31 de julho de 2026
Estruturação do escopo e planejamento de projeto complexo de escoamento em duto de GLP para inertização
Isaías Sarmento; Dário Henrique Alliprandini
DOI: 10.22167/2675-6528-202600923
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A inertização de dutos de Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) representa uma etapa crucial para a segurança operacional, prevenindo atmosferas explosivas e mitigando riscos em manutenções corretivas. O estudo objetivou estruturar o escopo e desenvolver o planejamento de um empreendimento complexo de escoamento para inertização de GLP em um duto de uma empresa do setor logístico, alinhando-se aos pilares de Ambiental, Social e Governança (ASG) e à estratégia de segurança operacional. Para isso, aplicaram-se as boas práticas de gerenciamento de projetos preconizadas pelo PMBOK Guide (PMI, 2021), em uma pesquisa de natureza aplicada e estudo de caso, focando exclusivamente nas fases de iniciação e planejamento. Utilizaram-se ferramentas como a Estrutura Analítica do Projeto (EAP) e a matriz RACI para definir responsabilidades e atividades. Adicionalmente, realizaram-se simulações termo-hidráulicas detalhadas para cenários de inertização com água e nitrogênio, considerando as características do duto e as propriedades dos fluidos. Constatou-se que as fases de iniciação e planejamento foram fundamentais para a clareza do desenvolvimento do empreendimento e sua governança, demonstrando capacidade de reduzir incertezas, mitigar riscos e aumentar a probabilidade de êxito em etapas futuras de execução e controle. Verificou-se a viabilidade técnica da inertização por nitrogênio em cerca de 52 km do duto, embora restrições geográficas limitassem sua aplicação no trecho restante de 18 km, o que levou à elaboração de um procedimento operacional específico. Concluiu-se que a gestão de projetos, quando aplicada de forma estruturada e integrada às características técnicas do empreendimento, constitui um instrumento essencial para a condução de projetos de infraestrutura complexos, contribuindo não apenas para o atendimento de requisitos técnicos e regulatórios, mas também para a geração de valor organizacional de segurança e sustentabilidade das operações.
Palavras-chave: Gestão de riscos; PMBOK; Segurança operacional; Simulação termo-hidráulica; Transporte dutoviário.
1. Introdução
O Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) desempenha um papel fundamental na matriz energética global, sendo amplamente utilizado em setores residenciais, comerciais e industriais devido à sua eficiência e versatilidade (ANP, 2020; PETROBRAS, 2022). O transporte desse combustível é frequentemente realizado por meio de dutos, um modal reconhecido por sua alta eficiência operacional e pela capacidade de reduzir custos logísticos e riscos em comparação com outras alternativas (ANP, 2011; ABNT, 2019a). Contudo, a natureza inflamável do GLP impõe desafios significativos à segurança, especialmente em infraestruturas que percorrem extensas áreas geográficas. Um duto típico, com aproximadamente setenta quilômetros de extensão, atravessa ambientes diversos, incluindo zonas rurais, urbanas e travessias de rios, o que eleva a complexidade e o potencial de risco de suas operações. A integridade desses sistemas é constantemente ameaçada por fatores como interferências externas e movimentação do solo, demandando rigorosos controles de segurança operacional e gestão de riscos para proteger pessoas, o meio ambiente e a reputação (API, 2022; CONAMA, 2008).
Nesse contexto de riscos inerentes ao transporte de GLP, a inertização de dutos surge como uma medida corretiva crucial para garantir a segurança operacional durante manutenções. Este processo técnico envolve a substituição do GLP por um fluido inerte, como nitrogênio ou água, para reduzir a concentração de oxigênio a níveis seguros, prevenindo a ignição e mitigando o risco de acidentes (Crowl e Louvar, 2011). A eficácia da inertização depende de um planejamento meticuloso que considere as características do duto e as propriedades dos fluidos. Para gerenciar a complexidade inerente a tais empreendimentos, a aplicação de boas práticas de gerenciamento de projetos é indispensável. O *PMBOK Guide* (PMI, 2021) estabelece um framework robusto que orienta a estruturação de projetos, promovendo a clareza do escopo, a definição de responsabilidades e a mitigação de incertezas. Em projetos de infraestrutura de GLP, onde a segurança é primordial, a gestão de projetos assegura a conformidade técnica e regulatória, otimizando a alocação de recursos e aumentando a probabilidade de sucesso.
A implementação de projetos de inertização em dutos de GLP é intrinsecamente complexa, não apenas pela engenharia envolvida, mas também pela multidimensionalidade de fatores que afetam o empreendimento. A natureza “extramuros” de muitos dutos os expõe a intervenções não autorizadas e processos naturais que podem comprometer a integridade estrutural e exigir reparos urgentes. A incerteza quanto ao local exato e às condições de processo para um eventual reparo demanda um planejamento flexível e abrangente. Adicionalmente, a estruturação desses projetos deve integrar os pilares de Ambiental, Social e Governança (ASG). O aspecto Ambiental é abordado pela gestão do uso de recursos como água e nitrogênio e pela minimização de impactos ecológicos. O Social foca na segurança das comunidades e dos trabalhadores, enquanto a Governança assegura a continuidade operacional e a conformidade regulatória, refletindo o compromisso da empresa com a sustentabilidade e a inovação. A adoção de um ciclo de vida preditivo é frequentemente preferível para garantir o rigoroso planejamento necessário à segurança operacional, dada a criticidade e a necessidade de validação teórica de cada etapa (PMI, 2021).
A complexidade e os riscos inerentes ao transporte dutoviário de GLP, somados à imperatividade de garantir a segurança operacional e a conformidade com os princípios ASG, tornam a estruturação e o planejamento de projetos de inertização uma etapa crucial para a mitigação de incertezas e a garantia da continuidade das operações. Este estudo justifica-se, portanto, pela necessidade de aplicar uma abordagem sistemática de gerenciamento de projetos a um empreendimento de alta complexidade técnica e operacional, visando otimizar a tomada de decisão e a alocação de recursos em um setor crítico. O objetivo geral deste trabalho é estruturar o escopo e desenvolver o planejamento de um empreendimento de escoamento para inertização de Gás Liquefeito de Petróleo em um duto de uma empresa do setor logístico, alinhando-o aos pilares de Ambiental, Social e Governança (ASG) e à estratégia de segurança operacional, com foco nas fases de iniciação e planejamento.
2. Material e Métodos
O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de natureza aplicada, focada na resolução de um problema prático no contexto de um projeto real de inertização de dutos de Gás Liquefeito de Petróleo (GLP). Adotou-se a abordagem de estudo de caso, permitindo uma análise aprofundada e contextualizada do fenômeno em questão. Como referencial metodológico principal, empregaram-se as boas práticas de Gerenciamento de Projetos, conforme estabelecido pelo *PMBOK Guide* (PMI, 2021). A escolha por um ciclo de vida preditivo, também conhecido como tradicional-cascata, justificou-se pela natureza crítica e complexidade técnica do projeto, que demandava um planejamento rigoroso e sequencial para garantir a segurança operacional e a validação teórica de cada etapa.
O estudo foi desenvolvido no contexto de um duto de GLP pertencente a uma empresa do setor logístico, com aproximadamente setenta quilômetros de extensão e diâmetro de oito polegadas. Este duto transporta GLP de uma estação de tratamento de gás até uma refinaria, totalizando um volume de 2.300 m³. Ao longo de seu percurso, o duto atravessa ambientes diversos, incluindo zonas rurais, urbanas, túneis e travessias de rios, e possui oito válvulas estrategicamente distribuídas para paradas operacionais e manutenção. A unidade de análise central foi o empreendimento de escoamento para inertização desse duto, com foco específico nas fases de iniciação e planejamento do projeto. Não foi especificado um período de execução da pesquisa no TCC, mas o contexto é de um projeto real.
Considerando a natureza do trabalho, que se configurou como um estudo de caso aplicado, não houve a definição de uma população ou amostra no sentido estatístico tradicional. A pesquisa concentrou-se na estruturação e planejamento de um projeto singular de inertização de um duto de GLP, que representou a totalidade do objeto de estudo. Os critérios de seleção foram intrínsecos ao próprio projeto, que visava atender a uma necessidade operacional específica da empresa, alinhando-se aos pilares de Ambiental, Social e Governança (ASG) e à estratégia de segurança operacional. Portanto, o projeto em si foi a unidade amostral, selecionado por sua relevância e complexidade técnica.
A coleta de dados e informações para a estruturação do projeto baseou-se primariamente na aplicação das diretrizes do *PMBOK Guide* (PMI, 2021), que serviu como arcabouço para a gestão do empreendimento. Para a organização e visualização das atividades e entregas, utilizou-se a Estrutura Analítica do Projeto (EAP) e seu dicionário correspondente, adaptados de Vargas (2009). Adicionalmente, a matriz RACI (Responsible, Accountable, Consulted, Informed) foi empregada como instrumento de apoio à gestão, permitindo a clara distinção dos papéis e responsabilidades das partes interessadas envolvidas nas diversas atividades do projeto, otimizando a comunicação e a tomada de decisão.
A obtenção de dados técnicos e operacionais foi crucial para o planejamento. Realizou-se um levantamento detalhado das condições de contorno do duto e do escoamento, incluindo aspectos topográficos, operacionais e de acessibilidade, por meio de mapeamento do traçado do duto. Foram coletados requisitos técnicos e operacionais específicos para a inertização. Um componente fundamental da coleta de dados envolveu a realização de simulações termo-hidráulicas, tanto internamente quanto por meio de contratação de especialista externo (universidade), para modelar o comportamento dos fluidos (água e nitrogênio) durante os processos de inertização e definir os cenários operacionais.
A execução da pesquisa concentrou-se nas fases de iniciação e planejamento do projeto de inertização, conforme o ciclo de vida preditivo. A fase de iniciação envolveu a definição do que o projeto pretendia alcançar, formalizada pela elaboração de um Termo de Abertura do Projeto. Este documento oficial autorizou o início do empreendimento, estabelecendo seu escopo preliminar, objetivos, restrições e os responsáveis. Paralelamente, realizou-se a identificação e classificação das partes interessadas (stakeholders), mapeando indivíduos, grupos ou organizações que poderiam afetar ou ser afetados pelo projeto, e avaliando seus níveis de influência e interesse.
A fase de planejamento, considerada a etapa mais densa do estudo, incluiu a elaboração e validação detalhada do escopo do projeto, definindo seus limites, exclusões e entregáveis. Para isso, foram planejadas atividades de simulação termo-hidráulica, tanto internas quanto externas, para modelar o comportamento dos fluidos durante a inertização, contemplando a definição de cenários e pontos notáveis de injeção dos produtos inertes. Também se dimensionaram os sistemas de bombeamento para nitrogênio e água, bem como os reservatórios de recebimento das interfaces de GLP, nitrogênio e água, fundamentais para a futura implementação do projeto.
Para detalhar as atividades de planejamento e atribuir responsabilidades, realizou-se uma série de reuniões e diligenciamentos. Formalizou-se a solicitação de estudos de engenharia de simulação termo-hidráulica, priorizando a demanda de projetos junto aos stakeholders internos. Reuniões com especialistas em simulação termo-hidráulica desmembraram o escopo entre recursos internos e contratação externa. Estabeleceu-se o cronograma dos estudos e apresentaram-se os escopos detalhados aos setores de inovação e contratação para otimizar o tempo e atender às prioridades. A Tabela 1 sintetiza as atividades de planejamento e os responsáveis envolvidos.
Tabela 1. Atividades de planejamento e responsáveis
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Atividades |
Responsabilidades |
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Solicitar formalmente no sistema de gerenciamento e projetos, a realização de estudo de engenharia de simulação termo-hidráulica de acordo com o escopo validado |
Gerente de projetos |
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Diligenciar o processo de priorização da demanda de projetos juntamente aos “stakeholders” internos, subsidiando fundamentos, documentações complementares e solucionar eventuais dúvidas do gestor geral de projetos visando a priorização do projeto |
Gerente de projetos, gestor de portfólio e patrocinador local do projeto |
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Realizar reunião com o especialista em simulação termo-hidráulica para desmembrar a parte do escopo que é possível realizar com os recursos humanos internos e outra parte que é necessária contratação externa |
Gerente de projetos e equipe multidisciplinar |
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Realizar reunião para estabelecer e consolidar o cronograma e responsável pelos estudos de simulação termo-hidráulica envolvendo os produtos e cenários diferentes |
Gerente de projeto e especialista em simulação hidrotérmica |
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Realizar de reunião para apresentar o escopo detalhando para o setor específico de inovação e contratação a fim de buscar realizar a contratação externa referente aos estudos complementares de simulação termo-hidráulica, a fim de otimizar o tempo e atender à prioridade |
Gerente do projeto e gestor de inovação e contratações |
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Realizar reunião envolvendo o especialista externo em termo-hidráulica computacional para dirimir eventuais dúvidas e solicitar o cronograma da realização dos estudos de termo-hidráulica computacional |
Gerente de projetos e “stakeholder” externo |
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Realizar reunião para a apresentação e análise crítica dos resultados da simulação termo-hidráulica realizada pelo “stakeholder” – especialista interno |
Especialista técnico interno, gerente de Projeto, equipe técnica multidisciplinar |
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Realizar reunião para a apresentação e análise crítica dos resultados da simulação termo-hidráulica complementar realizada pelo “stakeholder” externo – especialista externo. |
Especialista técnico interno, Gerente de Projeto, equipe técnica multidisciplinar |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Os dados coletados e as informações geradas foram tratados e analisados com o objetivo de estruturar o escopo e o planejamento do projeto de inertização. A análise dos resultados das simulações termo-hidráulicas, tanto as realizadas internamente quanto as contratadas externamente, foi fundamental para a definição dos cenários operacionais e para o dimensionamento dos sistemas. A Estrutura Analítica do Projeto (EAP) e o dicionário da EAP foram utilizados para decompor o trabalho em pacotes gerenciáveis, enquanto a matriz RACI permitiu a análise e atribuição clara de responsabilidades, garantindo a governança e a integração das equipes multidisciplinares envolvidas.
O estudo apresentou limitações metodológicas importantes, conforme explicitado no trabalho original. A etapa de planejamento e engenharia não foi integralmente concluída, pois dependia da finalização das atividades de simulação termo-hidráulica, que fundamentariam os demais pacotes de trabalho. Além disso, o escopo da pesquisa não contemplou as fases subsequentes do ciclo de vida do projeto, como execução, monitoramento e controle, e validação e padronização. Consequentemente, a avaliação dos resultados práticos do planejamento desenvolvido foi restrita, focando apenas nas fases iniciais e de planejamento, sem a verificação completa da implementação em campo.
3. Resultados e Discussão
A estruturação do escopo e o planejamento detalhado do projeto de inertização de um duto de Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) revelaram-se etapas cruciais para a mitigação de riscos operacionais e a garantia da segurança, conforme preconizado pelas boas práticas de gerenciamento de projetos do *PMBOK Guide* (PMI, 2021). Os resultados obtidos neste estudo de caso aplicado fornecem uma base robusta para a tomada de decisões futuras e para a implementação de intervenções corretivas em infraestruturas críticas. A complexidade inerente ao transporte dutoviário de GLP, aliada às exigências de segurança e às características geográficas do traçado, sublinha a importância de um planejamento meticuloso, que foi o foco central desta pesquisa.
O duto em questão, com suas dimensões de 8 polegadas de diâmetro e aproximadamente 70 quilômetros de extensão, transporta um volume significativo de 2.300 m³ de GLP entre uma estação de tratamento de gás e uma refinaria. A presença de oito válvulas estrategicamente distribuídas ao longo do percurso, bem como a travessia por ambientes diversos, incluindo zonas rurais, urbanas, túneis e rios, conforme ilustrado no fluxograma simplificado do oleoduto na Figura 1, e nas imagens da Figura 2, Figura 3 e Figura 4, acentua a complexidade operacional e os desafios logísticos. A Figura 1, em particular, oferece uma visão esquemática da infraestrutura, destacando os trechos e as estações terminais. A extensão e o volume do duto implicam que qualquer intervenção, especialmente a inertização, requer um planejamento que considere não apenas os aspectos técnicos do escoamento de fluidos, mas também as variáveis ambientais e sociais do entorno. A diversidade do terreno, com suas implicações topográficas e de acessibilidade, conforme evidenciado pelas travessias de rios e túneis, exige uma abordagem multidisciplinar que integre conhecimentos de engenharia de dutos, logística e gestão ambiental.
Fonte: documentos da empresa
Figura 1. Fluxograma simplificado do oleoduto
A caracterização do duto como uma instalação “extramuros”, ou seja, externa às unidades de tratamento e refino, expõe-o a uma série de riscos externos, como escavações não autorizadas, derivações clandestinas para furto de produto, corrosão, deslizamentos de terra e movimentação do duto. Esses riscos, detalhados no levantamento das condições de contorno, são consistentes com a literatura sobre integridade de dutos, que enfatiza a vulnerabilidade de infraestruturas lineares a fatores externos e internos (API, 2022). A necessidade de inertização surge como uma resposta direta a falhas estruturais decorrentes desses riscos, sendo um pré-requisito para a realização de reparos. A técnica de inertização, conforme descrito por Crowl e Louvar (2011), visa mitigar atmosferas explosivas pela introdução de gases quimicamente inativos, como o nitrogênio, ou pela substituição do GLP por água, garantindo a segurança durante as intervenções. Este processo é fundamental para manter a concentração de oxigênio em níveis seguros, interrompendo a viabilidade de misturas inflamáveis e, assim, prevenindo acidentes de grande escala. A complexidade da operação é amplificada pela incerteza quanto ao local exato do reparo e pelas condições de processo, como vazão e pressão do produto, que variam ao longo do duto.
A fase de iniciação do projeto foi formalizada pela elaboração de um Termo de Abertura do Projeto, que estabeleceu o escopo preliminar, objetivos, restrições e responsáveis. O título do projeto, “Estruturação do escopo e planejamento técnico para inertização de duto de GLP por meio de simulações termo-hidráulicas”, reflete a natureza técnica e a abordagem metodológica. A justificativa organizacional para este projeto é multifacetada, abrangendo a garantia da segurança operacional em casos de falhas estruturais, avarias ou ações externas não autorizadas. Este alinhamento com os pilares ASG (Ambiental, Social e Governança) e a estratégia de segurança operacional da empresa demonstra uma compreensão profunda das responsabilidades corporativas, ecoando as diretrizes do PMI (2021) sobre a criação de valor de negócio tangível e intangível. A complexidade técnica do projeto, o grande número de partes interessadas e a criticidade das operações de inertização em um contexto geográfico desafiador (áreas urbanas, rurais, travessias de rios) justificam plenamente a adoção de um projeto formal. Sotille (2019) reforça que projetos complexos, especialmente em setores de alto risco como o de óleo e gás, demandam uma estrutura formal para garantir a governança e a eficácia.
Os objetivos do projeto, que incluem a coleta de requisitos técnicos e operacionais, a definição de cenários de inertização com água e nitrogênio, a estruturação da EAP e da matriz RACI, o planejamento de simulações termo-hidráulicas e a consolidação dos elementos para futura implantação, delineiam um caminho claro para o sucesso. É notável a explicitação das exclusões do projeto, como a estimativa de custos detalhada, a análise de riscos completa, a gestão da qualidade, as aquisições e a execução da inertização. Esta delimitação do escopo é uma prática recomendada pelo *PMBOK Guide* (PMI, 2021), pois evita a dispersão de recursos e mantém o foco nas entregas essenciais para as fases iniciais. Os critérios de sucesso, como um escopo totalmente estruturado e validado, premissas e requisitos definidos, planejamento robusto, simulações concluídas e analisadas criticamente, e aprovação formal do patrocinador, fornecem métricas claras para avaliar o desempenho do projeto nas fases abordadas.
A identificação e classificação das partes interessadas (stakeholders) foi um componente vital do planejamento, dada a natureza complexa e multidisciplinar do projeto. O patrocinador local do projeto foi identificado como o stakeholder de maior autoridade e influência, responsável pela direção estratégica, viabilização de recursos e aprovação do escopo. Sua influência decisiva na priorização institucional do projeto e na legitimação das entregas é crucial para o alinhamento organizacional. O gerente do projeto (GP) exerce uma influência operacional e tática elevada, coordenando atividades, conduzindo reuniões de alinhamento e garantindo a integração de informações entre as diversas áreas. Sua capacidade de articular as premissas essenciais para a simulação termo-hidráulica e de atuar como elo entre gestores e especialistas é indispensável.
Os especialistas técnicos internos em engenharia de dutos, responsáveis pelas simulações com nitrogênio, possuem influência média a alta, fornecendo dados essenciais para a definição de limitações operacionais e validação de premissas. Seu conhecimento técnico fundamenta o planejamento de engenharia, orientando decisões e identificando restrições. A universidade contratada, como especialista externo para a modelagem termo-hidráulica com água, também detém influência média, pois seus resultados subsidiam a análise de cenários de contingência e deslocamento. A dependência técnica das entregas desses especialistas externos eleva sua importância, mesmo que sua autoridade formal seja limitada.
Os profissionais de Saúde, Meio Ambiente e Segurança (SMS) possuem alta influência, pois as diretrizes de segurança operacional e integridade são pilares do projeto. Sua atuação como autoridade técnica na avaliação de riscos, validação de premissas de segurança e aprovação de procedimentos é crítica, podendo determinar ajustes no escopo ou inviabilizar abordagens que não atendam aos requisitos mínimos de segurança. As áreas de processos operacionais, manutenção, terminais terrestres e contratação, com influência média, fornecem insumos complementares e suporte aos processos de priorização e contratação externa. Por fim, os fornecedores de sistemas de bombeamento e geração de nitrogênio, como stakeholders externos, possuem influência média a alta, pois sua capacidade de atender aos requisitos técnicos de pressão, vazão e regime de operação impacta diretamente a viabilidade das operações de inertização. A gestão cuidadosa dessas relações, com comunicação clara sobre requisitos e prazos, é fundamental para evitar impactos negativos no planejamento e na execução futura do projeto. A matriz RACI, apresentada na Tabela 2, sintetiza as responsabilidades e níveis de participação das principais partes interessadas nas atividades do projeto, reforçando a governança e a integração das equipes multidisciplinares.
Tabela 2. Matriz RACI
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ID |
Atividade Principal |
Patrocinador do projeto |
GP |
Engenharia |
Operação |
SMS |
|
01 |
Direção estratégica |
R |
C |
I |
I | |
|
02 |
Cálculos de simulação |
A |
R |
C |
I | |
|
03 |
Projeto de sistemas mecânicos |
A |
A |
R |
I | |
|
04 |
Segurança e riscos |
I |
C |
A |
R |
A |
|
05 |
Operação de inertização |
I |
A |
R |
C |
I |
|
06 |
Sistematização e Padronização |
I |
R |
A |
C |
I |
Fonte: Resultados da pesquisa
A Tabela 2 demonstra claramente a distribuição de responsabilidades, onde o Patrocinador do Projeto e o Gerente de Projetos (GP) desempenham papéis centrais, sendo “Responsáveis” (R) ou “Com Autoridade Decisória” (A) em atividades críticas como Direção Estratégica, Cálculos de Simulação e Projeto de Sistemas Mecânicos. A Engenharia e a SMS são consistentemente “Consultadas” (C) ou “Informadas” (I) em diversas etapas, refletindo sua expertise técnica e papel regulatório. A Operação, por sua vez, é “Responsável” ou “Com Autoridade Decisória” em atividades diretamente ligadas à execução e segurança, como a Operação de Inertização. Esta clareza na atribuição de papéis, conforme defendido por PMI (2017), é essencial para otimizar a comunicação, evitar sobreposições e garantir que todas as partes interessadas compreendam suas contribuições e expectativas, mitigando potenciais conflitos e atrasos.
O gerenciamento do escopo, conforme o *PMBOK Guide* (PMI, 2021), é o processo que garante que o projeto inclua todo o trabalho necessário e somente o trabalho necessário para o sucesso. Neste estudo, o gerenciamento do escopo foi a base para o planejamento do projeto, dada a sua complexidade. A especificação do escopo incluiu a descrição do produto, entregas principais, critérios de aceitação e exclusões. Para facilitar a compreensão e a organização das atividades, utilizou-se a Estrutura Analítica do Projeto (EAP), um diagrama hierárquico que descompõe o trabalho em pacotes gerenciáveis, conforme ilustrado na Figura 2. Kenley e Harfield (2014) destacam a EAP como uma ferramenta fundamental para o entendimento rápido e fácil do que é pretendido pela equipe. O detalhamento dos pacotes de trabalho, por meio do Dicionário da EAP (Vargas, 2009), foi crucial para assegurar a clareza dos objetivos e a coerência entre as atividades de planejamento.
Fonte: Resultado da pesquisa
Figura 2. Estrutura Analítica do Projeto (EAP) do escoamento de GLP para inertização
A Figura 2 apresenta uma EAP bem estruturada, dividindo o projeto em fases lógicas: Descrição do Problema, Planejamento e Engenharia, Implementação e Operação, e Validação e Padronização. Cada uma dessas fases é subdividida em entregas e atividades específicas, como a “Definição da direção estratégica” e a “Elaboração e validação de simulação termo-hidráulica”. Esta decomposição hierárquica permite que a equipe visualize o projeto em sua totalidade e, ao mesmo tempo, gerencie cada componente de forma granular. A clareza proporcionada pela EAP é vital para projetos complexos, pois facilita a comunicação, a atribuição de responsabilidades e o monitoramento do progresso. A ausência de uma EAP bem definida pode levar a ambiguidades no escopo, retrabalho e falha em atender aos objetivos do projeto, como alertado por Vargas (2009).
Os balizadores fundamentais para a estruturação do escopo e planejamento foram os resultados das simulações termo-hidráulicas. A simulação para inertização por água foi realizada por um especialista externo (universidade), considerando cenários operacionais e infraestruturas de bombeamento existentes. Já o deslocamento de GLP com nitrogênio foi desenvolvido por um especialista interno em engenharia de simulação em dutos. Para ambas as simulações, premissas detalhadas foram consideradas, incluindo características de concepção do duto (classe de pressão, perfil altimétrico), especificações técnicas do produto (viscosidade dinâmica, pressão de vapor, massa específica) e propriedades intrínsecas do escoamento (faixa de vazão e pressão no expedidor e recebedor, injeção de água ou nitrogênio).
Especificamente para a inertização por injeção de água, foram adotadas premissas como as propriedades dos produtos (água e GLP), escoamento unidimensional, monofásico, compressível e isotérmico, coeficiente de atrito de Colebrook, pressão mínima no duto de 2,0 kgf/cm² acima da pressão de vapor, uso de pig monolítico de alta vedação (exceto cenário 01) e pressão nas esferas de GLP de 7,44 kgf/cm²a. A Tabela 3 apresenta os cenários operacionais avaliados para o deslocamento de água por GLP, variando as vazões mínimas e máximas de projeto e de bomba, tanto no sentido recebedor-expedidor quanto expedidor-recebedor.
Tabela 3. Cenários avaliados
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Cenário |
Descrição |
Vazão |
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01 |
Água deslocando GLP no sentido recebedor expedidor com vazão mínima de projeto do duto |
Qmin,pr |
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02 |
Água deslocando GLP no sentido recebedor expedidor com vazão mínima da bomba existente no recebedor |
Qmin,br |
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03 |
Água deslocando GLP no sentido recebedor expedidor com vazão máxima da bomba existente no recebedor |
Qmax,br |
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04 |
Água deslocando GLP no sentido recebedor expedidor com vazão máxima de projeto do duto |
Qmax,pr |
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05 |
Água deslocando GLP no sentido expedidor recebedor com vazão mínima de projeto do duto |
Qmin,pe |
Fonte: Resultados da pesquisa
A Tabela 3 detalha cinco cenários distintos para a inertização com água, cada um com uma vazão específica (Qmin,pr, Qmin,br, Qmax,br, Qmax,pr, Qmin,pe). A análise desses cenários é fundamental para compreender o comportamento do sistema sob diferentes condições operacionais e para dimensionar adequadamente os equipamentos de bombeamento e os reservatórios. A variação das vazões e dos sentidos de escoamento permite uma avaliação abrangente dos riscos e desafios associados a cada situação, informando o planejamento de contingência. A não conclusão e validação final dos estudos de simulação termo-hidráulica para a inertização por água, devido à exiguidade de tempo e à proteção de dados, representa uma limitação importante do estudo, restringindo a apresentação a aspectos metodológicos e conceituais. No entanto, os resultados da simulação por nitrogênio foram suficientes para fundamentar a elaboração do procedimento de inertização, cujos aspectos essenciais são apresentados na seção de implementação.
Embora as fases de execução, monitoramento e controle, e validação e padronização não fizessem parte do escopo original do estudo, alguns resultados preliminares da implementação e operação foram obtidos e descritos. A inertização por nitrogênio mostrou-se tecnicamente viável em um longo trecho do duto (52 km dos 70 km totais). A inviabilidade nos 18 km restantes foi atribuída a restrições geográficas do oleoduto, que impõem desafios operacionais ao deslocamento da interface GLP e nitrogênio. Este achado é crucial, pois direciona o planejamento para soluções alternativas ou para a aceitação de limitações em trechos específicos.
Com base nesses resultados, um procedimento interno foi elaborado, detalhando as operações de inertização, incluindo coordenadas geográficas, parâmetros operacionais de escoamento de GLP, e as condições necessárias de pressão, vazão de injeção e expansão de nitrogênio. O tempo e os volumes estimados de infraestrutura requerida para a execução da operação de inertização também foram definidos. A operação de inertização, prevista para ser realizada no condicionamento do oleoduto antes de intervenções para reparo, visa deslocar o produto por injeção de nitrogênio, utilizando um separador com sinalizador, conhecido como PIG, para separar a interface N2/GLP. A Figura 3 ilustra a infraestrutura necessária para essa operação.
Fonte: Resultados da pesquisa
Figura 3. Infraestrutura requerida para o deslocamento por nitrogênio do inventário de GLP
A Figura 3 detalha o sistema de inertização com nitrogênio, mostrando o caminhão-tanque de nitrogênio líquido, o gaseificador, o sistema de bombeamento e o Flex-Pig. A utilização de um “Flex-Pig”, um tipo especial de PIG com alta flexibilidade, é fundamental para navegar por tubulações com variações geométricas significativas, garantindo a eficiência do deslocamento do GLP. Este detalhe técnico ressalta a importância de soluções de engenharia adaptadas às particularidades do duto e do produto. A inviabilidade em um trecho de 18 km, devido a restrições geográficas, demonstra que, mesmo com um planejamento robusto, desafios práticos podem surgir, exigindo flexibilidade e soluções criativas. Isso reforça a necessidade de uma análise crítica contínua e de um ciclo de vida de projeto adaptável, mesmo em abordagens preditivas.
A não conclusão das fases de implementação, operação, validação e padronização representa uma limitação metodológica do estudo, restringindo a avaliação dos resultados práticos do planejamento desenvolvido. No entanto, o trabalho demonstrou que a aplicação estruturada das etapas de gestão de projetos, especialmente a iniciação e o planejamento, é fundamental para o desenvolvimento e a consolidação de projetos complexos. A contribuição significativa reside na capacidade de reduzir incertezas, mitigar riscos e aumentar a probabilidade de êxito nas fases posteriores, mesmo que não tenham sido detalhadas no escopo deste estudo.
O Termo de Abertura do Projeto, o mapeamento do escopo com a EAP e a gestão de responsabilidades com a matriz RACI, conforme Tabela 1, foram ferramentas essenciais para a clareza na delimitação das entregas e na gestão de responsabilidades. Essas ferramentas evidenciaram que um planejamento bem estruturado, mesmo que parcial, é capaz de sinalizar previamente as ações necessárias nas etapas de Implementação e Operação, gerando resultados preliminares favoráveis. Este estudo, portanto, subsidiou as diretrizes técnicas e gerenciais que orientarão as tomadas de decisão para o andamento apropriado do projeto.
A dependência da conclusão das atividades de simulação termo-hidráulica para fundamentar os demais pacotes de trabalho do planejamento destaca a interconexão das fases do projeto. A recomendação para estudos futuros é que avancem para a conclusão de todas as etapas delineadas na EAP, com foco na análise de viabilidade técnico-operacional e econômica. A avaliação da razoabilidade econômica, considerando a disponibilidade de tecnologia e a compatibilidade dos custos com os objetivos de segurança e aderência à realidade econômica da organização, é um passo crucial para a validação completa do projeto.
O viés inovador do trabalho, que demandou a interação entre o ambiente corporativo e a universidade para a realização das simulações termo-hidráulicas, demonstra uma abordagem colaborativa para superar barreiras técnicas e otimizar o planejamento. Essa colaboração entre a indústria e a academia, como destacado por PMI (2021) na promoção de novos caminhos para a companhia, é um diferencial importante para projetos de alta complexidade. Conclui-se que a gestão de projetos, quando aplicada de forma estruturada e integrada às características técnicas do empreendimento, constitui um instrumento essencial para a condução de projetos de infraestrutura complexos. Isso contribui não apenas para o atendimento de requisitos técnicos e regulatórios, mas também para a geração de valor organizacional em termos de segurança e sustentabilidade das operações, reforçando a importância de uma abordagem holística e bem planejada para a gestão de ativos críticos.
4. Conclusão
Conclui-se que o objetivo foi atingido, ao estruturar o escopo e desenvolver o planejamento de um empreendimento de escoamento para inertização de Gás Liquefeito de Petróleo em um duto. Este trabalho alinhou-se aos pilares de Ambiental, Social e Governança (ASG) e à estratégia de segurança operacional, com foco nas fases de iniciação e planejamento. A aplicação estruturada das boas práticas de gerenciamento de projetos, evidenciada pelo Termo de Abertura do Projeto, pela Estrutura Analítica do Projeto (EAP) e pela matriz RACI, demonstrou ser fundamental para a clareza na delimitação das entregas e na gestão de responsabilidades. Tal abordagem foi crucial para reduzir incertezas, mitigar riscos e aumentar a probabilidade de êxito nas fases posteriores do projeto, subsidiando diretrizes técnicas e gerenciais essenciais para a tomada de decisões.
Contudo, o estudo apresentou limitações importantes. A não conclusão e validação final dos estudos de simulação termo-hidráulica para a inertização por água, devido à exiguidade de tempo e à proteção de dados, restringiu a apresentação a aspectos metodológicos e conceituais. Adicionalmente, as fases subsequentes de implementação, operação, validação e padronização não foram contempladas no escopo, limitando a avaliação dos resultados práticos do planejamento de forma integral. Para estudos futuros, recomenda-se avançar na conclusão de todas as etapas delineadas na EAP, com foco na análise de viabilidade técnico-operacional e econômica. A avaliação da razoabilidade econômica, considerando a tecnologia disponível e a compatibilidade dos custos com os objetivos de segurança, é um passo crucial para a validação completa do projeto, reforçando o valor da colaboração entre indústria e academia.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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