Artigo

29 de julho de 2026

A ausência de segurança psicológica em agências de publicidade: impactos em campanhas desalinhadas ao ESG

Eduarda do Carmo Friedrich; Christiane Delmondes Versuti

DOI: 10.22167/2675-6528-202600741

Artigo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Resumo

A crescente demanda por práticas organizacionais mais éticas e responsáveis ampliou a relevância dos princípios de ESG no campo da publicidade, evidenciando a necessidade de ambientes de trabalho que favoreçam o diálogo e a reflexão crítica. Este estudo investigou como a ausência de segurança psicológica em agências de publicidade pode contribuir para o desenvolvimento de campanhas desalinhadas aos princípios de ESG. Para isso, realizou-se uma pesquisa exploratória e descritiva, com abordagem de métodos mistos, por meio de um levantamento de campo (survey) aplicado a profissionais do setor de publicidade no Brasil. Um questionário online com 15 perguntas foi o instrumento de coleta, e 102 respostas válidas foram analisadas. Identificaram-se níveis intermediários de segurança psicológica, caracterizados por autocensura, medo de julgamento e limitação do debate crítico, especialmente em contextos de pressão por resultados e aprovação do cliente. A discussão sobre princípios de ESG mostrou-se pouco consistente no processo criativo, o que favoreceu a ocorrência de campanhas com potenciais riscos éticos, sociais e de representatividade. Verificou-se, ainda, o reconhecimento dos profissionais acerca da relação entre clima organizacional e responsabilidade social das campanhas. Evidenciou-se, portanto, que a ausência de segurança psicológica compromete a qualidade ética das entregas publicitárias, indicando a necessidade de transformações culturais e estruturais nas agências.

Palavras-chave: Clima organizacional; Ética na publicidade; Processo criativo; Responsabilidade social.

1. Introdução

A crescente demanda por práticas organizacionais mais éticas e responsáveis tem ampliado a relevância dos princípios de ESG no campo da publicidade, evidenciando a necessidade de ambientes de trabalho que favoreçam o diálogo e a reflexão crítica. O conceito de ESG, originado da expressão inglesa “Environmental, Social and Governance”, representa um novo paradigma nas relações entre empresas e sociedade, ao incorporar critérios éticos, sustentáveis e de transparência à gestão corporativa (Alves, 2025). Este conceito surgiu em dois mil e quatro, a partir do relatório “Who Cares Wins”, publicado pelo Banco Mundial em parceria com o Pacto Global da ONU, com o objetivo de integrar fatores ambientais, sociais e de governança ao mercado de capitais.

Nesse contexto, a segurança psicológica emerge como um conceito fundamental para compreender as dinâmicas de confiança, diálogo e aprendizado nas organizações. Amy C. Edmondson, professora da Harvard Business School, em sua obra “A Organização Sem Medo: Criando Segurança Psicológica no Local de Trabalho para Aprendizado, Inovação e Crescimento” (2020), define-a como a percepção coletiva de que o ambiente de trabalho é seguro para a exposição interpessoal. Isso permite que os indivíduos expressem dúvidas, opiniões e erros sem receio de constrangimento, rejeição ou punição, favorecendo a inovação e o aprendizado coletivo.

A ausência dessa segurança, por outro lado, faz prevalecer o medo e o silêncio, comprometendo a eficiência e a qualidade das decisões organizacionais. Em ambientes marcados pelo medo e pela ausência de diálogo, os profissionais tendem a se omitir diante de riscos éticos ou estratégicos, mesmo quando percebem inconsistências nas decisões da equipe (Edmondson, 2020). Essa situação é particularmente relevante nas agências de publicidade, instituições que, segundo Barreto (1982), ocupam um papel central na comunicação mercadológica, atuando como mediadoras entre marcas e consumidores e transformando estratégias empresariais em mensagens criativas.

A publicidade, que combina técnica e sensibilidade artística, é resultado da integração entre diferentes áreas como atendimento, planejamento, criação e produção (Barreto, 1982). A pressão por resultados e a busca por aprovação de clientes podem inibir o questionamento interno, impedindo o “desafio construtivo” que Clark (2023) aponta como o estágio mais elevado da segurança psicológica. Essa limitação é crucial, pois a capacidade de questionar padrões e propor melhorias é essencial para prevenir a reprodução de discursos excludentes ou práticas que reforcem desigualdades.

Nos últimos anos, o ESG tem ganhado destaque na publicidade, impulsionado pela crescente demanda dos consumidores por marcas socialmente responsáveis. O ESG Marketing propõe o uso do marketing não apenas como ferramenta de promoção, mas como instrumento de coerência entre o discurso institucional e as práticas efetivas (Alves, 2025). Contudo, a relação entre propósito e execução nem sempre se alinha, como evidenciado por campanhas que, apesar de bem-intencionadas, geram críticas e afetam a reputação das marcas. Um exemplo notório é o anúncio da Pepsi com Kendall Jenner, lançado em dois mil e dezessete, que foi amplamente criticado por banalizar o movimento “Black Lives Matter” e retirado do ar após acusações de apropriação indevida (The Guardian, 2017).

Casos como o da Pepsi levantam uma provocação central: com tantas pessoas envolvidas no processo criativo, como ninguém percebeu que a mensagem poderia ser mal interpretada ou considerada incoerente com valores de ESG? Essa questão sugere que alguns profissionais podem ter identificado os riscos da campanha, mas não se sentiram à vontade para manifestar suas percepções devido à ausência de segurança psicológica no ambiente de trabalho. Essa reflexão fundamenta a presente pesquisa, que busca investigar de que maneira a ausência de segurança psicológica nas equipes de agências de publicidade pode contribuir para decisões que resultem em campanhas desalinhadas aos valores de sustentabilidade, diversidade e governança, pilares essenciais para uma comunicação socialmente consciente.

2. Material e Métodos

A presente pesquisa caracterizou-se como exploratória e descritiva, buscando aprofundar a compreensão sobre a ausência de segurança psicológica em agências de publicidade e identificar fatores que influenciam sua relação com o desenvolvimento de campanhas alinhadas ou não aos princípios de ESG. Adotou-se uma abordagem de métodos mistos, combinando a coleta de dados quantitativos e qualitativos. Essa escolha metodológica visou enriquecer a análise e ampliar a compreensão do fenômeno estudado, conforme preconizado por Creswell e Clark (2013), ao permitir maior proximidade com o problema investigado e a análise de elementos que contribuem para sua ocorrência (Gil, 2022).

O delineamento da pesquisa ocorreu por meio de um levantamento de campo, conhecido como survey, de caráter descritivo. Este procedimento foi empregado para coletar informações relacionadas a opiniões, percepções e experiências de um grupo específico de profissionais (Gil, 2022). A unidade de análise consistiu em indivíduos que atuam ou já atuaram em agências de publicidade no Brasil, independentemente de gênero. A amostra foi do tipo não probabilística por conveniência, selecionada pela facilidade de acesso aos participantes e pela viabilidade de execução do estudo. Ressalta-se que, por ser uma amostra não probabilística, os resultados obtidos representam as percepções dos respondentes e não podem ser generalizados estatisticamente para toda a população.

A coleta de dados foi realizada no período de 23 de dezembro de 2025 a 18 de janeiro de 2026. Inicialmente, obteve-se um total de 118 respondentes. Destes, 102 foram considerados qualificados para o estudo, pois atenderam a dois critérios eliminatórios: a concordância com o termo de consentimento livre e esclarecido e a confirmação de atuação prévia ou atual em agências de publicidade. Os participantes foram recrutados por meio de canais digitais, incluindo LinkedIn, WhatsApp e Instagram, garantindo a abrangência da divulgação no setor.

O instrumento de coleta de dados consistiu em um questionário online semiestruturado, elaborado na plataforma Google Forms. O questionário foi composto por 15 perguntas, sendo 14 questões de múltipla escolha e uma questão descritiva. As questões foram estruturadas com base no referencial teórico adotado, buscando operacionalizar conceitos relacionados a clima organizacional, segurança psicológica, processo criativo e princípios de ESG. A questão descritiva teve como objetivo aprofundar as percepções subjetivas dos respondentes, captando nuances relacionadas às experiências vivenciadas e ampliando a profundidade da análise (Gil, 2022).

O questionário foi organizado em três blocos principais para facilitar a coleta e a organização das informações. O primeiro bloco foi voltado à análise do clima organizacional em agências de publicidade. O segundo bloco dedicou-se à relação entre segurança psicológica e processo criativo no desenvolvimento de campanhas. Por fim, o terceiro bloco foi direcionado à compreensão da relação entre clima organizacional, segurança psicológica e princípios de ESG nas campanhas publicitárias. Essa organização se justificou pela compreensão de que a segurança psicológica se manifesta de forma contextual e progressiva nos ambientes de trabalho, dependendo das interações cotidianas e do clima organizacional estabelecido (Edmondson, 2020).

Para garantir a adequação das respostas à vivência prática dos participantes, implementou-se uma lógica de fluxo condicional no questionário. Dependendo das respostas fornecidas, especialmente no que se referia à experiência direta na construção de campanhas, os respondentes eram encaminhados para o bloco seguinte ou direcionados diretamente ao bloco final. A pesquisa foi conduzida de forma anônima, assegurando a confidencialidade das respostas. Além disso, uma pergunta inicial de consentimento livre e esclarecido foi apresentada, sendo sua aceitação uma condição obrigatória para a participação no estudo. O questionário completo encontra-se disponível no Apêndice A desta pesquisa.

A análise dos dados coletados foi orientada pela estrutura do questionário, que permitiu a identificação de padrões recorrentes nas percepções dos respondentes por meio das questões de múltipla escolha. A questão descritiva, por sua vez, possibilitou a captação de nuances subjetivas e experiências vivenciadas, contribuindo para aprofundar a análise do fenômeno, conforme as diretrizes de Gil (2022). Os dados foram organizados e interpretados em consonância com os três eixos temáticos que nortearam a elaboração do instrumento, buscando responder aos objetivos do estudo sem antecipar achados empíricos.

3. Resultados e Discussão

A presente seção tem como objetivo apresentar e contextualizar a análise dos resultados obtidos a partir do questionário aplicado, buscando compreender como a percepção dos profissionais de agências de publicidade sobre o clima organizacional e a segurança psicológica se relaciona com o desenvolvimento de campanhas alinhadas ou não aos princípios de ESG. A coleta de dados, realizada entre 23 de dezembro de 2025 e 18 de janeiro de 2026, resultou em 118 respondentes, dos quais 102 foram considerados qualificados, ou seja, que atenderam aos critérios eliminatórios de concordância com o termo de consentimento e confirmação de atuação prévia ou atual em agências de publicidade. A análise foi organizada em três eixos temáticos definidos no instrumento de pesquisa, refletindo os principais objetivos do estudo e orientando a leitura dos dados apresentados.

Clima organizacional em agências de publicidade

A primeira parte da pesquisa buscou analisar o clima organizacional em agências de publicidade, caracterizando o perfil dos respondentes e suas percepções iniciais sobre a segurança psicológica no ambiente de trabalho. Essa etapa é crucial para contextualizar os achados subsequentes, pois o clima organizacional influencia diretamente a forma como os indivíduos avaliam os riscos interpessoais ao se expressar, questionar decisões ou discordar de lideranças, especialmente em ambientes que demandam colaboração e criatividade (Edmondson, 2020). A compreensão dessas dinâmicas iniciais permite traçar um panorama da cultura predominante nas agências, que molda a capacidade de inovação e a responsabilidade social das campanhas.

Em relação à área de atuação dos participantes, observou-se uma predominância de profissionais ligados à Criação, representando 31,4% da amostra. Em seguida, as áreas de Planejamento e Mídia/Dados apresentaram percentuais de 18,6% e 13,7%, respectivamente, para cada uma das duas últimas categorias. Outras áreas como Atendimento (10%), Produção (3,9%), Gestão (2%), RH/DP (1%) e outras (4,9%) compuseram o restante da distribuição. Essa concentração em funções diretamente relacionadas aos processos criativos e estratégicos das agências é significativa, pois são contextos nos quais a troca de ideias, o debate e o questionamento são elementos centrais para a inovação e a qualidade das entregas.

Esse perfil da amostra indica que a pesquisa capturou a perspectiva de profissionais que atuam em posições estratégicas para a concepção e execução de campanhas. Conforme Clark (2023), ambientes criativos exigem níveis mais elevados de segurança psicológica, uma vez que a inovação depende da disposição dos indivíduos em assumir riscos interpessoais ao propor ideias ou desafiar decisões estabelecidas. A ausência de um ambiente seguro para a expressão de ideias pode, portanto, comprometer a originalidade e a pertinência das soluções criativas, impactando diretamente a capacidade da agência de se adaptar às demandas do mercado e da sociedade.

No que diz respeito ao tempo de atuação em agências, a maioria dos respondentes apresentou experiência significativa no setor. Verificou-se que 33,3% atuam entre quatro e sete anos, 24,5% entre um e três anos e 24,5% há mais de sete anos, enquanto 17,6% possuem menos de um ano de experiência. Esses dados reforçam a relevância da amostra, uma vez que profissionais com maior tempo de atuação tendem a ter vivenciado diferentes culturas organizacionais e modelos de liderança, o que contribui para uma percepção mais crítica sobre o clima organizacional. A experiência prolongada em ambientes complexos, como as agências, amplia a capacidade dos indivíduos de identificar padrões culturais que favorecem ou inibem o aprendizado, a colaboração e a inovação (Borroni-Biancastelli e Machado, 2023).

Ao serem questionados sobre o grau de conforto para expressar opiniões divergentes das lideranças, a maior parcela dos respondentes indicou sentir-se à vontade apenas às vezes, com 47,1% das respostas. Além disso, 24,5% afirmaram sentir-se à vontade na maioria das vezes e 20,6% raramente. Percentuais menores relataram sentir-se à vontade sempre (3,9%) ou nunca (3,9%). Esses resultados sugerem a presença de um clima organizacional marcado por algumas limitações à franqueza, indicando um nível intermediário de segurança psicológica. A expressão de divergências de forma ocasional tende a estimular comportamentos de autocensura e gerenciamento de risco interpessoal, o que pode comprometer a qualidade do debate e a identificação de problemas nos processos de trabalho (Edmondson, 2020).

A questão referente à experiência direta na construção de campanhas publicitárias desempenhou uma função metodológica de qualificação para a seção seguinte do questionário. Dos 102 respondentes, 89,2% afirmaram já ter trabalhado diretamente na construção de campanhas, o que corresponde a 91 profissionais considerados aptos a responder às perguntas da próxima seção, voltada especificamente ao processo criativo e à segurança psicológica nesse contexto. Os respondentes que indicaram nunca ter participado da construção de campanhas foram direcionados diretamente para a última seção do formulário, por não possuírem vivência prática suficiente para opinar sobre dinâmicas criativas específicas. Essa decisão está alinhada à literatura sobre segurança psicológica, uma vez que a avaliação de estágios mais avançados, como a colaboração ativa e o questionamento de decisões, pressupõe participação efetiva nos processos de trabalho (Clark, 2023).

Relação entre segurança psicológica e processo criativo

A segunda seção do questionário aprofundou a análise da relação entre processo criativo e segurança psicológica no desenvolvimento de campanhas publicitárias, considerando os impactos dessa dinâmica sobre a identificação e discussão de riscos éticos, sociais e de governança. Essa etapa é central para o estudo, pois investiga como o medo de errar, o silêncio organizacional e a pressão por aprovação podem influenciar diretamente a qualidade do debate criativo e a incorporação de princípios de ESG nas campanhas. A capacidade de uma equipe de publicidade de produzir conteúdo relevante e responsável está intrinsecamente ligada à liberdade de seus membros para expressar ideias e preocupações sem receio de retaliação.

Ao serem questionados sobre a experiência de apontar problemas ou riscos em ideias de campanha, 41,8% dos respondentes afirmaram que suas colocações foram recebidas de forma construtiva. Contudo, 39,6% relataram que, embora tenham se manifestado, isso gerou desconforto, e uma parcela de 7,7% ainda indicou represálias diretas ou indiretas. Além disso, 11% nunca apontaram problemas. Esses dados revelam um cenário ambíguo: embora exista abertura pontual para o apontamento de riscos, essa prática frequentemente está associada a tensões interpessoais. Quando a segurança psicológica não alcança o estágio do “desafiador”, os indivíduos se manifestam, mas o fazem sob risco emocional, o que limita a recorrência e a profundidade das contribuições críticas (Clark, 2023).

Esse padrão se confirma na questão seguinte, onde 47,3% dos respondentes afirmaram que frequentemente deixam de expressar uma opinião por medo de julgamento ou represália, e 7,7% apontaram que sempre deixam de se expressar. Em contraste, 41,8% indicaram que isso ocorre raramente, e apenas 3,3% nunca vivenciaram esse tipo de situação. O dado evidencia a presença de um comportamento recorrente de autocensura, característica de ambientes com baixa segurança psicológica. De acordo com Edmondson (2020), o silêncio organizacional surge quando os riscos interpessoais são percebidos como superiores aos benefícios de se manifestar, o que compromete o aprendizado coletivo e aumenta a probabilidade de decisões problemáticas permanecerem incontestadas, especialmente em um setor tão dinâmico e de alto impacto social como a publicidade.

Quando analisado o nível de confiança profissional entre os membros da equipe criativa, 54,9% dos respondentes classificaram esse nível como médio, enquanto 20,9% o avaliaram como baixo e 18,7% como muito baixo. Apenas 4,4% o classificaram como alto e 1,1% como muito alto. Esse predomínio de avaliações intermediárias reforça a ideia de um ambiente no qual a colaboração existe, mas é limitada por reservas emocionais e hierárquicas. Conforme Borroni-Biancastelli e Machado (2023), organizações que não constroem relações baseadas em confiança e aprendizado tendem a operar em zonas de conformidade, nas quais a inovação ocorre de forma restrita e defensiva, impedindo a plena exploração do potencial criativo e estratégico das equipes.

A percepção sobre o espaço para questionar decisões estratégicas ou criativas durante a construção de campanhas também aponta para essa limitação. Verificou-se que 57,1% afirmaram que esse espaço existe apenas “às vezes”, enquanto 26,4% indicaram que isso ocorre raramente. Uma parcela de 14,3% afirmou que nunca há espaço, e apenas 2,2% indicaram que sempre há. Esse resultado sugere que o questionamento não está institucionalizado como prática legítima do processo criativo, mas condicionado a contextos específicos ou à postura de determinadas lideranças. Nessas condições, a manifestação de discordâncias e o enfrentamento de ideias estabelecidas tornam-se comportamentos de risco, o que mantém os profissionais em níveis mais iniciais de segurança psicológica e limita a ocorrência de confrontos produtivos capazes de elevar a qualidade das decisões criativas (Clark, 2023).

A pressão por aprovação do cliente aparece como um fator relevante nesse contexto, uma vez que a grande maioria dos respondentes afirmou que ela influencia o silêncio ou a omissão de opiniões internas. Especificamente, 59,3% indicaram que há bastante influência, e 19,8% que há total influência. Uma parcela de 17,6% percebeu pouca influência, e apenas 3,3% apontaram que não há influência. Esse dado evidencia que a lógica de mercado e a hierarquia externa ao time criativo reforçam o silenciamento interno. Dessa forma, ambientes com alta pressão por performance, mas baixa segurança psicológica, tendem a priorizar a conformidade e a velocidade em detrimento do debate crítico, aumentando riscos organizacionais e reputacionais (Edmondson, 2020), o que pode levar a decisões apressadas e menos éticas.

Essa dinâmica se reflete diretamente na percepção sobre o medo de errar, já que 41,8% dos respondentes afirmaram que ele compromete bastante a qualidade do debate criativo, e 15,4% indicaram comprometimento total. Em contrapartida, 37,4% disseram que o medo de errar comprometia pouco, e 5,5% que não comprometia. O medo do erro, nesse sentido, atua como um freio à experimentação e à divergência construtiva. Organizações que não normalizam o erro como parte do processo de aprendizagem reduzem sua capacidade inovadora e fortalecem culturas defensivas (Borroni-Biancastelli e Machado, 2023). Em um setor que exige constante inovação e adaptação, essa aversão ao erro pode ser um obstáculo significativo para o desenvolvimento de campanhas verdadeiramente impactantes e alinhadas aos valores contemporâneos.

No que se refere à discussão dos princípios de ESG durante o desenvolvimento das campanhas, os resultados indicam baixa consistência. A maioria dos respondentes, 35,2%, afirmou que esses temas são abordados raramente, e 29,7% indicaram que nunca são discutidos. Uma parcela de 27,5% disse que são discutidos às vezes, e apenas 7,7% afirmaram que isso ocorre sempre. Esses dados sugerem que o ESG ainda não está plenamente integrado ao processo criativo cotidiano das agências, sendo tratado de forma pontual ou superficial. Isso corrobora com o ponto de vista de Edmondson (2020) e Alves (2025), que apontam que a incapacidade de questionar internamente decisões problemáticas aumenta a probabilidade de falhas públicas, afetando tanto a credibilidade das marcas quanto a responsabilidade social das organizações.

Ao serem questionados sobre a percepção de campanhas com riscos éticos, sociais ou de representatividade que não foram questionados internamente, 33% dos respondentes indicaram que isso ocorre às vezes, 29,7% raramente e 13,2% frequentemente. Uma parcela de 24,2% afirmou que nunca percebeu tal situação. Esse achado evidencia que a ausência de discussões consistentes durante o desenvolvimento das campanhas, observada na questão anterior, pode contribuir para a veiculação de campanhas com riscos éticos, sociais ou de representatividade, sem que haja intervenção da equipe em razão do receio de se posicionar. Nesse cenário, quando o ESG não é incorporado como um critério transversal de decisão ao longo do processo criativo, há o risco de que seja tratado apenas como discurso, sem um controle ético efetivo das práticas comunicacionais (Alves, 2025).

Relação entre clima organizacional, segurança psicológica e princípios de ESG nas campanhas publicitárias

A terceira seção do questionário buscou sintetizar e aprofundar a relação entre clima organizacional nas agências de publicidade, segurança psicológica e a incorporação de princípios de ESG nas campanhas publicitárias, funcionando como um eixo de convergência entre os achados das seções anteriores. Nesta etapa, buscou-se compreender de forma mais direta como a ausência de segurança psicológica pode impactar decisões criativas e estratégicas, especialmente no que se refere à responsabilidade social e ética das campanhas. A interconexão desses elementos é fundamental para entender a complexidade do problema investigado.

Ao serem questionados sobre a percepção de que a ausência de segurança psicológica pode contribuir para campanhas desalinhadas com princípios de ESG, praticamente todos os respondentes concordaram com a afirmação. Especificamente, 56,9% concordaram totalmente, 41,2% concordaram parcialmente, e apenas 2% discordaram parcialmente. Esse resultado evidencia um reconhecimento coletivo de que o silêncio organizacional, o medo de se posicionar e a falta de abertura para o debate crítico influenciam diretamente a qualidade ética e social das campanhas produzidas. Quando os profissionais não se sentem seguros para apontar riscos, falhas ou incoerências, decisões potencialmente problemáticas tendem a ser mantidas, reforçando uma lógica de conformidade que compromete a integridade do processo criativo (Edmondson, 2020; Clark, 2023).

Esse achado dialoga diretamente com a literatura que compreende a segurança psicológica como condição necessária para que indivíduos avancem para estágios mais maduros de contribuição e questionamento. Em contextos nos quais o medo de punição ou julgamento prevalece, as equipes permanecem em níveis iniciais de participação, limitando sua capacidade de desafiar o status quo e de identificar impactos sociais, simbólicos ou reputacionais associados às campanhas. Assim, a ausência de segurança psicológica não afeta apenas o clima interno, mas atua como um fator de risco indireto para a produção de conteúdos desalinhados com valores éticos e princípios de ESG (Clark, 2023), o que reforça a importância de um ambiente de trabalho saudável para a responsabilidade corporativa.

De modo complementar, ao avaliar a relação entre clima organizacional e responsabilidade social nas campanhas publicitárias, a maioria dos respondentes percebe essa conexão como significativa. Verificou-se que 41,2% a classificaram como forte e 19,6% como muito forte, totalizando 60,8% de percepção positiva. No entanto, uma parcela considerável ainda a percebe como fraca (35,3%) ou inexistente (3,9%). Esses dados indicam que, embora exista uma percepção predominante de interdependência entre o ambiente interno das agências e a responsabilidade social de suas entregas, essa relação ainda não é compreendida de forma homogênea ou plenamente consolidada no setor. Isso sugere que há espaço para maior conscientização e integração desses conceitos na cultura organizacional das agências.

A última pergunta do questionário teve caráter aberto e reflexivo, buscando aprofundar, a partir da experiência direta dos respondentes, quais fatores mais influenciam a falta de segurança psicológica em agências de publicidade e quais caminhos poderiam contribuir para a melhoria desse cenário. Diferentemente das questões anteriores, predominantemente fechadas, essa etapa permitiu identificar padrões discursivos recorrentes, complementando e enriquecendo os achados quantitativos apresentados ao longo das seções anteriores. As respostas qualitativas trouxeram uma dimensão mais profunda das percepções dos profissionais.

De modo geral, as respostas convergem para a percepção de que a falta de segurança psicológica nas agências está diretamente associada a fatores estruturais e culturais do próprio mercado publicitário. Entre os fatores mais citados, destacam-se a pressão constante por resultados e prazos reduzidos, hierarquias rígidas e a centralização das decisões criativas. O medo de errar e de sofrer represálias também foi frequentemente mencionado, assim como a cultura de aprovação irrestrita do cliente e a falta de espaços formais para debate. A superficialidade ou o tratamento tardio do ESG no processo criativo também foram apontados como contribuintes para a ausência de segurança psicológica.

Além disso, muitos respondentes apontam a cultura de aprovação do cliente como um elemento que reforça o silenciamento interno, uma vez que questionamentos são frequentemente percebidos como entraves ao fluxo produtivo ou riscos à relação comercial. Esses relatos dialogam com os resultados quantitativos das seções anteriores, que evidenciaram altos índices de autocensura, medo de represálias e limitação do debate crítico durante o processo criativo. A necessidade de agradar o cliente a qualquer custo pode inibir a expressão de preocupações éticas e sociais, mesmo quando os profissionais as identificam, resultando em campanhas que, embora aprovadas, podem gerar repercussões negativas para as marcas e a sociedade.

No que se refere às sugestões de melhoria, destaca-se a recorrência de propostas voltadas à mudança de postura das lideranças, à criação de espaços estruturados de diálogo e à normalização do erro como parte do processo criativo. Os respondentes também mencionam a importância de alinhar discursos institucionais a práticas efetivas, especialmente no que diz respeito à valorização da escuta, da diversidade de perspectivas e da incorporação dos princípios de ESG desde as etapas iniciais das campanhas. Essas sugestões indicam um desejo por transformações culturais que promovam um ambiente mais aberto e colaborativo, onde a segurança psicológica seja um pilar fundamental.

Os achados dessa etapa reforçam a compreensão de que a segurança psicológica não é resultado apenas de iniciativas pontuais, mas da forma como o trabalho é organizado, liderado e legitimado dentro das agências. A partir das respostas analisadas, observa-se que as agências de publicidade no Brasil ainda se encontram em um estágio intermediário e, em certa medida, preocupante de segurança psicológica, no qual existem alguns avanços, mas ainda persistem barreiras que dificultam a expressão de opiniões e o debate crítico de forma consistente. Nesse sentido, a literatura aponta que culturas organizacionais orientadas exclusivamente pela performance e pela velocidade, sem atenção ao clima relacional, comprometem tanto a inovação quanto a responsabilidade social das entregas comunicacionais (Edmondson, 2020; Borroni-Biancastelli e Machado, 2023).

Em síntese, os resultados da pesquisa revelam que a segurança psicológica nas agências de publicidade brasileiras se encontra em um nível intermediário, caracterizado por autocensura e medo de julgamento, especialmente sob pressão por resultados e aprovação do cliente. Essa condição limita o debate crítico e a discussão consistente de princípios de ESG no processo criativo, contribuindo para o desenvolvimento de campanhas com potenciais riscos éticos e sociais. Há um reconhecimento coletivo da relação entre clima organizacional e responsabilidade social das campanhas, indicando a necessidade urgente de transformações culturais e estruturais que promovam um ambiente de trabalho mais seguro para a expressão de ideias e o questionamento construtivo, alinhando as práticas publicitárias aos valores de sustentabilidade, diversidade e governança.

4. Conclusão

O presente estudo buscou investigar de que forma a ausência de segurança psicológica em agências de publicidade pode contribuir para o desenvolvimento de campanhas desalinhadas aos princípios de ESG. Verificou-se que as agências de publicidade no Brasil operam com níveis intermediários de segurança psicológica, caracterizados por autocensura e receio de julgamento. Identificou-se que a pressão por resultados e a busca pela aprovação do cliente frequentemente limitam o debate crítico e a expressão de opiniões divergentes. Observou-se, ainda, que a discussão sobre os princípios de ESG mostrou-se inconsistente no processo criativo, o que favoreceu a ocorrência de campanhas com potenciais riscos éticos, sociais e de representatividade. Os profissionais reconheceram a relação direta entre o clima organizacional e a responsabilidade social das campanhas, evidenciando que a ausência de segurança psicológica compromete a qualidade ética das entregas publicitárias. Fatores como hierarquias rígidas, centralização de decisões e o medo de errar foram apontados como contribuintes para este cenário.

A principal contribuição deste estudo reside em explicitar que a construção de ambientes psicologicamente seguros não é apenas uma questão de bem-estar interno, mas um fator estratégico para a produção de comunicação mais ética, responsável e alinhada às demandas contemporâneas da sociedade. Isso indica a necessidade urgente de transformações culturais e estruturais nas agências, com foco na mudança de postura das lideranças, na criação de espaços formais de diálogo e na normalização do erro como parte do processo criativo, além da incorporação do ESG como critério transversal desde as etapas iniciais das campanhas. Contudo, a pesquisa apresentou limitações, como a amostra por conveniência, que restringe a generalização dos resultados, e a natureza do questionário online, que pode ter limitado a profundidade das respostas sobre dinâmicas organizacionais complexas. Para estudos futuros, sugere-se o aprofundamento qualitativo por meio de entrevistas ou estudos de caso, a investigação do papel das lideranças na segurança psicológica, e a comparação entre diferentes portes de agências ou mercados, bem como a análise do impacto de intervenções específicas na qualidade criativa e na aderência ao ESG.

Referências Bibliográficas

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Barreto, Roberto Menna. 1982. Criatividade em propaganda. 7ª ed. São Paulo: Summus Editorial. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/343952531_CRIATIVIDADE_EM_PROPAGANDA. Acesso em: 10 out. 2025.

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Clark, Timothy R. 2023. Os 4 estágios da segurança psicológica: definindo o caminho para a inclusão e a inovação. 1ª ed. Rio de Janeiro: Alta Books. Disponível em: https://app.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788550819709/epubcfi/6/24%5B%3Bvnd.vst.idref%3Dcap2.xhtml%5D!/4%5BCG_The_4_Stages_of_Psychology_safety_Cap02%5D. Acesso em: 10 out. 2025.

Creswell, J.W.; Clark, V.L.P. 2013. Pesquisa de Métodos Mistos. 2ed. Grupo A, Porto Alegre, RS, Brasil. Disponível em: https://app.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788565848411/. Acesso em: 25 set. 2025.

Edmondson, A.C. 2020. A Organização Sem Medo. Alta Books, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Disponível em: https://app.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9786555204087/. Acesso em: 10 out. 2025.

Gil, A.C. 2022. Como Elaborar Projetos de Pesquisa. 7ed. Atlas, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Disponível em: https://app.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9786559771653/. Acesso em: 25 set. 2025.

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Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq

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11 de setembro de 2026

Inteligência Artificial na Gestão Contratual: Supervisão Humana, Riscos Jurídicos e Governança Algorítmica

O advento da inteligência artificial como tecnologia disruptiva reconfigurou processos econômicos, institucionais e jurídicos, conferindo centralidade à automação contratual na gestão de relações complexas. A automação contratual revelou-se um fenômeno juridicamente não neutro, com opacidade decisória, geração automatizada de cláusulas abusivas e dificuldades de atribuição de responsabilidade, deslocando a elaboração contratual para o domínio jurídico-normativo. O estudo analisou como a inteligência artificial na automação contratual intensificou a colisão entre eficiência tecnológica e segurança jurídica, e em que medida mecanismos de supervisão humana significativa e de governança algorítmica funcionaram como instrumentos de ponderação normativa para preservar princípios do direito contratual brasileiro. A pesquisa adotou abordagem qualitativa de estudo de casos múltiplos, com análise documental de quatro casos paradigmáticos: Moffatt v. Air Canada, United States v. RealPage, Deloitte/DEWR e INSS/TRF-4ª Região, representando os contextos consumerista, concorrencial, consultivo-contratual e administrativo. A análise identificou cinco padrões estruturais recorrentes – opacidade decisória, substituição da racionalidade normativa por inferências probabilísticas, accountability gap, assimetria informacional e incompreensão semântica – que emergiram de forma sistêmica. O desfecho fragmentado do caso RealPage reforçou a conclusão de que a jurisprudência sobre automação decisória permanece em formação. A governança algorítmica eficaz demonstrou exigir a integração de mecanismos de auditabilidade, responsabilização e supervisão humana, conforme as normas ISO 31000, COSO ERM e ISO 37301, como condição necessária à legitimidade dos sistemas automatizados de gestão contratual.

Palavras-chave: Contratos; Governança algorítmica; Inteligência artificial; Segurança jurídica; Supervisão humana.

Compliance E Esg

11 de setembro de 2026

Rituais de Verificação sob Pressão: Categorias de Ação ESG Relatadas por Grande Grupo Frigorífico Antes e Após Operação Deflagrada Pela Polícia Federal e Seus Desdobramentos, em Passado Recente

Relatórios de sustentabilidade são amplamente empregados como instrumentos de gestão da legitimidade corporativa, mas sua função como mecanismo de reorganização cognitiva em contextos de crise reputacional permaneceu subexplorada na literatura. O estudo analisou as transformações nas categorias de ação ESG reportadas pela Empresa JBS em seus relatórios anuais de sustentabilidade de 2015 a 2018, período que compreendeu dois anos anteriores e dois anos posteriores à Operação Carne Fraca e seus desdobramentos. O objetivo foi investigar como a organização alterou sua estrutura cognitiva após a crise reputacional, por meio de um de seus sistemas de reporte. Empregou-se um processo de catalogação sistemática de 1.088 práticas relatadas, classificadas por pilar ESG, tema material e categoria de ação. O referencial teórico mobilizou Mary Douglas (1986), Michael Power (1997), Meyer e Rowan (1977) e Edelman (2016) para interpretar os fenômenos observados. Os resultados evidenciaram um crescimento exigido em governança, que coexistiu com o colapso do pilar social, o desaparecimento de categorias substantivas e a substituição de ações voltadas a prêmios por ações que ressignificaram as relações da organização e seu posicionamento no mercado. Além disso, treinamentos de liderança migraram do tema de cultura para compliance, campanhas de comunicação cederam lugar a canais estruturais permanentes, e investidores tornaram-se a audiência de maior crescimento proporcional. Concluiu-se que a sofisticação do esforço de legitimação residiu não no que a empresa necessariamente fez, mas na consistência com que reorganizou quem ela diz ser e para quem, a partir das categorias de ação que relatou.

Palavras-chave: Crise reputacional; ESG; Pensamento institucional; Relatórios de sustentabilidade; Estratégia organizacional.

Gestão Escolar

11 de setembro de 2026

Liderança Escolar à Luz da Teoria U: um Diálogo com as Lideranças Transformacional e Servidora.

A integração de diferentes modelos de liderança mostrou-se um caminho relevante para instituições de ensino que buscaram inovar e alcançar excelência em suas práticas educacionais. Contudo, foram escassas as pesquisas empíricas que investigaram a aplicação da Teoria U na gestão escolar associada às abordagens Transformacional e Servidora, o que configurou uma lacuna na literatura. Este estudo buscou compreender como gestores educacionais perceberam e aplicaram princípios da Teoria U — escuta generativa, presencing e cocriação — em diálogo com as abordagens teóricas da Liderança Transformacional e da Liderança Servidora em suas práticas de gestão. A pesquisa, de natureza qualitativa e exploratória, foi realizada em uma instituição de ensino privada, localizada na cidade de São Paulo, que abrangeu desde a Educação Básica até a Pós-Graduação. Os dados foram coletados por meio de um roteiro de perguntas semiestruturadas, aplicado a sete gestores educacionais, e foram analisados com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram aproximações entre as práticas observadas e os pressupostos teóricos dos modelos estudados, com a escuta destacando-se como a competência que melhor articulou as três abordagens no contexto investigado. Também foram identificadas algumas tensões entre os referenciais teóricos e o cotidiano da gestão. O estudo contribuiu para uma reflexão crítica sobre as possibilidades e os limites da integração desses diferentes modelos de liderança em ambientes escolares, ampliando o debate e oferecendo subsídios relevantes para o fortalecimento do campo da gestão educacional.

Palavras-chave: Análise de Conteúdo; Escuta Generativa; Estudo de Caso; Gestão Escolar; Liderança.

10 de setembro de 2026

Desempenho de Modelos de Machine Learning na Seleção de Ações da Bolsa de Valores Brasileira

O mercado acionário brasileiro, caracterizado por elevada volatilidade e restrições de liquidez, impõe desafios à aplicação de modelos de aprendizado de máquina na previsão de retornos e na construção de estratégias de investimento. O estudo comparou o desempenho preditivo e econômico de modelos de aprendizado de máquina e métodos estatísticos tradicionais na estimação de retornos futuros e na formação de carteiras baseadas em ranking de ativos. Utilizaram-se dados históricos de ações da B3, com variáveis técnicas e financeiras derivadas de preços e volume. Avaliaram-se modelos lineares (Regressão Linear, Ridge, LASSO, Elastic Net), de ensemble (Random Forest, XGBoost, LightGBM) e uma rede neural (Multilayer Perceptron). A avaliação preditiva ocorreu por métricas de erro em conjunto de teste, e a econômica por backtest de estratégias long-only, com custos operacionais baseados no turnover para análise de retornos brutos e líquidos. Os resultados revelaram baixa capacidade preditiva em todos os modelos, com R² negativos e erros elevados. Embora diferenças marginais nas previsões tenham gerado variações no desempenho econômico, estas foram de baixa magnitude e instáveis. O modelo LightGBM obteve o melhor desempenho econômico, mas com ganhos limitados em relação ao benchmark após a inclusão de custos operacionais. Não se observou evidência consistente de geração de retorno ajustado ao risco superior.

Palavras-chave: aprendizado de máquina; backtest; mercado acionário; previsão de retornos; seleção de ativos.

10 de setembro de 2026

Precificação Hedônica de Imóveis na Grande Florianópolis: Uso e Comparação de Modelos de “Machine Learning”

O mercado imobiliário da Grande Florianópolis tem experimentado valorização acelerada, impulsionada pelo crescimento populacional e pela demanda turística e de investimento. Este estudo analisou os determinantes do valor de imóveis residenciais e comparou o desempenho preditivo de modelos de aprendizado de máquina, especificamente Random Forest e Gradient Boosting (XGBoost), com uma regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO). Os dados foram coletados via web scraping de dois portais imobiliários em março de 2026, abrangendo os municípios de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu, resultando em 8.056 observações válidas após limpeza. Avaliou-se o desempenho dos modelos por meio das métricas R², RMSE e MAPE. O XGBoost apresentou o melhor desempenho preditivo geral (R² = 0,742, RMSE = R$ 927.113), enquanto o Random Forest obteve o menor erro relativo (MAPE = 25,69%). Os principais determinantes do preço identificados foram a área construída, a região de localização e o número de banheiros. Uma análise complementar por segmento de mercado revelou que o MQO dependeu dos valores extremos para sustentar seu ajuste, enquanto os modelos ensemble mantiveram desempenho estável. Concluiu-se que os métodos de aprendizado de máquina são mais robustos para precificação hedônica em mercados imobiliários heterogêneos, especialmente na presença de imóveis atípicos.

Palavras-chave: Ensemble; Imobiliário; Regressão; Residencial; Web Scraping.

Neurociência E Aprendizagem Na Educação

10 de setembro de 2026

A Produção de Memes como Estratégia de Formação Literária e Multiletramentos no Ensino Fundamental Ii

A leitura de obras literárias clássicas apresenta desafios no contexto escolar contemporâneo, devido ao distanciamento entre a linguagem dos textos e o repertório dos estudantes. Investigou-se como a utilização de memes contribuiu para a construção de sentidos na leitura da obra Senhora, de José de Alencar, no Ensino Fundamental II. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com caráter de pesquisa participante, e foi desenvolvida com duas turmas de 9º ano de uma escola privada em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Os dados foram coletados por meio de questionários e das produções dos estudantes, e analisados à luz da análise de conteúdo. Os resultados indicaram que a utilização de memes favoreceu a aproximação dos alunos com o texto literário, reduziu a resistência inicial e ampliou o engajamento com a leitura. Observou-se, também, o avanço progressivo na compreensão da narrativa, evidenciado pela capacidade de interpretar fatos, analisar personagens, identificar relações implícitas e elaborar posicionamentos críticos. As produções revelaram a articulação entre o conteúdo da obra e o repertório sociocultural dos estudantes, indicando a construção de aprendizagens com significado. Concluiu-se que a integração entre literatura e cultura digital potencializou a mediação pedagógica, contribuindo para a formação de leitores mais ativos e interpretativamente autônomos.

Palavras-chave: aprendizagem significativa; cultura digital; leitura literária; multiletramentos; neurociência.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Definição de Insumos para Fins de Aproveitamento de Créditos de Pis e Cofins

O estudo analisou a interpretação e a aplicação da definição de insumos para fins de creditamento do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) no regime não cumulativo, à luz do entendimento firmado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no julgamento do Recurso Especial n.º 1.221.170 (Tema 779). Objetivou-se examinar os limites jurídicos da utilização desses créditos, considerando os critérios de essencialidade ou relevância estabelecidos pela jurisprudência do STJ. Realizou-se pesquisa documental e jurisprudencial, com análise de acórdãos representativos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e do STJ, abrangendo períodos anteriores e posteriores ao Tema 779. Complementarmente, conduziu-se pesquisa bibliográfica e estudos de dois casos concretos do CARF, com abordagem qualitativa, para verificar a aplicação prática dos critérios. Constatou-se que o STJ afastou a aplicação automática da definição de insumo do IPI, consolidando os critérios de essencialidade e relevância. Entretanto, a análise dos julgados do CARF evidenciou que, embora houvesse reconhecimento formal do precedente do STJ, sua incidência foi modulada conforme a natureza da atividade empresarial, mostrando-se mais restritiva para empresas de revenda. Os casos concretos ilustraram que creditamentos de fretes foram tratados de forma distinta, dependendo da vinculação do gasto à produção ou à revenda. Concluiu-se que a definição de insumos permanece um ponto sensível do sistema tributário, e a correta utilização dos créditos demanda análise casuística rigorosa, pautada na observância dos precedentes judiciais e dos limites normativos vigentes, para evitar glosas e penalidades.

Palavras-chave: COFINS; Creditamento; Insumos; PIS.

Gestão Tributária

10 de setembro de 2026

Fiscalização Delegada do ITR: Desestímulo aos Convênios, Reflexos na Arrecadação e Desinteresse Processual da União

O Imposto Territorial Rural (ITR), de competência da União, pode ter sua fiscalização e cobrança delegadas aos Municípios e ao Distrito Federal. Este trabalho examinou a adesão municipal a esses convênios e o impacto na arrecadação, analisou se os entraves processuais para os Municípios remeterem demandas aos órgãos federais desestimulavam a celebração de acordos, e avaliou o interesse processual da União em litígios de ITR sob delegação, à luz da Teoria Eclética da Ação, bem como a efetividade da diretriz constitucional de desestímulo a propriedades improdutivas. A pesquisa utilizou um estudo de caso, com base em dados e relatórios oficiais da Receita Federal do Brasil e referencial doutrinário jurídico. Os resultados indicaram baixa adesão municipal aos convênios, com quase 75% dos municípios sem acordo. A arrecadação do ITR, mesmo integralmente repassada, não justificou os investimentos municipais, e a manutenção da atuação processual pela União desestimulou a continuidade dos ajustes. Verificou-se que a União carecia de interesse processual nessas demandas, dada a ínfima representatividade do ITR na arrecadação federal e a ausência de proveito econômico-financeiro, o que impediu o cumprimento efetivo da diretriz constitucional de desestímulo à improdutividade rural. Concluiu-se que são necessárias modificações legislativas para que o ITR alcance seus objetivos de arrecadação e função social.

Palavras-chave: Arrecadação; Eficiência; Fiscalização; ITR; Municípios.

10 de setembro de 2026

Governança de Dados e Risco Financeiro no Setor Florestal: Evidências Empíricas em Perspectiva Brasil-Finlândia

A fragmentação informacional no setor florestal brasileiro constituiu o ponto de partida desta pesquisa, que investigou como a governança de dados impactou a capacidade analítica, o risco financeiro e a competitividade da gestão florestal, por meio de um estudo comparativo entre Brasil e Finlândia. Submeteram-se 332 documentos, incluindo 307 informativos CEPEA/Esalq/USP (2001–2025) e 25 relatórios setoriais (Bracelpa, ABRAF, Ibá, 2003–2025), a um pipeline de extração automatizado baseado em OCR, mineração de texto e expressões regulares, obtendo-se 13.059 registros estruturados. Realizou-se análise de sensibilidade do Valor Presente Líquido (VPL) e análise de sentimento léxica. Apenas 12,1% dos registros de custo continham Custo Operacional Efetivo preenchido, e nenhum apresentou margem líquida calculável. A incerteza nos dados de entrada oscilou o VPL de um projeto florestal em mais de R$ 20.000/ha, evidenciando a distorção da decisão orientada por dados quando a sofisticação algorítmica não substituiu a qualidade dos dados de origem. A análise de sentimento léxica confirmou a transição dos relatórios setoriais brasileiros de formato estatístico para promocional. Em contraste, o modelo finlandês demonstrou a viabilidade de uma governança integrada, com o inventário florestal consolidado como pilar de inteligência industrial. Os resultados indicaram que o fortalecimento da governança de dados constituiu pré-requisito para a transição do setor para um sistema de planejamento sustentado por evidências.

Palavras-chave: competitividade; fragmentação informacional; inteligência artificial; soberania digital; tomada de decisão.

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