Artigo

30 de julho de 2026

Entre o Planejado e o Executado: Fatores Organizacionais que Comprometem o Cumprimento de Cronogramas

Fernando Brito de Oliveira; Douglas Murilo Siqueira

DOI: 10.22167/2675-6528-202600792

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

O cumprimento de prazos em cronogramas de projetos representa um desafio estratégico nas organizações brasileiras. O estudo analisou as causas dos atrasos, investigando se a falha reside em deficiências técnicas de planejamento ou em variáveis comportamentais e culturais, com o objetivo de confrontar as percepções de gestores e membros das equipes de execução sobre descompassos de comunicação que comprometem a linha de base de tempo dos projetos. Para tanto, empregou-se um levantamento de método misto, que incluiu a aplicação de um formulário eletrônico a 38 respondentes (gestores e executores) e a análise qualitativa de respostas abertas para aprofundar a compreensão das nuances comportamentais. Os resultados revelaram um desalinhamento significativo entre o planejamento e a operação, indicando que a origem dos atrasos transcende o domínio técnico. Observou-se que gestores confiavam na viabilidade dos prazos, enquanto executores apontavam a falta de clareza nas tarefas e a baixa maturidade dos processos internos como geradores de retrabalho e desmotivação. Adicionalmente, executores identificaram riscos com maior frequência que gestores. Concluiu-se que a eficácia na gestão do tempo está intrinsecamente ligada a uma cultura organizacional que valoriza a proatividade, a comunicação eficiente e a capacidade de resposta a imprevistos. A pesquisa demonstrou que a ineficiência no cumprimento de prazos é alimentada por um hiato de percepção entre os níveis estratégico e operacional, sugerindo que a precisão técnica é inócua sem sensibilidade comportamental e alinhamento entre planejamento e execução.

Palavras-chave: Alinhamento estratégico; Comportamento humano; Falha de comunicação; Gestão de riscos; Liderança.

1. Introdução

O gerenciamento de cronogramas constitui-se como um dos pilares críticos na gestão de projetos contemporânea, especialmente no cenário organizacional brasileiro. Este elemento compõe, juntamente com o escopo e o custo, a tríade de restrições que baliza o desempenho de empreendimentos. Entretanto, a literatura acadêmica e a prática corporativa demonstram que a manutenção da linha de base de tempo é um dos desafios mais complexos enfrentados por gestores e equipes, conforme apontado por Vargas (2018). O Project Management Institute (PMI BRASIL, 2021) caracteriza o atraso em cronogramas como um fenômeno sistêmico de natureza multifatorial, decorrente de falhas que abrangem desde o planejamento técnico até a dinâmica do comportamento humano e da cultura organizacional.

Este cenário desafiador é acentuado por um contexto global de transformações digitais e volatilidade econômica, que exigem maior resiliência no planejamento de projetos. As organizações modernas operam em ambientes de incerteza elevada, onde a previsibilidade técnica frequentemente cede espaço à necessidade de adaptação contínua, como destaca Kerzner (2023). Nesse contexto, o descompasso entre o planejado e o efetivamente executado torna-se um risco inerente, comprometendo a eficácia e a eficiência dos projetos.

A literatura clássica sobre gestão de projetos estabelece que a precisão de um cronograma depende fundamentalmente da clareza na definição de tarefas e da identificação precoce de riscos (Vargas, 2018). Contudo, a implementação prática desses princípios frequentemente enfrenta obstáculos. Varela (2017) reforça que a comunicação ineficiente sobre prioridades e a falta de monitoramento adequado das interdependências entre tarefas são ofensores recorrentes que impactam diretamente a produtividade das equipes e, consequentemente, a pontualidade das entregas.

Para além dos fatores estritamente técnicos, a dimensão comportamental exerce um impacto direto e significativo na pontualidade das entregas de projetos. Besteiro (2012) enfatiza que o envolvimento das partes interessadas (stakeholders) e a qualidade da informação são determinantes para a fluidez dos processos. No ambiente de trabalho brasileiro, o choque geracional introduz variáveis adicionais, onde gestores podem focar-se no cumprimento de processos tradicionais, enquanto as equipes de execução demandam maior clareza de propósito e autonomia. Bergue (2021) argumenta que o comportamento organizacional no Brasil é influenciado por traços culturais que podem gerar ruídos quando a equipe não se sente partícipe da construção do cronograma. Nesses casos, podem ocorrer fenômenos como a “Síndrome do Estudante” e a “Lei de Parkinson” (Goldratt, 2011), onde a reserva de tempo é consumida por atividades não planejadas, comprometendo o plano original.

Apesar do acesso a metodologias consagradas, como o Guia PMBOK, os atrasos em cronogramas permanecem frequentes, o que evidencia uma lacuna na compreensão das causas raízes desse problema, especialmente na realidade das organizações brasileiras. Observa-se que a dificuldade em transformar falhas em aprendizado institucionalizado pode perpetuar ciclos de baixa eficiência. Souza (2022) destaca que a baixa maturidade dos processos internos, somada a um planejamento deficiente, eleva a probabilidade de descumprimento dos prazos. Diante desse cenário, torna-se necessário investigar se a eficácia na gestão do tempo está associada não apenas ao uso de softwares, mas à existência de uma cultura organizacional que incentive a proatividade e promova respostas rápidas a imprevistos.

A justificativa para este estudo pauta-se na necessidade de investigar as causas raízes dos atrasos sob uma ótica adaptada à realidade das organizações brasileiras, analisando o hiato de percepção entre quem planeja e quem executa, visto que falhas na transferência de conhecimento entre projetos contribuem para atrasos sistêmicos (Filippi, 2015). A relevância do tema é acentuada pelo custo de oportunidade, pois projetos em atraso geram desgaste reputacional, conflitos internos e podem comprometer a motivação das equipes (Prado, 2020). Assim, este trabalho propõe-se a analisar as causas raízes dos atrasos em cronogramas no cenário corporativo brasileiro, buscando compreender se tais atrasos decorrem predominantemente de deficiências técnicas de planejamento ou de variáveis comportamentais e culturais, confrontando a percepção de gestores e executores quanto à clareza do planejamento e à eficácia da comunicação, a fim de oferecer recomendações práticas que integrem a precisão técnica à sensibilidade comportamental.

2. Material e Métodos

A presente pesquisa caracterizou-se como um estudo de natureza aplicada, com abordagem descritiva e exploratória, buscando analisar as causas raízes dos atrasos em cronogramas no cenário corporativo brasileiro. O delineamento metodológico adotado foi um estudo de campo, com corte transversal, empregando uma abordagem de método misto. Esta estratégia permitiu a integração de dados quantitativos e qualitativos, visando uma compreensão abrangente do fenômeno investigado, conforme a perspectiva de Creswell (2014) sobre a complementariedade das abordagens.

A unidade de análise consistiu nas percepções de profissionais envolvidos na gestão e execução de projetos. A amostra foi de natureza não probabilística e por conveniência, selecionada a partir da rede de contatos profissionais do pesquisador. Participaram do estudo 38 indivíduos, divididos equanimemente em dois grupos: 19 gestores de projetos e 19 membros de equipes operacionais. Esta divisão paritária possibilitou o confronto sistemático das percepções entre os níveis estratégico e de execução, elemento central para o objetivo da pesquisa.

Para a coleta de dados, utilizou-se um questionário estruturado, elaborado e aplicado por meio da plataforma Google Forms. O instrumento foi composto por 28 questões fechadas, fundamentadas nas dimensões dos Fatores Críticos de Sucesso (FCS) propostos por Besteiro (2012). As respostas foram mensuradas por meio de uma escala de frequência de quatro pontos, que incluía as opções “Nunca”, “Raramente”, “Frequentemente” e “Sempre”, seguindo a recomendação de Garland (1991) para evitar a tendência central.

Os procedimentos éticos foram rigorosamente observados, garantindo a participação voluntária dos respondentes mediante a assinatura de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Assegurou-se o total anonimato dos participantes e a confidencialidade das informações coletadas, que foram utilizadas exclusivamente para os fins científicos do estudo. Antes da aplicação definitiva, realizou-se um teste piloto com um grupo de controle, permitindo ajustes semânticos nas questões e a clareza dos termos técnicos para ambos os perfis de respondentes.

A análise e o tratamento dos dados seguiram uma estratégia de triangulação, conforme preconizado por Creswell (2014). Esta abordagem permitiu que os dados quantitativos e qualitativos fossem coletados e analisados de forma complementar, potencializando as forças de cada tipo de dado. A triangulação foi fundamental para aprofundar a compreensão das causas dos atrasos, integrando diferentes perspectivas sobre o fenômeno.

Na etapa quantitativa, os dados coletados foram processados e analisados utilizando o software Microsoft Excel. Empregou-se a estatística descritiva para sumarizar as informações. A comparação direta das frequências de respostas entre os grupos de gestores e executores foi realizada para identificar disparidades de percepção em eixos temáticos como comunicação, gestão de riscos e motivação, elementos cruciais para o cumprimento de cronogramas.

A análise das respostas abertas, que complementaram o questionário, fundamentou-se na Análise de Conteúdo de Bardin (2011). Este processo foi estruturado em três fases distintas. Inicialmente, realizou-se a pré-análise, com leitura flutuante dos relatos para verificar a aderência ao tema. Em seguida, na fase de exploração do material, foram efetuadas operações de codificação, extraindo-se unidades de registro das falas dos respondentes. Por fim, no tratamento dos resultados e interpretação, os códigos foram agrupados em categorias temáticas, definidas por critério semântico.

A convergência dos dados ocorreu por meio do confronto entre os padrões estatísticos identificados na análise quantitativa e os temas emergentes dos relatos qualitativos. Esta integração permitiu que as narrativas dos participantes explicassem as causas das divergências numéricas observadas, conferindo maior profundidade à discussão sobre o viés comportamental e cultural que impacta os atrasos em cronogramas. A triangulação, portanto, fortaleceu a validade interna do estudo.

Reconhece-se como limitação do estudo a utilização de uma amostra por conveniência, o que restringe a generalização dos resultados para o universo organizacional brasileiro em sua totalidade. Contudo, os indícios obtidos são relevantes para o contexto específico investigado, oferecendo insights valiosos sobre as dinâmicas de gestão de projetos. A pesquisa, apesar da limitação amostral, contribui para a compreensão dos fatores organizacionais que comprometem o cumprimento de cronogramas.

3. Resultados e Discussão

A análise dos dados coletados revelou um panorama complexo sobre os atrasos em cronogramas de projetos, evidenciando que a problemática transcende as deficiências técnicas de planejamento e se enraíza em variáveis comportamentais e culturais. Os achados demonstram um significativo desalinhamento de percepções entre gestores e membros das equipes de execução, o que compromete diretamente a linha de base de tempo dos projetos. A pesquisa, que envolveu 38 respondentes divididos igualmente entre gestores e executores, permitiu confrontar essas visões e identificar as causas raízes dos descompassos, conforme o objetivo central do estudo. Os resultados foram processados por meio de estatística descritiva e análise de conteúdo, permitindo uma triangulação robusta dos achados.

A caracterização demográfica da amostra, composta por 19 gestores e 19 executores, revelou um predomínio da Geração Y (Millennials) entre os gestores, representando 73,7% desse grupo. Em contraste, o grupo de executores apresentou uma distribuição etária mais heterogênea, com 31,5% da Geração X, 36,8% da Geração Y e 21,2% da Geração Z. Essa diversidade geracional sugere um desafio potencial de alinhamento cultural, uma vez que diferentes gerações frequentemente possuem expectativas distintas quanto à comunicação, ao propósito no trabalho e à autonomia. Tais diferenças podem influenciar diretamente a forma como os prazos são negociados, compreendidos e, consequentemente, cumpridos ou não, conforme indicado pela literatura sobre comportamento organizacional.

No que tange à percepção sobre a viabilidade e clareza do planejamento, observou-se uma disparidade notável entre os grupos. Enquanto 63,20% dos gestores consideravam os prazos “Sempre” ou “Frequentemente” cumpríveis, apenas 52,60% dos executores compartilhavam dessa visão. Uma diferença ainda mais expressiva foi identificada na clareza da comunicação: 58% dos gestores percebiam que o cronograma era explicado de forma clara “Frequentemente”, ao passo que somente 37% dos executores tinham a mesma percepção. Essa diferença de 21 pontos percentuais no entendimento da clareza comunicacional é um indicativo de ruído que se manifesta em um ciclo de retrabalho, impactando a linha de base de tempo dos projetos.

A análise qualitativa aprofundou essa desconexão, revelando que os executores frequentemente relatam que “as tarefas são descritas de forma genérica, sem detalhamento técnico”. Essa constatação corrobora a perspectiva de Vargas (2018), que enfatiza a necessidade de clareza na definição das atividades para garantir a precisão do cronograma. A falta de detalhamento técnico na base da execução, em contraste com a visão macro dos gestores, reflete uma falha no monitoramento das interdependências, conforme descrito por Varela (2017). Tal cenário pode levar ao desperdício da margem de segurança em atividades mal compreendidas, um fenômeno alinhado à “Lei de Parkinson” de Goldratt (2011), onde o tempo é consumido por atividades não planejadas.

A identificação de riscos e a gestão de imprevistos também apresentaram um hiato significativo entre os grupos. Os executores demonstraram uma proatividade muito maior na identificação antecipada de riscos, com 47,4% deles afirmando que os riscos são identificados “Sempre”, em comparação com apenas 10,5% dos gestores. Em contrapartida, 52,6% dos gestores indicaram que os riscos são identificados “Raramente”, enquanto 26,3% dos executores reportaram o mesmo. Essa discrepância sugere que quem está na “ponta” da operação lida diariamente com a escassez de recursos e as interferências externas, identificando os problemas com maior frequência e antecedência.

Os relatos qualitativos dos executores reforçam que “os riscos são avisados, mas a gestão prefere manter o cronograma original para não admitir o atraso ao cliente”. Essa postura da gestão, que prioriza a manutenção do plano original em detrimento da adaptação aos riscos identificados, contribui para uma cultura reativa. A pesquisa revelou que 58% dos gestores e 42,1% dos executores consideram que os processos organizados para lidar com imprevistos são “Raramente” eficazes. Essa predominância de processos reativos, ou de “combate a incêndios”, impede a mitigação antecipada de problemas e transforma o atraso em uma “profecia autorrealizável”, conforme a análise de Souza (2022), que destaca a baixa maturidade dos processos internos.

Em relação aos fatores motivacionais e ao clima organizacional, os resultados indicaram prioridades distintas entre gestores e executores. Os gestores valorizaram predominantemente o “Apoio da Liderança” (36,8%), enquanto os executores priorizaram o “Ambiente de Trabalho Colaborativo” (47,4%). Essa diferença de foco sugere que a gestão tende a abordar os problemas de cronograma por meio de uma estrutura hierárquica e cobrança vertical, enquanto a equipe operacional busca coesão horizontal para superar impedimentos técnicos. Apenas 5,3% dos gestores consideraram o ambiente colaborativo como um fator motivacional prioritário, em contraste com a percepção dos executores.

Essa dissonância motivacional é particularmente relevante ao considerar a composição geracional da amostra. Bergue (2021) argumenta que a cultura organizacional brasileira, ao privilegiar relações pessoais, pode gerar desmotivação quando a liderança foca excessivamente no controle e negligencia o ambiente colaborativo. As gerações mais jovens (Y e Z), que representam a base da execução, demandam maior autonomia e um senso de propósito mais claro, o que não é atendido por um modelo de gestão que se concentra apenas na hierarquia e no comando. A falta de reconhecimento público também foi um fator menos valorizado pelos gestores (5,3%) em comparação com os executores (15,8%).

A triangulação dos dados quantitativos e qualitativos permitiu a emergência de três categorias centrais que sintetizam os achados. A primeira, “Ilusão de Controle”, descreve a crença dos gestores na viabilidade do plano, ignorando as variáveis operacionais. Um gestor exemplificou essa percepção ao afirmar que “O cronograma é feito para o cliente ver, não para a gente seguir”, o que se alinha aos 63,2% dos gestores que percebem os prazos como cumpríveis. Essa ilusão impede uma avaliação realista dos desafios e contribui para a rigidez dos cronogramas.

A segunda categoria, “Silenciamento Operacional”, refere-se à situação em que os riscos detectados na execução não são comunicados ou são ignorados pela gestão. Um executor ilustrou essa dinâmica ao relatar: “Avisamos que ia atrasar por falta de material, mas o cronograma não foi alterado”. Este achado é consistente com os 47,4% dos executores que identificam riscos “Sempre”, mas cujas informações não são efetivamente incorporadas ao planejamento. Esse silenciamento impede a ação proativa e perpetua a cultura reativa na gestão de imprevistos.

A terceira categoria, “Dissonância Motivacional”, reflete o descompasso entre o foco da gestão na liderança vertical e a busca da equipe por colaboração horizontal. A fala de um executor, “Falta a gerência entender que se a gente não se ajudar tecnicamente, o líder sozinho não entrega”, sintetiza essa necessidade de apoio mútuo e empoderamento. Esse ponto é corroborado pelos 47,4% dos executores que priorizam um ambiente colaborativo, em contraste com a preferência dos gestores pelo apoio da liderança, evidenciando uma lacuna na compreensão das necessidades motivacionais e de suporte da equipe.

Para mitigar os atrasos e promover a resiliência dos cronogramas, os achados sugerem a transição de um modelo de “comando e controle” para um de facilitação, especialmente para os gestores. A implementação de um planejamento participativo, onde os executores validam a realidade dos prazos antes da publicação final do cronograma, pode reduzir significativamente a “Ilusão de Controle”. Essa abordagem promove o alinhamento de expectativas e a corresponsabilidade, integrando a inteligência operacional ao processo de planejamento.

Adicionalmente, é fundamental institucionalizar o reporte proativo de riscos na “ponta” da execução. A criação de um “Semáforo de Riscos”, um canal simples para que os executores sinalizem impedimentos sem receio de represálias, pode combater o “Silenciamento Operacional”. Essa prática incentivaria a segurança psicológica e o aprendizado com o erro, transformando atrasos em oportunidades de melhoria contínua, em vez de eventos a serem ocultados ou punidos. A cultura organizacional deve valorizar a proatividade e a capacidade de resposta a imprevistos, como um modelo dinâmico de aprendizado, e não uma ferramenta estática de controle, conforme Kerzner (2023).

A promoção de uma cultura organizacional que valorize a segurança psicológica e o aprendizado com o erro é crucial. Sessões de “Lições Aprendidas Reais” focadas em “O que o processo nos impediu de fazer?” em vez de “Quem foi o responsável pelo atraso?” podem fomentar um ambiente de confiança e colaboração. A implementação de rituais de comunicação horizontal, como reuniões diárias curtas focadas em progresso e impedimentos técnicos, pode resolver a “Dissonância Motivacional”, garantindo que a equipe se sinta partícipe e que os problemas sejam resolvidos coletivamente, em vez de serem impostos verticalmente.

Por fim, a adoção de uma abordagem compartilhada de riscos e contingências é essencial. Em vez de cada tarefa ter uma “gordura” escondida, a criação de um “Pulmão do Projeto” visível a todos, onde o tempo extra é utilizado apenas para imprevistos reais validados coletivamente, pode otimizar a gestão do tempo e dos recursos. Essa prática não apenas aumenta a transparência, mas também fortalece o senso de equipe e a responsabilidade compartilhada, transformando o cronograma em uma ferramenta de sucesso e não em uma “profecia autorrealizável” de atraso. A eficácia na gestão do tempo, portanto, não reside na sofisticação de softwares, mas na convergência entre o planejamento e a realidade da execução, sustentada por uma cultura organizacional que valoriza a comunicação eficiente, a proatividade e a capacidade de resposta a imprevistos, integrando precisão técnica e sensibilidade comportamental.

4. Conclusão

O presente estudo buscou analisar as causas dos atrasos em cronogramas no contexto corporativo brasileiro, investigando a predominância de deficiências técnicas ou variáveis comportamentais e culturais, e confrontando as percepções de gestores e executores. Verificou-se que os atrasos transcendem o domínio técnico, sendo intrinsecamente ligados a um desalinhamento significativo entre o planejamento e a execução. Identificou-se que gestores frequentemente superestimavam a viabilidade dos prazos e a clareza da comunicação, enquanto executores reportavam falta de detalhamento nas tarefas e baixa maturidade dos processos internos, gerando retrabalho. Observou-se, ainda, uma maior proatividade dos executores na identificação de riscos, os quais, contudo, eram frequentemente silenciados ou ignorados pela gestão, perpetuando uma cultura reativa. A dissonância motivacional, com gestores focando no apoio da liderança e executores na colaboração, também se mostrou um fator crítico. A pesquisa demonstrou que a eficácia na gestão do tempo não reside apenas na sofisticação de ferramentas, mas na convergência entre o planejamento e a realidade da execução, sustentada por uma cultura organizacional que valoriza a comunicação eficiente, a proatividade e a capacidade de resposta a imprevistos.

Reconhece-se que a limitação amostral, decorrente do uso de uma amostra por conveniência, restringe a generalização dos resultados para o universo organizacional brasileiro. Sugere-se que estudos futuros expandam o escopo para análises longitudinais e investiguem o impacto da Inteligência Artificial na redução da reatividade gerencial identificada. Para mitigar os atrasos e promover a resiliência dos cronogramas, propõe-se a transição de um modelo de comando e controle para um de facilitação, com planejamento participativo e institucionalização do reporte proativo de riscos. A promoção de uma cultura organizacional que valorize a segurança psicológica e o aprendizado com o erro, juntamente com rituais de comunicação horizontal e uma abordagem compartilhada de riscos, é fundamental para transformar o cronograma em uma ferramenta de sucesso e não em uma profecia autorrealizável de atraso.

Referências Bibliográficas

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VARGAS, Ricardo Viana. Gerenciamento de projetos: estabelecendo diferenciais competitivos. 9. ed. Rio de Janeiro: Brasport, 2018.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

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