Artigo

29 de julho de 2026

Desempenho e falhas no gerenciamento de aquisições em projeto de engenharia industrial

Edson Leonardo dos Reis Ferraz; Fernando da Silva Pereira

DOI: 10.22167/2675-6528-202600739

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

Projetos de engenharia industrial dependem fortemente de cadeias de suprimentos, o que torna o gerenciamento de aquisições um fator crítico para o desempenho do empreendimento. O estudo objetivou analisar criticamente o desempenho e as falhas no gerenciamento de aquisições em um projeto de engenharia industrial, a partir da avaliação de dados operacionais reais do cronograma de suprimentos. A pesquisa, de natureza aplicada e abordagem qualitativa, desenvolveu-se como estudo de caso único, utilizando análise documental de registros de suprimentos de um empreendimento localizado na região Norte do Brasil, incluindo cronograma de aquisições e relatos técnicos. Os resultados indicaram baixa previsibilidade no fluxo de suprimentos, elevada incidência de reprogramações, diferença significativa entre prazos planejados e realizados, e ocorrência de atrasos com impacto direto na execução. Observou-se que as falhas não ocorreram de forma isolada, mas resultaram da interação entre fatores administrativos, desempenho de fornecedores, limitações logísticas e aspectos contextuais do projeto. Concluiu-se que o desempenho do sistema de suprimentos esteve associado a um padrão reativo de gestão, evidenciando a necessidade de maior integração entre planejamento, suprimentos e execução para aumento da confiabilidade do processo.

Palavras-chave: Cadeia de suprimentos; Confiabilidade de entrega; Desempenho logístico; Gestão de projetos; Reprogramação.

1. Introdução

Projetos de engenharia industrial são empreendimentos que frequentemente se caracterizam por elevados níveis de complexidade técnica. A execução dessas iniciativas envolve a coordenação de múltiplos agentes e a gestão de diversos fluxos de recursos, que se estendem por todo o ciclo de vida do projeto. Nesse cenário, a cadeia de suprimentos assume um papel central e estratégico, pois o fornecimento de materiais, equipamentos e serviços especializados depende diretamente da articulação eficaz entre os diferentes atores envolvidos, tanto internos quanto externos ao canteiro de obras. A eficiência das atividades não se restringe, portanto, à capacidade produtiva em campo, mas abrange a integração entre planejamento, logística e suprimentos, cuja descoordenação pode gerar impactos significativos no desempenho global do projeto, especialmente em termos de prazos e custos (Alshibani et al., 2019; Rehman et al., 2024; Sezer e Fredriksson, 2021).

A literatura especializada enfatiza que a cadeia de suprimentos exerce uma influência determinante sobre o desempenho de projetos de construção e engenharia, particularmente em ambientes marcados por alta incerteza e fragmentação organizacional (Ogundipe et al., 2024; Rehman et al., 2024). Problemas recorrentes, como a emissão tardia de pedidos de compra, falhas na especificação de materiais, atrasos logísticos, baixa confiabilidade dos fornecedores e deficiências na integração entre o planejamento e a execução, são apontados como os principais fatores que contribuem para atrasos e o aumento dos custos em projetos (Czajkowska e Ingaldi, 2025; Ogundipe et al., 2024). A falta de coordenação entre os agentes envolvidos e a ausência de processos estruturados de aquisição tendem a amplificar a variabilidade do fluxo de suprimentos, comprometendo a previsibilidade e o desempenho geral do empreendimento (Rehman et al., 2024; Sezer e Fredriksson, 2021).

Estudos mais recentes têm destacado que as falhas no processo de suprimentos não devem ser vistas como eventos isolados, mas como resultados de interações sistêmicas que ocorrem ao longo de toda a cadeia de suprimentos e do processo de aquisição. A ausência de integração efetiva entre planejamento, suprimentos e execução, somada à limitada capacidade de antecipação de riscos, contribui para a formação de um ambiente predominantemente reativo. Nesse contexto, as decisões são frequentemente tomadas em resposta a desvios já materializados, em vez de serem preventivas (Czajkowska e Ingaldi, 2025; Rehman et al., 2024). Esse padrão de gestão reativa tende a gerar ciclos sucessivos de reprogramação, impactando diretamente o cronograma físico, a produtividade e o custo final do projeto, especialmente em contextos com baixa coordenação logística e falhas no fluxo de informações entre os agentes envolvidos (Ogundipe et al., 2024; Sezer e Fredriksson, 2021).

Diante desse cenário, a análise do desempenho do gerenciamento de aquisições, utilizando dados operacionais reais, torna-se uma abordagem fundamental para compreender como essas falhas se manifestam na prática. O uso de cronogramas de suprimentos como base analítica permite avaliar não apenas o cumprimento de prazos, mas também a estabilidade do planejamento, a confiabilidade das promessas de entrega e a aderência entre o que foi planejado e o que foi efetivamente executado. A distinção entre a instabilidade do plano e a confiabilidade da entrega é um aspecto central para interpretar o desempenho do sistema de suprimentos, revelando as diferentes dimensões do problema. Assim, torna-se relevante investigar de forma estruturada como essas falhas se manifestam e quais fatores contribuem para sua ocorrência, a fim de ampliar a compreensão sobre o desempenho da cadeia de suprimentos em projetos de engenharia industrial e fornecer subsídios para sua melhoria.

A problemática reside na persistência de falhas e desvios no gerenciamento de aquisições em projetos de engenharia industrial, que comprometem a previsibilidade e a estabilidade do planejamento, resultando em atrasos e impactos na execução. A lacuna prática identificada é a necessidade de uma compreensão aprofundada dos padrões de ocorrência e dos fatores associados a essas falhas, a partir de dados operacionais reais. A justificativa para este estudo reside na relevância de fornecer subsídios para a melhoria das práticas de gestão de aquisições, contribuindo para a eficiência e a previsibilidade na execução de projetos complexos. Assim, o presente trabalho tem como objetivo analisar criticamente o desempenho e as falhas no gerenciamento de aquisições em um projeto de engenharia industrial, a partir da avaliação de dados operacionais reais do cronograma de suprimentos, buscando identificar padrões de ocorrência, fatores associados e seus impactos sobre o planejamento e a execução do empreendimento.

2. Material e Métodos

A presente pesquisa caracterizou-se como aplicada, buscando gerar conhecimento prático para a melhoria do gerenciamento de aquisições em projetos industriais. Adotou-se uma abordagem qualitativa com suporte quantitativo, combinando a interpretação de fenômenos observados no contexto do empreendimento com a análise de dados operacionais. Quanto aos objetivos, classificou-se como descritiva, focada na identificação e caracterização de padrões de desempenho e falhas no fluxo de suprimentos, sem a proposição de modelos preditivos ou testes de hipóteses (Gil, 2010; Prodanov e Freitas, 2013).

O delineamento metodológico consistiu em um estudo de caso único, que permitiu a análise aprofundada de um empreendimento específico de engenharia industrial. Essa estratégia foi selecionada por sua adequação à investigação de fenômenos complexos em contextos reais, onde a compreensão integrada de diferentes dimensões do problema é essencial (Yin, 2015). A pesquisa foi realizada em um empreendimento localizado na região Norte do Brasil, sem caracterização excessiva da instituição.

A coleta de dados foi realizada de forma exclusivamente documental, estruturada a partir de três fontes principais e complementares. Utilizou-se o cronograma de suprimentos como base quantitativa, os relatos técnicos do empreendimento como base interpretativa e causal, e a revisão bibliográfica como referencial conceitual para o enquadramento teórico dos fenômenos observados. Não houve coleta direta de dados em campo, conforme a natureza documental do estudo (Gil, 2017; Bigaton et al., 2024).

A unidade de análise correspondeu a 39 itens de suprimento individual, abrangendo materiais e serviços necessários à execução do empreendimento. Desses, 36 itens apresentaram registro de entrega efetiva no período analisado, enquanto três itens foram excluídos dos indicadores que dependiam dessa informação por não possuírem data real de entrega consolidada. A análise abrangeu o período correspondente à execução do cronograma de suprimentos do empreendimento, compreendendo os registros disponíveis até a consolidação das entregas analisadas.

O cronograma de suprimentos, elaborado em planilha eletrônica, constituiu o principal instrumento de análise quantitativa. Ele continha informações padronizadas para cada item, como datas de requisição, prazos de entrega planejados, registros de reprogramações e observações textuais do acompanhamento semanal. Os dados foram tratados e organizados em planilha eletrônica, onde se realizaram os cálculos dos indicadores e as consolidações necessárias à análise.

Para a análise dos dados, foram estabelecidas definições operacionais específicas para os indicadores, visando capturar distintas dimensões do desempenho do fluxo de suprimentos e diferenciar a instabilidade do planejamento da confiabilidade da execução (Czajkowska e Ingaldi, 2025; Rehman et al., 2024). A reprogramação foi definida como toda alteração formal de prazo registrada no cronograma. O

lead time

correspondeu ao intervalo entre a data de compra e a data de entrega do item, analisado nas dimensões planejada e real, com a diferença entre elas tratada como

gap de lead time

.

A confiabilidade de entrega foi avaliada com base na última promessa válida assumida pelo fornecedor, priorizando informações das observações textuais do cronograma. O impacto na execução foi identificado por entregas realizadas após a data de aplicação prevista no cronograma físico. As falhas administrativas foram classificadas como situações em que a requisição ou formalização da compra ocorreu após o prazo interno definido pelo planejamento, comprometendo a antecedência necessária.

A análise do desempenho do fluxo de suprimentos foi estruturada em três dimensões: estabilidade do planejamento, confiabilidade de entrega e desempenho de prazo. A estabilidade do planejamento foi avaliada pela ocorrência e recorrência de reprogramações. A confiabilidade de entrega mensurou a aderência das entregas à última promessa válida do fornecedor. O desempenho de prazo comparou prazos planejados e realizados, incluindo a avaliação de atrasos e seus impactos no cronograma físico.

Complementarmente, realizou-se uma análise dos padrões estruturais do cronograma, incluindo a criticidade temporal das reprogramações, classificadas em quatro níveis: antecipada, intermediária, tardia e alto risco. Foram também realizadas segmentações analíticas da base de dados, comparando o desempenho entre materiais e serviços, analisando a relação entre reprogramação e impacto, e avaliando a influência da antecedência de compra.

A análise causal das falhas no fluxo de suprimentos foi conduzida pela interpretação dos relatos técnicos do empreendimento. Os eventos foram classificados em categorias causais previamente definidas: falha de fornecedor, falha administrativa, falha contratual, falha técnica, falha logística e falha de integração. A atribuição de causalidade restringiu-se a casos com evidência documental explícita, evitando inferências não suportadas pelos registros disponíveis.

A abordagem analítica integrou a análise quantitativa dos dados do cronograma com a análise qualitativa dos relatos técnicos, permitindo identificar padrões operacionais e interpretá-los à luz dos eventos observados. Essa integração é consistente com a análise de sistemas complexos, como cadeias de suprimentos em projetos de engenharia (Czajkowska e Ingaldi, 2025). A pesquisa não se caracterizou como um estudo estatístico puro, mas como uma análise interpretativa com suporte quantitativo, utilizando dados numéricos para inferências contextualizadas (Bigaton et al., 2024).

Reconheceram-se limitações inerentes à pesquisa, como a dependência exclusiva de registros documentais, que pode implicar lacunas ou inconsistências. A ausência de variáveis complementares, como custos, identificação individualizada de fornecedores e informações contratuais completas, restringiu a análise a aspectos operacionais. A cobertura da análise causal foi parcial, limitada aos casos com evidência documental explícita, conforme a natureza de estudos aplicados baseados em evidências (Bigaton et al., 2024).

3. Resultados e Discussão

A análise do gerenciamento de aquisições no projeto de engenharia industrial revelou um cenário de baixa previsibilidade e elevada variabilidade no fluxo de suprimentos, com impactos diretos na execução das atividades. Os resultados consolidados indicaram uma significativa incidência de reprogramações e atrasos, evidenciando um descolamento entre o planejamento inicial e a realidade operacional. Esse padrão de desempenho sugere que as falhas não se manifestaram como eventos isolados, mas como parte de um sistema complexo, onde múltiplos fatores interagem para comprometer a estabilidade e a confiabilidade das entregas, conforme o objetivo do estudo de analisar criticamente o desempenho e as falhas a partir de dados operacionais.

Visão geral do desempenho

A consolidação dos indicadores de desempenho do fluxo de suprimentos permitiu uma visão integrada, revelando padrões críticos relacionados à estabilidade do planejamento, ao cumprimento de prazos e ao impacto na execução. Verificou-se uma elevada incidência de reprogramações, com 53,8% dos itens analisados sofrendo ao menos uma alteração de prazo, totalizando 27 ocorrências de revisão. Essa frequência de ajustes no cronograma indica uma instabilidade significativa no planejamento, exigindo revisões contínuas para se adaptar às condições operacionais reais do projeto.

Adicionalmente, observou-se uma diferença expressiva entre os prazos planejados e os efetivamente realizados. O lead time planejado médio foi de 16,9 dias, enquanto o lead time real médio atingiu 31,8 dias, resultando em um gap de 14,8 dias. Esse alongamento substancial dos prazos de fornecimento demonstra que o sistema de suprimentos operou, de forma recorrente, acima das expectativas iniciais. A dificuldade em cumprir os compromissos assumidos foi reforçada pelo fato de que 30,6% das entregas ocorreram fora do prazo, e 22,2% delas apresentaram impacto direto na execução, sendo realizadas após a data planejada de aplicação.

Em conjunto, esses achados caracterizam um sistema de suprimentos com baixa previsibilidade, alta variabilidade e um impacto relevante na execução do projeto. Esse comportamento é consistente com a literatura que aponta que atrasos na entrega de materiais e falhas na coordenação da cadeia de suprimentos afetam diretamente o cronograma e o desempenho dos projetos de construção (Ogundipe et al., 2024). A baixa coordenação entre planejamento e logística (Rehman et al., 2024) também se alinha com o descolamento observado entre o que foi planejado e o que foi efetivamente executado.

Análise do desempenho do fluxo de suprimentos

Instabilidade do planejamento

Os dados revelaram uma elevada instabilidade no planejamento de suprimentos, manifestada tanto pela frequência quanto pela intensidade das reprogramações. Mais da metade dos itens analisados (53,8%) sofreu ao menos uma alteração de prazo, totalizando 27 reprogramações. Além disso, muitos itens foram objeto de múltiplas revisões, indicando que os desvios não foram pontuais, mas recorrentes ao longo do processo de aquisição. Esse padrão de baixa estabilidade do planejamento exige revisões frequentes do cronograma para se ajustar às condições reais de execução, um cenário frequentemente associado à fragmentação e à baixa integração da cadeia de suprimentos em projetos de construção (Rehman et al., 2024).

Desempenho de prazo

A análise do desempenho de prazo evidenciou um descolamento significativo entre os prazos planejados e os efetivamente realizados. O lead time real médio (31,8 dias) foi substancialmente superior ao lead time planejado médio (16,9 dias), gerando um gap de 14,8 dias entre previsão e execução. Esse alongamento dos prazos indica que o sistema de suprimentos operou, de forma recorrente, acima das expectativas estabelecidas no planejamento inicial. A presença de uma parcela relevante de entregas realizadas fora do prazo (30,6%) reforça a dificuldade de cumprimento dos compromissos, fenômeno amplamente associado a falhas na coordenação da cadeia de suprimentos e atrasos na entrega de materiais (Ogundipe et al., 2024).

Esses resultados apontam para um padrão estrutural de atraso, e não para desvios isolados, evidenciando limitações na capacidade de previsão e controle dos prazos de fornecimento. A persistência de atrasos e a necessidade de reprogramações sucessivas indicam que o planejamento inicial não conseguiu capturar a complexidade e as incertezas inerentes ao processo de aquisição, resultando em um sistema que reage aos problemas em vez de antecipá-los. A falta de aderência entre o planejado e o executado compromete a previsibilidade e a eficiência operacional do projeto.

Variabilidade operacional

Além do alongamento dos prazos, observou-se uma elevada variabilidade no comportamento dos lead times, evidenciada pela dispersão dos valores em torno da média, com um desvio padrão de 19,0 dias e uma variabilidade relativa de 59,7%. Esse padrão indica que o desempenho do sistema não apenas se afasta do planejado, mas também apresenta baixa consistência entre os diferentes itens analisados. A heterogeneidade observada sugere que os desvios não estão concentrados em casos específicos, mas distribuídos ao longo da base de dados, caracterizando um sistema com reduzida previsibilidade operacional.

Esse comportamento está alinhado à literatura sobre cadeias de suprimentos em projetos de engenharia, que associa alta variabilidade de prazos à fragilidade na coordenação logística e no planejamento de suprimentos, impactando diretamente a produtividade e a eficiência operacional dos projetos (Sezer e Fredriksson, 2021). A dispersão dos lead times reais dificulta a gestão de estoques e o sequenciamento das atividades, contribuindo para a incerteza e a necessidade de ajustes constantes no cronograma físico da obra. A falta de padronização nos tempos de entrega e a imprevisibilidade dos fornecedores são fatores que contribuem para essa variabilidade.

Impacto na execução

A análise do impacto dos desvios evidenciou que uma parte significativa dos atrasos ultrapassou a esfera administrativa e afetou diretamente a execução das atividades em campo. Conforme os dados, 22,2% das entregas foram realizadas após a data prevista de aplicação, o que configura um impacto direto no cronograma físico do empreendimento. Esse resultado indica que os atrasos não apenas comprometeram o cumprimento de prazos formais, mas também interferiram no sequenciamento das atividades, gerando efeitos diretos sobre a produtividade e o andamento da obra.

Esse fenômeno é consistente com evidências de que atrasos no fornecimento de materiais afetam diretamente o desempenho global dos projetos de construção (Ogundipe et al., 2024). O impacto na execução representa uma dimensão de severidade dos desvios, permitindo diferenciar situações de atraso administrativo daquelas que efetivamente comprometem o andamento da obra. A ocorrência de entregas após a data de aplicação em campo confirma que a gestão de suprimentos não conseguiu mitigar os atrasos a tempo de evitar prejuízos operacionais, reforçando a natureza reativa do sistema.

Análise de padrões estruturais do cronograma

Criticidade temporal das reprogramações

A distribuição temporal das reprogramações, analisada conforme os critérios de criticidade, evidenciou a predominância de eventos classificados como tardios e de alto risco. Isso significa que as reprogramações ocorreram majoritariamente em janelas próximas à data de aplicação ou com impacto direto na execução. Observou-se uma baixa incidência de reprogramações antecipadas, o que indica uma limitada capacidade de ajuste do planejamento com margem temporal suficiente para mitigação dos desvios. Em contrapartida, a concentração de reprogramações em períodos intermediários e, sobretudo, tardios, demonstra que as revisões de prazo ocorreram quando os desvios já estavam consolidados ou próximos de gerar impacto direto na obra.

Nesse contexto, as reprogramações deixam de atuar como instrumento de antecipação e passam a refletir a necessidade de adaptação diante de restrições já materializadas. A presença de ocorrências classificadas como de alto risco, caracterizadas por entregas posteriores à data de aplicação, reforça essa dinâmica, evidenciando situações em que o ajuste do cronograma ocorre após a perda efetiva da aderência ao planejamento. Esse comportamento caracteriza um modelo de controle predominantemente reativo, com limitada capacidade de atuação preventiva no gerenciamento dos prazos de suprimento, sendo compatível com cadeias de suprimentos em construção marcadas por falhas de planejamento, baixa integração e atrasos na entrega de materiais (Ogundipe et al., 2024; Rehman et al., 2024).

Comparação entre materiais e serviços

A análise segmentada da base de dados, comparando materiais e serviços, revelou diferenças relevantes no comportamento desses grupos em relação aos indicadores de desempenho do fluxo de suprimentos. Observou-se que os itens classificados como serviços apresentaram maior incidência de reprogramações, maior proporção de entregas fora do prazo e maior ocorrência de entregas após a data de aplicação, quando comparados aos materiais. Esses resultados indicam que os serviços estão associados a maior variabilidade operacional e maior impacto potencial na execução do empreendimento.

Do ponto de vista operacional, esse comportamento pode ser interpretado à luz da maior complexidade inerente à contratação e execução de serviços, que envolve mobilização de equipes, atendimento a requisitos técnicos específicos e maior dependência de coordenação entre diferentes agentes ao longo do processo. Dessa forma, os resultados sugerem que os serviços representam o segmento mais crítico do fluxo de suprimentos analisado, demandando maior atenção no planejamento, na contratação e no acompanhamento de sua execução, especialmente em contextos caracterizados por elevada interdependência entre atividades e múltiplos atores na cadeia de suprimentos (Czajkowska e Ingaldi, 2025).

Associação entre reprogramação e impacto

A análise conjunta dos indicadores evidenciou uma relação consistente entre a ocorrência de reprogramações e o impacto dos desvios no desempenho do cronograma. Itens que apresentaram alterações sucessivas de prazo tenderam a registrar maior incidência de atrasos e maior probabilidade de entrega após a data de aplicação. Essa associação sugere que a reprogramação não deve ser interpretada apenas como um ajuste administrativo do planejamento, mas como um sinal de degradação do desempenho do sistema. Nesse contexto, a ocorrência de reprogramações passa a indicar aumento do risco de impacto na execução.

Assim, a reprogramação assume papel relevante como indicador de risco operacional, permitindo identificar antecipadamente itens com maior probabilidade de comprometer o andamento das atividades em campo. Essa perspectiva está em linha com a literatura que associa falhas na cadeia de suprimentos a atrasos, aumento de custos e impactos negativos no desempenho dos projetos (Mahmoudi et al., 2022; Sugathadasa et al., 2021). A capacidade de reconhecer as reprogramações como um sintoma de problemas mais profundos é crucial para uma gestão mais proativa.

Antecedência de compra e comportamento do sistema

A análise da antecedência de compra em relação à data de aplicação indicou que, em termos médios, os itens foram adquiridos com margem temporal positiva, com uma antecedência média de compra de 32,3 dias. No entanto, essa antecipação não se refletiu em melhoria consistente no desempenho do fluxo de suprimentos. Mesmo com antecedência, observou-se a persistência de reprogramações, atrasos e impactos na execução, indicando que a simples antecipação da compra não foi suficiente para garantir a estabilidade do sistema.

Esse resultado permite afastar a interpretação simplista de que os desvios decorrem exclusivamente de compras tardias. Em vez disso, evidencia-se que o desempenho observado está associado a fatores mais amplos, como limitações na cadeia fornecedora, falhas de integração entre planejamento e execução e dificuldades operacionais ao longo do processo, aspectos amplamente relacionados à baixa integração e colaboração na cadeia de suprimentos da construção (Ogundipe et al., 2024; Rehman et al., 2024). O comportamento do sistema revela uma dinâmica na qual a antecedência de compra, isoladamente, não assegura previsibilidade, reforçando a presença de um modelo de gestão com características reativas.

Análise causal das falhas na cadeia de suprimentos

A aplicação do procedimento de análise causal, com base na interpretação dos relatos técnicos do empreendimento, permitiu identificar padrões recorrentes associados às falhas no fluxo de suprimentos. Observou-se predominância de eventos associados a falhas de fornecedor e falhas administrativas, especialmente relacionadas ao descumprimento de prazos, dificuldades de mobilização e atrasos na formalização de processos de aquisição. Esses fatores apareceram de forma recorrente nos registros, indicando que tanto a confiabilidade externa quanto a gestão interna contribuíram para a instabilidade observada no cronograma.

Essa constatação é consistente com a literatura que aponta atrasos na entrega de materiais e falhas no desempenho de fornecedores como fatores críticos para o cumprimento de prazos em projetos de construção (Ogundipe et al., 2024; Zvirgzdins et al., 2025). Adicionalmente, foram identificados casos relevantes de falhas técnicas e contratuais, associados a revisões de escopo, dificuldades no atendimento a requisitos e necessidade de recontratação ou substituição de fornecedores. Esses eventos evidenciam a presença de inconsistências na definição inicial das aquisições e fragilidades na estrutura contratual, aspectos frequentemente relacionados à falta de integração e coordenação entre os agentes da cadeia de suprimentos (Rehman et al., 2024).

As restrições logísticas e limitações do contexto operacional também se mostraram presentes, especialmente em situações que envolvem prazos elevados de fornecimento e dificuldades de atendimento em função da localização do empreendimento. Tais limitações estão associadas à complexidade da logística em projetos de construção e à dependência de múltiplos fluxos de materiais e transportes, que impactam diretamente a eficiência operacional (Sezer e Fredriksson, 2021). Por fim, parte significativa dos eventos está associada a falhas de integração entre planejamento, suprimentos e execução, evidenciadas por desalinhamentos entre necessidade de aplicação e disponibilidade dos itens, bem como pela ocorrência de reprogramações sucessivas próximas à execução. Esse tipo de desarticulação entre processos é apontado como uma das principais causas de ineficiência e aumento de prazo e custo em projetos de construção (Rehman et al., 2024).

Em conjunto, esses padrões indicam que as falhas observadas não se concentram em uma única origem, mas resultam da interação entre múltiplos fatores, distribuídos entre processos internos, desempenho de fornecedores e condições operacionais do projeto. Essa complexidade está alinhada à literatura que caracteriza a cadeia de suprimentos da construção como um sistema complexo e multifatorial (Czajkowska e Ingaldi, 2025). A compreensão dessa interação sistêmica é fundamental para desenvolver estratégias de melhoria eficazes, que abordem as causas-raiz dos problemas em vez de apenas seus sintomas.

Integração com a literatura

Os padrões identificados na análise empírica apresentam convergência com os principais eixos teóricos da literatura, permitindo interpretar os achados à luz de referenciais consolidados. No que se refere à confiabilidade de fornecedores, os resultados observados, especialmente a divergência entre prazos prometidos e efetivamente cumpridos, bem como a necessidade de substituição ou complementação de fornecedores, são compatíveis com estudos que apontam a ausência de critérios estruturados de avaliação e a dificuldade de mensuração de desempenho como fatores críticos de variabilidade no desempenho dos fornecedores (Mahmoudi et al., 2022; Zvirgzdins et al., 2025).

Quanto à integração entre planejamento, suprimentos e execução, a ocorrência recorrente de reprogramações em janelas críticas, associada a inconsistências de escopo e desalinhamentos entre aquisição e necessidade em campo, reforça a literatura que identifica a fragmentação decisória e a falta de integração entre agentes da cadeia de suprimentos como causas relevantes de atrasos em projetos de construção (Ogundipe et al., 2024; Rehman et al., 2024). No eixo da gestão de risco na cadeia de suprimentos, a predominância de ajustes reativos e a ausência de mecanismos estruturados de priorização preventiva estão alinhadas a abordagens que destacam a importância de métodos sistemáticos de identificação, avaliação e mitigação de riscos ao longo da cadeia (Czajkowska e Ingaldi, 2025; Sugathadasa et al., 2021).

A integração dos resultados quantitativos, dos relatos técnicos e da literatura permite construir uma interpretação sistêmica dos mecanismos de falha observados. O cronograma de suprimentos evidencia a manifestação temporal dos desvios, por meio de reprogramações sucessivas e alongamento de prazos, enquanto os relatos técnicos permitem compreender os fatores causais subjacentes, como limitações operacionais, fragilidades administrativas, dificuldades contratuais e restrições de mercado. A partir dessa articulação, observa-se que o desempenho do sistema de suprimentos decorre da interação entre múltiplos fatores, que, ao se combinarem, ampliam a variabilidade operacional e reduzem a previsibilidade do cronograma. Essa leitura permite avançar além de uma descrição dos eventos, ao oferecer uma explicação estruturada sobre como e por que os desvios se materializam ao longo do empreendimento, em linha com abordagens que tratam o desempenho da cadeia de suprimentos como resultado da interação entre múltiplos agentes, fluxos e processos interdependentes (Ogundipe et al., 2024).

Síntese dos achados e implicações

Síntese dos resultados empíricos

A consolidação dos resultados apresentados evidencia que o desempenho do fluxo de suprimentos analisado foi marcado por instabilidade recorrente, elevada variabilidade temporal e impactos diretos na execução da obra. Os indicadores analisados demonstram que mais da metade dos itens sofreu ao menos uma reprogramação formal, com ocorrência de revisões sucessivas em diversos casos. Esse comportamento indica baixa aderência entre o planejamento inicial e a execução efetiva das aquisições, caracterizando um sistema com limitada previsibilidade, condição frequentemente associada à ausência de integração e coordenação na cadeia de suprimentos em projetos de construção (Rehman et al., 2024).

Do ponto de vista temporal, a diferença significativa entre o lead time planejado e o real, associada à elevada dispersão dos prazos, evidencia que os desvios não se concentraram em eventos pontuais, mas se manifestaram como um padrão estrutural de variabilidade operacional. Esse tipo de comportamento é compatível com cadeias de suprimentos sujeitas a falhas de planejamento, atrasos logísticos e baixa confiabilidade de entrega (Ogundipe et al., 2024). Adicionalmente, a ocorrência de entregas após a data de aplicação em campo confirma que parte relevante dos atrasos ultrapassou a esfera administrativa, impactando diretamente o sequenciamento das atividades e o desempenho físico do empreendimento, uma vez que atrasos na entrega de materiais estão diretamente associados a impactos no cronograma e na execução das obras (Ogundipe et al., 2024).

Interpretação sistêmica

A análise desenvolvida indica que as falhas observadas não devem ser compreendidas como ocorrências isoladas ou desvios pontuais, mas sim como manifestações de um sistema de suprimentos caracterizado por múltiplas fragilidades interdependentes. A combinação de falhas administrativas internas, limitações na confiabilidade de fornecedores, dificuldades logísticas e desintegração entre planejamento e execução contribuiu para a formação de um ambiente operacional altamente sensível a desvios, cenário amplamente associado à fragmentação e à falta de colaboração entre os agentes da cadeia de suprimentos (Rehman et al., 2024). Nesse contexto, os eventos registrados no cronograma devem ser interpretados como expressões de um comportamento sistêmico, no qual a ocorrência de uma falha em determinado elo da cadeia tende a se propagar e amplificar seus efeitos ao longo do processo, especialmente em cadeias complexas e pouco integradas (Czajkowska e Ingaldi, 2025).

Essa leitura reforça a necessidade de abordagem integrada na análise de desempenho de suprimentos, evitando interpretações fragmentadas que atribuam os resultados observados a causas isoladas, uma vez que a gestão integrada da cadeia é determinante para o desempenho global dos projetos de construção (Rehman et al., 2024). Em suma, os resultados do estudo demonstram que o gerenciamento de aquisições no projeto analisado foi caracterizado por um padrão reativo de gestão, com baixa capacidade de antecipação e mitigação de riscos, o que comprometeu a previsibilidade e a confiabilidade do processo de suprimentos, impactando diretamente a execução do empreendimento e respondendo ao objetivo de analisar criticamente o desempenho e as falhas.

4. Conclusão

O estudo objetivou analisar criticamente o desempenho e as falhas no gerenciamento de aquisições em um projeto de engenharia industrial, a partir da avaliação de dados operacionais reais do cronograma de suprimentos. Verificou-se que o fluxo de suprimentos foi marcado por baixa previsibilidade e elevada variabilidade, com mais da metade dos itens sofrendo reprogramações e um alongamento significativo entre os prazos planejados e os realizados. Observou-se que uma parcela relevante das entregas ocorreu após a data de aplicação, impactando diretamente a execução do empreendimento. A análise causal indicou que as falhas não se manifestaram isoladamente, mas resultaram da interação complexa entre fatores administrativos, desempenho de fornecedores, limitações logísticas e aspectos contextuais do projeto. Esse padrão de gestão reativa, com limitada capacidade de antecipação e mitigação de riscos, comprometeu a confiabilidade do processo de suprimentos. A principal contribuição do trabalho reside na compreensão aprofundada dos padrões de ocorrência e dos fatores associados a essas falhas, fornecendo subsídios para aprimorar as práticas de gestão de aquisições e aumentar a previsibilidade em projetos complexos.

Contudo, os resultados devem ser interpretados à luz das limitações inerentes à pesquisa, que se baseou em registros documentais, podendo apresentar lacunas ou inconsistências. A ausência de variáveis complementares, como dados de custo e identificação individualizada de fornecedores, restringiu a abrangência da análise a aspectos operacionais do fluxo de suprimentos. Além disso, a atribuição de causalidade foi parcial, realizada apenas onde havia evidência documental explícita, e o caráter de estudo de caso único impede a generalização probabilística dos achados. Para estudos futuros, recomenda-se a ampliação da base de análise para múltiplos projetos, bem como a incorporação de dados adicionais, como informações de custo e avaliações individualizadas de fornecedores, a fim de aprofundar a investigação sobre o desempenho da cadeia de suprimentos em projetos de engenharia industrial.

Referências Bibliográficas

ALSHIBANI, Adel; ELTOURKEY, Mahmoud; ELMAGHRABY, Bahaa Eldin. Factors causing delay of materials delivery in construction industry in Eastern Province of Saudi Arabia. In: CSCE ANNUAL CONFERENCE, 2019, Laval (Greater Montréal). Proceedings […]. Canada: CSCE, 2019. Disponível em: https://legacy.csce.ca/elf/apps/CONFERENCEVIEWER/conferences/2019/pdfs/PaperPDFversion_187_0421062418.pdf. Acesso em: 01 mar. 2026.

BIGATON, Aline et al. Metodologias de pesquisa para trabalhos de conclusão de curso. Piracicaba: Editora PECEGE, 2024.

CZAJKOWSKA, Agnieszka; INGALDI, Manuela. Supply chain risk management in construction. Advances in Science and Technology Research Journal, v. 19, n. 8, p. 15–29, 2025. DOI: https://doi.org/10.12913/22998624/204013.

GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010.

GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2017.

MAHMOUDI, Amin; SADEGHI, Mahsa; DENG, Xiaopeng. Performance measurement of construction suppliers under localization, agility, and digitalization criteria: fuzzy ordinal priority approach. Environment, Development and Sustainability, v. 24, p. 14149–14172, 2022. DOI: https://doi.org/10.1007/s10668-022-02301-x.

OGUNDIPE, Kunle Elizah; OGUNBAYO, Babatunde Fatai; AIGBAVBOA, Clinton Ohis. Issues and challenges affecting supply chain in project delivery: construction professional perspectives. Engineering Proceedings, v. 76, p. 64, 2024. DOI: https://doi.org/10.3390/engproc2024076064.

PRODANOV, C. C.; FREITAS, E. C. de. Metodologia do trabalho científico: métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. 2. ed. Novo Hamburgo: Feevale, 2013.

REHMAN, Muhammad Atiq Ur; KHAN, Sharfuddin Ahmed; CHAABANE, Amin. Enhancing construction project performance through integrated and optimized supply chain management. Engineering Proceedings, v. 76, p. 78, 2024. DOI: https://doi.org/10.3390/engproc2024076078.

SEZER, Ahmet Anil; FREDRIKSSON, Anna. Paving the path towards efficient construction logistics by revealing the current practice and issues. Logistics, v. 5, n. 3, p. 53, 2021. DOI: https://doi.org/10.3390/logistics5030053.

SUGATHADASA, P. T. Ranil S.; HERATH, R. P. H. M. A.; THIBBOTUWAWA, A. Supply chain risk assessment and mitigation approaches for small-sized road construction projects. Engineer, v. 54, n. 3, p. 39-48, 2021. DOI: https://doi.org/10.4038/engineer.v54i3.7458.

YIN, R. K. Estudo de caso: planejamento e métodos. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2015.

ZVIRGZDINS, J.; WEERAKOON, T. G.; GEIPELE, I.; SENARATNA, K. A comparative analysis of machine learning model utilization for the optimization of supplier reliability towards sustainable construction. Engineering, Technology & Applied Science Research, v. 15, n. 6, p. 29907–29913, 2025. DOI: https://doi.org/10.48084/etasr.12724.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

Você também pode gostar

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Inteligência Artificial na Gestão Contratual: Supervisão Humana, Riscos Jurídicos e Governança Algorítmica

O advento da inteligência artificial como tecnologia disruptiva reconfigurou processos econômicos, institucionais e jurídicos, conferindo centralidade à automação contratual na gestão de relações complexas. A automação contratual revelou-se um fenômeno juridicamente não neutro, com opacidade decisória, geração automatizada de cláusulas abusivas e dificuldades de atribuição de responsabilidade, deslocando a elaboração contratual para o domínio jurídico-normativo. O estudo analisou como a inteligência artificial na automação contratual intensificou a colisão entre eficiência tecnológica e segurança jurídica, e em que medida mecanismos de supervisão humana significativa e de governança algorítmica funcionaram como instrumentos de ponderação normativa para preservar princípios do direito contratual brasileiro. A pesquisa adotou abordagem qualitativa de estudo de casos múltiplos, com análise documental de quatro casos paradigmáticos: Moffatt v. Air Canada, United States v. RealPage, Deloitte/DEWR e INSS/TRF-4ª Região, representando os contextos consumerista, concorrencial, consultivo-contratual e administrativo. A análise identificou cinco padrões estruturais recorrentes – opacidade decisória, substituição da racionalidade normativa por inferências probabilísticas, accountability gap, assimetria informacional e incompreensão semântica – que emergiram de forma sistêmica. O desfecho fragmentado do caso RealPage reforçou a conclusão de que a jurisprudência sobre automação decisória permanece em formação. A governança algorítmica eficaz demonstrou exigir a integração de mecanismos de auditabilidade, responsabilização e supervisão humana, conforme as normas ISO 31000, COSO ERM e ISO 37301, como condição necessária à legitimidade dos sistemas automatizados de gestão contratual.

Palavras-chave: Contratos; Governança algorítmica; Inteligência artificial; Segurança jurídica; Supervisão humana.

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Rituais de Verificação sob Pressão: Categorias de Ação ESG Relatadas por Grande Grupo Frigorífico Antes e Após Operação Deflagrada Pela Polícia Federal e Seus Desdobramentos, em Passado Recente

Relatórios de sustentabilidade são amplamente empregados como instrumentos de gestão da legitimidade corporativa, mas sua função como mecanismo de reorganização cognitiva em contextos de crise reputacional permaneceu subexplorada na literatura. O estudo analisou as transformações nas categorias de ação ESG reportadas pela Empresa JBS em seus relatórios anuais de sustentabilidade de 2015 a 2018, período que compreendeu dois anos anteriores e dois anos posteriores à Operação Carne Fraca e seus desdobramentos. O objetivo foi investigar como a organização alterou sua estrutura cognitiva após a crise reputacional, por meio de um de seus sistemas de reporte. Empregou-se um processo de catalogação sistemática de 1.088 práticas relatadas, classificadas por pilar ESG, tema material e categoria de ação. O referencial teórico mobilizou Mary Douglas (1986), Michael Power (1997), Meyer e Rowan (1977) e Edelman (2016) para interpretar os fenômenos observados. Os resultados evidenciaram um crescimento exigido em governança, que coexistiu com o colapso do pilar social, o desaparecimento de categorias substantivas e a substituição de ações voltadas a prêmios por ações que ressignificaram as relações da organização e seu posicionamento no mercado. Além disso, treinamentos de liderança migraram do tema de cultura para compliance, campanhas de comunicação cederam lugar a canais estruturais permanentes, e investidores tornaram-se a audiência de maior crescimento proporcional. Concluiu-se que a sofisticação do esforço de legitimação residiu não no que a empresa necessariamente fez, mas na consistência com que reorganizou quem ela diz ser e para quem, a partir das categorias de ação que relatou.

Palavras-chave: Crise reputacional; ESG; Pensamento institucional; Relatórios de sustentabilidade; Estratégia organizacional.

Gestão Escolar

11 de setembro de 2026

Liderança Escolar à Luz da Teoria U: um Diálogo com as Lideranças Transformacional e Servidora.

A integração de diferentes modelos de liderança mostrou-se um caminho relevante para instituições de ensino que buscaram inovar e alcançar excelência em suas práticas educacionais. Contudo, foram escassas as pesquisas empíricas que investigaram a aplicação da Teoria U na gestão escolar associada às abordagens Transformacional e Servidora, o que configurou uma lacuna na literatura. Este estudo buscou compreender como gestores educacionais perceberam e aplicaram princípios da Teoria U — escuta generativa, presencing e cocriação — em diálogo com as abordagens teóricas da Liderança Transformacional e da Liderança Servidora em suas práticas de gestão. A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de São Paulo, que abrangeu desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de perguntas semiestruturadas, aplicado a sete gestores educacionais, e foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram aproximações entre as práticas observadas e os pressupostos teóricos dos modelos estudados, com a escuta destacando-se como a competência que melhor articulou as três abordagens no contexto investigado. Também foram identificadas algumas tensões entre os referenciais teóricos e o cotidiano da gestão. O estudo contribuiu para uma reflexão crítica sobre as possibilidades e os limites da integração desses diferentes modelos de liderança em ambientes escolares, ampliando o debate e oferecendo subsídios relevantes para o fortalecimento do campo da gestão educacional.

Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade