Artigo

28 de julho de 2026

Controles internos e seus impactos no processo decisório em setores administrativos

Yuri de Souza; Raíssa Silveira de Farias

DOI: 10.22167/2675-6528-202601550

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A influência dos controles internos no processo decisório em setores administrativos de grandes organizações foi investigada. O estudo objetivou analisar a relação entre a percepção dos colaboradores sobre os controles internos e o processo de tomada de decisão em setores administrativos de uma organização de grande porte. Para isso, a pesquisa adotou abordagem qualitativa, de natureza descritiva. O instrumento de coleta de dados foi desenvolvido com base na literatura e aplicado a 32 colaboradores de áreas administrativas. A análise dos dados foi conduzida por estatística descritiva e pela técnica de Análise de Conteúdo temática. Os resultados indicaram que os controles internos foram amplamente legitimados pelos colaboradores, principalmente pela segurança e respaldo que proporcionam. Contudo, observou-se tensão entre a conformidade normativa e a eficiência operacional, com relatos de limitação da autonomia decisória e atrasos em situações que demandavam maior agilidade. Identificou-se também um comportamento decisório mais conservador, influenciado pela preocupação com a responsabilização individual e a conformidade. Concluiu-se que os controles internos desempenham um papel duplo, atuando como suporte e restrição, e que o equilíbrio entre conformidade e flexibilidade é crucial para sua efetividade organizacional.

Palavras-chave: Comportamento decisório; Conformidade; Controladoria; Normas e procedimentos.

1. Introdução

A evolução do cenário corporativo contemporâneo tem gerado um ambiente de negócios de crescente complexidade. Nesse contexto, grandes organizações enfrentam demandas cada vez maiores, tanto de seus stakeholders quanto de exigências regulatórias e legais, para operar com transparência e integridade. A busca por prevenir fraudes, padronizar rotinas e procedimentos, e assegurar a conformidade, tem conferido um protagonismo acentuado à área de controles internos.

Os controles internos são reconhecidos como um dos pilares fundamentais do sistema de governança corporativa. O Committee of Sponsoring Organizations of the Treadway Commission (COSO, 2013) os define formalmente como um processo que visa garantir a confiabilidade das informações, a conformidade com as leis e regulamentações, e a eficiência operacional. Complementarmente, Caggiano e Figueiredo (1997) ressaltam que os controles representam o conjunto de instrumentos utilizados pela administração para proteger o patrimônio e assegurar que os objetivos organizacionais sejam atingidos.

A importância dos controles internos é evidenciada por um robusto arcabouço regulatório, tanto em âmbito global quanto nacional. Legislações internacionais, como a Sarbanes-Oxley Act (2002), e normas brasileiras, incluindo a Lei das Sociedades por Ações (Lei nº 6.404/1976), as resoluções do Banco Central nº 2.554/1998 e nº 4.595/2017, e a Lei das Estatais (Lei nº 13.303/2016), reforçam a necessidade de estruturas formais de controle. Tais regulamentações atribuem aos administradores a responsabilidade direta pela integridade das informações e operações.

Esse fortalecimento regulatório impulsionou uma transformação significativa na governança corporativa, que passou a incorporar os controles internos de maneira mais proeminente. Attie (2019) destaca que a promulgação da SOX marcou uma mudança paradigmática na governança corporativa internacional, estabelecendo padrões mais rigorosos de controle e responsabilidade. Essa legislação, conforme Almeida (2010), alterou profundamente a forma como os controles internos são concebidos e avaliados nas organizações.

Contudo, a consolidação desse arcabouço normativo também apresenta desafios consideráveis para as organizações. Paiva e Melo (2019) apontam que o fortalecimento regulatório exige que as empresas transformem requisitos legais em práticas de controle efetivas, alinhando as exigências normativas à realidade operacional e cultural, com especial atenção ao fator humano dentro de suas estruturas organizacionais.

Apesar de sua reconhecida importância e dos benefícios inerentes, a implementação eficaz dos controles internos frequentemente enfrenta dificuldades. Souza (2012) identifica obstáculos como a falta de apoio da alta administração, a resistência dos colaboradores à mudança e a percepção dos controles como meros entraves burocráticos. Peleias et al. (2007) complementam essa visão, descrevendo a implementação de controles internos como um processo de alta complexidade, envolvendo fatores que vão desde o desenho dos processos até a cultura organizacional e o nível de engajamento dos colaboradores.

A cultura organizacional, em particular, influencia diretamente a percepção dos colaboradores sobre os controles internos. Em organizações onde a cultura valoriza a integridade e o compartilhamento de responsabilidades, os controles são vistos como instrumentos de proteção e alcance de objetivos comuns (Zonatto; Beuren, 2014). Por outro lado, Lunkes e Rosa (2012) observam que culturas éticas fragilizadas comprometem a efetividade dos sistemas de controle. Nesses contextos, controles excessivamente coercitivos podem ser percebidos como mecanismos de vigilância e desconfiança, conforme Adler e Borys (1996).

Essa percepção dos controles internos, moldada pela cultura, estende-se a um dos processos mais críticos de qualquer organização: a tomada de decisão. Hodgkinson e Starbuck (2018) explicam que a tomada de decisão em um contexto organizacional envolve processos cognitivos e sociais influenciados pelo ambiente, pelas rotinas e pelos sistemas formais que estruturam a percepção dos problemas e a avaliação das alternativas. Dane e Pratt (2020) acrescentam que o processo decisório ocorre sob pressão temporal e incerteza, combinando análise racional, experiência e julgamentos subjetivos.

Simon (2009) caracteriza esse processo pela racionalidade limitada, onde se buscam decisões satisfatórias diante de restrições de tempo e informação. É nesse cenário que controles mal interpretados podem exercer pressão negativa sobre o processo decisório, seja por comunicação insuficiente, excesso de formalização ou ambiguidades.

A literatura corrobora esse efeito. Martins, Oliveira e Thomas (2019) demonstram que a estrutura de controles molda a autonomia, as prioridades e o grau de segurança percebido pelos colaboradores ao decidir. Hall, Smith e Langfield-Smith (2015) indicam que controles percebidos como habilitadores contribuem para decisões mais rápidas e consistentes. Contudo, quando os controles são vivenciados como excessivamente formais ou coercitivos, eles se tornam fonte de rigidez e lentidão, deslocando o foco para o cumprimento estrito de procedimentos, uma dinâmica alinhada à distinção entre burocracias “habilitadoras” e “coercitivas” de Adler e Borys (1996).

Esse efeito é ainda mais acentuado em ambientes corporativos regulados, como áreas administrativas e financeiras, onde os controles são centrais na mitigação de riscos. Adler (2006) sugere que o excesso de formalização e responsabilização pode desencorajar a iniciativa, levando os colaboradores a focar no cumprimento estrito de normas. Esse fenômeno pode gerar um efeito paradoxal, onde a tentativa de proteger a organização limita a adaptabilidade e desestimula a iniciativa individual, resultando no que Merton (1949) descreveu como uma incapacidade treinada para se adaptar.

Diante do exposto, emerge a seguinte problemática de pesquisa: como a percepção e a interpretação dos colaboradores sobre os controles internos influenciam o processo de tomada de decisão nos setores administrativos de uma empresa de grande porte? A justificativa para este estudo reside na necessidade de compreender essa dinâmica complexa, que afeta diretamente a eficiência operacional e a adaptabilidade organizacional, indo além da mera conformidade. O objetivo geral deste trabalho é analisar como a percepção e a interpretação dos colaboradores sobre os controles internos se associam ao processo de tomada de decisão nos setores administrativos de uma empresa de grande porte.

2. Material e Métodos

A presente pesquisa foi classificada quanto à sua natureza como aplicada, buscando gerar conhecimento direcionado à compreensão e análise de um problema específico. Este problema relacionou-se à percepção dos colaboradores sobre os controles internos e sua influência no processo de tomada de decisão, conforme a caracterização de Vergara (2016) para estudos que oferecem subsídios à prática organizacional.

Em relação aos objetivos, o estudo foi de natureza descritiva, com o propósito de analisar como os colaboradores percebem os controles internos definidos pela organização e como esses se associam ao processo de tomada de decisão. A pesquisa descritiva, segundo Gil (2008), visa identificar a frequência de ocorrência de fenômenos e estabelecer possíveis relações entre variáveis observadas.

Quanto à abordagem metodológica, adotou-se uma perspectiva qualitativa, de natureza descritiva, utilizando um questionário estruturado como instrumento de coleta de dados. O questionário foi aplicado por meio do método de levantamento, conhecido como “survey”, com o objetivo de organizar e sistematizar as percepções dos colaboradores acerca dos controles internos.

A unidade de análise do estudo foi composta por colaboradores de setores administrativos de uma organização de grande porte. Abrangeu áreas como Finanças, Controladoria, Recursos Humanos, Jurídico, Suprimentos e outras áreas corporativas que possuem interface direta com processos formais de controle interno.

A amostra foi não probabilística, por conveniência, e contou com a participação voluntária de 32 colaboradores. Esse quantitativo de respostas válidas foi considerado suficiente para a identificação de padrões e tendências dentro do grupo analisado, especialmente em pesquisas sem pretensão de generalização dos resultados, conforme Malhotra (2012).

Para a etapa qualitativa, obtiveram-se 22 respostas para a questão aberta principal e 15 respostas para a questão voltada à descrição de situações práticas. A literatura de pesquisa qualitativa, conforme Godoy (1995) e Patton (2015), indica que a suficiência da amostra está mais associada à capacidade de identificar recorrência de percepções e significados relevantes do que a um número fixo de respondentes.

O instrumento de coleta de dados consistiu em um questionário estruturado, aplicado de forma online. Essa técnica é amplamente empregada em pesquisas do tipo “survey” por possibilitar a coleta padronizada de dados, a mensuração de atitudes e opiniões, e o alcance de um número maior de respondentes, além de favorecer o anonimato, conforme Babbie (2016) e Gil (2008).

O questionário foi elaborado com base na literatura sobre controles internos, normas e procedimentos organizacionais, sendo estruturado para atender aos objetivos do estudo. Ele foi dividido em quatro seções principais para abordar diferentes aspectos da percepção dos colaboradores e sua relação com a tomada de decisão.

A primeira seção do questionário contemplou o perfil sociodemográfico e funcional dos respondentes, incluindo questões sobre tempo de empresa, nível hierárquico, área de atuação e formação acadêmica. A segunda seção abordou a percepção e interpretação dos controles internos, mensurada por meio de uma escala Likert de cinco pontos.

Nesta segunda seção, consideraram-se dimensões como clareza das normas, alinhamento entre normas e prática, adequação do nível de formalização e finalidade percebida dos controles, com base nos trabalhos de Adler e Borys (1996) e no COSO (2013). A terceira seção buscou relacionar o processo de tomada de decisão aos controles internos presentes na organização, também por meio de escala Likert.

A terceira seção contemplou aspectos como segurança para decidir, influência das normas na escolha de alternativas e percepção de responsabilização individual. A quarta seção incluiu questões abertas, destinadas a ampliar a compreensão qualitativa das percepções dos participantes sobre a influência das normas e procedimentos no processo decisório e relatos de situações práticas.

A coleta de dados foi realizada por meio da aplicação de questionário eletrônico utilizando a plataforma Google Forms. O link do questionário foi disponibilizado aos participantes por meio de convites eletrônicos, sem coleta de e-mails, exigência de login ou qualquer forma de identificação pessoal, garantindo o anonimato dos respondentes.

Previamente à aplicação definitiva, o instrumento foi submetido a uma verificação inicial junto a um pequeno grupo de respondentes. Essa etapa teve caráter exploratório e não estruturado, sendo utilizada para avaliar a clareza das questões e o tempo de preenchimento, sem a necessidade de ajustes após essa primeira aplicação.

Após a finalização da coleta, os dados foram exportados da plataforma e organizados em planilhas eletrônicas para posterior tratamento, sistematização e análise. O tratamento das respostas concentrou-se em uma abordagem qualitativa e descritiva, com o objetivo de organizar, comparar e interpretar as percepções dos colaboradores.

As respostas às questões fechadas foram utilizadas para a identificação de frequências e padrões de resposta por meio de estatística descritiva. Os dados provenientes das questões abertas foram analisados com base na técnica de Análise de Conteúdo, na vertente da análise temática, conforme proposta por Bardin (2016).

O processo de análise de conteúdo consistiu na leitura das respostas, identificação de unidades de sentido e posterior agrupamento em categorias temáticas. O objetivo foi evidenciar padrões recorrentes de percepção sobre a atuação dos controles internos no contexto decisório organizacional.

3. Resultados e Discussão

A presente seção apresenta os resultados obtidos na pesquisa, analisando a percepção dos colaboradores sobre os controles internos e sua influência no processo de tomada de decisão em setores administrativos de uma organização de grande porte. Os achados revelam uma complexa interação, onde os controles são amplamente legitimados pela segurança que proporcionam, mas também geram tensões operacionais e influenciam um comportamento decisório mais conservador. A discussão busca interpretar esses resultados à luz do objetivo do estudo e da literatura pertinente, conforme abordado no trabalho original.

Perfil dos Respondentes

A análise inicial do perfil dos 32 respondentes revelou uma amostra com significativa maturidade profissional e vivência organizacional. Observou-se que 56% dos participantes possuíam entre seis e dez anos de experiência na empresa, e 21,9% tinham mais de dez anos. Apenas 18,8% dos empregados estavam na faixa de até dois anos. Esses dados indicam que a maioria dos colaboradores possuía experiência suficiente para compreender e avaliar consistentemente os mecanismos de controle interno relacionados às suas atividades profissionais, conferindo robustez às percepções coletadas.

Em termos de formação acadêmica, a amostra demonstrou um elevado nível de qualificação, alinhado ao perfil esperado para áreas de gestão em grandes companhias. Verificou-se que 62,5% dos participantes (vinte indivíduos) possuíam pós-graduação, e 28,1% (nove indivíduos) tinham ensino superior completo. A distribuição hierárquica também corroborou essa qualificação técnica, com 75% dos empregados concentrados no nível de Analista/Especialista, seguidos por 12,5% em cargos de gerência ou superiores, o que reforça a capacidade analítica do grupo.

As áreas de atuação dos respondentes mostraram-se concentradas, contribuindo para a homogeneidade da amostra e sua relevância para o estudo. A área de Contratos/Suprimentos foi predominante, representando 71,9% (vinte e três respondentes), seguida por Finanças/Controladoria, com 9,4%, e outras áreas administrativas. Essa concentração é particularmente importante, pois essas áreas compartilham rotinas administrativas fortemente orientadas por normas, procedimentos e exigências de conformidade, tornando-as um campo fértil para investigar a influência dos controles internos.

Para avaliar a aderência da amostra ao tema central da pesquisa, a tomada de decisão, analisou-se a frequência com que os respondentes realizam escolhas e julgamentos em suas atividades diárias. Os resultados indicaram uma elevada exposição ao processo decisório: 40,6% dos participantes (treze indivíduos) tomavam decisões diariamente, enquanto 53,1% (dezessete indivíduos) o faziam frequentemente. Essa alta incidência, totalizando 93,7%, reforça que o grupo analisado está diretamente envolvido em processos decisórios, vivenciando na prática os impactos das normas e procedimentos organizacionais.

Percepção sobre os controles internos

A análise da percepção dos colaboradores sobre os controles internos revelou uma elevada aceitação e legitimidade desses mecanismos no ambiente organizacional. Não foi identificada rejeição à sua existência; ao contrário, observou-se uma forte concordância dos empregados quanto ao papel dos controles na proteção da organização e no suporte às atividades profissionais. Essa percepção inicial estabelece um pano de fundo de reconhecimento da importância dos controles internos para a estabilidade e segurança corporativa.

Especificamente, 90,3% dos respondentes concordaram que os controles contribuem para a proteção da organização, com uma mediana de 4 na escala Likert, indicando uma predominância de respostas nos níveis de concordância. Essa constatação empírica está alinhada à premissa do COSO (2013), que posiciona os controles internos como mecanismos fundamentais voltados à confiabilidade, conformidade e eficiência operacional. De forma semelhante, 93,5% dos participantes concordaram que a observância às normas impacta diretamente a tomada de decisão, mostrando que os controles são percebidos como elementos incorporados à rotina organizacional.

As questões abertas do questionário complementaram esses achados, identificando a categoria “Controles como um mecanismo de proteção e orientação”. Nela, os respondentes destacaram que as normas contribuem para a redução de incertezas, a garantia de conformidade e o direcionamento das ações em situações de dúvida. Relatos específicos descreveram os controles como instrumentos que “ampliam a segurança na atuação profissional” e “subsidiam a tomada de decisão de forma segura para a companhia e os colaboradores”, evidenciando o valor percebido desses mecanismos.

Entretanto, a análise também revelou limitações na aplicação prática dos controles. Quando questionados sobre a adequação das normas ao contexto real das atividades, embora a mediana tenha permanecido em 4, observou-se maior heterogeneidade nas respostas. Uma parcela relevante dos respondentes manifestou desalinhamento entre o normativo e a realidade operacional, com 22,6% discordando que os procedimentos consideram as particularidades das situações práticas, enquanto 58,1% concordaram, indicando uma divisão de percepções.

Essa percepção de desalinhamento foi reforçada por evidências qualitativas, que evidenciaram a categoria “Limitações na aplicabilidade dos controles”. Os relatos indicaram que, embora reconhecidos como necessários, os controles nem sempre acompanham a dinâmica das atividades organizacionais. Um participante destacou dificuldades na tomada de decisão porque as normas e procedimentos não se adaptam ao dinamismo, enquanto outro apontou que a dispersão das regras dificultava a identificação dos procedimentos aplicáveis, gerando fricções no cotidiano.

Adicionalmente, os resultados sugerem que os controles internos demandam um esforço operacional significativo. Observou-se que 87,5% dos respondentes consideram que a verificação e o cumprimento de normas ocupam uma parcela relevante do trabalho diário, com uma mediana de 4. Além disso, 65,6% indicaram que os controles são percebidos mais como registros formais do que como apoio direto à execução das atividades, evidenciando que, em determinadas situações, o foco no cumprimento de procedimentos pode se sobrepor à eficiência operacional.

Em síntese, os resultados indicam que os controles internos são amplamente legitimados pelos respondentes, principalmente pela segurança e respaldo que proporcionam. Contudo, essa legitimidade não elimina a percepção de limitações relacionadas à sua aplicabilidade e ao nível de formalização. Essa dualidade evidencia uma tensão estrutural entre a necessidade de conformidade e a busca por eficiência nas rotinas organizacionais, um desafio que os colaboradores precisam gerenciar constantemente.

Impactos na Tomada de Decisão

A análise do terceiro bloco do questionário focou em compreender como a estrutura normativa afeta o fluxo decisório dos colaboradores. Os dados indicaram que os controles internos transcendem a mera formalidade, participando ativamente da formulação da decisão. Uma maioria expressiva de 93,5% dos respondentes concordou que a preocupação em cumprir normas impacta a escolha da alternativa de decisão, com uma mediana de 4. Esse resultado sugere que a conformidade não é apenas um pano de fundo, mas uma variável de peso que atua de forma interdependente com a busca por eficiência na rotina profissional, condicionando o comportamento decisório em diferentes níveis.

Entretanto, os resultados também revelaram a existência de tensões operacionais associadas à aplicação dessas normas. Verificou-se que 56,2% dos participantes já perceberam que as normas entram em conflito com a alternativa de decisão que consideram mais adequada para a organização. Esse atrito prático foi ilustrado pelo relato de um gerente que apontou que, embora os padrões visem segurança, eles podem conflitar com decisões comerciais mais adequadas, gerando ineficiência. Outro participante da área de Suprimentos descreveu uma falha operacional urgente que exigia ação imediata, mas o cumprimento do fluxo formal atrasou a decisão até a liberação excepcional pela gestão.

Esses achados dialogam diretamente com a literatura que alerta para os efeitos não intencionais do excesso de formalização sobre o comportamento organizacional. Conforme argumenta Merton (1949), sistemas normativos rígidos podem levar à chamada “incapacidade treinada”, onde indivíduos passam a seguir as regras de forma mecanicista, reduzindo a capacidade crítica e de adaptação em situações atípicas. O exemplo citado da falha operacional e do atraso na decisão enquadra-se perfeitamente nessa teoria, demonstrando como a busca por conformidade pode limitar a agilidade.

Os controles internos, embora essenciais para a mitigação de riscos, podem introduzir fricções no processo decisório, especialmente em contextos que demandam agilidade e adaptação. A atuação dos controles não se limita ao suporte à decisão, mas também pode restringir o conjunto de alternativas consideradas viáveis pelos empregados no contexto organizacional. Essa restrição, combinada com a rigidez e a multiplicidade de interpretações das normas, insere uma camada adicional de cautela no comportamento dos colaboradores, levando a decisões menos ágeis.

Os dados quantitativos indicaram que quase metade da amostra, 48,4%, sentia-se insegura quanto à responsabilização individual, mesmo quando atuava dentro das normas, com uma mediana de 3. Esse resultado sugere que a percepção de insegurança, embora não predominante, é relevante para uma parte da amostra, refletindo diferentes experiências e níveis de exposição ao risco decisório na organização. Esse achado sugere que o processo decisório não é orientado exclusivamente pela busca do melhor resultado organizacional, mas também pela necessidade de mitigação de riscos pessoais associados à tomada de decisão.

Esse racional enquadra-se perfeitamente na discussão de processo decisório, na abordagem de Simon (2009), em que, diante do risco de autuação ou exposição, o indivíduo tende a não buscar necessariamente a decisão isoladamente ótima ou mais célere. Em vez disso, ele busca a alternativa que se mostre mais segura e satisfatória, dentro das restrições impostas pelo sistema de controle. As evidências qualitativas reforçaram essa dinâmica, com respondentes destacando a necessidade de fundamentação rigorosa de suas decisões, especialmente em uma empresa de economia mista, para mitigar o risco de questionamentos por órgãos de controle e a possível responsabilização pessoal.

Apesar dessas tensões e do esforço analítico exigido, a integração dos dados evidencia que os controles internos também cumprem um papel central de suporte e proteção ao tomador de decisão. Cerca de 90% dos respondentes concordaram que as normas conferem segurança para decidir, com uma mediana de 4, e 81,2% sentiram-se apoiados pela organização ao atuar em conformidade aos padrões. A percepção do controle como fator de respaldo institucional ficou evidente no relato de um participante com menos de dois anos de empresa, que afirmou utilizar diariamente os padrões corporativos para tomar decisões que, em caso de possíveis questionamentos, garantam razão e segurança.

Dessa forma, observa-se que os controles internos exercem um papel duplo no processo de tomada de decisão. Ao mesmo tempo em que funcionam como mecanismos de orientação, padronização e proteção institucional, também introduzem restrições que exigem dos profissionais um constante exercício de ponderação. Essa dualidade pode ser interpretada à luz da tipologia proposta por Adler e Borys (1996), que distinguem entre burocracias de caráter coercitivo e habilitador. No presente trabalho, os controles assumem simultaneamente as duas facetas: suporte e orientação (habilitadores), mas também impõem restrições que geram atritos e limitam a flexibilidade operacional (coercitivos). O decisor atua, assim, em um ambiente no qual precisa equilibrar a aderência às normas com a necessidade de responder de forma eficiente às demandas operacionais.

Em síntese, os resultados obtidos nesta pesquisa permitiram avançar na compreensão do papel dos controles internos para além de sua função técnica, evidenciando sua influência direta sobre o comportamento e o processo de tomada de decisão dos colaboradores. O estudo confirmou que os controles são amplamente legitimados pelos profissionais, especialmente em função da segurança e do respaldo que proporcionam. No entanto, a análise também evidenciou a existência de tensões práticas entre a formalização dos controles e a dinâmica exigida pelas rotinas administrativas, gerando restrições operacionais, atrasos na tomada de decisão e limitação da flexibilidade necessária para lidar com demandas específicas do contexto prático, o que fomenta um comportamento decisório mais conservador e focado na mitigação de riscos pessoais.

4. Conclusão

Este estudo buscou analisar como a percepção dos colaboradores sobre os controles internos se associa ao processo de tomada de decisão em setores administrativos de uma organização de grande porte. Verificou-se que os controles internos são amplamente legitimados pelos profissionais, principalmente pela segurança e pelo respaldo que proporcionam às suas atividades. Observou-se que esses mecanismos não são percebidos apenas como formalidades, mas como elementos intrínsecos à rotina organizacional, influenciando diretamente a forma como as decisões são conduzidas no cotidiano de trabalho. Contudo, identificou-se uma tensão prática entre a conformidade normativa e a eficiência operacional, com relatos de que os controles podem limitar a autonomia decisória e gerar atrasos em situações que demandavam maior agilidade. Essa dinâmica fomentou um comportamento decisório mais conservador, influenciado pela preocupação com a responsabilização individual e a estrita aderência às normas.

A principal contribuição deste trabalho reside em aprofundar a compreensão do papel dos controles internos para além de sua função técnica, evidenciando sua influência direta sobre o comportamento e o processo de tomada de decisão dos colaboradores. Demonstrou-se que os controles exercem um papel duplo, atuando simultaneamente como suporte e restrição, e que o equilíbrio entre a conformidade e a flexibilidade é crucial para sua efetividade organizacional. Apesar das contribuições, este estudo possui limitações inerentes à sua abordagem metodológica. A principal restrição reside na dimensão e na concentração da amostra, composta por 32 participantes de uma única organização, predominantemente da área de Contratos/Suprimentos. Consequentemente, os achados refletem as peculiaridades desse ambiente corporativo específico, não sendo possível generalizar as conclusões para o mercado em sentido amplo ou para empresas com diferentes modelos de gestão. Para futuras investigações, recomenda-se a replicação deste instrumento em múltiplos contextos organizacionais, comparando empresas privadas e públicas, a fim de compreender como distintas culturas institucionais e níveis de escrutínio impactam o comportamento decisório. Adicionalmente, estudos com abordagem quantitativa e amostras mais amplas podem aprofundar as relações identificadas, testando de forma mais robusta os impactos dos controles internos no processo de tomada de decisão.

Referências Bibliográficas

Adler, P. S. 2006. Enabling and coercive bureaucracies: coordination, control, and collaboration. Academy of Management Proceedings, v. 2006, n. 1.

Adler, P. S.; Borys, B. 1996. Two types of bureaucracy: enabling and coercive. Administrative Science Quarterly, v. 41, n. 1, p. 61–89.

Almeida, M. C. 2010. Auditoria: um curso moderno e completo. 6. ed. São Paulo: Atlas.

Attie, W. 2019. Auditoria: conceitos e aplicações. 8. ed. São Paulo: Atlas.

Brasil. 1976. Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976. Dispõe sobre as sociedades por ações. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 17 dez. 1976.

Brasil. 1998. Resolução n° 2.554, de 24 de setembro de 1998. Dispõe sobre a implementação e manutenção de sistemas de controles internos nas instituições financeiras. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 28 set. 1998.

Brasil. 2016. Lei nº 13.303, de 30 de junho de 2016. Dispõe sobre o estatuto jurídico da empresa pública, da sociedade de economia mista e de suas subsidiárias. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1 jul. 2016.

Brasil. 2017. Resolução nº 4.595, de 28 de agosto de 2017. Dispõe sobre a política de conformidade das instituições financeiras e demais instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central do Brasil. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 30 ago. 2017.

Caggiano, P. C.; Figueiredo, S. 1997. Controladoria: teoria e prática. 2. ed. São Paulo: Atlas.

Committee of Sponsoring Organizations of the Treadway Commission (COSO). 2013. Internal control – integrated framework. Durham: AICPA.

Dane, E.; Pratt, M. G. 2020. Decision making: integrating intuition and analysis. Academy of Management Annals, v. 14, n. 1, p. 1–31.

Gil, A. C. 2008. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas.

Godoy, A

Hall, M.; Smith, D.; Langfield-Smith, K. 2015. Accountabilities, power and perceived performance. Accounting, Organizations and Society, v. 49, p. 1–17.

Hodgkinson, G. P.; Starbuck, W. H. 2018. The Oxford handbook of organizational decision making. Oxford: Oxford University Press.

Lunkes, J. R.; Rosa, M. M.; Gasparini, C. E. 2012. Cultura organizacional e o ambiente de controle: um estudo em empresas brasileiras. Revista de Contabilidade do Mestrado em Ciências Contábeis da UERJ, v. 17, n. 1, p. 68-82.

Malhotra, N. K. 2012. Pesquisa de marketing: uma orientação aplicada. 6. ed. Porto Alegre: Bookman.

Martins, E.; Oliveira, L.; Thomas, J. 2019. Controls, accountability and decision-making in organizations. Management Accounting Research, v. 45, p. 1–14.

Merton, R. K. 1949. Social theory and social structure. New York: Free Press.

Paiva, I. C.; Melo, A. A. 2019. Controles internos e desafios regulatórios nas organizações. Revista Contemporânea de Contabilidade, v. 16, n. 40, p. 3–22.

Peleias, I. R.; Silva, G. P.; Segreti, J. B.; Chiorotto, A. R. 2007. Controladoria e gestão de custos: um estudo sobre a implementação de sistemas de controles internos em empresas brasileiras. Revista de Contabilidade e Finanças, v. 18, n. 45, p. 27–40.

Sarbanes-Oxley Act of 2002. Public Law 107–204, 116 Stat. 745, July 30, 2002.

Simon, H. A. 2009. Administrative behavior. 4. ed. New York: Free Press.

Souza, A. A. 2012. Controles internos e resistência organizacional: desafios à implementação. Revista Universo Contábil, v. 8, n. 2, p. 91–108.

Vergara, S. C. 2016. Projetos e relatórios de pesquisa em administração. 16. ed. São Paulo: Atlas.

Zonatto, P. A.; Beuren, I. M. 2014. Relação entre cultura organizacional e práticas de controladoria. Revista de Contabilidade e Organizações, v. 8, n. 21, p. 44–58.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

Você também pode gostar

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Inteligência Artificial na Gestão Contratual: Supervisão Humana, Riscos Jurídicos e Governança Algorítmica

O advento da inteligência artificial como tecnologia disruptiva reconfigurou processos econômicos, institucionais e jurídicos, conferindo centralidade à automação contratual na gestão de relações complexas. A automação contratual revelou-se um fenômeno juridicamente não neutro, com opacidade decisória, geração automatizada de cláusulas abusivas e dificuldades de atribuição de responsabilidade, deslocando a elaboração contratual para o domínio jurídico-normativo. O estudo analisou como a inteligência artificial na automação contratual intensificou a colisão entre eficiência tecnológica e segurança jurídica, e em que medida mecanismos de supervisão humana significativa e de governança algorítmica funcionaram como instrumentos de ponderação normativa para preservar princípios do direito contratual brasileiro. A pesquisa adotou abordagem qualitativa de estudo de casos múltiplos, com análise documental de quatro casos paradigmáticos: Moffatt v. Air Canada, United States v. RealPage, Deloitte/DEWR e INSS/TRF-4ª Região, representando os contextos consumerista, concorrencial, consultivo-contratual e administrativo. A análise identificou cinco padrões estruturais recorrentes – opacidade decisória, substituição da racionalidade normativa por inferências probabilísticas, accountability gap, assimetria informacional e incompreensão semântica – que emergiram de forma sistêmica. O desfecho fragmentado do caso RealPage reforçou a conclusão de que a jurisprudência sobre automação decisória permanece em formação. A governança algorítmica eficaz demonstrou exigir a integração de mecanismos de auditabilidade, responsabilização e supervisão humana, conforme as normas ISO 31000, COSO ERM e ISO 37301, como condição necessária à legitimidade dos sistemas automatizados de gestão contratual.

Palavras-chave: Contratos; Governança algorítmica; Inteligência artificial; Segurança jurídica; Supervisão humana.

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Rituais de Verificação sob Pressão: Categorias de Ação ESG Relatadas por Grande Grupo Frigorífico Antes e Após Operação Deflagrada Pela Polícia Federal e Seus Desdobramentos, em Passado Recente

Relatórios de sustentabilidade são amplamente empregados como instrumentos de gestão da legitimidade corporativa, mas sua função como mecanismo de reorganização cognitiva em contextos de crise reputacional permaneceu subexplorada na literatura. O estudo analisou as transformações nas categorias de ação ESG reportadas pela Empresa JBS em seus relatórios anuais de sustentabilidade de 2015 a 2018, período que compreendeu dois anos anteriores e dois anos posteriores à Operação Carne Fraca e seus desdobramentos. O objetivo foi investigar como a organização alterou sua estrutura cognitiva após a crise reputacional, por meio de um de seus sistemas de reporte. Empregou-se um processo de catalogação sistemática de 1.088 práticas relatadas, classificadas por pilar ESG, tema material e categoria de ação. O referencial teórico mobilizou Mary Douglas (1986), Michael Power (1997), Meyer e Rowan (1977) e Edelman (2016) para interpretar os fenômenos observados. Os resultados evidenciaram um crescimento exigido em governança, que coexistiu com o colapso do pilar social, o desaparecimento de categorias substantivas e a substituição de ações voltadas a prêmios por ações que ressignificaram as relações da organização e seu posicionamento no mercado. Além disso, treinamentos de liderança migraram do tema de cultura para compliance, campanhas de comunicação cederam lugar a canais estruturais permanentes, e investidores tornaram-se a audiência de maior crescimento proporcional. Concluiu-se que a sofisticação do esforço de legitimação residiu não no que a empresa necessariamente fez, mas na consistência com que reorganizou quem ela diz ser e para quem, a partir das categorias de ação que relatou.

Palavras-chave: Crise reputacional; ESG; Pensamento institucional; Relatórios de sustentabilidade; Estratégia organizacional.

Gestão Escolar

11 de setembro de 2026

Liderança Escolar à Luz da Teoria U: um Diálogo com as Lideranças Transformacional e Servidora.

A integração de diferentes modelos de liderança mostrou-se um caminho relevante para instituições de ensino que buscaram inovar e alcançar excelência em suas práticas educacionais. Contudo, foram escassas as pesquisas empíricas que investigaram a aplicação da Teoria U na gestão escolar associada às abordagens Transformacional e Servidora, o que configurou uma lacuna na literatura. Este estudo buscou compreender como gestores educacionais perceberam e aplicaram princípios da Teoria U — escuta generativa, presencing e cocriação — em diálogo com as abordagens teóricas da Liderança Transformacional e da Liderança Servidora em suas práticas de gestão. A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de São Paulo, que abrangeu desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de perguntas semiestruturadas, aplicado a sete gestores educacionais, e foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram aproximações entre as práticas observadas e os pressupostos teóricos dos modelos estudados, com a escuta destacando-se como a competência que melhor articulou as três abordagens no contexto investigado. Também foram identificadas algumas tensões entre os referenciais teóricos e o cotidiano da gestão. O estudo contribuiu para uma reflexão crítica sobre as possibilidades e os limites da integração desses diferentes modelos de liderança em ambientes escolares, ampliando o debate e oferecendo subsídios relevantes para o fortalecimento do campo da gestão educacional.

Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade