24 de julho de 2026
Cenários preditivos das mudanças climáticas e seu real impacto na agricultura brasileira
Claudia Lobo Santos; Fernando Bonifácio Anacleto
DOI: 10.22167/2675-6528-202600666
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
As mudanças climáticas alteram padrões ambientais relevantes para o setor agrícola brasileiro, especialmente nos estados do Mato Grosso, Bahia e Rio Grande do Sul. Este estudo avaliou empiricamente os efeitos observados das variações climáticas recentes sobre a dinâmica territorial e o desempenho produtivo das culturas de soja, milho e arroz. Para isso, integrou-se dados de uso e cobertura da terra (MapBiomas, 2000–2024), produtividade agrícola (IBGE LSPA, 2000–2024) e variáveis climáticas (ERA5 Land, 2006–2023), com posterior modelagem estatística da relação entre temperatura, precipitação e rendimento estadual. Os resultados estruturais indicaram expansão significativa das áreas agrícolas no período analisado, com a soja como principal vetor de transformação territorial, especialmente no Mato Grosso e na Bahia. A análise econométrica demonstrou que o rendimento da soja não apresentou impacto negativo significativo associado ao aumento da temperatura, sugerindo elevada capacidade adaptativa do sistema produtivo. O milho exibiu sensibilidade climática intermediária, enquanto o arroz evidenciou forte vulnerabilidade térmica e dependência da precipitação. Em comparação com projeções de risco climático, observou-se convergência parcial, pois os efeitos não se manifestaram de forma homogênea entre culturas. Concluiu-se que a resposta da agricultura brasileira às mudanças climáticas é diferenciada e fortemente condicionada por fatores tecnológicos, fisiológicos e regionais.
Palavras-chave: Adaptação climática; Produtividade agrícola; Resiliência climática; Soja; Uso da terra.
1. Introdução
As mudanças climáticas representam um dos desafios mais prementes do século XXI, com impactos significativos em diversos setores globais. O setor agrícola, em particular, é altamente vulnerável a essas alterações, dada sua intrínseca dependência de variáveis ambientais. Nas últimas décadas, observa-se uma intensificação das mudanças climáticas, manifestada por padrões alterados de temperatura, precipitação e uma frequência crescente de eventos extremos em distintas regiões do planeta (IPCC, 2023). Fatores como a temperatura, a precipitação, a umidade do solo, a radiação solar e os ventos exercem influência direta sobre o desenvolvimento fisiológico das plantas, a produtividade das lavouras e a estabilidade dos sistemas produtivos (Assad et al., 2008a; IPCC, 2023).
No contexto brasileiro, estudos preditivos anteriores, como os de Assad et al. (2008a; 2008b), indicaram que cenários de elevação térmica poderiam comprometer a aptidão agrícola de culturas essenciais como a soja e o arroz. Essas projeções apontavam para uma potencial redução da produtividade, especialmente em regiões estratégicas para a produção de grãos, como o Centro-Oeste, Nordeste e Sul do país, devido a riscos associados à elevação de temperatura e à intensificação de eventos climáticos extremos. A literatura internacional também corrobora a sensibilidade diferenciada das culturas agrícolas às variações térmicas e hídricas (Schlenker e Roberts, 2009; Lobell et al., 2011; Ray et al., 2015).
Entretanto, passadas quase duas décadas desde a formulação dessas projeções, torna-se crucial investigar se os impactos previstos se concretizaram empiricamente no desempenho produtivo recente da agricultura brasileira. A relevância dessa análise é amplificada pela contínua expansão da fronteira agrícola e pela intensificação tecnológica observadas no período, fatores que podem ter modificado ou mitigado os efeitos climáticos inicialmente projetados. A compreensão da resposta real da agricultura a essas mudanças é fundamental para o desenvolvimento de estratégias de adaptação e mitigação eficazes.
Nesse cenário, o presente estudo buscou analisar de forma integrada a dinâmica de uso e cobertura da terra, a evolução produtiva e a relação estatística entre variáveis climáticas observadas e o rendimento agrícola. Foram selecionados os estados do Mato Grosso, Bahia e Rio Grande do Sul, reconhecidos por sua elevada representatividade na produção nacional de grãos e por apresentarem regimes climáticos e contextos produtivos distintos. O Mato Grosso destaca-se como principal produtor de soja e polo de expansão agrícola, enquanto a Bahia, especialmente na região do MATOPIBA, reflete uma dinâmica recente de conversão territorial. O Rio Grande do Sul, por sua vez, é um tradicional produtor de arroz irrigado, situado em uma região de clima subtropical, oferecendo uma perspectiva comparativa valiosa.
Ao integrar dados de uso e cobertura da terra do MapBiomas, informações de produtividade agrícola do IBGE (LSPA) e variáveis climáticas do ERA5-Land, este trabalho teve como objetivo avaliar se o aumento térmico observado no período recente tem se refletido em perdas produtivas, bem como verificar se os impactos climáticos ocorrem de maneira homogênea entre culturas como soja, milho e arroz, fornecendo subsídios para a compreensão da resiliência e vulnerabilidade da agricultura brasileira.
2. Material e Métodos
O presente estudo caracterizou-se como uma análise quantitativa, exploratória e explicativa, baseada na integração de dados. O objetivo metodológico central foi avaliar, em escala estadual, a relação entre variáveis climáticas observadas e o desempenho produtivo das culturas de soja, milho e arroz nos estados do Mato Grosso, Bahia e Rio Grande do Sul. A escala estadual foi adotada para compatibilidade espacial entre as bases de dados e redução de inconsistências históricas.
Foram selecionados três estados com elevada representatividade na produção agrícola nacional e distintas características climáticas e edafoclimáticas. O Mato Grosso (MT) foi incluído como principal produtor de soja e milho safrinha, com forte expansão da fronteira agrícola. A Bahia (BA) representou a região do MATOPIBA, com dinâmica recente de conversão territorial. O Rio Grande do Sul (RS) foi selecionado como tradicional produtor de arroz irrigado e importante produtor de soja, situado em clima subtropical. Essa escolha permitiu a comparação entre contextos produtivos e regimes climáticos distintos.
A coleta de dados para uso e cobertura do solo (2000-2024) utilizou a plataforma MapBiomas, Coleção 9, identificando áreas de soja (3.2.1.1), arroz (3.2.1.3), área total de lavouras (3.2.*) e conversão de vegetação nativa (1.* e 2.*) para uso agrícola. Dados de produtividade agrícola (2000-2024) foram obtidos do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) do IBGE, via sistema SIDRA, incluindo área plantada (hectares) e rendimento médio (kg/ha) para soja, milho e arroz.
Variáveis climáticas (2006-2023) foram extraídas do conjunto ERA5-Land Monthly Aggregated (ECMWF), acessado via Google Earth Engine, compreendendo temperatura média do ar a 2 metros e precipitação acumulada mensal. A precipitação foi convertida de metros para milímetros, e a temperatura de Kelvin para graus Celsius. Indicadores climáticos específicos por safra foram construídos: soja (setembro-dezembro do ano anterior e janeiro-abril do ano corrente), milho (janeiro-agosto do ano corrente) e arroz (acumulado anual). Os valores mensais foram agregados por estado.
A partir dos dados do MapBiomas, calcularam-se a área total por cultura em 2000 e 2024, a variação absoluta de área e a conversão direta de vegetação nativa. Do IBGE LSPA, o rendimento estadual foi calculado por média ponderada, utilizando a fórmula Rendimento_estado = (Σ Produção_municipal) / (Σ Área_municipal). Essa abordagem garantiu consistência estatística e representatividade proporcional das áreas cultivadas, evitando distorções de médias simples.
As bases de dados individuais (MapBiomas, IBGE e ERA5) foram integradas para construir um painel de dados estadual. Este painel continha informações sobre ano, estado, cultura, área plantada, produção estimada, rendimento estadual, precipitação acumulada da safra e temperatura média da safra. A integração foi realizada por meio das variáveis comuns de estado e ano, garantindo a compatibilidade para as análises subsequentes.
A estratégia analítica foi desenvolvida em três etapas. Primeiramente, uma análise estrutural (2000–2024) avaliou a expansão territorial das culturas e a conversão de vegetação nativa. Em seguida, uma análise produtiva (2006–2023) examinou a evolução da área plantada e do rendimento médio estadual. Por fim, uma análise climática comparativa investigou a relação descritiva entre variáveis climáticas e rendimento agrícola, focando em sensibilidade ou resiliência produtiva.
Para a análise estatística da relação entre clima e produtividade, adotou-se um modelo de regressão linear múltipla, com estimação por mínimos quadrados ordinários (OLS). O modelo assumiu uma relação linear entre as variáveis climáticas e o rendimento agrícola, sendo estimado com dados estaduais para o período de 2006 a 2023. A especificação utilizada foi Rendimento_it = β0 + β1Temperatura_it + β2Precipitação_it + ε_it. As análises foram conduzidas separadamente para as culturas de soja, milho e arroz.
3. Resultados e Discussão
A análise da matriz de transição do MapBiomas para o período de 2000 a 2024 revelou mudanças estruturais significativas no uso e cobertura do solo nos estados da Bahia, Mato Grosso e Rio Grande do Sul. Observou-se uma expansão consistente das áreas destinadas à lavoura, com destaque para culturas temporárias como soja e arroz. Essa dinâmica territorial reflete a intensificação da atividade agrícola no Brasil, impulsionada por fatores econômicos e tecnológicos, que se manifestaram de forma heterogênea nas diferentes regiões estudadas, moldando a paisagem produtiva e ambiental.
No estado da Bahia, a área de lavouras expandiu de aproximadamente 1,2 milhão de hectares em 2000 para 2,9 milhões de hectares em 2024, o que representa um incremento superior a 1,7 milhão de hectares. Estima-se que cerca de 1,27 milhão de hectares dessa expansão esteja diretamente associada à conversão de vegetação nativa para uso agrícola. Essa dinâmica reforça o papel da região do MATOPIBA como uma fronteira agrícola em consolidação, onde a soja se estabeleceu como o principal vetor de ocupação territorial, conforme dados do MapBiomas.
O Mato Grosso demonstrou o comportamento mais expressivo em termos absolutos, com a área de lavouras crescendo aproximadamente 7,7 milhões de hectares entre 2000 e 2024, atingindo mais de 12 milhões de hectares. A conversão direta de vegetação nativa para lavoura ultrapassou 3,4 milhões de hectares, enquanto a conversão total para uso agropecuário superou 12 milhões de hectares. Esses resultados confirmam a posição do estado como principal polo de expansão agrícola nacional no período analisado, com a soja predominando como cultura estruturante dessa dinâmica de transformação territorial.
No Rio Grande do Sul, embora a expansão territorial seja menos associada a novas fronteiras agrícolas, observou-se um incremento relevante nas áreas de lavoura. A conversão de vegetação nativa para lavoura foi mais moderada em comparação com o Centro-Oeste, refletindo um contexto de uso da terra historicamente consolidado. Nesse estado, a cultura do arroz mantém um papel estratégico, especialmente em sistemas produtivos irrigados, sendo potencialmente mais sensível a variações climáticas regionais, conforme apontado por Assad et al. (2008a).
De forma geral, os resultados estruturais indicam que, entre 2000 e 2024, houve uma expansão significativa das áreas agrícolas nos três estados analisados. A soja emergiu como o principal vetor de crescimento territorial, com um aumento expressivo em sua área cultivada. Essa expansão ocorreu mesmo em um contexto de elevação progressiva das temperaturas médias globais, conforme relatórios do IPCC (2023), sugerindo uma capacidade adaptativa do sistema produtivo agrícola brasileiro no período considerado, que pode estar relacionada a avanços tecnológicos e de manejo.
A soja apresentou uma expansão notável nos três estados, com o Mato Grosso registrando um aumento de aproximadamente 7 milhões de hectares na área cultivada. O Rio Grande do Sul teve um incremento superior a 1,7 milhão de hectares, e a Bahia, um crescimento superior a 1,4 milhão de hectares. Parte significativa dessa expansão está diretamente ligada à conversão de vegetação nativa, especialmente no Mato Grosso e na Bahia, reforçando o papel da soja como principal motor da transformação territorial entre 2000 e 2024.
A dinâmica do arroz, por sua vez, mostrou um comportamento distinto, com crescimento relevante apenas no Rio Grande do Sul, onde a área cultivada aumentou em 1,15 milhão de hectares. A conversão direta de vegetação nativa para arroz foi relativamente baixa, indicando que a expansão dessa cultura esteve mais associada à reorganização interna do uso do solo do que à abertura de novas áreas. Esse padrão sugere que o arroz apresenta uma dinâmica territorial mais consolidada e menos vinculada à expansão de fronteira agrícola.
A expansão territorial identificada por meio da matriz de transição do MapBiomas demonstra que a soja se consolidou como o principal vetor de transformação do uso do solo entre 2000 e 2024. No entanto, os resultados econométricos para o período de 2006 a 2023 indicam que, apesar do aumento térmico observado, o rendimento dessa cultura não foi negativamente impactado, ao passo que o arroz apresentou elevada sensibilidade às variações climáticas. Esses achados sugerem uma dissociação parcial entre a dinâmica de ocupação territorial e a vulnerabilidade produtiva frente às mudanças climáticas, evidenciando que a expansão espacial de uma cultura não implica, necessariamente, maior suscetibilidade de seu desempenho produtivo às alterações ambientais. Resultados semelhantes, que apontam para respostas heterogêneas das culturas à elevação da temperatura, foram relatados em análises globais (Schlenker e Roberts, 2009; Rosenzweig et al., 2014).
No contexto da soja, o modelo estimado apresentou um coeficiente de determinação (R²) de 0,26, indicando que aproximadamente 26% da variação observada no rendimento pode ser explicada pelas variáveis climáticas incluídas na análise. A temperatura apresentou um coeficiente positivo e estatisticamente significativo (β = 128,4 kg/ha por °C; p < 0,001), sugerindo uma associação entre o aumento térmico e a elevação do rendimento médio no período analisado. A precipitação, por sua vez, não demonstrou significância estatística ao nível de 5% (p = 0,17), indicando que, para a soja, a variabilidade pluviométrica não foi um fator determinante no modelo estimado.
Esses resultados sugerem que, no período analisado, o aumento da temperatura não implicou uma redução do rendimento da soja. Esse comportamento pode refletir efeitos de adaptação tecnológica, como o desenvolvimento de cultivares mais tolerantes ao calor, o melhoramento genético e a evolução das práticas de manejo agrícola. A capacidade de adaptação da soja, portanto, parece ter mitigado os potenciais impactos negativos do aquecimento, demonstrando uma resiliência notável do sistema produtivo dessa cultura.
O modelo estimado para o arroz apresentou um elevado poder explicativo (R² = 0,91), indicando uma forte associação entre as variáveis climáticas e o rendimento. A temperatura exibiu um coeficiente negativo e altamente significativo (β = −652,7 kg/ha por °C; p < 0,001), evidenciando que aumentos térmicos estão associados à redução do rendimento da cultura. Na precipitação, observou-se um coeficiente positivo e estatisticamente significativo (β = 2,01 kg/ha por mm; p < 0,001), indicando uma dependência relevante da disponibilidade hídrica para o desempenho produtivo do arroz.
Esses resultados evidenciam uma maior sensibilidade climática do arroz quando comparado à soja, especialmente no que se refere ao impacto térmico. A cultura do arroz, particularmente a irrigada, é mais vulnerável a variações de temperatura e precipitação, o que corrobora as projeções de Assad et al. (2008a) sobre a maior suscetibilidade dessa cultura a cenários de aquecimento. A forte dependência hídrica e a sensibilidade térmica do arroz o tornam um indicador importante de vulnerabilidade climática na agricultura brasileira.
A regressão estimada para o milho indica um comportamento intermediário quando comparado às demais culturas analisadas. Observa-se uma tendência negativa entre a temperatura média da safra e o rendimento, embora menos acentuada do que a verificada para o arroz. A precipitação demonstrou influência positiva, sugerindo uma dependência moderada das condições hídricas. Esses resultados indicam que o milho apresenta maior sensibilidade climática que a soja, porém inferior à observada no arroz, refletindo diferenças fisiológicas, ciclo produtivo e distribuição geográfica da cultura.
Observa-se um padrão distinto de sensibilidade térmica entre as culturas analisadas. A soja apresenta uma tendência levemente positiva entre a temperatura da safra e o rendimento, indicando sua resiliência. Em contraste, o arroz demonstra uma forte inclinação negativa, apontando para uma maior vulnerabilidade térmica. O milho, por sua vez, exibe um comportamento intermediário, sugerindo sensibilidade moderada às variações de temperatura. Essa heterogeneidade nas respostas sublinha a complexidade dos impactos das mudanças climáticas na agricultura.
Os resultados obtidos apresentam convergência parcial com as projeções de Assad et al. (2008a; 2008b), que indicavam redução da aptidão agrícola em cenários de aumento de temperatura. Embora esses estudos apontassem impactos negativos potenciais para culturas como soja e arroz, os dados empíricos analisados neste trabalho mostram que tais efeitos não se manifestaram de forma homogênea no período recente. A soja, por exemplo, manteve expansão territorial e desempenho produtivo, o que sugere forte influência de fatores adaptativos, possivelmente associados a avanços tecnológicos e à intensificação produtiva.
Em contraste, o arroz apresentou maior sensibilidade às variações climáticas, especialmente térmicas, corroborando as projeções de maior vulnerabilidade dessa cultura. Esses achados evidenciam que as respostas da agricultura brasileira às mudanças climáticas variam entre culturas e regiões, reforçando a necessidade de estratégias de adaptação diferenciadas. Nesse contexto, as culturas com maior capacidade, como a soja, tendem a responder de forma mais resiliente, enquanto sistemas mais sensíveis, como o arroz, demandam políticas específicas de mitigação de risco climático, sobretudo em áreas de maior vulnerabilidade térmica.
Assim, o fortalecimento da pesquisa agroclimática, o aprimoramento do zoneamento agrícola de risco climático e o incentivo à inovação tecnológica configuram-se como instrumentos centrais para promover a sustentabilidade produtiva e a segurança alimentar em cenários de mudanças climáticas progressivas. A compreensão dessas dinâmicas é crucial para direcionar investimentos e políticas públicas que visem aumentar a resiliência do setor agrícola frente aos desafios impostos pelas alterações ambientais.
Limitações da Análise Estatística
Embora os modelos de regressão estimados forneçam evidências relevantes acerca da relação entre variáveis climáticas e rendimento agrícola, algumas limitações metodológicas devem ser consideradas. Primeiramente, o modelo adotado baseia-se em agregação estadual, o que implica uma perda de variabilidade espacial intrarregional. Diferenças microrregionais de solo, manejo e tecnologia não são capturadas na escala analisada, o que pode influenciar a precisão das estimativas e a generalização dos resultados para níveis mais detalhados.
Além disso, a especificação do modelo considera apenas duas variáveis climáticas, a temperatura média da safra e a precipitação acumulada, não incorporando outros fatores potencialmente relevantes. Variáveis como eventos extremos, a exemplo de ondas de calor e estiagens severas, a variabilidade intra-safra, a umidade do solo, a radiação solar, a adoção tecnológica e o investimento em insumos, podem ter um papel significativo na produtividade e não foram explicitamente controladas, o que pode limitar a abrangência das interpretações.
Outro ponto relevante refere-se à possível presença de uma tendência temporal associada a ganhos tecnológicos. O aumento observado no rendimento da soja, por exemplo, pode refletir o progresso genético, a mecanização e a intensificação produtiva, fatores que não foram explicitamente controlados no modelo. Adicionalmente, a análise assume uma relação linear entre clima e rendimento, o que pode simplificar respostas fisiológicas que frequentemente apresentam comportamento não linear, potencialmente subestimando ou superestimando certos impactos.
Por fim, destaca-se que o período analisado, de 2006 a 2023, representa uma janela temporal relativamente curta quando considerada a dinâmica climática de longo prazo. Essa limitação pode impedir a captura integral de efeitos acumulativos das mudanças climáticas, que se manifestam ao longo de décadas. Apesar dessas limitações, os resultados obtidos permitem identificar padrões diferenciados de sensibilidade climática entre culturas, contribuindo para a compreensão da resiliência produtiva em distintos contextos regionais e oferecendo subsídios para futuras pesquisas.
Em síntese, este estudo permitiu avaliar, de forma integrada, os efeitos observados das mudanças climáticas sobre a dinâmica territorial e o desempenho produtivo das culturas de soja, milho e arroz nos estados da Bahia, Mato Grosso e Rio Grande do Sul. Os resultados demonstraram que a expansão agrícola foi expressiva entre 2000 e 2024, com a soja como principal vetor de transformação do uso da terra, inclusive sobre áreas de vegetação nativa. No âmbito produtivo, verificou-se que os efeitos climáticos não se manifestaram de forma homogênea entre as culturas, com a soja apresentando maior capacidade de adaptação, o milho sensibilidade moderada e o arroz revelando alta vulnerabilidade térmica e hídrica, respondendo de forma diferenciada ao objetivo de verificar a homogeneidade dos impactos climáticos.
4. Conclusão
O presente estudo buscou analisar de forma integrada a dinâmica de uso e cobertura da terra, a evolução produtiva e a relação estatística entre variáveis climáticas observadas e o rendimento agrícola das culturas de soja, milho e arroz nos estados do Mato Grosso, Bahia e Rio Grande do Sul. Verificou-se uma expansão significativa das áreas agrícolas entre 2000 e 2024, com a soja consolidando-se como o principal vetor de transformação territorial, inclusive sobre áreas de vegetação nativa, especialmente no Mato Grosso e na Bahia. No âmbito produtivo, os resultados demonstraram que o aumento térmico observado no período recente não se refletiu em perdas significativas para o rendimento da soja, sugerindo uma elevada capacidade adaptativa do sistema produtivo dessa cultura. Em contraste, o milho exibiu sensibilidade climática intermediária, enquanto o arroz revelou forte vulnerabilidade térmica e dependência da precipitação para seu desempenho. Esses achados evidenciam que os impactos climáticos não se manifestaram de forma homogênea entre as culturas, fornecendo subsídios cruciais para a compreensão da resiliência e vulnerabilidade da agricultura brasileira frente às mudanças climáticas.
A heterogeneidade nas respostas das culturas sublinha que a adaptação da agricultura brasileira às mudanças climáticas é fortemente condicionada por fatores tecnológicos, fisiológicos e regionais, reforçando a necessidade de estratégias diferenciadas. Embora o estudo contribua para a compreensão desses padrões, reconhece-se limitações como a agregação dos dados em escala estadual, que pode mascarar variabilidades intrarregionais de solo e manejo. Adicionalmente, a análise considerou um número restrito de variáveis climáticas e não controlou explicitamente fatores como eventos extremos, variabilidade intra-safra ou ganhos tecnológicos, que podem influenciar a produtividade. O período analisado, de 2006 a 2023, também representa uma janela temporal relativamente curta para capturar efeitos climáticos de longo prazo. Contudo, os resultados obtidos são valiosos para direcionar futuras pesquisas que aprofundem a investigação em escalas mais detalhadas e com modelos mais abrangentes, além de subsidiar o fortalecimento da pesquisa agroclimática, o aprimoramento do zoneamento agrícola de risco climático e o incentivo à inovação tecnológica para promover a sustentabilidade produtiva e a segurança alimentar.
Referências Bibliográficas
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Lobell, D. B., Schlenker, W., & Costa-Roberts, J. (2011). Climate trends and global crop production since 1980. Science, 333(6042), 616-620.
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Schlenker, W., & Roberts, M. J. (2009). Nonlinear temperature effects indicate severe damages to U.S. crop yields under climate change. Proceedings of the National Academy of Sciences, 106(37), 15594–15598.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq
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