28 de julho de 2026
Avaliação Comparativa dos Métodos de Saída do Valuation Aplicado à NVIDIA Corporation
Diego Andrade Andalecio; Robson Queiroz Pereira
DOI: 10.22167/2675-6528-202600723
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A avaliação econômica de empresas de tecnologia de alto crescimento, como a NVIDIA Corporation, exige a aplicação de métodos de valuation robustos para determinar seu valor intrínseco. O estudo objetivou avaliar o valor econômico da NVIDIA Corporation por meio do modelo de Fluxo de Caixa Descontado (FCD), comparando os métodos de valor terminal por perpetuidade e por múltiplos de mercado (EV/EBITDA). A pesquisa, de natureza aplicada, descritiva e comparativa, utilizou dados secundários da empresa. Para tanto, projetaram-se os fluxos de caixa e estimaram-se o Custo Médio Ponderado de Capital (WACC), o Custo de Capital Próprio (Ke) e o Custo da Dívida (Kd). A determinação do valor terminal comparou os métodos de perpetuidade e de múltiplos (EV/EBITDA). Os resultados indicaram que o método da perpetuidade gerou um valor por ação de $168,04, influenciado por um WACC de 12,2% e um Risk Free Rate de 4%. Em contraste, o método de múltiplos (EV/EBITDA) apontou $133,02 por ação, com um múltiplo implícito de 5,6x, significativamente inferior à média setorial de 46,9x. Verificou-se uma diferença entre os valores estimados e a cotação de mercado, atribuída às expectativas de crescimento extraordinário precificadas pelos investidores. Concluiu-se que a análise de sensibilidade e a utilização conjunta de diferentes abordagens são essenciais para uma avaliação abrangente em setores de alta volatilidade e crescimento, como o de tecnologia.
Palavras-chave: EV/EBITDA; Fluxo de caixa descontado; Taxa de desconto; WACC.
1. Introdução
A avaliação de empresas constitui uma atividade fundamental para a tomada de decisões estratégicas no ambiente corporativo e no mercado de capitais. Esta prática é transversal, aplicando-se desde os estágios iniciais de uma companhia, quando há a intenção de captar recursos junto a investidores de venture capital ou private equity, até a sua maturidade, orientando, por exemplo, o preço das ações em ofertas públicas iniciais (Damodaran, 2012).
O valor de mercado de uma empresa, conforme Assaf Neto (2017), representa o ponto de equilíbrio entre as expectativas de compradores e vendedores em uma transação. Contudo, devido às imperfeições inerentes ao mercado, esse valor pode divergir significativamente das estimativas obtidas por meio de métodos de avaliação. Tais métodos servem como uma referência crucial para negociações, delimitando um intervalo de valor entre a disposição máxima de um comprador e a exigência mínima de um vendedor. As motivações para a compra ou venda de uma empresa são diversas, incluindo dificuldades financeiras, necessidade de desalavancagem após expansões, estratégias de captação de recursos, conflitos societários ou questões sucessórias, além de perspectivas de crescimento e interesse de investidores institucionais (Assaf Neto, 2017).
A literatura especializada apresenta distintas abordagens para o valuation, cada qual com suas hipóteses, limitações e propósitos específicos. O método do fluxo de caixa descontado (FDC), por exemplo, baseia-se na premissa de que o valor de um ativo é o valor presente dos fluxos de caixa futuros que ele é capaz de gerar (Wickert e Serra, 2019). Em contraste, a abordagem por múltiplos emprega métricas relativas, como Preço/Lucro (P/L) e Valor da Empresa/EBITDA (EV/EBITDA), facilitando a comparação com empresas similares, o que se mostra particularmente útil em mercados com assimetria de informação (Assaf Neto, 2017). Há também os métodos patrimoniais, que valorizam a estrutura de ativos da empresa, sendo mais aplicáveis a companhias com poucos ativos intangíveis ou em processos de liquidação (Koller et al., 2015).
Nas últimas décadas, o avanço de tecnologias disruptivas, como a inteligência artificial, os semicondutores e o machine learning, tem impulsionado transformações significativas no cenário corporativo. Esse progresso alterou as premissas tradicionais de crescimento e rentabilidade de muitas empresas, especialmente aquelas intensivas em capital intelectual e inovação. A NVIDIA Corporation emerge como um exemplo notável nesse contexto, reconhecida globalmente por sua liderança no desenvolvimento de hardware e software para inteligência artificial e processamento gráfico. A empresa tem demonstrado taxas de crescimento de receita superiores à média do setor, consolidando-se como um caso relevante de estudo.
Nesse cenário de rápido crescimento e inovação, o valuation assume um papel ainda mais crítico na tomada de decisões econômicas. Ele fornece uma referência essencial para analisar a relação entre o preço de mercado e as estimativas de valor baseadas em fluxo de caixa, risco e potencial de crescimento. A expansão da NVIDIA, acompanhada por um aumento expressivo nas expectativas do mercado, reflete-se em múltiplos de negociação que superam a média setorial. Esta combinação de crescimento robusto e valorização de mercado levanta questionamentos importantes sobre a adequação do valor de mercado atual da NVIDIA em relação ao seu valor intrínseco, bem como os impactos e barreiras enfrentados no processo de avaliação.
Diante deste panorama, o presente trabalho busca avaliar o valor econômico da NVIDIA Corporation por meio do modelo de Fluxo de Caixa Descontado (DCF), comparando dois métodos de cálculo de valor terminal: o método dos múltiplos de mercado (EV/EBITDA) e o método de perpetuidade, analisando os resultados gerados por essas abordagens na avaliação de empresas de tecnologia.
2. Material e Métodos
A pesquisa realizada caracterizou-se como de natureza aplicada, buscando gerar conhecimento prático para a avaliação de empresas. Quanto aos objetivos, o estudo foi de caráter descritivo e comparativo, visando analisar e confrontar os resultados obtidos por diferentes métodos de valuation. A abordagem metodológica adotada foi quantitativa, adequada para estudos que envolvem medições financeiras e comparação de indicadores numéricos (Martins e Theophilo, 2016).
O objeto empírico do estudo foi a NVIDIA Corporation, uma empresa de capital aberto com atuação no mercado de semicondutores e inteligência artificial. Os dados utilizados foram de natureza secundária, extraídos de relatórios anuais e demonstrações financeiras públicas da companhia, referentes aos períodos de 2021 a 2024. A coleta dessas informações ocorreu em julho de 2025, servindo como base para as projeções financeiras.
A primeira etapa metodológica consistiu no levantamento e análise dos dados financeiros históricos da NVIDIA Corporation. Posteriormente, realizou-se a projeção das principais contas do Demonstrativo de Resultado (DRE) e do Balanço Patrimonial para os anos de 2025 a 2030, além de um período terminal. As premissas para essas projeções foram estabelecidas com base nas práticas recomendadas por Koller et al. (2015), Damodaran (2012) e Assaf Neto (2017), considerando as características do setor de semicondutores.
Com as projeções financeiras concluídas, procedeu-se ao cálculo do Fluxo de Caixa Livre da Firma (FCFF). Este cálculo envolveu a desalavancagem dos fluxos de caixa projetados, removendo as considerações de dívida e alavancagem, para determinar o montante de dinheiro disponível para a empresa após o cumprimento de suas obrigações. O FCFF foi determinado a partir do Lucro antes de Impostos e Taxas (EBIT), ajustado pela taxa de imposto, depreciação, investimento em Capex e variação do capital de giro (Damodaran, 2002).
Para descontar os fluxos de caixa e trazê-los a valor presente, utilizou-se o Custo Médio Ponderado de Capital (WACC) como taxa de desconto, conforme indicado por Assaf (2017). O WACC foi calculado ponderando o custo do capital próprio (Ke) e o custo da dívida (Kd) na estrutura de capital da empresa, ajustado pelo benefício fiscal da dívida (Hitchner, 2003).
O custo do capital próprio (Ke) foi estimado utilizando o modelo Capital Asset Pricing Model (CAPM), amplamente aceito na prática de finanças corporativas (Assaf, 2017). Para este cálculo, foram considerados a taxa de juros livre de risco (Risk Free Rate), o prêmio de risco de mercado (Market Risk Premium) e o coeficiente beta (β) setorial, obtidos de bases de dados disponibilizadas por Damodaran (2025) e o Federal Reserve Bank (2025).
O custo da dívida (Kd) foi determinado após a dedução dos juros, considerando a taxa de juros livre de risco e um spread de risco. Este spread foi estabelecido com base no Interest Coverage Ratio (ICR) da companhia, que relaciona o Lucro antes de Juros e Impostos (EBIT) com as despesas de juros (Damodaran, 2002).
A determinação do valor terminal da empresa foi realizada por meio de dois métodos distintos para comparação. O primeiro foi o método da perpetuidade, que assume um crescimento constante dos fluxos de caixa após o período explícito de projeção, conhecido como Gordon Growth Terminal Value (Damodaran, 2002; Hitchner, 2003; Assaf, 2017).
O segundo método para o cálculo do valor terminal foi o de múltiplos de mercado, especificamente o EV/EBITDA. Esta abordagem utiliza um múltiplo de mercado para estimar o valor terminal da empresa, sendo uma métrica relativa que permite a comparação com empresas similares no setor (Damodaran, 2002; Hitchner, 2003; Corporate Finance Institute, 2025).
Após a determinação do valor da empresa (Enterprise Value) por ambos os métodos, procedeu-se ao cálculo do valor do patrimônio líquido (Equity Value), subtraindo as dívidas onerosas da companhia. Finalmente, o valor por ação (Equity per Share) foi obtido dividindo o Equity Value pelo número total de ações em circulação, incluindo as opções emitidas (Damodaran, 2002; Assaf, 2017).
Para avaliar a robustez do modelo e o impacto das premissas, realizou-se uma análise de sensibilidade. Esta análise focou nas variações do WACC e da taxa de crescimento terminal (g) para o método da perpetuidade, e nas variações do WACC e do múltiplo EV/EBITDA para o método de múltiplos (Brealey et al., 2013; Penman, 2010).
Os dados financeiros foram tratados conforme os princípios contábeis norte-americanos (US GAAP), sem conciliação ou conversão para normas brasileiras. Todos os valores foram mantidos em dólar, a moeda de reporte da empresa. Algumas contas foram agrupadas para fins de modelagem, distinguindo ativos operacionais e não operacionais, seguindo a metodologia de Koller et al. (2015).
3. Resultados e Discussão
A avaliação econômica da NVIDIA Corporation revelou uma complexa interação entre as premissas de crescimento, as taxas de desconto e as expectativas de mercado, conforme demonstrado pela aplicação do modelo de Fluxo de Caixa Descontado (FCD) e pela comparação entre os métodos de valor terminal por perpetuidade e por múltiplos de mercado (EV/EBITDA). Os resultados iniciais das projeções financeiras e a subsequente análise dos fluxos de caixa e do custo de capital ponderado médio (WACC) forneceram a base para as estimativas de valor por ação, evidenciando a sensibilidade do valuation às variáveis macroeconômicas e setoriais.
Projeção de fluxos explícitos e perpétuo
A projeção do Balanço Patrimonial e do Demonstrativo de Resultado do Exercício (DRE) para os períodos explícitos (2025 a 2030) e terminal indicou uma robusta expansão do ativo total da NVIDIA. Este crescimento foi impulsionado principalmente pelo aumento dos ativos circulantes, que passaram de 76% em 2025 para 94% em 2030, refletindo uma forte capacidade de geração de caixa. Em contraste, o ativo não circulante apresentou um crescimento mais lento, sugerindo que a expansão da empresa não demanda investimentos proporcionais em ativos fixos, uma característica comum em empresas de tecnologia com alta escalabilidade, conforme destacado por Koller et al. (2015).
No lado dos passivos, observou-se um crescimento moderado e uma baixa relevância do endividamento, o que contribuiu para a redução da alavancagem de longo prazo da companhia. Este cenário projetado aponta para um aumento do capital próprio na estrutura de capital da NVIDIA, decorrente da retenção de lucros, o que, por sua vez, diminui o risco financeiro e fortalece a capacidade de financiamento da empresa. A estrutura de capital, portanto, alinha-se a um modelo de negócio que prioriza a geração de valor por meio de recursos próprios, em consonância com a literatura de finanças corporativas.
A análise do Demonstrativo de Resultado do Exercício (DRE) revelou uma significativa alavancagem operacional, com a expansão do EBITDA e do lucro líquido. Isso indica que o crescimento da receita da NVIDIA é acompanhado por ganhos de eficiência e pela manutenção de margens elevadas. As despesas financeiras, por sua vez, mantiveram-se constantes ao longo do período projetado, reforçando a baixa alavancagem financeira da empresa. Essa consistência reflete a estratégia de gestão de dívida e a solidez financeira da companhia no cenário de mercado.
Em relação aos fluxos terminais, observou-se uma quebra intencional para uma taxa de crescimento estável (g) de 3%. Essa premissa foi adotada para garantir a consistência entre os períodos explícitos e de perpetuidade no valuation, alinhando-se às recomendações de Damodaran (2012) e Koller et al. (2015) sobre a convergência da taxa de crescimento para níveis compatíveis com o longo prazo da economia. Economicamente, a estrutura do patrimônio se mostrou coerente com o crescimento impulsionado pela inteligência artificial, que gera alta demanda por semicondutores.
A projeção dos valores atuais da NVIDIA é explicada pela forte expectativa de crescimento da empresa nos próximos anos, mesmo com o valor terminal exercendo um papel mais conservador no valuation. Este aspecto ressalta a sensibilidade do modelo às premissas de curto e médio prazo, o que é característico de empresas em rápida expansão. A menor exposição ao risco financeiro, em um cenário de juros elevados nos Estados Unidos (Treasury de 10 anos com 4% de juros), reforça a consistência das projeções, conforme a literatura de valuation.
Fluxo de Caixa Livre da Firma
A projeção do Fluxo de Caixa Livre da Firma (FCFF) para os anos de 2025 a 2030 e para o período terminal demonstrou a capacidade da NVIDIA de converter seu resultado operacional em caixa. Verificou-se um crescimento moderado do Capex e uma necessidade de capital de giro que, mesmo com aumento relevante no período terminal, foi proporcionalmente menor do que o Lucro Antes de Juros e Impostos (EBIT). Este cenário resultou em um fluxo de caixa livre mais elevado, o que se alinha com a literatura que destaca a eficiência de empresas com alta escalabilidade na conversão de caixa, especialmente quando a necessidade de reinvestimento é baixa (Damodaran, 2012).
Do ponto de vista econômico, a demanda crescente no setor de semicondutores, impulsionada pela inteligência artificial, permite à NVIDIA diluir custos fixos e obter ganhos operacionais significativos. O valor terminal do FCFF apresentou uma redução em comparação com o valor de 2030, o que se deve ao alinhamento com a normalização do crescimento para 3%, conforme as premissas do Balanço e DRE. Essa normalização reflete um ciclo de crescimento consistente com economias maduras, em linha com as observações de Greenwald et al. (2001) sobre a estabilização do crescimento.
Taxa de desconto e cálculo do WACC
A determinação da taxa de desconto, fundamental para o valuation por FCD, foi realizada por meio do cálculo do Custo Médio Ponderado de Capital (WACC). As premissas estabelecidas para o cálculo incluíram uma Taxa Livre de Risco (Rf) de 4,0%, um Prêmio de Risco de Mercado (MRP) de 5,5% e um Beta (β) de 1,49, este último obtido a partir de dados setoriais divulgados por Damodaran (2025) para o setor de semicondutores. A Taxa Livre de Risco foi baseada nos títulos do Tesouro dos Estados Unidos com vencimento em dez anos, conforme recomendado por Damodaran (2012) e Koller et al. (2015).
O custo do capital próprio (Ke) foi estimado em 12,2%, constituindo o principal componente do WACC. A estrutura de capital da NVIDIA mostrou-se fortemente concentrada em capital próprio, com um peso de 99,8% (We) para o patrimônio líquido e apenas 0,2% (Wd) para o capital de terceiros. Consequentemente, o custo da dívida (Kd), estimado em 2,4%, teve um impacto praticamente irrelevante sobre o WACC, que resultou em 12,2%, evidenciando a predominância do capital próprio na estrutura de financiamento da empresa.
A incorporação da taxa de inflação anual de 2,34%, conforme estimativas do Banco Central Americano (FED), foi realizada de forma implícita nas projeções de receita e custos, garantindo a coerência macroeconômica e financeira do modelo, como sugerido por Póvoa (2012). Este pressuposto considera a capacidade da empresa de repassar a inflação e manter suas margens, uma característica de companhias com forte posicionamento competitivo. A relevância dos fatores macroeconômicos, como o Risk Free Rate e o Market Risk Premium, para a determinação do WACC, foi confirmada, indicando seu alto impacto nos resultados do desconto dos fluxos de caixa.
Fluxo de caixa descontado – Método Perpetuidade
A aplicação do método de perpetuidade para o cálculo do valor terminal, conforme as diretrizes de Damodaran (2012), Koller et al. (2015) e Assaf Neto (2020), resultou em um valor da empresa de $4.100.216.000. Este valor foi obtido pela soma dos fluxos de caixa descontados dos períodos explícitos e do valor terminal, descontados pelo WACC de 12,2%. Para chegar ao valor por ação, deduziram-se as dívidas onerosas do valor da empresa, resultando em um Equity Value de $4.091.753.000. A divisão deste valor pela quantidade de ações em circulação (24,350 bilhões) gerou um valor por ação de $168,04.
A comparação do valor por ação de $168,04, obtido pelo método da perpetuidade, com a cotação de mercado de $189,11 (Investing, 2025), indicou que o método, embora consistente na captura da geração de caixa de longo prazo, tende a refletir um cenário mais conservador. Damodaran (2012) ressalta que o mercado frequentemente incorpora expectativas implícitas de crescimento superiores às projetadas em modelos fundamentalistas. A diferença observada sugere que o mercado precifica um prêmio associado às perspectivas de crescimento excepcional da NVIDIA.
A baixa relevância das dívidas onerosas, com um peso de 0,2% no cálculo do WACC, reforça que o custo médio ponderado de capital é predominantemente influenciado pelo custo do capital próprio (Ke). O valor de $168,04 por ação, influenciado por um WACC de 12,2% e um Risk Free Rate de 4%, demonstra a importância de premissas conservadoras para o crescimento terminal de 3%, que reflete uma economia madura e uma consistência econômica, evitando uma superavaliação e alinhando o modelo ao esperado no seu valor terminal, conforme Wickert e Serra (2019).
Fluxo de caixa descontado – Método EV/EBITDA
O método de múltiplos, utilizando o EV/EBITDA, foi aplicado para determinar o valor terminal da companhia, conforme Damodaran (2002) e Hitchner (2003). Este método resultou em um valor da empresa de $3.247.416.000. Após a dedução das dívidas onerosas, o Equity Value foi de $3.238.953.000. Dividindo este valor pela quantidade de ações em circulação (24,350 bilhões), obteve-se um valor por ação de $133,02.
O valor por ação de $133,02, estimado pelo método de múltiplos, demonstrou maior sensibilidade às condições de mercado e aos múltiplos setoriais. O múltiplo implícito de 5,6x, significativamente inferior à média setorial de 46,9x divulgada por Damodaran (2025) para o setor de semicondutores, reflete premissas mais conservadoras de crescimento terminal e uma taxa de desconto elevada. Essa diferença sugere que o mercado incorpora expectativas de crescimento extraordinário e retornos acima da média, enquanto o modelo de FCD pressupõe a convergência do crescimento a níveis sustentáveis no longo prazo, conforme argumentado por Damodaran (2012).
Análise de Sensibilidade
A análise de sensibilidade evidenciou a forte dependência do valor econômico da empresa em relação às premissas adotadas, especialmente a taxa de desconto (WACC) e a taxa de crescimento terminal (g). Para o método da perpetuidade, com um WACC padrão de 12,2%, o valor por ação variou de $155,50 para uma taxa de crescimento de 2,0% a $183,14 para 4,0%. Essa amplitude demonstra como pequenas variações no crescimento terminal podem gerar impactos relevantes no valuation, confirmando a sensibilidade do modelo em empresas de alto crescimento, conforme Brealey et al. (2013).
Mantendo a taxa de crescimento terminal em 3,0% e alterando o WACC de 10,2% para 14,2%, observou-se uma redução significativa no valor por ação, de $224,46 para $131,90. Este resultado reforça que o valor econômico no método da perpetuidade é amplamente determinado pelas premissas da taxa de desconto e do crescimento de longo prazo. A alta sensibilidade do modelo a essas variáveis é um fator crítico para a tomada de decisões de investimento, exigindo uma análise cuidadosa das hipóteses subjacentes.
Para o método de múltiplos, a análise de sensibilidade também revelou uma dependência significativa do WACC e do múltiplo EV/EBITDA. Com o WACC de 12,2% e um múltiplo de 5,6x, o valor por ação foi estimado em $133,02. Variações no múltiplo, por exemplo, de 3,6x para 7,7x, alteraram o valor por ação de $104,87 para $161,66. Da mesma forma, a alteração do WACC de 10,2% para 14,2%, mantendo o múltiplo em 5,6x, resultou em valores por ação que variaram de $147,09 a $121,00.
A comparação do múltiplo implícito de 5,6x com o múltiplo setorial de 46,9x (Damodaran, 2025) sugere que o mercado pode estar superavaliando a NVIDIA, precificando expectativas de crescimento e retornos que superam as premissas conservadoras do modelo. Penman (2010) destaca que o valuation não é um número absoluto, mas uma estimativa vinculada a hipóteses econômicas. A análise de sensibilidade, portanto, reforça a importância de considerar um intervalo de valores em vez de um ponto único, especialmente em setores voláteis como o de tecnologia.
Comparação entre os métodos (Perpetuidade x EV/EBITDA)
A comparação entre os métodos de perpetuidade e múltiplos revelou diferenças notáveis nos valores estimados. O método da perpetuidade resultou em um valor por ação de $168,04, com premissas de crescimento terminal de 3,0% e WACC de 12,2%. Em contraste, o método de múltiplos (EV/EBITDA) apontou um valor por ação de $133,02, com um múltiplo implícito de 5,6x. A cotação de mercado de aproximadamente $189,00, por sua vez, superou ambas as estimativas, indicando que o mercado precifica expectativas adicionais de crescimento e retornos que não são totalmente capturadas pelas premissas conservadoras dos modelos.
Essa divergência entre os métodos e a cotação de mercado não representa uma fragilidade do modelo, mas sim a coexistência de diferentes perspectivas de avaliação, conforme Damodaran (2012). Enquanto o método da perpetuidade impõe restrições econômicas rigorosas ao crescimento de longo prazo, o método de múltiplos reflete as expectativas implícitas do mercado, que podem ser influenciadas por ciclos setoriais e otimismo. A utilização conjunta dessas abordagens permite uma avaliação mais abrangente e equilibrada do valor econômico da empresa, conciliando uma visão de longo prazo com a leitura da precificação relativa do mercado, especialmente em setores de alto crescimento e volatilidade.
Os resultados demonstram a necessidade de uma análise crítica frente à precificação do mercado, que pode ser caracterizada por volatilidade e expectativas de crescimento elevadas, tornando o valuation uma ferramenta essencial para a tomada de decisão. A pesquisa contribui para a aplicação prática do fluxo de caixa e para o debate sobre a transparência metodológica na avaliação de empresas em ambientes de rápida transformação e alto crescimento, reforçando a importância de premissas bem fundamentadas e de análises de sensibilidade para uma compreensão completa do valor intrínseco.
4. Conclusão
A avaliação do valor econômico da NVIDIA Corporation, realizada por meio do modelo de Fluxo de Caixa Descontado (FCD), buscou comparar os métodos de valor terminal por perpetuidade e por múltiplos de mercado (EV/EBITDA). Verificou-se que o método da perpetuidade gerou um valor por ação de $168,04, influenciado por um Custo Médio Ponderado de Capital (WACC) de 12,2% e um Risk Free Rate de 4%. Em contraste, o método de múltiplos (EV/EBITDA) apontou $133,02 por ação, com um múltiplo implícito de 5,6x, significativamente inferior à média setorial de 46,9x. A diferença observada entre os valores estimados e a cotação de mercado, que se situava em aproximadamente $189,00, foi atribuída às expectativas de crescimento extraordinário precificadas pelos investidores. A análise dos fluxos de caixa revelou uma robusta expansão do ativo total da NVIDIA, impulsionada pela forte geração de caixa e baixa relevância do endividamento, características de empresas de tecnologia com alta escalabilidade e alavancagem operacional. A sensibilidade do valuation às premissas de taxa de desconto e crescimento terminal foi um achado central.
A principal contribuição deste estudo reside na comparação estruturada entre os dois métodos de valuation aplicados a uma empresa de tecnologia, evidenciando as diferentes premissas e os resultados distintos gerados. Essa abordagem integrada permite uma avaliação mais abrangente e equilibrada do valor econômico da empresa, conciliando uma visão de longo prazo com a leitura da precificação relativa do mercado. A divergência entre os valores obtidos pelos modelos e a cotação de mercado não representou uma fragilidade, mas sim a coexistência de distintas perspectivas de avaliação, onde o mercado tende a incorporar expectativas de crescimento superiores às projetadas em modelos fundamentalistas mais conservadores. Como limitação, o estudo dependeu de premissas macroeconômicas específicas e de um único caso de empresa. Sugere-se, para estudos futuros, a extensão da análise de sensibilidade a outros cenários e a comparação com um portfólio mais amplo de empresas do mesmo setor, a fim de aprofundar a compreensão sobre a precificação de ativos em ambientes de alta volatilidade e crescimento.
Referências Bibliográficas
Assaf Neto, A. 2017. Valuation: Métricas de Valor e Avaliação de Empresas. 2ed. Editora Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Damodaran, A. 2002. Investment Valuation: Tools and Techniques for Determining the Value of Any Asset. 2ed. John Wiley & Sons, Hoboken, NJ, USA.
Damodaran, A. 2012. Valuation: Como Avaliar Empresas [The Little Book of Valuation: How to value a company, pick a stock, and profit]. Traduzido por Afonso Celso da Cunha Serra. LTC, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Hitchner, J. R. 2003. Financial Valuation: Applications and Models. John Wiley & Sons. Hoboken, NJ, USA.
Koller, T.; Goedhart, M.; Wessels, D. 2015. Valuation: Measuring and Managing the Value of Companies. 6ed. John Wiley & Sons, Hoboken, NJ, USA.
Martins e Theophilo, 2016 [Referência completa não encontrada no documento original]
Wickert, M; Serra, R. G. 2019. Valuation: Guia Fundamental e Modelagem em Excel. Editora Atlas, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
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