Artigo

30 de julho de 2026

Aplicação do Scrum para desenvolvimento de software em projetos de P&D: Desafios e Boas Práticas

Felipe Loran Rodrigues Azêdo; Ricardo Antônio Câmara da Silva

DOI: 10.22167/2675-6528-202600782

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A adoção de metodologias ágeis, especialmente o Scrum, tem se expandido no desenvolvimento de software, mas enfrenta atritos em ecossistemas de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) devido à imprevisibilidade inerente à inovação. O estudo analisou a aplicação do framework Scrum em equipes de desenvolvimento de software inseridas em projetos de P&D, buscando identificar seus desafios, oportunidades e propor boas práticas. Realizou-se uma pesquisa aplicada, exploratória e descritiva, com abordagem qualitativa, por meio da análise de 15 profissionais de alta senioridade técnica e estratégica. Os resultados revelaram um conflito latente entre a previsibilidade exigida por contratos de escopo fechado, comuns em leis de fomento, e a incerteza estrutural do P&D. Observou-se que o Scrum purista sofre desgaste, transformando cerimônias em rituais burocráticos. Contudo, constatou-se que a implementação de metodologias híbridas, aliadas a Sprints de descoberta e à redefinição de valor com foco no aprendizado validado, mitigou significativamente esses atritos, promovendo maior adaptabilidade. Concluiu-se que o framework contribui para a organização técnica, a comunicação e a inovação, desde que profundamente adaptado ao ecossistema de pesquisa, o que exige o alinhamento de expectativas institucionais e a formulação de contratos ágeis e flexíveis.

Palavras-chave: Desenvolvimento de Software; Inovação Tecnológica; Metodologias Ágeis; Metodologias Híbridas; Scrum.

1. Introdução

Nos últimos anos, o setor de desenvolvimento de software tem sido impulsionado pela crescente adoção de metodologias ágeis, que transformaram a forma como os projetos são gerenciados e executados. Dentre essas abordagens, o Scrum se destaca como um dos frameworks mais amplamente utilizados, reconhecido por sua capacidade de agilizar processos e promover a entrega de valor de forma contínua. Sua popularidade é evidenciada por estudos recentes que indicam que mais de setenta e nove por cento das equipes no Brasil o empregam em suas operações diárias (Fontana et al., 2022).

O Scrum é um framework ágil concebido para capacitar equipes e organizações a gerar valor por meio de soluções adaptativas para problemas complexos (Schwaber & Sutherland, 2020). Ele se fundamenta no empirismo, enfatizando o progresso iterativo e incremental, organizado em períodos curtos e fixos, conhecidos como Sprints, que geralmente duram de uma a quatro semanas. Durante cada Sprint, os três pilares essenciais do Scrum são aplicados rigorosamente: transparência, inspeção e adaptação. Esses pilares visam garantir que o time possua a autonomia necessária para que todo o desenvolvimento seja claro e permita ajustes contínuos do plano, conforme as demandas e situações do projeto.

A aplicação do Scrum é prevalente em diversos setores, incluindo empresas e instituições que atuam com pesquisa e desenvolvimento (P&D) de software. Muitas dessas entidades estão frequentemente ligadas ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e são incentivadas por políticas públicas de fomento à inovação tecnológica, como a Lei nº 11.196/2005, conhecida como Lei do Bem. Essa legislação permite que empresas privadas deduzam parte do imposto de renda ao investir em atividades de inovação, o que reduz custos e riscos associados a esses projetos (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, 2023). Por meio desse mecanismo, recursos financeiros são direcionados a institutos de P&D credenciados, responsáveis pela execução técnica dos projetos, que visam a criação de novos produtos, processos ou melhorias tecnológicas.

Contudo, o gerenciamento de projetos de P&D no Brasil tem sido tradicionalmente realizado por meio de metodologias preditivas, como o modelo cascata (waterfall). Nessas abordagens, o escopo é rigidamente definido e fechado no início do projeto, com o intuito de atender às exigências contratuais e de financiamento. Essa metodologia busca assegurar a previsibilidade e o controle rigoroso dos recursos e prazos, aspectos cruciais para a prestação de contas e conformidade, especialmente em projetos que recebem incentivos de políticas públicas (Pressman, 2011).

A rigidez inerente às metodologias preditivas, entretanto, configura um desafio significativo para a gestão eficaz de projetos de P&D, pois dificulta a adaptação às incertezas e mudanças que são intrínsecas ao desenvolvimento tecnológico e à inovação. Nesse contexto, o Scrum emerge como uma alternativa promissora, pois seu foco na flexibilidade, em ciclos iterativos e incrementais, permite lidar com a natureza dinâmica e incerta dos projetos de inovação, superando as limitações de um escopo fechado e facilitando a transformação contínua de ideias em soluções tangíveis (Schwaber & Sutherland, 2020; Rigby et al., 2016).

Diante desse cenário, torna-se essencial investigar a aplicação do Scrum em equipes de desenvolvimento de software inseridas em projetos de P&D. É fundamental compreender não apenas os benefícios que o framework pode trazer para a produtividade, a qualidade das entregas e a capacidade de adaptação dos times, mas também os desafios específicos e as boas práticas que podem otimizar seu uso. Tal investigação contribui para o avanço da inovação no contexto nacional e gera insights valiosos tanto para a academia quanto para a prática gerencial em institutos de P&D com características semelhantes (Carvalho, 2012).

Nesse sentido, a questão central que norteia este estudo é como aprimorar a aplicação do Scrum em equipes de desenvolvimento de software para projetos de Pesquisa e Desenvolvimento, de modo a maximizar os resultados e superar as dificuldades específicas desses ambientes. Assim, o objetivo geral deste trabalho é analisar a aplicação do framework Scrum em equipes de desenvolvimento de software inseridas em projetos de P&D, buscando identificar seus desafios, oportunidades e propor boas práticas para otimizar a gestão e a entrega de valor.

2. Material e Métodos

O presente estudo caracterizou-se como uma pesquisa aplicada, conforme a classificação de Gil (2019), que busca gerar conhecimentos para aplicação prática na solução de problemas específicos. Adicionalmente, foi de natureza exploratória e descritiva, com o propósito de aprofundar a familiarização com o fenômeno investigado e caracterizar as práticas observadas em campo, sem manipulação de variáveis.

A abordagem metodológica adotada foi qualitativa, privilegiando a análise das percepções, experiências e interpretações dos participantes, o que permitiu captar nuances do contexto organizacional estudado (Minayo, 2017). Essa escolha metodológica é aderente aos preceitos da pesquisa qualitativa, que reconhece o papel ativo e reflexivo do investigador na interpretação dos fenômenos.

A elaboração das boas práticas propostas neste estudo não se fundamentou exclusivamente na análise dos dados empíricos coletados. Ela incorporou, de forma complementar, a vivência prática e a imersão diária do pesquisador na gestão de times ágeis e na condução do framework Scrum em ambientes de desenvolvimento de software, conferindo maior profundidade e validade prática ao diagnóstico e às soluções propostas (Flick, 2018).

A pesquisa foi realizada em um instituto de pesquisa e desenvolvimento que atua com projetos de desenvolvimento de software no contexto de P&D. Participaram do estudo 15 profissionais integrantes de equipes que utilizam o framework Scrum em seu processo de desenvolvimento, todos com alta senioridade técnica e estratégica.

Os participantes incluíram desenvolvedores, profissionais de qualidade (QA – Quality Assurance), designers de experiência do usuário (UX – User Experience), arquitetos e Product Owners (Dono do Produto). A seleção ocorreu por amostragem intencional, considerando a experiência prévia e a atuação direta em projetos de P&D que utilizam o Scrum como framework de gestão.

A caracterização dos participantes revelou que a maioria possuía mais de 5 anos de atuação com Scrum e em projetos de P&D, o que conferiu alta confiabilidade e robustez aos achados qualitativos. Essa expressiva senioridade da amostra permitiu a emergência de observações críticas e sistêmicas sobre os atritos metodológicos.

A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário estruturado, elaborado pelo pesquisador e aplicado na plataforma Google Forms. O instrumento foi composto predominantemente por questões fechadas de múltipla escolha e escalas de concordância, complementadas por duas questões abertas.

As questões fechadas buscaram levantar percepções sobre aspectos como definição de escopo, planejamento, adaptação do Scrum, influência contratual, participação do cliente e contribuição do framework para a inovação em projetos de P&D. As questões abertas tiveram como finalidade captar os principais desafios percebidos e as práticas ou ajustes considerados relevantes para aprimorar o uso do Scrum.

O questionário foi aplicado de forma remota, garantindo o anonimato dos participantes e respeitando os preceitos éticos da pesquisa com seres humanos, mediante consentimento informado. O tempo médio de resposta foi de aproximadamente cinco minutos, o que favoreceu a participação dos profissionais sem impacto significativo em suas rotinas de trabalho.

Os dados coletados foram analisados por meio da análise de conteúdo, conforme a metodologia proposta por Bardin (2016), amplamente utilizada em pesquisas qualitativas. A análise seguiu as três etapas clássicas do método, iniciando pela pré-análise.

A pré-análise consistiu na leitura flutuante das respostas, com o objetivo de familiarização com o corpus e identificação inicial de sentidos recorrentes relacionados à aplicação do Scrum em projetos de P&D. Essa fase buscou organizar o material empírico e estabelecer as bases para a interpretação sistemática das informações coletadas.

Na etapa de exploração do material, os dados foram submetidos a um processo sistemático de codificação. Unidades de sentido foram identificadas, agrupadas e organizadas em categorias temáticas emergentes, como escopo do projeto, planejamento, adaptação do Scrum, influência contratual, inovação e desafios percebidos, conforme orientação de Bardin (2016).

O tratamento dos resultados e interpretação foi a etapa final, na qual os achados foram analisados de forma interpretativa e discutidos à luz do referencial teórico sobre Scrum, metodologias ágeis e gestão de projetos de P&D. As questões fechadas foram utilizadas de maneira descritiva, servindo como apoio à interpretação qualitativa e à validação das categorias identificadas, sem aplicação de técnicas estatísticas inferenciais.

O estudo seguiu os princípios éticos da pesquisa científica, assegurando o anonimato, a confidencialidade das informações e o uso dos dados exclusivamente para fins acadêmicos. Nenhuma informação que permitisse a identificação individual ou institucional dos participantes foi divulgada.

3. Resultados e Discussão

A análise dos dados coletados revelou uma série de percepções e experiências sobre a aplicação do framework Scrum em equipes de desenvolvimento de software inseridas em projetos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). A pesquisa contou com a participação de quinze profissionais, todos atuantes em equipes que empregam o Scrum em projetos de P&D. A amostra incluiu nove desenvolvedores, dois arquitetos de software, dois Product Owners, uma designer de experiência do usuário (UX) e um analista de teste (QA), com apenas um participante sendo do gênero feminino. A senioridade dos respondentes, muitos com mais de cinco anos de experiência em Scrum e P&D, conferiu robustez aos achados qualitativos, permitindo a identificação de atritos metodológicos sistêmicos.

A pré-análise dos dados, realizada conforme a metodologia de Bardin (2016), permitiu organizar o material empírico e estabelecer as bases para a interpretação sistemática das informações. A leitura flutuante das respostas possibilitou uma visão global e a identificação de sentidos recorrentes, que foram posteriormente delimitados no corpus da pesquisa. As questões abertas foram cruciais para captar os desafios percebidos e as boas práticas sugeridas pelos participantes, enquanto as questões fechadas serviram de apoio interpretativo para contextualizar os discursos e fortalecer as inferências qualitativas.

Exploração do material: codificação e categorização

Categoria 1 – Estrutura do escopo em projetos de P&D

Os resultados indicaram uma predominância de escopos total ou parcialmente fechados nos projetos de P&D analisados. Do total de participantes, doze votaram que o escopo era “Parcialmente fechado” ou “Totalmente fechado” desde o início do projeto, enquanto apenas dois votaram em escopo “Aberto e evolutivo” e um optou por “Não sei informar”. Essa configuração sugere uma rigidez inicial que contrasta com a natureza adaptativa do Scrum. Embora mudanças ocorram ao longo do desenvolvimento, elas se mostraram restritas e condicionadas, com a troca de itens sendo permitida “na maioria das vezes”, mas sem uma flexibilidade contínua ou plena.

A necessidade de mudança de escopo durante o projeto foi amplamente reconhecida pelos participantes. Onze deles votaram que as mudanças ocorrem “Frequentemente”, enquanto três votaram “Ocasionalmente” e apenas um indicou “Raramente”. Essa frequência de mudanças, mesmo em um contexto de escopo predefinido, ressalta a natureza dinâmica dos projetos de P&D. Contudo, a viabilidade prática da troca ou mudança de escopo durante o projeto foi percebida de forma variada. Quatro participantes consideraram a mudança “Sempre” viável, oito votaram que era viável “Na maioria das vezes” e quatro afirmaram que era “Raramente” viável. Esses achados evidenciam um conflito latente entre a imprevisibilidade inerente à inovação e a previsibilidade exigida por contratos de escopo fechado, comuns em leis de fomento.

Categoria 2 – Planejamento antecipado × empirismo

Observou-se que o planejamento de releases e entregas nos projetos de P&D ocorre de forma antecipada, o que se alinha mais a uma lógica preditiva do que ao empirismo do Scrum. Embora parte dos respondentes reconheça que o aprendizado adquirido ao longo do projeto influencia ajustes posteriores, esse aprendizado raramente redefine completamente o plano inicial. Essa manutenção de uma lógica preditiva, mesmo em um ambiente que busca agilidade, indica uma tensão entre as abordagens. Doze participantes votaram que o escopo é “Parcialmente planejado com antecedência”, enquanto apenas três responderam que não é, reforçando a prevalência de um planejamento inicial que busca prever o futuro, em detrimento da adaptação contínua.

Essa prática de planejamento antecipado contrasta diretamente com os princípios do empirismo defendidos por Schwaber e Sutherland (2020), que enfatizam a inspeção e adaptação contínuas. A rigidez do planejamento inicial, impulsionada por exigências contratuais e de financiamento, limita a capacidade do time de se adaptar plenamente às descobertas e mudanças inerentes ao P&D. O aprendizado, embora reconhecido, não se traduz em uma reorientação substancial do plano, mantendo o projeto em uma trajetória mais linear e menos flexível do que o ideal para a inovação.

Categoria 3 – Aplicação adaptada do Scrum

A maioria dos participantes percebe a aplicação do Scrum como adaptada ao contexto organizacional, principalmente devido às exigências contratuais e institucionais. Onze participantes votaram que o Scrum é aplicado de forma “Adaptada ao contexto”, três votaram que é aplicado “Apenas formal/cerimonial” e apenas um votou que é adotado de forma “Integral (próximo ao guia oficial)”. Isso sugere que o Scrum purista, conforme descrito no Scrum Guide (Schwaber & Sutherland, 2020), sofre desgaste e é modificado para coexistir com as realidades do P&D.

A aplicação cerimonial, mencionada por alguns, indica que as práticas do Scrum são realizadas mais por obrigação do que por convicção em seus benefícios intrínsecos de inspeção e adaptação. Essa adaptação, embora necessária para a sobrevivência do framework em ambientes regulados, pode comprometer a eficácia de seus pilares fundamentais. A flexibilidade do Scrum é, paradoxalmente, limitada pelas estruturas que ele busca otimizar, resultando em um modelo híbrido que nem sempre aproveita todo o potencial ágil.

Categoria 4 – Cerimônias e melhoria contínua

As cerimônias mais valorizadas e frequentemente praticadas pelas equipes são a Daily Scrum e a Sprint Planning. Treze participantes indicaram que o Planning tem impacto no cotidiano, e doze apontaram o Daily Scrum. Em contrapartida, as Retrospectivas nem sempre resultam em mudanças efetivas nos processos, com apenas um participante votando que elas geram mudanças “Sempre”, dez votando “Às vezes” e quatro votando “Raramente”. Essa percepção de eficácia limitada das Retrospectivas é corroborada por relatos qualitativos, como o de um UX Designer com mais de três anos de experiência, que afirmou: “As retrospectivas poderiam ter mais impacto. A sensação é que os pontos que são levantados durante essa cerimônia raramente são levados em consideração para uma possível mudança”.

Essa observação evidencia uma quebra no pilar de “adaptação” do Scrum, transformando a cerimônia em um desabafo sem um plano de ação prático. As Reviews e Retrospectivas, que deveriam ser momentos cruciais para inspeção e adaptação, perdem seu potencial transformador quando não são seguidas por ações concretas. O fato de apenas oito participantes terem votado que as Reviews e Retrospectivas têm impacto no dia a dia do time, em comparação com o Planning e Daily Scrum, reforça a ideia de que a melhoria contínua é percebida como limitada em alguns contextos, comprometendo o ciclo de feedback e aprendizado.

Categoria 5 – Influência do cliente e do contrato

As respostas dos participantes evidenciaram que o cliente exerce forte influência sobre as decisões do projeto, especialmente no que diz respeito ao escopo e às prioridades. Doze participantes votaram que as exigências do cliente influenciam as decisões do time “Fortemente”, enquanto três votaram “Moderadamente”. A ausência de participação ativa do cliente é percebida como prejudicial, com quatorze votantes afirmando que a ausência do cliente nas Reviews e demais reuniões do cotidiano influencia negativamente o desenvolvimento, pois não há feedbacks contínuos. Apenas um votou que não influencia.

A cobrança do cliente está, em grande parte, vinculada ao cumprimento do escopo previamente acordado. Quatro participantes votaram que o cliente cobra a entrega de acordo com o escopo definido “Frequentemente”, seis votaram “Às vezes”, quatro votaram que a cobrança é “Adaptativa às entregas e ao escopo” e um votou que o cliente “Não faz cobranças”. Essa rigidez contratual e a expectativa de um escopo fixo criam um ambiente desafiador para a aplicação plena do Scrum, que pressupõe flexibilidade e adaptação contínua. A falta de feedback contínuo devido à ausência do cliente prejudica a validação e gera retrabalho, impactando a eficácia do processo ágil.

Categoria 6 – Inovação em ambiente de P&D

O Scrum é percebido como um facilitador da inovação em grau moderado ou elevado, embora alguns participantes relatem que a burocracia excessiva e as exigências documentais podem limitar esse potencial. Seis participantes votaram que o Scrum contribui “Muito” para a inovação em projetos de P&D, e outros seis votaram que contribui “Moderadamente”. Dois votaram que contribui “Pouco” e um votou que “Não contribui”. A documentação, por sua vez, é vista de forma ambígua: sete participantes votaram que “Contribui” para o desenvolvimento, quatro votaram que “Atrapalha”, dois que é “Indiferente” e dois que “Não sabem responder”.

A tensão entre a formalidade do P&D e a prática ágil fica clara na visão da área de Qualidade (QA). Um profissional sênior pontuou que “as burocracias e como o projeto é escrito no papel para aderir ao P&D na prática sabemos que é completamente diferente e acaba sendo adaptado”. Essa fala reforça a tese de que a documentação exigida muitas vezes atende mais a um compliance institucional e fiscal, como a Lei do Bem, do que à real necessidade técnica do desenvolvimento, forçando o time a operar com processos paralelos (o formal e o real). Essa dualidade entre o que é exigido formalmente e o que é praticado para inovar demonstra a necessidade de conciliar rigor administrativo com flexibilidade ágil.

Doze participantes concordam ou concordam totalmente que o Scrum se adequa às características do P&D, enquanto apenas um discorda e um se mantém neutro. Isso indica uma aceitação geral da adaptabilidade do Scrum, mesmo que essa adaptação seja imposta pelas condições do ambiente de P&D. A capacidade do framework de ser moldado, ainda que sob pressão, permite que ele continue sendo uma ferramenta relevante para a organização técnica e a comunicação, mesmo em contextos de alta complexidade e incerteza.

Categoria 7 — Desafios percebidos na aplicação do Scrum

A questão aberta sobre o maior desafio do Scrum em projetos de P&D revelou desafios recorrentes, como burocracia, rigidez do escopo, conflito entre incerteza e contratos, limitações de tempo, alinhamento de stakeholders e adaptação restrita do Scrum. O desafio predominante reside na incompatibilidade estrutural entre a alta incerteza dos projetos de P&D e os pressupostos de previsibilidade, planejamento e incrementalidade do Scrum. A recorrência de menções à indefinição de escopo, à dificuldade de estimar entregas e à pressão por prazos fixos indica que o framework, quando aplicado de forma pouco adaptativa, tende a ser percebido como limitador do caráter exploratório do P&D.

Essa limitação desloca o foco do aprendizado e da validação de hipóteses para o cumprimento formal de sprints e incrementos, o que desvirtua a essência ágil. Em um segundo nível analítico, surgem com frequência os desafios relacionados à gestão do tempo e à dinâmica das mudanças, especialmente no que se refere à instabilidade do backlog, à realização parcial ou ausência de cerimônias e ao impacto dessas variáveis na motivação e na organização das equipes. Desafios menos citados, como as burocracias institucionais e as dificuldades específicas de estimativa em áreas especializadas, contribuem para a compreensão de como fatores organizacionais e culturais podem acentuar a inadequação do Scrum quando não há alinhamento entre expectativas, contrato, processo e natureza do trabalho de P&D. Há um conflito estrutural entre a natureza exploratória do P&D e os mecanismos de controle contratual.

Categoria 8 – Boas práticas e ajustes sugeridos

As respostas sobre ajustes e boas práticas convergiram para mitigar os atritos metodológicos, agrupadas em três frentes estratégicas. A primeira, “Reorientação do conceito de valor e aprendizado”, representou aproximadamente trinta e três por cento das sugestões. Pelo menos cinco participantes, incluindo arquitetos e desenvolvedores experientes, sugeriram a adoção de ciclos curtos de aprendizado e a redefinição do conceito de entrega para além de funcionalidades prontas. As soluções práticas envolvem formalizar o “aprendizado validado” como uma entrega real, criando pequenas tarefas de estudo no início de cada Sprint para validar requisitos, e realizando “sprints de descoberta” voltadas especificamente à pesquisa exploratória.

A segunda frente, “Disciplina Cerimonial e Engajamento”, correspondeu a cerca de vinte e seis por cento das sugestões. Quatro profissionais enfatizaram a necessidade de realizar os eventos fundamentais corretamente e resgatar o valor do framework, apontando a recorrência de críticas à baixa efetividade das retrospectivas e à execução parcial das cerimônias. Outras sugestões fortes incluíram garantir uma maior participação do cliente ao longo do processo e destacar o fortalecimento do papel do Scrum Master, visto como fundamental na facilitação, alinhamento e adaptação do framework, seja pela defesa ativa do Scrum frente aos stakeholders, seja pelo apoio ao time na gestão da incerteza e das mudanças de contexto.

A terceira frente, “Gestão de Backlog e Flexibilidade”, representou aproximadamente vinte por cento das sugestões. Um terceiro grupo apontou a necessidade urgente de um planejamento flexível, com metas menores que acomodem as incertezas sem forçar mudanças abruptas de contexto no meio das Sprints de desenvolvimento. Essa quantificação evidencia que a principal dor das equipes não está na execução técnica do software, mas no tratamento metodológico da incerteza. Fica claro que a aplicação de metodologias puristas pode ser insuficiente para ecossistemas de P&D financiados por leis de incentivo, que frequentemente exigem previsibilidade contratual.

Nesse cenário, evidencia-se a necessidade de práticas híbridas, nas quais o Scrum é reinterpretado como um instrumento de aprendizado contínuo e validação de hipóteses, e não apenas como um mecanismo de controle de escopo, prazos e entregas. Em uma abordagem híbrida, a instituição pode utilizar modelos preditivos tradicionais em sua camada macro de gestão para satisfazer amarras contratuais e prestações de contas de escopo pré-definido. Em contrapartida, na camada operacional do time de desenvolvimento, aplica-se um “Scrum adaptado” focado em redução empírica de riscos. A incorporação formal de spikes investigativos e das Sprints de experimentação recomendadas torna o modelo mais aderente à natureza exploratória dos projetos de P&D, conciliando o rigor administrativo exigido pelos stakeholders com a agilidade necessária para inovar.

Tratamento dos resultados e interpretação

Os achados da pesquisa, analisados à luz da literatura sobre Scrum e gestão de projetos em ambientes de P&D, revelam uma tensão fundamental. A predominância de escopos fechados e o planejamento antecipado nos projetos de P&D contrastam com os princípios do empirismo defendidos por Schwaber e Sutherland (2020), especialmente no que se refere à adaptabilidade e à inspeção contínua. Essa observação corrobora estudos que indicam a necessidade de ajustar metodologias ágeis em contextos complexos e altamente regulados (Rigby, Sutherland & Takeuchi, 2016).

Em projetos de P&D com escopos rígidos e forte influência contratual, o Scrum frequentemente opera como uma abordagem híbrida, combinando elementos preditivos, como o modelo cascata (waterfall), com práticas ágeis. Essa constatação é consistente com a literatura que aponta a necessidade de adaptação das metodologias ágeis em ambientes regulados (Pressman, 2011). A ênfase nas cerimônias operacionais, como Daily Scrum e Sprint Planning, em detrimento das Retrospectivas, sugere oportunidades de melhoria no ciclo de feedback e aprendizado contínuo, essenciais para a adaptação e a inovação.

Os dados reforçam que o Scrum contribui para a organização e comunicação das equipes, mas não elimina, por si só, os desafios inerentes aos projetos de P&D. Esses desafios incluem a elevada incerteza na definição de requisitos, a rigidez do escopo contratual, a pressão por prazos e entregas previsíveis, as limitações impostas por burocracias e a participação irregular do cliente. Nesse sentido, evidencia-se a necessidade de abordagens híbridas que conciliem mecanismos de controle contratual com maior flexibilidade para experimentação, aprendizado contínuo e inovação, permitindo que o Scrum seja aplicado de forma mais coerente com a natureza exploratória do P&D.

Para sintetizar os achados, identificaram-se barreiras, problemas de processo, facilidades e boas práticas, além de outros pontos relevantes. As barreiras e dificuldades incluem o choque de incertezas, que é o conflito estrutural entre a incerteza exploratória do P&D e a necessidade de previsibilidade; estimativas complexas, que dificultam o orçamento de atividades puramente investigativas; e o excesso de burocracia, que engessa o processo e limita o potencial ágil. Esses elementos representam obstáculos significativos para a implementação plena do Scrum.

Os problemas de processo observados envolvem cerimônias ritualísticas, onde o Scrum é aplicado “para cumprir tabela” sem refletir a essência ágil; a ausência do cliente, que resulta na falta de feedback contínuo e prejudica a validação, gerando retrabalho; e retrospectivas ineficazes, nas quais os pontos levantados raramente se convertem em mudanças práticas. Essas questões processuais indicam uma lacuna na aplicação dos pilares de inspeção e adaptação do Scrum, comprometendo a melhoria contínua e a capacidade de resposta a mudanças.

As facilidades e boas práticas identificadas incluem a reinterpretação de “entrega”, tratando o “aprendizado validado” como entregas reais do projeto; a adoção de Sprints de Descoberta, focadas em pesquisa exploratória e tarefas de estudo (spikes); e a implementação de metodologias híbridas, que combinam gestão preditiva no nível macro com Scrum adaptado no micro. Outros pontos relevantes são o papel do Scrum Master, que deve atuar como um facilitador que defenda a metodologia ágil, e a ambiguidade da documentação, sobre a qual a equipe possui visões divergentes quanto ao seu peso e utilidade. Esses achados, em conjunto, demonstram que a aplicação do Scrum em P&D exige uma adaptação profunda e estratégica para maximizar seus benefícios e superar os desafios inerentes a esse ambiente.

4. Conclusão

O presente estudo analisou a aplicação do framework Scrum em equipes de desenvolvimento de software inseridas em projetos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), buscando identificar seus desafios, oportunidades e propor boas práticas. Verificou-se um conflito estrutural entre a previsibilidade exigida por contratos de escopo fechado, comuns em leis de fomento, e a incerteza inerente ao P&D. Observou-se que o Scrum purista sofre desgaste, transformando suas cerimônias em rituais burocráticos, o que compromete a adaptabilidade. Contudo, constatou-se que a implementação de metodologias híbridas, aliadas a Sprints de descoberta e à redefinição de valor com foco no aprendizado validado, mitigou significativamente esses atritos. O framework contribui para a organização técnica, a comunicação e a inovação, desde que profundamente adaptado ao ecossistema de pesquisa, exigindo o alinhamento de expectativas institucionais e a formulação de contratos ágéis e flexíveis.

Em termos de contribuições, este trabalho preencheu uma lacuna na literatura ao evidenciar os limites da aplicação de frameworks ágeis em ambientes de incerteza estrutural, demonstrando a necessidade de reinterpretação dos pilares preditivos em contextos de pesquisa. Praticamente, a pesquisa ofereceu um conjunto de soluções acionáveis e metodologias híbridas para o cotidiano das equipes e da gestão, com forte aderência à realidade de outros institutos de inovação no Brasil. Apesar da robustez dos resultados, o estudo apresentou limitações, pois se delimitou a um contexto específico, utilizando uma amostragem focada majoritariamente na visão de profissionais técnicos e de execução em apenas dois times e em uma única empresa, não contemplando integralmente a percepção de executivos ou clientes institucionais. Para trabalhos futuros, recomenda-se a investigação de modelos de contratação ágil específicos para editais de P&D, contemplando a perspectiva estratégica dos clientes, e o acompanhamento empírico e longitudinal de métricas de produtividade em times que aplicam Sprints exclusivas de descoberta, visando quantificar os ganhos reais dessa abordagem na redução de incertezas.

Referências Bibliográficas

BARDIN, L. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016.

CARVALHO, R. R. Aplicação do método ágil Scrum no desenvolvimento de software. Revista Gestão & Projetos, 2012. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/gp/a/34xH953TFwLPYDB9BYdJghL.> Acesso em: 26 out. 2025.

FLICK, U. Introdução à pesquisa qualitativa. Porto Alegre: Artmed, 2018.

Fontana, R. M. et al. (2022). A Countrywide Descriptive Survey of Agile Software Development Adoption in Brazil. Springer.

GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2019.

MINAYO, M. C. S. (Org.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 37. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.

MINISTÉRIO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO (MCTI). Políticas e incentivos para Pesquisa e Desenvolvimento no Brasil. 2023. Disponível em: <https://www.gov.br/mcti/pt-br>. Acesso em: 04 out. 2025.

PRESSMAN, R. S. Engenharia de Software – Uma abordagem profissional. 7. ed. Rio de Janeiro: McGraw-Hill, 2011.

RIGBY, D. K.; SUTHERLAND, J.; TAKEUCHI, H. Embracing Agile. Harvard Business Review, 2016. Disponível em: <https://hbr.org/2016/05/embracing-agile>. Acesso em: 23 out. 2025.

SCHWABER, K.; SUTHERLAND, J. The Scrum Guide. Scrum.org, 2020. Disponível em: <https://scrumguides.org/scrum-guide.html>. Acesso em: 04 out. 2025.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Engenharia de Software do MBA USP/Esalq

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26 de agosto de 2026

Fomento à liderança de mulheres por meio da gestão estratégica de partes interessadas

A persistente sub-representação de mulheres em cargos de liderança revelou limitações nas estratégias institucionais de promoção da igualdade de gênero, destacando a necessidade de abordagens mais integradas entre gestão de projetos e negociação estratégica. O estudo objetivou analisar como estratégias de negociação e engajamento de partes interessadas fomentaram o compromisso institucional com políticas que impulsionam a liderança feminina, e propôs uma matriz estratégica orientada por uma perspectiva de gênero. Adotou-se uma abordagem de métodos mistos, de natureza convergente e articulação epistemológica crítica-transformativa, que combinou análise documental, estudos de caso institucionais e uma entrevista semiestruturada com uma líder feminina, seguida de análise temática e triangulação de dados para aumentar a robustez interpretativa. Os resultados indicaram que organizações que institucionalizaram práticas de governança, estabeleceram metas mensuráveis e incorporaram partes interessadas como participantes ativos demonstraram maior capacidade de converter compromissos discursivos em ações estruturadas. Evidenciou-se, ainda, que a integração entre negociação estratégica e gestão de partes interessadas potencializou a sustentabilidade das iniciativas de equidade de gênero. Concluiu-se que a implementação de uma matriz estratégica, denominada Matriz Estratégica de Engajamento de Stakeholders com foco em gênero (MEES-G), configurou-se como uma ferramenta de gestão relevante para fortalecer o compromisso institucional e facilitar transformações organizacionais consistentes, oferecendo orientação eficaz a gestores públicos e privados na implementação de políticas inclusivas.

Palavras-chave: Equidade; Governança; Inclusão organizacional; Representatividade; Transformação organizacional.

26 de agosto de 2026

Transformação do Modelo Comercial em Serviços Linguísticos para Maior Previsibilidade de Receita

A busca por previsibilidade de receita e maior controle sobre o desempenho comercial tem se tornado um desafio relevante na indústria de serviços linguísticos, caracterizada por alta variabilidade de demanda e modelos historicamente baseados em volume de serviços. Neste contexto, o estudo teve como objetivo analisar a reestruturação do modelo comercial de uma empresa do setor, com foco na transição de uma abordagem orientada à receita faturada para um modelo baseado na formalização de contratos e na previsibilidade de receita potencial. A pesquisa foi conduzida por meio de pesquisa-ação entre maio de 2024 e março de 2026, utilizando dados quantitativos provenientes de sistemas internos e dados qualitativos obtidos por observação participante e entrevistas com profissionais-chave. Os resultados quantitativos indicaram que a meta trimestral de contratos foi superada, atingindo 106% no primeiro trimestre de 2026, e os contratos firmados entre o final de 2025 e o primeiro trimestre de 2026 resultaram em uma projeção de receita de US$ 1.230.500, equivalente a aproximadamente 88% da meta anual, evidenciando aumento na previsibilidade da receita potencial. Qualitativamente, os dados apontaram maior clareza na avaliação da performance comercial, maior transparência na identificação dos fatores que impactam a conversão de contratos em receita e melhoria na integração entre as áreas envolvidas. Concluiu-se que a adoção de um modelo baseado em contratos contribui para uma gestão mais eficiente, previsível e orientada à geração sustentável de receita.

Palavras-chave: Contratos comerciais; Gestão comercial; Modelo de vendas; Pesquisa-ação; Serviços linguísticos.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

24 de agosto de 2026

Do Mundo à Mente: o Impacto Intercultural na Neuroplasticidade

Um estudo investigou a associação entre experiências interculturais e mudanças cognitivas autorrelatadas em adultos brasileiros, à luz do conceito de neuroplasticidade. A pesquisa caracterizou-se como exploratória, de abordagem mista, e foi composta por revisão bibliográfica narrativa e levantamento empírico. Este último foi realizado por meio de questionário online aplicado a 33 participantes que vivenciaram experiências em diferentes países. Coletaram-se dados sociodemográficos, características das vivências internacionais e autoavaliações relacionadas a funções executivas, aprendizagem, memória, atenção e comunicação social. Os resultados indicaram predominância de percepções positivas de mudanças cognitivas, especialmente nos domínios da flexibilidade cognitiva, planejamento, tomada de decisão, aprendizagem e competências comunicativas. A maioria dos participantes relatou a manutenção dessas mudanças ao longo do tempo, associando-as principalmente à duração da experiência, à necessidade de adaptação e ao contato intercultural direto. Os achados sugerem que experiências interculturais constituem contextos de estimulação cognitiva complexa, potencialmente associados a processos de reorganização funcional em múltiplos domínios cognitivos na vida adulta.

Palavras-chave: Adaptação cognitiva; Adaptação cultural; Aprendizagem; Flexibilidade cognitiva; Funções executivas.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

24 de agosto de 2026

Estudo Comparativo: o Conhecimento Docente sobre Neuroplasticidade e Práticas Pedagógicas na Rede Direta e Indireta

A primeira infância constitui um período crítico de plasticidade neural, no qual a qualidade das intervenções pedagógicas determina a arquitetura cerebral e o desenvolvimento integral da criança. O presente estudo teve como objetivo comparar o conhecimento docente sobre neuroplasticidade e sua aplicação prática em unidades de educação infantil de administração direta e indireta na cidade de São Paulo. A metodologia consistiu em um estudo de caso descritivo com abordagem mista, no qual foram aplicados questionários de autopercepção com docentes e realizada uma análise documental de projetos políticos pedagógicos, relatórios de desenvolvimento de alunos e diários de bordo. Os resultados indicaram que, embora ambas as redes tenham executado práticas neurocompatíveis, a Rede Direta apresentou maior intencionalidade pedagógica e segurança técnica 20% superior na identificação de marcos do desenvolvimento, fator diretamente associado à maior carga horária de formação continuada. O estudo evidenciou que a formação continuada atuou como um divisor entre a prática intuitiva e a mediação baseada em evidências. Concluiu-se que o acesso ao saber neurocientífico e a equiparação dos tempos de reflexão docente são fundamentais para garantir maior equidade no desenvolvimento infantil e a eficácia das políticas públicas de educação em territórios de vulnerabilidade.

Palavras-chave: Educação Infantil; Formação Docente; Neurociência Aplicada; Primeira Infância; Redes de Ensino.

24 de agosto de 2026

Precificação Baseada em Valor como Estratégia Competitiva Frente ao Modelo Orientado por Custos

A gestão estratégica de preços consolidou-se como fator determinante para a sustentabilidade e competitividade em mercados industriais, onde a transição de modelos baseados em custos para estratégias orientadas ao valor representa um desafio cultural e operacional crítico. Este estudo teve como objetivo comparar as práticas de precificação em duas unidades industriais do setor business-to-business (B2B), analisando como o alinhamento com a estratégia baseada em valor impacta a sustentabilidade do negócio. Para tanto, investigou-se uma unidade operacional e uma unidade que recentemente descontinuou suas atividades, buscando identificar correlações entre a gestão de preços e a viabilidade competitiva. Adotou-se uma abordagem qualitativa com elementos comparativos, a partir de entrevistas semiestruturadas aplicadas a gestores de duas empresas do setor metalmecânico, utilizando questões fechadas em escala Likert e perguntas abertas organizadas em sete dimensões analíticas relacionadas à maturidade em precificação. Os resultados evidenciaram que a empresa em operação apresentou maior estruturação de processos, melhor integração entre áreas, uso mais frequente de indicadores e ambiente cultural mais favorável à sustentação de preços com base no valor entregue ao cliente. Em contraste, a empresa descontinuada demonstrou fragilidades na formalização da precificação, baixa integração interfuncional, limitações na comunicação de valor e forte predominância de uma cultura orientada por custos. O estudo reforçou que a adoção da precificação baseada em valor requer a institucionalização de processos interfuncionais e governança para garantir a perenidade organizacional frente à pressão competitiva.

Palavras-chave: Concorrência; Cultura; Governança; Liderança.

24 de agosto de 2026

Modelo Preditivo de Risco Reputacional Baseado em Textos Jornalísticos

A reputação corporativa é um ativo intangível crítico, cuja volatilidade na era digital torna as organizações suscetíveis a crises por exposições midiáticas negativas. O estudo desenvolveu um modelo preditivo de risco reputacional para identificar se variáveis da cobertura de mídia, como volume, sentimento e léxico, atuam como precursores de danos severos. A metodologia fundamentou-se na coleta de dados via Web Scraping de notícias sobre eventos de risco ocorridos entre 2023 e 2025. O processamento utilizou Processamento de Linguagem Natural (NLP) para análise de sentimento e feature engineering. A modelagem consistiu em uma tarefa de classificação binária supervisionada, com o target de dano grave determinado por proxies quantificáveis, como impactos financeiros e penalidades regulatórias. Foram comparados os algoritmos Regressão Logística, Random Forest e XGBoost, além da implementação de um modelo Ensemble, em ambiente Python, validados pelas métricas AUC-ROC e F1-Score. Os resultados apontaram a superioridade da abordagem conjunta (Ensemble), que alcançou F1-Score de 0.878 e Recall de 85.4%, e a viabilidade de estimar a probabilidade de crises e estabelecer limiares de risco acionáveis. Comprovou-se a eficácia da integração entre NLP e Machine Learning para a mitigação proativa de riscos corporativos, oferecendo uma ferramenta de suporte à decisão para equipes de comunicação corporativa e gestão de riscos.

Palavras-chave: Análise de Sentimentos; Aprendizado de Máquina; Danos à reputação; Modelagem de Dados Históricos; Processamento de Linguagem Natural (PLN).

Compliance E Esg

24 de agosto de 2026

Liderança Feminina Negra no Brasil: como Políticas Corporativas de Diversidade Apoiam Trajetórias de Sucesso

O presente estudo analisou como as políticas corporativas de diversidade e inclusão influenciaram as trajetórias profissionais de mulheres negras que ocupam cargos de liderança no Brasil. O estudo buscou compreender as experiências e percepções dessas profissionais em relação às práticas organizacionais que moldaram seu desenvolvimento e ascensão. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, descritiva e aplicada, e coletou dados por meio de levantamento de campo, utilizando questionário semiestruturado com 30 mulheres negras em posições de liderança. Os resultados revelaram que a maioria das participantes possuía alta qualificação acadêmica, atuava predominantemente na região Sudeste e ocupava cargos intermediários de liderança, como supervisão e coordenação. Observou-se a coexistência de trajetórias recentes e consolidadas, indicando avanços na inserção de mulheres negras em liderança, mas também a persistência de limites estruturais que dificultaram a progressão para níveis hierárquicos superiores. Esses achados indicaram que, embora as políticas de diversidade e inclusão fossem relevantes, seus efeitos mostraram-se insuficientes quando não articulados a transformações organizacionais mais amplas voltadas à equidade racial e de gênero, sugerindo que o esforço individual emergiu como estratégia central de trajetória em contextos de suporte institucional frágil.

Palavras-chave: Ascensão profissional; Diversidade organizacional; Inclusão; Interseccionalidade; Políticas corporativas.

24 de agosto de 2026

Segmentação Estratégica de Adquirentes Brasileiras por Clusterização Multivariada

O setor de adquirência desempenha um papel central na infraestrutura de pagamentos, e compreender as diferenças estruturais entre as empresas adquirentes, com base em indicadores operacionais e econômicos, mostrou-se crucial para diagnósticos e decisões fundamentados em dados. O estudo teve como objetivo segmentar as adquirentes brasileiras utilizando indicadores trimestrais de porte, capilaridade, mix de canais e métricas econômicas, empregando análise exploratória de dados e o algoritmo de agrupamento K-means para identificar perfis estratégicos distintos. Realizou-se uma pesquisa quantitativa, exploratória e descritiva, utilizando uma base de dados estruturada com informações trimestrais de adquirentes brasileiras ao longo de doze períodos. A definição do número de agrupamentos baseou-se no método do cotovelo (elbow method) e no coeficiente de silhueta, sendo a interpretação reforçada pela visualização via Análise de Componentes Principais (PCA). Os principais resultados revelaram a formação de dois perfis predominantes: um caracterizado por maior escala e capilaridade, com elevado volume de transações e spreads médios mais comprimidos; e outro com maior participação do canal remoto e maior monetização relativa, evidenciada pela taxa MDR e por spreads médios mais elevados. Concluiu-se que o agrupamento reduziu a complexidade multivariada do mercado a perfis interpretáveis, oferecendo uma base objetiva para benchmarking e para a interpretação estratégica do posicionamento das adquirentes, com potencial de aplicação na análise de dados para a tomada de decisões.Palavras-chave: Adquirência; Análise multivariada; K-means; Pagamentos digitais; Perfis estratégicos.

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