03 de agosto de 2026
ETF Temático: Investimento racional?
Gilberto Anderson Gonzaga Pedroso; Lucineide Bispo dos Reis Luz
DOI: 10.22167/2675-6528-202600847
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A indústria de investimentos tem presenciado uma recente proliferação de Exchange Traded Funds (ETFs) temáticos, impulsionada por narrativas de mercado que frequentemente desafiam os preceitos da diversificação tradicional. Diante desse cenário, este estudo analisou a racionalidade na alocação de capital em ETFs temáticos e de fatores listados na B3, comparando sua eficiência com o índice de mercado amplo. A abordagem utilizou análise quantitativa do risco e do retorno, bem como avaliação da diversificação, empregando métricas como o Drawdown Máximo, o Diversification Ratio (DR) e o Índice de Sharpe Modificado (com Expansão de Cornish-Fisher). A exposição a nichos específicos aumentou a volatilidade e a assimetria negativa dos portfólios, sem gerar retornos excedentes (Alfas) estatisticamente significativos na maior parte da amostra. Além disso, identificou-se uma ineficiência estrutural, pois a dispersão nominal de ativos nos fundos temáticos não proporcionou proteção real devido à alta correlação interna, caracterizando o fenômeno da “falsa diversificação”. A preferência dos investidores por esses veículos, embora matematicamente ineficiente, mostrou-se influenciada por vieses comportamentais, como a heurística da representatividade e a busca por narrativas concretas, configurando uma decisão que prioriza a justificativa psicológica em detrimento da maximização financeira.
Palavras-chave: Eficiência de Mercado; Finanças Comportamentais; Gestão Passiva; Risco de Cauda.
1. Introdução
O Exchange Traded Fund (ETF), também conhecido como fundo de índice, consolidou-se como um veículo de investimento de gestão passiva negociado em bolsa, cujo objetivo primordial é replicar a rentabilidade de um índice de referência. Este instrumento oferece o benefício da diversificação instantânea, geralmente a um custo inferior ao de fundos ativos (Silva et al., 2025). A indústria de ETFs na B3 registrou um crescimento expressivo ao longo dos anos, com seu patrimônio sob gestão aumentando de R$ 1,4 bilhão em 2004 para R$ 54,5 bilhões em julho de 2025 (ANBIMA, 2025). Essa expansão reflete uma mudança estrutural no perfil do investidor brasileiro.
Este avanço foi impulsionado massivamente pela entrada do investidor de varejo no mercado. O número total de investidores posicionados em ETFs disparou de 288 mil em 2020 para 841 mil em 2025 (B3, 2023; B3, 2025), consolidando o ETF como uma ferramenta estrutural de alocação de ativos. Atualmente, embora os investidores institucionais ainda respondam por 51% do volume financeiro negociado, as pessoas físicas representam a vasta maioria dos cotistas, totalizando mais de 666 mil investidores individuais (B3, 2025). Dentro deste ecossistema, o segmento de Renda Variável Local demonstra notável resiliência, mantendo-se estável em cerca de R$ 25,4 bilhões em setembro de 2025. Contudo, observa-se uma bifurcação qualitativa no mercado, dividindo-se entre a liquidez concentrada nos gigantes de índice amplo e a sofisticação da “cauda longa”, composta por estratégias de Small Caps, Dividendos e Temáticos.
Por um lado, os índices tradicionais mantêm a dominância absoluta da liquidez, com o ETF BOVA11 (IBOVESPA) permanecendo como a principal referência. Por outro lado, a grande transformação do período 2021-2025 reside na ascensão das estratégias específicas. O dado mais revelador é a migração interna dos investidores: em 2023, 60% dos investidores em ETF de Renda Variável estavam no Índice Amplo, participação que recuou para 36% em 2025. O investidor passou a buscar “pedaços da bolsa” por meio de ETFs de fator e de setor, levando a uma oferta altamente granular, abrangendo estratégias de dividendos e temas como agronegócio, ESG e criptoativos (B3, 2025). No entanto, essa evolução para “ETFs Temáticos” traz um novo desafio. A popularidade de produtos de nicho, apesar de sua volatilidade e das dúvidas sobre o desempenho ajustado ao risco, levanta o debate sobre a eficiência de mercado e o risco desses “ETFs dominados” (Chague e Luna, 2024).
Sob a ótica da Teoria Moderna do Portfólio de Markowitz (1952), a diversificação eficiente deve maximizar o retorno esperado para um dado nível de risco. Logo, a concentração em temas específicos só seria racional mediante um prêmio de risco consistente. Contudo, a literatura de Finanças Comportamentais, baseada na Teoria da Perspectiva de Kahneman e Tversky (2011), sugere que investidores frequentemente abandonam a racionalidade em favor de narrativas atraentes, recorrendo a heurísticas que geram vieses cognitivos perigosos ao patrimônio.
O viés de representatividade, por exemplo, leva o agente a confundir uma “boa história” com um “bom investimento”, ignorando o valuation. O efeito manada, por sua vez, cria urgência (Fear of Missing Out) e motiva alocações baseadas na memória recente, em detrimento dos fundamentos. Esse comportamento é reforçado por plataformas de investimento que utilizam destaques visuais e retornos passados para incentivar o giro da carteira (Thaler e Sunstein, 2008). No Brasil, investidores tendem a considerar-se mais racionais do que seus pares, o que os encoraja a buscar retornos superiores em nichos promissores (Barros, 2010).
Este estudo justifica-se por investigar a discrepância entre o retorno esperado e os custos e riscos reais desses produtos (Soares e Milani, 2014). Sua relevância prática reside na aplicação de métricas de risco de cauda, como o Índice de Sharpe Modificado, para verificar se a exposição temática gera valor real ou se é apenas volatilidade não remunerada (Favre e Galeano, 2002). O objetivo é analisar a racionalidade da alocação em ETFs de Renda Variável Local na B3, confrontando sua eficiência ao risco de cauda, custos, e os vieses comportamentais que alimentam sua demanda (Housel, 2023).
2. Material e Métodos
O presente estudo adotou uma natureza de pesquisa quantitativa e descritiva, fundamentada na análise de dados históricos de mercado secundário. O objetivo central consistiu na avaliação comparativa da eficiência de alocação de capital em Exchange Traded Funds (ETFs) temáticos listados na B3, confrontando-os com o índice de mercado amplo, representado pelo ETF BOVA11. Esta abordagem visou responder à questão sobre a racionalidade desses investimentos.
O delineamento metodológico foi estruturado em quatro etapas distintas. Primeiramente, procedeu-se à definição da amostra e à coleta dos dados. Subsequentemente, realizou-se o tratamento estatístico e o cálculo das métricas de risco pertinentes. A terceira etapa envolveu a modelagem de um índice único e a aplicação de regressão linear. Por fim, a última fase consistiu na análise da diversificação e da eficiência ajustada dos portfólios.
O universo da pesquisa abrangeu os ETFs de Renda Variável negociados na B3 (Brasil, Bolsa, Balcão). Para assegurar a representatividade da amostra, selecionaram-se os ativos líderes em número de cotistas em cada segmento temático ou setorial. Essa seleção correspondeu a aproximadamente 93% do patrimônio líquido total do grupo de Renda Variável Local.
A coleta de dados foi efetuada em novembro de 2025. Utilizou-se a base de dados da LSEG Data & Analytics, acessada via Microsoft Excel, para a obtenção das séries históricas de preços de fechamento diários ajustados. O período de análise estendeu-se por 360 dias, com encerramento em 31 de outubro de 2025, garantindo coerência com a vida útil dos ETFs da amostra.
Para o tratamento das séries de preços de fechamento diários, empregou-se o método dos retornos logarítmicos (contínuos), visando obter propriedades estatísticas mais próximas da normalidade, condição desejável para modelagens econométricas. A anualização dos retornos foi realizada pela soma simples dos retornos diários, conforme a abordagem de Morettin (2008).
A análise de risco fundamentou-se no cálculo do desvio padrão anualizado e do coeficiente de variação, permitindo a visualização da volatilidade relativa de cada ativo. Adicionalmente, mensurou-se o Drawdown Máximo para quantificar a perda máxima histórica em percentuais, oferecendo uma perspectiva do risco de ruína em cenários de estresse de mercado (Lima, 2018).
A decomposição do retorno e a sensibilidade ao mercado foram avaliadas por meio do Modelo de Índice Único, operacionalizado por uma Regressão Linear Simples (OLS). Neste modelo, o ETF BOVA11 foi empregado como variável explicativa (Elton et al., 2004). A formulação matemática utilizada foi Rᵢ = αᵢ + βᵢRₘ + εᵢ, onde β (Beta) mensura o risco sistemático e α (Alfa) representa o retorno excedente.
A significância estatística dos parâmetros foi validada por meio do teste t, com os p-valores dos coeficientes α e β obtidos no software Stat-Studio (Marins, 2009). Adotou-se um nível de significância de 5% (0,05) para o teste de hipóteses, indicando que um p-valor inferior a 0,05 denota significância estatística.
Para mensurar a diversificação real dos portfólios, utilizou-se o conceito de Número Efetivo de Ativos (Neff), derivado do índice de concentração de Herfindahl-Hirschman (Meucci, 2009; Gianetti, 2013). Complementarmente, aplicou-se o conceito de Diversification Ratio (DR), que calcula a razão entre a soma das volatilidades individuais proporcionais dos ativos e a volatilidade total do portfólio (Choueifaty e Coignard, 2008).
A avaliação da qualidade do desempenho adotou uma abordagem progressiva. Inicialmente, aplicou-se o Índice de Sortino, utilizando o retorno do BOVA11 como taxa mínima aceitável (MAR), com foco na volatilidade negativa (downside deviation) (Carvalho, 2024).
Dada a observação de excesso de curtose e assimetria negativa nos histogramas de frequência, o Índice de Sharpe Modificado foi adotado como métrica definitiva de eficiência. Este indicador aprimora a análise ao substituir o desvio padrão pelo Value-at-Risk Modificado (mVaR) no denominador e ao utilizar a Expansão de Cornish-Fisher para capturar a probabilidade de perdas extremas na distribuição real dos dados (Favre e Galeano, 2002; Gregoriou e Gueyie, 2003; Pirola, 2022; Belchior, 2007). Para fins de comparabilidade, a taxa livre de risco (Rf) foi considerada zero.
No que tange aos cuidados éticos, a concepção do problema, a análise crítica dos dados, a verificação da veracidade das informações e a redação final foram de inteira responsabilidade do autor, em conformidade com as diretrizes éticas da instituição. O trabalho contou com o apoio de ferramentas de inteligência artificial, como Grammarly para revisão gramatical e estilística, NotebookLM para síntese de documentos e Gemini para revisão técnica preliminar.
3. Resultados e Discussão
A análise empírica dos Exchange Traded Funds (ETFs) temáticos listados na B3, em comparação com o índice de mercado amplo (BOVA11), revelou padrões importantes de risco e retorno. A discussão dos achados foi estruturada em eixos sequenciais, abrangendo a caracterização estatística da amostra, a verificação da geração de valor por meio de regressão linear, a análise estrutural da diversificação, a avaliação do risco de cauda e da eficiência ajustada, e, por fim, a análise de custos e da dominância de mercado. Os resultados indicam uma complexa interação entre a performance financeira e os vieses comportamentais que influenciam as decisões de alocação de capital dos investidores.
Caracterização da Amostra e Estatísticas Descritivas
A amostra do estudo foi composta pelos ativos líderes em número de cotistas em 2025, dentro de cada segmento da Renda Variável Local, dividindo-se entre ETFs de Índice Amplo (Betas) e ETFs Temáticos ou de Fatores. O ETF BOVA11, representando o IBOVESPA, consolidou-se como o principal benchmark, detendo aproximadamente 70% da participação de mercado no grupo Beta, conforme dados da B3 S.A. (2025). A coleta de dados históricos de preços de fechamento diários abrangeu um período de 360 dias, encerrando em 31 de outubro de 2025, o que permitiu uma análise robusta das métricas de retorno e risco brutas, fundamentais para a avaliação comparativa.
Os indicadores de retorno e risco bruto anualizado, calculados a partir dos preços de fechamento diários, evidenciaram uma heterogeneidade significativa na amostra. Observou-se que a volatilidade anualizada dos ETFs temáticos foi, em média, superior à do BOVA11, sugerindo que a especialização em nichos setoriais impõe um prêmio de risco maior ao investidor. Contudo, essa maior volatilidade não se traduziu, necessariamente, em retornos superiores no período analisado, levantando questões iniciais sobre a eficiência desses veículos de investimento.
Apenas dois ETFs temáticos, DIVO11 e ECOO11, apresentaram um retorno levemente superior ao do ETF de Índice Amplo. No entanto, ao analisar o risco por unidade de retorno, medido pelo Coeficiente de Variação Anualizado (CV), somente o DIVO11 demonstrou um valor inferior ao do BOVA11, indicando uma eficiência relativa superior nesse aspecto. Essa observação inicial, contudo, é insuficiente para uma conclusão definitiva sobre a eficiência, pois a análise isolada do retorno e do desvio padrão não captura a totalidade do perfil de risco.
A distribuição de frequência dos retornos diários, visualizada por meio de histogramas, revelou a presença de assimetria e um perfil de risco real distinto para os ETFs temáticos. Histogramas mais amplos para fundos como SMAL11 e HIGH11 indicaram maior volatilidade e, consequentemente, uma maior probabilidade de perdas extremas. A observação de “caudas longas” nesses ativos temáticos, especialmente em SMAL11 e HIGH11, invalida a premissa de normalidade, sugerindo que o investidor aceita uma distribuição de resultados mais incerta e com maior probabilidade de eventos extremos.
O Drawdown Máximo, uma métrica crucial para avaliar o risco de queda, quantificou a perda máxima histórica em percentuais, oferecendo uma perspectiva clara do risco de ruína em cenários de estresse de mercado (Lima, 2018). Enquanto o BOVA11 limitou a perda máxima a 9,06%, investidores de HIGH11 enfrentaram uma desvalorização de até 23,82%, exigindo um retorno de recuperação significativamente maior. Apenas XFIX11 e DIVO11 se destacaram entre os temáticos, minimizando a perda máxima em níveis compatíveis com o índice amplo, o que sugere uma resiliência superior em momentos de baixa do mercado.
A relação entre risco e retorno foi ilustrada por um gráfico de dispersão, onde o BOVA11 serviu como referência central. O DIVO11 posicionou-se no quadrante superior esquerdo, indicando maior retorno com menor risco, sendo o mais desejável. Em contraste, HIGH11 e MATB11 situaram-se no canto inferior direito, caracterizando destruição de valor devido ao alto risco e baixo retorno. O XFIX11, no quadrante inferior esquerdo, representou um ativo de menor risco e retorno, enquanto o ECOO11, no quadrante superior direito, atraiu investidores dispostos a assumir mais risco em busca de retornos potencialmente maiores.
Resultados do Modelo de Índice Único
Para identificar a capacidade das estratégias de gerar valor acima do risco de mercado, aplicou-se o Modelo de Índice Único (SIM), utilizando o BOVA11 como variável explicativa (Elton et al., 2004). Os coeficientes da regressão linear simples revelaram que o Beta (β) da maioria dos ETFs temáticos indicou uma sensibilidade ao risco de mercado que os fazia comportar-se como versões alavancadas (Beta > 1) ou defensivas (Beta < 1) do índice amplo. Apenas XFIX11 (com R² de 0,91%) e, em menor grau, MATB11 (com R² de 41,72%) demonstraram uma menor dependência do movimento do mercado.
A análise aprofundada do Alfa (α), que representa o retorno excedente não sistemático, foi determinante. Para a totalidade dos ETFs temáticos da amostra, o P-Valor do coeficiente Alfa foi superior a 0,05, indicando que o retorno excedente é estatisticamente indistinguível de zero. Isso significa que, empiricamente, não há evidência de que a exposição aos temas específicos tenha gerado valor superior ao risco sistemático, desafiando a premissa de que esses fundos poderiam oferecer ganhos acima do mercado por suas características intrínsecas.
Os dados revelaram que, para a maioria dos ETFs temáticos, entre 70% e 80% do retorno é explicado pelo movimento do mercado, configurando risco sistemático. Essa alta dependência do mercado questiona a tese de retornos acima da média, que supostamente decorreriam de características próprias do tema. O baixo coeficiente de determinação (R²) em alguns fundos específicos reforça a ideia de que a volatilidade observada nesses ativos provém de riscos idiossincráticos (não sistemáticos) que não são compensados por retornos adicionais, o que é crucial para a compreensão da racionalidade do investimento.
A matriz de correlação validou que, apesar de serem comercializados como estratégias diferenciadas, a maioria dos ETFs temáticos se comporta de forma muito semelhante ao IBOVESPA. Essa forte correlação, combinada com os histogramas de frequência e o Drawdown Máximo, que evidenciaram riscos de cauda (“caudas gordas”) e perdas máximas superiores às do índice amplo, sugere que os investidores assumem um risco adicional sem a devida compensação em termos de retorno excedente, o que contraria os princípios da diversificação eficiente (Markowitz, 1952).
Análise de Diversificação (Neff) e Eficiência
A avaliação da estrutura interna das carteiras, por meio do Número Efetivo de Títulos (Neff) e do Índice de Herfindahl-Hirschman (HHI), revelou o fenômeno da “falsa diversificação”. Embora a maioria dos ETFs temáticos detenha dezenas de ativos em suas carteiras, a métrica Neff indicou que, matematicamente, esses fundos são tão diversificados quanto o índice de referência. Isso significa que a dispersão nominal de ativos não se traduz em proteção real devido à alta correlação interna entre os componentes, comprometendo o benefício da diversificação.
O Índice de Diversificação (DR) foi utilizado para mensurar a redução de risco obtida pela combinação de ativos com baixa correlação. Os resultados mostraram que, em relação aos ETFs temáticos, somente o XFIX11 superou o BOVA11 em termos de DR. Essa constatação reforça que investir em ativos do mesmo tema tende a concentrar o risco, pois esses ativos estão atrelados às mesmas forças econômicas, limitando a eficácia da diversificação nominal e expondo o investidor a riscos setoriais agudos.
Fundos como o MATB11 apresentaram uma concentração extrema, com um Número Efetivo de Ativos (Neff) de apenas sete, expondo o investidor a riscos setoriais agudos que não foram compensados pelo retorno. Essa alta sensibilidade às oscilações de preços específicos, não diluídas pela diversificação nominal, demonstra que o benefício da diversificação não reside apenas na contagem bruta de ativos, mas na qualidade da ponderação e na baixa correlação entre eles, conforme a literatura (Choueifaty e Coignard, 2008).
A interpretação dos dados sob a ótica da diversificação revelou três perfis distintos de alocação. O primeiro, a “Ilusão da Pulverização” (caso SMAL11), mostrou um índice com a melhor desconcentração nominal (N=111), mas com baixa correlação interna e um DR de 1,68, indicando que, apesar de pulverizado, não é diversificado, pois os ativos correm na mesma direção. O segundo, a “Concentração de Risco” (caso HIGH11), com a maior correlação da amostra (0,40), configurou-se como um bloco monolítico de risco sistêmico, sem benefício de diversificação real.
O terceiro perfil, a “Diversificação Real” (caso XFIX11), destacou-se como o único índice imobiliário que equilibra a desconcentração e a baixa correlação interna (0,24), resultando no maior DR (4,20). A proteção advém da natureza distinta de seus ativos subjacentes, evidenciando que a diversificação de qualidade exige exposição a motores econômicos distintos, e não apenas a uma grande quantidade de ativos. Assim, a diversificação isolada não garante retorno; alocações de qualidade, tanto de ativos quanto de ponderação e classes de ativos descorrelacionados, são essenciais para a eficiência do portfólio.
Análise de Risco de Cauda e Eficiência Ajustada
A concentração de risco observada nos ETFs temáticos exigiu uma avaliação da qualidade dessa exposição, utilizando o Índice de Sortino, que penaliza apenas a volatilidade negativa (downside risk). A análise do Índice de Sortino revelou uma deterioração significativa na eficiência da maioria dos ETFs temáticos em relação ao BOVA11. Isso confirmou que a “aposta” temática acarreta um risco de perda (Drawdown) desproporcional ao potencial de ganho, indicando que a volatilidade negativa desses ativos não é adequadamente remunerada.
A conclusão sobre a potencial ineficiência dos ETFs temáticos não se baseia em um único número, mas em uma sequência lógica de indicadores. O Alfa (α) significativamente zero, o baixo Número Efetivo de Ativos (Neff), o baixo Diversification Ratio (DR) e a alta correlação com o BOVA11 apontaram para a ineficiência. A análise dos histogramas de frequência de retornos e o cálculo do Drawdown Máximo revelaram a presença de caudas assimétricas e “gordas”, indicando que eventos extremos ocorrem nesses ETFs com frequência muito maior do que no índice amplo.
A volatilidade desses ativos não era neutra; os retornos desviavam da média com tendência a movimentos bruscos de queda, frustrando a expectativa de uma distribuição normal ou de uma assimetria positiva. Diante dessas evidências, o Índice de Sharpe tradicional mostrou-se insuficiente. Adotou-se, portanto, o Índice de Sharpe Modificado, que aprimora a análise ao substituir o desvio padrão pelo Value-at-Risk Modificado (mVaR) no denominador e utilizar a Expansão de Cornish-Fisher para capturar a probabilidade de perdas extremas na distribuição real dos dados (Favre e Galeano, 2002).
Ao ajustar pelo risco de cauda, a suposta eficiência de alguns ETFs temáticos desapareceu. O ECOO11, por exemplo, embora apresentasse um bom Índice de Sortino, seu Sharpe Modificado (0,57) ficou abaixo do mercado (0,59), indicando que o investidor assumiu riscos de cauda não remunerados. Apenas XFIX11 e DIVO11 permaneceram como as únicas alocações que superaram o BOVA11, mesmo quando penalizadas por seus eventos extremos, sugerindo que os fatores de descorrelação e de qualidade desses fundos geraram valor real para o investidor.
Custos e Cenário de Dominância
A análise final abordou o paradoxo comercial: a proliferação de ETFs temáticos, apesar de sua eficiência questionável para a maioria. A estrutura de custos revelou uma disparidade significativa nas taxas de administração. ETFs com os piores indicadores de eficiência ajustada, como SMAL11 e HIGH11, cobram taxas de administração até cinco vezes superiores às do índice amplo, que é de 0,10% ao ano. Essa diferença de custo, combinada com a ausência de um Alfa estatisticamente significativo, levanta questões sobre a racionalidade da alocação.
Apesar do elevado custo e da falta de retorno excedente, o cenário de dominância de mercado mostra que os ETFs líderes de cada tema capturam a vasta maioria do market share, com alguns superando 80% em seus respectivos segmentos. Isso sugere que a demanda por esses produtos é impulsionada por fatores que vão além da maximização financeira, como a busca por narrativas atraentes e a heurística da representatividade, onde uma “boa história” é confundida com um “bom investimento” (Kahneman e Tversky, 2011; Housel, 2023).
Uma distinção qualitativa importante foi observada no caso do DIVO11. Embora este ETF tenha uma taxa de administração de 0,50% ao ano, cinco vezes superior ao benchmark, ele justificou o prêmio de gestão com base em métricas de eficiência ajustadas ao risco. Seu Sharpe Modificado foi de 0,67 e o Sortino positivo, superando os demais temáticos. Isso indica que o custo adicional foi compensado pela qualidade da filtragem de ativos (Fator Qualidade/Dividendos), gerando um trade-off aceitável para o investidor, diferentemente de seus pares temáticos.
Em síntese, a proliferação de produtos temáticos e a demanda por “ETFs Dominados” seguem uma lógica comercial que visa maximizar as receitas das gestoras, muitas vezes em detrimento da racionalidade na alocação de recursos pelos investidores. A preferência por esses veículos, embora matematicamente ineficiente na maioria dos casos, é influenciada por vieses comportamentais, configurando uma decisão que prioriza a justificativa psicológica e a percepção de controle em detrimento da maximização financeira, conforme a literatura de finanças comportamentais (Barros, 2010; Thaler e Sunstein, 2008).
4. Conclusão
O presente estudo analisou a racionalidade da alocação de capital em Exchange Traded Funds (ETFs) temáticos e de fatores listados na B3, confrontando sua eficiência com o índice de mercado amplo, os custos associados e os vieses comportamentais que impulsionam sua demanda. Verificou-se que a exposição a nichos específicos, na maioria dos casos, aumentou a volatilidade e a assimetria negativa dos portfólios, sem gerar retornos excedentes (Alfas) estatisticamente significativos. Identificou-se, ademais, uma ineficiência estrutural caracterizada pela “falsa diversificação”, onde a dispersão nominal de ativos não proporcionou proteção real devido à alta correlação interna. A aplicação de métricas ajustadas ao risco de cauda, como o Índice de Sharpe Modificado, revelou que a suposta eficiência de muitos desses ETFs desapareceu, indicando que o investidor assumiu riscos de cauda não remunerados. A principal contribuição reside na demonstração empírica de que, para a maioria dos ETFs temáticos, a volatilidade adicional não foi compensada por um prêmio de risco consistente, evidenciando um descolamento entre a expectativa do investidor e o resultado financeiro.
Apesar da ineficiência matemática e dos custos de administração frequentemente superiores, a persistência da demanda por esses produtos foi atribuída a vieses comportamentais, como a heurística da representatividade e a busca por narrativas concretas, que priorizam a justificativa psicológica em detrimento da maximização financeira. Contudo, observou-se que alguns ETFs, como o DIVO11 e o XFIX11, destacaram-se por apresentarem eficiência ajustada ao risco superior ao índice de mercado, justificando seus custos adicionais pela qualidade da filtragem de ativos e descorrelação. Para futuras pesquisas, sugere-se ampliar o escopo para ETFs de índices internacionais e BDRs de ETFs, além de avaliar o impacto da alocação de ETFs temáticos como instrumentos táticos em carteiras diversificadas, a fim de verificar se o benefício da descorrelação justifica sua inclusão como mitigadores de risco global do portfólio.
Referências Bibliográficas
Associação Brasileira das Entidades do Mercado Financeiro e de Capitais [ANBIMA]. 2025. Consolidado Histórico de Fundos de Investimento. Disponível em www.anbima.com.br. Acesso em: 15 Dez 2025
B3 S.A. – Brasil Bolsa Balcão B3. BOLETIM MENSAL ETF – Setembro. 2025. Disponível em: https://bit.ly/4rheJYg. Acesso em: 25 set. 2025.
B3 S.A. – Brasil Bolsa Balcão B3. Boletim Mensal ETF. 2023. Brochura. Disponível em: https://bit.ly/49uPQIr. Acesso em: 22 Nov. 2025.
Silva, D.L.; Veronese, G.T.; Paes, I.C. 2025. O mercado de ETFs: importância, histórico, panorama atual, desafios e agenda da ASG. Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Rio de Janeiro, v. 31, n. 61, p. 223 – 266. Disponível em: https://web.bndes.gov.br/bib/jspui/handle/1408/28727. Acesso em: 10/01/2026.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Economia, Investimentos e Banking do MBA USP/Esalq
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

