Artigo

30 de julho de 2026

Análise fundamentalista de ações de empresas de medicina diagnóstica listadas na Bolsa de Valores do Brasil

Francisco Maicon Magalhães do Nascimento; Alexsandro Soares Candido

DOI: 10.22167/2675-6528-202600819

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A análise fundamentalista comparativa de empresas de medicina diagnóstica listadas na Bolsa de Valores do Brasil foi realizada, focando em Fleury S.A. (FLRY3), Diagnósticos da América (DASA3) e Hermes Pardini (PARD3) no período de 2019 a 2024. O estudo objetivou investigar como os fundamentos financeiros e os indicadores de rentabilidade dessas companhias se refletiram nos preços de suas ações no mercado financeiro, além de avaliar as estratégias empregadas para sustentar a resiliência financeira frente aos desafios da pandemia de COVID-19. A metodologia empregou um estudo de casos múltiplos, com abordagens qualitativa e quantitativa, baseada na análise documental de demonstrativos financeiros e relatórios de administração das empresas. Os resultados indicaram que o Grupo Fleury e a Hermes Pardini mantiveram margens financeiras e indicadores de rentabilidade resilientes, o que se manifestou em múltiplos de valuation mais elevados. Adicionalmente, a Fleury adquiriu a Hermes Pardini em 2023, consolidando sua posição no setor. Em contrapartida, a Dasa enfrentou desafios estruturais, como endividamento e margens negativas, resultantes de sua estratégia agressiva de aquisições. Concluiu-se que o mercado financeiro brasileiro valoriza empresas com maior eficiência operacional e controle de capital, demonstrando que a solidez dos fundamentos é o principal fator determinante do valor das ações no longo prazo para o setor.

Palavras-chave: Dasa; Fleury; Hermes Pardini; Mercado Financeiro; Valuation.

1. Introdução

O setor de medicina diagnóstica no Brasil tem experimentado transformações significativas nos últimos anos, impulsionadas por uma confluência de fatores como avanços tecnológicos, mudanças regulatórias e, notavelmente, o impacto da pandemia de COVID-19. A Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) aponta para uma expansão expressiva do setor, motivada pelo crescimento populacional, pelo envelhecimento da população e pela crescente conscientização sobre a importância dos cuidados preventivos. Os avanços tecnológicos na área da saúde também contribuem para essa dinâmica, exigindo que as empresas se adaptem e inovem constantemente.

Entre 2020 e 2022, a demanda por exames diagnósticos atingiu patamares elevados, conforme dados da Abramed. Esse aumento, contudo, veio acompanhado de um incremento nos custos operacionais, decorrente de investimentos essenciais em biossegurança, digitalização de processos e expansão da capacidade instalada. Nesse cenário desafiador, empresas de capital aberto do setor, como Fleury S.A., Diagnósticos da América S.A. e Instituto Hermes Pardini, desenvolveram e implementaram estratégias específicas para garantir sua resiliência financeira e capacidade de geração de valor no mercado.

Para investidores e analistas, a avaliação dessas empresas no mercado de capitais requer uma compreensão aprofundada de seus fundamentos. Nesse contexto, a análise fundamentalista emerge como uma ferramenta essencial. Segundo Graham (2023), este método de avaliação de investimentos concentra-se no exame minucioso dos aspectos econômicos e financeiros de uma empresa. Seu propósito é determinar o valor intrínseco, ou seja, o valor real de uma companhia, e compará-lo com seu preço de mercado para identificar oportunidades de compra ou venda.

A relevância do setor de medicina diagnóstica transcende o sistema de saúde, estendendo-se ao dinamismo do mercado financeiro. A pandemia de COVID-19, em particular, expôs as diferentes capacidades das empresas em aproveitar oportunidades ou enfrentar desafios, impactando suas margens e níveis de endividamento. Compreender a evolução dos fundamentos dessas entidades antes de 2019 e no período subsequente, de 2020 a 2024, oferece informações cruciais para a tomada de decisão dos investidores.

Embora existam estudos sobre o desempenho do setor de saúde durante a pandemia, a literatura carece de uma análise comparativa detalhada entre as empresas de diagnósticos listadas na Bolsa de Valores brasileira. Essa lacuna se manifesta na ausência de investigações que abordem de forma integrada os múltiplos de valuation e sua trajetória pós-pandemia, os indicadores de eficiência operacional e seus impactos pelas estratégias de expansão ou contenção de custos, e os riscos financeiros em um ambiente de alta volatilidade do mercado acionário brasileiro. Tais aspectos, conforme Assaf Neto (2019), são indispensáveis para uma avaliação robusta do desempenho e do valor justo de uma empresa.

Diante dessa problemática, este estudo busca responder à seguinte questão central: De que forma os fundamentos financeiros das empresas Fleury (FLRY3), Diagnósticos da América (DASA3) e Hermes Pardini (PARD3) refletem nos preços de suas ações no mercado financeiro, e quais aprendizados podem ser aplicados na avaliação de empresas do setor? Assim, o presente trabalho tem como objetivo avaliar a adequação da precificação de mercado das três empresas no período de 2019 a 2024, a partir da análise comparativa da evolução de seus múltiplos de valuation e indicadores de rentabilidade e da identificação das estratégias adotadas para a resiliência financeira de cada uma.

2. Material e Métodos

O presente estudo adotou uma abordagem metodológica mista, combinando elementos quantitativos e qualitativos para investigar os fundamentos financeiros e as estratégias de resiliência das empresas de medicina diagnóstica. A vertente quantitativa foi fundamentada na análise de informações financeiras, enquanto a qualitativa se concentrou na avaliação das estratégias corporativas.

A estratégia de pesquisa empregada foi o estudo de casos múltiplos comparativos. Selecionaram-se três empresas de capital aberto do setor de medicina diagnóstica listadas na Bolsa de Valores do Brasil: Fleury S.A. (FLRY3), Diagnósticos da América S.A. (DASA3) e Instituto Hermes Pardini (PARD3). O intuito foi realizar uma comparação sistemática dos fundamentos financeiros dessas companhias, atendendo à lacuna identificada na literatura sobre análises comparativas detalhadas no setor.

A unidade de análise consistiu nos dados financeiros e nos relatórios de gestão das empresas selecionadas. O período de investigação abrangeu os anos de 2019 a 2024, permitindo uma análise da evolução dos indicadores e das estratégias antes e durante o período pós-pandemia de COVID-19, conforme o objetivo do estudo.

A coleta de dados foi realizada exclusivamente por meio de fontes secundárias. Foram exploradas as demonstrações financeiras anuais e os relatórios de administração das empresas, que são documentos públicos. Esses materiais foram extraídos diretamente dos sites de Relações com Investidores (RI) de cada companhia, garantindo a fidedignidade e a oficialidade das informações utilizadas.

Para a análise quantitativa, procedeu-se à reprodução e cálculo de seis indicadores financeiros chave. Esses indicadores foram selecionados para oferecer uma cobertura abrangente das dimensões essenciais da saúde corporativa, incluindo aspectos de rentabilidade, valor de mercado e solvência das empresas estudadas.

Os indicadores financeiros calculados e comparados foram: o Índice Preço/Lucro (P/L), o Índice Preço/Valor Patrimonial (P/VP), a Margem EBITDA (LAJIDA), o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE), a Margem Líquida e a Liquidez Corrente. A aplicação desses múltiplos e índices permitiu uma avaliação comparativa da performance financeira das empresas ao longo do período analisado.

Adicionalmente, a análise qualitativa concentrou-se na identificação e avaliação das estratégias adotadas pelas empresas para manter sua resiliência financeira. Essa etapa envolveu a revisão dos relatórios de administração e outras informações divulgadas pelas companhias, buscando compreender as ações estratégicas implementadas em resposta aos desafios e oportunidades do mercado.

Os procedimentos de análise das estratégias foram divididos em três fases temporais, conforme as informações dos relatórios de administração: o período pré-pandemia (2019), a fase de adaptação à pandemia e aceleração digital (2020-2021) e o período de consolidação do mercado e reposicionamento (2022-2024). Essa divisão permitiu contextualizar as decisões estratégicas em relação aos eventos macroeconômicos e setoriais.

Não foram utilizados softwares específicos para a análise estatística avançada, sendo os cálculos dos indicadores realizados com base nas fórmulas financeiras padrão. A organização dos dados foi feita de forma a permitir a comparação direta entre as empresas e a visualização da evolução dos indicadores ao longo do tempo.

Os cuidados éticos foram observados por meio da utilização de dados públicos e da devida citação das fontes de informação, conforme as normas acadêmicas. Não houve envolvimento direto com participantes humanos, nem coleta de dados sensíveis, o que dispensou a aplicação de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

3. Resultados e Discussão

A análise fundamentalista comparativa das empresas Fleury S.A. (FLRY3), Diagnósticos da América (DASA3) e Hermes Pardini (PARD3) no período de 2019 a 2024 revelou padrões distintos de desempenho financeiro e estratégias de mercado. O Grupo Fleury, fundado em 1926, consolidou sua reputação de excelência médica e inovação, adotando uma estratégia de crescimento que combinou expansão orgânica com aquisições seletivas. Sua abertura de capital ocorreu em dezembro de 2009, e a aquisição do Instituto Hermes Pardini, anunciada em junho de 2022 e concluída em abril de 2023, posicionou-o como um dos maiores players do setor de medicina diagnóstica no país, conforme dados da Abramed.

A Diagnósticos da América (Dasa), fundada em 1961, transformou-se em 2000 e buscou um crescimento agressivo com o objetivo de se consolidar como um ecossistema de saúde integrado, abrangendo diagnósticos, hospitais e oncologia. A empresa, que negocia suas ações na bolsa desde novembro de 2004, é reconhecida pela Abramed como pioneira em inovação tecnológica e uma das maiores redes de saúde do Brasil, destacando-se pela excelência técnica e corpo clínico de referência. No entanto, essa estratégia de expansão gerou desafios significativos em sua estrutura financeira.

O Instituto Hermes Pardini (PARD3), fundado em 1959, estabeleceu-se no mercado brasileiro por meio do modelo de negócio Lab-to-Lab (L2L), que se tornou sua principal alavanca de crescimento ao processar exames para milhares de laboratórios clientes. A empresa expandiu sua rede de atendimento direto e realizou aquisições de nicho, como a Toxicologia Pardini. Suas ações foram negociadas na bolsa a partir de fevereiro de 2017, e a companhia foi incorporada ao Grupo Fleury em 2023, consolidando a presença de ambas no mercado.

Análise Fundamentalista

A avaliação dos fundamentos financeiros das empresas foi realizada por meio de indicadores de rentabilidade, valor de mercado e solvência, permitindo uma análise comparativa detalhada. O Índice Preço/Lucro (PL), que reflete o quanto o mercado paga por cada unidade de lucro, é uma métrica crucial para analisar a lucratividade e a percepção do mercado sobre a saúde financeira e o futuro das empresas, conforme Graham (2023). Um PL elevado (acima de 15) pode indicar expectativas de crescimento futuro ou supervalorização, enquanto um PL baixo pode sugerir subvalorização ou baixas expectativas de crescimento.

Os dados do período de 2019 a 2024 indicaram que Fleury e Hermes Pardini apresentaram maior estabilidade no PL em comparação com a Dasa. Em 2019, a Dasa registrou um PL de 140,25, enquanto Fleury e Pardini estavam em 30,96 e 30,19, respectivamente, refletindo maiores expectativas do mercado na Dasa antes da pandemia. Contudo, a partir de 2020, a Dasa enfrentou PLs negativos (-233,20 em 2020, -85,70 em 2021, -19,85 em 2022, -6,52 em 2023 e -1,99 em 2024), evidenciando dificuldades em gerar lucro e uma percepção negativa do mercado. Fleury e Pardini, por outro lado, mantiveram PLs positivos, com Fleury em 42,56 em 2020 e 10,82 em 2024, e Pardini em 33,43 em 2020 e 10,82 em 2023, demonstrando maior resiliência.

O Índice Preço/Valor Patrimonial (P/VP) compara o preço de mercado de uma ação com o valor contábil do patrimônio líquido por ação, indicando o quanto os investidores estão dispostos a pagar pelo valor contábil de cada empresa, conforme a B3. Um P/VP abaixo de 1 pode sugerir que a ação está subvalorizada, enquanto um P/VP acima de 1 pode indicar que a ação está sobrevalorizada ou que os investidores esperam lucros futuros acima da média. A evolução do P/VP entre 2019 e 2024 mostrou que as empresas reduziram o valor do indicador no período pós-pandemia.

Hermes Pardini manteve certa estabilidade no P/VP até o momento da fusão com Fleury, que, por sua vez, conseguiu preservar sua percepção de valor no mercado, mantendo o P/VP acima de 1 por grande parte do período, embora tenha declinado para 0,30 em 2024. Em contraste, a Dasa, que em 2020 alcançou um P/VP de 9,74, apresentou uma deterioração significativa, chegando a 0,30 no fim de 2024. Essa queda acentuada no P/VP da Dasa denota uma perda substancial de confiança do mercado em sua capacidade de gerar retornos, refletindo a punição do mercado por seus fundamentos deteriorados e alta alavancagem.

A Margem EBITDA (LAJIDA), conforme Assaf Neto (2019), é um indicador financeiro que avalia o desempenho operacional de uma empresa, isolando os resultados da operação principal dos efeitos de decisões financeiras e contábeis. Uma margem EBITDA mais elevada sugere maior lucro operacional e potencial de geração de caixa, enquanto uma margem menor pode indicar problemas de eficiência operacional ou estrutura de custos desfavorável. Os resultados demonstraram que Fleury manteve margens estáveis e mais elevadas que suas concorrentes ao longo do período analisado.

Em 2019, a Margem EBITDA da Fleury era de 24,27%, da Dasa de 19,83% e da Pardini de 28,18%. Durante o período pandêmico, a Dasa experimentou fortes reduções em suas margens, caindo para 13,24% em 2020 e 9,77% em 2021, antes de uma recuperação parcial para 16,06% em 2024. Fleury, por outro lado, demonstrou resiliência, com margens que variaram entre 24,27% e 28,18% no período, mantendo-se em 25,79% em 2024. Hermes Pardini manteve suas margens em torno de 20% até a fusão, com 20,40% em 2020 e 21,86% em 2022, evidenciando uma performance operacional robusta antes de sua incorporação.

O Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE), de acordo com a B3, mede a eficiência com que uma empresa utiliza o capital investido pelos acionistas para gerar lucro. Um ROE elevado indica uma gestão eficiente e potencial de crescimento futuro. A análise do ROE entre 2019 e 2024 revelou que Hermes Pardini apresentou resultados superiores à Fleury até a fusão, e Fleury, por sua vez, demonstrou desempenho significativamente melhor que a Dasa durante todo o período. Fleury manteve um ROE positivo, variando de 8,93% a 24,51%, indicando eficiência operacional e gestão estratégica.

A Dasa, em contraste, apresentou um ROE positivo de 3,81% em 2019, mas entrou em território negativo a partir de 2021 (-3,00%), aprofundando-se para -15,91% em 2023 e -15,13% em 2024. Essa trajetória negativa reflete as dificuldades da Dasa em gerar lucros consistentes e sua crescente ineficiência em utilizar o capital dos acionistas, especialmente após 2020. A performance de Fleury e Pardini, com ROE resiliente, sugere que essas empresas foram mais eficazes em converter o capital investido em valor para os acionistas.

A Margem Líquida, conforme Assaf Neto (2023), representa a porcentagem do faturamento que se transforma em lucro líquido após a dedução de todos os custos e despesas, indicando a eficiência da empresa em converter vendas em lucro. Uma margem líquida elevada sugere bom controle de custos, enquanto uma margem menor pode apontar problemas de competitividade ou ineficiências operacionais. Os resultados mostraram que a Dasa enfrentou desafios financeiros, com uma margem líquida negativa a partir de 2020 (-2,10% em 2020, -7,93% em 2023 e -7,81% em 2024), indicando a necessidade de revisão estratégica para retomar a lucratividade.

Fleury, por sua vez, manteve margens líquidas positivas ao longo de todo o período, variando de 6,55% a 11,59%, o que demonstra sua boa eficiência operacional e capacidade de geração de lucros. Hermes Pardini também manteve margens líquidas positivas e similares às da Fleury até sua aquisição, com 10,75% em 2019 e 6,55% em 2022. A consistência das margens líquidas de Fleury e Pardini contrasta fortemente com a volatilidade e os resultados negativos da Dasa, reforçando a percepção de maior solidez financeira das primeiras.

A Liquidez Corrente, definida por Assaf Neto (2023) como a razão entre o ativo circulante e o passivo circulante, mede a capacidade da empresa de honrar suas obrigações de curto prazo. Um índice acima de 1 indica recursos suficientes para pagar dívidas de curto prazo. A análise da liquidez corrente entre 2019 e 2024 revelou que Fleury manteve uma posição mais confortável, com índices variando de 1,44 a 2,51, sendo capaz de sustentar suas operações de curto prazo com menor risco. A Dasa, por outro lado, apresentou resultados menos expressivos e até críticos, como em 2021, quando seu índice foi de 0,99, indicando que a empresa precisou de uma revisão cuidadosa na gestão de capital circulante para garantir maior estabilidade.

Hermes Pardini, embora não tenha mantido margens superiores à Fleury como erroneamente indicado no TCC original, demonstrou uma liquidez corrente robusta, com índices que variaram de 1,74 a 2,12 até sua incorporação. Essa performance de liquidez, geralmente superior à da Dasa e competitiva com a Fleury em alguns anos, reforça a percepção de uma gestão financeira prudente. A capacidade de Fleury e Pardini de manterem índices de liquidez acima de 1, mesmo em períodos desafiadores, contrasta com a Dasa, que em alguns momentos operou com liquidez próxima ou abaixo do ideal, expondo-a a maiores riscos de curto prazo.

Estratégias adotadas pelas empresas

As estratégias adotadas pelas empresas no período de 2019 a 2024 podem ser divididas em três fases distintas. Na Fase 1, o período pré-pandemia (2019), Fleury focava no fortalecimento de sua marca premium, combinando crescimento orgânico com aquisições seletivas, já demonstrando um movimento inicial de diversificação para se tornar um ecossistema de saúde e investindo em sua plataforma digital e em “Novos Elos”. Essa abordagem visava a um crescimento sustentável e a uma maior abrangência de serviços.

Nesse mesmo período, a Dasa buscava um crescimento agressivo por meio de fusões e aquisições para ganhar escala nacional, incorporando a rede de hospitais Ímpar e sinalizando um pivô estratégico para além do diagnóstico, com o objetivo de construir uma rede de saúde integrada. Contudo, esse movimento resultou em um aumento expressivo do endividamento da companhia. Hermes Pardini, por sua vez, seguia seu modelo de negócio Lab-to-Lab (L2L), que era sua principal alavanca de crescimento, complementando-o com a expansão de sua rede de atendimento direto ao consumidor e aquisições de nicho, além de ter a transformação digital como pilar central.

A Fase 2, de adaptação à pandemia e aceleração digital (2020-2021), foi marcada pela intensificação das estratégias. A pandemia acelerou a transformação da Fleury em um ecossistema de saúde mais completo, alavancando sua marca para liderar a testagem de COVID-19 e investindo robustamente em sua plataforma digital Saúde iD e em telemedicina. A estratégia “Novos Elos” ganhou força com a entrada em áreas como infusões e oftalmologia. A Dasa, apesar da crise sanitária, manteve seu ímpeto de expansão, continuando a adquirir laboratórios e hospitais, reforçando a tese de seu modelo integrado e investindo na plataforma digital Nav para gerenciar o paciente dentro de seu ecossistema.

O modelo L2L de Hermes Pardini mostrou-se extremamente resiliente e fundamental para a capacidade de testagem nacional durante a pandemia, consolidando sua liderança no Business-to-Business (B2B). A empresa acelerou sua frente “Pardini Digital” com o lançamento do aplicativo “Meu Pardini”, fortalecendo a relação com clientes e laboratórios parceiros. Em síntese, todas as empresas utilizaram a crise para acelerar a digitalização, mas com focos distintos: Dasa em fusões e aquisições, Fleury em diversificação para um ecossistema de saúde, e Hermes Pardini na valorização de seu modelo de negócio especialista.

A Fase 3, de consolidação do mercado e reposicionamento (2022-2024), foi definida por movimentos estratégicos de grande impacto. Fleury e Hermes Pardini realizaram a combinação de negócios, anunciada em 2022 e concluída em 2023. Essa fusão uniu a força da marca premium da Fleury na prestação de serviço ao cliente final com a escala massiva do Lab-to-Lab do Pardini no B2B, com foco na integração das operações e na captura de sinergias para criar uma empresa líder em medicina diagnóstica. A Dasa, em virtude do elevado endividamento decorrente de sua rápida expansão, iniciou um processo de reestruturação estratégica, focando no aumento da rentabilidade e na otimização de sua estrutura de capital. Em 2024, a companhia anunciou uma associação com a Amil para a gestão de suas operações hospitalares (Ímpar), visando reduzir a alavancagem financeira.

Este período foi marcado por uma reconfiguração do setor, com Fleury e Pardini unindo forças para criar uma gigante do diagnóstico, enquanto a Dasa optou por uma parceria estratégica para separar parte de seus ativos, indicando uma mudança de rota para focar na sustentabilidade financeira de seu negócio principal. A situação qualitativa das empresas, conforme os indicadores, revelou que Fleury possuía um perfil de endividamento equilibrado e estratégico, resiliência financeira elevada, estratégia de crescimento por consolidação e percepção de mercado com prêmio de qualidade. Hermes Pardini, até 2022, apresentava endividamento conservador, alta resiliência financeira, estratégia de capilaridade logística e percepção de valor de eficiência.

Em contrapartida, a Dasa foi caracterizada por um perfil de endividamento crítico e alavancado, resiliência financeira vulnerável, estratégia de crescimento focada em um ecossistema integrado e percepção de mercado com desconto por risco. Essa síntese qualitativa reforça os achados quantitativos, evidenciando que a eficiência nas operações e a alocação disciplinada de capital são impulsionadores cruciais na precificação do mercado de capitais para o setor de medicina diagnóstica. A relação direta e proporcional entre os indicadores financeiros e os preços das ações foi um achado central do estudo.

Fleury e Hermes Pardini, com suas margens líquidas positivas e ROE resiliente, sustentaram múltiplos de P/L e P/VP mais elevados, indicando que os investidores estavam dispostos a pagar um prêmio pela previsibilidade e rentabilidade. O caso da Dasa, por outro lado, demonstrou uma deterioração dos fundamentos, com prejuízo líquido recorrente e alta alavancagem, resultando em uma punição significativa pelo mercado, que precificou suas ações com um desconto substancial em relação ao seu valor patrimonial, atingindo um P/VP de 0,30 em 2024.

As estratégias para resiliência financeira se manifestaram em dois cenários distintos. O primeiro, exemplificado pela Fleury, foi o crescimento sustentável, focado em aquisições sinérgicas e na manutenção da marca premium, o que se mostrou altamente eficiente, permitindo à empresa preservar sua estrutura de capital no período pós-pandemia. O segundo cenário, adotado pela Dasa, foi a expansão por alavancagem, buscando um ecossistema de saúde integrado. Embora essa estratégia fosse válida para ganho de escala, ela comprometeu a resiliência financeira da companhia, com o custo da dívida em um cenário de juros elevados consumindo a geração de caixa operacional e não se traduzindo em valor para o acionista.

A avaliação das empresas no setor de medicina diagnóstica revelou três aprendizados essenciais. Primeiramente, a margem operacional não deve ser analisada isoladamente, pois o impacto das despesas financeiras sobre o lucro líquido é o que define a sustentabilidade da empresa. Em segundo lugar, a fusão entre Fleury e Hermes Pardini sugere que o setor caminha para uma consolidação, onde a eficiência operacional será o maior diferencial competitivo. Por fim, a confiança do mercado, refletida no P/VP, é extremamente sensível à capacidade da gestão em entregar lucros consistentes, especialmente em momentos de crise, validando as premissas da análise fundamentalista e demonstrando que a solidez dos fundamentos é o principal determinante do valor das ações no longo prazo para o setor.

4. Conclusão

O presente estudo buscou avaliar a adequação da precificação de mercado das empresas Fleury (FLRY3), Diagnósticos da América (DASA3) e Hermes Pardini (PARD3) no período de 2019 a 2024, por meio da análise comparativa de seus múltiplos de valuation, indicadores de rentabilidade e das estratégias de resiliência financeira. Verificou-se que o Grupo Fleury e a Hermes Pardini demonstraram resiliência notável, mantendo margens financeiras e indicadores de rentabilidade positivos e estáveis, como evidenciado por seus Índices Preço/Lucro e Preço/Valor Patrimonial mais elevados, Margem EBITDA consistente e Retorno sobre o Patrimônio Líquido positivo. Essa solidez culminou na aquisição da Hermes Pardini pela Fleury em 2023, consolidando a liderança no setor. Em contraste, a Dasa enfrentou desafios estruturais significativos, com endividamento crescente e margens negativas, resultantes de uma estratégia agressiva de aquisições que comprometeu sua capacidade de geração de lucro e valor para o acionista. Observou-se que o mercado financeiro brasileiro precificou com prêmio as empresas que exibiram maior eficiência operacional e controle de capital, validando a premissa de que a solidez dos fundamentos é o principal determinante do valor das ações no longo prazo para o setor de medicina diagnóstica.

A principal contribuição deste trabalho reside na demonstração empírica de que a eficiência operacional e a alocação disciplinada de capital são fatores cruciais para a precificação de mercado no setor de medicina diagnóstica, oferecendo um panorama comparativo detalhado que preenche uma lacuna na literatura. Os resultados evidenciaram que a margem operacional não deve ser analisada isoladamente, pois o impacto das despesas financeiras sobre o lucro líquido é determinante para a sustentabilidade da empresa. Além disso, a confiança do mercado, refletida no Índice Preço/Valor Patrimonial, mostra-se extremamente sensível à capacidade da gestão em entregar lucros consistentes, especialmente em momentos de crise. Para estudos futuros, sugere-se investigar o impacto da integração tecnológica e da inteligência artificial na redução dos custos fixos, um fator que poderá redefinir as margens e a dinâmica competitiva do setor nos próximos anos.

Referências Bibliográficas

ASSAF NETO, Alexandre. Estrutura e Análise de Balanços: Um enfoque econômico-financeiro. 13 ed. São Paulo: Atlas, 2023

ASSAF NETO, Alexandre. Valuation: Métricas de valor & avaliação de empresas. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2019.

GRAHAM, Benjamin. O investidor inteligente. Tradução de Bruno Diniz. 1. ed. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2023.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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17 de setembro de 2026

Modelo Validado de Formação de Competência Técnica e Habilidades Não Técnicas em Indústrias Químicas Complexas

Analisou-se a implementação de um processo sistemático para o desenvolvimento e a atualização de competências técnicas e habilidades não técnicas em Operações Industriais e Segurança de Processo em uma indústria química de alta complexidade, pertencente a uma multinacional localizada no Polo Petroquímico de Camaçari, Bahia. O estudo objetivou implementar um processo mensurável e sustentável que assegurou a competência técnica e não técnica de 100% dos operadores, em conformidade com a legislação estadual da Bahia, diretrizes de institutos internacionais e políticas corporativas. A pesquisa caracterizou-se como um estudo de caso de abordagem mista, que envolveu diagnóstico documental, entrevistas semiestruturadas com 85 operadores experientes, análise de tarefas críticas e o desenvolvimento e aplicação piloto de um programa modular de treinamento. Este processo evidenciou a necessidade de alinhamento e atualização sistemática das competências requeridas. Os resultados obtidos indicaram a eficácia do modelo proposto, com 100% dos operadores concluindo os módulos teóricos e práticos e alcançando uma taxa de aprovação superior a 80%, além de conformidade operacional em campo. O trabalho contribuiu com um modelo estruturado de formação, incluindo matriz de competências, programas modulares de treinamento e diretrizes para certificação e recertificação, demonstrando potencial de replicação em outras unidades industriais de elevada complexidade e risco, e fortalecendo a segurança de processo e a sustentabilidade operacional.

Palavras-chave: Capacitação; Competência; Habilidades não técnicas; Segurança de processo; Treinamento.

Compliance E Esg

17 de setembro de 2026

Governança Pública Climática e Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul

As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul evidenciaram fragilidades estruturais na governança pública em um contexto federativo submetido a risco climático extremo. Este trabalho analisou, no recorte temporal de maio de 2024 a maio de 2025, como a atuação federal, estadual e municipal se estruturou diante da crise e em que medida a comparação com os Países Baixos ofereceu parâmetros úteis para o fortalecimento da resiliência institucional. A pesquisa adotou abordagem qualitativa, aplicada, exploratória e comparativa, com análise documental e análise de conteúdo de fontes oficiais, relatórios técnicos internacionais, atos normativos e pronunciamentos institucionais, organizados por categorias temáticas e interpretados com apoio do Modelo das Três Linhas do IIA. Os resultados mostraram que, embora os três níveis de governo tenham criado ou reestruturado instrumentos relevantes de coordenação e reconstrução após o desastre, prevaleceu uma institucionalidade reativa, posterior ao evento, com lacunas de continuidade administrativa, integração preventiva, monitoramento e accountability. Na comparação internacional, o modelo neerlandês destacou-se por combinar autoridade operacional permanente, base territorial clara, financiamento próprio e mecanismos mais robustos de monitoramento e responsabilização. Concluiu-se que os impactos das enchentes foram agravados menos pela ausência formal de normas e mais pela insuficiente articulação entre operação, gestão de riscos e controle. O fortalecimento da governança climática, no caso gaúcho, depende de institucionalizar coordenação, dados, financiamento e accountability em bases permanentes.

Palavras-chave: accountability; adaptação climática; gestão de riscos; governança multinível.

Digital Business

17 de setembro de 2026

Dados e Automação Utilizados em uma Campanha de Marketing na Engenharia Civil

A crescente utilização de dados no marketing digital impulsionou a adoção de estratégias mais orientadas por métricas e desempenho, com o Inbound Marketing em destaque. O uso de ferramentas de Business Intelligence (BI) mostrou-se fundamental para transformar dados em informações estratégicas, apoiando a tomada de decisão e a construção de bases de contatos qualificadas. Analisou-se como a ausência de integração entre sistemas de BI e plataformas de automação de marketing impactou a eficiência operacional e a efetividade das estratégias de Inbound Marketing em uma empresa de engenharia. Para isso, adotou-se uma abordagem descritiva de natureza qualitativa, baseada na análise dos processos operacionais envolvidos, desde a leitura de relatórios extraídos do BI e sua posterior transformação em mailings, até a preparação para importação no RD Station. Os resultados indicaram que o processo atual dependia de etapas manuais e empíricas, demandando tempo significativo. Identificaram-se limitações relacionadas à ausência de integração entre os sistemas, o que impactou diretamente a eficiência operacional e aumentou a dependência de atividades repetitivas. Concluiu-se que a estruturação adequada do processo de gestão de mailings e a integração entre BI e ferramentas de automação de marketing representam uma oportunidade para otimizar fluxos, melhorar a qualidade dos dados e fortalecer as estratégias de Inbound Marketing.

Palavras-chave: Automação de Marketing; Business Intelligence; Inbound Marketing; Integração de Sistemas; RD Station.

17 de setembro de 2026

Detecção de Anomalias no Monitoramento de Saúde de Pontes Usando Redes Neurais

O monitoramento da saúde estrutural de pontes tornou-se cada vez mais relevante diante do envelhecimento das infraestruturas e da intensificação de eventos extremos associados às mudanças climáticas. Nesse contexto, abordagens baseadas em dados destacaram-se como alternativas promissoras para o reconhecimento de anomalias. O estudo objetivou desenvolver e avaliar uma abordagem baseada em aprendizado de máquina para o reconhecimento de anomalias em séries temporais de aceleração estrutural. A metodologia adotada consistiu no uso de autoencoders treinados exclusivamente com dados representativos da condição íntegra, permitindo ao modelo aprender padrões associados ao estado saudável da estrutura; em seguida, o erro de reconstrução, quantificado por meio do erro quadrático médio (MSE), foi utilizado como critério para identificação de desvios em relação a essa condição. O conjunto de dados analisado foi composto por 1767 séries temporais de 1000 pontos cada, pertencentes a duas classes: íntegra (normal) e anômala (danificada). Os resultados obtidos demonstraram que o modelo proposto apresentou elevada capacidade de reconhecimento da classe anômala, com taxa de detecção superior a 90%, e desempenho global satisfatório, com área sob a curva ROC (AUC) próxima de 0,78, indicando boa capacidade discriminativa e reforçando o potencial da abordagem para aplicações em monitoramento estrutural.

Palavras-chave: Autoencoders; Detecção de Anomalias; Monitoramento de Pontes; Redes Neurais.

17 de setembro de 2026

Gestão Escolar Integrada: o Papel da Direção Administrativa na Capacitação da Equipe de Gestão Pedagógica para a Compreensão do Orçamento Escolar

A administração escolar foi abordada sob a perspectiva da integração entre gestores administrativos e pedagógicos, com foco na participação democrática, capacitação e qualificação dos atores. O objetivo geral consistiu na elaboração de um Guia de Orientações para Orçamento, direcionado à equipe de gestão pedagógica e mediado pela direção administrativa, visando instrumentalizar esses profissionais para a compreensão e participação nos processos financeiros e decisórios da instituição. Para tanto, o estudo desenvolveu-se em uma instituição particular privada, adotando uma abordagem qualitativa, descritiva e aplicada, com procedimento metodológico de estudo de caso. A pesquisa mapeou desafios práticos e dificuldades de comunicação entre os setores, analisou referenciais teóricos da gestão escolar e estruturou o instrumento formativo proposto. Os resultados demonstraram que a ausência de integração entre as áreas administrativa e pedagógica pode comprometer a efetividade da gestão escolar, evidenciando a necessidade de processos formativos contínuos que promovam entendimento mútuo, cooperação e construção coletiva de soluções. O Guia proposto fortaleceu a gestão democrática, elevou a qualificação da equipe pedagógica e melhorou os processos decisórios institucionais, destacando o papel formativo e estratégico do diretor administrativo.

Palavras-chave: Comunicação escolar; Gestão escolar participativa; Orçamento escolar.

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