Artigo

30 de julho de 2026

Do Zero à Produção: Capacitação em uma Indústria Automotiva Chinesa

Guilherme Stenico de Campos; Bárbara Helena De Oliveira Santos

DOI: 10.22167/2675-6528-202600875

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A indústria automotiva brasileira experimentou crescimento impulsionado pela entrada de montadoras chinesas, exigindo o desenvolvimento de processos de treinamento rápidos e eficientes, especialmente em um contexto de produção enxuta e controle de custos. Analisou-se as práticas de Treinamento e Desenvolvimento (T&D) aplicadas na linha de montagem de uma multinacional chinesa recém-instalada no Brasil. A metodologia adotada consistiu na aplicação de questionários de avaliação, com enfoque quantitativo para 27 operadores e dimensões quantitativas e qualitativas para 5 líderes de produção. Os dados foram coletados por meio de formulários anônimos e voluntários. Os resultados evidenciaram percepção positiva dos participantes quanto à clareza dos conteúdos e ao preparo técnico dos instrutores. Contudo, identificaram-se limitações relacionadas à infraestrutura disponível, como a falta de uma sala exclusiva e bancadas práticas diversificadas, e às barreiras culturais no ambiente organizacional, que impactaram a comunicação e a simulação de operações críticas. O estudo indicou que investimentos na capacitação pedagógica dos instrutores, na padronização dos processos de treinamento e na melhoria das condições estruturais podem contribuir para o aumento do engajamento dos colaboradores, aprimoramento do aprendizado, maior segurança na execução das atividades e elevação da produtividade.

Palavras-chave: Gestão de Pessoas; Indústria Automotiva; Integração Cultural; Treinamento e Desenvolvimento.

1. Introdução

A indústria automotiva brasileira registrou um crescimento significativo em 2024, impulsionado pela crescente presença de montadoras chinesas no mercado e pelo avanço da eletrificação. Conforme dados da ANFAVEA (2025), o Brasil produziu 2,55 milhões de veículos, posicionando-se como o oitavo maior produtor mundial. Esse aumento, de 9,7% em relação a 2023, foi acompanhado por um notável incremento nas importações, especialmente de veículos eletrificados provenientes da China. Nesse cenário, as empresas chinesas não apenas expandem sua participação via importação, mas também iniciam a produção local, intensificando a competitividade e a demanda por processos produtivos rápidos e eficientes, com foco em produção enxuta e controle de custos.

A instalação de uma nova montadora no Brasil, especialmente de origem estrangeira, acarreta uma série de desafios. Estes incluem a adaptação às regulamentações e legislações locais, o desenvolvimento de uma cadeia de fornecedores robusta, a criação e padronização de procedimentos operacionais, e a preparação da infraestrutura fabril. Contudo, um dos desafios mais críticos reside na capacitação da mão de obra, que precisa ser treinada de forma rápida e eficaz para atender às exigências de um ambiente de produção dinâmico e competitivo.

Nesse contexto, o fator humano assume um papel de destaque. Chiavenato (2014) enfatiza que, em um mercado globalizado e em constante mutação, o capital humano se configura como o principal diferencial competitivo para as organizações bem-sucedidas. Para tanto, o treinamento e a preparação contínua das pessoas são essenciais. A qualidade dos produtos e serviços, a confiabilidade e a sustentabilidade dependem diretamente de uma força de trabalho bem treinada e motivada, como apontam Arcuri Filho et al. (2008), que destacam o executante como o responsável pela qualidade final.

O setor de Montagem Final, caracterizado pela maior concentração de mão de obra em uma montadora, exige que os operadores montem os principais sistemas dos veículos, seguindo sequências produtivas e instruções operacionais específicas. A crescente customização dos veículos demanda que os operadores tomem decisões frequentes e rápidas. Bläsing e Bornewasser (2021) observam que o aumento da complexidade das escolhas no processo de montagem eleva o esforço cognitivo exigido do operador, especialmente na ausência de sistemas de apoio informacional. Assim, a estruturação dos treinamentos torna-se um elemento crucial para o desempenho operacional, sendo fundamental que os objetivos específicos do treinamento sejam claros e precisos, indicando o desempenho esperado dos colaboradores (Gil, 2019).

Além dos aspectos técnicos, fatores organizacionais e culturais exercem influência significativa na forma como os treinamentos são concebidos e percebidos. Schein (2010) define a cultura de um grupo como um padrão de comportamentos aprendidos que se mostra eficaz e é transmitido aos novos membros como a maneira correta de lidar com problemas. A cultura organizacional de uma empresa leva tempo para se consolidar, e a interação de culturas distintas, como a chinesa e a brasileira, pode gerar peculiaridades e diferenças que impactam diretamente os processos de produção e de treinamento. Thomas e Peterson (2016) ressaltam que as diferenças culturais, quando não gerenciadas adequadamente, podem comprometer a comunicação e as interações organizacionais.

No âmbito do Treinamento e Desenvolvimento (T&D), as diferenças culturais moldam as expectativas em relação às práticas de capacitação. Operadores automotivos brasileiros, por exemplo, tendem a valorizar treinamentos que oferecem incentivos e estimulam o compartilhamento de conhecimento. Em contraste, trabalhadores chineses atribuem maior importância à padronização formal das atividades por meio de estruturas e procedimentos operacionais bem definidos (Sacho, 2021). Dessa forma, torna-se imperativo desenvolver modelos de treinamento que consigam integrar essas diferentes perspectivas, contribuindo para a construção de uma cultura organizacional híbrida e eficaz.

A problemática central reside, portanto, na necessidade de desenvolver processos de treinamento rápidos e eficientes para a linha de montagem de uma multinacional automotiva chinesa recém-instalada no Brasil, em um ambiente de produção enxuta, controle de custos e baixa automação, onde a capacitação dos operadores é vital para a qualidade e produtividade. A complexidade é ampliada pelas barreiras culturais e pela necessidade de adaptar as práticas de T&D para garantir a efetividade do aprendizado e o engajamento dos colaboradores. Justifica-se, assim, a relevância de investigar as práticas de Treinamento e Desenvolvimento (T&D) adotadas por essa multinacional, visando compreender como os desafios de capacitação e integração cultural são abordados. Diante deste contexto, este estudo teve como objetivo analisar as práticas de Treinamento e Desenvolvimento (T&D) aplicadas na linha de montagem de uma multinacional automotiva chinesa recém-instalada no Brasil, buscando identificar as estratégias de treinamento utilizadas, avaliar sua eficácia a partir da percepção de operadores e líderes, e verificar desafios relacionados à integração cultural e à baixa automação da linha de produção.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa aplicada, com abordagem metodológica mista, combinando elementos quantitativos e qualitativos. Quanto aos objetivos, a pesquisa foi de natureza descritiva e avaliativa, buscando analisar as práticas de Treinamento e Desenvolvimento (T&D) em um contexto específico. O local de investigação foi uma montadora de veículos chinesa de grande porte, com mais de quarenta anos de atuação global, que iniciou suas operações e produção local no Brasil no final de 2025. O foco da análise recaiu sobre o departamento de Montagem Final, setor com a maior concentração de mão de obra na empresa.

A população do estudo incluiu todos os operadores envolvidos no processo de treinamento no departamento de Montagem Final. Para a primeira etapa da pesquisa, a amostra foi composta por 27 operadores, selecionados de forma não probabilística e intencional. Este grupo representou a totalidade dos operadores contratados e em fase de treinamento durante o período de coleta de dados. O critério de seleção considerou a função exercida pelos participantes, garantindo que fossem indivíduos diretamente envolvidos nas atividades de montagem e nos treinamentos.

O instrumento de coleta de dados para os operadores consistiu em um questionário quantitativo, composto por quinze questões. Este questionário foi elaborado para avaliar a percepção dos participantes em relação aos treinamentos realizados, abrangendo aspectos como a qualidade dos instrutores, a duração, o conteúdo programático e os recursos didáticos empregados. As questões foram estruturadas utilizando uma escala do tipo Likert de cinco pontos e também em formato de múltipla escolha. Antes da aplicação definitiva, realizou-se um pré-teste com um grupo reduzido de operadores para verificar a clareza e a adequação das questões.

A segunda etapa da pesquisa envolveu os líderes de grupo do departamento de Montagem Final. A população foi constituída por esses líderes, e a amostra foi composta por cinco participantes. A seleção dos líderes também seguiu um critério não probabilístico e intencional, baseado na disponibilidade para participação e na sua posição de liderança direta sobre os operadores em treinamento. Esta abordagem visou obter uma perspectiva complementar sobre os processos de Treinamento e Desenvolvimento.

Para os líderes, aplicou-se um questionário de natureza quantitativa e qualitativa, contendo sete questões. O objetivo deste instrumento foi identificar suas percepções sobre a efetividade dos treinamentos, as dificuldades enfrentadas no processo de capacitação e os aspectos culturais que influenciam o ambiente de trabalho. O questionário incluiu questões fechadas, com escala numérica, e questões abertas, que permitiram uma análise qualitativa das respostas. Ambos os questionários, para operadores e líderes, foram desenvolvidos de forma autoral e original, alinhados aos objetivos do estudo e à literatura secundária.

A coleta de dados foi realizada entre os meses de julho e agosto de 2025, por meio de formulários eletrônicos aplicados via Google Forms. A participação foi anônima, individual e voluntária para todos os integrantes e líderes envolvidos nos treinamentos. Este procedimento garantiu a confidencialidade das informações e a livre adesão dos participantes, conforme os princípios éticos estabelecidos. Os dados foram coletados diretamente dos respondentes, sem intermediários, para assegurar a integridade das informações.

Para a análise dos dados, empregou-se estatística descritiva para as informações quantitativas, utilizando porcentagens das respostas e a construção de gráficos simples. Os dados qualitativos, obtidos das questões abertas dos questionários, foram submetidos à análise de conteúdo, conforme a metodologia proposta por Bardin (2011). Todos os participantes foram devidamente informados sobre os objetivos e procedimentos da pesquisa, e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi aplicado, assegurando a concordância voluntária e consciente, além da confidencialidade das informações coletadas.

3. Resultados e Discussão

A análise das práticas de Treinamento e Desenvolvimento (T&D) na linha de montagem da multinacional automotiva chinesa revelou um cenário de percepções geralmente positivas, mas também identificou desafios significativos relacionados à infraestrutura, à metodologia de ensino e às barreiras culturais. Os resultados, obtidos a partir da perspectiva de operadores e líderes de produção, permitiram uma compreensão aprofundada da efetividade dos treinamentos e das áreas que demandam aprimoramento para otimizar a capacitação da mão de obra em um ambiente de produção enxuta e de baixa automação.

A caracterização do perfil dos 27 operadores participantes dos treinamentos evidenciou uma distribuição etária predominante entre 36 e 45 anos, representando 55% (quinze indivíduos), seguida pela faixa de 26 a 35 anos, com 37% (dez indivíduos). Em relação à experiência em processos de montagem, 67% (dezoito operadores) possuíam pelo menos um ano de experiência, sendo que 14 deles tinham mais de cinco anos. Contudo, 33% (nove operadores) não possuíam experiência prévia. Essa heterogeneidade no público-alvo, com a presença de profissionais experientes e iniciantes, impõe um desafio ao planejamento dos treinamentos, que precisam ser adaptativos para atender às distintas necessidades de maturidade técnica, conforme apontado por Bove (2019) sobre a inadequação entre o nível do aprendiz e o desenho do treinamento.

Questionário aplicado aos operadores

Treinamento Teórico

Em relação ao treinamento teórico, a percepção dos operadores foi majoritariamente positiva quanto à clareza do conteúdo e ao engajamento dos instrutores. Verificou-se que 89% dos participantes consideraram o conteúdo muito claro e bem explicado, enquanto 74% (vinte operadores) perceberam os instrutores como muito engajados, tornando o treinamento interessante e incentivando a participação. Esses dados sugerem que a abordagem do conteúdo e a postura dos instrutores estão alinhadas às expectativas dos colaboradores, o que é crucial para uma aprendizagem significativa. A literatura corrobora essa percepção, destacando que a motivação do participante é influenciada pela relevância e utilidade do treinamento, e que o capital humano é um diferencial competitivo (Chiavenato, 2014).

Apesar das avaliações positivas sobre o conteúdo e os instrutores, foram identificadas oportunidades de melhoria na infraestrutura e nos materiais didáticos do treinamento teórico. Quarenta e oito por cento dos operadores indicaram que o local de treinamento, embora adequado, poderia ter algumas melhorias, e 59% consideraram os materiais bons, mas com potencial para mais exemplos e vídeos. Esses aspectos estruturais e de recursos são fatores motivacionais extrínsecos que afetam o desempenho dos participantes, conforme Marras (2020), reforçando a necessidade de ajustes para potencializar os resultados de aprendizagem.

O tempo dedicado ao treinamento teórico foi considerado adequado por 96,3% (vinte e seis operadores), indicando um planejamento temporal eficaz. No entanto, ao serem questionados sobre possíveis melhorias, um número expressivo de respostas apontou a necessidade de incluir materiais mais interativos, como vídeos e simulações, e dinâmicas de grupo. Treze operadores sugeriram materiais mais interativos, e três mencionaram dinâmicas de grupo. Essa demanda por metodologias mais dinâmicas reflete o interesse dos operadores em abordagens que aumentem o engajamento e a retenção do conhecimento, conforme Mohd Dahlan et al. (2023) e Chiavenato (2014), que destacam a importância da interação e troca de experiências.

Apesar das oportunidades de melhoria, 96,3% (vinte e seis participantes) afirmaram sentir-se preparados para avançar para o treinamento prático, com apenas um declarando-se parcialmente preparado. Esse resultado demonstra que o treinamento teórico cumpriu sua função de preparação inicial, fornecendo a base de conhecimento necessária. Contudo, a identificação de lacunas nos materiais e no ambiente sugere que aprimoramentos podem consolidar ainda mais o conhecimento antes da aplicação prática, garantindo uma transição mais fluida e segura para a próxima fase de capacitação.

Treinamento Prático

A avaliação do treinamento prático pelos operadores revelou uma aceitação geral positiva, embora ligeiramente inferior à do treinamento teórico. Em relação às habilidades e preparo dos instrutores, 52% (quatorze operadores) os classificaram como “bons”, enquanto 37% (dez operadores) os consideraram “excelentes”. No entanto, 11% (três operadores) os avaliaram como “regulares”. Esses resultados indicam que, embora os instrutores possuam domínio técnico, há uma necessidade de aprimorar suas habilidades pedagógicas para transmitir o conhecimento de forma mais clara e estruturada, um aspecto crucial para a eficácia da instrução (Walter, 2006).

Os pontos de melhoria mais citados pelos operadores no treinamento prático foram o aumento do número de bancadas (44,4%, doze operadores) e a inclusão de bancadas com outros tipos de montagem (dezessete menções). Além disso, foram sugeridas instruções mais claras e detalhadas sobre a sequência das atividades e um melhor acompanhamento dos instrutores durante a prática. Essas observações evidenciam uma limitação na diversidade de processos disponíveis para a prática e na clareza das orientações, o que pode restringir a oportunidade dos operadores de vivenciar a realidade da linha de produção e comprometer a segurança psicológica durante a execução das tarefas.

A infraestrutura do local de treinamento prático também foi um ponto de atenção. Setenta e oito por cento (vinte e um operadores) consideraram o local “bom”, enquanto 11% (três operadores) o classificaram como “excelente”. Contudo, 89% (vinte e quatro operadores) apontaram que as ferramentas e bancadas precisavam de melhorias, e 26% (sete operadores) relataram dificuldades no uso. Essa percepção de que o ambiente, embora funcional, não é ideal para a aprendizagem, reforça a importância de investimentos em infraestrutura. A inadequação de métodos e materiais pode dificultar a compreensão e o desenvolvimento de habilidades, além de desmotivar os instrutores (Kapur, 2022).

A efetividade do treinamento prático está diretamente ligada à semelhança entre o contexto de aprendizagem e o ambiente real de aplicação das atividades, conforme Baldwin e Ford (1988). A limitação na diversidade de bancadas e a necessidade de simular cenários mais próximos da realidade da produção, conforme as sugestões dos operadores, indicam que a transferência do aprendizado para o trabalho pode ser comprometida. A ausência de um ambiente que reproduza com fidelidade as condições do processo aumenta o risco de execução incorreta das atividades, impactando a qualidade do produto final.

Em relação ao tempo destinado ao treinamento prático, 96,3% (vinte e seis participantes) o consideraram adequado, um resultado consistente com a avaliação do treinamento teórico. Esse dado sugere que a duração não é um fator crítico a ser ajustado. Ao final do treinamento, 74% (vinte operadores) sentiram-se “Totalmente Preparados” para iniciar as atividades na linha de montagem, e 26% (sete operadores) sentiram-se “Preparados”. Embora a maioria demonstre confiança, as oportunidades de melhoria identificadas nos aspectos práticos indicam que há espaço para aprimorar a preparação para a fase de produção.

Questionário aplicado aos líderes

Avaliação Geral dos Treinamentos

A avaliação dos cinco líderes de produção corroborou as percepções dos operadores, apresentando uma média de 9 para a efetividade do treinamento teórico e 8,4 para o treinamento prático. Essa convergência de resultados em diferentes níveis hierárquicos aumenta a confiabilidade dos dados. Os líderes apontaram limitações no treinamento teórico relacionadas à falta de espaço adequado, interferências externas e dificuldade de concentração. No treinamento prático, as limitações foram mais críticas e estruturais, destacando a indisponibilidade de recursos e a inadequação dos ambientes para simulação de operações críticas e aderência à realidade da linha de produção.

Fatores dificultadores do treinamento

Os líderes identificaram a falta de recursos adequados como o principal fator dificultador na evolução dos operadores durante o treinamento. Quarenta por cento (dois líderes) citaram especificamente a ausência de uma sala apropriada e exclusiva para treinamento, sem interação com o ambiente externo. Um ambiente de aprendizagem adequado, com iluminação, acústica e ventilação controladas, é essencial para favorecer a atenção e a absorção do conhecimento, conforme Chan (1996). A ausência de tal ambiente pode reduzir o foco dos participantes e comprometer a eficácia do treinamento, impactando diretamente a gestão de pessoas.

Adequação do conteúdo

Em relação à adequação do conteúdo, 60% (três líderes) avaliaram que o conteúdo planejado foi efetivo e atendeu às expectativas. No entanto, 40% (dois líderes) relataram que o equilíbrio entre o planejado e o aplicado foi limitado, exigindo adaptações durante a execução do treinamento. As variações no número de operadores por turma e as demandas operacionais emergentes foram os principais motivos para essas adaptações. Turmas com número elevado de operadores podem dificultar a absorção do conhecimento, enquanto turmas muito pequenas podem representar um desperdício de recursos, como observado por Laitsch et al. (2021).

Preparação para a linha de produção

A percepção dos líderes sobre a preparação dos operadores para a linha de produção foi mista. Sessenta por cento (três líderes) consideraram o treinamento adequado, com conteúdos alinhados às demandas práticas. Contudo, 40% (dois líderes) sugeriram que o treinamento deveria simular cenários mais próximos da realidade da produção, e 20% (um líder) afirmou que o treinamento deveria ser executado diretamente na estação de trabalho real. Essa visão complementa a dos operadores, que apontaram dificuldades relacionadas à variedade de situações simuladas, reforçando a necessidade de maior aproximação entre o treinamento e o ambiente de trabalho real para garantir a transferência do aprendizado (Baldwin e Ford, 1988).

Influência dos gestores chineses

A influência dos gestores chineses no processo de treinamento apresentou aspectos positivos e desafios. Quarenta por cento (dois líderes) destacaram o domínio técnico e o conhecimento dos processos por parte dos gestores chineses como contribuições valiosas para a transmissão de conteúdo. No entanto, a comunicação foi apontada como o principal problema por 40% (dois líderes), com dificuldades na interpretação de informações e interações, o que pode alongar o tempo das atividades e gerar erros, conforme Bueno (2010). A presença do suporte chinês, muitas vezes focada na cobrança de resultados em vez do suporte ao desenvolvimento, reflete uma hierarquia organizacional mais verticalizada, característica da cultura chinesa (Pires e Duarte, 2020).

Sugestões de melhoria no processo de treinamento

Os líderes apresentaram diversas sugestões para reestruturar o processo de treinamento. Um líder propôs definir uma quantidade fixa de participantes por turma, idealmente entre dez e quinze pessoas, com intervalos padronizados entre os grupos. Quarenta por cento (dois líderes) sugeriram a manutenção de instrutores fixos para todas as turmas, visando padronizar os conteúdos. Outras melhorias incluíram investir mais recursos em infraestrutura, com espaços físicos adequados e exclusivos, designar treinadores dedicados, e garantir um ambiente adequado com mais carrocerias e peças reservas para o treinamento prático, além de estações específicas para operações críticas e ajuste do cronograma para evitar interrupções.

Em síntese, os resultados da pesquisa indicam que os treinamentos de T&D na multinacional chinesa foram bem recebidos pelos operadores e líderes, especialmente quanto à clareza do conteúdo teórico e ao preparo técnico dos instrutores. No entanto, foram identificadas lacunas significativas na infraestrutura, como a falta de uma sala exclusiva e bancadas práticas diversificadas, e na metodologia, que poderia se beneficiar de maior interatividade e simulação de cenários reais. As barreiras culturais e de comunicação, bem como a abordagem dos gestores chineses focada em resultados, também emergiram como desafios que impactam a efetividade do aprendizado e o engajamento. A superação desses obstáculos, por meio de investimentos pedagógicos, estruturais e de padronização, é fundamental para otimizar a capacitação e garantir a segurança e produtividade na linha de montagem, respondendo diretamente ao objetivo de analisar as práticas de T&D e seus desafios.

4. Conclusão

O presente estudo teve como objetivo analisar as práticas de Treinamento e Desenvolvimento (T&D) aplicadas na linha de montagem de uma multinacional automotiva chinesa recém-instalada no Brasil, buscando identificar as estratégias de treinamento utilizadas, avaliar sua eficácia a partir da percepção de operadores e líderes, e verificar desafios relacionados à integração cultural e à baixa automação da linha de produção. Verificou-se uma percepção majoritariamente positiva dos participantes quanto à clareza dos conteúdos teóricos e ao preparo técnico dos instrutores, indicando que a base de conhecimento foi adequadamente transmitida. Contudo, identificaram-se limitações significativas na infraestrutura disponível, como a ausência de uma sala exclusiva para treinamento e a falta de bancadas práticas diversificadas, que restringiram a simulação de operações críticas e a vivência da realidade da linha de produção. Observou-se também que barreiras culturais no ambiente organizacional, especialmente na comunicação e na abordagem dos gestores chineses focada em resultados, impactaram a efetividade do aprendizado e o engajamento dos colaboradores. A necessidade de maior interatividade nos materiais didáticos e a aproximação dos treinamentos com cenários reais de produção emergiram como pontos cruciais para aprimorar a capacitação.

Apesar dos achados relevantes, o estudo foi realizado com um número limitado de participantes, o que restringe a generalização dos resultados para a totalidade da organização ou para outros contextos industriais. Sugere-se que pesquisas futuras ampliem a investigação para outros setores da empresa ou realizem comparações com organizações similares em fase inicial de operação no Brasil, a fim de validar e aprofundar as observações. A principal contribuição deste trabalho reside em evidenciar que investimentos na capacitação pedagógica dos instrutores, na padronização dos processos de treinamento e na melhoria das condições estruturais são fundamentais para otimizar o engajamento, o aprendizado, a segurança na execução das atividades e a produtividade. Em um cenário de produção enxuta e multicultural, a estruturação de programas de T&D eficazes configura-se como um fator estratégico para o desenvolvimento humano e a sustentabilidade das operações produtivas.

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq

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A integração de diferentes modelos de liderança mostrou-se um caminho relevante para instituições de ensino que buscaram inovar e alcançar excelência em suas práticas educacionais. Contudo, foram escassas as pesquisas empíricas que investigaram a aplicação da Teoria U na gestão escolar associada às abordagens Transformacional e Servidora, o que configurou uma lacuna na literatura. Este estudo buscou compreender como gestores educacionais perceberam e aplicaram princípios da Teoria U — escuta generativa, presencing e cocriação — em diálogo com as abordagens teóricas da Liderança Transformacional e da Liderança Servidora em suas práticas de gestão. A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de São Paulo, que abrangeu desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de perguntas semiestruturadas, aplicado a sete gestores educacionais, e foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram aproximações entre as práticas observadas e os pressupostos teóricos dos modelos estudados, com a escuta destacando-se como a competência que melhor articulou as três abordagens no contexto investigado. Também foram identificadas algumas tensões entre os referenciais teóricos e o cotidiano da gestão. O estudo contribuiu para uma reflexão crítica sobre as possibilidades e os limites da integração desses diferentes modelos de liderança em ambientes escolares, ampliando o debate e oferecendo subsídios relevantes para o fortalecimento do campo da gestão educacional.

Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

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