Artigo

31 de julho de 2026

A demonstração do valor adicionado como ferramenta de análise social e econômica

Guilherme Lourenzoni Dias; Celso Amorim Morcelli

DOI: 10.22167/2675-6528-202600863

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

Este estudo analisou a Demonstração do Valor Adicionado (DVA) como instrumento de mensuração da geração e distribuição de riqueza entre os agentes econômicos, com ênfase no papel da carga tributária como fator de compressão da remuneração do trabalho. O objetivo foi analisar, comparativamente, a geração e distribuição de riqueza em cinco setores-chave da Bolsa de Valores do Brasil (B3) – Industrial, Financeiro, Agronegócio, Utilidade Pública e Telecomunicações – no período de 2019 a 2023, investigando como a estrutura tributária brasileira comprime a parcela destinada ao trabalho e como a DVA evidencia esse desequilíbrio. A pesquisa caracterizou-se como descritiva e explicativa, com abordagem quantitativa, utilizando a estratégia de estudo de caso múltiplo. Dados secundários foram extraídos de demonstrativos financeiros disponíveis na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Os resultados revelaram que o governo foi o principal ou segundo maior receptor do valor adicionado em quatro dos cinco setores analisados, com parcelas variando entre 21,04% e 62%, enquanto a remuneração do pessoal ficou restrita ao intervalo de 10,60% a 42,42%. Concluiu-se que a elevada e regressiva carga tributária brasileira, incidente especialmente por meio de tributos indiretos, constitui o principal fator de compressão da parcela destinada ao trabalho na distribuição do valor adicionado. A DVA confirmou sua capacidade como ferramenta privilegiada para evidenciar esse desequilíbrio e traduzir o debate sobre equidade distributiva e o papel do Estado na redistribuição da riqueza gerada pela atividade produtiva.

Palavras-chave: Análise Setorial; Carga Tributária; Distribuição de Riqueza; Stakeholders; Transparência Corporativa.

1. Introdução

A contabilidade contemporânea transcendeu o mero registro de atos e fatos patrimoniais, assumindo um papel crucial na comunicação do impacto socioeconômico das organizações. Essa evolução reflete uma crescente demanda por transparência e responsabilidade social das empresas, que são vistas como agentes ativos na sociedade.

No Brasil, a Lei nº 11.638/07 e o Pronunciamento Técnico CPC 09 impulsionaram essa transformação, tornando obrigatória a elaboração da Demonstração do Valor Adicionado (DVA) para companhias abertas. Diferentemente do Demonstrativo do Resultado do Exercício (DRE), que se concentra no lucro líquido para os proprietários, a DVA oferece uma visão abrangente da riqueza total gerada pela entidade e de sua distribuição entre os diversos agentes que contribuem para sua formação, incluindo pessoal, governo, financiadores e acionistas.

Sob a ótica de Iudícibus et al. (2018), a contabilidade possui uma função social intrínseca, atuando como um instrumento de transparência sobre a contribuição da empresa para a sociedade. A DVA, nesse contexto, permite visualizar a dimensão social da organização, detalhando como a riqueza bruta é repartida. Essa perspectiva reforça que a empresa não opera isoladamente, mas como um agente que gera valor compartilhado, contribuindo diretamente para a formação do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Santos e Hashimoto (2003) foram pioneiros no uso sistemático da DVA para mensurar a carga tributária empresarial no Brasil. Seus estudos, com dados de 1996 a 2001, revelaram que a porção do valor adicionado transferida ao governo variava expressivamente entre setores, de 12,5% na Construção a 78,4% em Bebidas e Fumo. Isso estabeleceu a DVA como um instrumento adequado para quantificar o ônus fiscal suportado pelas empresas em relação à riqueza gerada.

Complementarmente, Marion (2019) destacou que a DVA ampliou o nível de divulgação (disclosure) e possibilitou uma análise mais fidedigna da responsabilidade social corporativa. Ao conectar o desempenho econômico ao impacto social da atividade empresarial, a DVA alinha-se ao conceito de “Triple Bottom Line” proposto por Elkington (1997), que defende a avaliação do desempenho corporativo sustentável sob as dimensões econômica, social e ambiental.

Nesse sentido, a DVA representa um instrumento privilegiado de mensuração da sustentabilidade empresarial, ao evidenciar não apenas a lucratividade, mas também a distribuição equitativa da riqueza gerada entre todos os stakeholders. Rocha (2010) inseriu a DVA no contexto da Gestão Estratégica de Custos (GEC), ressaltando sua utilidade como ferramenta gerencial capaz de revelar a eficiência da entidade em transformar ativos em riqueza bruta para a sociedade.

A relevância da DVA como instrumento de análise social se aprofunda quando confrontada com a literatura sobre equidade tributária no Brasil. Gobetti e Orair (2016), em estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), demonstraram que os rendimentos do capital são sistematicamente menos tributados do que os do trabalho no país, resultando em um sistema tributário regressivo no topo da distribuição de renda. Gobetti (2024) atualizou esse diagnóstico, indicando que a alíquota efetiva do Imposto de Renda atinge um máximo de 14% e declina para contribuintes com renda anual superior a um milhão de reais.

Silveira et al. (2022) complementam essa análise ao demonstrar que tributos indiretos, como Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), Programa de Integração Social (PIS) e Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS), que são amplamente evidenciados na DVA como destinações ao governo, fazem com que a faixa de menor renda pague uma carga tributária efetiva de 21,2% de sua renda per capita, enquanto a de maior renda suporta apenas 7,8%. Essa estrutura tributária regressiva tem um impacto direto na distribuição da riqueza gerada pelas empresas.

Adicionalmente, Cunha et al. (2005) e De Luca (2009) demonstraram que a distribuição do valor adicionado entre os agentes econômicos varia substancialmente conforme as características operacionais de cada segmento. Essa variação reforça a importância de análises setoriais comparativas. Koprowski et al. (2020) aprofundaram essa perspectiva ao analisar especificamente a riqueza setorial distribuída ao governo versus as receitas auferidas, evidenciando a desproporcionalidade da apropriação estatal em determinados segmentos da economia brasileira.

Diante desse cenário, a DVA se mostra uma ferramenta essencial para desvelar as dinâmicas de distribuição da riqueza e os efeitos da carga tributária. A compreensão de como a riqueza é gerada e distribuída é fundamental para o debate sobre equidade social e econômica. Assim, o presente trabalho teve como objetivo analisar, de forma comparativa, a geração e a distribuição de riqueza em cinco setores-chave da Bolsa de Valores do Brasil (B3) – Industrial, Financeiro, Agronegócio, Utilidade Pública e Telecomunicações – no período de 2019 a 2023, investigando como a estrutura tributária brasileira comprime a parcela destinada ao trabalho na distribuição do valor adicionado e em que medida a DVA pode evidenciar esse desequilíbrio entre os agentes econômicos.

2. Material e Métodos

O presente trabalho caracterizou-se como uma pesquisa descritiva e explicativa, fundamentada em uma abordagem quantitativa. O objetivo central consistiu em analisar a dinâmica de geração e distribuição de riqueza por meio da Demonstração do Valor Adicionado (DVA), com ênfase no papel da carga tributária como fator de compressão da remuneração do trabalho.

Para tanto, adotou-se a estratégia de estudo de caso múltiplo, conforme a metodologia proposta por Yin (2015). Esse delineamento permitiu a comparação entre diferentes unidades de análise, preservando as particularidades de cada caso, sendo especialmente indicado para identificar padrões e diferenças em contextos operacionais distintos.

A escolha do estudo de caso múltiplo justificou-se pela natureza do problema de pesquisa, que envolveu a análise comparativa da distribuição de riqueza entre setores com estruturas de capital, regimes tributários e modelos de negócio heterogêneos. Segundo Yin (2015), essa estratégia é adequada para investigar fenômenos contemporâneos em seus contextos reais, sem que o pesquisador tenha controle sobre os eventos analisados.

A abordagem metodológica foi embasada na complementaridade entre a análise contábil da DVA e a análise de equidade tributária. As contribuições teóricas de Santos e Hashimoto (2003) e Gobetti e Orair (2016) foram utilizadas para fundamentar a interpretação dos dados coletados, fornecendo um arcabouço para compreender a relação entre a riqueza gerada e sua distribuição.

O universo da pesquisa compreendeu as companhias abertas que compõem cinco segmentos da Bolsa de Valores do Brasil (B3): Bens Industriais, Financeiro, Agronegócio, Utilidade Pública e Telecomunicações. A seleção desses setores foi justificada pela diversidade em suas estruturas de capital, intensidade de mão de obra e regimes tributários, fatores que, conforme Rocha (2010) e Koprowski et al. (2020), impactam diretamente a composição e a distribuição do valor adicionado.

Os dados utilizados foram secundários, obtidos a partir de demonstrativos financeiros padronizados. Esses documentos estavam disponíveis no sistema da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e no portal de Relações com Investidores da B3. O período de coleta e análise abrangeu os exercícios de 2019 a 2023.

A pesquisa utilizou exclusivamente dados de acesso público, em conformidade com os termos da Lei nº 12.527/2011. Dessa forma, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme o inciso II do parágrafo único do art. 1º da Resolução CNS nº 510/2016, que dispensa a aprovação para estudos com dados de domínio público.

A seleção da amostra obedeceu a critérios de consistência técnica. Foram excluídas entidades que apresentaram valor adicionado negativo em mais de dois exercícios do período analisado, bem como empresas que estavam em processo de recuperação judicial. As empresas de cada setor foram identificadas de forma anônima como Empresa A, Empresa B e Empresa C, respeitando as normas institucionais de confidencialidade da USP/ESALQ.

Para as instituições financeiras, observou-se a estrutura específica de apuração da DVA estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Essa particularidade foi considerada devido às diferenças na composição do valor adicionado em relação às empresas comerciais e industriais, garantindo a adequação da análise setorial.

A análise dos dados pautou-se em dois eixos complementares. O primeiro consistiu na aplicação da razão entre o Valor Adicionado e o Ativo Total (VA/Ativo), métrica defendida por Iudícibus et al. (2018) como indicador de produtividade global da entidade, permitindo avaliar a eficiência na geração de riqueza.

O segundo eixo, metodologicamente fundamentado em Santos e Hashimoto (2003), consistiu na análise vertical da distribuição da riqueza. Essa análise foi realizada entre os quatro principais agentes econômicos: pessoal, impostos, remuneração de capital de terceiros e remuneração de capital próprio.

Nesse eixo, calculou-se a carga tributária efetiva de cada setor como a razão entre o valor destinado ao governo e o valor adicionado total a distribuir. Essa métrica permitiu identificar em que medida a apropriação tributária pode comprimir a parcela destinada ao trabalho, conforme proposto por Gobetti e Orair (2016) e Silveira et al. (2022) no âmbito da análise de equidade fiscal.

3. Resultados e Discussão

A análise dos dados coletados entre 2019 e 2023 revelou que a estrutura de distribuição do valor adicionado no mercado brasileiro é profundamente determinada pelo regime tributário de cada setor, corroborando a hipótese central deste estudo de que a carga tributária constitui o principal fator de compressão da remuneração do trabalho. Os resultados demonstraram que o governo foi o principal ou segundo maior receptor do valor adicionado em quatro dos cinco setores analisados, enquanto a parcela destinada ao pessoal permaneceu sistematicamente inferior ao que a proporção de mão de obra empregada poderia sugerir, evidenciando um desequilíbrio estrutural.

O período de 2019 a 2023, objeto desta investigação, abrangeu ciclos econômicos distintos e politicamente relevantes que impactaram diretamente a geração e distribuição de riqueza. O ano de 2019 serviu como base pré-crise, antecedendo a retração de 3,9% do Produto Interno Bruto brasileiro em 2020, decorrente da pandemia de Covid-19, que afetou o valor adicionado em todos os setores. Os anos subsequentes, 2021 e 2022, caracterizaram-se por uma retomada econômica acelerada, acompanhada por pressões inflacionárias que impulsionaram a taxa do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic) a 13,75% ao ano, influenciando o custo do capital.

Em 2023, observou-se o início de um ciclo gradual de afrouxamento monetário, com discussões sobre a Reforma Tributária em tramitação, cujos efeitos ainda não se materializaram no período analisado. A carga tributária brasileira, conforme dados da Receita Federal do Brasil, atingiu em 2024 o maior nível em mais de duas décadas, evidenciando uma trajetória ascendente ao longo do quinquênio estudado. Essa elevação, combinada com a estrutura tributária regressiva, conforme apontado por Gobetti (2024), que onera mais os rendimentos do trabalho nas faixas iniciais de renda e beneficia os rendimentos do capital no topo da distribuição, impacta diretamente a forma como a riqueza é repartida.

Análise da carga tributária como fator de compressão salarial

A análise vertical da Demonstração do Valor Adicionado permitiu calcular a carga tributária efetiva de cada setor como proporção do valor adicionado total a distribuir, seguindo a metodologia proposta por Santos e Hashimoto (2003). Os resultados revelaram uma variação expressiva entre os setores, confirmando que o regime tributário setorial é um determinante crucial da distribuição de riqueza entre os agentes econômicos. A parcela destinada ao governo, por exemplo, variou entre 21,04% e 59,06% do valor adicionado, enquanto a remuneração do pessoal ficou no intervalo de 10,60% a 42,42%.

Essa assimetria é estruturalmente relevante, pois em setores onde o governo captou mais de 48% do valor adicionado, como Utilidade Pública e Telecomunicações, a parcela destinada ao trabalho foi restrita, em média, entre 22% e 25%. Esse padrão é consistente com os achados de Silveira et al. (2022), que demonstraram o caráter intrinsecamente regressivo dos tributos indiretos, predominantes nesses setores, os quais oneram desproporcionalmente as camadas de menor renda. Santos e Hashimoto (2003) já haviam identificado esse fenômeno no setor de Telecomunicações no início dos anos 2000, com 52,7% do valor adicionado destinado ao governo, um padrão que se manteve e se agravou.

Análise Setorial Detalhada

Setor de Bens Industriais

No Setor de Bens Industriais, observou-se a maior concentração da riqueza gerada no Capital de Terceiros, com uma média setorial de 41,57%. Esse resultado reflete a necessidade estrutural de financiamento para a expansão fabril, característica do setor, e o impacto do ambiente de juros elevados predominante no período de 2021 a 2023, que amplificou significativamente o custo do endividamento. A parcela destinada ao governo, de 21,04%, foi a menor entre os setores analisados, mas ainda superou a destinada ao Capital Próprio, que representou 6,61% do valor adicionado, indicando que os acionistas são os últimos a se beneficiar nesse modelo de negócio.

Sob a perspectiva da remuneração do trabalho, o setor Industrial apresentou o segundo maior percentual de remuneração ao pessoal, com 30,79% do valor adicionado. Esse índice reflete a maior intensidade de mão de obra em comparação com os setores de Telecomunicações e Financeiro. Contudo, a significativa parcela de 41,57% destinada aos credores financeiros, cujo custo é influenciado pela política monetária e não por decisões gerenciais, sugere que o trabalhador industrial compete com o sistema financeiro pela parcela residual do valor adicionado. Esse padrão de dependência de crédito caro na indústria brasileira foi previamente identificado por Cunha et al. (2005) e De Luca (2009).

Setor de Utilidade Pública

O Setor de Utilidade Pública registrou a maior pressão fiscal entre os setores capital-intensivos, com o governo apropriando-se de mais de 48% do valor gerado, chegando a 55% e 60% em empresas individuais. Esse elevado nível de tributação decorre da estrutura das concessões públicas de energia e saneamento, cujo modelo regulatório incorpora alíquotas elevadas de tributos indiretos, como Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), Programa de Integração Social (PIS) e Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS), além de contribuições setoriais, que incidem sobre toda a cadeia produtiva. A remuneração do pessoal, restrita a 25% em média, é moderada devido à alta automação dos processos, enquanto o governo captura a maior parte da riqueza.

O paradoxo desse setor reside no fato de que, embora as empresas forneçam serviços essenciais à população, a carga tributária incidente sobre suas operações é transferida ao consumidor final por meio das tarifas. Isso resulta em um duplo ônus para as camadas de menor renda, que pagam proporcionalmente mais pelo serviço e que poderiam ter salários potencialmente maiores caso a parcela tributária fosse menor. Marion (2019) destacou que a DVA, em tais contextos, é fundamental para expor o custo fiscal da prestação de serviços regulados, uma informação que não é facilmente acessível em outros demonstrativos contábeis.

Setor de Agronegócio

O Setor de Agronegócio exibiu o perfil distributivo mais heterogêneo entre os analisados. A carga tributária relativa foi a menor, com uma média de 25%, e uma das empresas registrou apenas 9% de destinação ao governo. Essa menor pressão fiscal reflete as políticas de desoneração das exportações agropecuárias, incluindo a imunidade do ICMS nas exportações e outros benefícios fiscais específicos do agronegócio. Contudo, essa redução na carga tributária não se traduziu em maior remuneração ao trabalho, visto que a parcela destinada ao pessoal foi a menor de todos os setores, com uma média de apenas 15%.

A explicação para a baixa remuneração do pessoal reside na destinação da riqueza ao Capital Próprio, que absorveu 50% em média, concentrando os ganhos da desoneração tributária nos acionistas, e não nos trabalhadores rurais. Um comportamento notável foi o da Empresa A, que registrou capital de terceiros negativo em dois anos e extremamente volátil nos demais, devido ao uso de instrumentos de “hedge” cambial e financiamento de safra, com resultados líquidos negativos em períodos de reversão de preços de commodities. A análise da remuneração de capital de terceiros do setor foi, portanto, conduzida com base nos dados das outras empresas para melhor representatividade.

Setor de Telecomunicações

O Setor de Telecomunicações evidenciou a maior pressão fiscal do conjunto analisado, com o governo apropriando-se de 59% a 62% do valor adicionado nas empresas individuais. Esse resultado superou os 52,7% identificados por Santos e Hashimoto (2003) para o setor no período de 1996 a 2001, sugerindo um agravamento contínuo da tributação setorial nas últimas décadas. A incidência cumulativa de Imposto Sobre Serviços (ISS), ICMS e contribuições específicas do setor de telecomunicações configura um dos regimes tributários mais onerosos da economia brasileira, impactando diretamente a distribuição da riqueza.

As consequências dessa elevada carga tributária sobre a remuneração do trabalho são diretas: com o governo retendo mais de 59% da riqueza gerada, a parcela disponível para distribuição entre pessoal, credores e acionistas fica estruturalmente comprimida para menos de 41%. A remuneração do pessoal, que foi de 22% em média, é inferior à média dos demais setores, mesmo considerando a demanda por mão de obra qualificada no setor de Telecomunicações. Esse achado corrobora empiricamente a tese de Gobetti e Orair (2016) de que a tributação sobre produção e consumo onera trabalhadores e consumidores finais.

Setor Financeiro

O Setor Financeiro apresentou o modelo mais singular de distribuição de riqueza, com 46% do valor adicionado destinado ao Capital Próprio, a maior proporção entre todos os setores analisados. A carga tributária de 28% foi moderada em relação aos demais setores, refletindo a natureza da atividade bancária, cujos tributos incidem predominantemente sobre o resultado, e não sobre a produção. Esse perfil tributário diferenciado, conforme identificado por Gobetti e Orair (2016), é estruturalmente vantajoso para os detentores de capital, pois setores produtivos suportam tributos indiretos que comprimem o valor adicionado antes da distribuição, enquanto o setor financeiro distribui e tributa posteriormente.

Gobetti (2024) aprofundou essa análise ao destacar que os acionistas do setor financeiro que recebem dividendos e juros sobre capital próprio são beneficiados pela isenção de Imposto de Renda para pessoas físicas, conforme a Lei nº 9.249/1995. Isso implica que os 46% do valor adicionado destinados ao Capital Próprio chegam aos acionistas com uma alíquota efetiva significativamente inferior à que incide sobre os salários dos trabalhadores do mesmo setor. A DVA, ao evidenciar essa distribuição, oferece uma base empírica para compreender a vantagem da remuneração do capital sobre o trabalho, não por mérito produtivo, mas pela arquitetura do sistema tributário.

A remuneração do pessoal no setor Financeiro, com 18% em média, foi a segunda menor entre os setores, inclusive inferior à de Telecomunicações, apesar das altas remunerações individuais características do mercado financeiro. Isso ocorre devido ao menor número de empregados, reflexo da alta automação bancária, e à elevada base do valor adicionado, que faz com que percentuais baixos representem valores nominais significativos. Cunha et al. (2005) já haviam identificado que o setor financeiro consistentemente registra os maiores índices de remuneração ao capital próprio, um padrão que os resultados desta pesquisa confirmaram e intensificaram no período de 2019 a 2023.

Análise consolidada: tributação, capital e trabalho

A análise consolidada dos perfis de distribuição dos cinco setores permite visualizar o padrão central identificado neste estudo: em quatro dos cinco setores, o governo foi o principal ou segundo maior receptor do valor adicionado, enquanto a parcela destinada ao pessoal permaneceu consistentemente abaixo de 31%. O único setor em que o trabalho não foi comprimido prioritariamente pela tributação foi o Agronegócio, mas, nesse caso, a desoneração fiscal beneficiou o capital próprio, que recebeu 50% do valor adicionado, e não o trabalhador, que ficou com 15%.

Esses resultados confirmam e ampliam os achados de Koprowski et al. (2020), que identificaram a desproporcionalidade na riqueza setorial distribuída ao governo versus as receitas auferidas, especialmente nos setores de infraestrutura e telecomunicações. A comparação com dados históricos de Santos e Hashimoto (2003) revela que a carga tributária setorial cresceu nas últimas duas décadas em Telecomunicações, com um aumento de seis a nove pontos percentuais, e em Utilidade Pública, com quatro a oito pontos percentuais, enquanto a parcela destinada ao pessoal permaneceu estagnada ou até mesmo reduziu.

O argumento central desta pesquisa encontra robusta sustentação empírica nos dados da DVA: a estrutura tributária brasileira, caracterizada pela predominância de tributos indiretos sobre a produção e o consumo, captura sistematicamente uma parcela do valor adicionado que poderia remunerar mais adequadamente o trabalho. Conforme demonstrado por Silveira et al. (2022), esses tributos indiretos são regressivos, onerando mais as camadas de menor renda. Os dados da DVA confirmam que, no âmbito empresarial, esses tributos comprimem a parcela destinada ao pessoal antes mesmo que a riqueza seja distribuída entre os demais agentes, criando um círculo de compressão salarial estrutural.

4. Conclusão

O estudo analisou a geração e distribuição de riqueza em cinco setores-chave da Bolsa de Valores do Brasil (B3) – Industrial, Financeiro, Agronegócio, Utilidade Pública e Telecomunicações – no período de 2019 a 2023, investigando como a estrutura tributária brasileira comprime a parcela destinada ao trabalho e como a Demonstração do Valor Adicionado (DVA) evidencia esse desequilíbrio. Verificou-se que o governo constituiu o principal ou segundo maior receptor do valor adicionado em quatro dos cinco setores analisados, com parcelas que variaram entre 21,04% e 62%. Em contraste, a remuneração do pessoal ficou restrita ao intervalo de 10,60% a 42,42%. Identificou-se que a elevada e regressiva carga tributária brasileira, incidente especialmente por meio de tributos indiretos, representa o principal fator de compressão da parcela destinada ao trabalho na distribuição do valor adicionado. A DVA confirmou sua capacidade como ferramenta privilegiada para evidenciar esse desequilíbrio, revelando padrões setoriais distintos, como a predominância do capital de terceiros no setor Industrial, a alta pressão fiscal em Utilidade Pública e Telecomunicações, a desoneração fiscal que beneficiou o capital próprio no Agronegócio, e a maior proporção de riqueza destinada ao capital próprio no setor Financeiro.

A principal contribuição deste estudo reside em sua capacidade de traduzir, em linguagem contábil e quantitativa, o debate sobre equidade distributiva e o papel do Estado na redistribuição da riqueza gerada pela atividade produtiva, fornecendo uma base empírica para a compreensão da assimetria entre a remuneração do capital e do trabalho. Contudo, a pesquisa apresentou limitações decorrentes da amostra por conveniência, com apenas três empresas por setor, o que restringe a generalização dos resultados para o universo setorial. A impossibilidade de apresentar os valores reais de VA/Ativo por empresa, devido a normas de confidencialidade, também representou uma restrição. Para estudos futuros, sugere-se a ampliação da amostra com métodos probabilísticos, a incorporação de análises de regressão para identificar os determinantes da distribuição setorial de riqueza, a avaliação dos efeitos da Reforma Tributária em curso sobre os perfis distributivos identificados, e a investigação sobre se a desoneração fiscal setorial se traduz em ganhos salariais para os trabalhadores ou apenas em ampliação da remuneração ao capital.

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Yin, R.K. 2015. Estudo de caso: planejamento e métodos. 5ed. Bookman, Porto Alegre, RS, Brasil.

Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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