Artigo

05 de agosto de 2026

Engajamento de “stakeholders” ambientais em áreas de vulnerabilidade socioambientais no município de São Gonçalo

Joyce Barreto da Silva; Andréia Abrahão Sant’Anna

DOI: 10.22167/2675-6528-202601014

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A crescente complexidade dos desafios ambientais em contextos de vulnerabilidade socioambiental evidenciou a necessidade de aprimorar a articulação entre os diferentes atores envolvidos em projetos ambientais. O estudo objetivou analisar as dinâmicas de identificação, engajamento e articulação de “stakeholders” em projetos socioambientais em áreas de vulnerabilidade no município de São Gonçalo, a fim de propor diretrizes que contribuam para a gestão mais eficaz desses atores. Para isso, adotou-se uma pesquisa de natureza aplicada, com abordagem mista e predominância qualitativa, utilizando questionário estruturado como principal instrumento de coleta de dados, complementado por análise de conteúdo. A metodologia incorporou princípios do Design Thinking e ferramentas clássicas de gestão de stakeholders, culminando na proposição do framework Análise R.A.I.Z. (Reconhecer, Analisar, Integrar e Zelar). Os resultados revelaram que as principais barreiras ao engajamento estavam associadas à fragilidade dos canais de comunicação, à baixa articulação institucional e à participação restrita da comunidade nos processos decisórios. Observou-se uma assimetria de poder, com concentração em atores institucionais e baixa influência dos grupos mais impactados pelas problemáticas ambientais, apesar do alto interesse potencial da população. Concluiu-se que o engajamento efetivo depende da existência de estruturas organizadas de comunicação, articulação e continuidade, sendo o modelo R.A.I.Z. uma contribuição relevante para a gestão de projetos em contextos complexos, capaz de promover maior integração entre os atores e ampliar a efetividade das iniciativas ambientais.

Palavras-chave: Comunicação comunitária; Design Thinking; Gestão de projetos; Participação social; Vulnerabilidade socioambiental.

1. Introdução

A intensificação dos desafios ambientais representa uma das questões mais prementes do século XXI, especialmente em contextos de vulnerabilidade socioambiental. Nesses cenários, a degradação ecológica e as desigualdades sociais se entrelaçam, afetando desproporcionalmente as populações marginalizadas (Acselrad, 2009; Bullard, 2019). No Brasil, territórios urbanos periféricos são marcados por carências estruturais que limitam o acesso a direitos básicos e a um ambiente equilibrado. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022) e do Trata Brasil (2024) revelam que milhões de brasileiros vivem sem saneamento básico adequado, com moradias precárias e expostos a riscos ambientais. Essa complexidade exige que a gestão de projetos ambientais transcenda a dimensão técnica, incorporando compreensão profunda das dinâmicas sociais, políticas e históricas.

A compreensão dessas desigualdades é aprofundada pelo conceito de racismo ambiental, que expõe como os impactos negativos da degradação ambiental são distribuídos de forma assimétrica, recaindo sobre comunidades negras, indígenas e de baixa renda (Bullard, 2019; Almeida, 2019). Este fenômeno é resultado de processos históricos de exclusão e marginalização. A justiça ambiental, por sua vez, emerge como um referencial que busca reconhecer e combater essas disparidades, promovendo a equidade na distribuição de benefícios e ônus ambientais e garantindo o acesso a um meio ambiente saudável (Herculano, 2001; Temper et al., 2018). Essa perspectiva interseccional é crucial para analisar as relações de poder e as estruturas que condicionam a participação e o engajamento dos atores.

No âmbito da gestão de projetos, a efetividade das iniciativas em contextos complexos depende intrinsecamente da capacidade de identificar, analisar e engajar os diversos “stakeholders” envolvidos. O conceito de “stakeholder”, conforme proposto por Freeman (2010), abrange qualquer indivíduo ou grupo que pode afetar ou ser afetado por um projeto ou organização. A gestão eficaz desses atores é reconhecida como um fator crítico de sucesso, especialmente em ambientes de alta incerteza e complexidade, nos quais a colaboração e a articulação são essenciais para a sustentabilidade das iniciativas (Eskerod e Larsen, 2017; Project Management Institute [PMI], 2021). Contudo, em áreas de vulnerabilidade socioambiental, o engajamento de stakeholders enfrenta barreiras adicionais, como a baixa confiança institucional, a fragilidade dos canais de comunicação e a limitada participação da comunidade nos processos decisórios, o que compromete a legitimidade e a continuidade das ações (Bryson, 2004; Reed et al., 2009; Ansell e Torfing, 2021). A superação desses obstáculos exige abordagens de gestão adaptadas às realidades locais, promovendo a inclusão ativa.

O município de São Gonçalo, no estado do Rio de Janeiro, serve como um estudo de caso emblemático para ilustrar as complexidades do engajamento de stakeholders em áreas de vulnerabilidade socioambiental. A região do antigo Lixão de Itaoca, por exemplo, representa um legado de décadas de descarte inadequado de resíduos, cujo encerramento em 2012 não foi acompanhado por políticas públicas efetivas de inclusão socioeconômica para a população local, majoritariamente composta por ex-catadores e suas famílias (Queiroz, 2022; Medeiros, 2025). Esse cenário resultou na perpetuação de condições de extrema precariedade, caracterizadas pela ausência de saneamento básico, insegurança alimentar e moradias inadequadas, configurando uma violação sistemática de direitos humanos (Casa Fluminense, 2023). Dados do Trata Brasil (2025) confirmam que São Gonçalo ainda apresenta baixos índices de cobertura e tratamento de esgoto, além de elevadas taxas de desigualdade socioeconômica, o que acentua a complexidade dos desafios ambientais e sociais. Tais indicadores reforçam a necessidade de estratégias de engajamento que considerem as assimetrias de poder e os interesses divergentes dos atores.

A complexidade dos desafios ambientais em contextos de vulnerabilidade socioambiental, aliada à lacuna na articulação eficaz entre atores, evidencia a necessidade de abordagens que promovam um engajamento mais estruturado e inclusivo. A relevância deste estudo reside na contribuição teórica sobre a gestão de stakeholders em cenários complexos e na oferta de subsídios práticos para a formulação de estratégias que potencializem a efetividade de iniciativas socioambientais. Dessa forma, o presente estudo objetiva analisar as dinâmicas de identificação, engajamento e articulação de “stakeholders” em projetos socioambientais em áreas de vulnerabilidade no município de São Gonçalo, visando propor diretrizes que contribuam para a gestão mais eficaz desses atores.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de natureza aplicada, com abordagem mista e predominância qualitativa. Os objetivos foram descritivo-analíticos, orientados para a compreensão das dinâmicas de engajamento de “stakeholders” em projetos ambientais desenvolvidos em contextos de vulnerabilidade socioambiental. Essa escolha metodológica justificou-se pela necessidade de interpretar fenômenos complexos, que envolvem múltiplos atores, relações sociais e condicionantes territoriais, os quais não são plenamente captáveis por métodos exclusivamente quantitativos (Creswell e Creswell, 2022). A abordagem mista permitiu uma visão abrangente, integrando diferentes perspectivas para a análise do problema.

Do ponto de vista dos procedimentos técnicos, a pesquisa combinou elementos de estudo de caso e pesquisa participante. O estudo de caso buscou compreender um contexto específico, o município de São Gonçalo, no Rio de Janeiro. A pesquisa participante, por sua vez, aproximou-se das dinâmicas locais, considerando as percepções, experiências e interações entre os diversos atores envolvidos (Yin, 2017; Thiollent, 2018). Essa combinação foi considerada adequada para analisar fenômenos contemporâneos inseridos em contextos reais, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o ambiente não estão claramente definidos.

O estudo foi realizado no município de São Gonçalo, estado do Rio de Janeiro, um território marcado por vulnerabilidade socioambiental, conforme destacado na introdução. A unidade de análise central foram as dinâmicas de identificação, engajamento e articulação de “stakeholders” em projetos socioambientais. A coleta de dados ocorreu entre 19 de janeiro de 2026 e 06 de fevereiro de 2026, período em que se buscou captar as percepções e interações dos atores locais. Esse recorte temporal e geográfico permitiu uma análise aprofundada das especificidades do contexto.

A população de referência para o estudo foi a estimada para o município de São Gonçalo, de aproximadamente 960 mil habitantes (IBGE, 2025). A amostra foi composta por 102 respondentes, obtida por conveniência, característica comum em pesquisas exploratórias. Embora essa amostra não tenha pretensão de generalização estatística para toda a população, os dados foram considerados relevantes para identificar tendências e padrões de engajamento dos “stakeholders” ambientais no território analisado. Os participantes foram selecionados por meio da divulgação do questionário em redes sociais, buscando ampliar o alcance a diferentes perfis de “stakeholders”.

O principal instrumento de coleta de dados foi um questionário estruturado, detalhado no Apêndice A do trabalho original. Este questionário foi concebido para levantar percepções e comportamentos dos participantes, sendo uma ferramenta amplamente utilizada em pesquisas sociais aplicadas (Gil, 2019). As questões abordaram o perfil dos respondentes, a percepção sobre o território, a participação e o engajamento em projetos ambientais, a comunicação e articulação entre atores, e perspectivas de melhoria e engajamento futuro. A estrutura do questionário visou captar informações relevantes para os objetivos do estudo.

Complementarmente ao questionário, a coleta de dados utilizou observação participante para compreender as dinâmicas locais e interações entre atores. Realizou-se também análise documental, incluindo relatórios e registros institucionais de projetos ambientais. Registros de reuniões e interações, quando disponíveis, foram consultados para complementar a compreensão dos processos de articulação entre “stakeholders”. Antes da aplicação definitiva, o questionário foi submetido a um pré-teste com dez participantes (Apêndice B), visando avaliar a clareza, adequação das respostas e tempo de preenchimento, procedimento que aprimorou a validade e confiabilidade do instrumento (Malhotra, 2019; Gil, 2019).

A construção do instrumento de coleta foi guiada por uma matriz de rastreabilidade e constructos (Apêndice C), alinhada ao modelo analítico R.A.I.Z., que organiza o processo de engajamento em quatro dimensões: Reconhecer, Analisar, Integrar e Zelar. Essa matriz estabeleceu a correspondência entre os objetivos da pesquisa, os constructos teóricos, as variáveis analisadas e as questões do questionário, assegurando coerência entre o referencial teórico e a operacionalização empírica (Creswell e Creswell, 2022; Gil, 2019). Ferramentas digitais, como o Google “My Maps”, foram empregadas para estruturar o mapeamento de “stakeholders” e iniciativas ambientais, auxiliando na sistematização espacial das informações e na identificação de padrões de atuação.

A análise dos dados qualitativos foi conduzida com base na técnica de análise de conteúdo, conforme proposta por Bardin (2015). Esse método permitiu a organização, categorização e interpretação dos dados a partir de unidades de sentido. O processo analítico envolveu etapas de pré-análise, exploração do material coletado e tratamento dos resultados. Isso possibilitou a identificação de categorias relacionadas a dificuldades de engajamento, formas de comunicação, relações institucionais e oportunidades de articulação, fornecendo uma compreensão aprofundada das dinâmicas observadas (Bardin, 2015; Flick, 2022).

Os dados quantitativos, obtidos do questionário, foram utilizados de forma complementar, por meio de análise descritiva simples, incluindo frequências e percentuais. O objetivo foi apoiar a interpretação dos achados qualitativos, fornecendo um panorama numérico das percepções (Gil, 2019; Creswell e Creswell, 2022). Adicionalmente, ferramentas clássicas da gestão de “stakeholders”, como a matriz poder-interesse e a matriz de saliência, foram empregadas. Essas matrizes consideram atributos como poder, legitimidade e urgência na priorização dos atores (Freeman, 2010; Mitchell et al., 1997; PMI, 2021), permitindo estruturar a análise e propor estratégias de engajamento mais aderentes ao contexto.

Do ponto de vista ético, a pesquisa observou os princípios de confidencialidade e anonimato dos participantes, garantindo que nenhuma informação individual ou institucional fosse divulgada. As informações coletadas foram utilizadas exclusivamente para fins acadêmicos, com o devido cuidado na interpretação e apresentação dos resultados. Todos os participantes tiveram acesso ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) antes de responderem ao questionário, assegurando a voluntariedade da participação e o tratamento ético dos dados. O Formulário de Descrição Ética (FDE) foi preenchido, e o estudo foi dispensado de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), por envolver coleta de percepções sem identificação ou dados sensíveis.

A metodologia incorporou princípios do “Design Thinking” (Brown, 2009; Liedtka, 2018) como referencial orientador, especialmente no que tange à centralidade do usuário e à construção colaborativa de soluções. Foram consideradas, de forma adaptada, as etapas de empatia, definição e ideação, com o objetivo de compreender o problema e estruturar possíveis soluções para o engajamento de “stakeholders”. As etapas de prototipagem e teste, embora inicialmente previstas, não foram integralmente executadas no campo. Essa limitação ocorreu devido a restrições operacionais relacionadas ao acesso e à disponibilidade dos participantes, sendo essas etapas tratadas como desdobramentos para futuras investigações.

3. Resultados e Discussão

A análise dos resultados obtidos permitiu uma compreensão aprofundada das dinâmicas de engajamento de *stakeholders* em projetos ambientais no município de São Gonçalo, um território caracterizado por significativa vulnerabilidade socioambiental. Inicialmente, o perfil dos respondentes e sua relação com o território foram examinados para contextualizar as percepções e experiências coletadas.

Conforme apresentado na Tabela 1, a amostra de 102 respondentes revelou uma predominância de moradores da comunidade, representando 66,7% do total. Essa alta representatividade de indivíduos diretamente inseridos no contexto local é um ponto crucial para a validade ecológica do estudo, pois as percepções e os dados coletados refletem vivências autênticas e imediatas dos desafios socioambientais. A literatura sobre participação social frequentemente enfatiza a importância da voz local para a construção de soluções eficazes e sustentáveis (Reed et al., 2009; Arnstein, 1969). A forte aderência territorial da amostra, portanto, garantiu que as informações fossem enraizadas na realidade do município, conferindo maior credibilidade aos achados qualitativos. Contudo, a menor participação de representantes de instituições públicas (5,9%) e de ONGs/coletivos (17,6%) pode ser interpretada como uma limitação na diversidade de perspectivas estratégicas. Essa assimetria na composição da amostra sugere que, embora a visão da comunidade seja robusta, a compreensão das dinâmicas institucionais e de governança pode ser menos abrangente, um aspecto que merece atenção em futuras investigações. A diversidade de atores, incluindo acadêmicos e profissionais do setor privado na categoria “Não informado/outros”, embora pequena, adiciona nuances à análise, reforçando a complexidade do ecossistema de *stakeholders* em São Gonçalo.

Tabela 1. Identificação dos respondentes

Categoria

n

%

Morador(a) da comunidade

68

66,7%

Integrante de ONG / coletivo

18

17,6%

Instituição pública

6

5,9%

Liderança comunitária

5

4,9%

Não informado/outros

5

4,9%

Total

102

100%

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A análise do vínculo dos respondentes com o território, conforme a Tabela 2, reforçou a consistência dos dados, com 86,3% dos participantes possuindo um vínculo direto, ou seja, morando ou atuando diariamente no local. Esse achado é fundamental, pois a experiência concreta e contínua com os impactos ambientais e sociais tende a gerar um engajamento mais profundo e uma percepção mais aguçada das necessidades locais. Reed et al. (2009) argumentam que o engajamento é significativamente mais eficaz quando os indivíduos são diretamente afetados e, consequentemente, têm um interesse intrínseco na resolução dos problemas. A predominância de vínculos diretos valida a profundidade das informações coletadas, permitindo uma análise que transcende observações superficiais e se aprofunda nas complexidades do cotidiano dos moradores. A implicação prática desse resultado é que qualquer estratégia de engajamento deve priorizar e valorizar o conhecimento local e a experiência vivida, reconhecendo-os como ativos indispensáveis para a formulação de projetos ambientais verdadeiramente relevantes e sustentáveis. Ignorar essa base de conhecimento direto pode levar a soluções descontextualizadas e ineficazes, como frequentemente ocorre em projetos top-down.

O tempo de atuação dos respondentes no território, detalhado na Tabela 3, revelou que a vasta maioria (82,4%) possui mais de 10 anos de vivência em São Gonçalo. Esse elevado nível de permanência é um indicativo de que os participantes detêm uma memória histórica e uma compreensão evoluída das dinâmicas socioambientais locais. A experiência acumulada ao longo de décadas permite uma visão mais crítica sobre a descontinuidade de políticas públicas, a persistência de problemas e a evolução das relações entre os diferentes atores. Creswell e Creswell (2022) destacam que, em pesquisas qualitativas, a profundidade da experiência dos participantes é um fator crucial para a qualidade e a riqueza das informações. A vivência prolongada no território confere aos respondentes uma autoridade epistêmica sobre as questões ambientais, permitindo-lhes identificar padrões, causas e consequências que seriam inacessíveis a observadores externos ou a indivíduos com menor tempo de residência. Para a gestão de projetos, isso implica a necessidade de incorporar essa sabedoria local no planejamento e na execução, reconhecendo que as soluções mais duradouras emergem da compreensão histórica e da capacidade de adaptação às mudanças do contexto.

A percepção de vulnerabilidade socioambiental, apresentada na Tabela 4, confirmou que 61,8% dos respondentes consideram o local onde residem como área de risco social. Esse dado corrobora a premissa inicial do estudo sobre a vulnerabilidade do município de São Gonçalo e alinha-se à literatura de justiça ambiental. Acselrad (2009) e Bullard (2019) argumentam que populações em contextos periféricos e de baixa renda são desproporcionalmente afetadas por impactos ambientais negativos, desenvolvendo uma consciência aguda sobre os riscos e a ausência de infraestrutura adequada. A alta percepção de risco não é apenas um dado estatístico, mas um reflexo da realidade vivida, que inclui a exposição a desastres naturais, a precariedade do saneamento básico e a falta de acesso a serviços essenciais. Essa consciência coletiva da vulnerabilidade pode ser um poderoso catalisador para o engajamento, desde que existam canais e estruturas que permitam transformar essa percepção em ação. A implicação é que projetos ambientais nesses contextos não podem ser meramente técnicos; eles devem ser intrinsecamente sociais, abordando as raízes da vulnerabilidade e empoderando as comunidades a se tornarem agentes de mudança.

Em síntese, a seção inicial de caracterização dos respondentes e do território demonstrou que a amostra é composta por indivíduos com forte vínculo territorial, elevada permanência e uma percepção acentuada de vulnerabilidade. Esses elementos, embora limitem a diversidade de perfis institucionais, fortalecem a validade dos dados sob a perspectiva da comunidade, que é o foco central da pesquisa. Os achados iniciais validam a abordagem metodológica mista, que buscou captar a complexidade dos fenômenos por meio de uma lente qualitativa robusta, complementada por dados quantitativos descritivos.

Os problemas ambientais percebidos no território, conforme a Tabela 2, revelaram que o descarte irregular de lixo (26,3%), a falta de atuação do governo (21,8%) e a falta de educação ambiental (17,3%) são as questões mais proeminentes. Esses resultados não apenas indicam problemas ambientais específicos, mas também apontam para limitações estruturais e de governança que permeiam o território. O descarte irregular de resíduos, por exemplo, não é apenas um comportamento individual, mas um sintoma da insuficiência de infraestrutura de coleta e tratamento, bem como da ausência de políticas públicas eficazes. A percepção de “falta de atuação do governo” é um reflexo direto da lacuna entre as necessidades da comunidade e a capacidade ou vontade do poder público em respondê-las, um achado consistente com estudos sobre racismo ambiental e exclusão social em territórios vulneráveis (Acselrad, 2009; Medeiros, 2025).

A interdependência entre infraestrutura urbana e qualidade ambiental é reforçada pela alta incidência de alagamentos (14,7%) e poluição de rios (12,2%), problemas que frequentemente resultam da urbanização desordenada e da ausência de saneamento básico. Esses achados dialogam com os dados do Trata Brasil (2025), que indicam baixos índices de cobertura e tratamento de esgoto em São Gonçalo. A falta de educação ambiental, por sua vez, pode ser tanto uma causa quanto uma consequência da desarticulação, pois a conscientização é fundamental para a participação ativa e para a adoção de práticas sustentáveis. A implicação prática desses resultados é que as intervenções ambientais em São Gonçalo devem ser holísticas, abordando não apenas os sintomas, mas as causas estruturais dos problemas, integrando aspectos de infraestrutura, governança e educação. A identificação dessas prioridades oferece um direcionamento claro para a formulação de projetos que sejam verdadeiramente responsivos às necessidades locais e que busquem romper com ciclos históricos de precarização.

Tabela 2. Problemas ambientais percebidos

Problema

n

%

Descarte irregular de lixo

82

26,3%

Falta de atuação do governo

68

21,8%

Falta de educação ambiental

54

17,3%

Alagamentos

46

14,7%

Poluição de rios

38

12,2%

Falta de coleta seletiva

24

7,7%

Total

312

100%

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A percepção dos respondentes sobre o grau de escuta da comunidade em projetos ambientais, conforme a Tabela 3, é alarmante: 59,8% afirmaram que a comunidade “nunca” é ouvida, e 26,5% que é “raramente” ouvida. Essa concentração de respostas nas categorias mais negativas indica um distanciamento profundo entre a comunidade e os mecanismos de decisão, fragilizando a legitimidade e a efetividade das iniciativas ambientais. A ausência de espaços efetivos de escuta é uma barreira fundamental para o engajamento, pois impede que as demandas, conhecimentos e prioridades locais sejam incorporados ao planejamento e à execução dos projetos. Bryson (2004) enfatiza que a escuta ativa é um pilar da governança participativa, essencial para construir confiança e garantir que as ações desenvolvidas sejam relevantes e sustentáveis. Quando a comunidade não se sente ouvida, o sentimento de pertencimento e a motivação para participar diminuem drasticamente, resultando em projetos que não geram valor real para os beneficiários. A implicação prática é a necessidade urgente de criar e institucionalizar canais de diálogo bidirecional, onde a voz da comunidade seja não apenas ouvida, mas ativamente considerada e integrada nos processos decisórios, promovendo a co-criação de soluções e o empoderamento local.

Tabela 3. Escuta da comunidade

Frequência

n

%

Nunca

61

59,8%

Raramente

27

26,5%

Às vezes

10

9,8%

Frequentemente

3

2,9%

Sempre

1

1,0%

Total

102

100%

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A Tabela 4, que avaliou o nível de participação da comunidade nos projetos, reforça a leitura anterior, com 52,9% dos respondentes indicando um nível “muito baixo” e 31,4% um nível “baixo”. Essa predominância de baixa participação sugere que, mesmo quando há alguma forma de envolvimento, ele tende a ser pontual, superficial e pouco estruturado. Reed et al. (2009) destacam que a participação efetiva vai além da mera presença em reuniões; ela exige a inclusão ativa dos diferentes grupos em todas as etapas do projeto, desde o planejamento até a avaliação. A ausência de mecanismos consistentes de integração compromete a continuidade das iniciativas e reduz seu impacto a longo prazo. Essa configuração é um sintoma de uma abordagem de gestão de projetos que não prioriza a colaboração e a inclusão, resultando em soluções que podem não ser sustentáveis ou que não atendem às necessidades reais da população. A lacuna entre a comunidade e os processos decisórios, claramente identificada, aponta para a necessidade de intervenções que não apenas abram espaços formais, mas que garantam a qualidade e a profundidade da participação, transformando o engajamento de uma atividade passiva em um processo ativo e transformador.

Tabela 4. Nível de participação

Nível

n

%

Muito baixo

54

52,9%

Baixo

32

31,4%

Médio

10

9,8%

Alto

4

3,9%

Muito alto

2

2,0%

Total

102

100%

Fonte: Resultados originais da pesquisa

As principais barreiras ao engajamento, conforme a Tabela 5, foram identificadas como falta de informação (30,5%), pouco apoio do poder público (24,7%), falta de recursos (18,5%) e pouca articulação entre instituições (13,9%). Esses achados são cruciais, pois indicam que as dificuldades de participação não decorrem primariamente da ausência de interesse da população, mas de limitações estruturais que restringem o acesso e a integração dos indivíduos aos projetos. O fato de o “desinteresse da população” ter uma incidência significativamente menor (9,3%) é um contraponto importante a narrativas comuns que culpam a apatia individual pela baixa participação. Pelo contrário, os dados sugerem um potencial de engajamento latente que não se concretiza devido à falta de condições favoráveis.

Tabela 5. Barreiras ao engajamento

Barreira

n

%

Falta de informação

79

30,5%

Pouco apoio do poder público

64

24,7%

Falta de recursos

48

18,5%

Pouca articulação entre instituições

36

13,9%

Desinteresse da população

24

9,3%

Falta de confiança

8

3,1%

Total

259

100%

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A falta de informação, como a barreira mais citada, evidencia a ineficácia dos canais de comunicação existentes e a ausência de transparência nos processos. O pouco apoio do poder público reforça a percepção de desengajamento institucional e a fragilidade das políticas públicas, um cenário comum em áreas de vulnerabilidade socioambiental (Medeiros, 2025). A escassez de recursos e a baixa articulação entre instituições, por sua vez, revelam um ambiente onde as iniciativas operam de forma fragmentada, com pouca coordenação e alcance limitado. Essa fragmentação compromete a continuidade das ações e impede a construção de sinergias entre os diferentes atores. A literatura de gestão de *stakeholders* (PMI, 2021; Reed et al., 2009) enfatiza que o engajamento eficaz depende da capacidade de identificar, informar e integrar os atores de forma estratégica, bem como da existência de mecanismos estruturados de comunicação e coordenação. A implicação prática é que as estratégias de engajamento devem focar na remoção dessas barreiras estruturais, investindo em comunicação transparente, fortalecimento institucional, alocação de recursos e promoção da articulação interinstitucional. Isso permitirá transformar o potencial de engajamento da comunidade em participação efetiva e sustentável.

A avaliação da comunicação entre comunidade, instituições e poder público, apresentada na Tabela 9, revelou uma percepção amplamente negativa: 70,6% dos respondentes a classificaram como “ruim”. Essa percepção indica que os fluxos de informação são insuficientes, ineficazes ou inexistentes, dificultando o acesso às iniciativas e a participação da comunidade. Uma comunicação deficiente compromete a transparência, gera desconfiança e cria um distanciamento entre os atores, impactando diretamente o nível de engajamento. Bixler et al. (2016) destacam que a governança em rede, essencial para a gestão de recursos naturais em larga escala, depende criticamente de canais de comunicação robustos e transparentes. Em contextos de vulnerabilidade, onde a confiança institucional já é frágil, a comunicação ineficaz agrava ainda mais a situação, perpetuando ciclos de desengajamento e inefetividade dos projetos. A implicação é que a melhoria da comunicação não é apenas um aspecto operacional, mas um pilar estratégico para a construção de relações de confiança e para o fortalecimento da governança colaborativa.

Os canais de comunicação mais utilizados no território, conforme a Tabela 10, indicaram uma predominância de meios informais, como WhatsApp (39,4%) e redes sociais (28,3%). Embora esses canais ofereçam potencial de alcance e rapidez na disseminação de informações, sua utilização isolada e sem coordenação pode levar à inconsistência e à fragmentação da comunicação. A baixa representatividade de espaços presenciais estruturados, como reuniões (9,1%) ou escolas/igrejas (19,2%), reforça a fragilidade dos mecanismos de articulação coletiva. Bryson (2004) argumenta que a comunicação eficaz vai além da mera transmissão de informações, envolvendo processos de interação, escuta e construção conjunta. A ausência desses elementos resulta em fragmentação das ações e redução da efetividade das iniciativas. A implicação prática é que, embora os canais digitais possam ser potencializados, eles devem ser integrados a uma abordagem de comunicação mais estruturada e formal, que inclua espaços presenciais para diálogo e co-criação. Isso permitiria garantir a consistência das mensagens, promover a interação bidirecional e fortalecer a articulação entre os diferentes *stakeholders*.

As perspectivas de melhoria e engajamento futuro foram exploradas, revelando a percepção dos respondentes sobre a necessidade de um modelo mais estruturado. A Tabela 11 mostrou uma concordância expressiva, com 81,4% dos participantes respondendo “Sim” à necessidade de um modelo mais organizado para apoiar as iniciativas ambientais. Esse achado é um reflexo direto das fragilidades identificadas nas seções anteriores, como a comunicação deficiente, a baixa articulação institucional e a escassez de espaços de escuta. A demanda por organização não é um elemento isolado, mas uma resposta coletiva à percepção de inefetividade e descontinuidade dos projetos existentes. Liedtka (2018) e Brown (2009) destacam que a estruturação de processos e a centralidade no usuário são fundamentais para a construção de soluções inovadoras e eficazes. A implicação prática é que a comunidade não apenas reconhece os problemas, mas também anseia por soluções sistêmicas que tragam maior clareza, coordenação e continuidade às ações ambientais.

O interesse dos respondentes em participar de atividades futuras relacionadas ao tema ambiental, apresentado na Tabela 12, revelou um nível elevado de interesse potencial, com 74,5% afirmando “Sim” e 19,6% “Talvez”. Esse resultado contrasta significativamente com os baixos índices de participação observados anteriormente, evidenciando que a limitação do engajamento não está associada à falta de disposição individual, mas à ausência de condições que favoreçam a participação. A coexistência entre alto interesse e baixa participação reforça a interpretação de que os principais entraves são de natureza estrutural. O Project Management Institute (PMI, 2021) enfatiza que o engajamento efetivo depende da criação de ambientes que facilitem a interação, o acesso à informação e a continuidade das ações. Quando essas condições não estão presentes, mesmo contextos com elevado potencial de mobilização tendem a apresentar resultados limitados. A implicação prática é que existe uma base social potencialmente engajada em São Gonçalo, o que representa uma oportunidade valiosa para a implementação de estratégias mais efetivas no futuro. O desafio reside em transformar esse interesse latente em participação real, por meio da remoção das barreiras operacionais e institucionais e da criação de mecanismos que sustentem o engajamento a longo prazo.

Em síntese, a análise integrada dos resultados permitiu compreender que o engajamento em projetos ambientais no município de São Gonçalo esteve condicionado, principalmente, a fatores de natureza estrutural. Os respondentes demonstraram clareza em relação aos problemas ambientais e interesse em participar, mas esse potencial de mobilização não se traduziu em participação efetiva devido a barreiras como limitações na circulação de informações, atuação insuficiente do poder público, baixa articulação entre atores e fragilidade dos canais de comunicação. Essa leitura reforça a importância de compreender o engajamento como um processo que depende da interação entre diferentes dimensões, incluindo aspectos institucionais, sociais e territoriais. Tornou-se evidente a necessidade de adoção de estratégias mais estruturadas de gestão de *stakeholders*, capazes de promover maior integração entre os atores e de considerar as especificidades do contexto local.

A discussão integrada dos resultados à luz do objetivo do estudo e dos princípios do *Design Thinking* (DT) permitiu uma compreensão mais aprofundada das dinâmicas de identificação, engajamento e articulação de *stakeholders* em projetos socioambientais em contextos de vulnerabilidade. Os dados mostraram que desafios como falta de informação, fragilidade na comunicação e baixa articulação entre atores não são isolados, mas refletem a ausência de uma abordagem centrada nas necessidades dos *stakeholders*. Essa interpretação é consistente com a literatura, que aponta que o engajamento efetivo depende da compreensão de interesses, expectativas e níveis de influência dos atores (Freeman, 2010; PMI, 2021).

A incorporação do *Design Thinking* aprofundou essa análise, especialmente na etapa de empatia, onde se observou um descompasso entre o interesse dos participantes e a forma como os projetos foram estruturados, evidenciando ausência de escuta ativa e baixa percepção de participação. Isso reforça o papel central da empatia na construção de soluções eficazes, conforme preconizado por Brown (2009) e Liedtka (2018). A etapa de definição, por sua vez, evidenciou como problema central o desalinhamento entre estruturas institucionais e necessidades da comunidade, enquanto a etapa de ideação resultou na construção do modelo R.A.I.Z., voltado à melhoria da comunicação, articulação e inclusão, alinhado à lógica colaborativa do DT.

O mapeamento dos *stakeholders* no território analisado, conforme ilustrado na Figura 1, evidenciou uma assimetria significativa entre os atores com maior poder de decisão e aqueles mais impactados pelas problemáticas ambientais. Observou-se que a comunidade local, embora diretamente afetada e com alto interesse, ocupava uma posição de baixo poder, enquanto atores institucionais, como órgãos ambientais e o governo, concentravam maior capacidade de influência, mas com níveis variáveis de interesse e engajamento. Essa assimetria é um achado crítico, pois, como apontam Mitchell et al. (1997) e Freeman (2010), a identificação e a análise do poder, legitimidade e urgência dos *stakeholders* são fundamentais para a priorização e o desenvolvimento de estratégias de engajamento eficazes. A implicação prática é que as estratégias devem visar a reequilibrar essa balança de poder, empoderando os grupos mais impactados e garantindo que suas vozes sejam ouvidas e suas necessidades atendidas nos processos decisórios.

Figura 1. Mapeamento de “stakeholders” (Poder x Interesse)

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Com base nessa análise e na articulação com os referenciais teóricos, propôs-se o framework Análise R.A.I.Z., cuja estrutura conceitual é apresentada na Figura 2. O modelo organiza o processo de engajamento em quatro dimensões interdependentes: Reconhecer, Analisar, Integrar e Zelar. A dimensão “Reconhecer” foca na identificação dos atores locais e dos problemas ambientais, alinhando-se à etapa de empatia do DT. “Analisar” concentra-se nas relações de poder, interesse, conflitos e influências, correspondendo à etapa de definição. “Integrar” busca articular o saber técnico e o conhecimento local para construir soluções colaborativas, refletindo a ideação. Por fim, “Zelar” enfatiza a continuidade do diálogo, o monitoramento e a manutenção da confiança, garantindo a sustentabilidade do engajamento.

Figura 2. Estrutura do modelo R.A.I.Z.

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A Figura 3 ilustra a articulação entre as etapas do modelo R.A.I.Z. e os principais atores envolvidos. A dimensão de Reconhecer esteve diretamente associada à compreensão do território e das necessidades da comunidade, enquanto a etapa de Analisar concentrou-se na identificação das barreiras estruturais evidenciadas pelos dados. Na dimensão Integrar, destacou-se a importância da atuação conjunta entre organizações da sociedade civil, instituições públicas e demais atores relevantes, promovendo maior alinhamento entre interesses e capacidades. Por fim, a etapa Zelar enfatizou a continuidade das ações, por meio do monitoramento, da comunicação constante e do fortalecimento do vínculo entre os *stakeholders* ao longo do tempo. Essa estrutura reforça a ideia de que o engajamento não ocorre de forma linear, mas como um processo contínuo e adaptativo, dependente da interação entre diferentes atores e das dinâmicas do território.

Figura 3. Integração do modelo R.A.I.Z. com “stakeholders”

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Apesar de as etapas de prototipagem e teste do DT não terem sido integralmente executadas no campo devido a limitações operacionais, o modelo R.A.I.Z. pode ser entendido como um protótipo conceitual passível de validação futura (Creswell e Creswell, 2022; Brown, 2009). A ausência dessas etapas representa uma limitação do estudo, mas também uma oportunidade para pesquisas futuras que busquem aplicar e testar o modelo em contextos reais. A contribuição do estudo reside em mostrar que a aplicação, ainda que parcial, do DT pode apoiar a reestruturação das estratégias de engajamento, promovendo maior alinhamento com as necessidades da comunidade.

A operacionalização do modelo R.A.I.Z. como estrutura de projeto amplia sua aplicabilidade prática, permitindo que seja compreendido não apenas como um framework conceitual, mas como uma estrutura orientadora para o planejamento e execução de projetos de engajamento de *stakeholders* em contextos socioambientais. Essa abordagem está alinhada às boas práticas da gestão de projetos, que enfatizam a necessidade de estruturar processos e entregas de forma organizada ao longo do ciclo de vida do projeto (PMI, 2021). Cada dimensão do modelo R.A.I.Z. corresponde a uma etapa do ciclo de gestão do projeto, associada a entregas específicas e resultados esperados.

Na etapa de Reconhecer, o objetivo é diagnosticar o território, envolvendo o mapeamento dos *stakeholders*, a identificação das características do território e o levantamento dos principais problemas ambientais percebidos. A principal entrega é a construção de um mapa estruturado dos atores e suas relações com o contexto local. Essa fase dialoga com os processos iniciais de identificação de *stakeholders*, fundamentais para o planejamento de projetos (Freeman, 2010; PMI, 2021). Para a comunidade e ONGs, o indicador chave é a porcentagem de *stakeholders* mapeados, garantindo que a base de atores relevantes seja amplamente identificada. A implicação prática é a criação de uma base de conhecimento sólida sobre o ecossistema de *stakeholders*, permitindo que os projetos sejam desenhados com uma compreensão profunda do contexto e das necessidades locais, evitando a imposição de soluções genéricas.

A etapa de Analisar refere-se ao aprofundamento analítico, na qual são identificadas as barreiras ao engajamento, os fluxos de comunicação e as assimetrias de poder entre os *stakeholders*. Nessa fase, são produzidas matrizes analíticas que orientam a priorização de ações e a definição de estratégias. Essa análise é consistente com modelos de classificação e priorização de *stakeholders* baseados em poder, interesse e influência (Mitchell et al., 1997; Bryson, 2004). Para o governo e líderes, o indicador chave é o número de barreiras priorizadas, o que direciona o foco para os obstáculos mais críticos. A implicação prática é a capacidade de desenvolver estratégias de engajamento mais direcionadas e eficazes, que abordem as causas-raiz dos problemas de participação e que considerem as dinâmicas de poder e influência entre os atores.

A etapa de Integrar configura a fase de planejamento e execução das ações, com foco na articulação entre atores, na criação de espaços de diálogo e na construção de soluções colaborativas. Como resultado, espera-se a consolidação de um plano de engajamento estruturado, com definição de papéis, responsabilidades e mecanismos de interação. Essa dimensão está alinhada à literatura sobre engajamento colaborativo e participação social, que destaca a importância da construção conjunta de soluções (Reed et al., 2009; Bryson, 2004). Para todos os *stakeholders*, o indicador chave é o número de reuniões realizadas, refletindo a intensidade da interação. A implicação prática é a promoção de um ambiente colaborativo onde o conhecimento técnico e o saber local se complementam, resultando em soluções mais inovadoras, adaptadas e aceitas pela comunidade.

Por fim, a etapa de Zelar corresponde ao monitoramento e continuidade, voltada ao acompanhamento das ações implementadas, à manutenção da comunicação entre os *stakeholders* e à avaliação do nível de engajamento ao longo do tempo. Essa dimensão enfatiza a natureza contínua e adaptativa do processo, em consonância com as práticas de monitoramento e controle recomendadas na gestão de projetos (PMI, 2021), bem como com abordagens que destacam a importância da manutenção das relações entre *stakeholders* ao longo do tempo (Bourne, 2009). Para a comunidade, o indicador chave é a taxa de participação, medindo a efetividade do engajamento. A implicação prática é a garantia de que os projetos não sejam eventos isolados, mas processos contínuos de melhoria, com mecanismos de feedback e ajuste que permitam a adaptação às mudanças do contexto e a sustentabilidade das ações a longo prazo.

Dessa forma, o modelo R.A.I.Z. não apenas sistematiza o processo de engajamento, mas também oferece uma base estruturada para a tomada de decisão em projetos que envolvem múltiplos *stakeholders* e elevado grau de complexidade. Sua utilização permite ao gerente de projetos estruturar estratégias de comunicação, priorização de atores e acompanhamento do engajamento ao longo do ciclo de vida do projeto, integrando-se às práticas de gerenciamento das partes interessadas previstas pelo PMBOK (PMI, 2021).

Para fortalecer a aplicação prática do modelo proposto, recomenda-se a adoção de indicadores de desempenho que permitam monitorar o nível de engajamento e a efetividade das ações implementadas. A utilização de indicadores é amplamente recomendada na literatura de gestão de projetos e de *stakeholders* como forma de mensurar resultados e orientar a tomada de decisão baseada em evidências (PMI, 2021; Bourne, 2009). Entre os principais indicadores, destacam-se:

* Taxa de participação: o percentual de *stakeholders* que participam ativamente das iniciativas propostas. Este é um dos principais indicadores de engajamento em processos participativos, conforme Reed et al. (2009), e sua monitorização permite avaliar a efetividade das estratégias de mobilização. Uma baixa taxa pode indicar a necessidade de revisar os canais de comunicação ou as abordagens de inclusão.

* Diversidade de atores envolvidos: o número de categorias distintas de *stakeholders* engajados (comunidade, governo, ONGs, empresas, universidades, etc.). Bryson (2004) destaca que a inclusão de uma ampla gama de atores é relevante para a construção de processos inclusivos e representativos, garantindo que diferentes perspectivas e conhecimentos sejam considerados. A ausência de diversidade pode sinalizar a perpetuação de assimetrias de poder e a exclusão de grupos marginalizados.

* Frequência de interação: o número de encontros, reuniões ou trocas realizadas em determinado período. Este indicador está associado à intensidade das relações entre *stakeholders* (PMI, 2021) e à vitalidade da rede de engajamento. Interações frequentes tendem a fortalecer a confiança e a colaboração, enquanto a escassez pode levar ao distanciamento e à fragmentação das ações.

* Percepção de escuta: a avaliação dos participantes quanto à inclusão de suas demandas nos processos decisórios. Este indicador está diretamente relacionado à qualidade da participação e à construção de legitimidade (Reed et al., 2009). Se os *stakeholders* sentem que suas vozes não são ouvidas, o engajamento tende a diminuir, comprometendo a aceitação e a sustentabilidade das soluções propostas.

* Nível de continuidade das ações: a manutenção das iniciativas ao longo do tempo. Bourne (2009) enfatiza que a continuidade é um indicador importante para avaliar a sustentabilidade dos projetos e a capacidade de gerar impactos duradouros. Projetos que se encerram abruptamente ou que não conseguem manter o engajamento ao longo do tempo perdem sua efetividade e podem gerar desconfiança.

* Índice de confiança institucional: a percepção da comunidade em relação às instituições envolvidas. Bryson (2004) aponta que a confiança é um elemento central para o fortalecimento das relações entre *stakeholders* e para o sucesso de iniciativas colaborativas. Uma baixa confiança institucional pode ser uma barreira intransponível para o engajamento, mesmo que haja interesse e recursos.

A utilização desses indicadores permite não apenas acompanhar a evolução do engajamento, mas também orientar ajustes nas estratégias adotadas, contribuindo para maior efetividade dos projetos. Esse monitoramento contínuo está alinhado às boas práticas de gestão de projetos, que enfatizam a necessidade de acompanhamento sistemático e adaptação das ações ao longo do ciclo de vida do projeto (PMI, 2021). Ao integrar esses indicadores, o modelo R.A.I.Z. oferece uma abordagem robusta para gerenciar a complexidade do engajamento de *stakeholders* em contextos de vulnerabilidade socioambiental, transformando o potencial de participação em resultados concretos e sustentáveis.

4. Conclusão

Conclui-se que o objetivo foi atingido ao analisar as dinâmicas de identificação, engajamento e articulação de stakeholders em projetos socioambientais no município de São Gonçalo. O estudo evidenciou que a baixa participação da comunidade não decorre de desinteresse, mas sim de barreiras estruturais significativas, como a fragilidade na comunicação, a limitada articulação institucional e a escassez de espaços de escuta ativa. Essa assimetria de poder, onde atores institucionais detêm maior influência e a comunidade local é mais impactada, mas menos ouvida, compromete a efetividade das iniciativas. Para mitigar esses desafios, propôs-se o framework Análise R.A.I.Z., estruturado nas dimensões Reconhecer, Analisar, Integrar e Zelar, que oferece diretrizes para uma gestão de stakeholders mais estruturada e colaborativa, centrada nas necessidades locais.

Apesar de suas contribuições, o presente estudo possui limitações importantes. A amostra, embora robusta na representatividade comunitária, apresentou menor participação de atores institucionais, o que pode ter restringido a diversidade de perspectivas estratégicas. Além disso, as etapas de prototipagem e teste do Design Thinking não foram integralmente executadas em campo devido a restrições operacionais. Para pesquisas futuras, recomenda-se a aplicação empírica e o acompanhamento longitudinal do modelo R.A.I.Z. em diferentes contextos de vulnerabilidade socioambiental, bem como a exploração de metodologias que garantam maior inclusão de representantes institucionais para uma análise mais abrangente das dinâmicas de governança.

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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