29 de julho de 2026
Adequação das matrizes de materialidade de relatórios de sustentabilidade às normas IFRS S/CBPS
Ester Balieiro Rossi; Viviane Chunques Gervasoni
DOI: 10.22167/2675-6528-202600758
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
A crescente relevância da sustentabilidade no mercado de capitais impulsionou a necessidade de padronização global dos relatórios corporativos. Este estudo analisou a adequação das matrizes de materialidade utilizadas por companhias abertas brasileiras frente às exigências das normas International Financial Reporting Standards (IFRS) de Sustentabilidade e do Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS), cuja obrigatoriedade se inicia em 2027. A pesquisa caracterizou-se como exploratória, com abordagem qualitativa, empregando a estratégia de estudo de casos múltiplos com base em dados secundários. O levantamento inicial contemplou informações de 139 empresas participantes do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) B3, das quais 127 forneceram respostas válidas, seguido da análise documental aprofundada de seis organizações selecionadas. Os resultados indicaram a existência de lacunas significativas na incorporação da materialidade financeira, visto que apenas 49% das empresas realizavam essa análise, evidenciando a predominância de modelos baseados na Global Reporting Initiative (GRI). Identificou-se, assim, um desalinhamento parcial entre as práticas atuais e as novas exigências normativas, demandando adaptações estruturais para a integração efetiva entre sustentabilidade e desempenho financeiro.
Palavras-chave: CVM; ESG; ISSB; Materialidade financeira; Norma contábil.
1. Introdução
A temática da sustentabilidade tem assumido crescente relevância no âmbito corporativo e no mercado de capitais. Um marco fundamental nesse processo ocorreu em 2004, quando Kofi Annan, então secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em colaboração com o Banco Mundial, publicou o documento intitulado “Who Cares Wins”. Tal iniciativa incentivou a integração de fatores ambientais, sociais e de governança (ESG) nas tomadas de decisão de investimento, consolidando o ESG como norteador das práticas corporativas e da divulgação de informações não financeiras.
Não obstante a expansão do tema nas últimas duas décadas, persistem desafios significativos relacionados à mensuração, padronização e comparabilidade dos dados de sustentabilidade. A coexistência de múltiplos modelos ou “frameworks”, como Global Reporting Initiative (GRI), International Integrated Reporting Council (IIRC), European Sustainability Reporting Standards (ESRS), entre outros, resultou em baixa comparabilidade e na ausência de uma padronização global.
Nesse cenário, a International Financial Reporting Standards (IFRS) Foundation instituiu, em 2021, o International Sustainability Standards Board (ISSB), com o objetivo de estabelecer normas globais de divulgação de sustentabilidade voltadas especificamente ao mercado de capitais. No contexto brasileiro, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) publicou a Resolução CVM n° 193/2023, que estabeleceu a obrigatoriedade de divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade para companhias de capital aberto. Tal norma entrará em vigor a partir de 2027 (referente ao exercício de 2026), fundamentando-se nos padrões emitidos pelo Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS), normas intituladas de IFRS S1 e S2.
A introdução dessas normas intensifica a necessidade de definição da materialidade financeira em sustentabilidade, elemento essencial para a divulgação de relatórios investidores. Oliari (n.d.) aponta que o cenário regulatório demanda a evidenciação de informações que demonstrem a aderência entre compromissos, resultados práticos e projeções financeiras. Furtado e Fernandes (2025) destacam que a integração dessas informações não é trivial, dependendo de transformações estruturais, especialmente na definição do que é material financeiramente e na compreensão de como as finanças sustentáveis podem fomentar oportunidades de negócios.
A definição da materialidade constitui o estágio inicial para a seleção do que é relevante para o reporte institucional. A GRI (2022) define materialidade como os impactos mais significativos da organização na economia, meio ambiente e sociedade, uma visão de materialidade de impacto ou “de dentro para fora”. Em contraste, o Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC, n.d.) define materialidade financeira como a informação cuja omissão ou distorção possa influenciar as decisões dos principais usuários dos relatórios financeiros. O European Financial Reporting Advisory Group (EFRAG, 2024), via normas ESRS, adota a dupla materialidade, integrando impacto e dimensão financeira. Contudo, o CBPS (2024) estabelece materialidade com foco primordial na dimensão financeira, alinhado aos padrões globais do ISSB/IFRS, considerando a informação material se sua omissão puder influenciar as decisões de investidores e credores.
Essa transição da materialidade de impacto para a materialidade financeira, ou para a dupla materialidade com forte ênfase na perspectiva do investidor, representa um desafio significativo para as companhias brasileiras. A CVM (2025) aponta a complexidade técnica dos padrões e o reduzido intervalo temporal para adaptação como obstáculos à adoção. Há uma lacuna entre as práticas atuais de reporte, predominantemente baseadas em modelos como o GRI, e as novas exigências normativas que demandam uma integração mais profunda entre sustentabilidade e desempenho financeiro.
Diante desse cenário de evolução regulatória e da necessidade de alinhamento das práticas corporativas, este estudo se justifica pela importância de analisar a prontidão das empresas brasileiras para as novas exigências. O objetivo deste estudo é analisar a adequação das matrizes de materialidade atualmente empregadas nos relatórios de sustentabilidade frente às exigências normativas do IFRS S e do CBPS.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa caracterizou-se como exploratória, com abordagem qualitativa, buscando compreender a adequação das matrizes de materialidade. Para tanto, empregou-se a estratégia de estudo de casos múltiplos, fundamentada na análise de dados secundários, conforme preconizado por Yin (2015).
O objeto empírico do estudo consistiu nas matrizes de materialidade presentes nos relatórios de sustentabilidade de companhias abertas brasileiras. A análise documental concentrou-se em informações públicas divulgadas por essas empresas, com especial atenção aos relatórios corporativos de sustentabilidade e à base de dados do questionário do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da B3, bolsa de valores sediada em São Paulo.
A coleta de dados foi realizada em duas etapas. Inicialmente, procedeu-se ao levantamento de informações a partir da base pública do ranking e das respostas ao questionário do ISE, referente ao ciclo de 2025. Este levantamento abrangeu 139 companhias, incluindo emissoras de ações, holdings e controladas, distribuídas em 40 setores econômicos. Foram selecionadas questões específicas relacionadas à elaboração de matrizes de materialidade, à integração da sustentabilidade na estratégia corporativa e ao estágio de preparação para as normas IFRS S e CBPS.
Das 139 companhias inicialmente consideradas, 127 forneceram respostas válidas e completas aos quesitos sobre materialidade e preparação para as normas internacionais, ao longo de 2025. A partir dessas respostas, selecionaram-se seis organizações para a análise aprofundada de suas matrizes de materialidade. O critério de seleção para esses casos baseou-se na convergência simultânea entre a adoção de frameworks internacionais e o alinhamento declarado às normas IFRS S e CBPS.
Especificamente, as seis companhias foram escolhidas por terem afirmado, em seus questionários, que publicavam o relatório anual conforme as diretrizes do Relato Integrado da IFRS Foundation. Adicionalmente, essas empresas declararam utilizar métricas de monitoramento de riscos e oportunidades requeridas pelos padrões de sustentabilidade da IFRS aplicáveis à sua atividade e setor. Essa abordagem visou delimitar um grupo cujas matrizes representassem os principais elementos de referência do ISSB.
A segunda etapa da coleta de dados, focada nos seis casos selecionados, consistiu no exame dos relatórios de sustentabilidade. Esses documentos foram publicados em 2025 e reportavam as atividades e desempenhos relativos ao exercício de 2024. Os relatórios foram acessados por meio dos websites institucionais das companhias, nas seções de Relações com Investidores (RI) ou de Sustentabilidade, sendo materiais de domínio público.
Para a análise dos dados coletados, empregou-se a técnica de análise de conteúdo temática. O objetivo foi verificar o grau de alinhamento entre as práticas de materialidade atualmente vigentes nas companhias e os requisitos preconizados pelas normas IFRS S e CBPS. A análise buscou identificar a sistemática adotada no desenvolvimento da materialidade para o reporte de sustentabilidade.
A escolha por um estudo de casos múltiplos, com a seleção de seis organizações, fundamentou-se na lógica de replicação proposta por Yin (2015). Essa abordagem permite tratar cada caso como um experimento independente, o que confere maior robustez à pesquisa. A seleção desse número de casos viabilizou tanto a replicação literal, para identificar padrões, quanto a replicação teórica, para explorar variações e contrastes entre as práticas observadas.
3. Resultados e Discussão
A análise da adequação das matrizes de materialidade empregadas por companhias abertas brasileiras, frente às exigências normativas do IFRS S e do CBPS, revelou um cenário de transição e desafios. Os resultados iniciais, obtidos a partir do questionário do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) B3, forneceram uma visão abrangente sobre o estágio atual das práticas de sustentabilidade no mercado de capitais brasileiro. Verificou-se que a maioria das empresas demonstra um comprometimento com a agenda ESG, mas a profundidade da integração da materialidade financeira ainda apresenta lacunas significativas.
O levantamento inicial, que envolveu 139 companhias participantes do ISE B3 no ciclo de 2025, com 127 respostas válidas, indicou que a análise de materialidade é uma prática universal, com 100% das empresas afirmando realizá-la. Adicionalmente, 88% das organizações relataram o envolvimento direto e indireto de partes interessadas, operando de forma sistemática, com periodicidade definida, método estruturado e resultados documentados. Isso sugere um elevado nível de maturidade na compreensão e aplicação da materialidade de impacto, que foca nas externalidades geradas pelo negócio.
Contudo, identificou-se uma lacuna substancial na incorporação da materialidade financeira. Enquanto 91% das empresas monitoram as externalidades negativas geradas por suas atividades, apenas 49% relataram realizar a análise de materialidade financeira, que compreende o exame dos riscos e oportunidades financeiros derivados desses impactos socioambientais. Essa disparidade evidencia a predominância de uma perspectiva de materialidade de impacto, ou “de dentro para fora”, em detrimento da dimensão financeira, que é central para as novas normas.
Os dados detalhados do questionário do ISE corroboraram essa observação. Constatou-se que 90% das companhias avaliam a extensão de seus impactos positivos e negativos na cadeia de valor, e 91% identificam as externalidades negativas geradas para a sociedade. No entanto, a porcentagem de empresas que realizam a análise de riscos e oportunidades gerados por seus impactos socioambientais, ou seja, a materialidade financeira, é consideravelmente menor, atingindo apenas 49% dos respondentes. Isso aponta para um desalinhamento parcial com as exigências futuras.
Em relação às práticas de reporte, todas as empresas declararam aderência às normas da Global Reporting Initiative (GRI) e/ou aos padrões do Sustainability Accounting Standards Board (SASB) ou outros modelos internacionais. No entanto, apenas 32% afirmaram incluir informações quantitativas sobre as implicações econômicas de questões socioambientais, como demonstrações de lucros e perdas ambientais ou análises de custo-benefício integradas. Essa baixa proporção sugere que, embora os frameworks de sustentabilidade sejam amplamente utilizados, a integração com a linguagem financeira ainda é incipiente.
A transição para as normas IFRS S/CBPS, cuja obrigatoriedade se inicia em 2027, foi um ponto focal da pesquisa. Verificou-se que 69% das companhias se encontram em fase de estudo do tema, sem a adoção efetiva de medidas práticas para a integração nos processos de relato. Adicionalmente, 65% relataram realizar a análise de dupla materialidade com base nos conceitos da GRI ou das normas europeias, European Sustainability Reporting Standards (ESRS), o que reforça a necessidade de futuras adequações para o alinhamento estrito às novas normas contábeis brasileiras e internacionais.
Apesar dos desafios, 53% das companhias indicaram estar estruturadas de forma relevante para atender a requisitos exigidos pela norma IFRS S/CBPS, apresentando em seus reportes como a estratégia corporativa está adaptada às oportunidades e aos riscos relacionados às questões ambientais, sociais e de governança materiais. Contudo, apenas 43% publicam seu relatório anual de acordo com as diretrizes da estrutura do Relato Integrado, que possui elementos incluídos na norma IFRS S1. A maioria, 74% das companhias, relatou precisar avaliar a adequação do processo de preparo e apresentação de seu relatório anual às determinações das Normas IFRS S1 e S2 do ISSB, evidenciando a percepção majoritária da necessidade de adaptações substantivas nos materiais e processos vigentes.
A materialidade, como estágio primordial para qualquer processo de reporte, seja socioambiental ou financeiro, exige o fornecimento de informações relevantes. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM, 2025) aponta que a complexidade técnica dos padrões e o reduzido intervalo temporal para adaptação são desafios significativos. Essa dificuldade é corroborada pelo fato de 60% das companhias participantes de um estudo sobre a implementação da Resolução CVM nº 193 terem mencionado a dificuldade na quantificação da materialidade financeira.
A Global Reporting Initiative (GRI, 2022) define materialidade com foco nos impactos significativos da organização na economia, meio ambiente e sociedade, incluindo o respeito aos direitos humanos. Essa perspectiva, conhecida como materialidade de impacto ou visão “de dentro para fora”, prioriza temas fundamentados na magnitude desses efeitos, independentemente de implicações financeiras imediatas. O processo demanda o engajamento com stakeholders e especialistas para a avaliação de impactos reais e potenciais, mensurados pela severidade e probabilidade.
Em contraste, o European Financial Reporting Advisory Group (EFRAG, 2024), por meio das normas European Sustainability Reporting Standards (ESRS), adota o conceito de dupla materialidade. Essa abordagem integra as dimensões de impacto e financeira, considerando um tema material se atender aos critérios de qualquer uma das dimensões. Enquanto a materialidade de impacto nas ESRS alinha-se à abordagem da GRI, a materialidade financeira concentra-se em informações que influenciam as decisões dos usuários dos relatórios financeiros, abordando riscos e oportunidades que afetam o desempenho, os fluxos de caixa e o custo de capital da entidade.
O Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS, 2024) estabelece a materialidade com foco primordial na dimensão financeira, em consonância com os padrões globais do ISSB/IFRS. De acordo com o pronunciamento CBPS 01, a informação é material se sua omissão, distorção ou obscurecimento puder influenciar as decisões de investidores e credores. A avaliação pauta-se na natureza ou magnitude de itens que podem afetar razoavelmente as perspectivas da empresa, seus fluxos de caixa e o acesso a financiamento no curto, médio ou longo prazos, com as Normas SASB servindo como guia.
A consolidação da materialidade sob a ótica do ISSB não é um evento isolado, mas um processo contínuo de julgamento corporativo. Conforme o IFRS (2024), as companhias devem adotar um processo de quatro etapas para a determinação da materialidade. A primeira etapa, a identificação, requer um mapeamento amplo de todas as informações sobre riscos e oportunidades de sustentabilidade que tenham o potencial intrínseco de serem materiais para os investidores, cobrindo toda a cadeia de valor.
A segunda etapa, a avaliação, consiste na aplicação do filtro de materialidade financeira propriamente dito, onde a administração julga se a omissão ou distorção daquelas informações poderia razoavelmente influenciar a expectativa de retorno financeiro dos usuários principais. A terceira etapa, a organização, exige que a companhia estruture as informações filtradas dentro de seus relatórios de modo a evidenciar as conexões lógicas entre os dados de sustentabilidade e as rubricas correspondentes nas demonstrações contábeis. A quarta e última etapa, a revisão, demanda um escrutínio consolidado do relatório para assegurar que a narrativa seja neutra, completa e que informações financeiramente materiais não tenham sido obscurecidas por dados acessórios ou excesso de informações de impacto puramente social.
Em síntese, enquanto a materialidade orientada pelas ESRS e GRI foca na relevância do tema e na necessidade de fornecer informação detalhada, o CBPS prioriza a utilidade da informação para a tomada de decisão financeira do investidor. Neste caso, primeiro identifica-se um risco ou oportunidade e, depois, usa-se o filtro da materialidade para decidir quais dados específicos devem ser publicados para que o investidor tome uma decisão financeira informada, o que representa uma mudança significativa de paradigma.
Análise das matrizes de materialidade publicadas por companhias
Dentre as organizações respondentes do ISE, seis companhias foram selecionadas para análise aprofundada de suas matrizes de materialidade. Os critérios de seleção basearam-se na identificação de empresas que afirmaram publicar o relatório anual conforme as diretrizes do Relato Integrado da IFRS Foundation e utilizar as métricas de monitoramento de riscos e oportunidades requeridas pelos padrões de sustentabilidade da IFRS aplicáveis à sua atividade e/ou setor. As empresas selecionadas incluíram uma administradora de mercados de capitais, um atacadista de autosserviços, uma instituição bancária, uma empresa do setor de energia, um comércio atacadista de perfumaria e uma empresa de serviços médicos.
A análise dos pronunciamentos do Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS 01 e CBPS 02), em convergência com as normas internacionais IFRS S1 e IFRS S2, permitiu concluir que as matrizes de materialidade tradicionais, embora úteis como instrumentos de gestão, demandam adaptações técnicas rigorosas. Observou-se que o atendimento às novas normas exige uma transição da perspectiva puramente socioambiental para uma abordagem de materialidade financeira, redefinindo o público-alvo e o objetivo da informação reportada, com foco em investidores e credores, conforme Oliari (n.d.).
Os novos referenciais normativos preconizam um processo técnico sistemático que transcende a representação visual da matriz, abrangendo a identificação de riscos baseada na consulta obrigatória às normas do SASB, a avaliação criteriosa da influência de tais fatores sobre o investidor, a organização clara dos dados para evitar ruídos informacionais e a revisão constante a cada ciclo de reporte. Empresas como a Empresa C e a Empresa D já demonstram movimentos estratégicos para alinhar seus processos internos a esse filtro metodológico proposto pelo International Sustainability Standards Board (ISSB).
Um desafio crítico identificado na análise refere-se à conectividade entre os temas materiais e as demonstrações financeiras. Os pronunciamentos do CBPS exigem que riscos climáticos ou sociais não sejam apenas listados, mas conectados diretamente ao balanço patrimonial, implicando reportar como tais temas afetam rubricas contábeis, despesas de capital e a valorização de ativos vulneráveis. Nesse contexto, a Empresa E apresenta um avanço significativo ao utilizar a métrica de Integrated Profit and Loss (iP&L), que busca monetizar impactos socioambientais, aproximando o relato da linguagem financeira estrita exigida pelo IFRS.
Em termos de maturidade corporativa, as companhias brasileiras analisadas encontram-se em um estágio avançado de transição. A Empresa A, que atua na administração de mercados de capitais, realizou uma revisão bienal de sua materialidade em 2024, fundamentada no conceito de dupla materialidade. O processo identificou 25 temas potenciais, engajou dez grupos de stakeholders, totalizando mais de 580 indivíduos, e resultou em 12 temas de alta relevância, categorizados em quatro eixos estratégicos: Conduta, Negócios, Pessoas e Sociedade. A empresa utiliza como referência normas da GRI, SASB, IIRC, TCFD e os ODS da ONU.
A Empresa B, do setor atacadista de autosserviços, também realizou uma revisão e atualização de sua materialidade em 2024, com o propósito de delimitar temas prioritários para o biênio 2025-2026. O estudo, conduzido com consultoria externa, aplicou a metodologia de dupla materialidade, avaliando riscos e oportunidades sob as perspectivas financeira e socioambiental. O processo envolveu quatro fases principais e engajou diversos grupos de stakeholders por meio de entrevistas e levantamentos quantitativos. A empresa alinha-se às diretrizes da GRI, CSRD (União Europeia), ESRS (Padrões Europeus), ISE e B Corp, e identificou nove temas materiais categorizados nos pilares ESG.
A Empresa C, atuante no setor bancário, conduz seu processo de materialidade em periodicidade bienal, com a atualização de 2024 adotando as diretrizes do ISSB e o conceito de dupla materialidade. Essa abordagem permitiu a mensuração simultânea dos impactos das atividades corporativas sobre a sociedade e o meio ambiente, bem como os reflexos financeiros. O processo contou com suporte de consultoria externa, observando as diretrizes da Norma de Engajamento de Stakeholders (AA1000) e a política interna da companhia. Após análise de contexto, engajamento de stakeholders e priorização, sete temas materiais foram validados pelo Conselho de Administração, incluindo gestão do capital humano e riscos climáticos. A empresa baseia-se nas diretrizes do ISSB, AA1000, GRI e SASB.
A Empresa D, do setor de energia, fundamenta seu processo de materialidade no conceito de dupla materialidade desde 2022, mapeando o impacto da organização sobre a sociedade e o meio ambiente, e os reflexos ESG no desempenho financeiro. O estudo foi conduzido por consultoria independente, atendendo a múltiplos frameworks como GRI, CDP, IFRS e SASB, e compreendeu cinco fases. O engajamento de mais de 500 respondentes, internos e externos, foi crucial. Os tópicos identificados foram organizados em duas matrizes (impacto socioambiental e impacto financeiro) e subdivididos em categorias estratégicas e relevantes para gestão. No momento da apresentação do relatório, a companhia estava em fase de revisão de sua materialidade para alinhar-se às normas IFRS S1 e S2.
A Empresa E, do comércio atacadista de perfumaria, realizou sua última atualização integral da matriz de materialidade em 2022, também sob o conceito de dupla materialidade. A análise de materialidade é integrada ao sistema de Enterprise Risk Management (ERM) da companhia, visando monitorar riscos e oportunidades associados aos temas materiais. O processo incluiu entrevistas com lideranças de sustentabilidade e um levantamento online com 590 stakeholders. A empresa utiliza referências da GRI, SASB, TCFD, TNFD e CDP, e identificou cinco grandes temas materiais, subdivididos em 17 tópicos específicos, alinhados com agendas globais de desenvolvimento sustentável. A organização também utiliza a métrica Integrated Profit and Loss (iP&L) para monetização de impactos socioambientais.
Por fim, a Empresa F, do setor de serviços médicos, revisou seu processo de materialidade em 2024, fundamentado na dupla materialidade e em ciclos de revisão trienais. O desenvolvimento da matriz estruturou-se em três etapas principais: avaliação do cenário estratégico, consulta online com stakeholders e painel presencial. A consulta envolveu diversos grupos de stakeholders, internos e externos. A materialidade unificada resultou na identificação de 14 tópicos materiais, organizados em seis eixos estratégicos e categorizados em três modalidades de gestão: Regulatório, Diferenciação e Mitigação. A validação final coube ao Comitê ESG da companhia. A empresa alinha seu relato final à GRI, SASB e TCFD.
Em síntese, as matrizes de materialidade das companhias analisadas, embora válidas como ponto de partida institucional e frequentemente baseadas em conceitos de dupla materialidade, tornam-se insuficientes caso não incorporem o foco prioritário no investidor, a fundamentação técnica no SASB e a conexão explícita com os impactos financeiros da organização. Os resultados evidenciam uma dissociação entre a maturidade declarada pelas organizações e a efetiva integração da sustentabilidade à lógica financeira, sugerindo uma adoção ainda predominantemente simbólica das práticas de reporte em alguns aspectos, demandando ajustes mais profundos para a plena conformidade com as normas IFRS S/CBPS.
4. Conclusão
O presente estudo buscou analisar a adequação das matrizes de materialidade empregadas por companhias abertas brasileiras frente às exigências normativas do IFRS S e do CBPS. Verificou-se que, embora a análise de materialidade seja uma prática universal entre as empresas participantes do ISE B3, com alto nível de maturidade na perspectiva de impacto, identificou-se uma lacuna significativa na incorporação da materialidade financeira. Apenas 49% das organizações realizavam essa análise, evidenciando a predominância de modelos baseados na Global Reporting Initiative (GRI) e um desalinhamento parcial com as novas exigências. Observou-se que a maioria das companhias se encontra em fase de estudo das novas normas, sem a adoção efetiva de medidas práticas para a integração nos processos de relato. A análise aprofundada de casos múltiplos corroborou que as matrizes de materialidade tradicionais, embora úteis, demandam adaptações técnicas rigorosas, com foco na materialidade financeira e na conectividade com as demonstrações contábeis, como exemplificado pela utilização da métrica Integrated Profit and Loss (iP&L) por uma das empresas.
A principal contribuição do estudo reside em evidenciar a transição conceitual entre a materialidade de impacto e a materialidade financeira, ampliando a compreensão sobre os desafios de convergência normativa no contexto brasileiro. Os resultados indicam que a conformidade plena com as normas IFRS S/CBPS exige uma redefinição do público-alvo e do objetivo da informação reportada, priorizando investidores e credores, e a conexão explícita dos temas materiais com os impactos financeiros da organização. Contudo, é importante considerar que a perspectiva primordialmente focada no valor da firma, inerente às novas normas, pode secundarizar a visão sistêmica do impacto das atividades organizacionais sobre o meio ambiente e a sociedade. Para estudos futuros, sugere-se investigar a efetividade da implementação das quatro etapas do processo de materialidade preconizado pelo ISSB e o impacto da maior comparabilidade das informações de sustentabilidade nas decisões de investimento e no mercado de capitais brasileiro.
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Yin, R. K. 2015. Estudo de Caso: Planejamento e Métodos. 5ed. Porto Alegre: Bookman, Porto Alegre, RS, Brasil.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
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