23 de julho de 2026
A influência da desinformação nos hábitos de consumo dos brasileiros
Caroline Andrade Navarro; Pedro Rodrigues Oliveira
DOI: 10.22167/2675-6528-202600645
Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Resumo
Este estudo investigou a influência da desinformação nos hábitos de consumo dos brasileiros, com o objetivo de compreender como a propagação de conteúdos falsos afeta as decisões econômicas e propor indicadores de exposição e propensão à desinformação. A pesquisa adotou uma abordagem mista, qualitativa e quantitativa, de caráter descritivo e exploratório, fundamentada na economia comportamental, que destacou heurísticas, vieses cognitivos e o papel das emoções no processo decisório. Aplicaram-se questionários para coletar dados empíricos sobre o comportamento dos participantes diante de informações distorcidas relacionadas ao consumo e investimentos. Os resultados revelaram que, apesar de um comportamento econômico relativamente responsável, os indivíduos apresentaram vulnerabilidade cognitiva à desinformação. Observou-se que mais de 70% dos participantes utilizavam redes sociais como principal fonte de notícias, o que amplifica a exposição a conteúdos enganosos. Uma correlação negativa moderada foi identificada entre a exposição à desinformação e a capacidade crítica, indicando que maior contato com conteúdos falsos diminuiu a habilidade de identificar informações enganosas. Concluiu-se pela necessidade de medidas articuladas em educação, regulação e tecnologia para mitigar os impactos da desinformação, sugerindo a inclusão da educação financeira e midiática nos currículos escolares e o aprimoramento do monitoramento de algoritmos em redes sociais para promover um ambiente digital mais seguro e confiável.
Palavras-chave: Análise de investimentos; Economia comportamental; Informações falsas; Vieses cognitivos.
1. Introdução
O cenário contemporâneo é caracterizado por uma série de desafios complexos, que abrangem dimensões sociais, ambientais, geopolíticas e tecnológicas, e que impactam diretamente a segurança, a estabilidade e o progresso das nações. Neste contexto, a desinformação emerge como um dos principais riscos de curto e médio prazo, conforme identificado pelo World Economic Forum (2025). A gravidade desse risco é acentuada pela rápida evolução tecnológica, especialmente o avanço da inteligência artificial, que potencializa a criação e a disseminação em massa de informações falsas no ambiente digital.
Embora o fenômeno das notícias falsas, popularmente conhecido como “fake news”, não seja recente e possua raízes históricas que remontam à Antiguidade, como apontado por Morgan (2018), a proliferação da internet e das redes sociais transformou-o em um problema de alcance global. Wardle e Derakhshan (2017) argumentam que o termo “fake news” não abarca a totalidade da complexidade da desinformação, que transcende boatos isolados e pode influenciar decisões em larga escala, afetando grandes populações. Essa dinâmica tem implicações profundas tanto para a sociedade quanto para o comportamento individual, frequentemente marcado pela impulsividade e pela influência de dados incorretos.
A análise da disseminação da desinformação pode ser efetivamente realizada sob a ótica da economia comportamental, um campo que reconhece a influência das emoções, das cognições e do contexto social nas decisões econômicas. Diferentemente da perspectiva econômica tradicional, que pressupõe a racionalidade plena dos agentes, a economia comportamental demonstra que os indivíduos são frequentemente guiados por fatores irracionais, como explorado por Sbicca (2014). Kahneman e Tversky (1979), com sua Teoria das Perspectivas, evidenciaram como os julgamentos e as decisões são sistematicamente distorcidos por vieses cognitivos.
Segundo Kahneman (2012), uma parcela significativa das decisões humanas é processada de forma automática e intuitiva, por meio do que ele denomina “sistema 1” de pensamento. Em ambientes saturados de informação, como as redes sociais, esse processo rápido e intuitivo aumenta a vulnerabilidade dos indivíduos à desinformação e, consequentemente, a decisões impulsivas. A presença constante de vieses cognitivos, como o viés de aversão à perda, o viés de status quo e o efeito manada, ilustra como a percepção e a tomada de decisão podem ser distorcidas, mesmo em situações que exigem maior ponderação.
No contexto brasileiro, esse cenário é agravado pelo elevado índice de analfabetismo funcional, que, de acordo com o INAF (2024), afeta cerca de quarenta milhões de brasileiros, correspondendo a 29% da população. Essa parcela da população apresenta dificuldades em compreender e utilizar informações de forma crítica, tornando-a particularmente suscetível a decisões de consumo e investimento baseadas em informações imprecisas ou enganosas, especialmente no ambiente digital (Chertman, 2011). A combinação de vieses cognitivos, baixa alfabetização funcional e a exposição a informações falsas cria um ambiente onde muitos indivíduos não conseguem discernir a veracidade das notícias.
Diante desse panorama, a presente pesquisa busca investigar como a exposição à desinformação, intrinsecamente ligada à proliferação de “fake news”, impacta negativamente as decisões de consumo e investimento dos brasileiros. Essas decisões abrangem desde escolhas cotidianas relacionadas à aquisição de produtos e serviços, como medicamentos e alimentos, até decisões financeiras complexas, frequentemente fundamentadas em informações distorcidas. A lacuna reside na compreensão aprofundada dos mecanismos pelos quais a desinformação molda o comportamento econômico em um contexto de vulnerabilidade informacional, justificando a relevância de discutir a regulação da informação e a proteção do consumidor no Brasil.
O objetivo geral deste estudo é compreender de que maneira a desinformação influencia tais decisões, propondo indicadores de exposição e propensão à desinformação, bem como de comportamento econômico responsável, a fim de oferecer subsídios para o entendimento e a regulação do fenômeno, contribuindo para práticas de consumo mais conscientes e responsáveis no contexto nacional.
2. Material e Métodos
A presente pesquisa foi delineada com uma abordagem metodológica mista, combinando elementos qualitativos e quantitativos, e caracterizou-se por ser descritiva e exploratória. Essa escolha permitiu uma compreensão aprofundada do fenômeno da desinformação e seus impactos nas decisões econômicas dos brasileiros. A fundamentação teórica do estudo apoiou-se nos princípios da economia comportamental, que reconhece a influência de heurísticas, vieses cognitivos e emoções no processo decisório dos indivíduos.
O procedimento de pesquisa central consistiu na aplicação de um questionário estruturado, desenvolvido especificamente para este estudo. O instrumento foi administrado de forma online, utilizando a plataforma Google Forms, o que facilitou a coleta de dados de um público amplo e diversificado. O objetivo principal da aplicação do questionário foi coletar dados empíricos que pudessem elucidar o comportamento dos participantes diante de informações falsas ou distorcidas, especialmente aquelas relacionadas a decisões de consumo e investimento.
A amostra do estudo foi composta por 143 indivíduos brasileiros, todos maiores de 18 anos. A seleção dos participantes ocorreu de forma não aleatória e não representativa, priorizando a acessibilidade e a voluntariedade. A participação foi garantida como anônima, assegurando a confidencialidade das respostas e promovendo um ambiente seguro para a expressão das percepções e experiências dos respondentes.
A divulgação do questionário foi realizada por meio de plataformas de redes sociais amplamente utilizadas no Brasil, incluindo grupos de WhatsApp, Instagram e Facebook. Essa estratégia de divulgação visou alcançar um número significativo de participantes, aproveitando a capilaridade dessas redes para maximizar o alcance da pesquisa e a diversidade da amostra.
O questionário foi estruturado em três seções distintas para abordar os diferentes aspectos do estudo. A primeira seção dedicou-se à coleta de informações demográficas dos participantes, como idade, gênero, escolaridade e renda, que são fatores contextuais relevantes para a análise do comportamento econômico. A segunda seção concentrou-se em dados econômicos, empregando questões estruturadas em escala Likert para avaliar o grau de concordância ou discordância dos participantes em relação a diversas afirmações sobre práticas financeiras e de consumo.
A terceira seção do questionário foi projetada para avaliar a exposição dos participantes à desinformação. Para isso, apresentou-se uma combinação de notícias, algumas verdadeiras e outras falsas, relacionadas a temas econômicos e de interesse geral. Com base nas respostas a essas notícias, foi possível classificar os participantes quanto ao seu nível de exposição e propensão à desinformação em seu cotidiano.
Para a análise dos dados coletados, foram desenvolvidos e aplicados três indicadores específicos. O primeiro, denominado Indicador de Comportamento Econômico Responsável (ICER), teve como finalidade mensurar os padrões de comportamento econômico dos respondentes, abrangendo aspectos como consumo, planejamento financeiro e uso geral de recursos. O ICER foi calculado pela média das respostas a questões sobre comportamento econômico, cujas pontuações variavam de 1 a 5. As questões que compuseram este indicador abordavam temas como decisões de consumo influenciadas por anúncios, decisões financeiras baseadas em informações incorretas, pressão social para consumir, decisões de investimento sem pesquisa, hábitos de poupança, evitação de dívidas e uso de orçamento mensal.
O segundo indicador, o Indicador de Exposição à Desinformação (IED), buscou quantificar o grau de contato prévio dos participantes com conteúdos inverídicos. Para sua construção, foram analisadas as respostas às notícias de economia apresentadas no questionário. Cada resposta recebeu uma pontuação de 1 a 5, refletindo o grau de exposição às notícias. A fórmula utilizada para o cálculo do IED foi a média das pontuações atribuídas às respostas, onde N representou o número total de questões que avaliavam a exposição à desinformação e Zi a resposta do participante à questão i.
O terceiro indicador, o Indicador de Propensão à Desinformação (IPD), foi concebido para medir a tendência dos indivíduos a acreditar e analisar informações incorretas ou enganosas. Este indicador foi calculado a partir da proporção de respostas corretas e incorretas dadas pelos participantes às notícias apresentadas. As respostas foram classificadas como “1” para acertos (identificação correta da veracidade da notícia) e “0” para erros (identificação incorreta). A fórmula do IPD considerou M como o número de notícias apresentadas e Wj como a resposta do participante à notícia j, permitindo avaliar a capacidade de julgamento crítico e a suscetibilidade à desinformação.
Os dados foram organizados e processados para permitir a aplicação das fórmulas dos indicadores. A análise desses indicadores possibilitou uma compreensão integrada da relação entre os hábitos de consumo, a exposição à desinformação e a propensão a acreditar em conteúdos falsos no contexto brasileiro. A pesquisa foi conduzida com a garantia de anonimato dos participantes, conforme explicitado no termo de consentimento implícito ao preenchimento do questionário, respeitando os princípios éticos de pesquisa.
3. Resultados e Discussão
A presente seção detalha os achados da pesquisa, interpretando-os à luz do referencial teórico da economia comportamental e dos objetivos propostos, que visavam compreender a influência da desinformação nos hábitos de consumo e investimento dos brasileiros. Os resultados são apresentados em subtópicos que abordam a caracterização da amostra, os hábitos de consumo de informação e a análise dos indicadores desenvolvidos. Essa estrutura permite uma compreensão progressiva dos fenômenos observados, conectando os dados empíricos às discussões teóricas e às implicações práticas, sem antecipar as conclusões gerais do estudo.
Caracterização da amostra
Para o desenvolvimento deste estudo, uma amostra de 143 indivíduos foi entrevistada por meio de um questionário estruturado. A análise demográfica revelou que a maioria dos participantes era do sexo feminino, representando 58,74% da amostra, enquanto 39,86% se identificaram como homens e 1,40% como não binários ou outros. A faixa etária predominante foi de 25 a 34 anos, abrangendo 32,87% dos respondentes, seguida por 18 a 24 anos, com 25,17%. Indivíduos com 55 anos ou mais representaram 16,78% da amostra, indicando uma participação diversificada em termos de idade, mas com foco em grupos mais jovens e economicamente ativos.
Em relação à escolaridade, a maior parte dos participantes possuía ensino superior completo, correspondendo a 37,06%, e 13,29% tinham pós-graduação completa. O ensino médio completo foi reportado por 20,98% dos entrevistados, e 19,58% estavam cursando ensino superior. Esses dados sugerem um perfil de amostra com nível educacional relativamente elevado. Geograficamente, a região Sudeste concentrou a vasta maioria dos participantes, com 82,52%, enquanto as demais regiões apresentaram representatividade menor, como Norte (4,90%), Centro-Oeste (4,90%), Sul (5,59%) e Nordeste (2,10%).
Quanto à renda mensal média, a faixa de R$ 2.000 a R$ 5.000 foi a mais comum, com 34,27% dos respondentes, seguida por R$ 5.000 a R$ 10.000, com 27,97%. A renda de até R$ 2.000 foi declarada por 21,68% dos participantes, e 16,08% reportaram renda acima de R$ 10.000. Este perfil de renda, que se situa acima do salário-mínimo estipulado no Brasil em 2026, em conjunto com a predominância de indivíduos empregados (46,85%) ou empreendedores/autônomos (25,17%), caracteriza a amostra como composta por consumidores jovens e economicamente ativos. Tal contexto é particularmente relevante para analisar como a desinformação pode influenciar decisões de consumo e investimento em um grupo com maior poder aquisitivo e acesso a informações, mas que ainda pode ser suscetível a vieses cognitivos.
Hábitos de consumo
A análise dos hábitos de consumo de informação revelou uma intensa conexão dos participantes com o ambiente digital. Observou-se que mais de 85% dos entrevistados utilizavam a internet diariamente, sendo que aproximadamente 65% a acessavam mais de uma vez por dia e cerca de 20% a utilizavam todos os dias. Essa alta frequência de uso da internet indica uma exposição contínua a fluxos de informação, o que, conforme discutido por Kahneman (2012), pode ativar o “sistema 1” de pensamento, tornando os indivíduos mais vulneráveis a decisões impulsivas e à desinformação em ambientes saturados de conteúdo.
Em relação ao consumo de notícias, os dados indicaram que a maior parte dos participantes mantinha uma frequência elevada. Aproximadamente 40% dos respondentes consumiam notícias mais de uma vez por dia, e cerca de 30% as consumiam diariamente. Menos de 20% dos indivíduos entrevistados relataram acesso a notícias por menos de três dias na semana. Este padrão de consumo intensivo de notícias sugere uma alta exposição informacional, o que é um fator crítico para a compreensão da disseminação da desinformação, especialmente quando se considera a fonte dessas informações.
Os veículos de comunicação preferenciais para o consumo de notícias foram predominantemente as redes sociais, com mais de 70% dos respondentes indicando plataformas como X (Twitter), Threads, Instagram e TikTok como suas principais fontes. Em contraste, o noticiário na televisão foi citado por cerca de 15% dos participantes, e os grupos de WhatsApp e Telegram por aproximadamente 10%. Essa predominância das redes sociais como fonte de notícias é um achado crucial, pois esses ambientes são conhecidos por serem propícios à circulação de conteúdos não verificados e à rápida disseminação de “fake news”, ampliando a vulnerabilidade dos consumidores à desinformação e seus impactos nas decisões econômicas.
Indicadores
A aplicação dos indicadores definidos na metodologia permitiu uma compreensão aprofundada do comportamento econômico responsável, da exposição à desinformação e da propensão a acreditar em informações incorretas. O Indicador de Comportamento Econômico Responsável (ICER) revelou que mais de 60% dos indivíduos apresentaram um nível alto de responsabilidade econômica, com uma média geral de 3,45 em uma escala de 1 a 5. Essa pontuação, considerada alta, sugere que, apesar do ambiente informacional complexo, os participantes demonstram uma relativa racionalidade em suas práticas financeiras.
Ainda no âmbito do ICER, verificou-se que 66,43% dos entrevistados já haviam investido em ativos financeiros de baixo risco, como renda fixa, poupança, CDB, LCI e LCA. Além disso, 23,78% já haviam investido em ativos de alto risco, como ações, criptomoedas, derivativos e fundos imobiliários. Embora esses dados apontem para um comportamento financeiro ativo e, em grande parte, prudente, a economia comportamental, conforme Kahneman (2012), sugere que mesmo indivíduos responsáveis são suscetíveis à influência de vieses cognitivos, que operam por meio do “sistema 1” de pensamento, caracterizado por decisões rápidas e intuitivas.
Os vieses cognitivos, como a aversão à perda, o viés de status quo e o efeito manada, foram identificados como fatores que podem impactar as decisões de investimento e poupança. A aversão à perda, por exemplo, pode levar os indivíduos a manter investimentos perdedores na esperança de recuperação, pois a dor de perder é maior do que a satisfação de ganhar o equivalente. O viés de status quo reflete a resistência à mudança, mesmo quando benéfica, enquanto o efeito manada impulsiona a adesão a decisões de grupo, ignorando análises individuais. Esses vieses, ao distorcer a percepção e a tomada de decisão, podem aumentar a vulnerabilidade à desinformação, mesmo em contextos de aparente racionalidade econômica.
O Indicador de Exposição à Desinformação (IED) apresentou uma média geral de 1,744, com 81% dos entrevistados classificados com baixa exposição (resultados iguais ou menores a 2). Embora este resultado sugira um baixo contato prévio com informações inverídicas, ele contrasta com o fato de que aproximadamente 70% dos participantes utilizam redes sociais como principal fonte de notícias. Essa aparente contradição pode ser explicada pelo viés de disponibilidade, onde os indivíduos tendem a superestimar a probabilidade de eventos baseando-se na facilidade de recordação. Assim, a percepção de não estar exposto à desinformação pode subestimar a real capacidade de ser enganado e até mesmo de disseminar conteúdo falso inadvertidamente.
Em relação ao Indicador de Propensão à Desinformação (IPD), a análise das respostas a notícias verdadeiras e falsas revelou que mais de 70% das respostas foram classificadas corretamente. Contudo, ao analisar a amostra individualmente, 44,02% dos participantes obtiveram um IPD alto, indicando uma tendência significativa a acreditar em informações incorretas. Essa dualidade ressalta a complexidade da capacidade de julgamento crítico, onde a identificação de notícias falsas pode ser desafiadora para uma parcela considerável da população, mesmo que a maioria acerte a veracidade de notícias específicas.
A correlação entre o IED e o IPD foi examinada por meio de um gráfico de dispersão, que evidenciou uma correlação negativa moderada entre a exposição à desinformação e a capacidade crítica. Isso significa que, quanto maior o contato dos indivíduos com conteúdos falsos, menor tende a ser sua habilidade em identificar corretamente informações enganosas. Este achado é particularmente relevante, pois sugere que a desinformação não apenas causa confusão momentânea, mas também pode enfraquecer a capacidade de julgamento crítico ao longo do tempo, tornando os indivíduos mais suscetíveis a decisões equivocadas em contextos de consumo e investimento.
A relação entre o ICER e o IPD também foi observada, indicando que a maioria dos participantes se concentrava em valores de ICER entre 2 e 4, enquanto o IPD apresentava maior variação. Esse padrão sugere uma associação entre comportamento econômico responsável e capacidade crítica frente à desinformação, embora não seja possível estabelecer uma relação de causa e efeito direta. Os resultados apontam que indivíduos com maior discernimento tendem a adotar práticas econômicas mais consistentes, mas fatores adicionais, como nível de escolaridade, contexto social e acesso à informação, também podem influenciar essa dinâmica complexa.
Apesar da ampla discussão sobre “fake news” no cotidiano, muitos brasileiros mantêm a percepção de que estão imunes à desinformação. No entanto, os dados revelaram que 33,5% dos participantes admitiram já ter sido enganados por notícias falsas compartilhadas nas redes sociais. Esse fenômeno é frequentemente amplificado pelo viés de retrospectiva, um viés cognitivo que distorce a percepção das experiências passadas, levando os indivíduos a acreditar que poderiam ter identificado facilmente a falsidade das informações, desconsiderando as incertezas e complexidades do momento em que a notícia foi consumida. Esse viés impede uma compreensão completa dos fatores que tornam a desinformação tão eficaz e desafiadora de identificar em sua origem.
As plataformas de jogos de aposta online também se beneficiam do viés de retrospectiva e da desinformação. Ao refletir sobre vitórias ou derrotas passadas, os jogadores desenvolvem uma ilusão de controle, subestimando os riscos reais e aumentando a impulsividade, o que pode levar ao comportamento compulsivo. A pesquisa apurou que 11,19% dos entrevistados já participaram de plataformas de aposta online para aumentar a renda, e 11,89% consideraram utilizá-las após serem expostos a conteúdo online que prometia ganhos fáceis, percebendo-o como um investimento de curto prazo. Isso demonstra como a desinformação, aliada a vieses cognitivos, pode influenciar decisões financeiras arriscadas.
Em síntese, os resultados obtidos indicam que, embora os brasileiros demonstrem um comportamento econômico relativamente responsável, há uma notável vulnerabilidade cognitiva à desinformação, amplificada pelo uso massivo das redes sociais como principal fonte de notícias. A correlação negativa entre exposição à desinformação e capacidade crítica, juntamente com a presença de vieses cognitivos como o de retrospectiva e disponibilidade, evidencia que a desinformação não apenas confunde, mas também pode comprometer o discernimento crítico e influenciar decisões financeiras e de consumo, reforçando a necessidade de intervenções para mitigar esses impactos e promover um ambiente informacional mais seguro.
4. Conclusão
Este estudo buscou compreender a influência da desinformação nas decisões de consumo e investimento dos brasileiros, propondo indicadores de exposição e propensão à desinformação, bem como de comportamento econômico responsável. Verificou-se que, apesar de os indivíduos demonstrarem um comportamento econômico relativamente prudente, com um Indicador de Comportamento Econômico Responsável (ICER) médio considerado alto, existia uma notável vulnerabilidade cognitiva à desinformação. Observou-se que mais de 70% dos participantes utilizavam as redes sociais como principal fonte de notícias, o que amplifica a exposição a conteúdos enganosos. A análise revelou que 33,5% dos entrevistados admitiram ter sido enganados por notícias falsas compartilhadas nessas plataformas, um fenômeno frequentemente exacerbado por vieses cognitivos como o de retrospectiva e disponibilidade. Identificou-se uma correlação negativa moderada entre a exposição à desinformação e a capacidade crítica, indicando que o contato frequente com informações inverídicas tende a diminuir a habilidade de discernir a veracidade dos conteúdos. Além disso, 44,02% dos participantes apresentaram um Indicador de Propensão à Desinformação (IPD) alto, evidenciando uma tendência significativa a acreditar em informações incorretas, o que pode influenciar decisões financeiras arriscadas, como a participação em plataformas de aposta online.
Os achados deste trabalho ressaltam a urgência de medidas articuladas em educação, regulação e tecnologia para mitigar os impactos da desinformação nos hábitos de consumo e investimento. A principal contribuição reside na proposição de indicadores que permitem uma análise mais abrangente da relação entre hábitos de consumo e propensão à desinformação, oferecendo subsídios para o entendimento e a regulação do fenômeno. Recomenda-se a inclusão da educação financeira e midiática nos currículos escolares, bem como a implementação de campanhas direcionadas a adultos e idosos, visando fortalecer a capacidade crítica da população. No âmbito regulatório, sugere-se a criação de programas de monitoramento de desinformação em temas econômicos e o estabelecimento de parcerias entre governo e instituições financeiras para garantir a circulação de informações verificadas. Tecnologicamente, é fundamental aprimorar os algoritmos das plataformas digitais, com mecanismos de sinalização de conteúdos enganosos e maior transparência. Este estudo, de caráter exploratório e com amostra não representativa, aponta para a necessidade de pesquisas futuras que aprofundem a análise da influência da desinformação sobre o comportamento econômico da população, inspirando a criação de indicadores nacionais de exposição e propensão à desinformação.
Referências Bibliográficas
Chertman, F. 2011. Vulnerabilidade de consumo por analfabetos. Dissertação de mestrado. Escola de Administração de Empresas de São Paulo. Fundação Getúlio Vargas, São Paulo, SP, Brasil.
Indicador de Alfabetismo Funcional [INAF]. 2024. Legado e futuro do alfabetismo funcional. Disponível em: <https://alfabetismofuncional.org.br/dados-inaf-2024.pdf>. Acesso em: 10 out. 2025.
Kahneman, D. 2012. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Objetiva. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Kahneman, D.; Tversky. 1979. A. Prospect theory: an analysis of decision under risk”. Econometrica 47 (2): 263-291.
Morgan, D. 2018. Real answers to fake news in Greek historians. Disponível em: <https://opslens.com/real-answers-to-fake-news-from-greek-historians/>. Acesso em 17 out. 2025.
Sbicca, A. 2014. Heurísticas no estudo das decisões econômicas: contribuições de Herbert Simon, Daniel Kahneman e Amos Tversky. Estudos econômicos, vol.44 (3): 579-603.
Wardle e Derakhshan, 2017 [Referência completa não encontrada no documento original]
WORLD ECONOMIC FORUM. 2025. The global risks report 2025: 20th edition. Disponível em: <https://www.weforum.org/publications/global-risks-report-2025/>. Acesso em: 17 out. 2025.
Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Economia, Investimentos e Banking do MBA USP/Esalq
Para saber mais sobre o curso, clique aqui e acesse a plataforma MBX Academy

