Artigo

28 de julho de 2026

Cenários econômicos de agricultura regenerativa em fazendas típicas brasileiras produtoras de grãos

Danilo Martins Menegatti; Nayara Barbosa da Cruz

DOI: 10.22167/2675-6528-202600702

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

O conceito de agricultura regenerativa, embora amplamente discutido como alternativa sustentável para a produção agrícola, carece de consenso sobre as práticas que o definem e seus impactos financeiros. Este estudo objetivou identificar as práticas mais adequadas ao cenário produtivo de grãos brasileiro e estimar o impacto econômico de sua adoção. Utilizaram-se painéis de custos de três fazendas típicas produtoras de grãos, localizadas em Sorriso (MT), Cascavel (PR) e Carazinho (RS), fornecidos por uma empresa de inteligência de mercados. A metodologia baseou-se na criação de cenários comparativos mediante a substituição de defensivos químicos por bioinsumos e a adoção de culturas de cobertura na rotação. Nos defensivos, as fazendas do Sul apresentaram reduções de custos entre 7% e 12%, enquanto no Mato Grosso observou-se um pequeno acréscimo. Todas as fazendas registraram melhorias na classificação de perigo ambiental dos defensivos utilizados. Quanto às culturas de cobertura, o custo caixa médio foi estimado em 285 R$/ha, com benefícios associados à maior eficiência no uso de nitrogênio e vantagens de médio prazo, como melhoria da saúde do solo e supressão de pragas e daninhas. Os resultados indicaram que a viabilidade econômica das práticas regenerativas variou conforme a região e o tipo de intervenção, com retornos mais imediatos na substituição de defensivos no Sul e benefícios de médio prazo associados às culturas de cobertura em todas as regiões. O estudo contribuiu para a compreensão dos impactos financeiros dessas práticas em sistemas de grãos brasileiros.

Palavras-chave: Agricultura regenerativa; Bioinsumos; Culturas de cobertura; Custo de produção; Viabilidade econômica.

1. Introdução

A atividade agrícola ocupa uma posição singular e complexa no contexto das mudanças climáticas globais. Por um lado, ela contribui significativamente para a emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE), com os sistemas agroalimentares sendo responsáveis por aproximadamente um terço das emissões globais (FAO, 2024). Por outro lado, a agricultura figura entre as atividades mais vulneráveis aos impactos climáticos. Anomalias de temperatura e a crescente ocorrência de eventos extremos, como secas prolongadas e chuvas intensas, exercem um impacto negativo direto sobre a produtividade agrícola, comprometendo a segurança alimentar e a estabilidade econômica dos produtores (Reyer et al., 2013).

Em resposta a esses desafios ambientais e produtivos, o conceito de agricultura regenerativa emergiu como uma alternativa sustentável. Embora práticas de manejo do solo, água e nutrientes visando a resiliência sejam documentadas há séculos, foi na década de 1980 que tais práticas começaram a ser sistematizadas sob o conceito de agricultura regenerativa, inicialmente proposto pelo Rodale Institute (Giller et al., 2021). Nas décadas seguintes, o termo consolidou-se no meio acadêmico e técnico, refletindo uma mudança de paradigma na produção agrícola. A partir de 2015, com a assinatura do Acordo de Paris, observou-se um crescimento expressivo no uso do termo na literatura científica, evidenciando o aumento do interesse global por estratégias agrícolas de baixo carbono e de restauração ecológica.

A agricultura regenerativa pode ser amplamente definida como um modelo alternativo de produção agrícola que busca minimizar ou até reverter os impactos ambientais negativos, em contraste com os sistemas convencionais (Newton et al., 2020). No entanto, os autores ressaltam a ausência de consenso conceitual sobre quais práticas efetivamente compõem esse modelo. Essa diversidade de interpretações ocorre porque muitos estudos definem o termo com base nos resultados almejados, como aumento de sequestro de carbono ou melhora na qualidade do solo, enquanto outros focam em um conjunto específico de práticas. Ainda assim, a literatura especializada frequentemente cita entre suas principais práticas a redução do preparo do solo, o uso de culturas de cobertura, a rotação de cultivos e a diminuição do uso de insumos químicos e sintéticos.

A falta de uma definição padronizada e operacional do conceito de agricultura regenerativa constitui um desafio para sua implementação em políticas públicas, dificultando o estabelecimento de critérios objetivos para monitoramento e financiamento. Como resultado, observa-se que, diante de instabilidades econômicas ou financeiras, muitos produtores abandonam práticas sustentáveis pela ausência de incentivos consistentes e de longo prazo (Goswami et al., 2017). Essa lacuna na compreensão e no suporte financeiro é um entrave significativo para a transição em larga escala.

Entre os principais desafios práticos para a implementação de práticas regenerativas nos sistemas agrícolas, destacam-se os impactos diretos sobre os custos de produção e a possível variação na produtividade dos cultivos. Na produção convencional de soja no estado do Mato Grosso, por exemplo, o custo caixa, que engloba insumos, combustíveis, serviços de terceiros e mão de obra, representou 52% do custo total na safra 2025/26 (IMEA, 2025). Essa categoria de custos é particularmente sensível às mudanças provocadas pela adoção de práticas alternativas. Há também o receio de redução da produtividade durante e após a adaptação para sistemas agrícolas regenerativos, especialmente nos primeiros anos de transição, caso as alterações no uso de fertilizantes, defensivos e corretivos, e no preparo do solo, não sejam bem planejadas, comprometendo a viabilidade econômica da atividade.

Diante desse cenário, torna-se fundamental realizar análises econômicas e financeiras capazes de mensurar o impacto da adoção de práticas regenerativas, considerando as especificidades produtivas e regionais de cada sistema agrícola brasileiro. Tais informações são essenciais para subsidiar decisões estratégicas dos produtores rurais e incentivar a adoção sustentável e duradoura desse modelo de agricultura. Assim, o presente trabalho teve como objetivo identificar as práticas de agricultura regenerativa aplicáveis ao contexto brasileiro de produção de grãos e quantificar os impactos financeiros decorrentes da adoção de algumas dessas práticas em fazendas típicas brasileiras.

2. Material e Métodos

A pesquisa caracterizou-se como aplicada, descritiva e de abordagem quali-quantitativa, com delineamento baseado em estudo de caso comparativo e simulação de cenários econômicos. O objetivo foi avaliar os cenários econômicos da agricultura regenerativa em contraste com sistemas convencionais, utilizando dados de fazendas típicas brasileiras de grãos. Os resultados derivaram de simulações baseadas em dados secundários e parâmetros técnicos da literatura, sem experimentos de campo (Gil, 2008; Yin, 2015).

A unidade de análise consistiu em painéis de custos de três fazendas típicas produtoras de grãos, localizadas em Sorriso (MT), Cascavel (PR) e Carazinho (RS). Essas fazendas foram selecionadas por representarem modelos de produção de soja, milho e trigo em três dos principais estados produtores do Brasil. Os dados, referentes à safra 2024/2025, foram obtidos de uma empresa de inteligência de mercados agropecuários.

Os dados foram disponibilizados em arquivos Microsoft Access e exportados para planilhas Microsoft Excel. Cada planilha detalhava individualmente as operações de campo, incluindo maquinário, insumos aplicados, período de realização e custo da operação. Essa base de dados permitiu a construção de cenários comparativos.

Para a criação dos cenários, realizou-se uma revisão de literatura para identificar práticas de agricultura regenerativa aplicáveis ao contexto brasileiro de grãos (Newton et al., 2020; Moyer et al., 2020). O trabalho concentrou-se na introdução de culturas de cobertura e na substituição de defensivos químicos por biológicos. A seleção dessas práticas baseou-se na disponibilidade de dados quantificáveis e na aplicabilidade prática regional, com validação agronômica de consultores técnicos (Lima Filho et al., 2023).

Para a redução de insumos químicos, estabeleceram-se três cenários com o auxílio de um especialista: Original (defensivos atuais), Conservador (substituição moderada de químicos por biológicos de alta eficácia e baixo risco) e Progressivo (substituição intensificada, com maior risco de perda de produtividade). Para as culturas de cobertura, definiram-se dois cenários: Original (rotação atual) e Progressivo (implementação de culturas de cobertura em janelas de pousio, como aveia-preta no Sul e consórcio de milho safrinha com <i>Brachiaria ruziziensis</i> no MT).

Os custos das operações de cultivo das culturas de cobertura, como semeio e terminação com rolo-faca, foram estimados. Utilizaram-se indicadores técnicos dos painéis de custos da empresa de inteligência de mercados, complementados por valores externos de revendedores de sementes regionais e da Fundação ABC (2024) para custos de operação de maquinário.

Para a comparação econômica, analisaram-se indicadores como custo caixa, produtividade, receita bruta e rentabilidade a curto prazo (receita bruta menos custo caixa). O impacto ambiental dos biológicos foi mensurado pela metodologia do IBAMA (1996), que classifica pesticidas em classes de periculosidade. Para culturas de cobertura, considerou-se também a depreciação e a rentabilidade de médio prazo (receita bruta menos custo caixa e depreciação).

Os cenários foram organizados em planilhas Microsoft Excel para a comparação econômica. A produtividade foi inicialmente mantida estável, e posteriormente calculou-se a produtividade de equilíbrio. Esta indicou o quanto a produtividade poderia oscilar para manter os níveis de rentabilidade originais, sendo representada pela fórmula PE = PO – (PO x (RO+CCN)/(RBN-1)), onde PE é produtividade de equilíbrio, PO é produtividade original, RO é rentabilidade original, CCN é custo caixa novo e RBN é receita bruta nova.

3. Resultados e Discussão

A análise inicial dos sistemas de produção de grãos revelou que os insumos químicos representam, em média, 25% do custo caixa das fazendas típicas estudadas, evidenciando a sensibilidade econômica dessas operações a variações nos gastos com defensivos. Este panorama sublinha a importância de explorar alternativas que possam mitigar tanto os custos quanto os impactos ambientais. Todas as fazendas apresentaram rentabilidade de curto prazo positiva no cenário original, com destaque para a unidade localizada no Paraná, que demonstrou maior retorno econômico por hectare, atribuído a uma combinação eficiente de estrutura de custos, níveis de produtividade e diversificação produtiva, incluindo o cultivo de trigo na rotação.

No cenário conservador, que propôs uma substituição moderada de insumos químicos por biológicos com baixo risco de perda de produtividade, observaram-se comportamentos distintos entre as regiões. Na fazenda de Sorriso (MT), o custo com defensivos aumentou discretamente em 0,7%, resultando em uma pequena redução de 0,5% na rentabilidade de curto prazo. Este acréscimo foi influenciado pela alta utilização de produtos de amplo espectro, como clorantraniliprole, lambda-cialotrina e tiametoxam, que limitaram a substituição de inseticidas, e pelos baixos preços unitários dos fungicidas químicos, tornando o tratamento proposto ligeiramente mais custoso do que o original (Fontes e Valadares-Inglis, 2020).

Em contraste, as fazendas do Sul do Brasil, em Cascavel (PR) e Carazinho (RS), apresentaram reduções significativas nos custos com defensivos no cenário conservador. A fazenda do Paraná registrou uma diminuição de 10,2% nos custos de defensivos e um aumento de 4,6% na rentabilidade, enquanto a fazenda do Rio Grande do Sul obteve uma redução de 7,1% nos custos e um expressivo aumento de 13,6% na rentabilidade. Essas melhorias foram impulsionadas pela substituição de fungicidas de gerações anteriores, cuja eficácia no controle de ferrugem havia sido reduzida, e pela remoção de inseticidas de alto custo unitário, permitindo um manejo mais abrangente e economicamente vantajoso.

O cenário progressivo intensificou as tendências observadas no cenário conservador, buscando uma maior participação de produtos biológicos, embora com potenciais “trade-offs” na eficácia do controle de pragas e doenças. Na fazenda do Mato Grosso, o custo com defensivos aumentou 1,2%, e a rentabilidade de curto prazo diminuiu 0,9%. Esta elevação de custos deveu-se à remoção de neonicotinoides e piretroides, eficazes contra o percevejo-marrom (Euschistus heros) na soja, mas com severos impactos ambientais, especialmente sobre abelhas (Dennis; Gibbs, 2025). A alternativa com o fungo Beauveria bassiana, embora mais lenta, exigiu doses maiores para melhor performance, elevando o custo.

As fazendas do Paraná e Rio Grande do Sul, no cenário progressivo, continuaram a apresentar reduções nos custos com defensivos e aumentos na rentabilidade. A fazenda do Paraná registrou uma redução de 11,8% nos custos de defensivos e um aumento de 5,4% na rentabilidade. No Rio Grande do Sul, os custos com defensivos diminuíram 8,0%, e a rentabilidade aumentou 15,4%. Essas mudanças incluíram a substituição de neonicotinoides e piretroides por Beauveria bassiana na soja e carbamatos por baculovírus no milho no Paraná, e a remoção de diamida de alto residual no milho no Rio Grande do Sul, compensada por uma aplicação extra do mesmo baculovírus.

Contudo, a transição do cenário conservador para o progressivo demonstrou um impacto econômico menos acentuado do que a mudança do cenário original para o conservador. A variação no custo com defensivos entre o tratamento conservador e o progressivo foi de apenas 1,6 pontos percentuais no Paraná e 0,9 pontos percentuais no Rio Grande do Sul. Essa observação sugere que o baixo incentivo financeiro para substituições mais agressivas de produtos químicos de amplo espectro pode representar uma barreira à adoção de tratamentos mais biológicos, especialmente para produtores que temem a ineficácia no controle de pragas e a consequente queda na produtividade.

Em relação ao impacto ambiental, avaliado pela classificação de periculosidade do IBAMA, os tratamentos originais apresentaram uma prevalência de defensivos de classe II (muito perigoso), e nas fazendas do Mato Grosso e Paraná, mais de 25% dos defensivos eram de classe I (altamente perigoso). Os cenários propostos, tanto conservador quanto progressivo, foram eficazes na introdução de defensivos de classe IV (pouco perigoso ao meio ambiente), resultando em reduções consideráveis na participação de produtos de classe III (perigoso) e, em menor escala, de classe II. No entanto, a participação de produtos de classe I permaneceu majoritariamente inalterada, devido à natureza de longo residual e amplo espectro desses inseticidas, que dificultam a substituição biológica.

As médias de periculosidade ambiental por tratamento e fazenda corroboram essa análise. A fazenda do Mato Grosso (BR1300MT) apresentou as maiores variações, com um acréscimo de 0,31 pontos na classe de periculosidade no cenário conservador e 0,54 pontos no progressivo, em comparação ao original de 1,83. As fazendas do Sul, BR65PR e BR250RS, também mostraram aumentos nas médias de periculosidade, passando de 1,75 para 2,17 e de 2,23 para 2,55, respectivamente, nos cenários progressivos. Apesar das melhorias na introdução de produtos menos perigosos, a persistência de inseticidas e fungicidas químicos de alto impacto ambiental ainda é notável, mantendo as médias de periculosidade próximas à classe II (muito perigoso).

A análise da produtividade de equilíbrio revelou que, para as fazendas do Paraná e Rio Grande do Sul, os novos tratamentos resultariam em uma redução de custos que permitiria reduções na produtividade de seus cultivos entre 1,51% e 2,04% sem comprometer a rentabilidade original. Isso é particularmente relevante para o tratamento progressivo, onde especialistas técnicos alertaram sobre potenciais riscos no controle de pragas e doenças. No entanto, para a fazenda do Mato Grosso, o aumento no custo do tratamento com biológicos implicou que a produtividade de equilíbrio dos cenários conservador e progressivo (0,12% e 0,21%, respectivamente) seria, na verdade, superior à originalmente observada, indicando a necessidade de ganhos de produtividade para manter os níveis de rentabilidade.

Introdução das culturas de cobertura

A introdução de culturas de cobertura buscou ocupar os períodos de pousio nos calendários de rotação originais das fazendas, visando manter o solo coberto sem interferir nas culturas comerciais, conforme preconizado por Newton et al. (2020). Para as fazendas do Sul (Paraná e Rio Grande do Sul), a aveia-preta (Avena strigosa Schreb) foi a espécie adotada, enquanto para a fazenda do Mato Grosso, optou-se pelo consórcio de milho safrinha com Brachiaria ruziziensis. Este consórcio envolve a semeadura sequencial da cultura de cobertura durante o desenvolvimento inicial da cultura comercial, seguida de sua manutenção após a colheita.

Os custos associados à implementação das culturas de cobertura foram detalhados, considerando as operações de semeio e terminação. Os custos totais de semeio por hectare foram de 311 R$/ha para o Rio Grande do Sul, 308 R$/ha para o Paraná e 333 R$/ha para o Mato Grosso. Estes valores incluem sementes, combustível, mão de obra, depreciação e reparos. Os custos de terminação por hectare foram de 76 R$/ha para o Rio Grande do Sul, 79 R$/ha para o Paraná e 112 R$/ha para o Mato Grosso. O custo total por hectare para a implementação das culturas de cobertura foi de 387 R$/ha nas fazendas do Sul e 445 R$/ha no Mato Grosso.

Considerando que algumas áreas não foram semeadas com culturas de cobertura, o custo caixa médio para a implementação dessas práticas nas fazendas típicas analisadas foi estimado em 285 R$/ha. Os acréscimos absolutos de custos caixa foram de 364 R$/ha (4,2%) para o Mato Grosso, 282 R$/ha (2,8%) para o Paraná e 209 R$/ha (1,6%) para o Rio Grande do Sul. Consequentemente, a rentabilidade de curto prazo apresentou reduções de 13,4% para o Mato Grosso, 4,5% para o Paraná e 13,0% para o Rio Grande do Sul.

A depreciação do maquinário e implementos, ajustada pela área coberta pelas novas operações, totalizou um acréscimo médio de 44,9 R$/ha. Especificamente, o Mato Grosso registrou um acréscimo de 80,8 R$/ha (8,2%), o Paraná 31,1 R$/ha (1%) e o Rio Grande do Sul 22,8 R$/ha (1,1%). O maior impacto no Mato Grosso deve-se à utilização de maquinário mais potente e à ocupação de 100% da área com plantas de cobertura nas janelas de pousio. A inclusão da depreciação na rentabilidade de médio prazo resultou em reduções de 445,1 R$/ha (26%) no Mato Grosso, 313 R$/ha (10%) no Paraná e 229,5 R$/ha (69%) no Rio Grande do Sul. A alta redução percentual no Rio Grande do Sul é explicada pelo fato de sua rentabilidade de médio prazo original já ser negativa, indicando uma situação financeira desfavorável mesmo antes da inclusão dos custos ocultos.

Apesar dos custos iniciais, a adoção de culturas de cobertura oferece benefícios significativos a médio e longo prazo. Para a região Sul, estima-se uma redução de 60 a 120 kg/ha de nitrogênio na cultura do milho, o que, considerando o custo médio de 4,5 R$/kg de nitrogênio na fazenda do Rio Grande do Sul, pode gerar uma economia de 270 a 540 R$/ha (Lima Filho et al., 2023). No Paraná, o sistema intercalado com culturas de cobertura pode economizar cerca de 79 kg N/ha/ano e aumentar a produtividade do milho em 0,6 a 0,9 toneladas por hectare em um horizonte de oito safras (Pott et al., 2024), resultando em potenciais economias de 435 R$/ha em fertilizantes e um acréscimo de 10% na produtividade.

Para o Mato Grosso, estudos indicam um acréscimo de 14% na produtividade de soja em rotações que incluem milho safrinha consorciado com Brachiaria ruziziensis, elevando a produtividade para 3,83 toneladas de soja em comparação com as 3,36 toneladas do cenário atual (Souza et al., 2025). Além disso, o consórcio no Mato Grosso pode reduzir a pegada de carbono em 28% em comparação com o pousio. Outros benefícios incluem a melhora na saúde biológica do solo, com um aumento de 15% no índice de saúde do solo após anos de culturas de cobertura integradas à produção (Souza et al., 2025), e a supressão de pragas e plantas daninhas, devido ao efeito alelopático da aveia-preta e ao controle de nematoides por outras culturas de cobertura (LaCanne e Lundgren, 2018; Lima Filho et al., 2023).

Em síntese, os resultados demonstram que a viabilidade econômica das práticas regenerativas varia significativamente conforme a região e o tipo de intervenção. A substituição de defensivos químicos por biológicos no Sul do Brasil apresentou retornos financeiros mais imediatos, com reduções de custos e aumentos de rentabilidade, enquanto no Mato Grosso, essa transição resultou em pequenos acréscimos de custo. A adoção de culturas de cobertura, embora implique custos caixa e depreciação adicionais que impactam negativamente a rentabilidade de curto e médio prazo em todas as regiões, oferece benefícios substanciais a médio e longo prazo, como maior eficiência no uso de nitrogênio, aumento de produtividade, melhoria da saúde do solo e supressão de pragas e daninhas. Esses achados fornecem uma base crucial para a compreensão dos impactos financeiros da agricultura regenerativa em sistemas de grãos brasileiros, destacando a necessidade de considerar as especificidades regionais e os horizontes temporais dos benefícios ao planejar a transição.

4. Conclusão

O presente estudo objetivou identificar as práticas de agricultura regenerativa aplicáveis ao contexto brasileiro de produção de grãos e quantificar os impactos financeiros decorrentes de sua adoção em fazendas típicas. Verificou-se que a viabilidade econômica das práticas regenerativas variou significativamente conforme a região e o tipo de intervenção. A substituição de defensivos químicos por biológicos nas fazendas do Sul do Brasil (Paraná e Rio Grande do Sul) resultou em reduções de custos entre 7% e 12% e aumentos na rentabilidade de curto prazo, enquanto na fazenda do Mato Grosso observou-se um pequeno acréscimo nos custos e uma leve redução na rentabilidade. Em todas as fazendas, registrou-se melhoria na classificação de perigo ambiental dos defensivos utilizados. A adoção de culturas de cobertura implicou um custo caixa médio de 285 R$/ha, impactando negativamente a rentabilidade de curto e médio prazo em todas as regiões. Contudo, foram identificados benefícios substanciais a médio e longo prazo, como maior eficiência no uso de nitrogênio, potenciais aumentos de produtividade, melhoria da saúde do solo e supressão de pragas e daninhas.

A principal contribuição deste trabalho reside na compreensão dos impactos financeiros da agricultura regenerativa em sistemas de grãos brasileiros, fornecendo uma base para o planejamento de transições produtivas que considerem as especificidades regionais e os horizontes temporais dos benefícios. Como limitações, destaca-se o viés econômico da análise, com impactos agronômicos estimados a partir de experimentos de campo, e a limitação temporal, que considerou apenas um ano nos indicadores. Para estudos futuros, sugere-se a contemplação de um período mais amplo para eliminar peculiaridades de anos específicos quanto a preços, produtividade e custos. Ademais, estudos mais dedicados aos impactos agronômicos dessas práticas complementariam os achados, eliminando a necessidade de consultas externas para valores de referência.

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq

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