Artigo

30 de julho de 2026

Custo do crédito e financiamento de veículos: relação entre taxas e volume financiado

Felipe Vital da Silva; Leila Chaves Cunha

DOI: 10.22167/2675-6528-202600781

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

O financiamento de veículos leves constituiu uma parcela relevante do crédito ao consumo no Brasil, associado à aquisição de bens duráveis e ao acesso das famílias ao crédito. Este estudo analisou a relação entre as taxas de financiamento de veículos leves e o volume de financiamentos na modalidade Crédito Direto ao Consumidor. Para isso, utilizou-se uma abordagem quantitativa, com dados secundários mensais, aplicando análise descritiva, correlação com defasagens e modelos de regressão linear com defasagens distribuídas, segmentando os resultados entre veículos novos e usados. Os resultados indicaram que a associação entre o custo do crédito e o volume financiado foi fraca e, na maioria dos casos, estatisticamente não significativa, com baixo poder explicativo. Evidenciou-se que o custo do financiamento não foi suficiente para explicar a dinâmica do mercado no período analisado. Observou-se, adicionalmente, comportamento distinto entre os segmentos, com resultados pontuais para veículos novos, mas sem relevância econômica robusta. Concluiu-se que o volume de financiamentos de veículos não respondeu diretamente às variações no custo do crédito, sugerindo que sua dinâmica depende de um conjunto mais amplo de fatores econômicos e institucionais.

Palavras-chave: Comportamento de compra; Crédito ao consumo; Crédito Direto ao Consumidor; Defasagem temporal; Séries temporais.

1. Introdução

O financiamento de veículos leves representa um componente significativo do crédito ao consumo no Brasil. A aquisição de automóveis e motocicletas, bens duráveis essenciais para muitas famílias, depende em grande parte de contratos de crédito de médio e longo prazo. O custo efetivo desses contratos é diretamente influenciado pelas taxas praticadas pelas instituições financeiras (Sebben, 2020).

As variações nessas taxas de financiamento afetam o valor das parcelas mensais, o comprometimento da renda familiar e a viabilidade econômica da compra. Essa dinâmica influencia as decisões de consumo financiado e a evolução do crédito, conforme discutido na literatura de análise de crédito aplicada (Cardoso Junior e Klefens, 2015; Sebben, 2020).

A modalidade de Crédito Direto ao Consumidor (CDC) consolidou-se como a forma mais comum de financiamento para veículos leves, sendo relevante para a análise do comportamento do mercado de bens duráveis (Daudt e Willcox, 2018). O setor automotivo, com seus encadeamentos produtivos e impacto na atividade econômica e no emprego, reforça a pertinência de investigar o financiamento como expressão das decisões de consumo ao longo do tempo (Daudt e Willcox, 2018).

O financiamento automotivo também serve como indicador da disposição das famílias em assumir compromissos financeiros de maior prazo. Em mercados onde o custo do crédito é central para a aquisição de bens duráveis, mudanças nas condições de financiamento podem antecipar ou adiar as decisões de compra, posicionando o crédito automotivo como variável sensível às alterações nas taxas praticadas (Blanchard, 2017; Dietrich et al., 2025).

Embora o custo do financiamento seja um fator central, o volume de crédito automotivo não é determinado por uma única variável. Aspectos como renda, nível de emprego, confiança do consumidor, oferta de veículos e critérios internos de concessão também influenciam o mercado. A taxa de financiamento, contudo, permanece como variável diretamente observável e associada à decisão de tomada de crédito, justificando seu uso em estudos empíricos (Cardoso Junior e Klefens, 2015; Sebben, 2020).

Um desafio significativo nesta investigação é que as alterações nas taxas de financiamento nem sempre se traduzem em ajustes imediatos no volume de operações. O processo decisório do consumidor e os ajustes graduais das instituições financeiras sugerem a existência de defasagens temporais entre as mudanças no custo do crédito e a resposta observada no volume de financiamentos (Divino e Haraguchi, 2023).

A literatura metodológica sobre séries temporais indica que relações econômicas ligadas ao crédito e ao consumo frequentemente exibem efeitos distribuídos ao longo do tempo, demandando modelos capazes de capturar respostas não contemporâneas. Modelos dinâmicos com defasagens distribuídas permitem identificar não apenas a direção da relação, mas também o horizonte temporal dos efeitos (Gujarati e Porter, 2011).

Evidências empíricas recentes reforçam a necessidade de tratar a formação das taxas finais ao tomador como resultado de mecanismos de repasse e ajustes graduais. Estudos aplicados a mercados de empréstimos demonstram persistência no comportamento das taxas e indicam que a composição dos tomadores e as características contratuais afetam tanto o custo quanto o volume de operações (Divino e Haraguchi, 2023; Mittelstadt, 2023).

Diante desse cenário, torna-se fundamental aprofundar a compreensão sobre como as variações nas taxas de financiamento impactam o consumo de bens duráveis, especificamente no mercado de veículos leves. A identificação do intervalo temporal desse impacto contribui para uma interpretação mais precisa do comportamento do crédito automotivo, superando análises estáticas (Dietrich et al., 2025). Assim, o presente estudo busca analisar a relação entre as taxas de financiamento de veículos leves e o volume de financiamentos na modalidade Crédito Direto ao Consumidor.

2. Material e Métodos

A pesquisa foi delineada com uma abordagem quantitativa, focando na análise de relações entre variáveis mensuráveis expressas em séries temporais. Essa escolha metodológica permitiu a aplicação de técnicas estatísticas para investigar padrões e associações ao longo do tempo, conforme preconizado por Gujarati e Porter (2011) para estudos que examinam variáveis econômicas observadas em um horizonte temporal.

Quanto à sua natureza, o estudo caracterizou-se como descritivo. Buscou-se examinar o comportamento das taxas de financiamento e do volume de financiamentos de veículos leves, sem a intenção de intervir ou modificar o fenômeno em análise. Pesquisas descritivas têm como finalidade observar, registrar e analisar fenômenos, sem manipulação das variáveis investigadas (Gil, 2019).

A unidade de análise consistiu no volume de financiamentos de veículos leves na modalidade Crédito Direto ao Consumidor. Este volume foi considerado separadamente para veículos novos e usados, em linha com a literatura que associa variações nas taxas de crédito ao comportamento do volume de operações de financiamento (Divino e Haraguchi, 2023). Os dados foram organizados em séries temporais mensais, abrangendo o período de 2013 a 2024, definido pela disponibilidade contínua das informações.

As informações relativas ao volume de financiamentos de veículos foram obtidas a partir de dados do Sistema Nacional de Gravames, consolidados pela B3. Os dados referentes ao custo do crédito foram extraídos do Indicador de Custo do Crédito (ICC) para aquisição de veículos, disponibilizado pelo Banco Central do Brasil. Essas fontes de dados secundários são amplamente utilizadas em estudos econômicos (Gujarati e Porter, 2011).

As séries temporais foram alinhadas temporalmente, padronizadas quanto à unidade de medida e verificadas quanto à consistência e à ausência de registros duplicados. Esse procedimento de tratamento de dados é essencial para garantir a qualidade e a confiabilidade das informações em estudos documentais que empregam dados econômicos secundários (Gujarati e Porter, 2011).

Inicialmente, realizou-se uma análise estatística descritiva das variáveis. Essa etapa envolveu o cálculo de medidas de tendência central e dispersão, além da representação gráfica das séries temporais. O objetivo foi descrever o comportamento das taxas de financiamento e do volume de crédito ao longo do período analisado, identificando variações e padrões relevantes, conforme práticas em análises de mercado de crédito (Blanchard, 2017).

Em seguida, examinaram-se as defasagens temporais entre a taxa de financiamento e o volume de financiamentos. Considerou-se que as decisões de consumo financiado não ocorrem de forma imediata após alterações nas condições de crédito. A existência de defasagens foi tratada com base na literatura que discute ajustes graduais e respostas distribuídas no tempo em mercados de empréstimos, especialmente em operações de consumo de bens duráveis (Divino e Haraguchi, 2023; Mittelstadt, 2023).

Posteriormente, procedeu-se à análise de correlação entre a taxa de financiamento defasada e o volume de financiamentos. Utilizou-se o coeficiente de Spearman, por não exigir a suposição de normalidade das distribuições. As correlações foram estimadas para diferentes defasagens temporais e de forma separada para veículos novos e usados, visando identificar os intervalos em que a associação entre as variáveis se mostrava mais consistente (Dietrich et al., 2025).

Na etapa subsequente, foram estimados modelos de regressão linear com defasagens. Nesses modelos, o volume de financiamentos foi especificado como variável dependente e a taxa de financiamento defasada como variável explicativa. Os modelos foram ajustados separadamente para cada tipo de veículo, permitindo a comparação de comportamentos distintos entre o crédito para veículos novos e usados.

A seleção das defasagens relevantes para os modelos de regressão considerou critérios de informação. Essa abordagem seguiu as orientações da literatura econométrica para modelos dinâmicos aplicados a séries temporais, conforme indicado por Gujarati e Porter (2011). O procedimento visou otimizar a representação da dinâmica temporal da relação entre as variáveis.

3. Resultados e Discussão

A análise dos resultados da pesquisa sobre o financiamento de veículos leves no Brasil, na modalidade Crédito Direto ao Consumidor, iniciou-se com uma abordagem descritiva, que permitiu compreender o comportamento do volume de financiamentos ao longo do tempo. Essa etapa considerou a segmentação entre veículos novos e usados, buscando identificar padrões mensais, anuais e estruturais do mercado. As estatísticas descritivas forneceram uma leitura inicial das dinâmicas observadas no período analisado, estabelecendo a base para as investigações subsequentes.

Observou-se, inicialmente, o fluxo mensal médio de financiamentos de veículos, que revelou variações significativas ao longo do ano. O volume médio de financiamentos foi menor nos primeiros meses, com elevação gradual a partir do segundo semestre, indicando padrões sazonais no mercado de crédito automotivo. O segmento de veículos usados consistentemente concentrou a maior parcela do volume financiado em todos os meses, sugerindo um papel central na sustentação do volume total mensal, enquanto os veículos novos apresentaram menor participação e maior variação relativa.

A evolução anual do volume de financiamentos de veículos também foi examinada, revelando um período de retração nos anos intermediários da série, seguido por uma recuperação nos anos mais recentes. Ao longo de todo o período, o financiamento de veículos usados manteve um volume superior ao de veículos novos, reforçando a importância estrutural desse segmento no mercado de crédito automotivo. A expansão do volume total nos anos finais da série foi impulsionada principalmente pelo crescimento do financiamento de veículos usados, indicando uma recomposição do mercado.

O índice médio de crescimento anual do financiamento de veículos demonstrou que a expansão não ocorreu de forma contínua, apresentando alternância entre variações positivas e negativas. Os anos mais recentes concentraram taxas de crescimento mais elevadas, como 12,79% em 2021 e 48,04% em 2024, contribuindo para a expansão do volume total observado no encerramento da série. Em contraste, anos como 2015 e 2016 registraram quedas de -15,07% e -14,44%, respectivamente, evidenciando a volatilidade do mercado.

A participação média do financiamento por tipo de veículo no volume total revelou que os veículos usados responderam pela maior parcela, com 62,08% do volume financiado no período, enquanto os veículos novos representaram 37,92%. Essa distribuição reforçou a importância do segmento de usados na dinâmica do mercado de crédito automotivo e justificou a análise segmentada adotada no estudo, permitindo uma compreensão mais detalhada das particularidades de cada categoria.

Correlação e Regressão

Após a análise descritiva, buscou-se aprofundar a compreensão da relação entre o volume de financiamentos de veículos e o custo do crédito, representado pelo Indicador de Custo do Crédito (ICC), por meio de análises de correlação e regressão. Foram estimadas correlações entre o ICC e o volume de financiamentos, considerando defasagens de zero a doze meses, tanto para o total de veículos quanto para os segmentos de novos e usados, utilizando o coeficiente de Spearman.

Os resultados da correlação indicaram que a associação entre o ICC e o volume total de financiamentos permaneceu negativa em todas as defasagens analisadas, variando de -0,081 (lag zero) a -0,166 (lag doze). Apesar da consistência no sinal, a magnitude dessas correlações foi baixa ao longo de todo o intervalo, caracterizando uma associação fraca entre as variáveis. Isso sugere que as variações no custo do crédito estiveram associadas a variações muito limitadas no volume financiado total.

No segmento de veículos usados, observou-se uma associação negativa mais intensa, com coeficientes variando de -0,147 (lag zero) até -0,220 (lag doze). Contudo, mesmo no ponto de maior associação, o coeficiente permaneceu abaixo de -0,30, o que, segundo a literatura estatística, ainda é classificado como uma correlação fraca. Esse achado sugere que, embora exista alguma sensibilidade do segmento de usados ao custo do crédito, essa relação não é suficientemente forte para explicar de forma relevante o comportamento do volume financiado.

Para os veículos novos, o padrão observado foi menos consistente. As correlações iniciaram positivas (0,086 no lag zero) e gradualmente reduziram, tornando-se negativas a partir do lag oito (-0,017), atingindo -0,089 no lag doze. Além da baixa magnitude, a mudança de sinal ao longo das defasagens reforça a ausência de uma relação estável e robusta entre as variáveis nesse segmento, indicando que outros fatores podem ter maior influência na dinâmica de financiamento de veículos novos.

De forma geral, os resultados da análise de correlação indicaram que o custo do financiamento apresentou baixo poder explicativo sobre o volume de financiamentos, tanto no total quanto nos segmentos analisados. Esse resultado é coerente com estudos que apontam que o comportamento do crédito ao consumo, especialmente em bens duráveis, não depende exclusivamente da taxa de juros, sendo influenciado por fatores como renda, emprego, condições de crédito e características contratuais (Chikeya e Ntsalaze, 2025).

Com o objetivo de aprofundar a análise, foram estimados modelos de regressão linear com defasagens, considerando separadamente os segmentos de veículos novos, usados e o total de financiamentos. Para o segmento de veículos novos, observou-se que os coeficientes associados ao ICC se tornaram progressivamente mais negativos à medida que a defasagem aumentou, atingindo aproximadamente -0,035 no lag doze. Paralelamente, os valores de p reduziram de 0,52 (lag zero) para 0,03 (lag doze), indicando significância estatística nesse ponto específico.

No entanto, o R² ajustado para veículos novos permaneceu baixo, em torno de 0,119, o que indica que o modelo explica apenas cerca de 11,9% da variação do volume financiado. Esse resultado sugere que, embora exista evidência estatística de associação no caso dos veículos novos, a magnitude do efeito e o baixo poder explicativo limitam a interpretação de relevância econômica dessa relação. Essa evidência é consistente com estudos que mostram que, mesmo quando estatisticamente significativas, variações no custo do crédito podem ter impacto limitado sobre decisões de consumo de bens duráveis, em função da presença de outros determinantes mais relevantes (Katcher et al., 2024).

Para os veículos usados, os coeficientes estimados para o ICC permaneceram próximos de zero, variando entre 0,00 e 0,01 ao longo das defasagens, sem significância estatística em nenhum dos modelos. Por outro lado, o R² ajustado apresentou valores elevados, entre 0,52 e 0,56, indicando que a variação do volume financiado nesse segmento foi explicada majoritariamente por outros fatores incluídos no modelo, como tendência e sazonalidade, e não pelo custo do crédito, conforme observado por Di e Su (2024).

Esse resultado reforça a interpretação de que o segmento de usados possui dinâmica própria, possivelmente mais associada à acessibilidade do bem e à necessidade de consumo, do que ao custo do financiamento em si. Evidências recentes indicam que mercados de crédito para veículos podem manter volume mesmo sob condições mais onerosas, especialmente quando associados a necessidades básicas de mobilidade (Di e Su, 2024).

No caso do total de financiamentos, os coeficientes do ICC foram negativos em todas as defasagens, variando de -0,0056 (lag zero) a -0,0069 (lag doze). Contudo, os valores de p permaneceram elevados, variando de 0,59 a 0,52, indicando ausência de significância estatística. O R² ajustado variou entre 0,06 e 0,20, reforçando o baixo poder explicativo do modelo. Esses resultados são consistentes com a análise de correlação e indicam que, no nível agregado, o custo do crédito não apresentou influência estatisticamente significativa sobre o volume de financiamentos no período analisado.

A síntese dos melhores modelos indicou que o único resultado com significância estatística foi observado no segmento de veículos novos, na defasagem de doze meses. Ainda assim, o coeficiente reduzido e o baixo R² ajustado limitam a capacidade de generalização desse achado. Diante desses resultados, não se observou suporte empírico suficiente para confirmar a hipótese de que o aumento do custo do financiamento reduziria de forma relevante o volume de veículos financiados. A evidência empírica obtida indica que essa relação, quando existente, é fraca e incapaz de explicar de forma consistente a dinâmica do mercado.

Discussão dos resultados

Os achados deste estudo indicaram que o custo do financiamento, representado pelo ICC, não apresentou força suficiente para explicar, de maneira consistente, o volume de financiamentos de veículos no período analisado. Essa evidência desloca a interpretação do fenômeno: em vez de sustentar que a elevação do custo do crédito reduz diretamente o volume financiado, os resultados sugerem que essa variável, isoladamente, não captou o comportamento do mercado de forma satisfatória. Essa conclusão é crucial para compreender a complexidade das decisões de consumo de bens duráveis.

Esse resultado é compatível com estudos que tratam a compra de veículos como uma decisão influenciada por um conjunto de condições econômicas e subjetivas mais amplo do que o custo financeiro da operação. Baghestani (2019), ao analisar atitudes de compra de veículos, mostrou que a disposição de compra responde também às percepções sobre as condições econômicas atuais e futuras, além de outros preços relevantes do mercado, o que reforça que o comportamento de aquisição não tende a ser explicado por um único fator, mas por uma interação de múltiplos elementos.

Em termos práticos, isso significa que oscilações no custo do financiamento podem ter coexistido com outros elementos do mercado mais relevantes naquele momento, como necessidade de compra, condições de renda, percepção sobre o momento econômico e disponibilidade de financiamento. A literatura sobre atitudes de compra de veículos já havia mostrado que decisões desse tipo se relacionam com expectativas e avaliações do ambiente econômico, e não apenas com alterações de custo observadas no contrato (Baghestani, 2019).

No segmento de veículos novos, embora tenha surgido um resultado estatisticamente significativo no melhor modelo, o baixo coeficiente e o reduzido poder explicativo impediram que esse achado fosse interpretado como evidência de influência substantiva do custo do crédito. Já no segmento de usados, a ausência de significância do ICC, combinada com o melhor ajuste global do modelo, indicou que outros fatores explicaram melhor a dinâmica observada. Esse comportamento é coerente com estudos que mostram que a escolha entre veículos novos e usados está associada a múltiplos fatores além do custo do financiamento (Konstantinou et al., 2025).

Do ponto de vista aplicado, os resultados obtidos sugerem que o custo do crédito não deve ser utilizado, de forma isolada, como variável principal para antecipar o comportamento do volume de financiamentos de veículos. Para instituições financeiras, concessionárias, revendedoras e analistas do setor, isso significa que projeções baseadas apenas no encarecimento ou barateamento do crédito tendem a ser insuficientes, demandando uma análise mais abrangente dos fatores de mercado.

Nesse sentido, os achados do estudo dialogam com a literatura ao mostrar que o comportamento de aquisição de veículos resulta de uma combinação entre condições de mercado, expectativas e formas de acesso ao crédito, e não de uma resposta mecânica à taxa praticada (Baghestani, 2019; Federal Reserve, 2023). A manutenção do consumo financiado sob condições mais onerosas pode estar associada ao aumento do comprometimento financeiro das famílias, elevando o risco de endividamento e fragilidade financeira (BCB, 2024).

Portanto, os resultados indicam que o custo do crédito, isoladamente, não é suficiente para explicar o comportamento do volume de financiamentos de veículos, sendo necessário considerar a atuação conjunta de fatores econômicos, institucionais e comportamentais para compreender de forma mais abrangente essa dinâmica. A partir da rejeição dessa hipótese, a análise pode ser ampliada para considerar que a manutenção do volume de financiamentos, mesmo em contextos de aumento do custo do crédito, não implica ausência de efeitos econômicos, mas sim deslocamento desses efeitos para outras dimensões, como a qualidade das operações e os riscos associados ao crédito concedido.

Esta discussão permite afirmar que os resultados responderam ao objetivo do estudo ao esclarecer que a relação entre custo do financiamento e volume de financiamentos de veículos não se manifestou de forma forte e consistente no recorte analisado. A contribuição do trabalho, portanto, não está em confirmar uma relação linear entre essas variáveis, mas em demonstrar empiricamente que o mercado de financiamento de veículos exige interpretação mais ampla, considerando a complexidade de fatores que influenciam as decisões de compra e a dinâmica do crédito.

4. Conclusão

O presente estudo buscou analisar a relação entre as taxas de financiamento de veículos leves e o volume de financiamentos na modalidade Crédito Direto ao Consumidor. Por meio de uma abordagem quantitativa com dados secundários mensais, aplicou-se análise descritiva, correlação com defasagens e modelos de regressão linear com defasagens distribuídas, segmentando os resultados entre veículos novos e usados. Verificou-se que a associação entre o custo do crédito, representado pelo Indicador de Custo do Crédito (ICC), e o volume financiado foi fraca e, na maioria dos casos, estatisticamente não significativa. Os modelos estimados apresentaram baixo poder explicativo, indicando que o custo do financiamento, isoladamente, não foi suficiente para explicar de forma consistente a dinâmica do mercado no período analisado. Observou-se um comportamento distinto entre os segmentos, com resultados pontuais para veículos novos, como uma significância estatística na defasagem de doze meses, mas sem relevância econômica robusta. Para veículos usados, os coeficientes do ICC permaneceram próximos de zero e sem significância estatística, embora o volume financiado nesse segmento tenha sido explicado por outros fatores, como tendência e sazonalidade. Concluiu-se que o volume de financiamentos de veículos não respondeu diretamente às variações no custo do crédito, sugerindo que sua dinâmica depende de um conjunto mais amplo de fatores econômicos e institucionais.

A principal contribuição deste trabalho reside na demonstração empírica de que o mercado de financiamento de veículos leves exige uma interpretação mais abrangente, para além de uma relação linear simplista com o custo do crédito. Os achados sugerem que o comportamento de aquisição de veículos resulta de uma combinação complexa de condições de mercado, expectativas e formas de acesso ao crédito, e não de uma resposta mecânica à taxa praticada. Essa perspectiva desloca o foco analítico da quantidade de operações para a qualidade e os riscos associados ao crédito concedido, especialmente em cenários de manutenção do consumo financiado sob condições mais onerosas, o que pode elevar o comprometimento financeiro das famílias. Como limitação, o estudo utilizou um conjunto restrito de variáveis, não incorporando outros fatores potencialmente relevantes, como renda, emprego e condições macroeconômicas, e baseou-se em dados agregados, o que pode ocultar heterogeneidades. Sugere-se que estudos futuros incorporem variáveis adicionais e abordagens mais granulares para uma compreensão mais completa da dinâmica do financiamento de veículos.

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

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