Artigo

31 de julho de 2026

Elaboração, Aplicação e Análise de Cronograma de Treinamento em um Biobanco em Barretos/SP

Isabeli Francischini Coltro; Rosa Maria Maia Lavio De Oliveira

DOI: 10.22167/2675-6528-202600912

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

Um biobanco, departamento hospitalar dedicado ao armazenamento de amostras biológicas para pesquisa científica, enfrenta a complexidade de processos laboratoriais e a necessidade de capacitação contínua. Diante desse cenário, objetivou-se elaborar, aplicar e avaliar um cronograma estruturado de treinamento teórico-prático em um biobanco localizado em Barretos/SP. A pesquisa adotou a metodologia de Pesquisa-Ação, utilizando o Project Model Canvas (PMC) como ferramenta de projeto para sua estruturação. O desenvolvimento ocorreu em dois ciclos sucessivos de planejamento, execução, avaliação e aprimoramento. O primeiro ciclo envolveu a criação e aplicação de um cronograma piloto, enquanto o segundo incluiu sua revisão, a elaboração de material teórico de apoio e a aplicação aprimorada a novos profissionais. O cronograma foi organizado em etapas progressivas, contemplando introdução teórica, atividades administrativas, prática supervisionada e avaliação final, com foco no desenvolvimento da autonomia operacional dos participantes. A efetividade do treinamento foi avaliada por meio de prova teórica, feedback oral, monitoramento de riscos e um questionário avaliativo aplicado aproximadamente um ano após a capacitação, envolvendo sete colaboradores. Os resultados evidenciaram elevada percepção de efetividade e satisfação entre os participantes, com predominância de médias máximas e baixo grau de variabilidade nas respostas. Observou-se uma significativa redução do tempo de capacitação, aumento da autonomia e maior padronização das atividades, embora aspectos relacionados à replicação do conhecimento e otimização do tempo tenham sido identificados como oportunidades de aprimoramento. Concluiu-se que o cronograma estruturado mostrou-se eficaz, apresentando potencial de replicação em contextos laboratoriais similares e contribuindo para a institucionalização de práticas de educação permanente.

Palavras-chave: Autonomia operacional; Educação permanente; Gestão de projetos; Padronização de atividades; Pesquisa-Ação.

1. Introdução

O biobanco é uma infraestrutura vital para a pesquisa biomédica, dedicada ao armazenamento e disponibilização de amostras biológicas humanas para estudos científicos (Ministério da Saúde, 2011). Sua relevância cresce exponencialmente, demandando material biológico de qualidade. Para garantir a integridade, viabilidade e rastreabilidade das amostras, são indispensáveis protocolos padronizados e rigorosas práticas de biossegurança, mitigando riscos de contaminação e assegurando a reprodutibilidade dos resultados (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2004; LACEN/SC, 2024). Nesse contexto, a capacitação contínua e especializada de profissionais, como biólogos e biomédicos, é fundamental para a excelência operacional e a conformidade regulatória. A ausência de treinamento adequado compromete a qualidade do material e a segurança dos manipuladores, impactando o avanço da pesquisa.

A complexidade das operações em biobancos, que englobam etapas técnicas, administrativas e regulatórias, evidencia a necessidade de gestão eficaz. A gestão de projetos (GP) surge como disciplina estratégica para otimizar recursos e assegurar a qualidade, com frameworks estruturados que comprovadamente melhoram o planejamento e a execução em laboratórios de pesquisa (Stempinski et al., 2025). Instituições de saúde pública, como a Fundação FIOCRUZ, demonstram a aplicabilidade da GP para fortalecer a atenção à saúde (Santos et al., 2019). Contudo, a literatura científica aponta uma lacuna na aplicação específica de metodologias de gestão de projetos em ambientes laboratoriais e biobancos. Muitos frameworks foram concebidos para contextos corporativos genéricos, dificultando sua adaptação a cenários com alta complexidade técnica, exigências regulatórias e variabilidade operacional (Adeleke e Baidoo, 2022; Payne et al., 2011; Stempinski et al., 2025). Essa deficiência ressalta a importância de integrar a gestão de projetos a processos de capacitação sistematizados.

Para superar essa lacuna e promover uma intervenção prática e transformadora, a metodologia de Pesquisa-Ação mostra-se adequada. Ela se caracteriza pela intervenção direta na realidade estudada, com participação ativa dos envolvidos, buscando diagnosticar problemas e implementar soluções por meio de ciclos contínuos de planejamento, execução, avaliação e aprimoramento (Tripp, 2005). Essa abordagem permite que as soluções sejam desenvolvidas e ajustadas em tempo real, garantindo relevância e eficácia. Complementarmente, o Project Model Canvas (PMC) atua como ferramenta de gestão de projetos alinhada à Pesquisa-Ação, facilitando a estruturação visual e integrada das dimensões estratégicas e operacionais do projeto, desde a identificação de motivos e objetivos até a definição de entregas e requisitos (Finocchio Jr., 2013). A sinergia entre Pesquisa-Ação e PMC oferece arcabouço robusto para desenvolver e implementar cronogramas de treinamento que padronizem processos e otimizem resultados em biobancos.

Em biobanco localizado em Barretos/SP, a alta rotatividade de profissionais e estagiários impunha demanda constante por treinamentos. A ausência de um cronograma formal resultava em capacitações informais e fragmentadas, comprometendo a padronização das atividades, a autonomia da equipe e estendendo por vários meses o tempo para que novos colaboradores atingissem plena proficiência. Essa informalidade gerava inconsistências, aumentava riscos e sobrecarregava a equipe existente. A necessidade de mitigar essas deficiências e de estabelecer um modelo de educação permanente que garantisse excelência e segurança operacional justificava uma intervenção estruturada. Assim, este estudo objetivou elaborar, aplicar e avaliar um cronograma estruturado de treinamento teórico-prático em um biobanco localizado em Barretos/SP, visando padronizar a capacitação de novos profissionais, otimizar o tempo de aprendizagem para um período de um mês, desenvolver a autonomia operacional dos treinados e estabelecer um modelo replicável de formação contínua.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa exploratório-descritiva, adotando a metodologia de Pesquisa-Ação, conforme preconizado por Tripp (2005). Essa abordagem foi selecionada por sua capacidade de intervir diretamente na realidade estudada, permitindo o diagnóstico de problemas e a implementação de soluções práticas em um ciclo contínuo de aprimoramento. A Pesquisa-Ação, ao envolver ativamente os participantes, facilita o desenvolvimento de soluções relevantes e eficazes, alinhadas às necessidades específicas do contexto do biobanco. A natureza exploratória-descritiva do estudo visou compreender e detalhar o processo de capacitação, sem buscar inferências estatísticas ou generalizações amplas.

A pesquisa foi desenvolvida em um biobanco localizado em um hospital na cidade de Barretos, no estado de São Paulo. Este biobanco é um departamento hospitalar dedicado ao armazenamento de amostras biológicas para pesquisa científica, caracterizado por processos laboratoriais complexos e a necessidade de capacitação contínua de seus profissionais. O período de execução do estudo abrangeu os meses de outubro de 2024 a abril de 2025. A unidade de análise consistiu nos funcionários e estagiários que ingressaram no biobanco e necessitavam de treinamento para desempenhar suas funções de maneira segura e eficaz, visando a padronização das atividades.

A população do estudo foi composta por todos os profissionais que ingressaram no biobanco durante o período de implantação do cronograma de treinamento e que, portanto, necessitavam de capacitação completa. A amostra, de caráter censitário, incluiu sete profissionais, sendo cinco biomédicos e dois biólogos, que foram treinados entre outubro de 2024 e abril de 2025. Não houve um processo de seleção formal ou cálculo de poder amostral, pois a amostra foi determinada pela demanda real do contexto investigado, característica inerente aos estudos de Pesquisa-Ação. Foram incluídos todos os novos profissionais, e excluídos aqueles previamente treinados ou que optaram por não participar das avaliações.

Para a estruturação inicial do projeto, utilizou-se o Project Model Canvas (PMC), baseado no modelo de Finocchio Jr. (2013), como ferramenta de gestão. O PMC permitiu o desenho integrado do estudo, identificando motivos, objetivos e entregas, além de definir os principais aspectos de sua execução. O PMBOK (PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE, 2021) serviu como guia de boas práticas e conceituais para o gerenciamento do projeto. O principal instrumento de intervenção foi um cronograma de treinamento teórico-prático, elaborado para padronizar a capacitação de novos profissionais em um período de um mês, cobrindo todas as áreas do biobanco.

Complementarmente ao cronograma, foi desenvolvida uma apostila teórica, denominada “Manual Informativo de Processamento Padrão Biobanco”, para servir como material de apoio e consulta aos participantes durante e após o treinamento. A efetividade do aprendizado foi avaliada por meio de provas escritas descritivas, aplicadas ao final da terceira e quarta semanas de treinamento. Além disso, o processo incluiu a coleta de feedback oral dos participantes e o monitoramento contínuo de riscos, conforme detalhado em uma matriz específica. Essas ferramentas visaram garantir a fixação do conhecimento e a segurança operacional dos profissionais.

Para avaliar a efetividade do treinamento a longo prazo e a percepção dos participantes, aplicou-se um questionário avaliativo via Google Forms, aproximadamente um ano após a conclusão da capacitação. O questionário era composto por doze perguntas em escala Likert de cinco pontos (de 1 – pouco efetivo a 5 – muito efetivo) e uma pergunta aberta. As questões foram divididas em blocos temáticos: Estrutura e Conteúdo do Treinamento, Aprendizado e Aplicabilidade, Efetividade a Longo Prazo e Satisfação Geral. Este instrumento foi elaborado especificamente para o estudo, com base nas rotinas do biobanco e nas etapas do cronograma.

A pesquisa foi executada em dois ciclos sucessivos de Pesquisa-Ação, seguindo a lógica do ciclo PDCA (Plan, Do, Check, Act). O Ciclo 1, correspondente às fases Plan (P1), Do (D1), Check (C1) e Act (A1), focou no desenvolvimento e aplicação piloto do cronograma. Na fase P1, realizou-se o diagnóstico do problema, a construção do PMC e a identificação das necessidades de treinamento. Em D1, elaborou-se o cronograma piloto e organizaram-se as áreas e responsáveis. A fase C1 envolveu a aplicação piloto com dois funcionários, a obtenção de feedback inicial e a revisão pelo gerente do projeto, culminando em ajustes no cronograma em A1.

O Ciclo 2 da Pesquisa-Ação, que compreendeu as fases Plan (P2), Do (D2), Check (C2) e Act (A2), concentrou-se na aplicação aprimorada e avaliação do treinamento. Em P2, planejou-se o treinamento revisado, criou-se a apostila teórica e organizou-se a logística. A fase D2 consistiu na aplicação do cronograma e da apostila a cinco novos funcionários. Em C2, foram realizadas avaliações imediatas por meio de provas, monitoramento semanal e a aplicação do questionário de longo prazo após um ano. Finalmente, em A2, foram propostas melhorias e avaliada a sustentabilidade do cronograma para futuras replicações.

A análise dos dados foi organizada em quatro fases distintas: imediata, de riscos, a longo prazo e estatística. A análise imediata ocorreu após a aplicação do cronograma, utilizando o feedback oral e as provas escritas dos profissionais treinados. A análise de riscos foi um processo contínuo, realizado desde o desenvolvimento até a aplicação do cronograma, com o objetivo de identificar e mitigar fatores que pudessem comprometer o andamento do treinamento. Essa abordagem permitiu uma gestão proativa de potenciais desafios, assegurando a integridade e a eficácia do processo de capacitação implementado no biobanco.

As análises a longo prazo e estatística foram realizadas com base nas respostas do questionário aplicado aproximadamente um ano após o treinamento. Os dados coletados foram tabulados em planilha estruturada, passando por conferência de consistência, padronização de categorias e verificação de dados ausentes. Em seguida, procedeu-se à análise descritiva preliminar, com cálculo de médias, frequências e desvios-padrão para cada item e bloco temático do questionário, conforme recomendado por Gil (2008) e Marconi e Lakatos (2017). Devido ao tamanho amostral reduzido e ao caráter exploratório, não foram realizadas análises inferenciais ou não paramétricas.

A resposta da pergunta aberta do questionário foi submetida a uma categorização temática exploratória, por meio da leitura e identificação da ideia central expressa, permitindo a emergência de eixos temáticos relacionados ao objeto de estudo. O índice de sucesso do cronograma foi definido por critérios operacionais específicos: autonomia satisfatória dos profissionais ao final do treinamento, média geral igual ou superior a 4,0 no questionário de avaliação e ausência de erros críticos nas atividades laboratoriais monitoradas. A autonomia satisfatória foi considerada a capacidade de executar rotinas sem intervenção direta do supervisor, sob regime de supervisão indireta.

Os erros críticos foram definidos como falhas que poderiam comprometer a integridade, rastreabilidade ou segurança das amostras e dos processos laboratoriais. A verificação desses erros foi realizada pelos profissionais responsáveis pela aplicação do treinamento, por meio de observação direta durante a execução das atividades práticas. Os eventos foram registrados em anotações internas do setor e, quando identificados, foram prontamente corrigidos pelo aplicador e comunicados ao gestor do biobanco, o Biologista III, para resolução imediata e prevenção de impactos nos processos. Essa abordagem garantiu a segurança e a qualidade das operações.

Os procedimentos éticos foram rigorosamente observados durante a pesquisa. Antes da aplicação do questionário de avaliação a longo prazo, os participantes foram informados sobre os objetivos do estudo e assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), registrando sua concordância voluntária. O questionário foi totalmente anônimo, não coletando nomes, e-mails ou quaisquer dados que pudessem identificar direta ou indiretamente os respondentes. O anonimato visou reduzir o viés da pesquisa e assegurar a participação voluntária, sem qualquer pressão sobre os colaboradores, garantindo a confidencialidade das informações.

Este estudo apresentou algumas limitações metodológicas que devem ser consideradas na interpretação dos resultados. O reduzido tamanho amostral, composto por sete profissionais treinados, dos quais seis responderam ao questionário, limitou a realização de análises inferenciais e a generalização estatística dos achados. Adicionalmente, a ausência de um grupo controle impossibilitou comparações diretas com modelos de treinamento anteriores, uma vez que todos os profissionais ingressantes foram submetidos ao novo cronograma. O estudo foi conduzido em um único biobanco, inserido em um contexto institucional específico, o que pode influenciar os resultados observados.

3. Resultados e Discussão

A implementação do cronograma de treinamento teórico-prático no biobanco demonstrou uma série de resultados significativos, que serão detalhados e discutidos à luz da literatura pertinente. O estudo, conduzido sob a metodologia de Pesquisa-Ação, permitiu uma abordagem iterativa e adaptativa, essencial para otimizar o processo de capacitação em um ambiente laboratorial complexo.

O primeiro ciclo da Pesquisa-Ação, que envolveu o desenvolvimento e a aplicação piloto do cronograma com dois participantes (P1 e P2), revelou a viabilidade da estrutura proposta. O treinamento, com duração de quatro semanas, cobriu integralmente as áreas administrativa, de centro cirúrgico, rotina de amostras e biologia molecular. Os participantes P1 e P2 concluíram esta fase com um desempenho considerado satisfatório, evidenciando uma compreensão inicial adequada das atividades essenciais do biobanco. Este achado inicial é crucial, pois valida a premissa de que um cronograma estruturado pode, de fato, guiar novos profissionais através das complexidades do ambiente laboratorial em um período definido. A Pesquisa-Ação, conforme Tripp (2005), enfatiza a importância de ciclos de diagnóstico e intervenção, e esta fase piloto serviu precisamente para identificar os primeiros pontos de ajuste.

No entanto, o feedback oral coletado durante o Ciclo 1 apontou para a existência de dúvidas na parte teórica e uma certa insegurança dos funcionários em executar suas funções sem assistência direta. Esta observação é consistente com a literatura que aborda a transição do conhecimento teórico para a prática em ambientes de alta complexidade. Eraut (2004) destaca que o aprendizado informal no local de trabalho, embora valioso, pode ser ineficaz sem um suporte estruturado que consolide o conhecimento. A dependência de supervisão direta, observada inicialmente, sublinha a necessidade de materiais de apoio que permitam a consulta e a revisão autônoma. Em resposta a essas lacunas, a elaboração de uma apostila teórica, o “Manual Informativo de Processamento Padrão Biobanco”, foi uma ação estratégica. Este material visou não apenas padronizar o conteúdo, mas também fornecer uma ferramenta de referência contínua, promovendo a autonomia e a segurança dos profissionais, conforme preconizado por princípios de gestão da qualidade em laboratórios (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2004). A incorporação do feedback imediato para refinar o cronograma e desenvolver a apostila ilustra a natureza adaptativa da Pesquisa-Ação e a importância das etapas de “Check” e “Act” do ciclo PDCA (PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE, 2021).

O Ciclo 2 da Pesquisa-Ação, que envolveu cinco novos profissionais (P3 a P7), demonstrou uma melhoria substancial na efetividade do treinamento, em grande parte devido à utilização da apostila desde o início. A presença do material teórico facilitou a consulta de dúvidas e contribuiu para um aumento perceptível na autonomia dos participantes, tanto nas atividades práticas quanto nas avaliações escritas. Todos os cinco profissionais completaram o cronograma dentro do tempo estabelecido, com uma média de quatro semanas, apesar de pequenas variações atribuídas a fatores como feriados, conforme detalhado na Tabela 1. A padronização das instruções, mediada pela apostila, resultou em uma redução significativa no número de dúvidas recorrentes, um contraste marcante com o ciclo piloto. Este resultado corrobora a importância de materiais didáticos bem estruturados para a otimização do processo de aprendizagem em contextos técnicos. Estudos como os de Akila et al. (2020) demonstram que materiais de apoio consistentes e acessíveis podem acelerar a proficiência e a confiança dos aprendizes em procedimentos laboratoriais complexos.

Tabela 1. Tempo de Treinamento dos Profissionais

Profissional Treinado

Tempo de treinamento

P1

01 à 31 de outubro de 2024
23 dias úteis (~5 semanas)

P2

01 à 31 de dezembro de 2024
20 dias úteis (~4 semanas)

P3 e P4

01 à 28 de fevereiro de 2025
19 dias úteis (~3 semanas)

P5

01 à 31 de março de 2025
18 dias úteis (~4 semanas)

P6 e P7

01 à 30 de abril de 2025
22 dias úteis (~4 semanas)

Fonte: Autoral

A Tabela 1 ilustra o tempo de treinamento individual dos profissionais, evidenciando que, embora houvesse pequenas variações nos dias úteis devido a fatores externos como feriados, o objetivo de concluir o treinamento em aproximadamente um mês foi consistentemente alcançado. Por exemplo, P1 levou 23 dias úteis (~5 semanas), enquanto P3 e P4 levaram 19 dias úteis (~3 semanas). A média de quatro semanas, com um desvio-padrão de 0,70, indica uma baixa variabilidade no tempo total de capacitação, o que é um indicador robusto da eficácia do cronograma em padronizar o período de adaptação. Esta redução do tempo de capacitação de dois a três meses para um mês é um achado de grande relevância prática e gerencial. Em um ambiente de biobanco, onde a alta rotatividade de pessoal é uma realidade, a capacidade de integrar novos profissionais de forma rápida e eficiente minimiza interrupções operacionais e custos associados à inatividade ou baixa produtividade. Stempinski et al. (2025) e Payne et al. (2011) ressaltam que a gestão de projetos em laboratórios de pesquisa deve focar na otimização de recursos e tempo, e este cronograma demonstrou ser uma ferramenta eficaz nesse sentido. A autonomia satisfatória alcançada por todos os profissionais ao final do treinamento, sem a ocorrência de erros críticos monitorados, reforça a qualidade e a segurança do processo de capacitação.

A avaliação a longo prazo, realizada aproximadamente um ano após a conclusão do treinamento por meio de um questionário via Google Forms, forneceu insights valiosos sobre a percepção dos participantes e a sustentabilidade do cronograma. Dos sete profissionais treinados, seis aceitaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e responderam ao questionário. As 12 questões em escala Likert (1-5) e uma pergunta aberta foram analisadas por meio de estatística descritiva, com cálculo de médias, medianas e desvios-padrão, conforme recomendado por Gil (2008) e Marconi e Lakatos (2017).

Tabela 2. Análise descritiva do questionário.

Bloco de Perguntas

Pergunta

Análise descritiva

Bloco 1 – Estrutura e Conteúdo do Treinamento

1. O cronograma de treinamento apresentou uma estrutura clara e bem organizada.

média: 5
mediana: 5
desvio: 0

Bloco 1 – Estrutura e Conteúdo do Treinamento

2. O tempo destinado ao treinamento foi suficiente para aprender as atividades necessárias.

média: 4,8
mediana: 5
desvio: 0,41

Bloco 1 – Estrutura e Conteúdo do Treinamento

3. A apostila teórica foi útil como material de apoio para a compreensão dos conteúdos.

média: 4,8
mediana: 5
desvio: 0,41

Bloco 2 – Aprendizado e Aplicabilidade

4. O treinamento contribuiu para o desenvolvimento das habilidades necessárias ao trabalho no biobanco.

média: 5
mediana: 5
desvio: 0

Bloco 2 – Aprendizado e Aplicabilidade

5. Os conhecimentos adquiridos foram aplicáveis diretamente nas atividades diárias

média: 5
mediana: 5
desvio: 0

Bloco 3 – Efetividade a Longo Prazo

6. O treinamento aumentou minha confiança para executar as atividades de forma independente.

média: 5
mediana: 5
desvio: 0

Bloco 3 – Efetividade a Longo Prazo

7. O treinamento me preparou para replicar os aprendizados e treinar outros profissionais.

média: 4,3
mediana: 4,5
desvio: 0,94

Bloco 3 – Efetividade a Longo Prazo

8. O cronograma de treinamento trouxe benefícios que se mantiveram no meu dia a dia de trabalho após meses de conclusão.

média: 4,8
mediana: 5
desvio: 0,41

Bloco 3 – Efetividade a Longo Prazo

9. O treinamento reduziu o tempo necessário para adaptação às atividades no biobanco.

média: 4,3
mediana: 4,5
desvio: 0,94

Bloco 3 – Efetividade a Longo Prazo

10. O aprendizado obtido continua sendo relevante e aplicável até hoje.

média: 5
mediana: 5
desvio: 0

Bloco 4 – Satisfação Geral

11. Estou satisfeito(a) com a experiência de treinamento oferecida pelo cronograma.

média: 5
mediana: 5
desvio: 0

Bloco 4 – Satisfação Geral

12. Eu recomendaria esse cronograma de treinamento para novos profissionais.

média: 5
mediana: 5
desvio: 0

Pergunta Aberta

Em sua opinião, quais pontos do cronograma poderiam ser melhorados para futuros treinamentos?

“Se fosse compatível com o tempo do cronograma, aumentar o tempo de treinamento em biologia molecular para aprofundar os conhecimentos práticos”

Fonte: Resultados originais da pesquisa

Conforme apresentado na Tabela 2, os resultados do questionário revelaram uma percepção altamente positiva dos participantes em relação a diversos aspectos do treinamento. A maioria das questões (58,3%) obteve média igual a 5,0, o valor máximo da escala Likert, com desvio-padrão de 0,0, e mediana de 5,0. Isso indica um forte consenso entre os respondentes sobre a clareza da estrutura do cronograma (Questão 1), a contribuição para o desenvolvimento de habilidades (Questão 4), a aplicabilidade dos conhecimentos nas atividades diárias (Questão 5), o aumento da confiança para executar tarefas de forma independente (Questão 6), a relevância e aplicabilidade contínua do aprendizado (Questão 10), e a satisfação geral com a experiência de treinamento (Questão 11 e 12). Esses resultados demonstram que o cronograma não apenas atendeu às expectativas imediatas de capacitação, mas também gerou benefícios duradouros e uma alta satisfação entre os profissionais. A alta concordância e a baixa variabilidade (desvios-padrão próximos de zero) em muitas das questões sugerem que o cronograma foi percebido como consistentemente eficaz por quase todos os participantes.

Figura 1. Gráfico das médias, medianas e desvio-padrão das respostas dos funcionários treinados após um ano de treinamento

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A Figura 1 visualiza graficamente as médias, medianas e desvios-padrão das respostas, reforçando a predominância de avaliações máximas e a baixa dispersão dos dados. Este padrão de respostas é um forte indicativo de que o cronograma foi bem-sucedido em seus objetivos de padronização e otimização do treinamento. A consistência das avaliações positivas, mesmo após um ano, sugere que o conhecimento adquirido foi retido e continua sendo aplicado no dia a dia, o que é um critério fundamental para a efetividade de qualquer programa de capacitação. Adeleke e Baidoo (2022) argumentam que programas de treinamento bem-sucedidos em saúde devem não apenas transmitir conhecimento, mas também garantir sua aplicação prática e sustentabilidade a longo prazo.

Figura 2. Gráfico de resposta por participante do questionário

Fonte: Resultados originais da pesquisa

A análise individual das respostas, conforme a Figura 2, mostrou que os participantes 1 e 3 apresentaram 100% de satisfação, com todas as suas respostas na escala Likert sendo 5. No entanto, a pergunta aberta do questionário revelou uma oportunidade de aprimoramento. O participante 3 sugeriu “aumentar o tempo de treinamento em biologia molecular para aprofundar os conhecimentos práticos”. Esta observação é particularmente relevante, pois a biologia molecular é uma área de alta complexidade técnica dentro de um biobanco, exigindo um nível de proficiência que pode demandar mais tempo de imersão e prática. Estudos indicam que, para técnicas laboratoriais avançadas, o tempo de treinamento estendido e a prática supervisionada são cruciais para o desenvolvimento da proficiência (Akila et al., 2020). A sugestão aponta para a necessidade de modular o cronograma, permitindo maior flexibilidade ou aprofundamento em áreas específicas, sem necessariamente estender o tempo total de treinamento para todas as áreas.

Adicionalmente, duas questões apresentaram maior variabilidade nas respostas, com média de 4,33 e desvio-padrão de 0,94: a Questão 7 (“O treinamento me preparou para replicar os aprendizados e treinar outros profissionais”) e a Questão 9 (“O treinamento reduziu o tempo necessário para adaptação às atividades no biobanco”). A variabilidade na Questão 7 pode estar associada não apenas ao domínio técnico, mas também a competências interpessoais, comunicacionais e de liderança, as chamadas *soft skills*, que são essenciais para que um profissional atue como multiplicador de conhecimento. Frenk et al. (2010) enfatizam que a formação de profissionais de saúde deve ir além das habilidades técnicas, incluindo a capacidade de ensinar e liderar. A percepção de que o treinamento não preparou totalmente para replicar o conhecimento pode indicar que, embora o conteúdo técnico tenha sido bem absorvido, as habilidades pedagógicas ou de mentoria não foram suficientemente desenvolvidas. Fatores contextuais, como a carga de trabalho e a dinâmica do ambiente laboratorial, também podem influenciar a capacidade dos profissionais de atuar como instrutores, impactando a segurança e a efetividade na replicação das atividades (Eraut, 2010).

A variabilidade na Questão 9, embora ainda com uma média alta, sugere que a percepção individual sobre a redução do tempo de adaptação pode divergir. Enquanto os dados objetivos do projeto confirmam que a meta de um mês foi atingida, representando uma redução significativa em relação ao cenário anterior de dois a três meses, a percepção subjetiva de alguns pode ser influenciada pela complexidade intrínseca de certas atividades ou pela pressão operacional. Para mitigar essas percepções e fortalecer o cronograma, recomenda-se aprimorar estratégias internas sem, contudo, ampliar a carga horária total do treinamento. Sugere-se redistribuir o tempo da primeira semana para ampliar a imersão prática em biologia molecular, conforme a sugestão da pergunta aberta. Além disso, a apostila teórica poderia ser complementada com materiais de apoio mais detalhados, como fluxogramas, exemplos práticos, listas de erros comuns e videoaulas curtas gravadas pelos próprios profissionais do departamento. Essas medidas, além de reforçar o aprendizado, permitiriam que os treinados revisitassem o conteúdo de forma autônoma, aumentando a segurança e a padronização das atividades, e fortalecendo a capacidade de multiplicação do conhecimento de maneira realista e sustentável. A manutenção de um canal de comunicação aberto para esclarecimento de dúvidas após o treinamento também é crucial para garantir o suporte contínuo aos profissionais.

Com base nos critérios de sucesso definidos na metodologia, o cronograma demonstrou ser altamente eficaz. Todos os sete profissionais treinados atenderam aos critérios operacionais: demonstraram autonomia satisfatória ao final do treinamento, obtiveram média geral igual ou superior a 4,0 no questionário de avaliação (para os seis respondentes) e não foram observados erros críticos durante a execução das atividades laboratoriais monitoradas. A ausência de erros críticos é um indicador fundamental da qualidade e segurança do treinamento, especialmente em um biobanco onde a integridade, rastreabilidade e segurança das amostras biológicas são de suma importância (LACEN/SC, 2024; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2004). A capacidade de executar rotinas laboratoriais sem intervenção direta do supervisor, sob regime de supervisão indireta, reflete um alto nível de proficiência e confiança, validando a eficácia do cronograma em preparar os profissionais para suas funções.

Sob a perspectiva da gestão de projetos, os resultados indicam que o cronograma atendeu simultaneamente aos critérios de qualidade, aceitação dos stakeholders e geração de valor organizacional, conforme os princípios do PMBOK (PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE, 2021). A abordagem de Pesquisa-Ação, aliada ao uso do Project Model Canvas (Finocchio Jr., 2013), permitiu um desenho integrado e uma execução adaptativa do projeto, garantindo que as necessidades reais do biobanco fossem endereçadas. No entanto, é importante ressaltar que, embora os princípios do PMBOK sejam uma estrutura orientadora robusta, eles são concebidos para serem amplamente aplicáveis a diversos setores, sem direcionamento específico para contextos laboratoriais ou hospitalares. Ambientes como biobancos apresentam particularidades significativas, incluindo exigências regulatórias rigorosas (Ministério da Saúde, 2011), protocolos de biossegurança (WHO, 2004), rastreabilidade de amostras e alta variabilidade técnica. A implementação do cronograma evidenciou a necessidade de contextualização desses princípios à realidade da área da saúde, sugerindo que futuras iniciativas possam avançar na construção de referenciais mais específicos para o gerenciamento de projetos em ambientes de saúde. Essa adaptação é vital para garantir que as ferramentas de gestão de projetos sejam verdadeiramente eficazes em cenários com alta complexidade técnica e regulatória (Payne et al., 2011).

Este estudo, apesar de seus resultados promissores, apresentou algumas limitações metodológicas que devem ser consideradas na interpretação dos achados. O reduzido tamanho amostral, composto por sete profissionais treinados (dos quais seis responderam ao questionário), limitou a realização de análises inferenciais e a generalização estatística dos resultados. A ausência de um grupo controle também impossibilitou comparações diretas com modelos de treinamento anteriores, uma vez que todos os profissionais ingressantes foram submetidos ao novo cronograma. Além disso, o estudo foi conduzido em um único biobanco, inserido em um contexto institucional específico, o que pode influenciar os resultados observados. Portanto, os achados devem ser interpretados como indicativos da efetividade do cronograma nesse contexto particular.

Contudo, o modelo proposto de treinamento teórico-prático, estruturado com base em princípios de gestão de projetos e validado por meio da Pesquisa-Ação, apresenta um potencial significativo de replicabilidade em outros biobancos e serviços laboratoriais. A metodologia iterativa permitiu a identificação e a incorporação de melhorias contínuas, resultando em um cronograma robusto e adaptável. A capacidade de padronizar a capacitação, reduzir o tempo de treinamento e aumentar a autonomia dos profissionais, mantendo a segurança operacional, são benefícios que transcendem o contexto específico deste estudo e podem ser replicados, desde que adaptados às realidades locais de cada instituição. A Pesquisa-Ação, ao envolver ativamente os participantes e focar na transformação da prática, demonstrou ser uma metodologia adequada para desenvolver soluções relevantes e eficazes em ambientes complexos como os biobancos.

4. Conclusão

Conclui-se que o objetivo foi atingido, com a elaboração, aplicação e avaliação de um cronograma estruturado de treinamento teórico-prático em um biobanco em Barretos/SP. Este estudo demonstrou a eficácia do modelo em padronizar a capacitação de novos profissionais, otimizar o tempo de aprendizagem para um período de um mês e desenvolver a autonomia operacional dos treinados. A abordagem de Pesquisa-Ação, aliada ao Project Model Canvas, permitiu um processo iterativo de aprimoramento, resultando em alta satisfação dos participantes e ausência de erros críticos monitorados, validando a qualidade e segurança do treinamento.

Apesar dos resultados promissores, o estudo apresentou limitações importantes, como o reduzido tamanho amostral (sete profissionais treinados, seis respondentes) e a ausência de um grupo controle, o que restringe a generalização estatística e comparações diretas. Além disso, a pesquisa foi realizada em um único biobanco, inserido em um contexto institucional específico. Para estudos futuros, sugere-se aprimorar o cronograma com maior imersão prática em biologia molecular e complementar a apostila com materiais de apoio mais detalhados, como videoaulas. Recomenda-se também a replicação deste modelo em outros biobancos e serviços laboratoriais, adaptando-o às realidades locais, e o desenvolvimento de referenciais de gestão de projetos mais específicos para o setor da saúde, considerando suas particularidades técnicas e regulatórias.

Referências Bibliográficas

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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