Artigo

28 de julho de 2026

Estratégia de precificação em uma empresa de comércio e instalação hidráulica em São Paulo

Dhulia Gomes Sposito Daminelli; Vivian Caroline Lapini Rocha

DOI: 10.22167/2675-6528-202600721

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A definição de preços em empresas que combinam venda de produtos e prestação de serviços técnicos apresentou desafios relevantes, especialmente quando a estrutura de custos não foi plenamente incorporada ao processo decisório. Nesse contexto, o estudo analisou a estratégia de precificação adotada por uma empresa do setor de comércio e instalação hidráulica em Jales, São Paulo, buscando identificar o sistema de custeio utilizado e avaliar os impactos dessas práticas na rentabilidade da operação. Para tanto, realizou-se um estudo de caso de natureza aplicada, com abordagem qualitativa e quantitativa, baseado em pesquisa bibliográfica e análise documental de dados financeiros e operacionais da empresa. A investigação concentrou-se na análise da estrutura de custos de dois produtos representativos: uma mangueira hidráulica sob medida e um conjunto de pistão hidráulico. Os resultados indicaram que a empresa utilizou predominantemente o custeio direto na formação de preços, desconsiderando sistematicamente tributos e despesas operacionais no cálculo inicial das margens, o que gerou distorções na avaliação da rentabilidade. A aplicação do método de precificação baseado em markup demonstrou que a incorporação desses elementos proporcionou maior aderência entre custos, despesas e margem de lucro, contribuindo para uma formação de preços mais consistente. Concluiu-se que a adoção de métodos estruturados de precificação tende a melhorar a tomada de decisão gerencial e a sustentabilidade financeira da empresa.

Palavras-chave: Custeio direto; Gestão financeira; Lucratividade; Markup; Sustentabilidade financeira.

1. Introdução

A formação de preços representa uma das decisões estratégicas mais críticas para a gestão de qualquer organização, influenciando diretamente sua lucratividade, competitividade e sustentabilidade econômico-financeira. A definição adequada de preços não apenas assegura a cobertura dos custos, mas também gera a margem de lucro necessária para a continuidade das operações e o reinvestimento. Em mercados dinâmicos e altamente competitivos, a simples aplicação de margens sobre os custos pode ser insuficiente, exigindo uma compreensão aprofundada da estrutura de custos, das condições de mercado e das estratégias dos concorrentes (Kotler e Keller, 2021).

Empresas que atuam simultaneamente na venda de produtos e na prestação de serviços técnicos, como as do setor de comércio e instalação hidráulica, enfrentam desafios adicionais na formação de preços. Nesses modelos de negócio híbridos, o processo de precificação torna-se mais complexo, pois envolve a consideração de custos relacionados à aquisição de mercadorias, à mão de obra especializada, ao deslocamento, aos equipamentos, às garantias de serviços e a outras variáveis que nem sempre são plenamente incorporadas ao cálculo dos preços ao longo do tempo (Silva et al., 2024). Essa complexidade é intensificada por fatores como as oscilações nos custos de materiais hidráulicos, os custos logísticos, as mudanças no comportamento do consumidor e a intensa concorrência, especialmente em mercados urbanos como o Estado de São Paulo (Ross et al., 2022).

A adoção de práticas de precificação inadequadas pode comprometer significativamente o desempenho econômico da organização. A definição de preços baseada apenas em práticas empíricas ou na replicação de preços da concorrência, sem uma análise rigorosa da estrutura de custos, pode levar a preços abaixo do necessário para cobrir todos os encargos, resultando em margens de lucro insuficientes. Essa abordagem pode gerar distorções na avaliação da rentabilidade e comprometer a sustentabilidade financeira da empresa (Melotto et al., 2013). Em muitas pequenas e médias empresas, a ausência de métodos estruturados de precificação leva a decisões baseadas predominantemente na experiência do gestor, o que, embora relevante, aumenta o risco de imprecisões na formação de preços (Assef, 2013).

Nesse contexto, a literatura de gestão de custos e finanças oferece diferentes abordagens para a formação de preços. O custeio direto, por exemplo, é um método que considera apenas os custos variáveis diretamente atribuíveis à produção ou serviço na formação do preço, desconsiderando os custos fixos e despesas operacionais na margem inicial. Embora facilite a análise da margem de contribuição, sua utilização isolada pode dificultar a mensuração da rentabilidade global da operação (Hansen e Mowen, 2012). Em contrapartida, o método de precificação baseado em markup consiste na aplicação de um índice multiplicador sobre o custo do produto ou serviço, que incorpora não apenas os custos diretos, mas também as despesas operacionais, os tributos e a margem de lucro desejada pela empresa (Assaf Neto, 2014; Veiga e Santos, 2016). A adoção de métodos estruturados, como o markup, tende a promover maior consistência na formação de preços e a reduzir riscos financeiros, especialmente em empresas de menor porte (Assef, 2013).

Diante da complexidade da precificação em empresas que combinam comércio e serviços, e da potencial fragilidade das práticas empíricas, torna-se fundamental investigar as estratégias adotadas e seus impactos na saúde financeira. Compreender se os métodos de precificação utilizados refletem adequadamente a estrutura de custos, as condições de mercado e os objetivos estratégicos do negócio é crucial para identificar oportunidades de melhoria na gestão financeira e na competitividade. Assim, este estudo teve como objetivo analisar a estratégia de precificação adotada por uma empresa de comércio e instalação hidráulica localizada no município de Jales, Estado de São Paulo, buscando compreender os critérios utilizados na definição dos preços, os custos envolvidos nas operações e os impactos dessas decisões na rentabilidade.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de natureza qualitativa e descritiva, adequada para a compreensão de práticas gerenciais em contextos organizacionais específicos. Adotou-se o delineamento de estudo de caso, que permitiu investigar em profundidade a estratégia de precificação, conforme preconizado por Gil (2019) e Yin (2015).

A unidade de análise correspondeu à estratégia de precificação da empresa de comércio e instalação hidráulica. Para preservar a confidencialidade, a organização foi identificada por um nome fictício, Pistões Hidro Ltda. A empresa está localizada no município de Jales, Estado de São Paulo.

A estrutura operacional da empresa, composta por equipe administrativa, técnicos de manutenção e profissionais de atendimento, contextualizou o escopo das operações. As receitas da organização provêm da venda de materiais hidráulicos e da prestação de serviços técnicos especializados, como instalação e manutenção.

A coleta de dados foi realizada por meio de duas frentes. A primeira consistiu em pesquisa bibliográfica, fonte de dados secundários, com consulta a livros, artigos científicos e publicações acadêmicas sobre formação de preços, gestão de custos e estratégias de precificação, para fundamentar teoricamente a análise.

A segunda frente envolveu pesquisa documental, fonte de dados primários, com informações e documentos disponibilizados pela própria empresa. Examinaram-se relatórios de faturamento, planilhas de preços, registros de custos operacionais, despesas com materiais e mão de obra, demonstrativos financeiros e controles gerenciais. Complementarmente, realizaram-se observações diretas das rotinas administrativas e operacionais.

Os dados coletados foram organizados em planilhas eletrônicas, utilizando-se o software Microsoft Excel. Essa ferramenta foi empregada para a consolidação das informações, permitindo a análise das estruturas de custos e das margens aplicadas pela empresa. A organização dos dados facilitou a identificação do método de precificação empregado.

Para a análise comparativa das estratégias de precificação, selecionaram-se dois produtos representativos das operações: uma mangueira hidráulica 1/4 sob medida e um conjunto de pistão hidráulico com seus componentes de instalação. A seleção justificou-se por serem itens frequentemente comercializados, combinarem venda de materiais com execução de serviços, e representarem 52% do faturamento.

A análise dos dados iniciou-se com o levantamento dos custos diretos associados a cada produto selecionado, incluindo aquisição de materiais, insumos de montagem e custo estimado da mão de obra técnica. Para identificar o modelo de precificação utilizado, considerou-se a forma como os preços eram definidos, observando-se a inclusão ou não de custos indiretos fixos e despesas administrativas.

Com base nos custos levantados, elaboraram-se planilhas comparativas no software Excel. Essas planilhas permitiram calcular as margens obtidas no modelo de precificação utilizado pela empresa e simular os resultados aplicando o método de precificação baseado em markup. A simulação visou comparar a abordagem atual com um modelo estruturado.

A análise dos dados ocorreu de forma descritiva e interpretativa, relacionando as evidências empíricas obtidas na empresa com os conceitos teóricos da literatura sobre formação de preços e gestão de custos. Buscou-se avaliar a coerência das práticas de precificação adotadas pela organização com os princípios teóricos.

Todas as informações disponibilizadas pela empresa foram tratadas com confidencialidade, preservando-se a identidade da organização e de seus gestores. Os dados foram utilizados exclusivamente para fins acadêmicos, respeitando os princípios éticos da pesquisa científica. O estudo não se enquadrou nas exigências de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução CNS n° 510/2016.

3. Resultados e Discussão

A empresa analisada, atuante no setor de comércio e instalação hidráulica, demonstrou um modelo de negócio híbrido, combinando a venda de peças e componentes hidráulicos, como conexões, registros e válvulas, com a prestação de serviços técnicos especializados, que incluem instalação, manutenção preventiva e corretiva de sistemas hidráulicos. Essa dualidade de operações é um fator central na complexidade da formação de preços. As atividades da organização concentram-se predominantemente no município de Jales e em cidades vizinhas do Estado de São Paulo, o que confere uma previsibilidade logística e operacional, minimizando custos de transporte e tempo de deslocamento das equipes técnicas, conforme observado nos dados operacionais da empresa.

A análise dos relatórios internos de faturamento e dos registros financeiros da empresa revelou que a receita bruta anual no ano de 2025 atingiu R$3.101.773,78. Desse montante, 55% foram provenientes da venda e comércio de peças, enquanto os 45% restantes resultaram da prestação de serviços. Essa distribuição de receita sublinha a importância de ambos os segmentos para a sustentabilidade financeira da organização, exigindo uma estratégia de precificação que contemple as particularidades de cada tipo de operação, desde a aquisição de materiais até a complexidade da mão de obra especializada.

Regime Tributário Simples Nacional

A organização encontra-se enquadrada no regime tributário do Simples Nacional, cujo limite anual de faturamento para permanência é de R$4.800.000,00. A Lei Complementar nº 123/2006 estabelece alíquotas variáveis de acordo com a faixa de faturamento acumulado nos últimos doze meses e o setor de atividade. Considerando o faturamento anual de R$3.101.773,78 em 2025, a empresa se enquadra na 5ª faixa tanto para as atividades de comércio (Anexo I) quanto para a prestação de serviços (Anexo III), o que implica diferentes percentuais de tributação efetiva sobre as receitas.

Para as atividades de comércio, com um faturamento anual de R$1.705.975,58, a alíquota efetiva calculada foi de aproximadamente 9,38%. Esse percentual representa o total de tributos a serem recolhidos sobre o faturamento mensal do comércio. No que tange à prestação de serviços, com um faturamento anual de R$1.395.798,20, a alíquota efetiva apurada foi de cerca de 13,45%. A aplicação dessas alíquotas sobre a proporcionalidade do faturamento da empresa resultou em uma carga tributária anual aproximada de R$160.020,51 para o comércio e R$187.734,86 para os serviços.

A soma dessas cargas tributárias anuais totaliza R$347.755,37, o que corresponde a aproximadamente 11,21% do faturamento bruto da empresa em 2025. Essa despesa tributária representa um componente significativo da estrutura de custos da organização, e sua correta incorporação no processo de precificação é crucial para a determinação da rentabilidade real dos produtos e serviços. A literatura, como Fabretti (2017), destaca que o Simples Nacional visa simplificar a tributação, mas a gestão de suas alíquotas efetivas ainda exige atenção para evitar distorções na análise financeira.

Estrutura de Custos e Precificação

A análise da estratégia de precificação da empresa revelou que ela adota predominantemente o custeio direto na formação dos preços de venda. Nesse método, apenas os custos diretamente atribuíveis à produção ou à execução do serviço são considerados no cálculo inicial, enquanto os custos indiretos fixos, como aluguel, energia elétrica, depreciação de máquinas e despesas administrativas, não são sistematicamente alocados aos produtos. Essa prática, embora comum para fins gerenciais por facilitar a análise da margem de contribuição, pode dificultar a mensuração da rentabilidade global da operação, conforme apontam Hansen e Mowen (2012).

Para ilustrar essa abordagem, foram analisados dois produtos representativos: uma mangueira hidráulica 1/4 sob medida e um conjunto de pistão hidráulico com seus componentes de instalação. O cálculo da mão de obra direta, com base em um salário mensal de R$3.000,00 para 220 horas de trabalho, resultou em um custo horário de R$13,64. Para a mangueira, que demanda 30 minutos de montagem, o custo da mão de obra foi de R$6,82. Já para o pistão hidráulico, que exige 120 minutos, o custo da mão de obra foi de R$27,27.

Os custos diretos totais para a mangueira hidráulica 1/4 foram de R$98,82, englobando R$60,00 para o metro da mangueira, R$30,00 para o terminal, R$6,82 para a mão de obra de montagem e R$2,00 para óleo/lubrificante. Para o conjunto de pistão hidráulico, o custo total direto foi de R$2.732,27, incluindo R$2.500,00 para o pistão, R$80,00 para conexões, R$50,00 para fixadores, R$65,00 para vedadores, R$27,27 para a mão de obra de montagem e R$10,00 para óleo/lubrificante. Esses valores representam a base sobre a qual a empresa define seus preços de venda.

A precificação atual da mangueira hidráulica 1/4 é de R$215,00, gerando uma margem de R$116,18, o que corresponde a 117,57% sobre o custo direto. Para o conjunto de pistão hidráulico, o preço de venda é de R$5.820,00, resultando em uma margem de R$3.087,73, ou 113,01% sobre o custo direto. Embora essas margens brutas pareçam elevadas, a metodologia de custeio direto não incorpora sistematicamente os tributos incidentes sobre o faturamento nem as despesas operacionais fixas, o que pode levar a uma percepção distorcida da rentabilidade real da operação.

A empresa não incorpora os tributos no cálculo inicial da margem de seus produtos. Para a mangueira hidráulica, o valor de R$24,10 em tributos não é considerado, elevando o custo com tributos para R$122,92. Para o pistão hidráulico, R$652,42 em tributos são desconsiderados, resultando em um custo com tributos de R$3.384,69. Essa omissão é uma falha significativa, pois os tributos representam uma despesa obrigatória que impacta diretamente a margem efetiva de lucro, conforme destacado por Veiga e Santos (2016), que ressaltam a importância de considerar todos os encargos para uma análise precisa da rentabilidade.

Além dos tributos, a empresa desconsidera diversas despesas operacionais fixas na formação de preços. Mensalmente, esses custos incluem R$8.000,00 para aluguel, R$2.508,20 para energia, R$200,00 para internet, R$450,00 para sistema empresarial, R$200,00 para seguro da loja e R$1.000,00 para contabilidade, totalizando R$12.358,20. Esses valores, que não são alocados aos produtos, são tratados como custos e despesas fixas do período, sendo cobertos pela margem de contribuição total da operação, o que pode mascarar a verdadeira lucratividade unitária.

Considerando o faturamento anual de R$3.101.773,78, a média mensal de faturamento é de aproximadamente R$258.481,15. As despesas operacionais fixas mensais de R$12.358,20 representam cerca de 4,78% desse faturamento. Ao somar essa porcentagem à carga tributária média de 11,21%, verifica-se que quase 15,99% do faturamento da empresa já está comprometido antes mesmo de considerar o custo direto dos produtos. Essa situação indica que a empresa opera com uma margem de segurança reduzida, o que pode comprometer sua sustentabilidade financeira em longo prazo.

A empresa vende cerca de 300 unidades de mangueiras hidráulicas 1/4 e 12 pistões hidráulicos por mês. Com base nesses volumes e nos preços atuais, a receita mensal gerada por esses dois produtos é de R$134.340,00. O custo direto total para essas vendas é de R$77.492,28, resultando em uma margem de contribuição de R$56.847,72. Ao subtrair as despesas operacionais fixas de R$12.358,20 dessa margem, o resultado operacional após custos é de R$44.489,52. A margem de contribuição total da operação é de 42,32%, e o ponto de equilíbrio mensal para os custos operacionais, considerando esses dois produtos, é de R$29.201,80.

A definição dos preços na empresa é um processo centralizado, realizado pelo proprietário em conjunto com os setores comercial e financeiro. Essa abordagem, embora valorize a experiência do gestor, carece de um método formal de precificação que incorpore de forma sistemática todos os custos e despesas. A ausência de instrumentos formais de análise aumenta o risco de distorções entre custos, preços e margens efetivamente obtidas, um comportamento recorrente em pequenas e médias empresas, conforme Assef (2013). Essa lacuna gerencial dificulta a mensuração precisa da rentabilidade e expõe a empresa a erros de precificação.

Formação de Preços pelo Método Markup

Diante das limitações do custeio direto, avaliou-se a aplicação do método de precificação baseado em markup, que consiste na aplicação de um índice multiplicador sobre o custo do produto ou serviço, incorporando despesas operacionais, tributos e a margem de lucro desejada pela empresa (Assaf Neto, 2014). Esse método permite uma análise mais estruturada, buscando assegurar que os preços de venda cubram a totalidade dos custos e garantam a sustentabilidade financeira do negócio (Assaf Neto, 2020).

Para a simulação do markup, foi adotada uma margem de lucro desejada de 35%. Essa margem foi definida considerando a necessidade de cobrir os tributos incidentes sobre o faturamento (11,21%), as despesas operacionais médias (4,78%) e gerar um resultado operacional adicional. O índice markup calculado para a empresa foi de aproximadamente 2,04, o que significa que o preço de venda deveria ser o custo multiplicado por 2,04. Esse percentual de margem representa um cenário gerencial intermediário, entre uma política mais conservadora (30%) e uma mais agressiva (40%), servindo como parâmetro para a simulação.

A aplicação do método markup resultou em preços de venda e lucros brutos significativamente superiores aos praticados atualmente. Para a mangueira hidráulica, cujo custo com tributos é de R$122,92, o preço de venda estimado com markup de 35% seria de R$250,81, gerando um lucro bruto de R$127,89 por unidade. No modelo atual, o lucro bruto era de R$92,08. Para o conjunto de pistão hidráulico, com custo com tributos de R$3.384,69, o preço de venda estimado seria de R$6.906,12, resultando em um lucro bruto de R$3.521,43, em contraste com os R$2.435,31 do modelo atual.

Essa comparação evidencia que a adoção de um método estruturado de formação de preços, como o markup, pode gerar resultados operacionais mais consistentes. A incorporação sistemática dos tributos incidentes sobre o faturamento e das despesas operacionais da empresa, juntamente com uma margem de lucro desejada, contribui para uma formação de preços mais alinhada à realidade financeira da organização. Hansen e Mowen (2012) reforçam que modelos estruturados de precificação oferecem maior controle sobre a margem de contribuição e a sustentabilidade econômica das operações, reduzindo a dependência de decisões baseadas em percepções empíricas.

No entanto, a literatura também ressalta que a precificação não deve se basear exclusivamente em custos. Autores como Kotler e Keller (2021) e Martins (2003) destacam a importância de considerar fatores de mercado, como concorrência, comportamento da demanda e posicionamento estratégico. Embora o markup ofereça vantagens financeiras, sua aplicação deve ser combinada com uma análise estratégica do mercado para evitar perdas de volume de vendas, especialmente em mercados sensíveis a preço (Assaf Neto, 2020).

A elevação dos preços de venda, embora melhore as margens, pode impactar a competitividade da empresa. É fundamental considerar a elasticidade-preço da demanda, pois aumentos podem reduzir o volume vendido, afetando clientes mais sensíveis ao custo. Assim, a aplicação do markup deve ser vista como uma referência gerencial, não um reajuste automático. Pode ser necessária a segmentação de clientes e a adoção de políticas diferenciadas de preço para contratos recorrentes ou serviços emergenciais, buscando um equilíbrio entre rentabilidade e retenção de mercado.

Em síntese, a pesquisa revelou que a empresa estudada adota um método de precificação baseado em custeio direto, o que, embora facilite a análise da margem de contribuição, desconsidera sistematicamente tributos e despesas operacionais fixas. Essa prática resulta em uma percepção distorcida da rentabilidade e expõe a empresa a riscos financeiros. A simulação com o método markup demonstrou que a incorporação desses elementos na formação dos preços gera margens de lucro mais realistas e contribui para a sustentabilidade financeira, embora a decisão final de preço deva sempre considerar também as condições de mercado e a estratégia competitiva da organização.

4. Conclusão

O presente estudo analisou a estratégia de precificação adotada por uma empresa do setor de comércio e instalação hidráulica em Jales, São Paulo, buscando compreender os critérios utilizados na definição dos preços e seus impactos na rentabilidade da operação. Verificou-se que a empresa utilizou predominantemente o custeio direto na formação de preços, considerando apenas os custos diretamente atribuíveis aos produtos e serviços. Essa prática, embora comum para fins gerenciais, resultou na desconsideração sistemática de tributos incidentes sobre o faturamento e de despesas operacionais fixas no cálculo inicial das margens, o que gerou uma percepção distorcida da rentabilidade real e expôs a organização a riscos financeiros. A simulação da aplicação do método de precificação baseado em markup demonstrou que a incorporação desses elementos, juntamente com uma margem de lucro desejada, proporcionou maior aderência entre custos, despesas e margem de lucro, contribuindo para uma formação de preços mais consistente e para a sustentabilidade financeira da empresa. Assim, a principal contribuição deste trabalho reside em evidenciar que a adoção de métodos estruturados de precificação é essencial para aprimorar a tomada de decisão gerencial e fortalecer a saúde econômica de empresas que operam em modelos de negócio híbridos.

Como limitação, destaca-se que o estudo foi realizado com base em uma única empresa e em apenas dois produtos representativos de sua operação, o que restringe a generalização dos resultados para outras organizações e segmentos. Além disso, a pesquisa concentrou-se na análise da estrutura interna de custos e da formação de preços sob a ótica econômico-financeira, sem aprofundar variáveis externas, como comportamento da demanda, percepção do cliente e comparação sistemática com concorrentes. Para pesquisas futuras, sugere-se a ampliação da amostra para outras empresas do setor, bem como a inclusão de análises comparativas com diferentes métodos de precificação e variáveis mercadológicas. A formação de preços, portanto, não deve ser tratada apenas como um procedimento operacional, mas como uma decisão estratégica fundamental para a sustentabilidade econômico-financeira das organizações, reforçando a necessidade de uma abordagem integrada entre análise interna e ambiente externo.

Referências Bibliográficas

Assaf Neto, A. 2014. Finanças corporativas e valor. 7ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.

Assaf Neto, A. 2020. Estrutura e análise de balanços, um enfoque econômico-financeiro. 12ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.

Assef, R. 2013. Guia prático de formação de preços. 4ed. Elsevier, São Paulo, SP, Brasil.

Brasil. 2006. Lei Complementar nº 123, de 14 de dezembro de 2006. Institui o Estatuto Nacional da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte; altera dispositivos das Leis nº 8.212 e 8.213, ambas de 24 de julho de 1991, da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, da Lei nº 10.189, de 14 de fevereiro de 2001, da Lei Complementar nº 63, de 11 de janeiro de 1990; e revoga as Leis nº 9.317, de 5 de dezembro de 1996, e 9.841, de 5 de outubro de 1999. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/lcp123.htm#anexo3. Acesso em: 20 fev. 2026.

CNS, 2016 [Referência completa não encontrada no documento original]

Fabretti, L. 2017. Contabilidade Tributária. 16ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.

Gil, A. C. 2019. Métodos e técnicas de pesquisa social. 7ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.

Hansen, D.R.; Mowen, M.M. 2012. Gestão de custos: contabilidade e controle. E-book. (online). Cengage Learning, São Paulo, SP, Brasil. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/books/9788522109364. Acesso em: 24 jan. 2026.

Kotler, P.; Keller, K.L. 2021. Administração de marketing. 16ed. Pearson, São Paulo, SP, Brasil.

Martins, E. 2003. Contabilidade de Custos. 9ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.

Melotto, D. G.; Dias, S. D.; Santos, T. C. 2013. Análise de custos e formação de preço: teoria e prática com base na gestão de custos de projeto. Revista Eletrônica Multidisciplinar Facear, p. 01-15.

Ross, Stephen; Westerfield, Randolph; Jordan, Bradford D. 2022. Fundamentos de administração financeira. E-book. 13. ed. Porto Alegre: Bookman. Disponível em: https://app.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788582605783/. Acesso em: 22 dez. 2025.

Silva, E. R. S.; Leite, M. S. A.; Kornaker, P. M.; Silva, K. B. 2024. Análise dos métodos de custeio e de formação de preços em micro e pequenas empresas. Congresso Brasileiro de Custos, São Paulo, SP, Brasil.

Veiga, W.E.; Santos, F.A. 2016. Contabilidade de custos: gestão em serviços, comércio e indústria. E-book. (online). Atlas, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/books/9788597008357. Acesso em: 20 jan. 2026.

Yin, R. K. 2015. Estudo de caso, planejamento e métodos. 5ed. Porto Alegre, RS, Brasil.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

Você também pode gostar

Quer ficar por dentro das nossas últimas publicações? Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade