30 de julho de 2026
Estresse ocupacional em profissionais bancários
Francine de Castro Zampieri Alves; Camilla Fernandes
DOI: 10.22167/2675-6528-202600816
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
O setor bancário apresentou-se como um ambiente de trabalho com elevada carga psicossocial, o que motivou a investigação dos impactos do estresse ocupacional na saúde e comportamento dos trabalhadores. O estudo teve como objetivo explorar como o estresse ocupacional afeta a motivação e a permanência de profissionais em instituições financeiras. Realizou-se uma pesquisa quantitativa, de caráter descritivo, que aplicou um questionário estruturado a 73 participantes, sendo 34 profissionais bancários ativos e 39 ex-bancários. Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva e correlação de Spearman. Os resultados indicaram elevados níveis de estresse, associados principalmente à pressão por metas, ritmo acelerado de trabalho e mudanças constantes nos processos organizacionais. Verificou-se uma correlação significativa entre o estresse e a redução do bem-estar, bem como um impacto negativo na motivação dos profissionais. A análise dos ex-bancários evidenciou que esses fatores contribuíram para a decisão de desligamento do setor, reforçando a relação entre estresse ocupacional e turnover. Concluiu-se que o estresse ocupacional influencia diretamente a motivação e a permanência dos profissionais, destacando a necessidade de estratégias organizacionais voltadas à promoção da saúde mental e à melhoria das condições de trabalho nessas organizações.
Palavras-chave: Ambiente organizacional; Gestão de pessoas; Motivação; Saúde mental; Turnover.
1. Introdução
O setor bancário tem se consolidado, nas últimas décadas, como um ambiente de trabalho marcado por intensas transformações. Essas mudanças são impulsionadas principalmente pelo avanço tecnológico, pela digitalização dos serviços e pelo aumento da competitividade no mercado financeiro. Nesse contexto, as instituições financeiras passaram a adotar modelos de gestão cada vez mais orientados para resultados, o que elevou significativamente as exigências sobre os trabalhadores, intensificando o ritmo de trabalho e ampliando a pressão por desempenho (Silva e Barreto, 2012).
Como consequência dessas transformações, observa-se um cenário caracterizado por elevada carga psicossocial. Fatores como metas agressivas, sobrecarga de atividades, baixa autonomia e constantes mudanças organizacionais tornam-se elementos centrais na dinâmica laboral (Silva e Barreto, 2012). Estudos têm apontado que as condições de trabalho no setor bancário estão frequentemente associadas a configurações de alta exigência e baixo controle, conforme o modelo de Karasek (1979), bem como à lógica de alto esforço e baixa recompensa, segundo Siegrist (1996). Essas configurações têm sido relacionadas a impactos negativos na saúde física e mental dos trabalhadores, incluindo sintomas de estresse, ansiedade e esgotamento emocional (Barreto et al., 2010).
O estresse ocupacional, compreendido como a resposta do indivíduo frente a demandas percebidas como excessivas ou ameaçadoras ao seu equilíbrio, tem sido amplamente estudado na literatura organizacional (Lazarus e Folkman, 1984). No contexto bancário, esse fenômeno tende a se intensificar devido à combinação de fatores organizacionais adversos, como pressão constante por metas, instabilidade nos processos e exigência por alta performance. A psicodinâmica do trabalho indica que o sofrimento psíquico emerge quando as exigências organizacionais ultrapassam a capacidade de adaptação dos indivíduos (Dejours, 1992), condição que se torna particularmente evidente em setores de elevada pressão como o bancário. Quando esse estado se prolonga de forma crônica, pode evoluir para o esgotamento emocional, caracterizado pelo desgaste progressivo resultante de condições de trabalho adversas mantidas ao longo do tempo (Maslach e Jackson, 1981). Além disso, o estresse não atua de forma isolada, mas influencia diretamente outros aspectos do comportamento organizacional, como a motivação no trabalho.
A motivação, por sua vez, refere-se aos processos internos que direcionam o comportamento do indivíduo em relação às suas atividades profissionais, influenciando sua disposição para iniciar, manter ou abandonar tarefas (Deci e Ryan, 2000). Estudos recentes indicam que ambientes de trabalho com altos níveis de estresse e baixos recursos organizacionais tendem a comprometer a motivação autodeterminada dos trabalhadores, reduzindo seu engajamento e aumentando a probabilidade de afastamento ou desligamento (Pereira et al., 2022). Dessa forma, compreender a relação entre estresse ocupacional e motivação torna-se fundamental para analisar não apenas o desempenho dos profissionais, mas também sua permanência nas organizações.
Apesar da relevância do tema, observa-se uma lacuna na literatura no que diz respeito à análise integrada dos fatores estressores específicos do setor bancário, seus impactos sobre a motivação e sua influência na decisão de permanência ou desligamento dos profissionais. Grande parte dos estudos concentra-se em aspectos isolados, sem considerar a interação entre esses elementos. Além disso, ainda são escassas as pesquisas que incorporam a perspectiva de ex-profissionais, o que limita a compreensão dos fatores que contribuem para a saída do setor e aprofunda a necessidade de uma visão mais abrangente do fenômeno.
Diante desse cenário, justifica-se a realização deste estudo pela necessidade de aprofundar a compreensão sobre como o estresse ocupacional afeta a motivação e a permanência de profissionais no setor bancário, contribuindo tanto para o avanço do conhecimento acadêmico quanto para o desenvolvimento de práticas organizacionais mais saudáveis. Ao incluir a percepção de profissionais ativos e ex-bancários, busca-se ampliar a análise do fenômeno, oferecendo uma visão mais abrangente sobre os fatores que influenciam a trajetória desses trabalhadores. Assim, o presente estudo teve como objetivo explorar como o estresse ocupacional afeta a motivação e a permanência de profissionais em instituições financeiras.
2. Material e Métodos
O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de abordagem quantitativa, de natureza aplicada e caráter descritivo, com o objetivo de investigar como o estresse ocupacional afeta a motivação e a permanência de profissionais no setor bancário. A escolha por essa abordagem permitiu mensurar as percepções dos participantes por meio de dados numéricos, possibilitando a identificação de padrões e relações entre as variáveis investigadas. A pesquisa descritiva buscou descrever as características de determinado fenômeno e estabelecer relações entre variáveis, sem interferência do pesquisador sobre os dados coletados (Marconi e Lakatos, 2017; Gil, 2008).
A população da pesquisa foi composta por profissionais do setor bancário, abrangendo tanto trabalhadores em atividade quanto ex-profissionais. A amostra foi constituída por 73 participantes, sendo 34 profissionais bancários ativos e 39 ex-bancários. A seleção dos participantes ocorreu de forma não probabilística, por conveniência, utilizando-se da rede de contatos da pesquisadora e do apoio de um sindicato representativo do setor. Os participantes eram provenientes de diferentes regiões do Brasil, com predominância das regiões Sudeste e Sul, o que possibilitou contemplar distintas realidades do setor.
Para a coleta de dados, utilizou-se um questionário estruturado, elaborado especificamente para esta pesquisa com base na literatura revisada. O instrumento foi aplicado em formato online, por meio da plataforma Google Forms. Ele foi composto por questões fechadas, organizadas em escala do tipo Likert de cinco pontos, que variavam de menor a maior grau de concordância, e por questões abertas, que permitiram captar percepções mais subjetivas dos participantes.
O questionário foi organizado em blocos temáticos, contemplando o perfil dos respondentes, os fatores estressores no trabalho, os impactos do estresse, a motivação e a intenção de permanência no setor. Para os ex-bancários, incluíram-se questões específicas voltadas à compreensão dos fatores que influenciaram a decisão de desligamento. Previamente à aplicação, o questionário perpassou por duas etapas de validação: uma análise por pesquisadores e especialistas da área de gestão de pessoas e um pré-teste com cinco respondentes de perfil similar à amostra pretendida.
A coleta de dados ocorreu durante os meses de janeiro, fevereiro e março do ano de 2026, após a validação do instrumento. O acesso ao questionário foi realizado de forma remota e voluntária. A participação foi voluntária, e os respondentes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) antes de acessar o questionário. Garantiu-se o anonimato dos participantes e a confidencialidade das informações, que foram utilizadas exclusivamente para fins acadêmicos, sem a coleta de dados que possibilitassem a identificação individual.
A pesquisa dispensou submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), conforme o inciso I do parágrafo único do artigo 1º da Resolução CNS nº 510, de 07 de abril de 2016, que isenta de registro e análise pelo sistema CEP/CONEP as pesquisas de opinião pública com participantes não identificados. Os dados coletados foram analisados por meio de estatística descritiva, com cálculo de médias, desvios-padrão e assimetria, permitindo identificar tendências centrais e a variabilidade das respostas (Marconi e Lakatos, 2017).
Adicionalmente, realizou-se análise de correlação entre as variáveis, com o objetivo de verificar a relação entre estresse ocupacional, motivação e intenção de permanência no setor, procedimento indicado por Field (2009) para mensurar a direção e a intensidade das associações. Previamente à análise de correlação, verificou-se a normalidade das variáveis por meio do teste de Shapiro-Wilk. Dado que todas as variáveis apresentaram distribuição não normal (p < 0,05), adotou-se o coeficiente de Spearman como medida de associação. As análises foram conduzidas com o auxílio do software Microsoft Excel.
3. Resultados e Discussão
Os resultados da pesquisa permitiram uma compreensão aprofundada sobre a influência do estresse ocupacional na motivação e permanência de profissionais no setor bancário. Os dados foram organizados em blocos temáticos, abrangendo o perfil dos participantes, a identificação dos fatores estressores no ambiente de trabalho, a manifestação dos sintomas e impactos do estresse, e a análise da motivação e permanência no setor. A discussão dos achados foi realizada à luz da literatura pertinente, conforme mobilizado na introdução, integrando as percepções de profissionais ativos e ex-bancários para oferecer uma visão abrangente do fenômeno estudado e responder ao objetivo proposto.
Perfil dos respondentes
A amostra do estudo foi composta por 73 participantes, sendo 34 profissionais bancários ativos e 39 ex-bancários, o que proporcionou uma perspectiva dual sobre a experiência no setor. Em relação ao perfil demográfico, observou-se uma predominância feminina, com 60,3% dos respondentes, enquanto 37,0% eram do sexo masculino e 2,7% optaram por não informar. A faixa etária mais representativa foi a de 50 anos ou mais, correspondendo a 47,9% da amostra, seguida por 21,9% na faixa de 40 a 49 anos. Esse perfil etário mais maduro é consistente com a alta proporção de participantes que possuem mais de 15 anos de atuação no setor, totalizando 63,0%, indicando que a amostra incluiu profissionais com trajetórias consolidadas no sistema financeiro.
No que concerne à escolaridade, verificou-se um elevado nível de formação acadêmica entre os participantes, com 47,9% possuindo pós-graduação lato sensu, 32,9% com ensino superior completo e 5,5% com pós-graduação stricto sensu. Geograficamente, a maioria dos respondentes residia nas regiões Sudeste (52,1%) e Sul (27,4%), que concentram uma parte significativa do sistema bancário brasileiro. Quanto ao tipo de instituição, 65,8% atuavam ou atuaram em bancos públicos e 34,2% em instituições privadas. Em relação à área de atuação, 64,4% pertenciam à área comercial e 35,6% à operacional. Essa distribuição é relevante, uma vez que profissionais da área comercial estão tipicamente mais expostos à pressão por metas e à lógica de desempenho orientada para resultados, enquanto a presença de participantes da área operacional pode explicar parte da variabilidade nas respostas, sugerindo que a experiência de estresse no setor bancário não é homogênea, sendo influenciada pelo contexto específico de atuação.
Fatores estressores no trabalho
A análise dos fatores estressores no trabalho, realizada com os profissionais ativos, revelou que o ambiente bancário é percebido como um espaço de elevada exigência psicossocial, corroborando a literatura que descreve o setor como de alta demanda, baixo controle e recompensas insuficientes (Karasek, 1979; Siegrist, 1996; Silva e Barreto, 2012). As respostas, em uma escala Likert de cinco pontos, indicaram que os fatores estressores tendem a se concentrar nos valores mais altos da escala, com assimetria negativa em todas as variáveis. Os valores mais acentuados foram observados para o ritmo acelerado e intenso de trabalho, com média de 4,59, as mudanças constantes nos processos, com média de 4,38, e a pressão por metas, com média de 4,32. Esses achados reforçam a percepção predominante da presença desses fatores entre os respondentes, independentemente da instituição.
O baixo desvio-padrão para o ritmo de trabalho e as mudanças organizacionais, somado à assimetria negativa, sugere que essas percepções são amplamente homogêneas e compartilhadas entre os profissionais. Esse padrão é consistente com o modelo demanda-controle de Karasek (1979), que descreve ambientes de “alta exigência” e “baixo controle” como condições de elevado risco psicossocial. O ritmo acelerado e a pressão por metas configuram a alta exigência, enquanto a percepção de pouca autonomia para decisões, com média de 3,44, sinaliza o componente de baixo controle. Variáveis como volume de trabalho adequado e ambiente de trabalho tenso apresentaram maior dispersão, indicando que a experiência pode variar conforme o tipo de instituição.
Ao comparar as percepções entre profissionais de instituições públicas e privadas, observou-se que as maiores diferenças se concentraram na pressão por metas, com média de 4,65 para o setor público e 3,64 para o privado. Da mesma forma, o esforço não proporcional às recompensas (média de 3,74 no público e 2,82 no privado) e a cobrança excessiva da gestão (média de 4,09 no público e 3,55 no privado) foram percebidos com maior intensidade pelos profissionais de bancos públicos. Contudo, o ritmo acelerado e as mudanças constantes nos processos foram elevados em ambos os grupos, sugerindo que esses elementos são características estruturais do setor bancário, independentemente do tipo de instituição. A percepção de que as demandas impactam negativamente o bem-estar emocional, com média de 3,97, e que o esforço não é proporcional às recompensas, com média de 3,44, encontra respaldo no modelo esforço-recompensa de Siegrist (1996), que associa esse desequilíbrio à deterioração da saúde mental dos trabalhadores. Esses resultados reforçam a ideia de que o setor bancário constitui um ambiente de elevada carga psicossocial, onde os fatores estressores não se limitam ao volume de tarefas, mas à intensidade das demandas e à forma como são impostas.
As respostas coletadas nas questões abertas complementaram esses achados, reforçando o cenário de alta exigência. Relatos como “pressão por resultado sendo comercial e operacional”, “metas abusivas”, “alta quantidade de demandas extremamente diversas e com prazo exíguo” e “assédio, pressão é inerente à profissão, falta de autonomia” ilustram, de forma concreta, as condições descritas. Esses dados sugerem que profissionais da área comercial, em particular, podem estar mais expostos a condições de alta exigência, o que pode contribuir para níveis mais elevados de estresse ocupacional e seus desdobramentos sobre a motivação e a permanência no setor, conforme discutido por Karasek (1979).
Sintomas e impactos do estresse
A compreensão dos sintomas e impactos do estresse ocupacional é crucial para dimensionar seus efeitos práticos na saúde dos trabalhadores. Os dados revelaram que todas as variáveis relacionadas aos sintomas apresentaram assimetria negativa, indicando que as respostas se concentraram nos valores mais elevados da escala. O sintoma mais intensamente percebido pelos participantes foi a ansiedade relacionada às atividades bancárias, com média de 4,24, seguida pelo cansaço físico frequente, com média de 3,85. A irritação e impaciência na rotina profissional apresentaram média de 3,82, e os sintomas físicos, como dores musculares e dores de cabeça, tiveram média de 3,79. Dificuldades para dormir também foram relatadas com intensidade relevante, apresentando média de 3,32, embora com maior dispersão entre os respondentes.
O elevado nível de ansiedade é coerente com as condições de trabalho descritas anteriormente, caracterizadas por alta pressão por metas, ritmo acelerado e mudanças constantes. Essa percepção de demandas excessivas em relação aos recursos disponíveis para enfrentá-las é um fator central para o estresse, conforme Lazarus e Folkman (1984), e é predominante entre os bancários participantes deste estudo. Um achado particularmente relevante foi o afastamento por motivos relacionados ao estresse: 32,4% dos profissionais ativos relataram já ter se licenciado ou afastado do trabalho por essas razões. Esse dado é expressivo, pois indica que o estresse no setor bancário não se limita a desconfortos subjetivos, mas se manifesta em consequências concretas sobre a continuidade laboral, dialogando com o conceito de burnout de Maslach e Jackson (1981), onde o esgotamento emocional surge como resposta a condições crônicas de estresse.
Ao serem questionados sobre os fatores mais estressantes, os participantes descreveram situações como “longos anos sem promoção e falta de reconhecimento”, “gestão tóxica”, “assédio moral” e a percepção de que “somos responsáveis por 25% dos afastamentos por saúde mental do INSS”. Essa última afirmação, feita por um participante da área comercial de banco público, sintetiza a percepção de que o adoecimento no setor é um fenômeno coletivo e sistemático, e não apenas individual. Essa perspectiva alinha-se à psicodinâmica do trabalho de Dejours (1992), que situa o sofrimento psíquico quando as exigências organizacionais ultrapassam a capacidade de adaptação individual, gerando consequências que vão do adoecimento emocional às dificuldades físicas.
Motivação e permanência no setor
A relação entre estresse ocupacional e motivação é um ponto central da investigação. Os resultados indicaram que a motivação para desempenhar as atividades no setor bancário apresentou uma média de 3,32, com desvio-padrão de 1,20. Esse valor situa os respondentes em um patamar intermediário da escala, sugerindo que a motivação não está suprimida, mas tampouco é robusta. A assimetria próxima de zero para essa variável (-0,19) confirma essa ambivalência, indicando uma distribuição relativamente equilibrada entre os respondentes. O reconhecimento das contribuições pela instituição obteve a menor média do bloco, igual a 3,00, com desvio-padrão de 1,23, o que é relevante à luz da Teoria da Autodeterminação de Deci e Ryan (2000), que pontua que ambientes que não reconhecem o esforço do trabalhador tendem a minar sua motivação intrínseca, substituindo-a por uma regulação mais externa e menos engajada.
A autonomia suficiente para a realização das atividades também apresentou uma média abaixo do ponto médio da escala, de 2,88, com desvio-padrão de 1,09. Esse achado é consistente com a percepção de pouca autonomia para decisões relatada no bloco de fatores estressores e dialoga diretamente com o modelo demanda-controle de Karasek (1979), segundo o qual a combinação de alta exigência e baixo controle não apenas aumenta o estresse, mas também compromete a motivação, pois retira do trabalhador a sensação de agência sobre seu próprio trabalho. A análise de correlação de Spearman revelou uma correlação negativa entre o índice composto de estresse e a motivação (rho = -0,43), indicando que quanto maior a intensidade dos fatores estressores, menor a motivação reportada pelos profissionais. O impacto das demandas no bem-estar emocional também apresentou correlação negativa com a motivação (rho = -0,43) e com a satisfação no setor (rho = -0,58), reforçando que o desgaste emocional se reflete diretamente no engajamento com o trabalho.
A cobrança excessiva da gestão mostrou uma correlação positiva expressiva com o impacto no bem-estar (rho = 0,66), evidenciando que o estilo de liderança adotado pelas instituições constitui um fator central na experiência dos trabalhadores. Em contraste, a autonomia apresentou correlação positiva com a motivação (rho = 0,45) e com o reconhecimento institucional (rho = 0,60), sinalizando o papel desses elementos como fatores de proteção, achado convergente com os pressupostos de Deci e Ryan (2000) sobre a centralidade da autonomia para a motivação autodeterminada. O estresse ocupacional demonstrou correlação positiva com a intenção de saída (rho = 0,56) e com a percepção de que o estresse influencia a permanência no setor (rho = 0,68), corroborando a relação entre ambiente organizacional adverso e turnover apontada por Pereira et al. (2022).
Quando questionados se já haviam considerado deixar o setor em razão da pressão, metas ou sobrecarga, os participantes ativos obtiveram uma média de 3,59, com desvio-padrão de 1,52. Esse valor, aliado à alta dispersão, indica que uma parcela expressiva dos respondentes já cogitou o desligamento. A percepção de que a falta de qualidade de vida impacta a decisão de permanecer, com média de 3,21, e de que o estresse influencia a vontade de permanecer no setor, com média de 3,26, corrobora a correlação encontrada entre essas dimensões (rho = 0,56), indicando que o estresse ocupacional atua como um vetor de intenção de saída. As respostas às perguntas abertas sobre melhorias no ambiente de trabalho e redução do estresse reforçam esses achados, com participantes relatando que “a cobrança jamais será reduzida, o capitalismo bancário se esconde atrás de uma máscara de foco em pessoas” e que desejam “líderes e gestores mais humanos”, evidenciando que o problema é percebido como estrutural, não individual, alinhando-se à perspectiva da psicodinâmica do trabalho de Dejours (1992).
Análise dos ex-bancários e relação com o turnover
A inclusão dos ex-bancários na amostra permitiu ampliar a compreensão do fenômeno, lançando luz sobre os fatores que efetivamente impulsionaram o desligamento do setor. Os principais motivos de saída indicados pelos 39 ex-bancários, em questão de múltipla escolha, foram o excesso de demandas e sobrecarga de trabalho, citado por 53,8% dos respondentes, e o estresse laboral, apontado por 46,2%. Problemas de saúde relacionados ao trabalho e a falta de reconhecimento foram indicados por 25,6% cada (dez participantes), enquanto a falta de apoio da equipe ou liderança e o ambiente de trabalho desfavorável foram mencionados por 20,5% dos participantes. Embora a aposentadoria também tenha sido um motivo de saída para 25,6% dos respondentes, houve registros expressivos de estresse como fator paralelo ao desligamento, como no relato de um participante que afirmou ter “saído antes do tempo, com aposentadoria proporcional, por não aguentar mais todo o estresse relacionado ao trabalho”. Esse dado sugere que o estresse pode antecipar ou precipitar decisões de saída mesmo quando outros fatores formais estão presentes.
Quando questionados sobre a possibilidade de retornar ao trabalho em um banco, 56,4% dos ex-bancários responderam negativamente, 30,8% disseram que dependeria das condições e apenas 12,8% responderam afirmativamente. As justificativas para a recusa foram reveladoras, incluindo frases como “nunca mais, muito estressante, minha saúde em primeiro lugar”, “muito estresse” e “não me adaptaria mais, tinha muita ansiedade”. Essas respostas evidenciam uma ruptura não apenas profissional, mas também subjetiva com o ambiente bancário. A convergência entre as percepções dos profissionais ativos e dos ex-bancários é um achado central da pesquisa. Os mesmos fatores que, entre os ativos, estão associados à intenção de saída (ritmo acelerado, pressão por metas, cobrança excessiva e impacto sobre a saúde emocional) figuram como as principais razões efetivas de desligamento entre os ex-bancários. Isso fortalece a validade dos resultados e indica que o caminho entre o estresse crônico e o turnover, no setor bancário, é direto e curto, em consonância com estudos que associam ambientes organizacionais adversos à redução da permanência dos trabalhadores (Pereira et al., 2022).
Em síntese, os resultados apresentados convergem para uma clara resposta ao objetivo do estudo, demonstrando que o estresse ocupacional exerce influência direta sobre a motivação e a permanência de profissionais em instituições financeiras. O ritmo de trabalho acelerado, a pressão por metas e as mudanças organizacionais constantes foram identificados como os principais vetores de estresse, gerando ansiedade, cansaço físico, afastamentos por saúde e uma erosão gradual da motivação. A correlação negativa entre estresse e motivação, e a correlação positiva entre estresse e intenção de saída, indicam que o ambiente de trabalho adverso compromete o engajamento e, consequentemente, a permanência dos profissionais. A ausência de autonomia e de reconhecimento institucional agrava esse quadro, privando os trabalhadores de elementos centrais para a motivação autodeterminada, e a análise dos ex-bancários confirma que, quando esse cenário se prolonga, ele se torna o principal fator na decisão de desligamento, mesmo para profissionais com longos anos de carreira no setor. Esses achados evidenciam a necessidade urgente de revisão das práticas organizacionais no sistema bancário, com foco na humanização da gestão e na promoção de ambientes mais saudáveis e sustentáveis para os trabalhadores.
4. Conclusão
O presente estudo buscou explorar como o estresse ocupacional afeta a motivação e a permanência de profissionais em instituições financeiras. Verificou-se que o ambiente bancário é caracterizado por elevados níveis de estresse, impulsionados principalmente pela pressão por metas, pelo ritmo acelerado de trabalho e pelas constantes mudanças nos processos organizacionais. Esses fatores impactaram negativamente o bem-estar e a motivação dos profissionais, com uma correlação significativa entre a intensidade dos estressores e a redução do engajamento. Observou-se que uma parcela expressiva dos profissionais ativos já considerou o desligamento, e a análise com ex-bancários confirmou que o excesso de demandas e o estresse laboral foram os principais motivadores para a saída do setor, evidenciando a influência direta do estresse ocupacional no turnover.
A ausência de autonomia e o baixo reconhecimento institucional agravaram o quadro de estresse, comprometendo a motivação autodeterminada dos trabalhadores. A principal contribuição deste estudo reside na explicitação da necessidade urgente de revisão das práticas organizacionais no sistema bancário, com foco na humanização da gestão, na adequação das metas às condições reais de trabalho e na promoção de ambientes mais saudáveis e sustentáveis. Contudo, o estudo apresenta limitações inerentes ao recorte amostral por conveniência, com predominância de participantes das regiões Sudeste e Sul e perfil etário mais maduro, o que pode não ser representativa da totalidade do setor. O tamanho amostral restrito, especialmente entre os profissionais ativos, impõe cautela na generalização dos achados, sugerindo que estudos futuros com amostras maiores e mais diversificadas possam aprofundar e ampliar as conclusões aqui apresentadas.
Referências Bibliográficas
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Silva, L.S.; Barreto, S.M. (2012). Adverse psychosocial working conditions and poor quality of life among financial service employees in Brazil. Journal of Occupational Health 54(2): 88-95.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq
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