29 de julho de 2026
As estratégias de sobrevivência das pessoas em situação de rua.
Ellen Gimenez Dias; Lucineide Bispo dos Reis
DOI: 10.22167/2675-6528-202600748
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A população em situação de rua representa um grupo vulnerável na sociedade contemporânea, enfrentando múltiplas violações e exclusão social. O estudo analisou as estratégias de sobrevivência dessas pessoas, com foco nas condições econômicas e financeiras que influenciam sua permanência nas ruas, e o papel das políticas públicas no enfrentamento dessa problemática. Para isso, adotou-se uma metodologia qualitativa, com abordagem bibliográfica e documental, complementada por um estudo de campo que entrevistou 27 participantes na região central de São Paulo. Os resultados revelaram que a maioria dos participantes, em idade economicamente ativa, enfrenta dificuldades significativas de inserção no mercado de trabalho formal, com baixa escolaridade e ausência de qualificação profissional. As principais estratégias de sobrevivência incluíram coleta de recicláveis, trabalhos informais e doações, com a maioria possuindo renda inferior a R$600. Fatores como dependência química, conflitos familiares e a baixa utilização de serviços de assistência social e saúde agravaram a vulnerabilidade. Concluiu-se que a situação de rua é um fenômeno multifacetado, com forte dimensão econômica, exigindo políticas públicas contínuas e integradas que articulem assistência social, qualificação profissional, acesso ao trabalho e programas habitacionais para promover a inclusão social e econômica.
Palavras-chave: Direitos humanos; Economia da sobrevivência; Exclusão social; Políticas públicas; Vulnerabilidade social.
1. Introdução
A população em situação de rua representa um grupo altamente vulnerável na sociedade contemporânea, evidenciando profundas desigualdades sociais, falhas nas políticas públicas e processos de exclusão que afetam a dignidade humana. A vivência nas ruas é marcada por múltiplas violações de direitos, como a ausência de moradia, insegurança alimentar e acesso restrito a serviços essenciais de saúde, trabalho e proteção social. Este cenário complexo demanda análise aprofundada.
No Brasil, a dimensão desse fenômeno é significativa e crescente. Conforme dados do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), em março de 2025, o país registrava aproximadamente 335 mil pessoas vivendo em situação de rua. Essa contagem pode subestimar a realidade, devido à natureza itinerante de parte dessa população e às dificuldades na obtenção de documentos básicos. Demograficamente, 88% dos indivíduos têm entre dezoito e cinquenta e nove anos, com predominância de oitenta e quatro por cento de homens. Oitenta e um por cento sobrevivem com renda mensal inferior a 109 reais, uma fração mínima do salário-mínimo (CadÚnico).
A baixa escolaridade é uma característica marcante, com a maioria sem ensino fundamental completo ou sem instrução formal, e a prevalência de pessoas negras sublinha a persistência do racismo estrutural e suas repercussões socioeconômicas (CadÚnico). A vulnerabilidade é intensificada pela violência, com 46.865 denúncias registradas entre 2020 e 2024 pelo Disque 100 do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), concentradas principalmente em vias públicas. Grandes centros urbanos, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, concentram os maiores contingentes dessa população.
O fenômeno da população em situação de rua possui raízes multifacetadas, envolvendo fatores econômicos, sociais e históricos. Entre os principais, destacam-se o desemprego estrutural, a acentuada desigualdade de renda, a ineficácia das políticas habitacionais, o racismo estrutural e as consequências da exclusão educacional. Adicionalmente, elementos como conflitos familiares, a dependência química e os transtornos mentais contribuem para agravar a vulnerabilidade social e perpetuar a permanência nessa condição (MDHC).
A falta de moradia transcende a mera privação de um teto, manifestando-se como uma expressão de invisibilidade social que obstrui o acesso a direitos fundamentais. Apesar da existência de programas governamentais e iniciativas da sociedade civil, o acesso a esses serviços é frequentemente dificultado por barreiras estruturais e burocráticas. Um exemplo ilustrativo é a restrição imposta por albergues que não permitem a entrada de animais de estimação, desconsiderando o papel vital que estes desempenham como apoio emocional e fonte de segurança para muitas pessoas em situação de rua (ONG Moradores de Rua e seus Cães).
Para enfrentar essa realidade, diversas políticas públicas e ações de apoio foram implementadas. Programas governamentais, como o Minha Casa, Minha Vida, destinaram recursos para moradia de pessoas em situação de rua em 2025, com financiamento integral e acompanhamento social (Projeto de Lei 2842/15). Iniciativas como os Pontos de Apoio oferecem serviços básicos de higiene e alimentação, e os Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua (Centro POP) fornecem suporte documental e informações sobre benefícios sociais. Além disso, organizações não governamentais e grupos voluntários, como Anjos da Noite e as ações do Padre Júlio Lancellotti, também desempenham um papel crucial na oferta de suporte, complementando as políticas públicas (Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo; ONG Anjos da Noite).
Diante da complexidade e da urgência do fenômeno da população em situação de rua, torna-se essencial compreender as estratégias de sobrevivência adotadas por esses indivíduos. Esta pesquisa busca dar visibilidade à realidade da exclusão e luta por subsistência, contribuindo para o debate sobre desigualdade social e ações de inclusão. Assim, o presente estudo objetiva compreender os fatores que levam à exclusão social e identificar os obstáculos no acesso a direitos básicos e serviços públicos, além de refletir sobre o papel das políticas públicas e da assistência social no enfrentamento dessa problemática.
2. Material e Métodos
O presente estudo foi delineado com uma abordagem metodológica de natureza qualitativa, buscando aprofundar a compreensão sobre as complexas realidades vivenciadas pela população em situação de rua. Este tipo de pesquisa é adequado para explorar fenômenos sociais em profundidade, permitindo a análise de percepções, experiências e contextos que não seriam plenamente capturados por métodos quantitativos isolados. O objetivo central da metodologia foi investigar as estratégias de sobrevivência econômica adotadas por esses indivíduos, conforme a proposta inicial do trabalho.
A pesquisa adotou uma estratégia metodológica mista, que incluiu uma abordagem bibliográfica e documental. A revisão bibliográfica foi fundamental para contextualizar o fenômeno da população em situação de rua, explorando conceitos teóricos, estudos prévios e discussões acadêmicas sobre exclusão social, vulnerabilidade e políticas públicas. Complementarmente, a análise documental envolveu a consulta a dados oficiais, legislações pertinentes e relatórios de órgãos governamentais e não governamentais, fornecendo um panorama abrangente da problemática no Brasil.
Para complementar a base teórica e documental, realizou-se um estudo de campo, caracterizado pela coleta de dados primários diretamente com os participantes. A unidade de análise consistiu em pessoas em situação de rua, e a pesquisa foi conduzida na região central de São Paulo, um dos maiores centros urbanos do país com significativa concentração dessa população. Foram entrevistados 27 participantes, selecionados por conveniência, que aceitaram voluntariamente compartilhar suas experiências e perspectivas sobre a vida nas ruas e suas estratégias de subsistência.
O instrumento de coleta de dados utilizado no estudo de campo foi um questionário estruturado, composto por 25 questões abertas e fechadas. Este questionário foi elaborado para coletar informações demográficas, socioeconômicas e sobre as condições de vida dos participantes. As perguntas abordaram aspectos como idade, sexo, escolaridade, tempo em situação de rua, fontes de renda, acesso a serviços de assistência social e saúde, posse de documentos, vínculos familiares e percepção sobre as dificuldades e possibilidades de saída da rua.
Os procedimentos de coleta de dados ocorreram por meio de entrevistas individuais, realizadas diretamente com os participantes na região central de São Paulo. As entrevistas foram conduzidas de forma a garantir um ambiente de escuta qualificada e respeito, permitindo que os indivíduos expressassem suas realidades. A aplicação do questionário foi feita verbalmente, com o pesquisador registrando as respostas, buscando capturar a riqueza das narrativas e a diversidade das experiências dos entrevistados.
A análise dos dados coletados por meio dos questionários foi realizada utilizando a estatística descritiva, conforme a metodologia proposta. Segundo Assis (2017), a estatística descritiva é uma ferramenta essencial para organizar, resumir e apresentar os dados de forma compreensível. Este método permitiu transformar as informações brutas em representações simples, facilitando a identificação de padrões, tendências e características essenciais do grupo estudado, sem aprofundar em inferências complexas ou generalizações para além da amostra.
A organização dos dados coletados foi realizada de maneira sistemática, categorizando as respostas para cada uma das questões do questionário. Este processo visou preparar as informações para a etapa de análise descritiva, permitindo a visualização das frequências e distribuições das variáveis estudadas. A metodologia adotada buscou, assim, fornecer uma base empírica sólida para a compreensão das estratégias de sobrevivência e dos desafios enfrentados pela população em situação de rua, alinhando-se aos objetivos propostos pelo estudo.
3. Resultados e Discussão
A pesquisa de campo, realizada com 27 participantes na região central de São Paulo, revelou um panorama multifacetado das estratégias de sobrevivência e das condições de vida da população em situação de rua. Os achados permitiram aprofundar a compreensão sobre os fatores que levam à exclusão social, os obstáculos no acesso a direitos básicos e serviços públicos, e o papel das políticas públicas no enfrentamento dessa problemática. Inicialmente, o perfil demográfico e socioeconômico dos entrevistados demonstrou características alinhadas com dados nacionais, mas também particularidades que reforçam a complexidade do fenômeno da rua, especialmente no que tange à inserção no mercado de trabalho e à fragilidade dos vínculos sociais.
A análise da faixa etária dos participantes indicou que a maioria se encontra em idade economicamente ativa, com 44% (n=12) entre 31 e 40 anos e 26% (n=7) entre 18 e 30 anos. Apenas 9% (n=3) eram idosos, e 3% (n=1) acima de 61 anos, totalizando 88% na faixa de 18 a 59 anos. Esse dado ressalta que a população em situação de rua é composta predominantemente por indivíduos com potencial produtivo, mas que enfrentam barreiras significativas para a inserção no mercado de trabalho formal. Quanto ao sexo, 56% (n=15) eram homens e 44% (n=12) mulheres, uma proporção que, embora ainda masculina, apresenta uma presença feminina mais expressiva do que a média nacional, sugerindo uma vulnerabilidade agravada para este grupo.
A origem dos participantes revelou uma predominância de indivíduos vindos da região Nordeste (41%, n=11) e Sudeste (33%, n=9), indicando que a migração interna, muitas vezes em busca de melhores condições de vida e oportunidades, pode paradoxalmente resultar em maior vulnerabilidade e na situação de rua. O tempo de permanência nas ruas também se mostrou prolongado para a maioria, com 48% (n=13) vivendo nessa condição entre três e cinco anos, e 30% (n=8) por mais de cinco anos. Essa persistência na situação de rua sugere a dificuldade de reinserção social e a precariedade das condições de saúde e das oportunidades de trabalho formal, conforme apontado por Tiengo (2021).
Os principais motivos que levaram os participantes à situação de rua foram a dependência química, citada por 48% (n=13) dos entrevistados, e os conflitos familiares, mencionados por 30% (n=8). O desemprego foi apontado por 15% (n=4) e a perda de moradia por 7% (n=2). Esses dados evidenciam que a situação de rua não é resultado de um único fator, mas de uma complexa interação de vulnerabilidades sociais, econômicas e familiares. A dependência química, em particular, emerge como um fator central, tanto na origem quanto na perpetuação da condição de rua, dificultando a estabilização e a busca por apoio, como discutido por Mueller (1999) sobre a economia da sobrevivência.
A prevalência do uso de álcool e outras substâncias psicoativas foi notável, com 81% (n=22) dos participantes afirmando fazer uso. Entre as substâncias, o álcool foi a mais citada (68%, n=15), seguido pelo crack (23%, n=5). Essa associação frequente com o uso de substâncias é um fator que contribui significativamente para a permanência na rua, agravando a vulnerabilidade e dificultando a reinserção social. Adicionalmente, a violência é uma realidade quase universal, com 93% (n=25) dos participantes relatando já ter sofrido algum tipo de violência na rua. A violência física foi a mais comum (70%, n=19), seguida pela psicológica (15%, n=4) e sexual (15%, n=4), reforçando a urgência de políticas de proteção e segurança.
O rompimento dos vínculos familiares também se destacou como um fator crucial para a permanência na situação de rua, com 85% (n=23) dos participantes afirmando não possuir laços familiares ativos. Entre os poucos que mantinham contato, 50% (n=2) se relacionavam com os pais e 25% (n=1) com os filhos, evidenciando a fragilidade das redes de apoio social e afetivo. Em relação à saúde, 67% (n=18) dos participantes não souberam responder sobre problemas de saúde, e 70% (n=19) nunca utilizaram serviços de saúde, o que pode indicar tanto a falta de conhecimento sobre sua própria condição de saúde quanto as barreiras de acesso aos serviços, como a estigmatização e a falta de documentação.
A escolaridade dos participantes revelou baixos níveis educacionais, com 48% (n=13) possuindo apenas o ensino fundamental e 19% (n=5) sendo analfabetos. Apenas 7% (n=2) relataram ter ensino superior. Essa baixa escolaridade, combinada com a ausência de qualificação profissional, representa um obstáculo significativo para a inserção no mercado de trabalho formal. De fato, 52% (n=14) dos entrevistados não trabalhavam atualmente, e entre os que trabalhavam, a maioria se dedicava a atividades informais. Essa instabilidade ocupacional e a dificuldade de acesso a empregos estáveis contribuem diretamente para a perpetuação da situação de rua, conforme a perspectiva de Polanyi (2000) sobre a economia de subsistência.
As estratégias de sobrevivência para obtenção de renda eram predominantemente informais e precárias. As doações foram a principal fonte para 41% (n=11) dos participantes, seguidas pela coleta de recicláveis (26%, n=7), auxílio social (19%, n=5) e “bicos” (15%, n=4). Essa dependência de doações e trabalhos informais reflete a ausência de oportunidades de geração de renda estável e a exclusão do mercado de trabalho formal. A precariedade da renda é ainda mais evidente ao observar que 67% (n=18) dos participantes possuíam renda mensal entre R$301 e R$600, e 19% (n=5) entre R$101 e R$300, com apenas 11% (n=3) acima de R$600. Um participante (4%) tinha renda inferior a R$100, demonstrando a extrema vulnerabilidade econômica.
A utilização dos serviços de assistência social e de saúde pelos participantes foi notavelmente baixa. Cerca de 67% (n=18) dos entrevistados afirmaram não utilizar serviços de assistência social, e 70% (n=19) nunca buscaram atendimento em serviços de saúde. Entre os que acessaram a saúde, 19% (n=5) procuraram Unidades Básicas de Saúde (UBS) e 11% (n=3) hospitais. Essa baixa adesão aos serviços públicos pode ser atribuída a diversas barreiras, como a falta de informação sobre a disponibilidade dos programas, dificuldades de deslocamento, estigmatização e a ausência de documentos pessoais, que impedem o acesso a direitos básicos e benefícios sociais, como observado por Freitas (2020).
A posse de documentos pessoais é um fator crítico para o acesso a direitos e serviços. Verificou-se que 74% (n=20) dos participantes possuíam algum tipo de documento, enquanto 26% (n=7) não possuíam. Os documentos mais comuns eram o Registro Geral (RG) e o Cadastro de Pessoa Física (CPF), ambos com 74% (n=20) de posse. No entanto, a ausência total de documentos como o Cartão do SUS e certidões (0%) revela uma lacuna significativa no acesso a direitos fundamentais, especialmente na área da saúde e na regularização civil. A falta de documentação agrava a invisibilidade social e dificulta a reintegração, conforme a literatura sobre a importância da regularização documental para a população em situação de rua.
Ao serem questionados sobre suas principais necessidades atuais, o emprego foi apontado por 56% (n=15) dos participantes, seguido por alimentação (19%, n=5) e moradia (11%, n=3). A prioridade dada ao emprego sublinha o reconhecimento da autonomia econômica como um pilar fundamental para a reconstrução da vida. Contudo, as principais dificuldades para sair da rua foram a dependência química (48%, n=13), a falta de trabalho (30%, n=8) e a ausência de moradia (15%, n=4). Essa dicotomia entre a necessidade de trabalho e a dificuldade em obtê-lo, agravada pela dependência química, ilustra o ciclo vicioso de exclusão e a complexidade dos desafios enfrentados por essa população.
Apesar das adversidades, a pesquisa revelou um forte desejo de mudança: 93% (n=25) dos participantes afirmaram querer sair da situação de rua. Quando questionados sobre o que os ajudaria nesse processo, o trabalho foi o fator mais citado (70%, n=19), seguido pela moradia (19%, n=5) e tratamento de saúde (11%, n=3). O apoio familiar não foi mencionado por nenhum participante como um fator de ajuda, o que reforça a fragilidade dos vínculos familiares previamente identificada. Esses resultados demonstram que, mesmo em contextos de extrema vulnerabilidade, a busca por autonomia e dignidade permanece, e o trabalho é percebido como o principal meio para alcançar essa transformação, como defendido por Singer (2002) sobre a economia solidária.
A análise conjunta dos dados evidencia que a situação de rua é um fenômeno intrinsecamente ligado a múltiplos fatores interconectados. O rompimento de vínculos familiares e a dependência química surgem como causas significativas para a ida à rua, enquanto a ausência de apoio familiar e a baixa utilização de serviços socioassistenciais contribuem para a permanência nessa condição. A precariedade da renda, a informalidade do trabalho e a dificuldade de acesso à moradia e à saúde são manifestações da exclusão econômica e social. Esses elementos criam um ciclo de vulnerabilidade que dificulta a reinserção e a reconstrução de trajetórias de vida, conforme a perspectiva de Jordão (2021) sobre a economia urbana.
Os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas contínuas, integradas e humanizadas, que articulem assistência social, qualificação profissional, acesso ao mercado de trabalho e programas habitacionais. A baixa utilização dos serviços de assistência social e saúde, aliada à falta de documentação, aponta para a existência de barreiras institucionais e a necessidade de estratégias de busca ativa e desburocratização. A superação da situação de rua não depende de um único fator, mas de uma atuação coordenada que promova a dignidade, autonomia e reinserção social, abordando as dimensões econômica, social e de saúde de forma simultânea e complementar, como proposto por Laville (2009) em sua análise da economia solidária.
Em síntese, a pesquisa revelou que a população em situação de rua na região central de São Paulo é majoritariamente composta por indivíduos em idade produtiva, mas com baixa escolaridade e inserção precária no mercado de trabalho formal. As estratégias de sobrevivência baseiam-se em atividades informais e doações, resultando em renda extremamente baixa. Fatores como dependência química, conflitos familiares e a baixa utilização de serviços públicos de assistência social e saúde agravam a vulnerabilidade. Contudo, o desejo de sair da rua é predominante, com o trabalho sendo reconhecido como o principal vetor de mudança, o que sublinha a urgência de políticas públicas integradas que promovam a inclusão social e econômica, respondendo diretamente ao objetivo de compreender os fatores da exclusão e o papel das políticas públicas.
4. Conclusão
O estudo buscou compreender os fatores que levam à exclusão social e identificar os obstáculos no acesso a direitos básicos e serviços públicos, além de refletir sobre o papel das políticas públicas e da assistência social no enfrentamento da problemática da população em situação de rua. Verificou-se que a maioria dos participantes, em idade economicamente ativa, enfrenta dificuldades significativas de inserção no mercado de trabalho formal, caracterizadas por baixa escolaridade e ausência de qualificação profissional. As estratégias de sobrevivência identificadas incluíram a coleta de recicláveis, a realização de trabalhos informais e a dependência de doações, resultando em uma renda mensal precária, frequentemente inferior a R$600. Observou-se que fatores como a dependência química e os conflitos familiares agravam a vulnerabilidade econômica e social, perpetuando a permanência nessa condição.
A baixa utilização dos serviços de assistência social e de saúde, aliada à ausência de documentação para uma parcela dos entrevistados, evidenciou barreiras institucionais e a necessidade de estratégias de busca ativa e desburocratização. Apesar das adversidades, o desejo de sair da situação de rua foi predominante, com o trabalho sendo apontado como o principal vetor para a autonomia e dignidade. A pesquisa contribui para a visibilidade da realidade da exclusão e da luta por subsistência, reforçando a necessidade de políticas públicas contínuas e integradas que articulem assistência social, qualificação profissional, acesso ao trabalho e programas habitacionais. Contudo, as limitações do estudo, decorrentes da amostra restrita a 27 participantes na região central de São Paulo, sugerem a importância de futuras investigações com amostras maiores e em diferentes contextos sociais para aprofundar a compreensão das estratégias de sobrevivência e da efetividade das políticas públicas.
Referências Bibliográficas
BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. (2023). População em situação de rua: diagnóstico com base nos dados e informações disponíveis em registros administrativos e sistemas do Governo Federal. Brasília: MDHC.
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JORDÃO, D. (2021). A população em situação de rua e o circuito inferior da economia urbana em Campos dos Goytacazes/RJ. Revista Tocantinense de Geografia, 11(24), 77-97.
LAVILLE, J.-L. (2009). A economia solidária: um movimento internacional. Revista Crítica de Ciências Sociais, 84, 7-47.
MUELLER, C. C. (1999). Economia, entropia e sustentabilidade: abordagem e visões de futuro da Economia da sobrevivência. Estudos Econômicos (São Paulo), 29(4), 513-550.
ONG Moradores de Rua e seus Cães [Referência completa não encontrada no documento original]
Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo [Referência completa não encontrada no documento original]
POLANYI, K. (2000). A Grande Transformação: as origens políticas e econômicas de nossa época. São Paulo: Martins Fontes.
SINGER, P. (2002). Introdução à economia solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo.
TIENGO, V. M. (2021). Alterações nas expressões da questão social da população em situação de rua. Lutas Sociais, 22(41).
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Economia, Investimentos e Banking do MBA USP/Esalq
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