23 de julho de 2026
Aplicativos móveis como ferramenta para a revitalização e modernização de bibliotecas físicas
Bruno do Nascimento Anguita; Maurício Acconcia Dias
DOI: 10.22167/2675-6528-202600629
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
O presente trabalho buscou compreender os desafios enfrentados pelas bibliotecas públicas na era dos smartphones, onde o número de usuários e a quantidade de unidades destas instituições vêm diminuindo, contribuindo a falta de recursos e a dificuldade de modernizar o acesso ao acervo. Diante disso, propôs-se a realização de uma pesquisa com o objetivo de verificar a viabilidade técnica do desenvolvimento de um aplicativo móvel para funcionar como uma extensão digital da biblioteca, visando facilitar o acesso remoto ao acervo e aumentar o engajamento do público. Foi empregada uma pesquisa com características qualitativas, que consistiu na coleta de dados através de um formulário online, junto a colaboradores de bibliotecas públicas e órgãos públicos relevantes. Os resultados, além de contribuírem para o desenvolvimento de um protótipo funcional do aplicativo (MVP), mostraram que a maior parte dos respondentes considerou o desenvolvimento do aplicativo uma ferramenta muito positiva para estimular o uso das bibliotecas. Entre as principais funcionalidades identificadas pelos participantes incluíram a consulta facilitada ao catálogo, a possibilidade de reserva e renovação remota e publicação de avaliações dos usuários. Concluiu-se que o uso dos aplicativos móveis se apresentou como uma solução prática e de relativo baixo custo para facilitar o acesso e melhorar o engajamento da sociedade a estes espaços.
Palavras-chave: Android; Bibliotecas físicas; Inovação; iOS; Transformação digital.
1. Introdução
As bibliotecas físicas, outrora pilares de conhecimento e cultura, enfrentam desafios significativos na era digital. Com a proliferação de smartphones e leitores de livros digitais, observa-se uma migração de usuários para plataformas de leitura online, resultando em uma diminuição da visitação a esses espaços tradicionais. Este cenário levanta questionamentos profundos sobre a relevância e o futuro das bibliotecas em um mundo cada vez mais conectado.
No Brasil, a situação é particularmente preocupante. Dados recentes indicam um declínio alarmante, com quase 800 bibliotecas públicas fechadas entre os anos de 2015 e 2020, reduzindo o total de 6.057 para 5.293 unidades (CNN, 2022). Essa retração é agravada pela percepção de falta de investimento e interesse do poder público, impactando desproporcionalmente a população de menor renda, que depende desses espaços para acesso à leitura e cultura (G1, 2022).
Apesar desses desafios, algumas grandes bibliotecas têm demonstrado capacidade de adaptação e modernização. A Biblioteca de São Paulo, por exemplo, oferece o aplicativo “BibliON”, permitindo a consulta a um vasto acervo digital e a reserva de livros físicos. Similarmente, a centenária Biblioteca Bodleiana em Oxford dispõe do serviço SOLO (Search Oxford Libraries Online), que cataloga milhões de registros (Galoá, 2017). Tais iniciativas exemplificam como a tecnologia pode ser integrada para expandir o alcance e a funcionalidade das bibliotecas.
Contudo, essa realidade de modernização e acesso facilitado não se estende aos pequenos centros urbanos brasileiros. Nesses locais, o acesso ao acervo ainda está majoritariamente vinculado à presença física, com pouca ou nenhuma utilização de tecnologias para facilitar a consulta remota ao catálogo e aos serviços essenciais. Essa lacuna tecnológica restringe o usufruto do conhecimento e da cultura por uma parcela significativa da população, perpetuando a distância entre a oferta de recursos e a demanda da sociedade.
A revitalização das bibliotecas físicas, portanto, não implica o abandono de seu acervo, mas sim a integração estratégica com as demandas contemporâneas. Em um contexto onde cerca de 89% da população brasileira possui acesso à internet, predominantemente via smartphone (Cetic.br, 2024), um aplicativo móvel surge como uma ponte essencial. Ele pode conectar o patrimônio literário preservado nas bibliotecas com os hábitos tecnológicos atuais, incentivando tanto o acesso remoto quanto a visitação e o uso dos espaços físicos.
Diante dessa problemática e da oportunidade de modernização, este estudo justifica-se pela necessidade de explorar soluções que promovam a acessibilidade e o engajamento. Assim, o objetivo geral desta pesquisa consistiu em propor e analisar a viabilidade técnica e funcional de um aplicativo móvel como ferramenta para a modernização da gestão operacional e o aumento do engajamento de usuários de bibliotecas físicas.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa caracterizou-se por uma abordagem qualitativa, delineada para propor e analisar a viabilidade técnica e funcional de um aplicativo móvel. Para tanto, o estudo combinou o desenvolvimento de um protótipo funcional com a coleta de dados junto a especialistas e colaboradores de bibliotecas. A estratégia metodológica buscou compreender as demandas e validar a solução proposta, alinhando-se ao objetivo de modernizar a gestão operacional e aumentar o engajamento de usuários de bibliotecas físicas.
O desenvolvimento do protótipo funcional (MVP) do aplicativo foi realizado utilizando o SDK (Software Development Kit) Flutter, mantido pelo Google, com a linguagem de programação Dart. Esta escolha permitiu a criação de uma aplicação híbrida, capaz de operar em múltiplas plataformas, como smartphones Android e iOS, além de computadores pessoais e navegadores (Windmill, 2020; Venteu e Pinto, 2018). Para o armazenamento de dados, autenticação de usuários e funcionalidades de backend, empregou-se o Supabase, uma plataforma de Backend-as-a-Service (BaaS) de código aberto (Supabase, 2026).
O Supabase, escolhido por sua infraestrutura robusta e escalável, utilizou o banco de dados relacional PostgreSQL para o armazenamento dos dados (The PostgreSQL Global Development Group, 2026). A hospedagem em nuvem foi realizada na infraestrutura AWS, conforme a participação de mercado global (Synergy Research Group, 2025). A arquitetura do sistema adotou o padrão Feature-First Clean Architecture, que combinou a organização por funcionalidade com a separação de responsabilidades em camadas de apresentação, domínio e dados, visando modularidade e escalabilidade (Lashan, 2025; Altin, 2024).
A concepção do protótipo priorizou a viabilidade econômica para as bibliotecas, utilizando ferramentas de código aberto e estratégias que minimizassem custos operacionais. Considerou-se a utilização de plataformas de Integração Contínua e Entrega Contínua (CI/CD) baseadas em nuvem, como Codemagic ou GitHub Actions, para a compilação e assinatura do aplicativo para iOS, evitando a necessidade de aquisição de hardware Apple de alto custo. O plano gratuito do Supabase foi empregado para o backend, com franquias de requisições e armazenamento adequadas à demanda inicial do projeto (Supabase, 2026).
O delineamento da pesquisa para a coleta de dados empregou uma amostragem intencional não probabilística, focada em dois públicos-alvo distintos. O objetivo foi capturar perspectivas complementares sobre os desafios e a viabilidade da solução proposta. No total, cinco participantes foram envolvidos, buscando uma visão abrangente das necessidades operacionais e das diretrizes estratégicas do setor bibliotecário.
O primeiro público-alvo consistiu em dois colaboradores atuantes em bibliotecas públicas dos municípios de Osvaldo Cruz e Adamantina, localizados na região oeste do interior do estado de São Paulo. A seleção dessas instituições baseou-se em sua característica de pequenos municípios com várias décadas de funcionamento. Este levantamento inicial ocorreu entre os meses de maio e julho de 2025, e o contato com os participantes foi realizado de forma presencial e online, via correio eletrônico.
A segunda etapa da coleta de dados foi conduzida em 2026, em paralelo ao desenvolvimento tecnológico do aplicativo. Nesta fase, buscou-se a participação voluntária e a validação do projeto junto a especialistas e entidades de classe. O instrumento de coleta de dados foi enviado via correio eletrônico para cinco órgãos de relevância nacional e regional na área de biblioteconomia, incluindo o Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de São Paulo (SisEB), o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP) e a Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições (FEBAB).
O instrumento de coleta de dados foi um formulário online, elaborado na ferramenta Google Forms, adaptado conforme o perfil do respondente. O formulário continha 15 questões, que incluíam perguntas de perfil demográfico, questões fechadas sobre funcionalidades desejadas e uma questão aberta para sugestões de recursos adicionais. Para mensurar a relevância das funcionalidades propostas, utilizou-se uma escala do tipo Likert de 5 pontos, onde a nota um indicava uma função pouco interessante e a nota cinco, uma funcionalidade essencial. Um bloco adicional foi aplicado aos colaboradores das bibliotecas, focado em demandas operacionais e administrativas.
Os dados coletados foram organizados e analisados para subsidiar o desenvolvimento do protótipo e verificar a viabilidade técnica e funcional do aplicativo. A análise das respostas permitiu identificar as limitações tecnológicas e as demandas operacionais das bibliotecas, bem como as expectativas quanto às funcionalidades desejadas. A prioridade das ferramentas foi mensurada com base nas avaliações dos participantes, contribuindo para a validação das premissas do aplicativo e para o direcionamento das funcionalidades implementadas no MVP.
3. Resultados e Discussão
A seção de Resultados e Discussão apresenta os achados da pesquisa, interpretando-os à luz do problema e objetivos propostos, bem como da literatura que fundamentou o trabalho. O estudo buscou compreender os desafios enfrentados pelas bibliotecas públicas na era digital e verificar a viabilidade técnica e funcional de um aplicativo móvel para modernizar a gestão operacional e aumentar o engajamento dos usuários. Os resultados obtidos, por meio da coleta de dados junto a colaboradores de bibliotecas e especialistas do setor, contribuíram para o desenvolvimento de um protótipo funcional (MVP) e revelaram percepções cruciais sobre as necessidades e prioridades para a revitalização desses espaços.
A pesquisa foi delineada com uma abordagem qualitativa, utilizando uma amostragem intencional não probabilística, e envolveu dois públicos-alvo distintos. O primeiro grupo, composto por dois colaboradores de bibliotecas públicas em pequenos municípios do interior de São Paulo (Osvaldo Cruz e Adamantina), forneceu uma perspectiva direta sobre os gargalos operacionais e as limitações tecnológicas diárias. Esses profissionais expressaram grande entusiasmo pela possibilidade de uma aplicação que permitisse a consulta remota ao acervo, uma funcionalidade inexistente em suas instituições. O contato com esses participantes ocorreu de forma presencial e online, sem critérios de seleção além da sua relação com as bibliotecas.
O segundo grupo de participantes, consultado em uma etapa posterior, foi formado por representantes técnicos de órgãos de relevância nacional e regional na área de biblioteconomia, como o Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de São Paulo (SisEB), o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP) e a Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições (FEBAB). Esta etapa, realizada em 2026, buscou a validação do projeto e a captura de uma visão macro do setor. A taxa de resposta foi de 60%, com três dos cinco órgãos contatados fornecendo retorno. A ausência de resposta de entidades como o Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB) e o Conselho Regional de Biblioteconomia da 8ª Região (CRB-8) reforçou a premissa de que a modernização tecnológica de bibliotecas municipais pode avançar independentemente de iniciativas centralizadas, demandando soluções autônomas e de baixo custo.
A coleta de dados foi conduzida por meio de um formulário online no Google Forms, contendo 15 questões que abordavam desde o perfil demográfico dos respondentes até a relevância de funcionalidades desejadas. Para avaliar a essencialidade das funcionalidades propostas, empregou-se uma escala Likert de 5 pontos, onde a nota 1 indicava pouca relevância e a nota 5, essencialidade. Um bloco adicional de perguntas foi aplicado aos colaboradores das bibliotecas, focando em demandas operacionais e administrativas, como cadastro ágil de exemplares via ISBN, emissão de alertas de inadimplência, gestão do status do acervo e geração de relatórios gerenciais para estatísticas.
Análise da pesquisa
A análise das respostas revelou uma convergência significativa entre as demandas operacionais cotidianas das bibliotecas de pequeno porte e as expectativas estratégicas dos representantes de órgãos nacionais. Essa composição de participantes garantiu que as inferências obtidas refletissem tanto a viabilidade executiva no contexto local quanto o alinhamento com as diretrizes de fomento à cultura em nível nacional. Os resultados indicaram que, além da automação básica de consultas e reservas, houve um forte apoio a funcionalidades com foco na interação social e no engajamento da comunidade, como a avaliação de livros e o acompanhamento de eventos.
Essa validação empírica corrobora os apontamentos de Leite (2017), que destaca a necessidade de as bibliotecas se adaptarem aos tempos modernos, transformando-se de meros depósitos estáticos de livros em centros dinâmicos de informação. A adoção de funcionalidades interativas em um aplicativo, especialmente para centros urbanos menores, pode reduzir a lacuna tecnológica existente entre grandes e pequenas bibliotecas, promovendo maior acessibilidade e uso dos recursos culturais. A modernização, portanto, não implica o abandono do acervo físico, mas sim sua integração estratégica com as demandas contemporâneas, conforme observado na Introdução.
As funcionalidades que obtiveram o maior grau de essencialidade, com avaliações 4 e 5 na escala Likert, foram diversas. A “Consulta detalhada ao catálogo” e a “Reserva remota e renovação de empréstimos” foram unanimemente consideradas essenciais para a modernização do acesso. Da mesma forma, a “Publicação de resenhas/avaliações”, o “Mural de eventos culturais” e a “Gamificação do aplicativo” foram unanimemente avaliadas como cruciais para o engajamento da comunidade. As “Notificações sobre prazos de devoluções e eventos” também receberam aceitação unânime, sendo vistas como fundamentais para a modernização do acesso e a gestão eficiente.
Sob a ótica dos colaboradores de biblioteca, a pesquisa evidenciou a urgência de sistemas tecnológicos que minimizem o esforço manual. A priorização da aprovação remota de reservas, por exemplo, demonstrou a necessidade de digitalizar processos para agilizar o atendimento. A arquitetura proposta, portanto, atende simultaneamente a duas frentes críticas: o engajamento do público, uma prioridade dos respondentes dos órgãos nacionais, e a eficiência administrativa, uma demanda central das bibliotecas de pequenas cidades do interior paulista. Essa dualidade de foco é essencial para a sustentabilidade e relevância das bibliotecas no cenário atual.
Embora nenhum dos recursos propostos tenha recebido notas muito baixas (1 ou 2), algumas funcionalidades obtiveram avaliação mediana (nota 3). Entre elas, destacam-se as “Sugestões de livros com base no histórico de empréstimos” e a “Geração de relatórios gerenciais/estatísticas”. Essa percepção sugere que a prioridade imediata dos participantes recai sobre a resolução de gargalos operacionais básicos e a digitalização do acervo. Ferramentas mais sofisticadas, como algoritmos de recomendação e análise de dados para estatísticas, embora tecnicamente atrativas, foram consideradas secundárias em comparação com a urgência de digitalizar os serviços essenciais.
Um achado relevante do levantamento foi a alta valorização dos recursos de gamificação. A funcionalidade de criação de um ranking de empréstimos, que permitiria uma competição saudável com recompensas aos usuários, obteve nota máxima de todos os respondentes. Essa unanimidade comprova que a gamificação é vista como uma dinâmica essencial para o engajamento do público com a biblioteca. Contudo, adotando-se as premissas de um desenvolvimento iterativo para a construção do Produto Mínimo Viável (MVP), o módulo de gamificação não foi incorporado ao protótipo atual, sendo consolidado como um requisito validado cientificamente para futuras implementações.
Apresentação do aplicativo
O resultado da pesquisa e desenvolvimento culminou na criação de um protótipo funcional, o Produto Mínimo Viável (MVP), estruturado para atender às principais demandas do ecossistema de uma biblioteca física. A arquitetura do sistema foi concebida utilizando o modelo Feature-First Clean Architecture, que combina a organização por funcionalidade com a separação de responsabilidades em camadas (apresentação, domínio e dados), promovendo modularidade, escalabilidade e testabilidade (Altin, 2024; Lashan, 2025). Para garantir a correta segmentação das funções e o controle de acesso, foi implementado o modelo Role-Based Access Control (RBAC), que define três perfis hierárquicos: Leitor, Colaborador e Administrador (Sandhu, 1998).
Módulo do leitor: usabilidade e revitalização do acesso
O perfil “Leitor” foi projetado com foco na usabilidade e na autonomia do usuário final, consolidando as funcionalidades de autoatendimento e atuando como a principal interface de conexão entre o usuário e a biblioteca. A navegação intuitiva permite o acesso ao catálogo diretamente da tela inicial, através de um card “Livros disponíveis” ou pela barra inferior do aplicativo na opção “Buscar”. Por meio desta interface, o usuário pode realizar buscas detalhadas, verificar a disponibilidade de exemplares e solicitar reservas remotamente, além de gerenciar seus empréstimos vigentes e solicitar renovações sem a necessidade de deslocamento físico.
Para além da automação do fluxo tradicional de empréstimos, o módulo do leitor incorpora ferramentas essenciais para a revitalização da biblioteca. Uma dessas ferramentas é o sistema de avaliação de obras, que permite aos usuários publicar resenhas e atribuir notas aos livros. Essa funcionalidade transforma a consulta estática do catálogo em uma experiência colaborativa, fomentando o engajamento da comunidade de leitores e auxiliando outros usuários na escolha de novos títulos. A interface exibe a avaliação média da comunidade e permite que o usuário edite ou delete suas próprias avaliações, promovendo transparência e interação.
Outra funcionalidade crucial para o engajamento é o mural de eventos culturais. Esta interface visa fortalecer o papel da biblioteca como um espaço de convivência social, permitindo que os usuários visualizem e confirmem presença em clubes de leitura, palestras e oficinas diretamente pelo smartphone. Essa integração digital incentiva o retorno presencial do usuário ao espaço físico, conectando a conveniência tecnológica à movimentação do patrimônio público municipal e promovendo a participação ativa na vida cultural da instituição. O mural apresenta os eventos planejados, categorizados e com informações de data e local.
Módulo do colaborador: modernização operacional
O perfil “Colaborador” foi concebido como um painel de gestão diária da biblioteca, substituindo os controles físicos e manuais por fluxos de trabalho automatizados e integrados diretamente com os leitores. A principal funcionalidade deste módulo é o gerenciamento completo do ciclo de vida dos empréstimos, desde a solicitação de reserva pelo leitor até a devolução do livro. Isso inclui a aprovação de reservas solicitadas remotamente, que são automaticamente convertidas em empréstimos ativos, e a deliberação sobre pedidos de renovação, além da execução da manutenção do catálogo, como cadastro, leitura e edição de livros e autores.
O fluxo integrado de reservas é um exemplo central da modernização operacional. Quando um leitor localiza uma obra no catálogo virtual e solicita a reserva, o sistema bloqueia temporariamente a disponibilidade do item e gera um alerta no painel administrativo do colaborador. Este visualiza as reservas pendentes de forma centralizada e, com a presença do leitor no balcão de atendimento para a retirada física, aprova a requisição. A arquitetura do sistema converte a reserva aprovada em um empréstimo ativo de forma atômica no banco de dados, calculando automaticamente a data de devolução com base nos prazos parametrizados pelo Administrador.
O aplicativo também suporta o fluxo tradicional de empréstimos, onde o leitor se dirige à biblioteca sem ter realizado uma reserva antecipadamente. Através da funcionalidade de Gerenciamento de Empréstimos, o colaborador pode realizar um empréstimo diretamente para o usuário, sem a necessidade de uma reserva prévia. Isso garante que os leitores que não utilizam o aplicativo para reservas possam continuar acessando os serviços da biblioteca de forma presencial, facilitando a transição para o novo sistema e garantindo a inclusão de todos os usuários.
Módulo do administrador: parametrização e escalabilidade
O perfil “Administrador” detém o acesso mais elevado do sistema, incluindo o gerenciamento de perfis e a inativação de contas. O grande diferencial deste módulo é o painel de parametrização de regras de negócio, que permite customizar variáveis críticas do sistema de forma dinâmica, sem a necessidade de reestruturação de código. Essa funcionalidade é crucial para a escalabilidade e adaptabilidade do software a diferentes realidades operacionais de cada biblioteca, garantindo que o sistema possa ser ajustado às políticas locais sem intervenção técnica.
A interface de configurações permite que o administrador defina regras de negócio locais em três eixos principais: regras de circulação, gestão de processos remotos e políticas de penalidades. No âmbito da circulação, é possível estipular a quantidade máxima de empréstimos simultâneos por usuário, os prazos padrão para novas retiradas e renovações, e o limite de vezes que um empréstimo pode ser renovado. Para a gestão de processos remotos, o sistema permite configurar o tempo limite de validade para reservas e o tempo hábil para avaliação de renovações pendentes. Em relação às penalidades, os parâmetros incluem a antecedência para alertas de devolução, o período de tolerância para atrasos e o valor diário de multas, com atualização automatizada.
Viabilidade econômica e custos operacionais
O protótipo foi desenvolvido com ferramentas que visam um custo baixo para as bibliotecas, sem comprometer a qualidade e as exigências de aplicativos modernos. O Flutter, sendo uma tecnologia de código aberto, não exige custos diretos de licença de software. Contudo, os custos de um projeto não se limitam às ferramentas de código, englobando também requisitos de hardware e taxas de publicação nas lojas de aplicativos. Para a compilação de aplicativos híbridos e a execução de emuladores, são recomendados equipamentos com processadores de múltiplos núcleos, ao menos 16 GB de memória RAM e armazenamento em unidade de estado sólido (SSD).
A distribuição do aplicativo nas lojas oficiais apresenta custos distintos. A publicação na Google Play Store requer uma taxa única de US$25,00 para registro de desenvolvedor. Já a Apple App Store opera sob o Apple Developer Program, com um custo recorrente de US$99,00 anuais. Além da anuidade, a compilação final e a assinatura do aplicativo para iOS exigem o sistema operacional macOS e a ferramenta proprietária Xcode. Para contornar o alto custo de aquisição de hardware Apple, o projeto previu a utilização de plataformas de Integração Contínua e Entrega Contínua (CI/CD) baseadas em nuvem, como Codemagic ou GitHub Actions.
Essas ferramentas de CI/CD oferecem máquinas virtuais macOS sob demanda, com um valor de centavos por minuto de uso, permitindo realizar o build e o envio para a App Store de forma automatizada. Essa estratégia transforma um alto custo de aquisição de equipamentos físicos em um baixo custo operacional de serviços em nuvem, tornando o projeto mais acessível para bibliotecas com orçamentos limitados. A escolha de tecnologias como Flutter e a utilização de serviços em nuvem demonstram a preocupação em oferecer uma solução de baixo custo e alta qualidade.
No que tange aos custos do backend e banco de dados, o Supabase oferece um plano gratuito (free) que atende às necessidades iniciais do projeto. Este plano entrega requisições de API ilimitadas, franquia mensal de 5 GB para tráfego de saída direto (egress) e 5 GB para tráfego de saída em cache (cached egress), além de 50.000 usuários ativos mensais, 500 MB de banco de dados e 1 GB de armazenamento de arquivos. O tráfego de saída direto contabiliza o volume de dados transferidos do banco de dados principal para os dispositivos dos usuários, enquanto o tráfego em cache refere-se à entrega de conteúdos estáticos, como imagens de capas de acervo, otimizando o carregamento.
Considerando que o consumo de dados do sistema de uma biblioteca municipal se baseia principalmente em requisições de baixo peso em formato JSON (consultas de catálogo, renovações e avaliações) e mídia restrita a imagens estáticas otimizadas, as franquias de tráfego oferecidas no plano gratuito do Supabase se mostram superdimensionadas para a demanda inicial e de médio prazo do projeto. Isso comprova a viabilidade econômica da arquitetura proposta, garantindo que a instituição possa operar, escalar o número de leitores e manter o sistema altamente disponível sem o risco de incorrer em custos adicionais imprevistos por excedente de tráfego. Caso seja necessário escalar, o Supabase oferece planos pagos, como o plano PRO de US$25,00 mensais, que expande significativamente os limites de usuários, tráfego e armazenamento.
Em síntese, os resultados da pesquisa e o desenvolvimento do protótipo funcional demonstram a viabilidade técnica e econômica de um aplicativo móvel para a modernização das bibliotecas físicas. As funcionalidades implementadas, validadas por colaboradores e especialistas, abordam tanto a eficiência operacional quanto o engajamento do público, oferecendo soluções práticas e de relativo baixo custo. A arquitetura flexível e a escolha de tecnologias de código aberto e serviços em nuvem permitem que as bibliotecas, especialmente as de pequenos centros urbanos, possam revitalizar seus espaços e serviços, facilitando o acesso remoto ao acervo e fomentando a interação da comunidade, respondendo diretamente ao objetivo geral do estudo.
4. Conclusão
O presente estudo buscou propor e analisar a viabilidade técnica e funcional de um aplicativo móvel como ferramenta para a modernização da gestão operacional e o aumento do engajamento de usuários de bibliotecas físicas. Verificou-se que o desenvolvimento de um Produto Mínimo Viável (MVP) demonstrou a capacidade de integrar a gestão operacional com interações sociais, elementos cruciais para a revitalização desses espaços. Os resultados da pesquisa qualitativa, obtidos junto a colaboradores de bibliotecas e especialistas do setor, indicaram uma percepção amplamente positiva sobre o potencial do aplicativo para estimular o uso das bibliotecas. Identificou-se como funcionalidades essenciais a consulta detalhada ao catálogo, a reserva e renovação remota de empréstimos, a publicação de avaliações de livros e o mural de eventos culturais. A arquitetura do sistema, concebida com tecnologias de código aberto e serviços em nuvem, comprovou a viabilidade econômica da solução, oferecendo um caminho de baixo custo para a transformação digital de bibliotecas, especialmente em pequenos centros urbanos.
Contudo, reconheceu-se que a amostra de respondentes, focada no interior de São Paulo, pode não representar a totalidade das realidades institucionais em nível nacional. Adicionalmente, a ausência de métricas de uso em escala real, devido ao recorte temporal da pesquisa, limitou a aferição do impacto direto da aplicação no fluxo presencial de usuários no curto prazo, uma vez que o protótipo não foi submetido à implantação em ambiente de produção. Para estudos futuros, sugere-se a execução de projetos-piloto em unidades municipais, visando a coleta de métricas de desempenho e a identificação das funcionalidades de maior adesão. Recomenda-se também o desenvolvimento do módulo de gamificação, um requisito altamente valorizado pelos participantes, mas que foi postergado para futuras iterações do software, priorizando a estabilidade das funcionalidades mais essenciais.
Referências Bibliográficas
Altin, S. 2024. Flutter-Clean Architecture. Disponível em: <https://medium.com/@semihaltin99/flutter-clean-architecture-8759ad0213dd>. Acesso em 06 de janeiro de 2026.
Carrança, T. 2022. Brasil perdeu quase 800 bibliotecas públicas em 5 anos. G1. Disponível em: <https://g1.globo.com/educacao/noticia/2022/07/16/brasil-perdeu-quase-800-bibliotecas-publicas-em-5-anos.ghtml>. Acesso em 27 de março de 2025.
Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). 2024. C2A – USUÁRIOS DE INTERNET – INDICADOR AMPLIADO. Disponível em: https://cetic.br/pt/tics/domicilios/2024/individuos/C2A/
Freua. S. 2022. Quase 800 bibliotecas públicas foram fechadas no Brasil em cinco anos. CNN. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/quase-800-bibliotecas-publicas-foram-fechadas-no-brasil-em-cinco-anos/>. Acesso em 27 de março de 2025.
Lashan, S. 2025. Feature-First vs Layered Architeture in Flutter. Disponível em: <https://medium.com/@sandarulashanherman/feature-first-vs-layered-architecture-in-flutter-a-practical-guide-7a7ace0139aa>. Acesso em 06 de janeiro de 2026.
Leite, A. 2017. Os desafios da era digital para as bibliotecas físicas: O caso Bodleiana em Oxford. Galoá. Disponível em: <https://galoa.com.br/blog/os-desafios-da-era-digital-para-bibliotecas-fisicas-o-caso-bodleiana-em-oxford/>. Acesso em 27 de março de 2025.
PostgreSQL, 2026. Documentação PostgreSQL. Disponível em: <https://www.postgresql.org/>. Acesso em 12 de abril de 2026.
Reno, N. 2025. Cloud Market Share Trends – Big Three Together Hold 63% while Oracle and the Neoclouds Inch Higher. Disponível em: <https://www.srgresearch.com/articles/cloud-market-share-trends-big-three-together-hold-63-while-oracle-and-the-neoclouds-inch-higher>. Acesso em 12 de abril de 2026
Supabase, 2026. Documentação Supabase. Disponível em: <https://supabase.com/docs>. Acesso em 28 de janeiro de 2026.
VENTEU, K. C.; PINTO, G. S. DESENVOLVIMENTO MÓVEL HÍBRIDO. Revista Interface Tecnológica, Taquaritinga, SP, v. 15, n. 1, p. 86-96, 2018. DOI: 10.31510/infa.v15i1.337. Disponível em: <https://revista.fatectq.edu.br/interfacetecnologica/article/view/337>. Acesso em: 8 jun. 2025.
Windmill, Eric. 2020. Flutter in action. Simon and Schuster, Nova York, Estados Unidos.
Zelkowitz, M. 1998. Role-based Access Control. p. 237-285. In: Sandhu, R. S. Advances in computers. Vol 46. Academic Press, Londres, Inglaterra.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Engenharia de Software do MBA USP/Esalq
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

