23 de julho de 2026
Estrutura Analítica de Projeto para um Sistema de Armazenamento de Energia em Baterias
Bruno Eduardo Esteves de Lima; Enise Aragão dos Santos
DOI: 10.22167/2675-6528-202600625
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A crescente inserção de fontes renováveis no Sistema Interligado Nacional e a demanda por projetos de armazenamento de energia em baterias impulsionaram o desenvolvimento deste estudo. O trabalho teve como objetivo aplicar os princípios do gerenciamento de projetos, alinhados às diretrizes do PMBOK – Project Management Body of Knowledge, para estruturar todas as etapas envolvidas em projetos de sistemas de armazenamento de energia em baterias. A metodologia adotada baseou-se em revisão bibliográfica e pesquisa exploratória, com o pesquisador atuando como observador participante em uma empresa multinacional do setor elétrico. Com base neste levantamento, elaborou-se uma Estrutura Analítica de Projeto (EAP) que contemplou as fases de iniciação, planejamento, execução e encerramento, abrangendo aspectos técnicos, financeiros e operacionais. Os resultados obtidos demonstraram que a aplicação de uma EAP bem definida contribuiu para o sucesso do projeto, por meio da delimitação precisa do escopo e da consequente melhor alocação de recursos, identificação de riscos e controle de prazos. Concluiu-se que a adoção de uma EAP específica para sistemas de armazenamento de energia em baterias representa uma contribuição relevante para o campo da gestão de projetos, especialmente em um cenário de transição energética e na busca por soluções sustentáveis.
Palavras-chave: Armazenamento de Energia; Baterias; EAP; Energia; Gestão.
1. Introdução
A transição energética, impulsionada pelos desafios urgentes da mudança climática e da degradação ambiental, representa uma alteração fundamental e necessária no panorama global de produção e consumo de energia (Shahnazi, 2025). Nesse contexto, diversas entidades internacionais têm estabelecido regulamentações e normativas para acelerar a adoção de fontes renováveis. A Rede de Políticas de Energias Renováveis para o Século 21 (REN21), por exemplo, definiu metas em 2025 para impulsionar economias baseadas em energias renováveis (REN21, 2025; Petrova et al., 2019).
A geração de energia a partir de fontes renováveis, como a solar e a eólica, tem crescido exponencialmente em todo o mundo, sendo reconhecida como uma solução eficaz para a redução do uso de combustíveis fósseis e das emissões de gases de efeito estufa (Silva, 2022; Hou, 2022). Contudo, a natureza intermitente dessas fontes, que dependem de condições climáticas variáveis, dificulta sua previsibilidade e controle. Essa característica impede que sejam plenamente utilizadas para o controle de tensão e frequência na rede elétrica, gerando instabilidade no Sistema Interligado Nacional (SIN) brasileiro (Silva, 2022; Guo et al., 2018).
Diante dessa problemática, os sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS – Battery Energy Storage System) emergem como uma solução complementar às fontes renováveis, capazes de suprir a deficiência de estabilidade e garantir maior previsibilidade na rede elétrica. Esses sistemas têm recebido atenção crescente globalmente por oferecerem uma forma confiável e segura de armazenamento de energia (Bueno et al., 2016). Empresas do setor energético reconhecem a necessidade de integrar BESS na infraestrutura da rede para gerenciar intermitências, melhorar a confiabilidade do sistema, prestar serviços ancilares e aumentar a capacidade de fornecimento de energia (Pinto et al., 2024).
A capacidade instalada de sistemas de armazenamento de energia em baterias tem demonstrado um crescimento anual significativo. A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que aproximadamente 10.000 GWh de armazenamento de energia serão necessários anualmente até 2040, um aumento substancial em comparação aos 200 GWh instalados em 2022 (Silva, 2022). A tecnologia de armazenamento em baterias é considerada a mais promissora devido a fatores como sua flexibilidade, escalabilidade, confiabilidade, facilidade de implementação e a contínua redução de custos (Pinto et al., 2024).
A norma internacional IEEE 2030.2.1 serve como um guia essencial para o dimensionamento, operação e manutenção de BESS, tanto estacionários quanto móveis, e para suas aplicações integradas ao sistema elétrico de potência. Essa norma destaca a capacidade do BESS de ser instalado em todos os três segmentos da energia elétrica: próximo à geração, na transmissão e distribuição, e no consumidor final (IEEE, 2019). O BESS, quando aplicado próximo à geração, pode atuar como regulador de frequência e estabilizador da rede principal. Na transmissão e distribuição, contribui para a regulação de frequência e controle de tensão, além de aliviar o consumo em alimentadores. No consumidor final, seu objetivo é reduzir o consumo em horários de pico, manter a confiabilidade da rede, melhorar a qualidade da energia e mitigar riscos de falha (IEEE, 2019).
Em complemento, a norma IEC 62933-3-1 estabelece que um sistema de armazenamento de energia é tipicamente organizado em três subsistemas: principal, de controle e auxiliar. O subsistema principal compreende o acumulador de energia e o conversor, sendo o acumulador responsável por armazenar energia (utilizando tecnologias como eletroquímica para baterias) e o conversor por transformar a energia armazenada em elétrica e vice-versa. O subsistema auxiliar inclui equipamentos como sistemas de detecção e combate a incêndio e de aquecimento/resfriamento, essenciais para a operação do BESS. Por fim, o subsistema de controle gerencia os componentes principais e auxiliares, controlando a carga e descarga da fonte de energia e protegendo o sistema contra falhas (IEC, 2018).
A complexidade inerente aos projetos de energia renovável, caracterizada por instabilidade de mercado, instabilidade política e altos investimentos iniciais, exige uma gestão de projetos robusta (Aysan et al., 2025). A gestão de projetos é uma prática fundamental para lidar com as grandes demandas decorrentes dessa complexidade (Xie et al., 2009), sendo os projetos e seus entregáveis elementos inseparáveis (Sharon e Dori, 2014). Alinhado a essa necessidade, o guia PMBOK 7ª edição recomenda a decomposição orientada por entregáveis na etapa de planejamento (Sharon e Dori, 2014; PMI, 2021).
Nesse contexto, a Estrutura Analítica de Projeto (EAP), do inglês Work Breakdown Structure (WBS), é uma ferramenta essencial de gestão que organiza todas as atividades e entregáveis de um projeto em uma estrutura hierárquica (Quaium et al., 2009). A EAP decompõe o projeto em subprojetos, tarefas, subtarefas e pacotes de trabalho, tornando-o mais gerenciável (Noorwicaksono, 2021). Cada componente da EAP representa um entregável independente, definindo e organizando o escopo completo do projeto (Yang et al., 2008). A EAP serve como base para outras fases da gestão de projetos, auxiliando no agendamento, controle de custos, distribuição de atividades, comunicação, avaliação de riscos, monitoramento e controle (Noorwicaksono, 2021; Yang et al., 2008).
A aplicação de uma EAP bem definida é crucial para o sucesso de projetos de BESS, pois permite a delimitação precisa do escopo, otimiza a alocação de recursos, facilita a identificação de riscos e aprimora o controle de prazos. Portanto, este trabalho tem por objetivo elaborar uma estrutura analítica de projeto (EAP) para sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS) a ser instalado na rede de distribuição primária da rede elétrica (13,8 kV), visando melhorar a qualidade de energia da rede e a confiabilidade para os consumidores.
2. Material e Métodos
A metodologia adotada neste estudo caracterizou-se como exploratória e descritiva. A abordagem exploratória foi empregada para ampliar a compreensão sobre o desenvolvimento de Sistemas de Armazenamento de Energia em Baterias (BESS), um produto inovador no contexto organizacional. Complementarmente, a abordagem descritiva permitiu registrar e analisar as características práticas observadas ao longo do projeto.
A pesquisa foi de natureza aplicada, buscando desenvolver uma solução prática para a gestão de projetos de BESS. O procedimento de pesquisa incluiu revisão bibliográfica e pesquisa documental, que forneceram o suporte teórico e técnico necessário. O pesquisador atuou como observador participante, integrando a equipe responsável pelo projeto em uma empresa multinacional do setor elétrico.
O estudo foi conduzido em uma empresa multinacional de referência, especializada em motores elétricos e equipamentos para automação e geração de energia, localizada no município de Jaraguá do Sul, Santa Catarina. Os participantes da pesquisa foram membros de diversas equipes envolvidas no desenvolvimento do sistema de armazenamento de energia em baterias.
Para a realização do trabalho, o projeto foi estruturado em seis etapas principais. A primeira etapa consistiu na Definição do Escopo do Projeto, onde se estabeleceu o objetivo central de desenvolver uma Estrutura Analítica de Projeto (EAP) para sistemas BESS.
A segunda etapa foi o Levantamento de Informações Técnicas e Operacionais. Nesta fase, utilizou-se a norma internacional IEC 62933-3-1 (IEC, 2018) como referência para organizar o sistema de armazenamento de energia em subsistemas principal, auxiliar e de controle. Também se identificaram os equipamentos de interligação, painéis, e aspectos de projeto civil e urbanismo.
Na terceira etapa, procedeu-se à Identificação das Áreas da EAP. Foram definidos os níveis hierárquicos da estrutura analítica do projeto e o projeto foi dividido em quatro subprojetos: Vendas, Engenharia, Pós-Venda e Gestão de Projetos. Para cada subprojeto, foram detalhadas as tarefas e subtarefas correspondentes.
A definição dos equipamentos elétricos do sistema BESS foi um componente crucial desta etapa. Para cada equipamento, como baterias, BMS, PCS, EMS, SCADA, relés de proteção, multimedidores, UPS, transformadores, dispositivos de monitoração de isolação, switches gerenciáveis, firewalls, HVAC, coolers, sistemas de combate a incêndio e circuitos fechados de televisão, realizaram-se análises e estudos específicos para determinar seus pacotes de trabalho, incluindo inventário de componentes, cálculo de capacidade, definição de topologia, tensão de operação, protocolos de comunicação e modos de operação.
A quarta etapa envolveu a Aplicação do Princípio de Gestão de Projetos segundo o PMBOK 7ª edição (PMI, 2021). Este guia orientou a criação da EAP como ferramenta fundamental para organizar o escopo em tarefas menores e mais gerenciáveis, servindo de base para o mapeamento de todas as etapas e interfaces com as áreas do projeto, além de auxiliar no acompanhamento das atividades.
A quinta etapa foi o Desenvolvimento da Estrutura Analítica de Projeto e Validação. Para a criação da EAP, exploraram-se os entregáveis de todas as áreas envolvidas, desde a venda e concepção até o comissionamento e acompanhamento pós-entrega. Reuniões mensais foram realizadas no primeiro semestre de 2025, empregando a técnica de brainstorming.
As reuniões contaram com a participação de representantes de diversas áreas da empresa, incluindo Vendas, Administração de Contratos, Planejamento e Controle de Produção, Engenharia de Aplicação BESS, Desenvolvimento de Packs de Baterias, Desenvolvimento de Inversores Solar & BESS, Engenharia de Salas Elétricas, Projeto de Software Aplicativo, Testes, Qualidade, Comissionamento & Start-up, Assistência Técnica, Vendas de Quadros Elétricos, Vendas de Automação, Vendas de Transformadores, Engenharia Industrial e Suprimentos. As primeiras reuniões focaram na coleta de informações para as etapas de proposta, desenvolvimento, montagem, comissionamento e assistência técnica, enquanto as demais foram dedicadas à revisão do documento.
Para a estruturação da EAP, utilizou-se o software Mindmeister, disponível em https://www.mindmeister.com/, uma ferramenta que facilitou a elaboração de organogramas e mapas mentais. Os entregáveis, inicialmente coletados em uma planilha eletrônica, foram posteriormente organizados na estrutura hierárquica da EAP.
Por fim, a sexta etapa consistiu na Aplicação Prática e Monitoramento. Após a elaboração da EAP, o documento foi compartilhado com todas as áreas envolvidas para ser utilizado como referência nas atividades de desenvolvimento do projeto, garantindo que todas as etapas do negócio fossem mapeadas e seguidas.
3. Resultados e Discussão
A elaboração da Estrutura Analítica de Projeto (EAP) para sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS) representou o principal achado deste estudo, concretizando o objetivo de estruturar as etapas envolvidas em tais projetos. Após a condução das atividades metodológicas, que incluíram a definição do escopo, o levantamento de informações técnicas e operacionais, a identificação das áreas envolvidas e a aplicação dos princípios de gestão de projetos do PMBOK 7ª edição, a EAP foi desenvolvida. Para sua estruturação, empregou-se o software Mindmeister, uma ferramenta de código aberto reconhecida por sua capacidade de elaborar organogramas e mapas mentais, facilitando a visualização hierárquica dos entregáveis do projeto.
O processo de construção da EAP envolveu reuniões mensais ao longo do primeiro semestre de 2025, utilizando a técnica de brainstorming para coletar os entregáveis de todas as áreas da empresa. Participaram dessas reuniões representantes de Vendas, Administração de Contratos, Planejamento e Controle de Produção, Engenharia de Aplicação BESS, Desenvolvimento de Packs de Baterias, Desenvolvimento de Inversores Solar & BESS, Engenharia de Salas Elétricas, Projeto de Software Aplicativo, Testes, Qualidade, Comissionamento & Start-up, Assistência Técnica, Vendas de Quadros Elétricos, Vendas de Automação, Vendas de Transformadores, Engenharia Industrial e Suprimentos. As primeiras reuniões focaram na coleta de informações para as etapas de proposta, desenvolvimento, montagem, comissionamento e assistência técnica, enquanto as demais foram dedicadas à revisão do documento.
A EAP resultante foi organizada em sete níveis hierárquicos: Projeto, Subprojeto, Tarefas, Subtarefas, Elementos de Trabalho e Pacotes de Trabalho. Essa estrutura hierárquica permite uma decomposição detalhada do projeto, tornando-o mais gerenciável e alinhado às recomendações do PMBOK 7ª edição (PMI, 2021). O projeto BESS foi dividido em quatro subprojetos principais: Vendas, Engenharia, Pós-Venda e Gestão de Projeto, cada um representando uma área funcional crítica para o desenvolvimento e implementação do sistema de armazenamento de energia.
O primeiro nível hierárquico da EAP, que representa o projeto BESS como um todo, desdobra-se nos quatro subprojetos mencionados. O subprojeto de Vendas, por exemplo, foi decomposto em duas tarefas principais: Vendas de Negócios e Vendas Engenharia. A tarefa de Vendas de Negócios abrange entregáveis relacionados à interface direta com o cliente, incluindo o estudo do perfil de carga, a análise de viabilidade econômica do projeto, a criação da proposta comercial e a divulgação do projeto na mídia, elementos cruciais para a captação e formalização de novos negócios.
Por sua vez, a tarefa de Vendas Engenharia, dentro do subprojeto de Vendas, concentra-se em subtarefas de caráter técnico e de planejamento inicial. Estas incluem a criação de uma lista de fornecedores, a elaboração de uma topologia macro do BESS, o estudo das normas aplicáveis ao projeto, a formulação da proposta técnica e a definição precisa do escopo do projeto. Essa divisão reflete a necessidade de uma abordagem integrada, onde a expertise técnica apoia diretamente a estratégia comercial, garantindo que as ofertas sejam realistas e bem fundamentadas.
O subprojeto de Engenharia, que se revelou o mais extenso e complexo em termos de decomposição de entregáveis, foi subdividido em cinco tarefas: Engenharia Mecânica, Engenharia Civil, Engenharia Elétrica, Engenharia de Automação e Engenharia de Produção. Cada uma dessas tarefas engloba um conjunto específico de subtarefas e elementos de trabalho, refletindo a multidisciplinaridade inerente ao desenvolvimento de um sistema BESS. Essa granularidade é essencial para o gerenciamento eficaz de projetos complexos, conforme apontado por Quaium et al. (2009).
Na Engenharia Mecânica, as subtarefas envolvem a elaboração dos projetos mecânicos para acomodar os diversos componentes do BESS. Isso inclui os desenhos mecânicos para os painéis que abrigarão as baterias, o inversor bidirecional (PCS), os equipamentos de média tensão (MV) e baixa tensão (LV), e os equipamentos de controle. Além disso, esta tarefa contempla o estudo detalhado do escopo do projeto sob a perspectiva mecânica, garantindo a integração física e funcional de todos os elementos do sistema.
A Engenharia Civil, por sua vez, é responsável pelos projetos de infraestrutura física do local de instalação. Suas subtarefas incluem a elaboração do desenho da planta baixa do site, o projeto civil da base para fixação dos painéis, o desenho de cercamento e proteção do local, e o projeto de urbanização. Esses elementos são fundamentais para a segurança, funcionalidade e conformidade regulatória da instalação do BESS, assegurando que a infraestrutura suporte adequadamente os equipamentos e operações.
A Engenharia Elétrica abrange uma vasta gama de subtarefas, elementos de trabalho e pacotes de trabalho essenciais para a funcionalidade do BESS. Isso inclui a elaboração do projeto elétrico unifilar do site, o diagrama elétrico dos painéis, o projeto de interconexão entre os equipamentos, e o estudo de proteção e seletividade do relé. Também são realizados cálculos para dimensionamento de cabos condutores, o projeto elétrico para conexão com a rede e o desenvolvimento de manuais de manutenção preditiva e corretiva do BESS e seus equipamentos.
A definição dos equipamentos elétricos do sistema BESS é um componente crítico da Engenharia Elétrica, exigindo análise e estudo aprofundados para cada item. Para as baterias, os pacotes de trabalho incluem o inventário de componentes internos, o cálculo da capacidade energética em kWh, a potência máxima do banco de baterias em kW, a definição da tensão de operação em V, a topologia (células x módulos x racks) e o método de refrigeração. Essas especificações são cruciais para o desempenho e a segurança do sistema, garantindo que as baterias operem dentro dos parâmetros ideais.
Para o Sistema de Gerenciamento de Baterias (BMS), os pacotes de trabalho envolvem a avaliação da lista de comunicação, a definição dos parâmetros de controle e proteção, o suporte técnico para outras áreas, a definição da quantidade de equipamentos e o protocolo de comunicação. O Power Converter System (PCS) requer a definição da potência ativa e reativa máxima de operação, tensões AC e DC de operação, modo de operação, quantidade de equipamentos, protocolo de comunicação, objetivo do sistema, validação dos requisitos da rede e modo de transição entre conectado e ilhado, assegurando a conversão eficiente e segura de energia.
O Sistema de Gerenciamento de Energia (EMS) demanda a definição da quantidade de equipamentos a serem monitorados e comandados, o hardware e o protocolo de comunicação. Para o SCADA, os pacotes de trabalho incluem a definição do modo de operação (local ou remota), avaliação de redundância de controle, quantidade de dispositivos a serem monitorados, hardware e o software de controle mais adequado. O relé de proteção exige a definição das proteções que devem atuar, hardware, quantidade de dispositivos e protocolo de comunicação, garantindo a segurança e a integridade da rede.
O multimedidor, por sua vez, requer a definição da quantidade de dispositivos, hardware, protocolo de comunicação e as variáveis de interesse a serem monitoradas. Para o UPS, são definidos a tensão de operação, potência máxima, tempo de autonomia e protocolo de comunicação, assegurando a continuidade da alimentação em caso de falhas. O transformador envolve a definição da quantidade e potência do equipamento, tensões primária e secundária, e o dispositivo de monitoração de temperatura e seu protocolo de comunicação, garantindo a adequação da tensão para o sistema.
O dispositivo para monitoração de isolação tem pacotes de trabalho para definir a quantidade de equipamento e o protocolo de comunicação, essenciais para a segurança elétrica. O switch gerenciável demanda a definição da quantidade de portas físicas e o protocolo de tráfego. O firewall requer a definição da quantidade de dados a serem trafegados, conexões físicas, protocolos de comunicação e regras permitidas, protegendo a rede contra acessos não autorizados e garantindo a segurança cibernética do sistema.
O sistema HVAC (Heating, Ventilation, and Air Conditioning) tem pacotes de trabalho que incluem a definição da potência do equipamento para os painéis de LV, controle, baterias, PCS e MV, além da quantidade de equipamentos e protocolo de comunicação, garantindo o ambiente térmico ideal para os componentes. O cooler, específico para as baterias, exige a definição da potência do equipamento, quantidade e protocolo de comunicação. O sistema de combate a incêndio é dimensionado com base na quantidade de células de bateria, e seus pacotes de trabalho incluem a definição da quantidade de equipamento e protocolo de comunicação, vital para a segurança operacional.
Por fim, o Circuito Fechado de Televisão (CFTV) tem como pacotes de trabalho o dimensionamento dos componentes e a execução do projeto elétrico, contribuindo para a segurança e monitoramento do site. A inclusão detalhada desses elementos e seus respectivos pacotes de trabalho na EAP demonstra a abrangência e o rigor técnico do planejamento, alinhando-se à necessidade de uma gestão robusta para projetos de energia renovável, que são intrinsecamente complexos devido a fatores como instabilidade de mercado e altos investimentos iniciais (Aysan et al., 2025).
A tarefa de Engenharia de Automação, dentro do subprojeto de Engenharia, é organizada em subtarefas que incluem a arquitetura de automação, o desenvolvimento de software, a segurança cibernética e a documentação. Os elementos de trabalho da arquitetura de automação abrangem a definição da topologia de rede, a configuração do sistema SCADA, a configuração do banco de dados, a definição do computador de manutenção e os protocolos de comunicação com IEDs (Intelligent Electronic Devices) e o sistema SCADA, garantindo a integração e o controle do sistema.
No desenvolvimento de software, os elementos de trabalho envolvem a criação de software para o EMS, a aplicação de lógicas no relé de proteção, o desenvolvimento de software para a IHM (Interface Homem-Máquina) e para o SCADA, o desenvolvimento de software para o banco de dados e a execução de testes em bancada. A subtarefa de segurança cibernética foca na configuração de switches e firewalls, enquanto a documentação inclui o desenvolvimento de manuais de usuário, listas de protocolo de redes, mapas de variáveis Modbus e DNP3, documentos padrão de segurança cibernética e documentos específicos do projeto.
A tarefa de Engenharia de Produção concentra-se na subtarefa de fábrica, responsável pela montagem dos painéis projetados pelas áreas mecânicas e elétricas. Os elementos de trabalho incluem a definição dos prazos de entrega, a configuração dos equipamentos instalados nos painéis e a realização do teste de aceitação em fábrica integrado. Essa etapa é crucial para garantir que os componentes sejam fabricados e montados de acordo com as especificações do projeto, assegurando a qualidade e a funcionalidade do BESS antes da instalação no local.
O subprojeto de Pós-Venda abrange as tarefas executadas após a entrega do projeto, dividindo-se em comissionamento no cliente e assistência técnica. As atividades de comissionamento incluem a preparação do terreno, a execução da base para os painéis, a proteção do site, o projeto de urbanismo, o teste de aceitação no local, a execução do projeto civil, a passagem de cabos, a conexão de equipamentos, a fixação de painéis e equipamentos avulsos, a energização do site, o preenchimento de relatórios e checklists de comissionamento, a verificação visual dos equipamentos, o reaperto de parafusos, a operação assistida e a entrega dos projetos as-built para a equipe de engenharia.
Os elementos de trabalho relacionados à assistência técnica envolvem o suporte remoto e in loco ao cliente, a realização de retrofit em painéis, e a execução de manutenções preventivas e preditivas. Essas atividades são essenciais para garantir a longevidade e o bom funcionamento do BESS após a instalação, oferecendo suporte contínuo e intervenções necessárias para manter a qualidade de energia da rede e a confiabilidade para os consumidores, conforme o objetivo central do estudo.
O subprojeto de Gestão de Projetos (PMO) está organizado em tarefas de gestão de projeto e gestão de riscos. A tarefa de gestão de projeto contempla subtarefas como a reunião de kick-off, o acompanhamento das atividades internas e externas, a reunião de fechamento do projeto, a definição do cronograma do projeto e do comissionamento, e a solicitação de aprovação de diagramas elétricos e mecânicos ao cliente. Essas atividades garantem o alinhamento e o controle das diversas fases do projeto, desde sua concepção até a entrega final.
A tarefa de gestão de riscos, por sua vez, concentra-se na avaliação do impacto de possíveis atrasos nas entregas e na execução da reunião de lições aprendidas, envolvendo todas as áreas do projeto. Essa abordagem proativa na gestão de riscos é fundamental para identificar e mitigar potenciais problemas, contribuindo para o sucesso do projeto e para a melhoria contínua dos processos, em conformidade com as diretrizes do PMBOK (PMI, 2021).
Após a criação da EAP, o documento foi compartilhado com todas as equipes envolvidas para validação. Embora a maioria das áreas tenha fornecido feedback positivo, observou-se um baixo índice de aplicabilidade inicial da EAP. Este cenário pode ser atribuído à falta de prática no uso do documento, à necessidade de maior engajamento das equipes e à ausência de oportunidades para sua aplicação em algumas áreas, como a de Vendas, cujas atividades pertinentes já haviam sido concluídas antes da finalização da EAP.
Apesar das limitações iniciais na aplicabilidade geral, a equipe de Engenharia de Aplicação BESS reconheceu o valor da EAP como um instrumento fundamental para a criação de uma matriz de responsabilidade. Este documento é crucial para resolver questões de segregação e sombreamento de funções, além de identificar a ausência de responsáveis em certas atividades. A EAP, portanto, demonstrou potencial significativo para otimizar a organização interna e a alocação de responsabilidades, contribuindo para a clareza e eficiência na gestão do projeto.
A EAP desenvolvida neste estudo oferece uma referência estruturada para os profissionais envolvidos em projetos de BESS, permitindo a identificação sistemática das atividades necessárias, o acompanhamento do progresso e o planejamento de etapas futuras. Sua aplicação facilita a geração de documentos complementares, como cronogramas e estimativas de custos, e a criação de uma matriz de responsabilidade, elementos essenciais para um gerenciamento de projetos eficaz e para evitar sobreposições ou lacunas de responsabilidade (Sharon e Dori, 2014). A natureza dinâmica da EAP, como um “documento vivo”, permite revisões contínuas, garantindo sua adaptação às realidades operacionais e às evoluções tecnológicas do setor.
Contudo, é importante reconhecer as limitações deste estudo. A pesquisa foi baseada em um único estudo de caso, o que restringe a generalização dos resultados para projetos de BESS com diferentes níveis de complexidade e maturidade. Além disso, a proposta da EAP não passou por uma validação prática completa em todo o ciclo do projeto, pois o estudo foi realizado concomitantemente à execução das atividades. A disponibilidade limitada de tempo dos especialistas consultados também impactou a profundidade da coleta de dados e a validação cruzada das informações, fatores que influenciam a robustez das interpretações.
Apesar dessas limitações, o trabalho abre caminho para futuras pesquisas e aprofundamentos. Sugere-se a validação da EAP em múltiplos projetos de BESS, com diferentes portes e características, para testar sua flexibilidade e aplicabilidade em diversos contextos. Outra oportunidade reside na integração da EAP com ferramentas de engenharia e gestão de projetos amplamente utilizadas, como MS Project ou Trello, o que poderia ampliar o nível de detalhamento e a rastreabilidade das etapas. A inclusão de uma gestão de risco mais aprofundada, com métodos quantitativos para avaliar incertezas relacionadas à degradação de componentes, descarte de baterias e variáveis logísticas, também se apresenta como uma área promissora para estudos futuros.
Em síntese, a EAP elaborada neste estudo para sistemas de armazenamento de energia em baterias representa uma contribuição significativa para a gestão de projetos no setor elétrico. Ao decompor o projeto em níveis hierárquicos detalhados, desde a concepção até a pós-entrega, a EAP fornece uma estrutura clara para o planejamento, execução e controle, otimizando a alocação de recursos e a identificação de riscos. Este trabalho não apenas atende ao objetivo de estruturar projetos de BESS, mas também oferece um modelo prático para aprimorar a qualidade da energia e a confiabilidade para os consumidores, em um cenário de crescente transição energética.
4. Conclusão
O presente estudo buscou aplicar os princípios do gerenciamento de projetos, conforme as diretrizes do PMBOK, para estruturar as etapas envolvidas em projetos de sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS), visando aprimorar a qualidade da energia na rede de distribuição primária e a confiabilidade para os consumidores. Verificou-se a elaboração de uma Estrutura Analítica de Projeto (EAP) detalhada, organizada em sete níveis hierárquicos, que abrangeu os subprojetos de Vendas, Engenharia, Pós-Venda e Gestão de Projeto. A EAP foi desenvolvida por meio de um processo colaborativo, envolvendo diversas áreas de uma empresa multinacional do setor elétrico, e demonstrou ser uma ferramenta robusta para a delimitação precisa do escopo, otimização da alocação de recursos, identificação de riscos e controle de prazos. A aplicação desta EAP específica para sistemas BESS representa uma contribuição significativa para o campo da gestão de projetos, oferecendo um modelo prático para profissionais do setor e promovendo a eficiência na implementação de soluções sustentáveis no contexto da transição energética.
Apesar dos achados relevantes, o estudo apresentou algumas limitações, como a restrição a um único estudo de caso, o que impede a generalização irrestrita dos resultados para projetos de BESS com diferentes complexidades. Observou-se também que a validação prática completa da EAP em todo o ciclo do projeto não foi integralmente realizada, devido à execução concomitante das atividades e à disponibilidade limitada de tempo dos especialistas. Contudo, a EAP revelou-se um instrumento valioso para a criação de uma matriz de responsabilidade, auxiliando na resolução de questões de segregação e sombreamento de funções. Para estudos futuros, sugere-se a validação da EAP em múltiplos projetos de BESS, a integração com ferramentas de engenharia e gestão de projetos, e a inclusão de uma gestão de risco mais aprofundada, com métodos quantitativos para avaliar incertezas relacionadas à degradação de componentes e variáveis logísticas.
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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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