Artigo

23 de julho de 2026

Distribuição regional do crédito rural por programas com condições financeiras diferenciadas no Brasil

Cintya da Nobrega Geraldo; Brayan Petrick de Souza

DOI: 10.22167/2675-6528-202600662

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A atividade agropecuária brasileira possui relevância econômica, sendo o crédito rural um instrumento crucial para viabilizar a produção e induzir o desenvolvimento regional. Este estudo analisou a distribuição regional dos recursos contratados em programas de crédito rural com condições financeiras diferenciadas no Brasil, considerando sua alocação por unidade federativa, região e período. Utilizou-se uma abordagem quantitativa, descritiva e documental, com dados secundários do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro, no período de 2013 a 2025. Os dados foram tratados por safra, região, unidade federativa e programa, e analisados por estatísticas descritivas. Os resultados evidenciaram concentração do crédito rural nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, associada à maior demanda estrutural. O crédito incentivado, embora menos representativo em termos absolutos, apresentou maior participação relativa em regiões com menor capitalização, como Nordeste e Norte, atuando como mecanismo de sustentação. Concluiu-se que a análise integrada do volume e da composição do crédito rural identificou como os programas de financiamento influenciam a alocação de recursos no território brasileiro, orientando a produção e impactando as assimetrias regionais, ressaltando a importância da avaliação das políticas públicas de financiamento rural.

Palavras-chave: Alocação de recursos; Desenvolvimento econômico; Financiamento agrícola; Políticas de financiamento; Políticas públicas.

1. Introdução

A atividade agropecuária possui uma relevância estratégica na estrutura econômica brasileira, sendo um pilar fundamental para a geração de renda, emprego e para a dinamização de diversas regiões do país. A magnitude dos recursos direcionados a este setor é evidenciada por relatórios institucionais, como os do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA, 2024), que destacam o volume de investimentos por meio do Plano Safra. Nesse contexto, a disponibilidade de recursos financeiros é um fator determinante para a viabilidade produtiva, especialmente em áreas com menor acesso a capital privado, consolidando o financiamento como um elemento estruturante para a continuidade e expansão da atividade agropecuária.

O crédito rural, neste cenário, transcende a função de mero mecanismo financeiro, assumindo o papel de um instrumento de política pública desenhado para induzir o desenvolvimento regional. Reis (2021) argumenta que sua função institucional é crucial na organização do financiamento agrícola no Brasil. O Banco Central do Brasil (BCB, 2024) corrobora essa perspectiva, indicando que a concessão de crédito rural é direcionada, com volumes expressivos distribuídos entre diferentes perfis produtivos e regiões, o que impacta diretamente a dinâmica econômica territorial. Essa alocação estratégica de recursos visa atender a necessidades específicas e promover o equilíbrio regional.

Dentro dessa lógica, os programas de crédito rural são estruturados com base em objetivos específicos e públicos-alvo distintos, frequentemente associados a condições financeiras diferenciadas. Fossá et al. (2024) demonstram que a operacionalização desses programas ocorre de forma heterogênea entre os municípios brasileiros, refletindo diretamente as diferenças no acesso ao crédito e na capacidade produtiva regional. A definição de taxas de juros reduzidas em determinadas linhas de crédito atua como um mecanismo de incentivo, diminuindo o custo do capital e ampliando a capacidade de investimento dos produtores, conforme estabelecido nas diretrizes do Plano Safra (MAPA, 2024). Tenchini e Freitas (2024) indicam que o acesso a linhas de crédito com condições favorecidas está associado ao fortalecimento produtivo e ao aumento da renda em contextos regionais, reforçando o papel dos juros como instrumento de estímulo econômico. Contudo, a distribuição do crédito rural entre unidades da federação apresenta concentração em determinadas regiões, o que evidencia que os instrumentos de política pública nem sempre são distribuídos de forma homogênea no território nacional (Fossá et al., 2024).

Apesar da inegável relevância do crédito rural e de seus programas de incentivo, parte significativa da literatura acadêmica concentra-se na análise agregada do volume de crédito ou em seus impactos produtivos gerais. Há uma lacuna na compreensão aprofundada sobre a distribuição territorial dos programas específicos que oferecem condições financeiras diferenciadas, conforme apontado por Fossá et al. (2024). Essa limitação restringe a capacidade de identificar como os instrumentos de incentivo são efetivamente distribuídos entre as regiões, dificultando uma análise mais precisa do crédito rural como um mecanismo de desenvolvimento regional e de redução das assimetrias territoriais.

Diante desse cenário, torna-se imperativo avançar na análise do crédito rural a partir de uma perspectiva territorial mais detalhada. É fundamental considerar não apenas o volume total de recursos, mas também a natureza e a composição dos programas que estruturam essa distribuição, conforme sugerido por estudos recentes sobre políticas de financiamento agrícola (Fossá; Matte; Mattei, 2024). Ao focar nos programas com condições financeiras específicas, é possível compreender de forma mais precisa como os incentivos são direcionados e quais regiões são mais contempladas por essas políticas, revelando padrões de alocação que podem influenciar a equidade e a eficácia das intervenções governamentais. Nesse sentido, o problema de pesquisa que orienta este estudo é compreender como se distribuem regionalmente os recursos de crédito rural associados a programas com condições financeiras diferenciadas no Brasil.

A compreensão dessa dinâmica é crucial para o aprimoramento das políticas públicas e para o desenvolvimento de estratégias que promovam um acesso mais equitativo e eficaz aos recursos financeiros no campo, contribuindo para o desenvolvimento sustentável das diversas regiões brasileiras. Assim, o objetivo do estudo é analisar a distribuição regional dos recursos contratados em programas de crédito rural com condições financeiras diferenciadas no Brasil, considerando sua alocação por unidade federativa, região e período.

2. Material e Métodos

A presente pesquisa foi conduzida com uma abordagem quantitativa, fundamentada na análise de dados numéricos para identificar padrões de distribuição do crédito rural entre regiões e programas. Conforme Gil (2019), estudos quantitativos são adequados para mensurar relações entre variáveis e identificar padrões em bases de dados estruturadas, especialmente quando envolvem grandes volumes de informações.

Quanto aos objetivos, o estudo caracterizou-se como descritivo, buscando identificar e descrever a distribuição regional dos recursos de crédito rural associados a programas com condições financeiras diferenciadas. De acordo com Marconi e Lakatos (2017), pesquisas descritivas têm como finalidade observar, registrar e analisar fenômenos sem interferir em sua ocorrência, sendo apropriadas para este tipo de investigação.

Adicionalmente, a pesquisa possui caráter documental, uma vez que utilizou dados secundários provenientes de bases oficiais. Segundo Gil (2019), pesquisas documentais empregam materiais que ainda não receberam tratamento analítico, sendo particularmente úteis para estudos que utilizam bases institucionais como fonte primária de informação.

A base de dados utilizada foi obtida do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro, ambos mantidos pelo Banco Central do Brasil. Essa base de dados reúne informações detalhadas sobre as operações de crédito rural realizadas em todo o território nacional, sendo amplamente reconhecida e utilizada em estudos que abordam o financiamento agrícola e políticas públicas (BCB, 2024).

O recorte temporal da pesquisa abrangeu o período de 2013 a 2025. Essa escolha permitiu uma análise da evolução do crédito rural ao longo do tempo, justificando-se pela disponibilidade de dados consistentes e pela possibilidade de observar mudanças significativas na distribuição dos recursos ao longo das safras agrícolas.

A unidade de análise adotada no estudo correspondeu à combinação entre unidade federativa, programa de crédito e período (safra). Essa desagregação permitiu avaliar a distribuição dos recursos de forma detalhada. Segundo Creswell (2018), a definição adequada da unidade de análise é crucial para garantir a coerência entre os objetivos da pesquisa e os procedimentos analíticos empregados.

Para fins de análise, realizou-se o tratamento dos dados, que incluiu a padronização dos nomes dos programas de crédito rural, visando garantir consistência analítica e evitar duplicidade de categorias (Hair et al., 2019). Essa etapa foi essencial devido às variações de nomenclatura presentes na base original.

Adicionalmente, criou-se a variável “Região” a partir da agregação das unidades federativas nas cinco grandes regiões brasileiras (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul). Essa agregação possibilitou a análise comparativa da distribuição territorial dos recursos, prática comum em estudos regionais, conforme destacado por Marconi e Lakatos (2017).

Outra etapa relevante no tratamento dos dados foi a construção da variável “Safra”, que considerou o período de julho de um ano a junho do ano subsequente, conforme a prática amplamente adotada em estudos do setor agropecuário (MAPA, 2024). Realizou-se também a filtragem da base de dados, excluindo a categoria “Sem Programa” das análises principais, pois agregava operações heterogêneas sem padronização de condições financeiras, o que comprometeria a comparabilidade.

As variáveis utilizadas no estudo incluíram o volume de crédito como variável principal, representado pelo valor total das operações contratadas. As variáveis explicativas foram região, unidade federativa, programa de crédito e safra, permitindo analisar a distribuição dos recursos sob diferentes dimensões e perspectivas.

A análise dos dados foi realizada em etapas, permitindo uma compreensão abrangente da distribuição do crédito rural. Inicialmente, agregaram-se os dados por safra, região, unidade federativa e programa de crédito, consolidando os valores totais para cada recorte analítico. Em seguida, conduziu-se uma análise descritiva para identificar padrões gerais de distribuição do crédito rural ao longo do tempo e entre regiões (Hair et al., 2019).

Posteriormente, realizou-se a análise de distribuição regional e por unidade federativa, com o objetivo de identificar a concentração territorial dos recursos, comparando os volumes absolutos de crédito entre regiões e estados. Adicionalmente, efetuou-se uma análise de participação percentual para avaliar a relevância relativa dos programas de crédito dentro de cada região.

Essa abordagem analítica desdobrou-se em duas perspectivas complementares: a análise vertical, que identificou a participação de cada região e unidade federativa no total nacional de crédito rural, e a análise horizontal, que avaliou a participação do crédito incentivado dentro do total de crédito de cada região, permitindo identificar o grau de dependência dos instrumentos de financiamento com condições diferenciadas.

A análise temporal constituiu uma etapa fundamental para compreender a evolução dos programas de incentivo agrícola ao longo das diferentes safras. O objetivo foi identificar padrões de crescimento, retração ou estabilidade, bem como destacar momentos de inflexão que pudessem estar associados a fatores externos, como políticas públicas ou condições de mercado.

Por fim, realizou-se a análise da composição programática do crédito rural, identificando a participação dos principais programas dentro de cada região. Essa etapa visou compreender quais instrumentos estruturam a distribuição dos recursos, interpretando o crédito rural como um instrumento de política pública e não apenas como volume financeiro.

3. Resultados e Discussão

A análise da evolução do crédito rural no Brasil, ao longo das safras de 2013/2014 a 2024/2025, revelou um crescimento substancial no volume total de recursos. Inicialmente, o montante era de aproximadamente R$ 155 bilhões na safra 2013/2014, atingindo um pico superior a R$ 420 bilhões na safra 2023/2024, antes de uma leve retração para cerca de R$ 380 bilhões na safra 2024/2025. Esse padrão de crescimento demonstra uma expansão significativa do financiamento para o setor agropecuário ao longo da década, com uma aceleração notável a partir da safra 2019/2020, refletindo a crescente demanda e a importância estratégica do agronegócio na economia nacional.

Ao decompor o crédito total, observou-se que as operações classificadas como “sem incentivo” mantiveram uma predominância consistente em todo o período analisado. Na safra inicial, por exemplo, o crédito sem incentivo totalizou cerca de R$ 92 bilhões, enquanto o crédito incentivado foi de aproximadamente R$ 63 bilhões. Essa proporção se manteve, indicando que, apesar do crescimento das linhas incentivadas, o volume de operações não vinculadas a programas específicos permaneceu superior em todas as safras. Essa estrutura sugere que o financiamento agropecuário no Brasil é majoritariamente sustentado por mecanismos de crédito não direcionados, com os programas incentivados atuando de forma complementar.

A partir da safra 2020/2021, ambos os tipos de crédito, incentivado e sem incentivo, apresentaram um aumento mais expressivo. O crédito incentivado expandiu-se de aproximadamente R$ 82 bilhões em 2020/2021 para cerca de R$ 160 bilhões em 2024/2025. No mesmo intervalo, o crédito sem incentivo cresceu de aproximadamente R$ 165 bilhões para cerca de R$ 220 bilhões. Embora o crescimento tenha sido simultâneo, a diferença entre as modalidades permaneceu relevante, reforçando a ideia de que o crédito rural no Brasil é fortemente ancorado em operações não vinculadas a programas específicos. Esse comportamento sugere que o acesso aos instrumentos de financiamento direcionado complementa o crédito geral, mas não o substitui como elemento predominante do sistema.

Notou-se, ainda, uma redução no volume total de crédito na safra mais recente, impulsionada principalmente pela queda nas operações sem incentivo, enquanto o crédito incentivado manteve sua trajetória de crescimento. Esse achado é significativo, pois indica que, em momentos de retração do financiamento geral, as linhas incentivadas tendem a demonstrar maior estabilidade relativa. Isso sugere um papel de amortecimento ou sustentação para o crédito incentivado, que mantém sua participação no financiamento ao setor mesmo em cenários de menor disponibilidade de recursos, o que é crucial para regiões com menor capitalização e maior dependência desses instrumentos.

Distribuição do Crédito Rural Total

A análise da distribuição do crédito rural total no território nacional revelou um padrão de concentração significativo. Os dados acumulados ao longo do período de estudo indicaram que a região Sul se destacou, concentrando aproximadamente R$ 958 bilhões, o que corresponde a 33,53% do total nacional. Em seguida, as regiões Centro-Oeste e Sudeste apresentaram volumes expressivos, com R$ 729 bilhões (25,52%) e R$ 704 bilhões (24,64%), respectivamente. Em contraste, as regiões Nordeste e Norte registraram volumes consideravelmente inferiores, com R$ 273 bilhões (9,58%) e R$ 192 bilhões (6,73%), respectivamente.

Essa distribuição evidencia que as três regiões líderes – Sul, Centro-Oeste e Sudeste – concentraram, em conjunto, cerca de 83,69% do crédito rural total. Esse padrão de concentração territorial dos recursos está intrinsecamente associado à maior presença de atividades agropecuárias estruturadas e à maior integração dessas regiões ao sistema financeiro. A demanda por crédito nessas áreas é elevada devido à escala produtiva, à maior área cultivada e às cadeias produtivas mais capitalizadas, o que eleva a necessidade de financiamento e a capacidade de absorção de recursos, conforme observado por Fossá et al. (2024).

A análise por unidade federativa complementou essa compreensão, mostrando que a concentração não se restringe apenas às regiões, mas também se manifesta dentro delas. O estado do Paraná liderou a distribuição, com aproximadamente R$ 406 bilhões, representando 14,21% do total nacional. Foi seguido pelo Rio Grande do Sul, com R$ 391 bilhões (13,72%), e Minas Gerais, com R$ 359 bilhões (12,60%). Mato Grosso e São Paulo também apresentaram volumes expressivos, ambos com cerca de R$ 295 bilhões e participação próxima de 10% cada. Goiás, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Bahia e Tocantins também contribuíram com volumes relevantes.

Em conjunto, os seis primeiros estados – Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Mato Grosso, São Paulo e Goiás – concentraram aproximadamente 70,48% do crédito rural total. Essa elevada concentração geográfica dos recursos reforça a interpretação de que a distribuição do crédito está fortemente associada a fatores estruturais, como a escala produtiva, o nível de capitalização e o acesso ao sistema financeiro em cada unidade federativa. A menor participação das regiões Norte e Nordeste, em termos absolutos, não indica apenas uma restrição de acesso, mas também uma menor demanda estrutural relativa quando comparadas às regiões com maior desenvolvimento agropecuário.

Distribuição do Crédito Rural Incentivado

A análise da distribuição do crédito rural incentivado, que se refere a operações vinculadas a programas com condições financeiras específicas, revelou padrões territoriais distintos em comparação com o crédito total. A região Sul concentrou a maior parte desses recursos, com R$ 470,39 bilhões, correspondendo a 45,51% do total das operações incentivadas. Em seguida, a região Sudeste apresentou R$ 257,02 bilhões (24,87%), e o Centro-Oeste registrou R$ 148,71 bilhões (14,39%). As regiões Nordeste e Norte somaram R$ 99,41 bilhões (9,62%) e R$ 64,44 bilhões (6,24%), respectivamente.

Essa concentração do crédito incentivado nas regiões com maior integração ao sistema produtivo e financeiro corrobora a ideia de que o crédito rural direcionado atua como um instrumento institucional para induzir o desenvolvimento. No entanto, sua efetividade depende da capacidade regional de acesso e operacionalização, conforme discutido por Reis (2021). Embora as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste liderem em volume absoluto, a análise da participação relativa do crédito incentivado dentro do total regional de cada área revela heterogeneidades importantes.

A região Sul, por exemplo, apresentou cerca de 49,09% de seu crédito total vinculado a programas incentivados. As regiões Sudeste e Nordeste registraram uma participação de aproximadamente 36% do crédito incentivado em seus totais regionais. Em contraste, o Centro-Oeste teve uma participação próxima de 20%, indicando uma menor dependência relativa das linhas incentivadas. Esse padrão sugere que a presença dos programas de incentivo não acompanha de forma proporcional a distribuição do crédito total, e que o crédito incentivado assume maior importância relativa em regiões onde a base produtiva é menos capitalizada, atuando como um suporte financeiro essencial.

A distribuição por unidade federativa no crédito rural incentivado também mostrou liderança do Rio Grande do Sul, com R$ 202,42 bilhões (19,59%), seguido pelo Paraná, com R$ 181,22 bilhões (17,53%), e Minas Gerais, com R$ 153,57 bilhões (14,86%). Em conjunto, esses três estados responderam por 51,98% do crédito rural incentivado nacional. Contudo, ao analisar a participação do crédito incentivado no total de cada estado, observaram-se diferenças relevantes: Espírito Santo (64,58%) e Santa Catarina (54,20%) tiveram proporções superiores a 50%, enquanto Mato Grosso (21,25%) e Goiás (19,73%) registraram níveis inferiores a 25%.

Essa heterogeneidade na participação do crédito incentivado entre os estados pode ser compreendida pela literatura que aponta para a operacionalização desigual dos programas de crédito rural entre os municípios, refletindo diferenças na estrutura produtiva e no acesso ao sistema financeiro (Fossá et al., 2024). A concentração observada, portanto, não decorre apenas da escala produtiva, mas também da capacidade de acesso aos instrumentos de política pública. A maior participação relativa do crédito incentivado em regiões como Nordeste e Norte pode indicar um direcionamento para contextos com maior necessidade de suporte financeiro, onde o acesso a linhas com condições diferenciadas contribui para o fortalecimento produtivo e o aumento da renda (Tenchini e Freitas, 2024).

Recursos por programas de crédito rural

A análise da composição programática do crédito rural permitiu identificar os instrumentos que estruturam o financiamento agropecuário no Brasil. A categoria “Sem Programa” concentrou a maior parte do crédito rural, representando 63,61% do total contratado no período analisado. Em seguida, destacaram-se o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) e o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (PRONAMP), com participações de 14,55% e 12,54%, respectivamente. Esse resultado evidencia que, apesar da existência de programas estruturados com condições financeiras específicas, a maior parte do crédito rural não está formalmente vinculada a essas linhas.

Essa predominância do crédito não direcionado sugere que o financiamento ao setor agropecuário opera, em grande medida, por meio de mecanismos que podem limitar o alcance dos instrumentos de política pública. Reis (2021) destaca que o crédito rural direcionado possui uma função institucional na indução do desenvolvimento, e sua participação relativa é crucial para compreender sua efetividade. Ao analisar os programas específicos, o PRONAF se destacou como principal instrumento de financiamento voltado à agricultura familiar, alinhado às diretrizes do Plano Safra (MAPA, 2024) que priorizam o apoio a pequenos produtores.

O PRONAMP, por sua vez, apresentou participação relevante e direciona-se ao segmento de médios produtores, indicando um mecanismo intermediário de financiamento para produtores que não se enquadram nos critérios da agricultura familiar, mas que ainda necessitam de condições específicas de crédito. Outros programas, como MODERFROTA, INOVAGRO, PCA e ABC, embora com menor participação relativa, desempenham um papel estratégico ao incentivar a adoção de tecnologias e a ampliação da capacidade produtiva. A distribuição desses programas, contudo, não é homogênea no território.

A composição percentual dos principais programas por região revelou que a categoria “Sem Programa” mantém participação predominante em todas as regiões, com destaque para o Centro-Oeste, onde sua presença é mais elevada, sugerindo maior utilização de crédito não direcionado em regiões com maior escala produtiva. Nas regiões Sul e Nordeste, observou-se maior participação relativa do PRONAF, indicando uma maior presença de operações associadas à agricultura familiar, o que pode estar relacionado à estrutura produtiva dessas regiões, que apresentam um número maior de estabelecimentos de menor porte.

No Sudeste, a participação do PRONAMP foi mais elevada, refletindo a presença de produtores de médio porte e uma estrutura produtiva mais diversificada. Esse comportamento reforça a ideia de que os programas de crédito rural estão associados a perfis produtivos distintos e que a maior participação de determinados programas em regiões específicas pode refletir tanto diretrizes de política pública quanto a adequação desses instrumentos às características produtivas locais. Tenchini e Freitas (2024) indicam que o acesso a linhas com condições financeiras diferenciadas está associado ao fortalecimento produtivo em contextos regionais, o que reforça a importância de compreender a distribuição desses programas.

De forma geral, os resultados evidenciam que a distribuição do crédito rural incentivado no Brasil apresenta concentração territorial e variação no acesso aos programas. Embora as regiões com maior volume produtivo concentrem parcela relevante dos recursos, a participação relativa das linhas incentivadas difere entre territórios, o que indica que os instrumentos de política pública não são alocados de forma uniforme, conforme também observado por Fossá et al. (2024). A operacionalização dos programas de crédito rural ocorre de forma heterogênea entre os municípios brasileiros, refletindo diferenças na capacidade de acesso ao crédito e na estrutura produtiva regional, bem como limitações estruturais de acesso.

A concentração do crédito rural no Brasil está associada a desigualdades regionais, o que reforça a interpretação de que os instrumentos de política pública não são distribuídos de forma homogênea (Fossá et al., 2024). A análise por programas evidenciou que o sistema de crédito rural no Brasil é composto por uma combinação de operações direcionadas e não direcionadas, com predominância destas últimas. A participação relevante de programas específicos indica a existência de instrumentos de política pública voltados à indução do desenvolvimento, mas sua distribuição territorial heterogênea sugere que o acesso a esses mecanismos não ocorre de forma uniforme.

Em síntese, a pesquisa demonstrou que o crédito rural no Brasil possui uma estrutura marcada pela concentração territorial e pela predominância de operações não vinculadas a programas específicos. As regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste concentram a maior parte do crédito total e incentivado, refletindo sua maior demanda estrutural e escala produtiva. Contudo, o crédito incentivado, embora menos representativo em termos absolutos, assume um papel de sustentação relativa em regiões com menor capitalização, como Nordeste e Norte, onde a dependência desses instrumentos é maior. Essa dualidade no funcionamento do crédito rural, com recursos concentrados onde a demanda é maior e programas de incentivo mais importantes onde a base produtiva é menos capitalizada, evidencia a complexidade da alocação de recursos e a necessidade de políticas públicas que considerem simultaneamente a demanda regional e a necessidade de ampliar a participação relativa de linhas incentivadas em áreas de maior carência.

4. Conclusão

Este estudo analisou a distribuição regional dos recursos contratados em programas de crédito rural com condições financeiras diferenciadas no Brasil, considerando sua alocação por unidade federativa, região e período. Verificou-se um crescimento substancial no volume total de crédito rural ao longo do período analisado, embora as operações sem incentivo tenham mantido predominância consistente. Observou-se que o crédito incentivado, contudo, demonstrou maior estabilidade relativa em momentos de retração do financiamento geral, atuando como mecanismo de sustentação. A análise territorial evidenciou uma concentração significativa do crédito rural total nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, associada à maior demanda estrutural e à escala produtiva dessas áreas. No entanto, ao examinar a participação relativa do crédito incentivado dentro do total regional, identificou-se que este assumiu maior importância em regiões com menor capitalização, como Nordeste e Norte. A composição programática revelou a predominância da categoria “Sem Programa”, mas destacou o papel estratégico de programas como o PRONAF e o PRONAMP, cujas distribuições regionais refletiram perfis produtivos distintos, como a agricultura familiar no Sul e Nordeste, e médios produtores no Sudeste.

A principal contribuição deste trabalho reside na identificação da dualidade no funcionamento do crédito rural brasileiro, onde a concentração de recursos absolutos ocorre em regiões de alta demanda, enquanto os programas de incentivo desempenham um papel de suporte financeiro relativamente mais crucial em áreas com menor capitalização. Essa compreensão aprofundada da alocação de recursos, que transcende a mera análise de volume, permite entender como os diferentes programas de financiamento influenciam a orientação da produção e impactam as assimetrias regionais, ressaltando a importância da avaliação contínua das políticas públicas de financiamento rural. Como limitação, a base de dados utilizada não incluiu taxas de juros efetivas por contrato, o que impediu a avaliação direta das condições financeiras praticadas, e a classificação por programas não permitiu identificar características individuais dos tomadores. Sugere-se que estudos futuros integrem bases complementares e incorporem variáveis adicionais para aprofundar a análise do acesso ao crédito e seus efeitos regionais, orientando ajustes nas políticas que considerem simultaneamente a demanda regional e a necessidade de ampliar a participação de linhas incentivadas em áreas de maior carência.

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Tenchini, F. P.; Freitas, C. O. 2024. Agricultura familiar no estado do Rio de Janeiro: desenvolvimento regional sustentável e sua relação com o crédito via Pronaf. Revista de Economia e Sociologia Rural 62(2): e266755.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq

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