Artigo

22 de julho de 2026

Desafios da seguridade social no Brasil e o papel da previdência privada como instrumento complementar

Bruna Carneiro dos Santos Silva; Acácia dos Santos

DOI: 10.22167/2675-6528-202600610

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

O envelhecimento populacional e a redução da base contributiva intensificaram os desequilíbrios do Regime Geral de Previdência Social, questionando a suficiência da proteção estatal no longo prazo. Diante desse cenário, a pesquisa objetivou analisar a percepção de indivíduos economicamente ativos acerca da previdência privada como instrumento complementar à previdência social no Brasil. Para isso, empregou-se uma metodologia descritiva e quantitativa, operacionalizada por meio de um survey estruturado aplicado a uma amostra não probabilística de 218 respondentes. Os resultados revelaram que a maioria dos participantes concordou que a previdência social enfrentará dificuldades de sustentabilidade e considerou o benefício público insuficiente. Embora muitos reconhecessem a relevância da previdência privada, uma parcela muito menor possuía um plano contratado, e quase metade relatou desconhecimento sobre os produtos disponíveis. A análise de correlação de Spearman indicou ausência de associação significativa entre educação financeira percebida e intenção de contratação, sendo a avaliação favorável da relação risco-benefício a única variável com correlação positiva, ainda que fraca, com a intenção futura de adesão. Concluiu-se que o reconhecimento da necessidade de complementação previdenciária não se traduziu em adoção efetiva, com a decisão sendo fortemente limitada por déficits informacionais e condicionada à capacidade de renda.

Palavras-chave: Aposentadoria; Comportamento decisório; Planejamento financeiro; Sustentabilidade fiscal.

1. Introdução

A transição demográfica brasileira tem se intensificado nas últimas décadas, caracterizando-se pela combinação entre queda acentuada da fecundidade, aumento da expectativa de vida e envelhecimento progressivo da estrutura etária da população (Chaimowicz; Chaimowicz, 2022). Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE] indicam que a taxa de fecundidade no país recuou de 2,32 filhos por mulher em 2000 para 1,57 em 2022, situando-se abaixo do nível de reposição populacional. Concomitantemente, a idade mediana da população alcançou 35,5 anos em 2023, com projeções de crescimento contínuo até as próximas décadas (IBGE, 2024). A expectativa de vida ao nascer atingiu 76,4 anos em 2023, após os impactos conjunturais da pandemia (IBGE, 2023). Os dados mais recentes das Tábuas Completas de Mortalidade divulgadas pelo IBGE indicam continuidade desse movimento em 2024, quando a expectativa de vida ao nascer para ambos os sexos alcançou aproximadamente 76,6 anos (IBGE, 2024), evidenciando a retomada gradual da trajetória de longevidade e reforçando a tendência estrutural de envelhecimento da população brasileira.

Esse conjunto de transformações demográficas implica redução relativa da população economicamente ativa e expansão do contingente de idosos. Tal cenário exerce pressão estrutural sobre os sistemas de proteção social baseados na repartição simples, como o Regime Geral de Previdência Social (RGPS), cujo financiamento depende majoritariamente das contribuições correntes dos trabalhadores ativos (Oliveira, 2019). Nesse contexto, o envelhecimento populacional e a desaceleração do crescimento demográfico configuram elementos centrais da realidade socioeconômica brasileira contemporânea, com implicações diretas sobre o equilíbrio fiscal, o mercado de trabalho e a sustentabilidade dos mecanismos públicos de seguridade social (Nascimento; Diógenes, 2020).

A redução relativa da base contributiva e a expansão do número de beneficiários tendem a intensificar os desequilíbrios do Regime Geral de Previdência Social, colocando em questão a suficiência da proteção previdenciária estatal no longo prazo. Apesar desse cenário, a adesão à previdência privada como instrumento complementar permanece limitada, sendo influenciada por fatores como baixo nível de educação financeira, percepções imprecisas sobre riscos e benefícios e padrões decisórios orientados por horizontes de curto prazo, conforme apontado por Gomes et al. (2025). Essa lacuna entre a percepção da necessidade e a adoção efetiva da previdência privada representa um desafio significativo.

Diante dessa conjuntura, coloca-se a seguinte questão de pesquisa: como os indivíduos economicamente ativos percebem a previdência privada enquanto mecanismo complementar à previdência social no Brasil, em um contexto de envelhecimento populacional e incertezas quanto à sustentabilidade do sistema público? A relevância de compreender essa percepção reside na necessidade de identificar as barreiras que impedem a população de traduzir o reconhecimento da importância da previdência privada em ações concretas de planejamento previdenciário, especialmente em um cenário de crescente pressão sobre o sistema público.

Nesse contexto, o objetivo geral desta pesquisa consiste em analisar a percepção de indivíduos economicamente ativos acerca da previdência privada como instrumento complementar à previdência social no Brasil.

2. Material e Métodos

A pesquisa foi delineada como descritiva, com abordagem quantitativa, tendo como estratégia empírica a aplicação de um survey estruturado. Esse delineamento mostrou-se adequado para examinar percepções, conhecimentos e atitudes relacionadas à previdência social e à previdência privada, permitindo a mensuração de variáveis subjetivas associadas ao planejamento previdenciário e à tomada de decisão financeira de longo prazo.

A população-alvo foi composta por indivíduos economicamente ativos, incluindo trabalhadores do setor privado, servidores públicos e profissionais autônomos. A amostra foi não probabilística, por conveniência, formada por participantes acessados por meio de redes sociais, grupos profissionais e contatos pessoais. Esse critério foi justificado pela viabilidade operacional da pesquisa e pela aderência dos respondentes ao fenômeno investigado.

O instrumento de coleta de dados consistiu em um questionário estruturado, conforme detalhado no Apêndice B do trabalho original. A aplicação ocorreu no mês de janeiro de 2026, por meio da plataforma Google Forms, utilizada para a operacionalização da coleta. Ao final do período de aplicação, obteve-se o retorno de 218 respondentes válidos, os quais compuseram a base empírica da pesquisa.

A divulgação do instrumento ocorreu em canais digitais, incluindo grupos de WhatsApp, fóruns temáticos e comunidades virtuais vinculadas a finanças pessoais, planejamento financeiro e mercado de investimentos. O questionário adotado neste estudo apresentou respaldo teórico e metodológico em pesquisas nacionais recentes que operacionalizam a mensuração de percepções e comportamentos associados ao preparo previdenciário e ao planejamento financeiro de longo prazo.

O questionário foi organizado em cinco blocos temáticos. O primeiro bloco contemplou variáveis de caracterização do respondente, como faixa etária, sexo, nível de escolaridade, vínculo profissional e faixa de renda mensal. O segundo bloco abordou o conhecimento e as percepções dos respondentes acerca da previdência social, incluindo a compreensão sobre o funcionamento do sistema público e as expectativas quanto à suficiência do benefício previdenciário estatal.

O terceiro bloco concentrou-se nas percepções relacionadas à previdência privada, investigando o grau de familiaridade com os produtos disponíveis, a avaliação de riscos e benefícios percebidos e o nível de confiança nas instituições ofertantes. O quarto bloco tratou do comportamento financeiro e do planejamento de longo prazo, incluindo aspectos associados à educação financeira, ao horizonte temporal das decisões e à influência de fatores comportamentais.

O quinto bloco abordou a adesão atual e a intenção futura de contratação de previdência privada, bem como os principais fatores percebidos como determinantes dessa decisão. As variáveis perceptuais foram operacionalizadas predominantemente por meio de escalas do tipo Likert, amplamente utilizadas em pesquisas quantitativas para mensuração de atitudes, percepções e julgamentos subjetivos (Likert, 1932).

As variáveis centrais do estudo foram organizadas em três grupos analíticos. O primeiro grupo consistiu nas variáveis independentes, representadas pelo nível de educação financeira percebida, pela percepção de sustentabilidade da previdência pública e pela avaliação de riscos e benefícios da previdência privada. O segundo grupo compreendeu as variáveis dependentes, associadas à adesão ou intenção de adesão à previdência privada. O terceiro grupo incluiu as variáveis de controle, relacionadas ao perfil sociodemográfico e profissional dos respondentes.

Para examinar as associações entre as variáveis perceptuais do estudo, aplicou-se o coeficiente de correlação de postos de Spearman [rs], técnica estatística não paramétrica indicada para a mensuração do grau e da direção da relação entre duas variáveis ordinais ou quando não se pode assumir normalidade na distribuição dos dados (Siegel e Castellan, 2006). O coeficiente foi calculado a partir da diferença entre as ordens atribuídas a cada observação em cada uma das variáveis.

A significância estatística das correlações foi avaliada por meio do teste t associado, com adoção do nível de significância de 5% (p < 0,05). A intensidade das correlações foi interpretada segundo os critérios propostos por Cohen (1988), onde correlações com |rs| < 0,10 foram classificadas como desprezíveis; entre 0,10 e 0,29, fracas; entre 0,30 e 0,49, moderadas; e iguais ou superiores a 0,50, fortes.

Do ponto de vista ético, a pesquisa foi conduzida em conformidade com os princípios aplicáveis a estudos envolvendo seres humanos. A participação dos respondentes ocorreu de forma voluntária, mediante concordância com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido [TCLE], no qual foram apresentados os objetivos da pesquisa, os procedimentos adotados, a garantia de anonimato e o uso exclusivo das informações para fins acadêmicos (Apêndice A).

3. Resultados e Discussão

A presente seção detalha os achados da pesquisa, organizados em subseções que correspondem aos blocos temáticos do instrumento de coleta de dados. Inicialmente, apresenta-se a caracterização sociodemográfica da amostra, seguida pelas percepções dos respondentes sobre a previdência social e a previdência privada. Posteriormente, são abordados o comportamento financeiro e o planejamento de longo prazo, bem como a adesão e intenção de adesão à previdência privada. Por fim, são discutidos os resultados da análise de correlação de Spearman, que examinou as associações entre as variáveis perceptuais centrais do estudo, fornecendo uma compreensão aprofundada dos mecanismos subjacentes à decisão de complementar a previdência pública.

Bloco I – Caracterização da Amostra

A caracterização sociodemográfica dos 218 respondentes válidos revelou que a maior concentração etária se situou nas faixas de 25 a 34 anos, com 33,94% dos participantes, e de 35 a 44 anos, com 27,52%. Juntas, essas faixas representaram 61,47% da amostra. Em relação ao sexo, houve uma leve predominância masculina, com 54,59% dos respondentes, enquanto o sexo feminino representou 44,50%. A escolaridade da amostra mostrou-se elevada, com 77,53% dos participantes possuindo ensino superior completo ou pós-graduação, sendo 112 com ensino superior e 57 com pós-graduação.

No que concerne ao vínculo profissional, 57,34% dos respondentes eram empregados do setor privado, seguidos por 16,06% de servidores públicos e 14,22% de profissionais autônomos ou liberais. A distribuição de renda mensal indicou que 34,40% dos participantes auferiam entre dois e cinco salários mínimos, e 46,78% da amostra declarou renda acima de cinco salários mínimos. Este perfil de renda é compatível com o aproveitamento dos incentivos fiscais oferecidos por modalidades de previdência privada como o PGBL, sugerindo uma capacidade contributiva relevante entre os participantes.

O perfil etário da amostra, predominantemente composto por indivíduos entre 25 e 44 anos, é particularmente pertinente para o objetivo da pesquisa, pois essa faixa corresponde ao período de maior potencial acumulatório na trajetória previdenciária. Chaimowicz e Chaimowicz (2022) ressaltam que o envelhecimento acelerado da população brasileira exige a adoção antecipada de estratégias complementares de poupança. A leve predominância masculina na amostra pode refletir diferenças de gênero na literacia financeira, conforme documentado por Bucher-Koenen et al. (2017) em países da OCDE, o que pode influenciar os padrões de adesão à previdência privada.

A elevada escolaridade dos participantes, com 77,53% detentores de diploma de ensino superior ou pós-graduação, sugere que a amostra possui percepções mais qualificadas sobre o sistema previdenciário. Kaiser et al. (2022) indicam que maior escolaridade está positivamente associada a comportamentos de poupança de longo prazo. Contudo, essa característica pode limitar a generalização dos resultados para a população brasileira em geral, que apresenta um nível de instrução mais heterogêneo. A predominância de trabalhadores do setor privado e a concentração em faixas de renda intermediárias reforçam o diagnóstico da Superintendência Nacional de Previdência Complementar (PREVIC, 2024), que aponta a restrição da previdência complementar a segmentos específicos do mercado formal.

Bloco II – Percepções sobre a Previdência Social

A autoavaliação do nível de conhecimento sobre o funcionamento da previdência social pública (INSS) revelou que 37,16% dos respondentes consideraram seu conhecimento como “médio”. No entanto, uma parcela significativa, totalizando 40,36%, avaliou seu conhecimento como “baixo” ou “muito baixo”, enquanto apenas 22,48% o classificaram como “alto” ou “muito alto”. A média ordinal para esta questão foi de 2.73, com desvio padrão de 1.14, indicando um déficit informacional considerável sobre o sistema público de previdência.

Esse déficit informacional é relevante, pois o desconhecimento sobre os mecanismos do INSS pode comprometer a capacidade dos trabalhadores de avaliar adequadamente a lacuna entre o benefício previdenciário esperado e suas necessidades de renda na aposentadoria. Gomes et al. (2025) argumentam que essa falta de clareza dificulta o planejamento complementar, mesmo para indivíduos que demonstram motivação para poupar. A compreensão limitada do sistema público pode, portanto, ser uma barreira inicial para a busca por alternativas de proteção previdenciária.

A percepção acerca da suficiência do benefício público para a manutenção do padrão de vida na aposentadoria foi predominantemente de discordância. Um total de 57,34% dos respondentes discordou total ou parcialmente da suficiência do benefício, com 28,90% discordando totalmente e 28,44% discordando parcialmente. Apenas 22,94% concordaram, enquanto 19,72% adotaram uma posição neutra. A média para esta questão foi de 2.45, com desvio padrão de 1.28, indicando uma percepção majoritária de insuficiência.

Essa percepção de insuficiência do benefício público é consistente com as projeções demográficas e atuariais do sistema previdenciário. Nascimento e Diógenes (2020) demonstram que a deterioração da razão de dependência previdenciária, impulsionada pelo envelhecimento populacional e pela informalização do mercado de trabalho, tende a reduzir progressivamente o valor real dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social. Consequentemente, torna-se cada vez mais improvável que a previdência pública seja suficiente para manter o padrão de vida prévio dos aposentados, especialmente nas faixas de renda média.

Quanto à sustentabilidade financeira da previdência social no longo prazo, houve uma convergência expressiva na concordância. Um total de 73,40% dos respondentes concordou total ou parcialmente que o sistema enfrentará dificuldades de sustentabilidade, sendo 40,37% com concordância total e 33,03% com concordância parcial. Apenas 13,76% discordaram, e 12,84% adotaram uma posição neutra. A média de 3.98, com desvio padrão de 1.1, reflete um elevado grau de consenso sobre os desafios estruturais do sistema público.

O consenso sobre as dificuldades estruturais do sistema público reflete uma consciência coletiva dos desafios fiscais da previdência. Oliveira (2019) argumenta que a combinação entre transição demográfica acelerada, queda da natalidade e aumento da longevidade cria pressões incontornáveis sobre sistemas de repartição simples como o RGPS. O equilíbrio desses sistemas depende de uma razão ativa/inativa crescente, que a dinâmica demográfica brasileira atual não mais sustenta, reforçando a percepção de insustentabilidade.

Bloco III – Percepções sobre a Previdência Privada

A familiaridade dos respondentes com os produtos de previdência privada, como PGBL e VGBL, mostrou-se limitada. Quase metade da amostra, 49,55%, relatou desconhecimento, com 26,61% discordando totalmente e 22,94% discordando parcialmente sobre possuir conhecimento. Apenas 24,77% afirmaram ter algum nível de conhecimento, e 25,69% adotaram uma posição neutra. A média de 2.56, com desvio padrão de 1.25, evidencia um expressivo déficit informacional sobre esses instrumentos.

O desconhecimento sobre os principais produtos de previdência complementar aberta representa uma barreira estrutural significativa à adesão. Klapper e Lusardi (2020), em um estudo global, identificaram que a falta de conhecimento sobre instrumentos financeiros de poupança de longo prazo é o principal preditor de não participação em esquemas voluntários de aposentadoria. Isso sugere que iniciativas de disseminação de informações claras e acessíveis sobre PGBL e VGBL são cruciais para ampliar a cobertura da previdência privada no Brasil.

Apesar do baixo conhecimento, a percepção sobre a relevância da previdência privada como instrumento complementar à aposentadoria foi majoritariamente positiva. Um total de 60,09% dos respondentes concordou total ou parcialmente com a relevância, sendo 35,78% com concordância parcial e 24,31% com concordância total. A posição neutra foi adotada por 19,27%, e 20,64% discordaram. A média de 3.56, com desvio padrão de 1.21, indica que a população reconhece a importância do instrumento, mesmo sem dominar seu funcionamento.

Essa percepção positiva da relevância da previdência privada, em contraste com o baixo conhecimento sobre seus produtos, revela um paradoxo comportamental. Vieira, Matheis e Rosenblum (2023) descrevem um “hiato atitude-comportamento” entre brasileiros, onde a intenção favorável ao planejamento previdenciário não se traduz em adoção efetiva. A inércia e o adiamento decisório são apontados como os principais mediadores desse descompasso, destacando a complexidade da tomada de decisão em planejamento de longo prazo.

A percepção dos respondentes sobre a relação risco-benefício dos produtos de previdência privada foi marcada por incerteza. A posição neutra predominou, com 34,86% dos participantes. A concordância total ou parcial somou 35,33%, enquanto a discordância totalizou 29,82%. A média de 3.02, com desvio padrão de 1.22, reflete um estado de avaliação inconclusiva e incerteza elevada sobre o valor desses produtos previdenciários. Essa neutralidade pode ser atribuída à complexidade percebida dos produtos.

Beshears et al. (2018) argumentam que a aversão à complexidade e o viés de status quo levam os indivíduos a perceber a incerteza associada a produtos financeiros de longo prazo como risco excessivo. Isso frequentemente resulta em inação, mesmo quando os retornos esperados objetivos são favoráveis. Tal padrão explicaria a predominância da neutralidade observada nesta questão, evidenciando que a percepção de risco e benefício é um fator crítico na decisão de adesão à previdência privada.

O nível de confiança nas instituições financeiras que ofertam produtos de previdência privada também apresentou uma distribuição dispersa. A posição neutra foi a mais frequente, com 30,28% dos respondentes. A discordância total ou parcial somou 36,70%, superando a concordância total ou parcial, que foi de 33,03%. A média de 2.89, com desvio padrão de 1.23, sugere uma confiança fragmentada. Essa fragmentação reflete a relação historicamente ambígua da população brasileira com o sistema financeiro.

Guiso, Sapienza e Zingales (2008) demonstraram que a confiança nas instituições intermediárias é um fator determinante para a participação em ativos de longo prazo. Indivíduos com baixa confiança tendem a manter portfólios subótimos e a evitar produtos financeiros formais, mesmo quando estes poderiam oferecer ganhos superiores às alternativas informais. A falta de confiança pode, portanto, ser mais uma barreira à adesão à previdência privada, complementando os déficits de conhecimento e a inércia decisória.

Bloco IV – Comportamento Financeiro e Planejamento de Longo Prazo

A posse de planejamento financeiro orientado ao longo prazo apresentou uma distribuição notavelmente dispersa. Apenas 35,32% dos respondentes afirmaram possuir planejamento de longo prazo, enquanto 41,74% negaram, com 18,35% discordando totalmente e 23,39% discordando parcialmente. A posição neutra foi adotada por 22,94% dos participantes. A média de 2.87, com desvio padrão de 1.29, evidencia a prevalência de um horizonte decisório de curto prazo entre a amostra.

Essa ampla dispersão e o predomínio da ausência de planejamento de longo prazo reforçam a prevalência de um viés de presente, onde recompensas imediatas são supervalorizadas em detrimento do bem-estar futuro. Thaler e Benartzi (2004) demonstraram que esse viés constitui um obstáculo significativo ao planejamento previdenciário adequado. Eles sugerem que intervenções estruturais, como a adesão automática, podem ser mais eficazes do que programas educativos para superar a inércia decisória, especialmente em contextos de planejamento de longo prazo.

A autopercepção dos respondentes acerca do próprio nível de educação financeira mostrou-se variada. A concordância parcial foi a resposta mais frequente, com 29,82% dos participantes, seguida pela posição neutra, com 28,90%. Agregadamente, 41,29% avaliaram positivamente sua educação financeira, enquanto 29,82% a avaliaram negativamente. A média de 3.12, com desvio padrão de 1.17, indica uma percepção moderadamente favorável, mas com uma parcela considerável de incerteza ou autoavaliação negativa.

A autopercepção favorável de educação financeira deve ser interpretada com cautela, pois a literatura aponta uma divergência sistemática entre a literacia financeira autorrelatada e a mensurada. Lusardi (2019) demonstra que indivíduos tendem a superestimar sua própria competência financeira, um fenômeno conhecido como excesso de confiança. Esse excesso de confiança pode levar a decisões previdenciárias subótimas, pois pessoas que se percebem informadas podem carecer do conhecimento técnico necessário para avaliar corretamente os produtos e riscos dos planos de previdência privada.

A influência de fatores emocionais e comportamentais nas decisões financeiras foi amplamente reconhecida pelos respondentes. A concordância parcial concentrou o maior contingente, com 33,94% dos participantes, seguida pela posição neutra, com 24,77%, e pela concordância total, com 16,51%. Em conjunto, 50,45% admitiram que suas decisões financeiras são influenciadas por fatores emocionais, contra 24,77% que negaram tal influência. A média de 3.34, com desvio padrão de 1.18, reforça o reconhecimento majoritário da influência comportamental.

O reconhecimento da influência comportamental é consistente com o arcabouço da economia comportamental. Thaler (2016), em sua síntese das contribuições da área, demonstra que vieses cognitivos como o desconto hiperbólico, a aversão à perda e a ancoragem distorcem sistematicamente as decisões financeiras intertemporais. O planejamento previdenciário é particularmente vulnerável a esses padrões devido ao seu horizonte temporal extenso e à complexidade dos produtos envolvidos, o que justifica a importância de considerar esses fatores na formulação de políticas.

Bloco V – Adesão à Previdência Privada

A posse atual de previdência privada entre os respondentes foi baixa. A discordância total predominou amplamente, com 42,20% dos participantes, indicando que não possuíam nenhum plano. A posição neutra foi de 20,64%, e a discordância parcial de 19,72%. Apenas 17,44% dos respondentes efetivamente possuíam algum tipo de previdência privada, enquanto 61,92% negaram a posse. A média de 2.18, com desvio padrão de 1.25, revela uma baixa taxa de adesão.

A taxa de adesão de 17,44% evidencia que o reconhecimento da relevância do instrumento, que foi de 60,09% na questão 10, não se converte em adoção efetiva. Essa é uma manifestação clássica do “gap atitude-comportamento” no contexto previdenciário. Madrian (2014) argumenta que a procrastinação, a complexidade percebida dos produtos e os efeitos de inércia decisória são os principais mecanismos que explicam por que indivíduos que valorizam a poupança previdenciária adiam sistematicamente a contratação de planos, mesmo quando dispõem de renda suficiente para contribuir.

A intenção futura de contratar previdência privada nos próximos anos também se mostrou limitada. As posições de discordância total e neutra empataram como as mais frequentes, ambas com 25,23% dos respondentes. A intenção favorável à contratação futura somou apenas 28,90%, contra 45,87% de intenção desfavorável. A média de 2.65, com desvio padrão de 1.27, indica uma baixa probabilidade de adesão futura, apesar da percepção de insuficiência do INSS e do reconhecimento da relevância da previdência privada.

A baixa intenção futura aponta para a persistência de barreiras comportamentais que dissociam percepção e ação. Ajzen (2020) destaca que a intenção comportamental é mediada pelo controle comportamental percebido. Quando os indivíduos não se sentem capazes de executar o comportamento, seja por restrição de renda, falta de conhecimento do produto ou incapacidade de avaliar riscos, a atitude favorável não se traduz em intenção de ação, o que é consistente com o padrão observado nesta pesquisa.

A decisão de contratar previdência privada foi percebida como dependente principalmente de fatores econômicos, como renda disponível e incentivos fiscais. A concordância foi amplamente dominante, com 64,68% dos respondentes concordando total ou parcialmente, sendo 35,32% com concordância parcial e 29,36% com concordância total. A posição neutra foi adotada por 19,27%, enquanto apenas 16,06% discordaram. A média de 3.7, com desvio padrão de 1.2, reforça o forte consenso em torno da dependência de fatores econômicos.

O forte consenso sobre a dependência de fatores econômicos reforça a percepção de que a adesão à previdência privada é primariamente condicionada pela capacidade de renda e pelos estímulos fiscais disponíveis. A OCDE (2020) demonstrou que deduções fiscais, como as permitidas pelo PGBL no Brasil, tendem a ser mais eficazes para faixas de renda mais elevadas. Para os estratos de menor renda, mecanismos não fiscais, como o cofinanciamento estatal ou a adesão automática com contribuição patronal, mostram-se mais efetivos na ampliação da cobertura.

Análise de Correlação de Spearman

A análise de correlação de Spearman entre os pares de variáveis perceptuais centrais revelou um padrão predominante de ausência de associação estatisticamente significativa entre as variáveis investigadas e os indicadores de adesão à previdência privada. Dos nove pares testados, apenas um apresentou correlação significativa. Este achado é crucial para compreender a complexidade das decisões previdenciárias no contexto brasileiro.

A única correlação significativa observada foi entre a percepção de que os benefícios da previdência privada superam seus riscos (Q11) e a intenção futura de contratação (Q17), com um coeficiente de Spearman de 0,1662 e p-valor de 0,014. Esta correlação, embora estatisticamente significativa, é classificada como fraca, indicando que, mesmo quando os indivíduos percebem uma vantagem nos benefícios em relação aos riscos, essa percepção se associa de forma limitada à intenção de adesão futura.

Os demais pares de variáveis, incluindo aqueles relacionados à educação financeira percebida (Q14×Q17: rs=-0,097; Q14×Q16: rs=-0,072), planejamento de longo prazo (Q13×Q17: rs=0,027; Q13×Q16: rs=-0,023) e percepção de insustentabilidade do INSS (Q8×Q17: rs=0,052; Q8×Q10: rs=0,057), não apresentaram associações estatisticamente significativas. Seus coeficientes foram próximos de zero, com p-valores superiores a 0,05, indicando uma ausência de relação linear entre essas variáveis e a adesão ou intenção de adesão à previdência privada.

A ausência generalizada de correlações significativas constitui, por si só, um achado analiticamente relevante. Esperava-se, com base na literatura, que uma maior educação financeira percebida e um maior planejamento de longo prazo se associassem positivamente à intenção e à posse de previdência privada. A não confirmação dessas hipóteses sugere que as relações entre percepção e comportamento previdenciário não são capturadas por simples associações bivariadas lineares, sendo mediadas por fatores de ordem estrutural, comportamental e institucional que interagem de forma complexa. Beshears et al. (2018) argumentam que a literacia financeira autopercebida e a intenção declarada de poupança são preditores fracos do comportamento efetivo, que é preponderantemente determinado por arquiteturas de escolha, defaults institucionais e restrições de liquidez imediata. A fraca correlação positiva entre a avaliação favorável da relação risco-benefício e a intenção de contratação futura é coerente com a teoria da utilidade esperada: quando indivíduos percebem os benefícios potenciais como superiores às perdas esperadas, a disposição de ação aumenta marginalmente, ainda que a intenção declarada não se converta automaticamente em comportamento efetivo, dada a presença de barreiras de acesso e de inércia decisória documentadas nos blocos anteriores.

Em síntese, os resultados desta pesquisa evidenciam um paradoxo comportamental significativo: embora os indivíduos economicamente ativos reconheçam a insustentabilidade do sistema público e a necessidade de complementação previdenciária, essa consciência não se traduz em adesão efetiva à previdência privada. A decisão de contratar um plano é fortemente limitada por déficits informacionais sobre os produtos disponíveis, incerteza na avaliação da relação risco-benefício e uma percepção de dependência de fatores econômicos, como renda e incentivos fiscais, além de ser influenciada por vieses comportamentais e uma confiança fragmentada nas instituições financeiras. A ausência de correlações significativas entre a educação financeira percebida e a intenção de adesão reforça a complexidade do comportamento previdenciário, que transcende a mera percepção e é moldado por um conjunto multifacetado de barreiras.

4. Conclusão

O estudo objetivou analisar a percepção de indivíduos economicamente ativos acerca da previdência privada como instrumento complementar à previdência social no Brasil. Verificou-se que a maioria dos participantes reconheceu a insustentabilidade do Regime Geral de Previdência Social e a insuficiência do benefício público para a aposentadoria. Observou-se, ainda, uma percepção majoritariamente positiva sobre a relevância da previdência privada como complemento. Contudo, essa consciência não se traduziu em adesão efetiva, com apenas 17,44% dos respondentes possuindo um plano, e uma baixa intenção futura de contratação. Identificou-se um expressivo déficit informacional sobre os produtos de previdência privada, incerteza na avaliação da relação risco-benefício e uma confiança fragmentada nas instituições financeiras. A decisão de contratar foi percebida como fortemente condicionada por fatores econômicos, como renda disponível e incentivos fiscais. A análise de correlação de Spearman revelou que, embora a percepção de que os benefícios superam os riscos se associasse fracamente à intenção de contratação futura, não houve associação significativa entre a educação financeira percebida ou o planejamento de longo prazo e a adesão ou intenção de adesão. Este achado ressalta um paradoxo comportamental, onde o reconhecimento da necessidade de complementação previdenciária não se converte em ação, sendo mediado por barreiras informacionais e comportamentais complexas.

A principal contribuição deste estudo reside em evidenciar que a inércia decisória no planejamento previdenciário transcende meras restrições orçamentárias, sendo profundamente influenciada por déficits de conhecimento e vieses comportamentais. Isso sugere a necessidade de reformular estratégias de fomento à poupança previdenciária, priorizando a redução da complexidade informacional e a implementação de arquiteturas de escolha que facilitem a adesão, em vez de focar apenas na oferta de produtos ou em alertas sobre a crise fiscal. Como limitações, o estudo empregou uma amostragem não probabilística e concentrou-se em respondentes com elevado nível de escolaridade, o que restringe a generalização dos resultados para a totalidade da população brasileira. Para pesquisas futuras, recomenda-se a realização de estudos longitudinais que acompanhem o comportamento previdenciário ao longo do ciclo de vida, bem como investigações experimentais que testem a eficácia de intervenções comportamentais para converter a intenção de poupança em contratação efetiva de planos de previdência complementar.

Referências Bibliográficas

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Economia, Investimentos e Banking do MBA USP/Esalq

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