31 de julho de 2026
Estruturação de Processos: Proposta de EAP para Escritórios de Arquitetura
Isabela Ravagnani da Silva; Karoline Guedes
DOI: 10.22167/2675-6528-202600920
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
O crescimento do setor da construção civil e a alta demanda por novos empreendimentos impulsionaram a necessidade de uma gestão eficiente em escritórios de arquitetura, que geralmente enfrentam dificuldades na estruturação de seus negócios. Nesse contexto, o estudo objetivou desenvolver uma Estrutura Analítica de Projetos (EAP) para escritórios de arquitetura de pequeno porte, visando otimizar a organização de fluxos internos. A metodologia empregou uma pesquisa explicativa e qualitativa, fundamentada em revisão bibliográfica, análise documental e um estudo de caso de um escritório de arquitetura residencial em São Paulo, com quatro funcionários. Para a estruturação da EAP, foram utilizadas as diretrizes do Guia PMBOK e as normas ABNT NBR 16636-1:2017, 16636-2:2017 e 6492-2021. Os resultados demonstraram a decomposição do escopo em sete fases principais: Preparação, Levantamento, Estudo Preliminar, Anteprojeto, Projeto Legal, Orçamentos e Projeto Executivo. Complementarmente, formulou-se um dicionário da EAP e um cronograma atrelado aos marcos de faturamento, que facilitaram o planejamento e monitoramento. Observou-se que a adoção de uma abordagem de desenvolvimento híbrida se adequou perfeitamente à natureza evolutiva dos projetos arquitetônicos, combinando aspectos preditivos para fases finais e adaptativos para as iniciais. Concluiu-se que a implementação dessas práticas de gerenciamento reduziu as chances de retrabalho e falhas, otimizou os fluxos de entrega e aprovação, e contribuiu para a contenção do *scope creep*, tornando o planejamento e o acompanhamento do cronograma mais previsíveis.
Palavras-chave: Abordagem híbrida; Ciclo de vida; Gerenciamento de projetos; Planejamento; Scope creep.
1. Introdução
O setor da construção civil desempenha um papel fundamental no desenvolvimento socioeconômico do Brasil, impulsionando o crescimento de infraestruturas urbanas e habitação, e influenciando diversos outros segmentos (IBGE, 2023). A Pesquisa Anual da Indústria da Construção (PAIC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, revela a dinâmica desse setor. Em 2023, a construção de edifícios, embora com leve redução percentual de sua participação em relação a 2014, manteve-se como o segmento mais relevante (IBGE, 2023). Esse cenário de robustez é confirmado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), que aponta aquecimento significativo do mercado imobiliário, fomentado por programas habitacionais e obras de infraestrutura. Entre janeiro e setembro de 2024, por exemplo, houve aumento de vinte por cento nas vendas de novos apartamentos e crescimento de vinte e oito vírgula um por cento nos financiamentos via FGTS em comparação com 2023 (CBIC, 2024). Essa expansão gerou demanda crescente por serviços de engenharia civil e arquitetura, com o número de empresas ativas na construção saltando de cento e dezenove mil em 2014 para aproximadamente cento e sessenta e cinco mil em 2023 (IBGE, 2014; IBGE, 2023). Contudo, em meio a esse crescimento acelerado e à pressão por prazos reduzidos e controle de custos, muitos escritórios de arquitetura, especialmente os de pequeno porte, enfrentam desafios consideráveis na estruturação e gestão de seus negócios, frequentemente devido à carência de repertório em práticas de gerenciamento de projetos (Vaz e Mello, 2023).
Nesse contexto, o gerenciamento de projetos emerge como disciplina essencial para a administração eficaz de escritórios de arquitetura, organizando processos internos e padronizando fluxos de trabalho. A aplicação de conhecimentos em gestão contribui para a elaboração de documentação técnica precisa, mitigação de riscos e otimização do desempenho da equipe, resultando em maior controle de cronogramas e redução de custos (Vaz e Mello, 2023). Uma ferramenta central é a Estrutura Analítica de Projetos (EAP), que, conforme o Project Management Institute (PMI, 2021), permite a decomposição hierárquica do escopo do projeto em entregas menores e gerenciáveis, facilitando planejamento e execução. A evolução tecnológica, como a Modelagem da Informação da Construção (BIM), que centraliza dados do projeto e melhora a interoperabilidade, exige uma estrutura organizacional consolidada, permitindo detecção mais clara de riscos e controle aprimorado de prazos (Nowikow, 2021). Para a estruturação de projetos arquitetônicos, as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), como a NBR 16636-1:2017, NBR 16636-2:2017 e NBR 6492-2021, fornecem diretrizes cruciais para a definição de fases e entregas. Embora detalhem atividades, essas normas oferecem poucas orientações sobre a gestão de interações e recursos. A complexidade dos projetos arquitetônicos, que combinam criatividade e rigor técnico, beneficia-se de uma abordagem de desenvolvimento híbrida, que integra aspectos preditivos para fases estáveis e adaptativos para etapas iniciais, onde o escopo pode evoluir com as interações com o cliente (PMI, 2021). Essa flexibilidade é crucial para evitar o *scope creep*, o aumento descontrolado do escopo, que pode gerar retrabalhos, atrasos e custos adicionais.
Apesar da importância do setor e da crescente demanda, a ausência de uma estruturação metodológica clara nos escritórios de arquitetura de pequeno porte pode comprometer a eficiência e a rentabilidade dos projetos. A falta de um planejamento robusto e de ferramentas de gerenciamento adequadas frequentemente resulta em dificuldades na definição do escopo, no controle de prazos e custos, e na gestão das expectativas dos clientes, culminando em retrabalhos e insatisfação. Diante desse cenário, a implementação de uma Estrutura Analítica de Projetos (EAP) torna-se fundamental para otimizar a organização dos fluxos internos e garantir a entrega de projetos com maior qualidade e eficiência. Portanto, este estudo objetiva desenvolver uma Estrutura Analítica de Projetos (EAP) especificamente adaptada para escritórios de arquitetura de pequeno porte, visando aprimorar a organização de seus fluxos internos e a gestão do ciclo de vida dos projetos.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa caracterizou-se como explicativa e qualitativa, conforme a classificação proposta por Gil (2017). Essa abordagem foi selecionada para aprofundar a compreensão dos fenômenos estudados e explorar as relações de causa e efeito, buscando explicar os objetivos por meio de um estudo de caso. A natureza qualitativa permitiu uma análise detalhada e contextualizada dos processos, essencial para o desenvolvimento de uma Estrutura Analítica de Projetos (EAP) adaptada à realidade de escritórios de arquitetura de pequeno porte. A metodologia adotada integrou a interpretação de conhecimentos do Guia PMBOK (PMI, 2021) com a aplicação prática no contexto específico da arquitetura.
O estudo foi conduzido em um escritório de arquitetura de pequeno porte, composto por quatro funcionários, localizado na cidade de São Paulo, estado de São Paulo. Este escritório atua predominantemente no desenvolvimento de projetos residenciais, abrangendo tanto novas construções de casas e apartamentos quanto reformas. O período de execução da pesquisa e desenvolvimento da proposta metodológica ocorreu ao longo do ano de 2026, conforme indicado no cronograma do projeto. A unidade de análise consistiu nos processos internos e na documentação de projetos arquitetônicos residenciais desenvolvidos por este escritório, permitindo uma análise aprofundada de suas práticas de gerenciamento.
A população de interesse para este estudo compreendeu escritórios de arquitetura de pequeno porte que atuam no desenvolvimento de projetos residenciais. A amostra foi definida por conveniência, consistindo em um único escritório de arquitetura, localizado em São Paulo, com uma equipe de quatro funcionários. Os critérios de seleção para este estudo de caso foram a disponibilidade do escritório em colaborar com a pesquisa e sua representatividade em termos de desafios comuns enfrentados por empresas de arquitetura de pequeno porte na gestão de projetos. Não houve critérios de inclusão ou exclusão adicionais formalmente estabelecidos, focando na profundidade da análise do caso selecionado.
A coleta de dados foi realizada por meio de uma combinação de pesquisa bibliográfica e documental. A pesquisa bibliográfica teve como objetivo embasar teoricamente a argumentação, explorando conceitos e diretrizes de gerenciamento de projetos, com foco no Guia PMBOK (PMI, 2021). Foram consultadas as edições mais recentes do Guia, especialmente o capítulo dois, que aborda os domínios de desempenho de projetos. Essa etapa foi crucial para compreender as melhores práticas e os fundamentos teóricos necessários para a estruturação da EAP proposta, garantindo alinhamento com padrões reconhecidos internacionalmente na área de gestão.
Complementarmente, realizou-se pesquisa documental no escritório de arquitetura objeto do estudo de caso. Foram analisados documentos internos, incluindo registros de projetos desenvolvidos nos meses anteriores, com foco em dados sobre o tempo de desenvolvimento de cada projeto e a duração de suas etapas. Adicionalmente, foram examinados materiais complementares já utilizados pelo escritório, que forneciam informações sobre seus fluxos de trabalho e práticas existentes. As normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), especificamente a NBR 16636-1:2017, NBR 16636-2:2017 e NBR 6492-2021, serviram como base para identificar as fases e entregas exigidas em projetos arquitetônicos.
A execução da pesquisa seguiu uma sequência estruturada de etapas para o desenvolvimento da Estrutura Analítica de Projetos. Inicialmente, identificaram-se as fases que compõem o projeto arquitetônico, correlacionando-as com a cadência de entrega dos produtos. Em seguida, estabeleceu-se a abordagem de desenvolvimento mais adequada para os projetos do escritório, seguida pela definição do ciclo de vida do projeto. Posteriormente, realizou-se o detalhamento e a organização dos requisitos necessários para cada entrega, culminando no planejamento do cronograma. Essa organização sistemática permitiu a construção de uma EAP robusta e alinhada às necessidades do escritório.
A identificação das fases do projeto arquitetônico baseou-se nas normas ABNT NBR 16636-1:2017, NBR 16636-2:2017 e NBR 6492-2021, que detalham as condições e informações técnicas para a construção. Materiais complementares do escritório também foram integrados. A definição da abordagem de desenvolvimento, da cadência de entrega e do ciclo de vida do projeto utilizou como referência o capítulo dois do Guia PMBOK (PMI, 2021), que trata dos domínios de desempenho. A escolha da abordagem foi realizada após a análise das características dos projetos do escritório, considerando a natureza evolutiva e criativa do processo arquitetônico.
As informações coletadas e analisadas foram organizadas em um fluxograma detalhado, que permitiu a visualização clara das etapas e subtarefas de cada processo do projeto arquitetônico. Este fluxograma serviu como uma ferramenta essencial para mapear os fluxos de trabalho existentes e identificar pontos de melhoria. Posteriormente, o planejamento do cronograma foi estruturado com base nesse material, utilizando um Gráfico de Gantt. Este gráfico organizou as etapas, os marcos de entrega e a cadência de produção, proporcionando uma representação visual do tempo e da sequência das atividades, fundamental para o gerenciamento eficaz do projeto.
A análise dos dados culminou na decomposição do escopo do projeto arquitetônico em uma Estrutura Analítica de Projetos (EAP), organizada em sete fases principais: Preparação, Levantamento, Estudo Preliminar, Anteprojeto, Projeto Legal, Orçamentos e Projeto Executivo. Essa decomposição foi detalhada até o nível de pacote de trabalho, conforme definido pelo PMI (2021), garantindo uma visão abrangente de todas as entregas necessárias. Para cada pacote de trabalho, elaborou-se um dicionário da EAP, que descreve as entregas, os responsáveis, os recursos necessários e os critérios de aceitação, funcionando como um guia prático para a execução e controle do projeto.
O cronograma do projeto foi estruturado com base na EAP desenvolvida, detalhando as datas de início e término de cada atividade e a sequência lógica de execução. Este planejamento integrou os marcos de entrega, que representam a conclusão das principais etapas do projeto e estão diretamente associados aos pagamentos das parcelas pelos clientes. A elaboração do cronograma exigiu a decomposição da EAP em atividades específicas, a organização em uma sequência lógica e a estimativa de recursos e duração, resultando em uma linha de base para o monitoramento do progresso. A Tabela 1, a seguir, ilustra um exemplo de item do dicionário da EAP.
Tabela 1. Exemplo de um item do dicionário da EAP
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Campo |
Conteúdo |
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Código |
7.9 |
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Pacote de Trabalho |
Detalhamento de Marcenaria |
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Descrição |
Desenhos técnicos em escala 1:25 contendo: plantas baixas, cortes, elevações, especificações de materiais (MDF, ferragens, puxadores) e detalhes construtivos |
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Responsável |
Arquiteto |
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Recursos Necessários |
Definições dos acabamentos internos e externos, pontos de elétrica e hidráulica definidos, lista com os desejos dos clientes sobre os compartimentos internos aprovados anteriormente |
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Critérios de Aceitação |
Desenhos técnicos cotados, com indicções de acabamentos, pontos elétricos e hidráulicos, puxadores e detalhes construtivos. |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A abordagem de desenvolvimento adotada para a EAP foi a híbrida, combinando elementos preditivos e adaptativos, conforme as diretrizes do Guia PMBOK (PMI, 2021). Essa escolha se justificou pela natureza dos projetos arquitetônicos residenciais, que exigem previsibilidade nas fases finais para gerenciamento de recursos e cronograma, mas demandam flexibilidade nas etapas iniciais devido ao processo criativo e às interações com os clientes. As fases preditivas incluíram Projeto Legal, Orçamentos e Projeto Executivo, enquanto as fases adaptativas, como Estudo Preliminar e Anteprojeto, permitiram ajustes contínuos com base nos *feedbacks* das partes interessadas, otimizando a definição do escopo.
3. Resultados e Discussão
A presente seção detalha e discute os resultados obtidos no desenvolvimento da Estrutura Analítica de Projetos (EAP) adaptada para escritórios de arquitetura de pequeno porte, o dicionário da EAP, o cronograma associado e a abordagem de desenvolvimento híbrida. Cada achado é analisado em profundidade, confrontado com a literatura pertinente e suas implicações práticas são exploradas, visando oferecer uma compreensão robusta das contribuições deste estudo para a gestão de projetos arquitetônicos.
A decomposição do escopo do projeto arquitetônico em uma Estrutura Analítica de Projetos (EAP) representou o primeiro e mais fundamental resultado deste estudo. Conforme estabelecido pelo Project Management Institute (PMI, 2021), a EAP é uma decomposição hierárquica orientada a entregas do trabalho a ser executado pela equipe do projeto para atingir os objetivos do projeto e criar as entregas necessárias. No contexto deste trabalho, o escopo foi detalhado em sete fases principais: Preparação, Levantamento, Estudo Preliminar, Anteprojeto, Projeto Legal, Orçamentos e Projeto Executivo. Essa estruturação é crucial para escritórios de arquitetura de pequeno porte, que frequentemente operam com recursos limitados e prazos apertados, e onde a falta de clareza no escopo pode levar a retrabalhos dispendiosos e insatisfação do cliente (Vaz e Mello, 2023). A organização em pacotes de trabalho, o nível mais baixo da EAP, conforme preconizado pelo PMI (2021), garante que cada entrega seja claramente definida e gerenciável.
A relevância dessa decomposição reside na sua capacidade de transformar um processo criativo e muitas vezes subjetivo, como o projeto arquitetônico, em uma sequência de entregas tangíveis e controláveis. Ao invés de abordar o projeto como um todo monolítico, a EAP permite que a equipe se concentre em etapas menores e mais gerenciáveis, facilitando a estimativa de tempo e recursos. Esta abordagem contrasta com a prática comum em muitos escritórios de pequeno porte, onde a gestão de projetos é frequentemente informal e baseada na experiência individual, resultando em inconsistências e dificuldades na comunicação com o cliente (Marques e Klingbeil, 2019). A formalização dessas fases, alinhada às normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), como a NBR 16636-1:2017 e NBR 16636-2:2017, confere um rigor técnico e uma padronização que são essenciais para a qualidade e a conformidade dos projetos. A ABNT NBR 6492-2021, por exemplo, estabelece os requisitos para a documentação técnica de projetos arquitetônicos, e a EAP proposta integra esses requisitos em suas fases e entregas, assegurando que todos os documentos necessários sejam produzidos no momento adequado.
Figura 1. EAP para projetos arquitetônicos residenciais
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Figura 1, que ilustra a EAP para projetos arquitetônicos residenciais, demonstra visualmente a hierarquia e a decomposição do escopo. Cada uma das sete fases principais se desdobra em entregas específicas, como “Planta de Layout” no Estudo Preliminar ou “Memorial Descritivo” no Projeto Legal. Essa representação gráfica é uma ferramenta poderosa para a comunicação do escopo tanto internamente, entre a equipe do escritório, quanto externamente, com os clientes e outras partes interessadas. A clareza proporcionada pela EAP minimiza mal-entendidos sobre o que será entregue em cada etapa, um problema comum em projetos complexos como os de arquitetura. Além disso, a EAP serve como base para o planejamento de outras áreas do projeto, como o cronograma e o orçamento, integrando as diversas dimensões da gestão de projetos em uma estrutura coesa. A capacidade de visualizar o projeto em seus componentes menores facilita a identificação de riscos, a alocação de recursos e o monitoramento do progresso, contribuindo para uma gestão mais proativa e menos reativa.
Complementando a EAP, o dicionário da EAP foi elaborado como um guia prático e detalhado para cada pacote de trabalho. Conforme o PMI (2021), o dicionário da EAP descreve as entregas, os responsáveis, os recursos necessários e os critérios de aceitação, funcionando como um documento de referência para a execução e controle do projeto. A Tabela 1, apresentada anteriormente na seção de Metodologia, ilustra um exemplo de item do dicionário da EAP para a atividade “Detalhamento de marcenaria” (código 7.9). Este detalhamento é fundamental para garantir que todos os envolvidos no projeto tenham uma compreensão clara das expectativas e dos requisitos de qualidade. A descrição da atividade, a identificação do responsável (arquiteto), os recursos necessários (definições de acabamentos, pontos elétricos e hidráulicos, desejos dos clientes) e os critérios de aceitação (desenhos técnicos cotados com indicações de acabamentos, pontos elétricos e hidráulicos, puxadores e detalhes construtivos) eliminam ambiguidades e reduzem a probabilidade de retrabalho.
A importância do dicionário da EAP vai além da mera descrição de tarefas. Ele atua como um contrato informal entre os membros da equipe e entre a equipe e o cliente, ao estabelecer claramente o que constitui uma entrega completa e aceitável. Em escritórios de arquitetura, onde a natureza criativa do trabalho pode levar a interpretações variadas, um dicionário bem definido é um baluarte contra o “scope creep” – o aumento descontrolado do escopo do projeto (PMI, 2021). Ao fixar os critérios de aceitação para cada pacote de trabalho, o dicionário permite que o gerente de projetos e a equipe avaliem objetivamente o progresso e a qualidade das entregas. Isso é particularmente valioso em projetos residenciais, onde as preferências do cliente podem evoluir, mas a estrutura do dicionário fornece um ponto de ancoragem para gerenciar essas mudanças de forma controlada. A ausência de um documento como este pode resultar em entregas incompletas, necessidade de revisões constantes e, consequentemente, atrasos no cronograma e aumento de custos, impactando negativamente a rentabilidade do escritório.
A análise do ciclo de vida do projeto e dos grupos de processos, conforme o Guia PMBOK (PMI, 2017), forneceu a base teórica para a estruturação da EAP e do cronograma. O ciclo de vida de um projeto, definido como o conjunto de etapas que auxiliam o desenvolvimento dos produtos, é otimizado pela aplicação de uma abordagem de desenvolvimento e cadência de entrega (PMI, 2021). Os cinco grupos de processos – Iniciação, Planejamento, Execução, Monitoramento e Controle, e Encerramento – não são fases sequenciais, mas interagem e se sobrepõem ao longo do ciclo de vida do projeto, como ilustrado em edições anteriores do Guia PMBOK.
Figura 2. Ciclo de vida do projeto e grupos de processos
Fonte: PMI (2017)
A Figura 2, que apresenta o ciclo de vida do projeto e seus grupos de processos, e a Figura 3, que detalha a interação entre esses grupos ao longo do tempo, são fundamentais para compreender a dinâmica de um projeto. A Iniciação, por exemplo, demanda um esforço concentrado no estágio inicial para definir o propósito do projeto, formalizando o Termo de Abertura do Projeto (TAP). No contexto arquitetônico, isso se traduz na assinatura do contrato e na definição do programa de necessidades. O Planejamento, embora com maior intensidade no início, é um processo contínuo que se estende por todo o projeto, garantindo que o progresso seja acompanhado e ajustado. A Execução representa o período de maior concentração de esforços e recursos, transformando os planos em entregas tangíveis. O Monitoramento e Controle é onipresente, acompanhando prazos, riscos e qualidade. Finalmente, o Encerramento concentra-se nos ajustes finais e na formalização da entrega definitiva.
Figura 3. Interação entre os grupos ao longo do ciclo de vida do projeto
Fonte: PMI (2017)
A sobreposição desses grupos de processos às fases do projeto arquitetônico, conforme demonstrado na Figura 4, é um dos resultados mais significativos. A Iniciação se concentra nas fases de Preparação e Levantamento, onde o contrato assinado e o programa de necessidades representam o termo de abertura e os desejos das partes interessadas, respectivamente. O Planejamento permeia desde a definição da EAP na etapa de Levantamento até o desenvolvimento do Anteprojeto. A Execução, por sua vez, concentra o maior nível de esforço na produção técnica do Estudo Preliminar ao Projeto Executivo. O Monitoramento e Controle atua continuamente na gestão de alterações e prazos, enquanto o Encerramento formaliza a entrega dos documentos finais e memoriais, garantindo a transição para a fase de obra. Essa correlação é vital para que os escritórios de arquitetura possam aplicar os princípios do PMBOK de forma prática e contextualizada, superando a percepção de que a gestão de projetos é um conceito abstrato ou excessivamente burocrático para sua realidade (Vaz e Mello, 2023).
Figura 4. O Ciclo de vida do projeto de arquitetura sob a ótica do Guia PMBOK
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Figura 4, ao integrar os grupos de processos do PMBOK com as fases específicas de um projeto arquitetônico, oferece um mapa claro para a gestão. Por exemplo, a fase de “Estudo Preliminar” e “Anteprojeto” mostram uma alta concentração de esforço na “Execução”, mas também uma presença contínua de “Planejamento” e “Monitoramento e Controle”, refletindo a natureza iterativa e criativa dessas etapas. Já as fases de “Projeto Legal” e “Projeto Executivo” tendem a ter um esforço de “Execução” mais linear e focado, com o “Monitoramento e Controle” garantindo a conformidade técnica. Essa visualização ajuda a equipe a entender onde seus esforços devem ser concentrados em cada momento do projeto, otimizando a alocação de recursos e a gestão do tempo. A capacidade de prever os picos de esforço em cada grupo de processo permite um planejamento mais eficaz da carga de trabalho da equipe, evitando sobrecargas e garantindo que os recursos certos estejam disponíveis quando necessários.
O cronograma do projeto, estruturado com base na EAP desenvolvida, é outro resultado crucial. O planejamento é essencial para o bom funcionamento do projeto, organizando e coordenando seu avanço (PMI, 2021). O cronograma atua como um guia para a equipe, indicando a sequência das entregas, a duração de cada atividade e suas dependências. A elaboração do cronograma exige a decomposição da EAP em atividades específicas, a organização em uma sequência lógica e a estimativa de recursos e duração, resultando em uma linha de base para o monitoramento do progresso. A Tabela 2 apresenta os marcos do projeto, que representam a conclusão das principais etapas e estão associados aos pagamentos das parcelas pelos clientes.
Tabela 2. Marcos do projeto
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Marco do Projeto (Milestone) |
Data Prevista |
Entregável Principal |
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Levantamento |
06/03/2026 |
Planta de layout com as medidas do local |
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Estudo Preliminar |
27/03/2026 |
Plantas de layout e imagens 3D |
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Anteprojeto |
22/04/2026 |
Desenhos técnicos e lista de materiais |
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Orçamentos |
07/05/2026 |
Planilha de custos e memoriais |
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Projeto Executivo |
04/06/2026 |
Caderno técnico liberado para obra |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Tabela 2 detalha os marcos do projeto, como “Levantamento” com data prevista de 06/03/2026 e entregável principal “Planta de layout com as medidas do local”. Esses marcos são pontos de controle críticos que não apenas sinalizam a conclusão de uma fase, mas também ativam o fluxo financeiro do escritório, pois estão atrelados aos pagamentos dos clientes. A disciplina no cumprimento desses prazos é, portanto, vital para a saúde financeira do negócio. A fase de Preparação, embora essencial para a coleta de requisitos, não constitui um marco em si, pois o verdadeiro início do desenvolvimento conceitual é sinalizado pelo Levantamento. A aprovação do Estudo Preliminar encerra o processo criativo inicial, enquanto o Anteprojeto refina as informações tecnicamente. A aprovação do Anteprojeto permite que o Projeto Legal e os Orçamentos sejam realizados em paralelo, demonstrando a flexibilidade na sequência de atividades. Finalmente, a aprovação dos Orçamentos sinaliza o início do Projeto Executivo, onde todas as informações são ajustadas para a realização da obra.
Figura 5. Cronograma da EAP proposta
Fonte: Resultados originais da pesquisa
A Figura 5, que exibe o cronograma da EAP proposta em formato de Gráfico de Gantt, oferece uma representação visual clara das atividades, suas durações e dependências. Este gráfico é uma ferramenta inestimável para o gerente de projetos, permitindo um acompanhamento rigoroso do progresso e a identificação precoce de possíveis atrasos ou gargalos. A visualização das interdependências entre as fases, como a possibilidade de iniciar o Projeto Legal e Orçamentos após a aprovação do Anteprojeto, otimiza o fluxo de trabalho e pode reduzir o tempo total do projeto. A capacidade de monitorar o cronograma em relação à linha de base estabelecida permite que o escritório tome ações corretivas de forma proativa, mitigando riscos e garantindo que as entregas sejam realizadas dentro do prazo e do orçamento. A ausência de um cronograma formal, como frequentemente ocorre em pequenos escritórios, pode levar a uma gestão reativa, onde os problemas só são identificados quando já causaram impactos significativos (Vaz e Mello, 2023).
Por fim, a adoção da abordagem de desenvolvimento híbrida para a EAP é um resultado que se alinha perfeitamente à natureza dos projetos arquitetônicos residenciais. O Guia PMBOK (PMI, 2021) descreve três tipos de abordagens: preditiva (escopo fixo, definido antes), adaptativa (escopo variável, muitas incertezas) e híbrida (combinação das duas). A escolha da abordagem híbrida se justifica pela necessidade de previsibilidade nas fases finais do projeto (Projeto Legal, Orçamentos e Projeto Executivo) para o gerenciamento de recursos e cronograma, e flexibilidade nas etapas iniciais (Estudo Preliminar e Anteprojeto) devido ao processo criativo e às interações contínuas com os clientes.
O aspecto preditivo nas fases finais é crucial porque mudanças nessas etapas podem acarretar custos imprevistos e atrasos significativos na obra. Por exemplo, alterações no Projeto Executivo podem exigir a revisão de orçamentos, a renegociação com fornecedores e a modificação de licenças, gerando um efeito cascata de problemas. Ao adotar uma abordagem preditiva para essas fases, o escritório busca minimizar incertezas e garantir que o escopo esteja bem definido e aprovado antes da execução. Isso se alinha com a necessidade de um controle rigoroso de custos e prazos, especialmente em um mercado imobiliário aquecido, onde a pressão por eficiência é alta (IBGE, 2023; CBIC, 2024).
Em contrapartida, o aspecto adaptativo nas fases iniciais, como Estudo Preliminar e Anteprojeto, permite que o processo criativo se desenvolva com base nos feedbacks das partes interessadas. Projetos arquitetônicos são inerentemente criativos e colaborativos, exigindo múltiplas iterações e ajustes para atender às expectativas do cliente e às condições do local. Uma abordagem puramente preditiva nessas fases poderia sufocar a criatividade e levar a um produto final que não satisfaz plenamente o cliente. A flexibilidade adaptativa permite que o escopo seja refinado e consolidado progressivamente, otimizando a definição do escopo e reduzindo erros técnicos. Essa combinação estratégica de abordagens preditivas e adaptativas é o que torna a EAP proposta eficaz para escritórios de arquitetura, pois equilibra a necessidade de controle com a flexibilidade criativa, um desafio comum na gestão de projetos arquitetônicos (Nowikow, 2021).
A implementação dessas práticas de gerenciamento, incluindo a EAP detalhada, o dicionário da EAP, o cronograma e a abordagem híbrida, tem implicações práticas significativas para escritórios de arquitetura de pequeno porte. Primeiramente, a organização dos fluxos internos é substancialmente aprimorada. A clareza do escopo e das entregas reduz a probabilidade de o projeto sair do controle, um problema comum em empresas com pouca estrutura de gestão (Vaz e Mello, 2023). A decomposição do escopo em fases claras e a definição precisa de cada pacote de trabalho, com seus respectivos critérios de aceitação, minimizam o “scope creep”, ou seja, o aumento indesejado do escopo que pode levar a custos extras e atrasos.
Além disso, a previsibilidade dos marcos de entrega e o acompanhamento do cronograma tornam-se mais transparentes, facilitando a comunicação com os clientes e outras partes interessadas. A capacidade de apresentar um cronograma claro e um dicionário de EAP bem definido aumenta a confiança do cliente e a percepção de profissionalismo do escritório. Isso pode se traduzir em maior satisfação do cliente e, consequentemente, em mais recomendações e novos negócios. A redução de retrabalhos e falhas, um benefício direto da clareza e padronização, otimiza os recursos do escritório, permitindo que a equipe se concentre em atividades de maior valor agregado e melhore a rentabilidade. Em um mercado competitivo e em crescimento, como o da construção civil no Brasil (CBIC, 2024; IBGE, 2023), a eficiência operacional e a qualidade das entregas são diferenciais competitivos cruciais para escritórios de pequeno porte.
A EAP proposta serve como um ponto de partida adaptável às necessidades específicas de cada projeto e escritório, podendo ser integrada com outras ferramentas de otimização de tarefas. A sua estrutura robusta, baseada em diretrizes do PMBOK e normas ABNT, oferece uma base sólida para a melhoria contínua dos processos de gestão. A capacidade de gerenciar projetos de forma mais estruturada e eficiente não apenas resolve os desafios imediatos de controle de escopo, prazo e custo, mas também contribui para a maturidade organizacional do escritório. Um escritório com processos bem definidos e gerenciados está mais apto a escalar suas operações, assumir projetos mais complexos e manter um alto padrão de qualidade, consolidando sua posição no mercado e garantindo sua sustentabilidade a longo prazo. A presente pesquisa demonstra que a aplicação de princípios de gerenciamento de projetos, mesmo em contextos de pequeno porte, é não apenas viável, mas essencial para o sucesso e a competitividade.
4. Conclusão
Conclui-se que o objetivo foi atingido, com o desenvolvimento de uma Estrutura Analítica de Projetos (EAP) especificamente adaptada para escritórios de arquitetura de pequeno porte. Esta EAP demonstrou ser uma ferramenta eficaz para aprimorar a organização dos fluxos internos e a gestão do ciclo de vida dos projetos. A decomposição do escopo em sete fases principais, complementada por um dicionário detalhado e um cronograma atrelado a marcos de faturamento, proporcionou maior clareza e previsibilidade. A adoção de uma abordagem de desenvolvimento híbrida, que equilibra aspectos preditivos para fases estáveis e adaptativos para etapas criativas, mostrou-se ideal para a natureza dos projetos arquitetônicos residenciais, contribuindo significativamente para a redução de retrabalhos, falhas e a contenção do *scope creep*.
Contudo, o processo de desenvolvimento da EAP enfrentou a limitação de conciliar a complexidade do processo criativo com a padronização necessária, considerando a diversidade de projetos arquitetônicos. Embora a EAP proposta seja robusta, sua aplicação foi focada em escritórios de pequeno porte e projetos residenciais. Para estudos futuros, sugere-se a validação empírica da EAP em diferentes contextos de escritórios e tipos de projetos, bem como a investigação de sua integração com outras ferramentas de otimização de tarefas e tecnologias, como a Modelagem da Informação da Construção (BIM), para maximizar a eficiência e a adaptabilidade da gestão de projetos no setor.
Referências Bibliográficas
Câmara Brasileira da Industria da Construção [CBIC]. 2024. Desempenho da Construção Civil em 2024 e Perspectivas para 2025. Disponível em: <https://cbic.org.br/wp-content/uploads/2024/12/final-desempenho-economico-cc-dezembro-2024.pdf>. Acesso em: 15 out. 2025.
Gil, A. C. 2017. Como Elaborar Projetos de Pesquisa. 6ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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