de 67,29%. As variáveis taxa Selic, rodadas de investimento em fintechs, estágio sem informações, setor e-commerce, setor novas formas de ensino, setor poder computacional, setor proptech e setor sem informações foram todas estatisticamente significativas. Contudo, novamente, a variável taxa Selic não apresentou o sinal esperado. A tendência estrutural não se mostrou significante para o modelo de crédito rotativo, o que levou a resultados idênticos para o modelo sem essa variável.

Independentemente da modalidade de crédito analisada, os fatores macroeconômicos, em especial a taxa Selic, exerceram um papel determinante sobre a demanda por financiamento das fintechs. Esse resultado está em consonância com a literatura que destaca a sensibilidade das operações de crédito às condições monetárias e ao custo de capital no ambiente econômico brasileiro (Bortoluzzo et al., 2022). A influência preponderante das condições macroeconômicas sugere que as fintechs, apesar de sua natureza inovadora, não estão isoladas das flutuações econômicas mais amplas.

Por outro lado, os aspectos microeconômicos, como o setor de atuação e o estágio de maturidade das empresas, não se mostraram estatisticamente significativos para explicar a demanda por crédito no conjunto de fintechs analisadas, com exceção do setor *backoffice* em alguns modelos. Essa constatação contrasta com pesquisas que indicam que *startups* em estágios mais avançados e com histórico de resultados tendem a captar recursos com maior facilidade (Camargo et al., 2024). A discrepância pode sugerir que, para fintechs, as decisões de financiamento são mais influenciadas pelo ambiente macroeconômico do que por características internas da empresa.

Para mitigar possíveis problemas de endogeneidade e multicolinearidade, foram conduzidos testes diagnósticos. O teste de Durbin-Wu-Hausman (DWH) não indicou endogeneidade para a variável LN Taxa Selic (p = 0,267), sugerindo que os estimadores de Mínimos Quadrados Ordinários (MQO) são consistentes. O sinal positivo da Selic, divergente do esperado, foi atribuído a fatores de preços, ao ciclo econômico e a dinâmicas omitidas, especialmente durante o período pandêmico, quando a demanda por crédito aumentou para recompor caixa, mesmo com juros e inflação elevados.

O teste de multicolinearidade, utilizando o Fator de Inflação da Variância (VIF), revelou VIFs muito altos para Tendência (35,19), LN Taxa média de câmbio (32,89) e LN Rodadas investimento fintech (27,37), indicando forte sobreposição informacional. A variável LN Volume investido fintech também apresentou um VIF elevado (11,8), e a *Proxy* Pandemia um VIF moderado (7,5). Em contraste, LN Selic e LN Prazo médio situaram-se em patamares baixos a moderados (aproximadamente 2-2,5), indicando menor risco de redundância.

Para mitigar a multicolinearidade, aplicou-se uma estratégia de poda automática por VIF, removendo-se iterativamente a variável com maior VIF até que todos os preditores apresentassem VIF ≤ 10. Como resultado, apenas a variável Tendência (VIF = 35,19) precisou ser removida. O conjunto final de preditores com VIF ≤ 10 compreendeu: *Proxy* Pandemia, LN Taxa Selic, LN Prazo médio das concessões de crédito para Capital de giro em até 365 dias, LN Taxa média de câmbio, LN Rodadas investimento fintech, LN Volume investido fintech, estágio maturidade Seed e setor Crédito. A remoção da Tendência eliminou a multicolinearidade severa, resultando em um patamar aceitável para modelagem.

Após a aplicação do teste VIF e a poda automática, o modelo econométrico final, utilizando a concessão de crédito às pessoas jurídicas para capital de giro de até 365 dias, apresentou um poder explicativo (R²) de 50,78%, que ajustado, foi de 47,89%. As variáveis LN Taxa Selic, LN Rodadas investimento fintech e LN Volume investido fintech foram estatisticamente significativas. Contudo, a taxa Selic e as rodadas de investimento continuaram a apresentar divergência de sinal em relação à teoria econômica, o que reforça a interpretação de que os efeitos de preços e a dinâmica do ciclo econômico, especialmente durante a pandemia, influenciaram a demanda por crédito de forma não convencional.

Ao considerar os resultados dos modelos econométricos estimados, a teoria econômica e as finalidades associadas a cada modalidade de crédito para capital de giro, verificou-se que a equação que melhor se ajusta ao comportamento da demanda por crédito pelas fintechs é aquela que utiliza como variável dependente o capital de giro com prazo de até 365 dias, acrescido de uma tendência estrutural. Essa adequação decorre do fato de que fintechs, em geral, operam predominantemente no curto prazo, apresentando maior sensibilidade às oscilações macroeconômicas e às condições de liquidez do sistema financeiro, características que tornam essa modalidade mais representativa do padrão de contratação observado nesse segmento.

Em síntese, os resultados evidenciaram que fatores macroeconômicos, notadamente a taxa Selic, desempenham um papel preponderante na determinação da demanda por crédito das fintechs no Brasil, com modelos de capital de giro de curto prazo (até 365 dias) apresentando maior poder explicativo. Embora alguns coeficientes tenham exibido sinais divergentes da teoria econômica, reflexo do período pandêmico, a pesquisa reforça que as fintechs são altamente sensíveis às condições monetárias e ao custo de capital. Por outro lado, variáveis microeconômicas, como estágio de maturidade e setor de atuação, mostraram impacto limitado, sugerindo que o comportamento de financiamento das fintechs é mais fortemente associado ao ambiente macroeconômico do que às especificidades individuais de cada empresa, sublinhando a importância da estabilidade monetária e regulatória para o desenvolvimento do setor.

4. Conclusão

O presente estudo objetivou identificar e analisar empiricamente os elementos microeconômicos e macroeconômicos que afetam a demanda por crédito das fintechs no Brasil, avaliando a sensibilidade dessas empresas às condições do mercado de crédito. Verificou-se que fatores macroeconômicos, especialmente a taxa Selic, exerceram influência preponderante sobre a demanda por financiamento das fintechs, enquanto variáveis microeconômicas, como estágio de maturidade e setor de atuação, apresentaram impacto limitado. Observou-se que o modelo mais aderente ao comportamento do setor foi o de capital de giro com prazo de até 365 dias, que exibiu maior poder explicativo e melhor captação da dinâmica de curto prazo típica dessas empresas. A persistência de sinais divergentes da teoria econômica para a taxa Selic foi atribuída a fatores de preços, ao ciclo econômico e a dinâmicas omitidas, notadamente durante o período pandêmico, quando a demanda por crédito aumentou para recompor caixa, mesmo com juros e inflação elevados. Esses achados reforçam a importância de políticas monetárias previsíveis e de um ambiente regulatório estável para o desenvolvimento sustentável do ecossistema de inovação financeira, evidenciando que as fintechs respondem de forma mais intensa às condições macroeconômicas do que às suas características operacionais.

A pesquisa, contudo, apresenta limitações relacionadas ao tamanho da amostra, à disponibilidade de dados e à complexidade na interpretação de alguns coeficientes devido à possível multicolinearidade entre variáveis explicativas, mesmo após a aplicação de testes diagnósticos. Como desdobramento natural, sugere-se que estudos futuros explorem períodos pós-pandemia, incorporem indicadores de risco de crédito mais detalhados, comparem o desempenho de fintechs brasileiras com ecossistemas internacionais e adotem metodologias avançadas, como modelos não lineares e técnicas de aprendizado de máquina, a fim de aprofundar a compreensão sobre a dinâmica de financiamento desse setor emergente.

Referências Bibliográficas

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Economia, Investimentos e Banking do MBA USP/Esalq

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10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

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