31 de julho de 2026
Alterações de projeto após o congelamento e desempenho temporal em material rodante
Ivanildo Xavier Miranda; Gustavo Luiz Scatolini Vieira
DOI: 10.22167/2675-6528-202600916
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
Projetos de material rodante exigiram elevada coordenação entre engenharia, planejamento e manufatura, especialmente na transição entre o detalhamento técnico e o início da produção. O estudo analisou se as alterações tardias de projeto, identificadas após o congelamento, comprometeram o desempenho temporal do Projeto W. Adotou-se uma abordagem participante e combinou análise documental dos registros de mudanças técnicas, comparação entre cronograma planejado e realizado, aplicação do método Earned Schedule (ES) e análise do Master Production Schedule (MPS). Os resultados indicaram que o projeto manteve estabilidade temporal até o Critical Gate Review (CGR), mas apresentou um aumento significativo no volume de alterações a partir de março de 2023, com concentração máxima em julho. Esse comportamento coincidiu com a queda progressiva do indicador Schedule Performance Index temporal (SPI(t)), o consumo de folgas, o deslocamento de atividades para o caminho crítico e atrasos de 174 dias na etapa de validação e 413 dias no início da serialização. Na manufatura, observaram-se retrabalho, revalidação técnica e maior esforço de estabilização nas primeiras unidades produzidas. Concluiu-se que a maturidade insuficiente do projeto na fase C contribuiu diretamente para a deterioração do cronograma e para a instabilidade produtiva, indicando a necessidade de critérios mais rigorosos de estabilidade técnica antes da liberação para a produção.
Palavras-chave: Caminho crítico; Earned Schedule; Gerenciamento de mudanças de projeto; Manufatura; Retrabalho.
1. Introdução
Projetos de material rodante caracterizam-se por uma complexidade técnica intrínseca, derivada da integração de múltiplos subsistemas mecânicos, elétricos, eletrônicos e de controle. Essa natureza multifacetada demanda uma coordenação rigorosa entre as equipes de engenharia, planejamento, fornecedores e manufatura, uma vez que as decisões tomadas nas fases iniciais e intermediárias do desenvolvimento impactam diretamente o desempenho do projeto em termos de prazo, custo e qualidade. A gestão eficaz do cronograma, que envolve processos estruturados de definição, sequenciamento, estimativa e monitoramento de atividades, é um pilar fundamental para o sucesso de empreendimentos dessa magnitude, conforme preconizado pelo Project Management Institute (PMI, 2021). A falha em gerenciar adequadamente esses aspectos pode resultar em atrasos significativos e custos adicionais, comprometendo a viabilidade do projeto.
Para lidar com a complexidade inerente a esses projetos, a Engenharia de Sistemas oferece uma estrutura conceitual robusta, estabelecendo uma relação direta entre as etapas de definição de requisitos, desenvolvimento da solução, integração e validação. A consistência entre essas fases é crucial para assegurar a estabilidade do produto ao longo de seu ciclo de vida (International Council on Systems Engineering [INCOSE], 2015). Nesse contexto, alterações introduzidas em fases avançadas do projeto, especialmente durante o detalhamento técnico, tendem a gerar efeitos sistêmicos e de propagação, impactando múltiplos níveis da arquitetura do sistema e exigindo revisões extensivas.
A literatura de “Engineering Change Management” [ECM] reconhece que as mudanças de engenharia são uma parte inevitável do desenvolvimento de produtos complexos. Contudo, o momento em que essas mudanças ocorrem é um fator crítico para o desempenho do projeto. Estudos demonstram que alterações introduzidas em estágios avançados podem propagar-se por diversos subsistemas, exigindo revisões de interfaces, replanejamento de atividades e retrabalho em cadeia (Clarkson, Simons e Eckert, 2004). Esse efeito de propagação é particularmente problemático em ambientes industriais de produção seriada, como a indústria de material rodante, onde o produto já está em processo de fabricação quando as mudanças são implementadas, resultando em interrupções na linha de produção e na curva de aprendizado.
Além da visão sistêmica da propagação de mudanças, a teoria da Corrente Crítica (Goldratt, 1997) destaca que projetos complexos são especialmente sensíveis a alterações em atividades situadas no caminho crítico. Qualquer atraso nessas atividades tende a se amplificar ao longo da rede de dependências, consumindo folgas e deslocando outras atividades para o caminho crítico, o que agrava a deterioração do cronograma. A transição entre engenharia e manufatura, portanto, representa um ponto crítico em projetos industriais, onde se espera que o projeto esteja suficientemente maduro para permitir uma execução estável da produção. Caso contrário, alterações tardias podem comprometer o planejamento da manufatura, gerar necessidade de retrabalho, aumentar o *lead time* e reduzir a eficiência da aceleração progressiva da produção.
No âmbito da gestão do cronograma, métodos tradicionais como o *Earned Value Management* [EVM] (Fleming e Koppelman, 2010), embora consolidados para monitoramento integrado de escopo, prazo e custo, apresentam limitações na avaliação do desempenho temporal, especialmente em cenários de atraso. Como alternativa, o *Earned Schedule* [ES], proposto por Lipke (2003), permite mensurar o desempenho do projeto em unidades de tempo por meio de indicadores como o *Schedule Performance Index temporal* (SPI(t)). Valores de SPI(t) inferiores a um indicam que o projeto está atrasado em relação ao cronograma planejado, fornecendo uma análise mais precisa da evolução do cronograma, particularmente em projetos com desvios significativos.
No contexto do Projeto W, a Fase C corresponde ao detalhamento final do projeto antes da transferência para a manufatura, momento formalizado pelo *Critical Gate Review* [CGR]. O CGR é um “portão” decisório formal (Cooper, 1990) que avalia a maturidade do projeto, a prontidão de manufatura e os riscos antes de liberar o desenvolvimento para a produção. Idealmente, após esse marco, o volume de alterações deveria reduzir-se significativamente, indicando que o projeto atingiu o nível de maturidade necessário para a produção seriada. Entretanto, análises preliminares indicaram um comportamento distinto no Projeto W, com um aumento expressivo no número de solicitações de alteração de projeto após o CGR. Esse padrão sugere que a maturidade do projeto não foi plenamente atingida no momento da transição para a manufatura, levantando a hipótese de que essas alterações tardias possam ter contribuído para os atrasos observados nos “gates” finais do projeto. A relevância deste estudo reside em quantificar e compreender o impacto dessas alterações tardias, que, apesar de serem inerentes a projetos complexos, podem ser mitigadas com critérios mais rigorosos de estabilidade técnica.
Diante desse cenário, o objetivo deste trabalho é verificar se as alterações tardias de projeto, introduzidas após o congelamento do projeto, exerceram impacto negativo mensurável sobre o desempenho temporal do Projeto W, considerando seus efeitos nos marcos do cronograma, no indicador SPI(t), no consumo de folgas e na estabilidade da manufatura em um projeto de material rodante.
2. Material e Métodos
O presente estudo adotou o método de pesquisa participante, caracterizado pela atuação direta do pesquisador na equipe de engenharia do Projeto W durante a Fase C e ao longo da interação com a manufatura. Essa abordagem permitiu acesso privilegiado a dados técnicos, cronogramas, registros formais de alterações de projeto e processos de tomada de decisão. A pesquisa possui caráter aplicado, buscando soluções para um problema prático, e empregou uma abordagem descritiva e explicativa para analisar os fenômenos observados.
O contexto da pesquisa foi o Projeto W, um empreendimento de material rodante conduzido entre os anos de 2018 e 2027. O estudo foi realizado em uma organização industrial localizada no estado de São Paulo, Brasil. A unidade de análise consistiu nas dezenove unidades de material rodante que compõem o Projeto W, cada uma formada por quatro carros. O período de análise concentrou-se nos eventos ocorridos após o Critical Gate Review (CGR), formalizado em 28 de fevereiro de 2023, que marcou o congelamento do projeto antes da transição para a manufatura.
A população de interesse para a análise das alterações de projeto foi o conjunto de todas as solicitações de mudança de engenharia (Change Requests – CRs) registradas no Projeto W. A amostra para análise aprofundada foi composta pelas CRs consideradas relevantes, introduzidas especificamente no período pós-CGR. Uma alteração foi classificada como relevante se atendesse a pelo menos um dos seguintes critérios: data de criação posterior ao CGR, modificação da configuração aprovada, interferência em unidades já produzidas ou impacto em subsistemas críticos de integração e teste.
A coleta de dados seguiu uma estratégia de análise documental, integrando informações provenientes de diferentes fontes da engenharia, planejamento e manufatura, conforme preconizado por Marconi e Lakatos (1996). Essa abordagem permitiu uma análise cruzada de variáveis técnicas e temporais. Os dados foram consolidados para estabelecer uma base empírica robusta, essencial para a análise integrada dos impactos das alterações de projeto no desempenho temporal e na estabilidade da manufatura.
Os instrumentos de coleta de dados incluíram os cronogramas de referência e realizado, fornecidos pelo Project Management Office (PMO) do Projeto W, utilizados para identificar desvios e consumo de folgas. Os registros de alterações técnicas foram obtidos do sistema interno de controle de mudanças, denominado CCB “Tracker”, gerenciado pela engenharia. Adicionalmente, dados do Master Production Schedule (MPS) da manufatura foram empregados para avaliar os impactos das alterações na execução da produção.
As Change Requests (CRs) foram identificadas e classificadas segundo critérios técnicos e produtivos, visando estruturar a análise e identificar padrões de impacto no projeto. Os critérios de classificação incluíram o tipo de alteração (erro de projeto, modificação, melhoria, fornecedor), sua criticidade (baixo, médio, alto, crítico), o subsistema afetado (elétrico, mecânico, integração, estrutural, portas, cubículos), o impacto na manufatura (integração, teste estático, teste dinâmico), e a necessidade de retrabalho (sim/não). Essa sistematização seguiu os princípios do Engineering Change Management (ECM), que enfatiza a análise do potencial de propagação e impacto sistêmico das mudanças (Clarkson et al., 2004).
A análise comparativa do cronograma foi realizada confrontando o planejamento original com a execução efetiva do Projeto W, conforme as diretrizes do Project Management Institute (PMI). Avaliaram-se os desvios entre as datas planejadas e realizadas, o atraso acumulado por marco técnico, as alterações no caminho crítico e o consumo de folgas. Essa análise foi segmentada em dois períodos distintos: o pré-CGR e o pós-CGR, com o marco temporal de 28 de fevereiro de 2023, permitindo comparar o comportamento do projeto antes e depois do congelamento.
O desempenho temporal do projeto foi avaliado por meio do método Earned Schedule (ES), proposto por Lipke (2003). Utilizou-se o indicador Schedule Performance Index temporal (SPI(t)), calculado pela razão entre o tempo equivalente ao progresso físico realizado (ES) e o tempo real decorrido do projeto (AT). O SPI(t) foi aplicado de forma longitudinal para identificar a deterioração progressiva do desempenho temporal após o CGR e correlacioná-la com o aumento do volume de alterações e o início da manufatura. Valores de SPI(t) inferiores a 1,00 foram interpretados como indicativos de atraso.
Os impactos das alterações na manufatura foram analisados por meio dos dados do Master Production Schedule (MPS). Reorganizaram-se as informações para extrair dados sobre datas planejadas e realizadas por carro, o *lead time* real de produção, o desempenho por estação de trabalho e a ocorrência de retrabalhos. Essa análise permitiu avaliar como as alterações de engenharia impactaram a execução da manufatura, especialmente nas etapas de integração, testes estáticos e dinâmicos, alinhando-se à literatura de engenharia de sistemas (INCOSE, 2015).
A etapa final consistiu na integração e correlação entre o volume de CRs, os indicadores de desempenho do cronograma e os dados da manufatura. Os dados foram organizados em uma linha do tempo comum, permitindo relacionar o momento das alterações de projeto com a evolução do SPI(t) e com eventos observados na manufatura, como retrabalho, revalidação e variações no *lead time*. Essa análise temporal comparativa buscou identificar correlações e relações de causa e efeito entre as alterações pós-CGR, a deterioração do desempenho temporal e a instabilidade produtiva.
Em relação aos procedimentos éticos, o estudo foi conduzido com base em registros internos da organização, após a assinatura de um Termo de Anuência. Preservou-se a confidencialidade da empresa e dos indivíduos envolvidos, garantindo a anonimidade dos dados sensíveis. Como limitação metodológica, o estudo foi desenvolvido a partir de um único projeto e com dados internos, o que restringe a generalização dos resultados para outros contextos industriais sem a devida cautela, embora permita uma compreensão aprofundada da dinâmica interna do projeto.
3. Resultados e Discussão
Os resultados desta pesquisa são apresentados a partir da análise integrada dos registros de alterações de projeto, do cronograma do projeto e dos dados de manufatura. Inicialmente, são descritos o comportamento temporal das solicitações de alteração de projeto no período posterior ao congelamento do projeto e sua distribuição ao longo do tempo. Em seguida, são apresentados os desvios observados no cronograma, a evolução do desempenho temporal mensurado pelo indicador SPI(t) e os efeitos verificados nas etapas finais da manufatura. Essa organização permite analisar, de maneira integrada, se o aumento das alterações de projeto após o Critical Gate Review (CGR) representou apenas um desvio operacional pontual ou se, de fato, constituiu um fator com impacto negativo mensurável sobre o desempenho temporal do Projeto W.
A análise temporal das Change Requests (CRs) revelou uma mudança clara de comportamento entre os períodos anterior e posterior ao CGR. Até o encerramento formal desse marco, o volume de alterações permaneceu em patamar relativamente controlado, o que é compatível com a expectativa de maturidade progressiva do projeto ao final da Fase C. A Fase C, no contexto de projetos de material rodante, é a etapa de detalhamento final do projeto antes da transição para a manufatura, e o CGR atua como um portão decisório formal para avaliar a prontidão do projeto (Cooper, 1990). A estabilidade observada antes do CGR alinha-se à literatura de gerenciamento de projetos, que preconiza a minimização de alterações em fases avançadas para evitar custos e atrasos exponenciais (PMI, 2021).
No entanto, a partir de março de 2023, observou-se crescimento consistente do número de registros de CRs, com intensificação nos meses seguintes e concentração mais elevada em julho. Esse padrão indica que a estabilidade técnica esperada para a transição entre engenharia e manufatura não havia sido plenamente atingida no momento da liberação do projeto para a produção. A ocorrência de um volume crescente de alterações após um marco de congelamento de projeto, como o CGR, é um indicativo de que a maturidade do projeto era insuficiente. Idealmente, após o CGR, o volume de alterações deveria reduzir-se significativamente, sinalizando que o projeto atingiu o nível de maturidade necessário para a produção seriada, conforme discutido por Cooper (1990) em seu modelo de Stage-Gate. A persistência de alterações tardias, especialmente em projetos complexos como os de material rodante, sugere falhas na validação técnica pré-produção, o que pode levar a um ciclo vicioso de retrabalho e atrasos.
Mais do que o volume absoluto, chama atenção a natureza das alterações registradas no período pós-CGR. Uma parcela relevante das mudanças incidiu sobre subsistemas com forte sensibilidade à integração, como cablagem e distribuição elétrica, cubículos e equipamentos embarcados, estruturas de subestrado e interfaces de portas. Em projetos de material rodante, esses elementos apresentam elevada dependência entre si e baixa tolerância a revisões tardias, pois qualquer modificação tende a repercutir simultaneamente sobre montagem, testes e validação funcional. Nesse sentido, os resultados observados no Projeto W são coerentes com a literatura de Engineering Change Management (ECM), segundo a qual alterações introduzidas em fases avançadas do desenvolvimento tendem a gerar efeitos mais amplos do que aqueles provocados em estágios iniciais (Clarkson et al., 2004). A complexidade inerente a esses subsistemas significa que uma alteração em um componente pode desencadear uma série de modificações em outros, exigindo revisões de interfaces, replanejamento de atividades e retrabalho em cadeia. Isso contrasta com a expectativa de que, após o congelamento, as alterações seriam mínimas e de baixo impacto, focadas em otimizações menores, e não em correções de projeto fundamentais.
Tabela 1. Volume mensal de CRs relevantes no período pós-CGR
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Etapa |
Descrição da etapa metodológica |
Finalidade na pesquisa |
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1 |
Caracterização do contexto do Projeto W e do marco CGR |
Delimitar o objeto de estudo, o ciclo de vida do projeto e o ponto de ruptura analisado |
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2 |
Coleta e consolidação dos dados de planejamento, engenharia e manufatura |
Estruturar a base empírica necessária para a análise integrada |
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3 |
Identificação e classificação das “Change Requests” [CRs] |
Organizar as alterações de projeto segundo critérios técnicos e produtivos |
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4 |
Aplicação de critérios para seleção das CRs relevantes pós-CGR |
Isolar as alterações com potencial impacto no desempenho temporal |
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5 |
Análise comparativa entre cronograma de referência e realizado |
Identificar desvios, consumo de folgas e alterações no caminho crítico |
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6 |
Avaliação do desempenho temporal por meio do ES |
Mensurar a evolução do desempenho temporal ao longo do tempo |
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7 |
Análise dos impactos das alterações na manufatura via MPS |
Avaliar efeitos das alterações sobre lead time, retrabalho e aceleração progressiva da produção |
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8 |
Integração e correlação entre CRs, cronograma e manufatura |
Identificar relações temporais e de causa e efeito |
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9 |
Verificação da hipótese de pesquisa |
Avaliar se as alterações pós-CGR impactaram negativamente o cronograma |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
O recorte apresentado na Tabela 1 concentra os meses iniciais do período pós-CGR, justamente porque foi nesse intervalo que se observou a inflexão mais acentuada no volume de alterações. A partir desse ponto, a análise passou a privilegiar a relação entre essas mudanças iniciais e os efeitos acumulados sobre o cronograma e a manufatura. A Tabela 1 ilustra claramente o aumento progressivo das CRs, partindo de 7 registros em março de 2023, com uma baixa momentânea em abril (4 registros), e atingindo um pico de 16 registros em julho do mesmo ano. Essa tendência ascendente, especialmente após o marco formal do CGR, é um forte indicador de que o projeto não estava tão “congelado” quanto deveria. A observação de “Primeiras alterações pós-CGR” em março, seguida por um “Reaquecimento do fluxo” em maio e o “Início do pico” em junho, culminando na “Maior concentração do período” em julho, sugere que o CGR não representou uma fase de estabilização do produto, mas sim um período de reabertura de decisões técnicas já consideradas consolidadas. Esse cenário é problemático, pois a introdução de um grande volume de alterações em um estágio tão avançado do projeto, logo após a liberação para manufatura, sinaliza um ambiente de insuficiente estabilidade técnica do projeto, com potencial para produzir retrabalho, replanejamento e instabilidade nas etapas subsequentes, impactando diretamente a curva de aprendizado industrial e a eficiência da produção seriada (INCOSE, 2015).
O comportamento identificado no período pós-CGR não deve ser interpretado apenas como um aumento quantitativo de solicitações de mudança, mas como evidência de um processo de propagação de impactos dentro do projeto. Em um sistema complexo, como o material rodante, alterações tardias raramente permanecem restritas ao componente que lhes deu origem. Ao contrário, elas tendem a reabrir interfaces já definidas, exigir revisão de documentos e instruções, deslocar sequências de montagem e provocar reexecução de atividades que, em tese, já deveriam estar concluídas. Esse mecanismo é compatível com o modelo de propagação de mudanças descrito por Clarkson et al. (2004), segundo o qual mudanças introduzidas em estágios avançados do desenvolvimento podem atravessar múltiplos subsistemas e gerar efeitos cumulativos sobre o projeto. A literatura de engenharia de sistemas (INCOSE, 2015) reforça que a interdependência entre subsistemas em projetos complexos amplifica o impacto de qualquer alteração, especialmente quando introduzida tardiamente.
No caso analisado, a propagação de impactos se manifestou principalmente pela necessidade de retrabalho, pelo consumo progressivo de folgas e pela interferência direta em etapas de integração e teste. Isso significa que a alteração de projeto não se limitou a um ajuste pontual de engenharia, mas se transformou em um evento com repercussão temporal mais ampla, afetando atividades dependentes e ampliando a exposição do projeto ao atraso. Esse tipo de comportamento ajuda a explicar por que mudanças aparentemente localizadas produziram efeitos desproporcionais sobre o cronograma final. A relação entre o aumento de CRs e seus efeitos imediatos e acumulados pode ser sintetizada da seguinte forma: o aumento de CRs levou a retrabalho adicional, que por sua vez consumiu folgas; o consumo de folgas resultou na migração de atividades para o caminho crítico, culminando em atrasos nos “gates” do projeto; e a reexecução de testes, necessária devido às alterações, gerou perda de produtividade na aceleração progressiva da produção e uma queda no Schedule Performance Index temporal (SPI(t)). Este encadeamento de eventos, onde cada efeito imediato se torna uma causa para o próximo efeito acumulado, demonstra a natureza sistêmica e cumulativa dos impactos das alterações tardias. A ausência de folgas suficientes para absorver essas mudanças, conforme a teoria da Corrente Crítica de Goldratt (1997), é um fator crítico que transforma desvios menores em atrasos significativos no caminho crítico do projeto.
A comparação entre o cronograma base e a execução efetivamente observada mostra que o Projeto W apresentou comportamento relativamente estável até o marco do CGR, sem desvios relevantes em relação ao cronograma de referência. Isso sugere que, até esse marco, o alinhamento entre planejamento e execução ainda era suficiente para preservar os principais compromissos temporais do projeto. A estabilidade pré-CGR é um indicativo de que a fase de detalhamento e design estava progredindo conforme o planejado, com um nível aceitável de maturidade técnica. No entanto, a alteração mais expressiva ocorreu no período posterior, quando passaram a se acumular desvios em etapas diretamente associadas à integração de sistemas, aos testes funcionais e à validação do produto. Esse resultado é particularmente relevante porque essas fases concentram maior densidade de interfaces técnicas e, por isso, tendem a reagir de forma mais sensível a mudanças de engenharia introduzidas tardiamente. A complexidade de integração em material rodante, com múltiplos subsistemas (mecânicos, elétricos, eletrônicos), torna essas fases extremamente vulneráveis a alterações de projeto, como apontado pelo INCOSE (2015).
Os atrasos mais significativos foram observados nos “gates” Intermediate Qualification Review (IQR) e Go Serial Review (GSR), vinculados às fases de qualificação interna e liberação para produção seriada, ao passo que o Validation Gate Review (VGR), fase de validação em campo, apresentou desvio marginal. Esse contraste sugere que o problema não esteve distribuído de maneira homogênea ao longo de todo o encerramento do projeto, mas se concentrou naquelas etapas em que a integração técnica e a robustez funcional do produto eram mais exigidas. Em outras palavras, os dados indicam que o acúmulo de alterações não comprometeu da mesma forma todos os “gates”, mas exerceu maior pressão justamente sobre os pontos de maior criticidade sistêmica. A concentração dos atrasos em IQR e GSR, que são marcos internos de validação e preparação para a produção seriada, respectivamente, indica que os desafios estavam na própria maturidade do produto antes de sua liberação para o ambiente externo, enquanto o VGR, que ocorre em campo, já absorveu a maior parte dos impactos internamente.
Tabela 2. Desvio dos principais “gates” em relação ao cronograma de referência
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Categoria de dado |
Origem |
Utilização |
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Cronograma de referência |
PMO – Projeto W |
Comparação com cronograma realizado |
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Cronograma realizado |
PMO – Projeto W |
Identificação de desvios temporais |
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CCB “Tracker” |
Engenharia |
Registro, classificação e datas das CRs |
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MPS |
Manufatura |
Análise do planejamento e execução da produção |
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Revisões técnicas |
Engenharia |
Avaliação do impactos técnicos das alterações |
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Os resultados da Tabela 2 permitem observar que os atrasos relevantes não ocorreram de forma difusa, mas se concentraram em “gates” fortemente dependentes da estabilidade das interfaces técnicas. O IQR, planejado para 29/09/2025, foi realizado em 22/03/2026, acumulando um atraso de 174 dias. O GSR, planejado para 12/12/2025, foi realizado em 29/01/2027, resultando em um atraso substancial de 413 dias. Em contraste, o VGR, planejado para 01/04/2026, foi concluído em 04/04/2026, com um atraso marginal de apenas 3 dias. Essa pequena diferença registrada no VGR, quando comparada aos desvios de IQR e GSR, indica que parte expressiva do impacto já havia sido absorvida ou acumulada anteriormente, durante as fases de qualificação e preparação para a produção seriada. Assim, a contribuição das alterações pós-CGR para o atraso do projeto não se expressa apenas no número de dias adicionados ao cronograma, mas na forma como esses dias se concentraram em etapas críticas para a consolidação técnica do produto. A magnitude dos atrasos em IQR e GSR é um reflexo direto da necessidade de retrabalho e revalidação decorrente das alterações tardias, que sobrecarregaram as equipes de engenharia e manufatura, consumindo folgas e deslocando atividades para o caminho crítico, conforme a teoria da Corrente Crítica (Goldratt, 1997).
Embora os desvios dos “gates” mostrem o efeito final sobre “gates” relevantes, a compreensão da trajetória desse atraso ao longo do tempo exige uma leitura mais sensível da evolução temporal do projeto, o que justifica a análise do SPI(t) apresentada a seguir. O indicador Schedule Performance Index temporal (SPI(t)), proposto por Lipke (2003), permite mensurar o desempenho do cronograma em unidades de tempo, possibilitando uma análise mais precisa da evolução do projeto, especialmente em cenários de atraso.
Conforme descrito na metodologia, o desempenho temporal do projeto foi examinado por meio do indicador SPI(t), cuja aplicação permitiu observar, de forma mais sensível, a perda progressiva de aderência do Projeto W ao ritmo originalmente planejado. Até fevereiro de 2023, mês de referência do CGR, o indicador permaneceu em 1,00, sinalizando compatibilidade entre o avanço físico realizado e o tempo decorrido. Esse valor de 1,00 para o SPI(t) indica que o projeto estava no prazo, com o progresso físico alinhado ao tempo planejado, o que reforça a percepção de estabilidade pré-CGR. A partir de março de 2023, contudo, houve queda contínua do SPI(t), que passou de 0,90 para níveis inferiores a 0,60 ao longo dos meses seguintes. Esse comportamento indica que o projeto deixou de converter tempo decorrido em progresso realizado na mesma proporção prevista no cronograma de referência, o que é compatível com um cenário de instabilidade operacional e reconfiguração constante das atividades.
Figura 1. Evolução temporal do SPI(t) no período analisado
Fonte: Resultados originais da pesquisa
O ponto mais crítico da curva coincide com o período de maior concentração de alterações técnicas, especialmente entre junho e julho de 2023. Essa sobreposição temporal entre aumento de CRs e piora do indicador reforça a interpretação de que a perda de desempenho não foi aleatória, mas esteve associada ao esforço adicional exigido para absorver mudanças de projeto em um momento em que a manufatura já havia sido iniciada. A deterioração do SPI(t) evidencia que o problema não se restringiu a atrasos pontuais, mas afetou o comportamento temporal do projeto de forma acumulativa. A Figura 1 ilustra graficamente a queda progressiva do SPI(t) a partir de março de 2023, confirmando a perda de aderência ao cronograma. A leitura conjunta da Tabela 1 e da Figura 1 permite perceber que a deterioração do desempenho temporal não foi apenas um episódio isolado, mas uma tendência persistente. Depois da queda inicial observada em março de 2023, o SPI(t) não voltou aos patamares anteriores ao CGR, mantendo-se em níveis reduzidos até o fim da série apresentada. Isso sugere que o projeto não enfrentou apenas um desvio temporário, mas entrou em uma condição persistente de recuperação incompleta, na qual o replanejamento passou a consumir parte relevante da capacidade de execução. Em termos analíticos, esse resultado sustenta a compreensão de que as alterações pós-CGR comprometeram a estabilidade temporal do projeto de forma mensurável, conforme previsto pela teoria da Corrente Crítica de Goldratt (1997) e pela abordagem do Earned Schedule (Lipke, 2003).
A queda do SPI(t) pode ser interpretada a partir de três mecanismos complementares. O primeiro foi o aumento do retrabalho, uma vez que alterações tardias exigiram reexecução de atividades já concluídas ou em fase avançada. O segundo foi o consumo progressivo de folgas, o que reduziu a capacidade do cronograma de absorver novas perturbações sem deslocar “gates” relevantes. O terceiro foi a necessidade de reconfiguração da sequência de atividades, já que a incorporação de mudanças em ambiente produtivo alterou precedências, tempos de execução e condições de teste. Em conjunto, esses fatores explicam por que a perda de desempenho temporal se manifestou de forma contínua e por que seus efeitos se refletiram nos atrasos acumulados dos “gates” finais. Embora o indicador SPI(t) seja suficiente para essa comprovação, a análise não se encerra nessa constatação. Para compreender como essa deterioração se materializou no ambiente operacional, foi necessário observar também o comportamento da manufatura, sobretudo nas etapas finais de montagem, comissionamento e liberação. A análise temporal para a análise produtiva é importante porque permite mostrar de que maneira os desvios do cronograma se converteram, na prática, em retrabalho, repetição de verificações e maior esforço de estabilização nas primeiras unidades produzidas.
Os efeitos das alterações introduzidas após o CGR não se limitaram ao cronograma gerencial, mas também se refletiram diretamente no comportamento da manufatura. Para examinar essa dimensão, foram analisados os registros do Master Production Schedule (MPS), com foco exclusivo nos dezenove trens pertencentes à primeira fase do Projeto W. Esse recorte permitiu observar, no ambiente produtivo, indícios objetivos de retrabalho, repetição de verificações técnicas e variação de duração nas etapas finais de montagem, ensaio e liberação. A leitura desses registros mostrou que o impacto das alterações de projeto não permaneceu restrito ao ambiente da engenharia. O cronograma de produção contém atividades específicas de adequação e intervenção em unidades já inseridas no fluxo fabril, o que indica a ocorrência de retrabalho em carros que, em condições normais, já deveriam seguir um percurso mais estável até a conclusão. Além disso, depois das linhas principais de montagem, observa-se uma sequência extensa de atividades de verificação e aceite, incluindo testes em carro, testes em trem, ensaios estáticos, ensaios dinâmicos, tratamento de pendências e preparação para expedição. Em conjunto, esses registros sugerem que a manufatura precisou absorver sucessivos ciclos de ajuste e revalidação, o que é compatível com um contexto de baixa estabilidade técnica após a transição entre engenharia e produção, conforme a literatura de engenharia de sistemas (INCOSE, 2015).
A análise dos dados de manufatura, embora não apresentada em uma tabela específica neste texto devido às restrições de limite, revelou diferenças significativas na duração das etapas finais do processo produtivo entre as primeiras composições e as demais. Por exemplo, a montagem local e ensaio estático para o 1º trem levou 56 dias, enquanto para o 2º trem foi de 30 dias e para os demais trens, em geral, 10 dias. O comissionamento em pátio para o 1º trem foi de 35 dias, e para os demais trens, entre 15 e 20 dias. Já o comissionamento em linha principal para o 1º trem foi de 90 dias, e para os demais trens, em torno de 15 dias. Essa disparidade indica que o primeiro trem concentrou os maiores tempos de execução em todas as etapas analisadas, enquanto os trens subsequentes passaram a apresentar durações mais curtas e estáveis, sugerindo a absorção inicial de esforços adicionais de estabilização, reconfiguração e verificação técnica. Essa evidência reforça a interpretação de que as alterações tardias de engenharia exigiram um esforço desproporcional nas primeiras unidades produzidas para estabilizar o projeto e o processo produtivo, impactando diretamente o *lead time* real de produção e a eficiência por estação de trabalho. A necessidade de retrabalho e revalidação nas primeiras unidades é um custo oculto das alterações tardias, que se manifesta na forma de maior consumo de recursos e tempo, comprometendo a aceleração progressiva da produção e a curva de aprendizado esperada em projetos seriados.
As evidências observadas no MPS reforçam que a perda de estabilidade do projeto após o CGR também se manifestou no ambiente produtivo. Ainda que o MPS, isoladamente, não permita associar cada ocorrência a uma solicitação específica de alteração, ele mostra que a produção precisou absorver retrabalho, ciclos adicionais de verificação e maior esforço de estabilização nas primeiras unidades. Esse resultado complementa a análise do cronograma e do indicador SPI(t), pois demonstra como a deterioração do desempenho temporal se materializou na prática, alcançando a montagem, os testes e a preparação para entrega. Assim, a análise da manufatura reforça a interpretação de que as alterações introduzidas após o CGR exerceram efeito temporal observável não apenas sobre os “gates” do projeto, mas também sobre a execução da produção. A integração desses dados de engenharia, cronograma e manufatura é crucial para uma compreensão holística do impacto das alterações de projeto, pois cada conjunto de dados fornece uma perspectiva única sobre as consequências das mudanças tardias.
Uma vez observados os reflexos das alterações de projeto tanto no cronograma quanto na manufatura, torna-se possível integrar essas diferentes evidências e avaliar, de maneira mais objetiva, o comportamento global do projeto frente à hipótese formulada na introdução. Quando os resultados da engenharia, do cronograma e da manufatura são analisados em conjunto, observa-se um encadeamento consistente entre aumento de alterações de projeto, retrabalho, deterioração do desempenho temporal e instabilidade na manufatura. O crescimento das CRs no período posterior ao CGR coincidiu com a reabertura de atividades, a redução das folgas disponíveis, a piora progressiva do SPI(t) e a concentração de atrasos nos “gates” mais sensíveis à integração do produto. Esses dados, quando analisados em conjunto, sugerem um processo cumulativo no qual a baixa maturidade do projeto passou a exercer pressão crescente sobre o cronograma e a manufatura. A hipótese de que alterações tardias de projeto introduzidas após o congelamento do projeto exerceram impacto negativo mensurável sobre o desempenho temporal do Projeto W é, portanto, confirmada.
Essa leitura integrada permite compreender que o impacto das alterações pós-CGR não se expressou apenas em atrasos formais de “gates”, mas também na necessidade de readequar o fluxo de produção, repetir verificações e absorver maior esforço de estabilização nas primeiras unidades fabricadas. Em termos de gestão de projetos, isso significa que a insuficiente maturidade técnica na transição entre engenharia e manufatura comprometeu simultaneamente o cronograma executivo e a eficiência da execução fabril. A relevância desse achado está justamente em demonstrar que o problema não foi localizado em um único subsistema ou evento isolado, mas se espalhou ao longo da lógica de desenvolvimento, integração e validação do produto. A propagação desses impactos, conforme descrito por Clarkson et al. (2004), é um fenômeno que se manifesta em múltiplas dimensões do projeto, desde o planejamento até a execução física.
Os resultados obtidos são consistentes com a hipótese de que as alterações de projeto introduzidas após o CGR exerceram impacto negativo mensurável sobre o desempenho temporal do Projeto W. Esse impacto se expressou tanto pela ampliação objetiva dos atrasos em “gates” relevantes quanto pela perda de estabilidade observada na manufatura, no comissionamento e na preparação para entrega. A principal contribuição deste trabalho está em demonstrar que, em projetos de material rodante, a liberação para manufatura não deve ser tratada apenas como um marco formal do cronograma, mas como um ponto crítico que exige um nível robusto de maturidade técnica. A insuficiente maturidade técnica na transição entre engenharia e produção favoreceu a ocorrência de retrabalho, revalidação e perda de estabilidade operacional, comprometendo o desempenho global do projeto. A ausência de critérios mais rigorosos de estabilidade técnica antes da liberação para produção, como sugerido pela literatura de engenharia de sistemas (INCOSE, 2015), expõe o projeto a riscos significativos de atrasos e ineficiências produtivas.
4. Conclusão
Conclui-se que o objetivo foi atingido, confirmando que as alterações tardias de projeto, introduzidas após o congelamento do Projeto W, exerceram um impacto negativo mensurável sobre seu desempenho temporal. Os resultados demonstraram que o aumento dessas alterações no período pós-CGR esteve diretamente associado à deterioração progressiva do indicador SPI(t), ao consumo de folgas, ao deslocamento de atrasos para os “gates” finais mais críticos e à instabilidade observada nas etapas de integração, teste e manufatura. A insuficiente maturidade técnica do projeto no momento da transição para a produção comprometeu simultaneamente o cronograma executivo e a eficiência da execução fabril, validando a hipótese inicial de que mudanças em fases avançadas afetam negativamente o desempenho temporal em projetos de material rodante.
Como limitação, este estudo foi desenvolvido a partir de um único projeto e com base em dados internos de engenharia, planejamento e manufatura, o que restringe a generalização irrestrita dos resultados para outros contextos industriais. Contudo, essa abordagem permitiu uma compreensão aprofundada da dinâmica entre alterações tardias e o desempenho em um ambiente de alta complexidade técnica. Para estudos futuros, sugere-se ampliar esta análise por meio da comparação entre diferentes projetos, da incorporação de indicadores de custo e qualidade, e da definição de critérios mais objetivos para avaliação da maturidade do projeto antes da transição para a manufatura, visando mitigar riscos e otimizar a gestão.
Referências Bibliográficas
Clarkson, P.; Simons, C.; Eckert, C. 2004. Predicting change propagation in complex design. Journal of Mechanical Design 126(5): 788-797.
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Goldratt, E. 1997. Critical Chain. 1ed. The North River Press, Great Barrington, MA, USA.
International Council on Systems Engineering [INCOSE]. 2015. Systems Engineering Handbook. 4ed. Wiley, Hoboken, NJ, USA.
Lipke, W. 2003. Schedule is Different. The Measurable News 2003(3): 31-34.
Marconi, M.A.; Lakatos, E.M. 1996. Técnicas de Pesquisa: 3ed. Editora Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
Project Management Institute [PMI]. 2021. A Guide to the Project Management Body of Knowledge (PMBOK® Guide). 7ed. Project Management Institute, Newtown Square, PA, USA.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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