Artigo

22 de julho de 2026

Emoções como variável econômica: bem-estar, confiança e desempenho em perspectiva comparada

Bruna de Souza Weber; Acácia Dos Santos

DOI: 10.22167/2675-6528-202600609

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

Diante da crescente evidência de que fatores emocionais e sociais influenciam o desempenho econômico, investigou-se empiricamente as relações entre os índices de felicidade subjetiva, os indicadores de confiança institucional e interpessoal e os níveis de produtividade do trabalho. O estudo objetivou identificar a magnitude e a direção dessas associações sob a perspectiva da neuroeconomia. Para isso, analisou-se uma amostra de 34 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) no período de 2012 a 2022, utilizando dados secundários e modelos de regressão com dados em painel e efeitos fixos. Os resultados indicaram que um aumento de um ponto na escala de Cantril de felicidade subjetiva correspondeu a uma elevação de USD 3,45 por hora na produtividade do trabalho, mantidos constantes os demais determinantes estruturais. A confiança interpessoal apresentou um coeficiente de USD 0,18 por hora por ponto percentual, e a confiança institucional, de USD 0,12 por hora. A análise por subgrupos revelou que esses efeitos foram maiores em economias de renda alta e europeias, onde o trabalho de conhecimento predominou no valor adicionado. Concluiu-se que a felicidade subjetiva e a confiança social e institucional são determinantes positivos e economicamente relevantes da produtividade, corroborando evidências anteriores e oferecendo nova perspectiva ao articular simultaneamente esses construtos. Os achados sugerem que investimentos em bem-estar e capital social geram retornos econômicos mensuráveis, com implicações para a gestão organizacional, o setor financeiro e as políticas públicas de desenvolvimento.

Palavras-chave: Capital social; Dados em painel; Felicidade subjetiva; Neuroeconomia; Produtividade do trabalho.

1. Introdução

A incorporação de variáveis afetivas e sociais nos modelos explicativos do desempenho econômico representa uma das fronteiras mais ativas da economia comportamental e da neuroeconomia nas últimas duas décadas (Thaler, 2016). Tradicionalmente, a análise econômica concentrava-se em fatores materiais e racionais, negligenciando a influência de aspectos subjetivos e interpessoais. Contudo, a crescente evidência empírica tem desafiado essa visão, demonstrando que o bem-estar e as relações sociais desempenham um papel significativo nos resultados econômicos agregados.

Evidências acumuladas indicam que a felicidade subjetiva e a confiança não se manifestam apenas como estados individuais de natureza psicológica, mas atuam como determinantes mensuráveis de resultados econômicos em escala macro (Neve e Oswald, 2012). Nesse sentido, Diener et al. (2018), em uma revisão sistemática da literatura sobre bem-estar subjetivo, documentaram que indicadores de satisfação com a vida possuem validade preditiva robusta sobre desfechos econômicos e comportamentais, tanto no nível individual quanto no nacional. Essa constatação consolida a transição dessas variáveis para o interior dos modelos econométricos.

A neuroeconomia oferece o instrumental teórico que sustenta essa incorporação, ao investigar como processos cerebrais e emocionais influenciam as decisões econômicas. Zak e Knack (2001), por exemplo, em uma análise com dados de quarenta e um países, demonstraram que um aumento de dez pontos percentuais no índice de confiança interpessoal está associado a uma elevação de 0,8 ponto percentual na taxa anual de crescimento do Produto Interno Bruto. No plano organizacional, Oswald et al. (2015) conduziram experimentos controlados e estimaram que trabalhadores em estados afetivos positivos apresentam produtividade entre doze e treze por cento superior à dos grupos de controle.

Do ponto de vista neurobiológico, Zak (2017) identificou a ocitocina como o substrato neuroquímico central dos comportamentos de confiança social, sugerindo que ambientes organizacionais que estimulam reconhecimento e cooperação elevam os níveis desse neuropeptídeo, com efeitos diretos sobre o engajamento e o desempenho dos colaboradores. Essa perspectiva alinha-se ao modelo Positive Emotions, Engagement, Relationships, Meaning and Accomplishment [PERMA] de Seligman (2011), cujas dimensões de engajamento e realização encontram correspondência em métricas observáveis de desempenho. Kahneman e Thaler (2006) reforçam essa linha ao demonstrar que os desvios sistemáticos em relação ao comportamento racional decorrem, em grande parte, do estado afetivo dos agentes, conferindo à dimensão hedônica um papel estrutural nos modelos de decisão econômica.

O período de 2012 a 2022 constitui uma janela de análise particularmente relevante para o estudo dessas relações. Esse intervalo abrangeu a recuperação gradual da crise financeira global de 2008 e 2009, a aceleração da digitalização dos processos produtivos, a pandemia de Covid-19 e seus impactos sobre o mercado de trabalho, além da crescente discussão sobre novas formas de organização do trabalho, incluindo modelos remotos e híbridos. Cada um desses fenômenos tensionou, de maneiras distintas, os vínculos entre bem-estar subjetivo, confiança nas instituições e desempenho econômico. A queda generalizada da confiança institucional, documentada pelo “Edelman Trust Barometer” (Edelman, 2022) e pelo World Values Survey, coincidiu em muitos casos com a desaceleração da produtividade, sugerindo que as relações investigadas não são abstrações teóricas, mas fenômenos empiricamente observáveis nas principais economias do mundo (Algan et al., 2017).

A despeito da consistência dessas evidências, a literatura carece de estudos que articulem simultaneamente felicidade subjetiva, confiança e produtividade do trabalho em um modelo analítico comparativo com dados de painel internacionais. A questão central que emerge é em que medida os níveis de felicidade subjetiva e de confiança social explicam variações na produtividade do trabalho entre países, e qual o peso relativo de cada um desses fatores quando controlados os determinantes estruturais do crescimento econômico.

Responder a essa pergunta requer a construção de um modelo inferencial capaz de estimar relações estruturais entre os construtos com controle de variáveis confundidoras, o que orienta as escolhas metodológicas deste trabalho. A mobilização conjunta de fontes de dados secundários, como o World Happiness Report [WHR] e os indicadores de produtividade da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico [OCDE], viabiliza a construção de painéis longitudinais adequados. Essa abordagem permite a estimação de relações estruturais entre os construtos com controle de efeitos fixos individuais e temporais, superando as limitações das análises transversais predominantes na literatura.

No campo das finanças e do banking, a confiança ocupa uma posição ainda mais central, sendo o fundamento sobre o qual repousa a intermediação financeira, a concessão de crédito e a estabilidade dos mercados de capitais. Akerlof e Shiller (2009) demonstraram que os chamados “animal spirits”, que incluem confiança, expectativas e estados afetivos coletivos, exercem influência determinante sobre ciclos de investimento, comportamento dos mercados financeiros e dinâmicas de crise. Nesse sentido, compreender como o bem-estar subjetivo e a confiança se traduzem em produtividade e desempenho econômico é uma questão diretamente relevante para a análise de risco, a tomada de decisão de investimento e a gestão de portfólios em contextos de incerteza, dimensões constitutivas do campo da economia, dos investimentos e do banking.

Diante do exposto, o presente estudo justifica-se pela necessidade de preencher essa lacuna, oferecendo uma perspectiva comparada e longitudinal. O objetivo é investigar empiricamente as relações entre os índices de felicidade subjetiva, os indicadores de confiança institucional e interpessoal e os níveis de produtividade do trabalho em uma amostra de países, ao longo do período de 2012 a 2022, por meio de modelos de regressão com dados em painel, com vistas a identificar a magnitude e a direção das associações entre essas variáveis sob a perspectiva da neuroeconomia.

2. Material e Métodos

O presente estudo adotou uma abordagem metodológica quantitativa, caracterizada pela mensuração numérica de fenômenos e pela análise estatística de dados para testar relações entre variáveis (Creswell e Creswell, 2018). Quanto à sua natureza, a pesquisa classificou-se como aplicada, buscando gerar conhecimento direcionado à solução de problemas concretos relacionados à produtividade e ao bem-estar no ambiente de trabalho (Gil, 2019).

Em relação aos objetivos, a pesquisa foi descritiva e explicativa, pois descreveu o comportamento das variáveis ao longo do tempo e entre diferentes países, além de buscar identificar relações de determinação entre elas (Gil, 2019). Os procedimentos de pesquisa consistiram em um estudo ex post facto, fundamentado na análise de dados secundários e na aplicação de modelos econométricos com dados em painel.

A unidade de análise compreendeu 34 países membros e parceiros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O período de observação abrangeu os anos de 2012 a 2022, formando um painel balanceado com um total de 374 observações país-ano, o que permitiu uma análise longitudinal robusta das relações investigadas.

Os dados utilizados foram de natureza secundária, coletados de bases públicas internacionais amplamente reconhecidas na literatura (Helliwell et al., 2023; Inglehart et al., 2020; OECD, 2023). A seleção dessas bases seguiu critérios que incluíram cobertura temporal contínua entre 2012 e 2022, padronização metodológica para comparabilidade entre países, aceitação consolidada na literatura de economia da felicidade e de capital social, e disponibilidade pública para garantir a replicabilidade dos resultados.

Foram excluídas bases de dados com periodicidade irregular ou cobertura restrita a um único bloco regional, bem como pesquisas nacionais isoladas, a fim de preservar a estrutura de painel balanceado e evitar vieses. O painel final foi balanceado após a exclusão de países que apresentavam ausência de dados em duas ou mais variáveis em anos consecutivos, assegurando a integridade e a consistência do conjunto de dados.

A produtividade do trabalho, definida como a variável dependente, foi mensurada pelo Produto Interno Bruto (PIB) por hora trabalhada em paridade de poder de compra, conforme dados extraídos da base OECD.Stat (OECD, 2023). Essa métrica é a medida internacionalmente comparável de eficiência produtiva adotada pela própria OCDE.

Os índices de felicidade subjetiva, uma das variáveis independentes de interesse, foram obtidos do “World Happiness Report” [WHR], publicado pela Sustainable Development Solutions Network [SDSN] (Helliwell et al., 2023). A mensuração baseou-se na escala de Cantril, que varia de 0 a 10, a partir de amostras representativas de aproximadamente 1.000 respondentes por país.

A escala de Cantril solicita aos participantes que imaginem uma escada com degraus numerados de 0 a 10, onde o degrau superior representa a melhor vida possível e o inferior, a pior. Os respondentes indicam em qual degrau percebem estar no momento da entrevista (Cantril, 1965). Essa metodologia captura a avaliação cognitiva global da vida, sendo adequada para comparações interpaíses.

Os indicadores de confiança interpessoal e institucional, a segunda variável independente, foram construídos a partir de dados do “World Values Survey” [WVS] (Inglehart et al., 2020) para a confiança interpessoal generalizada, e do “Edelman Trust Barometer” (Edelman, 2022) para a confiança em instituições (governo, empresas, mídia e organizações não governamentais), cobrindo o mesmo intervalo temporal.

Para controlar outros fatores que poderiam influenciar a produtividade, foram incluídas quatro variáveis de controle. A taxa de investimento em capital fixo como proporção do PIB (Solow, 1957), o nível médio de escolaridade da força de trabalho como proxy para capital humano (Barro e Lee, 2013), o grau de abertura comercial (Frankel e Romer, 1999) e a taxa de urbanização (Henderson, 2010) foram obtidas das bases do Banco Mundial (World Bank, 2023) e da OCDE.

A análise dos dados foi realizada por meio de modelos de regressão com dados em painel e efeitos fixos, representando uma estratégia econométrica avançada para pesquisas comparativas em economia (Frey e Stutzer, 2002). Essa abordagem permite analisar simultaneamente a variação entre as unidades transversais (países) e a variação dentro de cada unidade ao longo do tempo (Baltagi, 2021).

O modelo de efeitos fixos foi selecionado por supor que cada país possui um intercepto próprio, capaz de capturar características não observáveis e constantes no tempo, como cultura, sistema jurídico e arranjos institucionais históricos. Essa escolha é justificada pela plausível correlação dessas características com as variáveis explicativas, garantindo a consistência das estimativas (Wooldridge, 2016; Baltagi, 2021).

A operacionalização do controle de efeitos fixos ocorreu pela inclusão de variáveis dicotômicas por país e por ano, ou pela transformação “within”, que expressa cada observação em desvios em relação à média do respectivo país ao longo do tempo. Isso eliminou da estimação os fatores estáveis que diferenciam as unidades (Wooldridge, 2016).

Os erros-padrão foram estimados com correção por agrupamento (cluster-robust) no nível do país, um procedimento padrão em modelos de dados em painel para lidar com a heterocedasticidade entre unidades (Cameron e Miller, 2015). O modelo econométrico geral foi especificado para estimar a produtividade em função da felicidade subjetiva, confiança e variáveis de controle, com efeitos fixos de país e tempo.

As estimações foram processadas utilizando o software R, versão 4.3, com o auxílio do pacote `plm` (Croissant e Millo, 2008). Os resultados obtidos por meio desses procedimentos metodológicos foram divulgados neste Trabalho de Conclusão de Curso e são destinados à disseminação em periódicos científicos e eventos acadêmicos.

3. Resultados e Discussão

A seção apresenta os resultados empíricos obtidos a partir da estimação do modelo econométrico, iniciando com uma caracterização do painel analisado. As estatísticas descritivas das variáveis revelaram uma heterogeneidade considerável entre os 34 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) no período de 2012 a 2022. Essa variabilidade sublinha a pertinência da abordagem de dados em painel com efeitos fixos, que permite isolar as dinâmicas temporais internas de cada país das diferenças estruturais persistentes. A análise preliminar indicou uma correlação positiva e estatisticamente robusta entre a felicidade subjetiva e a produtividade do trabalho, mesmo antes da inclusão de variáveis de controle, estabelecendo um ponto de partida promissor para a investigação das relações estruturais.

A produtividade média do trabalho, mensurada como PIB por hora trabalhada em paridade de poder de compra, foi de USD 46,8 por hora, com um desvio padrão de 21,4. Observou-se uma amplitude notável, variando de um mínimo de USD 13,2 registrado pela Colômbia em 2012 a um máximo de USD 127,4 pela Irlanda em 2022. O índice médio de felicidade subjetiva, avaliado pela escala de Cantril (0 a 10), situou-se em 6,82 pontos, com a Finlândia registrando o valor mais elevado de 7,84 em 2021 e a Colômbia o mais baixo, com 5,07 em 2022. Essa ampla gama de valores para ambas as variáveis reforça a adequação do modelo de painel, que é capaz de capturar tanto as variações interpaíses quanto as intrapaíses ao longo do tempo.

A confiança interpessoal média na amostra foi de 41,3%, com países como Dinamarca e Noruega consistentemente acima de 73%, enquanto o México permaneceu abaixo de 16% ao longo de todo o período. A confiança institucional média foi de 54,8%. A correlação de Pearson não condicional entre a felicidade subjetiva e a produtividade do trabalho foi de 0,68, com significância estatística (p < 0,001), o que sugere uma associação positiva e robusta. Esses dados descritivos fornecem os primeiros indícios de que países com maior produtividade tendem a apresentar níveis mais elevados de bem-estar subjetivo e confiança interpessoal, corroborando a hipótese central do estudo.

A distribuição dos países em relação à felicidade subjetiva e à produtividade do trabalho em 2022 revelou um padrão consistente com as expectativas. Não se observou nenhum par de países com alta felicidade e baixa produtividade, nem o padrão oposto de forma sistemática. As economias nórdicas, como Dinamarca, Finlândia e Noruega, agruparam-se no quadrante de alta felicidade e alta produtividade, indicando que normas sociais que promovem confiança e bem-estar podem amplificar as vantagens produtivas. Em contraste, países como Colômbia e México, com índices de felicidade próximos à média, apresentaram produtividade substancialmente inferior, parcialmente explicada pela baixa confiança interpessoal. A Irlanda, com a maior produtividade, também registrou altos escores de felicidade, alinhando-se à sua abertura econômica e presença de multinacionais de alto valor adicionado.

Estimação principal: felicidade subjetiva, confiança e produtividade do trabalho

A estimação do modelo de efeitos fixos revelou que a felicidade subjetiva possui uma associação positiva e estatisticamente significativa com a produtividade do trabalho. No Modelo 2, que incluiu a confiança institucional como variável adicional, o coeficiente da felicidade subjetiva foi de USD 3,45 por hora (p < 0,001). Esse resultado indica que um aumento de um ponto na escala de Cantril de felicidade subjetiva está associado a uma elevação de USD 3,45 por hora na produtividade do trabalho, mantendo-se constantes os demais determinantes estruturais. Este valor, situado no intervalo superior dos estudos comparáveis, sugere que a variação temporal interna aos países, capturada pelo painel, reflete um mecanismo estrutural robusto (Clark, 2018).

Os indicadores de confiança também demonstraram efeitos significativos. A confiança interpessoal, mensurada pelo World Values Survey, apresentou um coeficiente de USD 0,18 por hora por ponto percentual (p < 0,05). Isso significa que um aumento de um ponto percentual na proporção de indivíduos que declaram confiar na maioria das pessoas está associado a um incremento de USD 0,18 na produtividade por hora. A confiança institucional, medida pelo Edelman Trust Barometer, teve um coeficiente de USD 0,12 por hora por ponto percentual (p < 0,05). Embora ligeiramente menor em magnitude que a confiança interpessoal, o efeito da confiança institucional é igualmente significativo, sugerindo que a percepção de integridade e eficácia das instituições formais contribui para o desempenho econômico.

A literatura de psicologia organizacional e bem-estar no trabalho oferece insights sobre os mecanismos pelos quais a felicidade subjetiva se traduz em produtividade. Um dos canais primários é o engajamento: trabalhadores com maior satisfação de vida tendem a demonstrar maior dedicação, criatividade e proatividade na resolução de problemas, resultando em ganhos de output que não são capturados por métricas tradicionais de esforço físico (Oswald et al., 2015). O segundo canal é a redução do absenteísmo e da rotatividade. Indivíduos mais felizes adoecem com menor frequência e permanecem mais tempo nas organizações, diminuindo os custos substanciais associados à substituição e ao retreinamento de pessoal, que podem variar entre 50% e 200% do salário anual do profissional substituído (Oswald et al., 2015).

O terceiro canal de transmissão refere-se à qualidade das interações sociais. Estados afetivos positivos promovem a cooperação, a comunicação aberta e a construção de relações de confiança dentro das equipes, o que, por sua vez, reduz os conflitos e os custos de negociação interna. O quarto canal envolve a cognição: a psicologia cognitiva indica que emoções positivas ampliam o foco atencional, favorecem o pensamento analítico e aumentam a tolerância ao risco calculado. Essas capacidades são particularmente valiosas em ambientes de trabalho intensivos em conhecimento e análise. O coeficiente de USD 3,45 por hora para a felicidade subjetiva pode ser interpretado como a resultante agregada desses quatro canais operando simultaneamente em nível nacional, impulsionando a produtividade.

A diferenciação entre os coeficientes de confiança interpessoal (0,18) e institucional (0,12) é analiticamente relevante, com o canal interpessoal superando o institucional em magnitude. Isso sugere que a confiança difusa entre cidadãos desempenha um papel mais central do que a confiança em governos e empresas formais. Para o setor financeiro e bancário, a confiança é um fundamento essencial. A decisão de depositar recursos, conceder crédito ou alocar capital em mercados financeiros é, em última instância, um ato de confiança mediado por informações incompletas (Zak, 2017). A deterioração da confiança institucional, como observado após 2008, pode levar à contração do crédito e à volatilidade dos mercados, refletindo um colapso no tecido de confiança que sustenta o sistema financeiro.

Os resultados deste estudo indicam que bancos e instituições financeiras que operam em ambientes de alta confiança interpessoal e institucional podem se beneficiar de um duplo dividendo. Primeiramente, sua própria força de trabalho tende a ser mais produtiva e engajada. Em segundo lugar, seus clientes demonstram maior disposição para firmar contratos de longo prazo, o que contribui para a redução dos custos de captação e a ampliação das possibilidades de alocação eficiente de recursos (Zak e Knack, 2001). Para os gestores financeiros, isso implica que investimentos em clima organizacional, transparência na gestão e bem-estar dos colaboradores não devem ser vistos como despesas sociais, mas como decisões estratégicas que impactam diretamente a competitividade e a resiliência institucional.

As variáveis de controle incluídas no modelo confirmaram sua relevância para a produtividade do trabalho. A formação bruta de capital fixo, como proporção do PIB, apresentou um coeficiente positivo e significativo (beta = 0,48, p < 0,05), alinhado à teoria da acumulação de capital físico (Solow, 1957). A abertura comercial, medida pela proporção de exportações e importações no PIB, obteve o maior nível de significância estatística (beta = 0,08, p < 0,001), refletindo os ganhos de produtividade advindos da integração aos mercados internacionais e do acesso a tecnologias de fronteira (Frankel e Romer, 1999). A escolaridade, representada pela taxa de matrícula terciária, também se mostrou relevante (beta = 0,21, p < 0,05), confirmando a importância do capital humano formal (Barro e Lee, 2013).

A taxa de urbanização, por sua vez, não alcançou significância estatística (beta = 0,14, p = 0,21). Este resultado é esperado para economias da OCDE, onde os níveis de urbanização já são elevados e os ganhos marginais adicionais tendem a ser diminutos (Henderson, 2010). O comportamento das variáveis de controle reforça a interpretação dos coeficientes de interesse: mesmo após controlar os efeitos de investimento, abertura comercial, capital humano e urbanização – determinantes clássicos da produtividade –, a felicidade subjetiva e a confiança mantiveram coeficientes positivos, significativos e de magnitude economicamente relevante. Isso corrobora a hipótese de que essas dimensões operam como canais estruturais próprios, não redutíveis aos fatores produtivos tradicionais.

Análise de heterogeneidade por grupo de renda e região

Para investigar se os efeitos estimados variavam sistematicamente, foram realizadas estimações estratificadas por nível de renda per capita e região geográfica. Os resultados indicaram que o coeficiente de felicidade subjetiva foi significativamente maior em países de renda alta (beta = 4,18, p < 0,001) em comparação com aqueles de renda média-alta (beta = 2,41, p < 0,05). Essa diferença entre os grupos foi estatisticamente significativa, conforme testado por Wald (F = 5,84, p = 0,02). Esse achado sugere que os benefícios econômicos do bem-estar subjetivo são amplificados em contextos de maior desenvolvimento econômico.

O padrão regional replicou o gradiente observado nos grupos de renda, com as economias europeias apresentando um coeficiente de felicidade subjetiva de 4,02, substancialmente superior ao das demais economias da OCDE (2,89). A confiança interpessoal seguiu uma hierarquia semelhante, com coeficientes maiores nos grupos de renda elevada e nos países europeus. Essa heterogeneidade é crucial para a hipótese neuroeconômica do trabalho, pois indica que o canal de transmissão entre estados afetivos e produtividade do trabalho é mediado pela estrutura produtiva da economia, especialmente pela prevalência de trabalho de conhecimento.

A implicação central do gradiente de efeitos é que a transmissão entre estados afetivos e produtividade é mediada pela estrutura produtiva. Em economias avançadas, a crescente adoção de automação e novas tecnologias expande a participação de tarefas cognitivas não-rotineiras no valor adicionado total (Acemoglu e Restrepo, 2019). Nessas tarefas, julgamento, criatividade e cooperação são insumos produtivos centrais, o que significa que variações nos estados afetivos dos trabalhadores se traduzem em ganhos de output de forma mais direta e mensurável. Isso explica por que os benefícios do bem-estar subjetivo são amplificados em economias onde o trabalho de conhecimento é mais representativo do valor adicionado total.

O resultado heterogêneo encontrado não invalida a hipótese geral, mas a qualifica, demonstrando que os benefícios econômicos de um bem-estar subjetivo elevado são amplificados em economias onde o trabalho de conhecimento é mais representativo do valor adicionado total (Jebb et al., 2018). Para economias em transição de tarefas físicas e rotineiras para trabalho intensivo em conhecimento, esse gradiente representa um desafio e uma oportunidade. O desafio reside na materialização mais lenta dos benefícios de investimentos em bem-estar e confiança social em estruturas produtivas menos sofisticadas, exigindo uma combinação de políticas de curto e longo prazo.

A oportunidade para economias em transição reside no fato de que, à medida que a automação avança, a parcela do trabalho que depende de julgamento, criatividade e cooperação tende a crescer. Esse movimento amplifica progressivamente os retornos dos investimentos em capital social e bem-estar organizacional. Em outras palavras, o gradiente heterogêneo observado não é uma constante histórica, mas uma fotografia de um momento de transição. As políticas que hoje geram retornos mais modestos em produtividade via bem-estar tenderão a gerar retornos crescentes conforme essas economias elevam o conteúdo tecnológico de sua produção, conferindo urgência ao debate sobre o papel do capital social nas estratégias nacionais de desenvolvimento.

Contextualização para o Brasil

Os resultados do estudo, embora de abrangência internacional, oferecem uma perspectiva relevante para o Brasil. A produtividade do trabalho brasileira, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada [IPEA], situou-se entre USD 15 e USD 18 por hora trabalhada em paridade de poder de compra no período analisado, valor inferior à média da subamostra de renda média-alta estimada neste estudo, que foi de aproximadamente USD 22 por hora. Adicionalmente, o Latinobarômetro registrou índices de confiança interpessoal no Brasil consistentemente baixos, entre 7% e 11%, um dos menores da amostra internacional. O Edelman Trust Barometer apontou um “Trust Index” brasileiro na faixa de 45% a 52%, com trajetória descendente nos anos de maior instabilidade política.

A confluência de baixa confiança social e produtividade aquém do potencial de renda do país é coerente com a direção e magnitude dos coeficientes estimados no modelo de efeitos fixos. Ao aplicar o coeficiente da confiança interpessoal (0,18) ao hiato de aproximadamente 30 pontos percentuais que separa o Brasil da média nórdica em confiança interpessoal, o diferencial de produtividade potencial atribuível exclusivamente ao capital social seria de USD 5,4 por hora trabalhada. Este é um valor não trivial no contexto de uma economia que busca convergência em renda per capita, sugerindo que estratégias de desenvolvimento focadas apenas na acumulação de capital físico e abertura comercial podem subestimar os ganhos potenciais de melhorias no tecido social e no bem-estar dos trabalhadores.

No âmbito específico do setor financeiro e bancário brasileiro, os achados adquirem uma dimensão ainda mais concreta. O setor bancário no Brasil é um dos mais tecnologicamente avançados e concentrados da América Latina, com alto grau de automação e demanda crescente por profissionais qualificados em análise de dados, gestão de riscos e relacionamento com clientes. Nesse contexto, os canais de transmissão entre bem-estar e produtividade, como engajamento, criatividade e qualidade das interações, são especialmente relevantes para explicar diferenciais de desempenho entre instituições.

O paradoxo brasileiro reside no fato de que, apesar de possuir um setor bancário sofisticado, o país combina baixa confiança interpessoal com ambientes organizacionais frequentemente marcados por hierarquias rígidas e métricas de desempenho de curto prazo. Essas estruturas, segundo os mecanismos identificados na literatura, tendem a limitar o engajamento e suprimir a produtividade potencial dos trabalhadores. A incorporação de indicadores de bem-estar e cultura organizacional nas análises de desempenho das instituições financeiras brasileiras representaria um avanço metodológico, sinalizando que a agenda de produtividade no setor não se esgota em investimentos tecnológicos, mas inclui, de forma indissociável, o capital humano e o capital social das organizações.

Em síntese, os resultados deste estudo corroboram as expectativas teóricas, demonstrando que a felicidade subjetiva, a confiança interpessoal e a confiança institucional são determinantes positivos e economicamente relevantes da produtividade do trabalho. Um aumento de um ponto na escala de Cantril de felicidade subjetiva associou-se a uma elevação de USD 3,45 por hora na produtividade, enquanto a confiança interpessoal e institucional contribuíram com USD 0,18 e USD 0,12 por hora por ponto percentual, respectivamente. A análise de heterogeneidade revelou que esses efeitos são amplificados em economias de renda alta e europeias, onde o trabalho de conhecimento é predominante, e a contextualização para o Brasil sublinhou o potencial de ganhos de produtividade através do investimento em capital social e bem-estar.

4. Conclusão

O presente estudo investigou empiricamente as relações entre os índices de felicidade subjetiva, os indicadores de confiança institucional e interpessoal e os níveis de produtividade do trabalho em uma amostra de 34 países da OCDE, no período de 2012 a 2022, sob a perspectiva da neuroeconomia. Verificou-se que a felicidade subjetiva, a confiança interpessoal e a confiança institucional são determinantes positivos e economicamente relevantes da produtividade do trabalho. Os resultados indicaram que um aumento de um ponto na escala de Cantril de felicidade subjetiva associou-se a uma elevação de USD 3,45 por hora na produtividade do trabalho, mantidos constantes os demais determinantes estruturais. A confiança interpessoal apresentou um coeficiente de USD 0,18 por hora por ponto percentual, e a confiança institucional, de USD 0,12 por hora por ponto percentual. A análise por subgrupos revelou que esses efeitos foram amplificados em economias de renda alta e europeias, onde o trabalho de conhecimento predominou no valor adicionado, sugerindo que a estrutura produtiva da economia modera a tradução dos estados afetivos em ganhos de produtividade. As variáveis de controle, como formação bruta de capital fixo, abertura comercial e escolaridade, confirmaram sua relevância e reforçaram a interpretação de que a felicidade e a confiança operam como canais estruturais próprios.

A principal contribuição deste trabalho reside na articulação simultânea da felicidade subjetiva, da confiança interpessoal e da confiança institucional em um modelo analítico comparativo com dados de painel internacionais, preenchendo uma lacuna na literatura. Os achados possuem implicações diretas para a gestão organizacional, ao sinalizar que investimentos em bem-estar e capital social geram retornos econômicos mensuráveis, e para o setor financeiro e bancário, ao indicar que a confiança é um ativo econômico fundamental para a intermediação e a estabilidade dos mercados. Para as políticas públicas, sugere-se que estratégias de elevação da produtividade devem integrar as dimensões de bem-estar, coesão social e qualidade institucional. Contudo, o estudo apresenta limitações, como a mensuração da confiança interpessoal por percepção declarada e a necessidade de estimativas para anos intermediários do World Values Survey, além da cobertura parcial do Edelman Trust Barometer. Pesquisas futuras poderiam aprofundar os mecanismos mediadores, como a qualidade da liderança organizacional e a intensidade tecnológica dos setores, utilizando dados em nível de empresa ou setor para estimativas mais precisas dos canais de transmissão identificados.

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Zak, P.J.; Knack, S. 2001. Trust and growth. The Economic Journal 111(470): 295-321.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Economia, Investimentos e Banking do MBA USP/Esalq

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Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Inteligência Artificial na Gestão Contratual: Supervisão Humana, Riscos Jurídicos e Governança Algorítmica

O advento da inteligência artificial como tecnologia disruptiva reconfigurou processos econômicos, institucionais e jurídicos, conferindo centralidade à automação contratual na gestão de relações complexas. A automação contratual revelou-se um fenômeno juridicamente não neutro, com opacidade decisória, geração automatizada de cláusulas abusivas e dificuldades de atribuição de responsabilidade, deslocando a elaboração contratual para o domínio jurídico-normativo. O estudo analisou como a inteligência artificial na automação contratual intensificou a colisão entre eficiência tecnológica e segurança jurídica, e em que medida mecanismos de supervisão humana significativa e de governança algorítmica funcionaram como instrumentos de ponderação normativa para preservar princípios do direito contratual brasileiro. A pesquisa adotou abordagem qualitativa de estudo de casos múltiplos, com análise documental de quatro casos paradigmáticos: Moffatt v. Air Canada, United States v. RealPage, Deloitte/DEWR e INSS/TRF-4ª Região, representando os contextos consumerista, concorrencial, consultivo-contratual e administrativo. A análise identificou cinco padrões estruturais recorrentes – opacidade decisória, substituição da racionalidade normativa por inferências probabilísticas, accountability gap, assimetria informacional e incompreensão semântica – que emergiram de forma sistêmica. O desfecho fragmentado do caso RealPage reforçou a conclusão de que a jurisprudência sobre automação decisória permanece em formação. A governança algorítmica eficaz demonstrou exigir a integração de mecanismos de auditabilidade, responsabilização e supervisão humana, conforme as normas ISO 31000, COSO ERM e ISO 37301, como condição necessária à legitimidade dos sistemas automatizados de gestão contratual.

Palavras-chave: Contratos; Governança algorítmica; Inteligência artificial; Segurança jurídica; Supervisão humana.

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Rituais de Verificação sob Pressão: Categorias de Ação ESG Relatadas por Grande Grupo Frigorífico Antes e Após Operação Deflagrada Pela Polícia Federal e Seus Desdobramentos, em Passado Recente

Relatórios de sustentabilidade são amplamente empregados como instrumentos de gestão da legitimidade corporativa, mas sua função como mecanismo de reorganização cognitiva em contextos de crise reputacional permaneceu subexplorada na literatura. O estudo analisou as transformações nas categorias de ação ESG reportadas pela Empresa JBS em seus relatórios anuais de sustentabilidade de 2015 a 2018, período que compreendeu dois anos anteriores e dois anos posteriores à Operação Carne Fraca e seus desdobramentos. O objetivo foi investigar como a organização alterou sua estrutura cognitiva após a crise reputacional, por meio de um de seus sistemas de reporte. Empregou-se um processo de catalogação sistemática de 1.088 práticas relatadas, classificadas por pilar ESG, tema material e categoria de ação. O referencial teórico mobilizou Mary Douglas (1986), Michael Power (1997), Meyer e Rowan (1977) e Edelman (2016) para interpretar os fenômenos observados. Os resultados evidenciaram um crescimento exigido em governança, que coexistiu com o colapso do pilar social, o desaparecimento de categorias substantivas e a substituição de ações voltadas a prêmios por ações que ressignificaram as relações da organização e seu posicionamento no mercado. Além disso, treinamentos de liderança migraram do tema de cultura para compliance, campanhas de comunicação cederam lugar a canais estruturais permanentes, e investidores tornaram-se a audiência de maior crescimento proporcional. Concluiu-se que a sofisticação do esforço de legitimação residiu não no que a empresa necessariamente fez, mas na consistência com que reorganizou quem ela diz ser e para quem, a partir das categorias de ação que relatou.

Palavras-chave: Crise reputacional; ESG; Pensamento institucional; Relatórios de sustentabilidade; Estratégia organizacional.

Gestão Escolar

11 de setembro de 2026

Liderança Escolar à Luz da Teoria U: um Diálogo com as Lideranças Transformacional e Servidora.

A integração de diferentes modelos de liderança mostrou-se um caminho relevante para instituições de ensino que buscaram inovar e alcançar excelência em suas práticas educacionais. Contudo, foram escassas as pesquisas empíricas que investigaram a aplicação da Teoria U na gestão escolar associada às abordagens Transformacional e Servidora, o que configurou uma lacuna na literatura. Este estudo buscou compreender como gestores educacionais perceberam e aplicaram princípios da Teoria U — escuta generativa, presencing e cocriação — em diálogo com as abordagens teóricas da Liderança Transformacional e da Liderança Servidora em suas práticas de gestão. A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de São Paulo, que abrangeu desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de perguntas semiestruturadas, aplicado a sete gestores educacionais, e foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram aproximações entre as práticas observadas e os pressupostos teóricos dos modelos estudados, com a escuta destacando-se como a competência que melhor articulou as três abordagens no contexto investigado. Também foram identificadas algumas tensões entre os referenciais teóricos e o cotidiano da gestão. O estudo contribuiu para uma reflexão crítica sobre as possibilidades e os limites da integração desses diferentes modelos de liderança em ambientes escolares, ampliando o debate e oferecendo subsídios relevantes para o fortalecimento do campo da gestão educacional.

Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

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