Artigo

23 de julho de 2026

Barreiras da comunicação remota em projetos de engenharia civil

Camila Barbosa Lins; Beatriz Cristina de Freitas

DOI: 10.22167/2675-6528-202600637

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A comunicação desempenha um papel crítico na integração e desempenho de projetos de engenharia civil, setor caracterizado por alta interdependência entre disciplinas e necessidade de validação técnica contínua. O estudo objetivou analisar as principais barreiras da comunicação remota em projetos de engenharia civil e avaliar seus impactos sobre prazo, custo e qualidade das entregas. Conduziu-se um estudo de caso aplicado, com abordagem quali-quantitativa, que utilizou um *survey* com escala Likert e questões abertas. Os dados foram analisados por estatística descritiva, categorização temática, Diagrama de Ishikawa, 5W2H e um modelo conceitual. Os resultados indicaram que, embora os meios remotos promovessem alinhamento de expectativas e as ferramentas digitais fossem consideradas adequadas, houve dificuldades na compreensão de mensagens e impacto negativo da ausência presencial no engajamento da equipe. Constatou-se a ocorrência de retrabalho, atrasos nas entregas e impactos na qualidade ou custo devido a falhas comunicacionais, além de risco de perda de informação. As principais barreiras identificadas foram a falta de clareza e detalhamento das informações, a troca insuficiente de dados e os atrasos nas respostas e no alinhamento em tempo real. Concluiu-se que a comunicação remota em projetos de engenharia civil, apesar de funcional para viabilizar as entregas, apresenta fragilidades estruturais que demandam governança comunicacional para mitigar riscos e assegurar o desempenho em prazo, custo e qualidade.

Palavras-chave: Comunicação remota; Desempenho organizacional; Governança comunicacional; Integração multidisciplinar; Riscos operacionais.

1. Introdução

A complexidade crescente dos projetos de engenharia civil, caracterizada pela integração multidisciplinar, pelo alto grau de especialização técnica e pela pressão por cumprimento de prazos, tem ampliado a relevância da comunicação como um elemento estratégico para o desempenho organizacional. Nesse cenário, a comunicação transcende a mera troca de informações, assumindo um papel estruturante na coordenação técnica e no alinhamento de escopo (van Zoonen et al., 2025).

Com a consolidação do trabalho remoto e híbrido, intensificada pela digitalização organizacional, a comunicação em projetos de engenharia civil passou a ocorrer predominantemente por meio de plataformas virtuais. Ferramentas de videoconferência, sistemas colaborativos e aplicativos de mensagens tornaram-se os meios centrais de interação entre equipes geograficamente distribuídas (Ding et al., 2024).

Embora essas tecnologias ampliem a flexibilidade operacional, a mediação digital altera a dinâmica comunicacional. Ela reduz as pistas contextuais, a informalidade e o feedback imediato, fatores tradicionalmente importantes para a resolução rápida de conflitos técnicos (Ferguson et al., 2023).

Projetos de engenharia civil dependem intrinsecamente de precisão semântica e clareza técnica. Pequenas ambiguidades em especificações, critérios normativos ou premissas de cálculo podem gerar incompatibilidades entre disciplinas e desencadear retrabalho. Em ambientes remotos, a fragmentação de mensagens entre múltiplos canais e a ausência de validações síncronas podem ampliar a probabilidade de interpretações divergentes (Dong et al., 2025).

As falhas comunicacionais estão entre as principais causas de insucesso em empreendimentos complexos, frequentemente associadas a atrasos no cronograma e ao aumento de custos (PMI, 2021). Sob a perspectiva da gestão de projetos, a comunicação é reconhecida como uma área de conhecimento essencial, responsável por assegurar que informações relevantes sejam geradas, distribuídas, armazenadas e recuperadas adequadamente ao longo do ciclo de vida do projeto (Wernicke et al., 2021).

A ausência de um plano de comunicação estruturado, a falta de definição de responsabilidades e a carência de mecanismos formais de registro tendem a aumentar a variabilidade no fluxo informacional, comprometendo a integração entre os diversos stakeholders. Em projetos remotos, a padronização de canais e a formalização de decisões tornam-se ainda mais críticas.

O uso simultâneo de múltiplas plataformas, sem governança definida, pode gerar dispersão informacional e a perda de histórico técnico. A rastreabilidade documental e o controle de versões são especialmente relevantes na engenharia civil, onde as decisões de projeto impactam diretamente a segurança estrutural, a conformidade normativa e a viabilidade econômica (Suortti et al., 2023).

Além disso, a comunicação remota influencia dimensões comportamentais das equipes. A redução da interação presencial pode afetar o engajamento, a confiança interpessoal e a coesão técnica. Em projetos interdependentes, nos quais as decisões de uma disciplina impactam diretamente outra, a ausência de alinhamento contínuo pode comprometer a integração multidisciplinar e aumentar a exposição a riscos operacionais (Verdugo et al., 2024).

A maturidade organizacional em gestão de projetos também desempenha um papel determinante na eficácia comunicacional. Organizações com processos formalizados, protocolos definidos e uma cultura de documentação tendem a apresentar maior capacidade de adaptação ao modelo remoto. Em contrapartida, ambientes com forte dependência de interações informais podem enfrentar dificuldades quando a comunicação passa a ocorrer predominantemente em meio digital (Shin et al., 2025).

Nesse contexto, a comunicação remota em projetos de engenharia civil deve ser analisada não apenas como uma ferramenta operacional, mas como uma dimensão estratégica da governança do projeto. A integração entre clareza informacional, sincronicidade nas respostas, padronização de canais e registro formal configura elementos estruturantes para a mitigação de riscos comunicacionais, como retrabalho, atrasos e desalinhamento técnico.

Diante desse cenário, torna-se necessário compreender de forma sistemática quais barreiras organizacionais influenciam a eficácia da comunicação remota em projetos de engenharia civil e de que maneira essas barreiras impactam o desempenho do projeto. Apesar dos avanços na literatura sobre comunicação em projetos e trabalho remoto, observa-se uma lacuna na integração entre esses dois campos no contexto específico de projetos de engenharia civil, especialmente no que se refere à identificação estruturada das barreiras organizacionais da comunicação remota e sua relação direta com o desempenho em termos de prazo, custo e qualidade. Assim, o presente estudo teve como objetivo analisar as principais barreiras da comunicação remota em projetos de engenharia civil e avaliar seus impactos sobre prazo, custo e qualidade das entregas.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa de natureza aplicada, com o propósito de gerar conhecimento voltado à solução de problemas práticos relacionados à gestão da comunicação em ambientes remotos de projetos de engenharia civil (Gil, 2008). Adotou-se uma abordagem metodológica mista, combinando elementos quantitativos e qualitativos, conforme preconizado para estudos que buscam uma compreensão abrangente de fenômenos complexos (Creswell, 2014).

Quanto aos objetivos, a pesquisa foi de caráter descritivo e exploratório. O aspecto descritivo visou identificar e organizar as principais barreiras comunicacionais percebidas pelos profissionais, enquanto o caráter exploratório buscou aprofundar a compreensão das causas organizacionais associadas a retrabalho, atrasos, desalinhamento técnico e impactos na qualidade das entregas.

A estratégia de pesquisa empregada foi um levantamento de campo, utilizando um questionário estruturado como instrumento de coleta de dados (Dasović et al., 2020). Este procedimento permitiu coletar informações diretamente dos profissionais envolvidos em projetos de engenharia civil, capturando suas percepções e experiências sobre a comunicação remota.

A unidade de análise consistiu em profissionais atuantes em projetos de engenharia civil desenvolvidos em regime remoto e híbrido, abrangendo diferentes empresas do setor. A investigação envolveu equipes técnicas distribuídas geograficamente e integradas por meio de plataformas digitais colaborativas, refletindo o cenário contemporâneo da engenharia civil.

A população-alvo foi composta por profissionais de engenharia civil, incluindo engenheiros, analistas, coordenadores, projetistas BIM, técnicos de planejamento e gestores de projeto, com variados níveis de experiência e responsabilidades. A amostra foi do tipo não probabilística, intencional ou por julgamento, selecionando participantes com base em sua atuação direta em projetos remotos ou híbridos.

O questionário foi encaminhado a 80 profissionais elegíveis, e 50 respostas válidas foram obtidas, resultando em uma taxa de adesão de 62,5%. A escolha desse grupo visou garantir que as respostas refletissem percepções fundamentadas na rotina dos projetos e na dinâmica real da comunicação técnica.

O instrumento de coleta de dados foi um questionário estruturado, aplicado eletronicamente, que permaneceu aberto para coleta de janeiro a fevereiro de 2026. O questionário foi dividido em blocos temáticos, que incluíram o perfil do respondente, a efetividade da comunicação remota, os riscos e impactos comunicacionais, a avaliação geral do modelo remoto, a identificação das principais barreiras e sugestões de melhoria.

As afirmações avaliativas foram mensuradas por meio de uma escala Likert de quatro pontos, variando de 1 (Discordo totalmente) a 4 (Concordo totalmente). Além das questões fechadas, o questionário incluiu questões abertas para capturar percepções mais detalhadas dos participantes.

Antes da aplicação definitiva, o questionário foi submetido a um pré-teste com três participantes do público-alvo. Essa etapa visou avaliar a clareza, a compreensão das questões e a adequação ao contexto dos projetos de engenharia civil, resultando em ajustes para aprimorar a precisão terminológica e a organização lógica dos blocos temáticos.

A divulgação do questionário ocorreu por meio de grupos profissionais no aplicativo WhatsApp e foi compartilhada com contatos da área por intermédio da rede LinkedIn. Essa estratégia permitiu alcançar participantes inseridos em múltiplos contextos organizacionais, ampliando a diversidade funcional e hierárquica da amostra. O acesso aos respondentes ocorreu de forma voluntária, mediante convite digital contendo link para o formulário eletrônico.

Após o encerramento da coleta, os dados foram organizados para análise quantitativa e qualitativa. A análise quantitativa foi conduzida por meio de estatística descritiva, com apresentação dos resultados em valores absolutos e percentuais. Para a elaboração de gráficos, utilizou-se o software GraphPad Prisma, versão 10.2.

Para as questões abertas, realizou-se uma análise qualitativa por categorização temática. As respostas foram lidas integralmente e submetidas a um processo de codificação manual, no qual unidades de sentido foram identificadas e agrupadas conforme similaridade semântica. Em seguida, essas unidades foram organizadas em categorias temáticas representativas, considerando a recorrência dos conteúdos e a proximidade conceitual entre as respostas.

Com base nessa categorização, elaborou-se um gráfico do tipo radar para representar a intensidade relativa das categorias identificadas. A porcentagem de intensidade foi calculada considerando a razão entre o número de menções atribuídas a cada categoria e o total de menções identificadas nas respostas abertas, multiplicada por 100.

Adicionalmente, foram empregadas outras técnicas de análise. O Diagrama de Causa e Efeito (Ishikawa) foi elaborado a partir da análise integrada dos resultados obtidos no questionário, examinando as percepções predominantes relacionadas à efetividade da comunicação remota e aos riscos comunicacionais (Kumah et al., 2024).

A análise 5W2H foi desenvolvida com base nas causas identificadas no Diagrama de Causa e Efeito, convertendo-as em ações organizacionais específicas e estruturadas (Cioffi et al., 2022). Por fim, desenvolveu-se um modelo conceitual da comunicação remota e desempenho em projetos de engenharia civil, por abordagem indutiva e integrativa, organizando as variáveis identificadas em níveis distintos: contexto operacional, dimensões estruturantes da comunicação, mecanismos de governança e variáveis de desempenho.

Em relação aos cuidados éticos, a pesquisa não foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP/CONEP), por se enquadrar nas disposições da Resolução CNS nº 510, de 7 de abril de 2016, que regulamenta as pesquisas em Ciências Humanas e Sociais no Brasil. Os dados foram coletados sem informações pessoais identificáveis, tratados de forma agregada e analisados exclusivamente para fins acadêmicos, garantindo o anonimato e a confidencialidade das informações. Todos os participantes foram devidamente informados sobre os objetivos da pesquisa e manifestaram concordância em participar por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

3. Resultados e Discussão

A análise dos dados coletados revelou um panorama detalhado sobre as barreiras da comunicação remota em projetos de engenharia civil e seus impactos no desempenho. Inicialmente, o perfil dos respondentes indicou uma amostra composta majoritariamente por profissionais em fase de consolidação de carreira, com idade entre 25 e 34 anos, seguida por aqueles entre 35 e 44 anos. Essa distribuição etária sugere que os participantes possuem experiência técnica consolidada e estão inseridos nas dinâmicas contemporâneas de trabalho digital, o que confere robustez às suas percepções sobre a comunicação em ambientes remotos. A ausência de participação de profissionais acima de 55 anos pode indicar uma menor representatividade desse grupo em projetos remotos ou uma menor adesão à pesquisa.

No que tange ao gênero, a pesquisa identificou um equilíbrio entre profissionais masculinos e femininos, um achado notável no setor de engenharia civil, tradicionalmente dominado por homens. Essa maior equidade pode sinalizar uma mudança no perfil da força de trabalho ou uma crescente participação feminina em funções de gestão e coordenação de projetos. Em um contexto de comunicação remota, a diversidade de gênero e funcional tende a exigir maior clareza comunicacional e sensibilidade intercultural, especialmente porque as nuances não verbais são reduzidas em interações digitais (van Zoonen et al., 2021). A amostra também apresentou uma diversidade de cargos, incluindo engenheiros (20%), analistas (16%), coordenadores (16%), técnicos (12%), projetistas BIM (8%), executivos (8%) e outros (20%).

Essa heterogeneidade funcional é um fator que amplifica a complexidade comunicacional em ambientes remotos. Projetos de engenharia civil são intrinsecamente interdisciplinares, demandando integração contínua entre áreas técnicas como planejamento, custos, modelagem e gestão. Quando essa integração ocorre à distância, barreiras como ruídos na interpretação de informações técnicas, dificuldades na validação de decisões e atrasos no alinhamento de escopo tornam-se mais evidentes. A redução da comunicação informal, que frequentemente facilita a resolução rápida de conflitos, também se manifesta como um desafio (Dong et al., 2025).

A presença de diferentes níveis hierárquicos na amostra sugere que a percepção das barreiras comunicacionais pode variar conforme a posição ocupada no projeto. Profissionais em funções operacionais tendem a relatar dificuldades relacionadas à clareza das instruções e ao acesso à informação, enquanto coordenadores e líderes podem identificar barreiras ligadas ao engajamento da equipe, monitoramento de desempenho e alinhamento estratégico (Ferguson et al., 2023). Portanto, o perfil dos respondentes não apenas caracteriza a amostra, mas também fundamenta a interpretação dos resultados subsequentes, indicando que as barreiras identificadas não se devem à resistência tecnológica, mas sim a questões organizacionais e processuais.

Efetividade da comunicação remota

Os resultados da pesquisa indicaram uma predominância de concordância quanto à capacidade dos meios remotos de promover o alinhamento de expectativas, com 92% dos respondentes afirmando essa percepção. Esse achado sugere que os canais digitais, como reuniões virtuais, mensagens instantâneas e plataformas colaborativas, são eficazes em sustentar o fluxo formal de coordenação do projeto. Tal constatação é consistente com estudos recentes que apontam a capacidade de ferramentas síncronas e assíncronas em manter a coordenação de tarefas, a definição de responsabilidades e o acompanhamento de entregas em ambientes distribuídos (Shin et al., 2025).

Contudo, apesar da percepção positiva sobre o alinhamento, 64% dos respondentes relataram dificuldades na compreensão de mensagens ou instruções no ambiente remoto. Esse resultado revela uma tensão importante: embora o projeto possa estar formalmente coordenado, ruídos interpretativos ainda ocorrem. Em engenharia civil, a precisão semântica é crucial para especificações técnicas, premissas de cálculo e critérios normativos. Qualquer ambiguidade pode gerar retrabalho ou desalinhamento entre as disciplinas (Nestsiarovich et al., 2020), o que transforma as falhas comunicacionais em gatilhos para incertezas operacionais e aumento de custos.

A distinção entre alinhamento formal e compreensão efetiva das informações é um ponto relevante. Embora as ferramentas digitais facilitem a coordenação estrutural, a interpretação compartilhada de conteúdos técnicos permanece vulnerável a ambiguidades, especialmente em ambientes multidisciplinares. A redução de pistas não verbais, a fragmentação de mensagens entre múltiplos canais e a sobrecarga informacional aumentam o esforço cognitivo dos profissionais, impactando a clareza e o entendimento compartilhado (van Zoonen et al., 2025). Assim, o desafio não reside apenas na existência da ferramenta, mas na qualidade estrutural das mensagens e na padronização comunicacional.

A pesquisa também revelou uma percepção dividida quanto ao impacto da ausência presencial no engajamento da equipe, com uma tendência relevante de reconhecimento de efeito negativo por 56% dos participantes. O teletrabalho e a comunicação organizacional indicam que interações presenciais contribuem para a construção de confiança, coesão social e fortalecimento de vínculos interpessoais. A comunicação informal, muitas vezes subestimada, funciona como um mecanismo de ajuste fino nas equipes, reduzindo conflitos ocultos e facilitando a colaboração espontânea (Nestsiarovich et al., 2020).

Em projetos de engenharia civil, onde as decisões são interdependentes e o erro de uma disciplina impacta diretamente outra, a redução de interações informais pode enfraquecer o senso de pertencimento e a proatividade coletiva. O ambiente remoto tende a tornar a comunicação mais transacional e menos relacional, o que pode comprometer o engajamento de médio e longo prazo. A avaliação das ferramentas digitais utilizadas, como Teams, Zoom e WhatsApp, demonstrou uma percepção predominantemente positiva quanto à sua adequação às necessidades do projeto, com 85% dos respondentes concordando com sua funcionalidade.

Esse resultado reforça que a infraestrutura tecnológica, por si só, não constitui a principal barreira. As plataformas digitais são amplamente capazes de substituir funções operacionais do contato presencial, especialmente em atividades de coordenação, monitoramento e troca de arquivos (Wuersch et al., 2024). No entanto, a eficácia dessas ferramentas depende de uma governança comunicacional estruturada. O uso simultâneo de múltiplos canais sem padronização pode gerar dispersão informacional, decisões não registradas formalmente e dificuldade de rastreabilidade, aumentando o risco de retrabalho e conflitos técnicos. Assim, o desafio identificado nos resultados é predominantemente organizacional, e não tecnológico.

Riscos e impactos da comunicação remota

A maioria dos respondentes indicou concordância com a ocorrência de retrabalhos atribuídos à comunicação remota, com 74% dos participantes afirmando essa realidade. Esse achado aponta para um padrão comum em projetos complexos: quando a troca de informações entre disciplinas técnicas não é clara ou completa, tarefas precisam ser refeitas, consumindo tempo e recursos. A comunicação remota intensifica esse efeito ao reduzir o contexto e as nuances que estariam disponíveis em diálogos presenciais, aumentando a chance de interpretações divergentes. Essa característica é consistente com a necessidade de maior esforço para coordenação e coesão em ambientes distribuídos (Wuersch et al., 2024).

Observou-se também uma clara tendência de associação entre comunicação remota e atrasos nos cronogramas, com 72% dos participantes relatando essa ocorrência. Em projetos de engenharia civil, atrasos não são eventos isolados; frequentemente estão interligados a falhas de integração entre equipes, decisões de projeto mal comunicadas ou expectativas desalinhadas entre stakeholders. A redução da interação face a face pode dificultar a resolução rápida de questões e aumentar as barreiras de coordenação entre áreas, fatores que impactam diretamente prazos e cronogramas de entrega em projetos complexos (Dong et al., 2025).

Muitos respondentes, 62% deles, reconheceram que falhas de comunicação remota tiveram efeitos adversos sobre a qualidade e o custo dos projetos. Isso reflete um risco crítico: a informação técnica não transmitida, verificada ou compreendida adequadamente pode gerar erros que se propagam por fases subsequentes, desde a modelagem BIM até a execução de campo, resultando em custos adicionais para correção e ajustes. Projetos de engenharia civil exigem precisão e coerência nas especificações, e a incapacidade de capturar nuances técnicas ou feedback imediato pode comprometer o desempenho e a conformidade de custos, um padrão recorrente em análises de risco de projetos com comunicação dispersa (Radujković et al., 2017).

A percepção de risco associada ao volume excessivo de mensagens e à multiplicidade de plataformas foi um ponto de destaque, com 70% dos respondentes identificando essa questão. Embora as ferramentas digitais facilitem a comunicação, a fragmentação de canais pode dispersar conteúdos essenciais, levando à perda de contexto ou informações importantes que não são capturadas formalmente em um sistema unificado. Decisões ou esclarecimentos que ficam apenas em chats, grupos informais ou “threads” assíncronas, sem um registro oficial consistente, representam um risco significativo para o controle de qualidade e o histórico de tomadas de decisão do projeto (Ding et al., 2024).

A avaliação de práticas mitigadoras revelou uma adoção parcial de rotinas formais de controle da comunicação, com apenas 64% dos respondentes reconhecendo a existência dessas práticas. O uso de atas, checklists e fóruns estruturados de revisão pode reduzir ruídos e criar um registro auditável de decisões e responsabilidades. No entanto, a distribuição das respostas sugere que essas práticas não são universalmente instituídas ou uniformemente eficazes (Estublier et al., 2005). Isso indica lacunas na forma como as equipes organizam e monitoram a comunicação remota, o que explica a persistência de riscos como retrabalho, atrasos e perda de informação, mesmo com ferramentas tecnológicas disponíveis.

Uma implantação consistente de práticas formais de comunicação é um dos pilares da gestão de riscos em projetos. Ao identificar, documentar e monitorar incertezas comunicacionais, a equipe fortalece sua capacidade de resposta e diminui impactos negativos ao escopo, custo e prazo do projeto (Elseknidy et al., 2024). As respostas referentes à oferta de treinamentos apresentaram maior dispersão, revelando que muitas organizações ainda não investem sistematicamente na capacitação de suas equipes para enfrentar os desafios comunicacionais específicos do trabalho remoto. A ausência de formação estruturada para aprimorar habilidades de comunicação digital pode tornar os profissionais mais vulneráveis a riscos comunicacionais.

Avaliação geral e percepções da comunicação remota

As respostas dos participantes demonstraram uma percepção predominantemente crítica quanto ao impacto da comunicação remota sobre a qualidade das entregas. Embora não haja consenso absoluto, observou-se uma inclinação relevante para reconhecer que a modalidade remota interfere negativamente no padrão final dos produtos do projeto. Em projetos de engenharia civil, a qualidade está diretamente associada à precisão técnica, conformidade normativa, compatibilização entre disciplinas e atendimento aos requisitos do cliente. A comunicação remota pode comprometer esses aspectos ao reduzir a riqueza contextual da interação, dificultar esclarecimentos imediatos e limitar a interpretação de nuances técnicas complexas (Dong et al., 2025).

A ausência de interação presencial tende a tornar a comunicação mais objetiva e fragmentada, o que pode ser suficiente para tarefas operacionais, mas insuficiente para discussões estratégicas ou resolução de problemas multidisciplinares. Ambientes distribuídos exigem maior estruturação comunicacional para manter o mesmo nível de qualidade obtido em contextos presenciais. Quando essa estrutura não está plenamente consolidada, os impactos tendem a emergir na forma de retrabalhos, ajustes tardios e desalinhamentos técnicos, o que reforça a percepção captada nas respostas (Ferguson et al., 2023).

Apesar das barreiras identificadas, muitos profissionais reconhecem que a comunicação remota é suficiente para garantir o sucesso do projeto, revelando uma percepção mais equilibrada e até relativamente otimista. Esse resultado aponta para uma distinção importante entre qualidade ideal e viabilidade operacional. A comunicação remota pode não ser considerada perfeita ou plenamente equivalente ao presencial, mas ainda é vista como funcional o suficiente para permitir que os objetivos do projeto sejam alcançados (Suortti et al., 2023). Os achados indicam que as barreiras observadas não decorrem da limitação das ferramentas digitais disponíveis, mas da ausência de governança comunicacional estruturada, sugerindo que o desafio é predominantemente organizacional e processual, e não tecnológico.

Essa percepção indica uma maturidade adaptativa das equipes, que conseguem ajustar seus processos, compensar limitações e manter entregas dentro dos parâmetros aceitáveis de escopo, prazo e custo. O sucesso do projeto, portanto, não depende exclusivamente da ausência de barreiras comunicacionais, mas da capacidade do time de administrá-las. Essa percepção também sugere que a comunicação remota já está integrada à rotina organizacional, não sendo mais tratada como solução emergencial, mas como modelo consolidado de trabalho (van Zoonen et al., 2025). Contudo, ser “suficiente” não significa ser “otimizada”, havendo espaço para melhoria em protocolos, padronização de mensagens e governança dos canais.

Classificação das Principais Barreiras da Comunicação Remota

A análise das principais barreiras que afetam a comunicação remota em projetos de engenharia civil, conforme a relevância atribuída pelos respondentes, destacou a falta de clareza e detalhamento nas informações compartilhadas como o principal obstáculo. Um total de 26 respondentes classificou essa barreira com a pontuação máxima de relevância (4). Esse resultado evidencia que o problema central não é a inexistência de canais de comunicação, mas a insuficiência na estruturação das mensagens. Em projetos de engenharia civil, onde decisões técnicas dependem de especificações precisas e critérios bem definidos, qualquer ambiguidade pode comprometer compatibilizações, validações e o sequenciamento de atividades. A limitação do meio digital em transmitir nuances contextuais pode ampliar esse efeito quando não há padronização comunicacional (Suortti et al., 2023).

Em seguida, a troca insuficiente de informações e os atrasos nas respostas ou dificuldades de alinhamento em tempo real apareceram com elevada relevância, com 23 e 21 respondentes, respectivamente, atribuindo a pontuação máxima. Esses dois fatores indicam um desafio típico do ambiente remoto: a fragmentação da comunicação. A ausência de sincronicidade imediata e a dependência de múltiplos canais podem reduzir a fluidez das interações, impactando principalmente atividades que exigem coordenação multidisciplinar. Em projetos de engenharia civil, decisões frequentemente dependem de validação rápida entre áreas técnicas, planejamento e custos; quando esse fluxo é retardado, há um efeito cumulativo no cronograma.

A falta de engajamento da equipe também surgiu como barreira relevante, com 21 respondentes classificando-a com a pontuação máxima. Isso sugere que o impacto da comunicação remota ultrapassa a dimensão técnica e alcança o campo relacional. O engajamento influencia diretamente a proatividade, a disposição para esclarecer dúvidas e o comprometimento com as entregas. Ambientes remotos tendem a tornar as interações mais transacionais e menos colaborativas, o que pode enfraquecer a dinâmica da equipe se não houver estratégias deliberadas para fortalecer a coesão. A dificuldade na validação remota e no retorno sobre entregas técnicas foi classificada com a pontuação máxima por 18 respondentes, reforçando que o processo de feedback é mais sensível no ambiente digital.

Em atividades técnicas complexas, a validação não envolve apenas aprovação formal, mas discussão interpretativa, ajustes incrementais e esclarecimento de critérios. A mediação tecnológica pode tornar esse processo mais lento ou menos claro quando não há rituais estruturados de revisão. Por fim, a ausência de reuniões presenciais foi percebida como barreira, mas com menor intensidade comparativa, com 16 respondentes atribuindo a pontuação máxima. Isso sugere que o problema não está na modalidade remota em si, mas na forma como a comunicação é conduzida dentro desse modelo. A presença física, embora relevante para fortalecer vínculos e facilitar interações espontâneas, não é vista como fator isolado determinante para a qualidade comunicacional.

Os fatores relacionados ao planejamento e à padronização comunicacional assumem maior destaque, indicando que os desafios não estão necessariamente vinculados à ausência de ferramentas ou à impossibilidade do trabalho remoto, mas à falta de processos consolidados para organizar o fluxo de informações. Quando não há definição clara de protocolos, canais oficiais, responsáveis pelo registro e critérios de validação, a comunicação tende a se tornar difusa, aumentando a probabilidade de ruídos e retrabalhos. As barreiras associadas a atrasos nas respostas também aparecem com relevância significativa, sugerindo que a sincronicidade representa um ponto sensível no ambiente remoto. Em projetos de engenharia civil, muitas decisões dependem de validações rápidas entre áreas técnicas, e a demora no retorno compromete o sequenciamento de atividades, gerando efeitos em cadeia no cronograma.

Aspectos relacionados à clareza de informações e desalinhamento entre equipes também se destacam, revelando que a compreensão compartilhada do escopo, dos requisitos técnicos e das premissas do projeto permanece como desafio central. A troca de mensagens complexas sem interação presencial pode ampliar interpretações divergentes, especialmente em contextos multidisciplinares. As barreiras vinculadas ao registro histórico, à validação remota e ao engajamento da equipe aparecem com intensidade mais moderada, mas não desprezível. A ausência de documentação formal ou de consolidação das decisões pode dificultar a rastreabilidade e o aprendizado organizacional. Da mesma forma, a validação técnica à distância exige maior rigor metodológico, uma vez que a interação não ocorre no mesmo ambiente físico de execução.

Organizações com maior maturidade em gestão de projetos tendem a apresentar menor variabilidade comunicacional, pois a existência de planos formais de comunicação, protocolos de registro e rotinas de validação reduz a dependência de interações informais. As sugestões para aprimorar a comunicação remota em projetos de engenharia civil destacam a predominância de recomendações relacionadas à padronização de canais e processos. Essa concentração indica que a principal demanda das equipes é por governança comunicacional, ou seja, a definição clara de onde as informações devem ser registradas, quais plataformas devem ser utilizadas para cada finalidade e como as decisões devem ser formalizadas. A dispersão de mensagens em múltiplos canais sem critérios objetivos é percebida como um fator gerador de ruído e retrabalho.

As recomendações voltadas à realização de reuniões frequentes também aparecem com relevância expressiva, demonstrando a necessidade de rituais estruturados de alinhamento, como reuniões de “kickoff”, “dailies” e “checkpoints” semanais, além de momentos formais de validação. A recorrência dessas sugestões reforça que a previsibilidade comunicacional reduz incertezas e aumenta a sensação de controle sobre o andamento do projeto. Outro eixo relevante envolve a documentação formal e o registro de decisões. A ênfase em atas, relatórios padronizados e bibliotecas atualizadas evidencia uma preocupação com a rastreabilidade e o histórico das informações. Em projetos, onde decisões técnicas impactam diretamente custo, prazo e qualidade, a ausência de registro formal pode comprometer não apenas a execução, mas também a atribuição de responsabilidades e o aprendizado organizacional.

Sugestões relacionadas à adoção de ferramenta única ou centralização de arquivos em plataforma colaborativa também aparecem, ainda que com menor intensidade comparativa. Isso indica que a tecnologia é vista como suporte necessário, mas não suficiente. A centralização é percebida como meio de reduzir a dispersão informacional, porém sua eficácia depende de regras claras de uso. Por fim, aspectos relacionados ao engajamento, cultura organizacional e treinamentos aparecem de forma complementar. A presença dessas sugestões indica que os respondentes reconhecem que a melhoria da comunicação remota exige também desenvolvimento comportamental e capacitação, não se tratando apenas de estruturar fluxos, mas de fortalecer o comprometimento, a proatividade e a clareza nas interações.

Análise de causa-raiz das barreiras na comunicação remota

A análise de causa-raiz, utilizando o Diagrama de Ishikawa, identificou o impacto da comunicação remota no desempenho dos projetos como problema central, manifestado por retrabalho, atrasos, desalinhamento técnico e riscos à qualidade. A primeira dimensão de causas identificada refere-se aos fatores humanos, nos quais se observou que parte significativa das dificuldades comunicacionais está associada a aspectos comportamentais, como falta de engajamento, baixo comprometimento e demora nas respostas. Em ambientes remotos, a autonomia individual torna-se mais relevante, exigindo disciplina, clareza e responsabilidade na troca de informações. A ausência de interação presencial reduz mecanismos informais de controle e alinhamento, o que pode favorecer respostas tardias ou pouco estruturadas. Assim, a eficácia da comunicação, embora mediada digitalmente, depende do nível de comprometimento dos envolvidos, revelando fragilidades culturais que impactam o fluxo informacional e a coesão da equipe.

A segunda dimensão, relacionada aos processos, mostrou-se estruturalmente mais crítica. As respostas indicaram ausência de padronização comunicacional, falta de definição clara dos canais oficiais e insuficiência de registro formal das decisões. A comunicação ocorre de forma fragmentada e sem governança consistente. Em projetos de engenharia civil, caracterizados por alta interdependência técnica, a ausência de protocolos claros para formalização de decisões e validações amplia o risco de interpretações divergentes e retrabalho. A inexistência de rotinas sistemáticas de alinhamento e documentação compromete a rastreabilidade das informações, reduzindo a confiabilidade do histórico do projeto. Nesse sentido, a fragilidade processual emerge como causa central das barreiras identificadas.

A dimensão tecnológica, embora menos dominante, também contribui para a compreensão do problema. O uso simultâneo de múltiplas plataformas sem integração estruturada favorece a dispersão informacional e a perda de contexto. Não se trata de insuficiência tecnológica, mas de ausência de uma arquitetura organizacional que defina claramente onde e como as informações devem ser armazenadas e acessadas. A descentralização excessiva de arquivos e mensagens pode dificultar a consolidação do conhecimento técnico e gerar insegurança quanto à versão correta dos documentos. Dessa forma, a tecnologia aparece como fator contributivo quando não está alinhada a processos bem definidos.

Sobretudo, a dimensão gerencial evidencia causas de natureza estratégica. A ausência de treinamentos específicos em comunicação remota e a falta de políticas formais de governança comunicacional indicam que o tema ainda não foi plenamente institucionalizado como competência organizacional. Quando a comunicação depende exclusivamente de iniciativas individuais, sem diretrizes claras estabelecidas pela gestão, há maior variabilidade na qualidade das interações. Além disso, a inexistência de indicadores ou métricas que monitorem a efetividade comunicacional dificulta a identificação precoce de falhas sistêmicas. O modelo conceitual proposto contribui para estruturar a comunicação remota como um sistema organizacional, no qual dimensões como clareza informacional, sincronicidade e padronização de canais atuam como mecanismos estruturantes para redução de riscos comunicacionais e melhoria do desempenho do projeto.</p>

Análise 5W2H – Plano de melhoria da comunicação remota em projetos de engenharia civil

A análise estruturada pela metodologia 5W2H demonstrou que as barreiras identificadas na comunicação remota em projetos de engenharia civil possuem natureza predominantemente organizacional e processual. Para mitigar essas barreiras, propõe-se a implantação de um Protocolo Formal de Comunicação Remota estruturado em quatro frentes: padronização de canais por finalidade, obrigatoriedade de registro formal de decisões técnicas, definição de um Acordo de Nível de Serviço (SLA) interno de tempo de resposta e implantação de uma rotina de validação técnica interdisciplinar antes das mudanças de fase do projeto. Essas ações são justificadas pela ocorrência de retrabalho, atrasos no cronograma e impactos na qualidade, associados à falta de clareza nas informações, atrasos nas respostas e ausência de padronização. A predominância de profissionais familiarizados com ferramentas digitais na amostra reforça que a causa não é tecnológica, mas estrutural e processual.

O protocolo deve ser aplicado em projetos de engenharia civil com integração entre disciplinas, especialmente nas fases de compatibilização técnica, revisões de escopo e validação de entregas intermediárias. Sua implementação deve ocorrer a partir da fase de iniciação ou planejamento do projeto, integrando-se ao Plano de Comunicação e ao Plano de Gerenciamento do Projeto, com monitoramento mensal e revisão trimestral de indicadores comunicacionais. Os responsáveis incluem o Gerente de Projeto, Coordenadores Técnicos, o PMO, a Equipe Técnica e o RH. A implementação será realizada por meio da definição formal de canais para cada tipo de comunicação, implantação obrigatória de atas digitais com responsáveis e prazos, estabelecimento de tempo máximo de resposta para decisões técnicas críticas, uso de checklists de validação interdisciplinar, centralização documental com controle de versão único e treinamento focado em clareza semântica, objetividade técnica e registro estruturado.

Os custos associados a essa proposta são moderados, relacionados principalmente à capacitação e ao tempo dedicado às rotinas formais. O retorno esperado inclui a redução de retrabalho técnico, a diminuição de atrasos acumulativos e a melhoria da qualidade geral do projeto. Os resultados do estudo mostram que, embora a infraestrutura tecnológica seja considerada adequada e a comunicação seja percebida como funcional para viabilizar o sucesso do projeto, persistem fragilidades que impactam a qualidade, o prazo e a eficiência operacional. A proposta sistematizada não surge como mera formalização de boas práticas, mas como resposta direta aos riscos empíricos observados, deslocando o foco da tecnologia para a maturidade da gestão da comunicação.

Modelo Conceitual da Comunicação Remota e Desempenho em Projetos de Engenharia civil

O modelo conceitual proposto organiza a comunicação remota em projetos de engenharia civil em níveis analíticos, permitindo compreender seu funcionamento como um contexto estrutural que condiciona o desempenho. No nível de contexto, a comunicação remota é definida como o ambiente operacional no qual o projeto é conduzido, estabelecendo as condições estruturais da interação entre equipes. As dimensões estruturantes incluem a clareza informacional, que se refere à qualidade semântica e ao detalhamento técnico das mensagens, com impacto esperado na redução de ambiguidades e retrabalho. A sincronicidade, outra dimensão estruturante, abrange o tempo de resposta e a agilidade na validação técnica, visando a redução de atrasos e gargalos decisórios.

A governança comunicacional atua como um mecanismo moderador, organizando responsabilidades, protocolos e indicadores. Seu papel é fundamental para promover estabilidade e previsibilidade comunicacional. Como resultado intermediário, o modelo prevê a redução de riscos comunicacionais, mitigando retrabalho, atrasos e desalinhamento técnico, o que leva a uma maior eficiência operacional. Finalmente, o desempenho do projeto é o resultado final, impactando consolidado sobre prazo, custo e qualidade, e resultando na melhoria da performance global do projeto. Esse modelo evidencia que o ambiente remoto modifica a dinâmica das interações, reduzindo elementos informais e ampliando a dependência de registros formais e clareza textual. O desempenho do projeto não decorre diretamente da adoção do modelo remoto, mas da forma como suas dimensões estruturantes são organizadas e gerenciadas.

O modelo também evidencia que a governança comunicacional desempenha um papel moderador crucial. A existência de protocolos, responsabilidades definidas e indicadores de acompanhamento estabiliza a dinâmica comunicacional, reduzindo a variabilidade decorrente de comportamentos individuais. Sem essa estrutura, a comunicação tende a ocorrer de forma reativa e fragmentada, ampliando a probabilidade de retrabalho e desalinhamento técnico. A governança, portanto, transforma a comunicação de prática informal em um sistema gerenciável. A redução de riscos comunicacionais surge como resultado intermediário, indicando que o fortalecimento das dimensões estruturantes impacta diretamente a mitigação de falhas típicas do ambiente remoto, como atrasos, perda de informação e inconsistências técnicas. Esses riscos, quando não controlados, produzem efeitos cumulativos no cronograma e no custo do projeto. Assim, o modelo demonstra uma cadeia lógica em que a qualidade da comunicação influencia o nível de risco, que por sua vez afeta o desempenho final.

No nível mais amplo, o desempenho do projeto, expresso em prazo, custo e qualidade, aparece como consequência sistêmica da maturidade comunicacional. A comunicação remota não compromete necessariamente os resultados, mas exige maior intencionalidade organizacional. Quando estruturada por meio de clareza, sincronicidade, padronização e governança, ela pode sustentar níveis adequados de integração multidisciplinar e previsibilidade operacional. Em síntese, os resultados da pesquisa indicam que, embora a comunicação remota em projetos de engenharia civil seja funcional para viabilizar as entregas, ela apresenta fragilidades estruturais que demandam uma governança comunicacional robusta para mitigar riscos e assegurar o desempenho em prazo, custo e qualidade, respondendo diretamente ao objetivo do estudo.

4. Conclusão

O presente estudo buscou analisar as principais barreiras da comunicação remota em projetos de engenharia civil e avaliar seus impactos sobre prazo, custo e qualidade das entregas. Verificou-se que, embora os meios remotos promovessem o alinhamento de expectativas e as ferramentas digitais fossem consideradas adequadas, persistiram dificuldades na compreensão de mensagens e um impacto negativo da ausência presencial no engajamento da equipe. Identificou-se a ocorrência de retrabalho, atrasos nas entregas e impactos na qualidade ou custo devido a falhas comunicacionais, além de um risco de perda de informação. As barreiras mais relevantes foram a falta de clareza e detalhamento das informações, a troca insuficiente de dados e os atrasos nas respostas e no alinhamento em tempo real. Observou-se que essas fragilidades não decorrem de limitações tecnológicas, mas de questões organizacionais e processuais.

A principal contribuição do estudo reside na proposição de um Protocolo Formal de Comunicação Remota, detalhado por meio da análise 5W2H, e de um modelo conceitual que estrutura a comunicação remota como um sistema organizacional. Esses elementos oferecem uma base gerencial para mitigar riscos e assegurar o desempenho em prazo, custo e qualidade. Contudo, a pesquisa apresentou limitações, como a ausência de dados objetivos de desempenho (métricas reais de atraso ou retrabalho), o tamanho e a composição da amostra, e a não segmentação dos resultados por porte da empresa ou tipo de empreendimento. Não se diferenciou explicitamente projetos totalmente remotos de híbridos, o que pode gerar variações nas percepções. Sugere-se para estudos futuros a realização de investigações quantitativas com métricas objetivas de desempenho para avaliar estatisticamente a relação entre maturidade comunicacional e indicadores de projeto. Pesquisas comparativas entre diferentes arranjos de trabalho (presencial, híbrido, remoto) e a análise da influência de um PMO estruturado na mitigação das barreiras comunicacionais também podem aprofundar a compreensão do tema.

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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