23 de abril de 2026
Suplementação mineral bovina: a visão do produtor em Campinápolis-MT
Gefferson Wandeles Soares dos Santos; Mariana Trevisan Florêncio
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A criação de bovinos em território brasileiro caracteriza-se por ser uma atividade predominantemente realizada a pasto, com uma parcela reduzida de apenas 15,62% dos animais mantidos em sistemas de confinamento. Essa preferência dos pecuaristas pelo sistema de pastejo fundamenta-se, primordialmente, na busca pela redução dos custos operacionais, uma vez que o valor elevado dos grãos, componentes essenciais das dietas concentradas, onera significativamente a base alimentar do rebanho (Barros, 2024). No cenário da bovinocultura nacional, predomina a pecuária extensiva, regime no qual a nutrição depende quase exclusivamente das pastagens disponíveis. Nessas condições, observa-se frequentemente que o gado possui acesso limitado ou inadequado à suplementação mineral necessária para suprir as carências do solo e da forragem (Silva, 2022). Tal limitação torna-se crítica durante a época de seca, período em que a qualidade nutricional das gramíneas declina drasticamente, impedindo que os animais ganhem peso e comprometendo até mesmo a manutenção do desempenho corporal básico (Silva, 2022).
Nesse contexto, a busca pela dieta ideal deve considerar o equilíbrio entre o menor custo de produção e a máxima eficiência biológica. Embora dietas ricas em grãos possam ser economicamente viáveis ao acelerar o ganho de peso e reduzir o tempo de permanência dos animais na propriedade, a realidade das práticas nutricionais no Brasil é extremamente heterogênea (Bulle et al., 1999). Essa variabilidade ocorre em função das disparidades nas condições de solo e clima observadas nos diferentes biomas onde a atividade é exercida (Gomes et al., 2015). Atualmente, as propriedades rurais operam sob três modelos principais de criação: extensivo, semi-intensivo e intensivo. Independentemente do sistema adotado, os minerais desempenham papéis vitais em processos biológicos e fisiológicos fundamentais. Contudo, apesar da importância comprovada do sal mineral, nota-se que muitos produtores ainda negligenciam o fornecimento adequado desses elementos ao rebanho (Galvão, 2024).
A diversidade de estratégias de suplementação alimentar permite que o produtor adapte o manejo conforme a sazonalidade, especialmente para enfrentar os desafios do período de seca (Gomes et al., 2015). Durante a estação chuvosa, o uso estratégico de sais minerais visa otimizar o aproveitamento das forragens, permitindo um aumento na taxa de lotação das pastagens, acelerando o ganho de peso e, consequentemente, reduzindo a duração do ciclo produtivo. Entretanto, persiste entre os pecuaristas uma lacuna de conhecimento técnico sobre o tipo e a quantidade ideal de suplemento a ser ofertado em cada fase (De Carvalho Ribeiro e Barbero, 2022). O planejamento rigoroso da atividade torna-se, portanto, indispensável para garantir o controle e a gestão produtiva, visando a maximização do lucro através da redução de custos ou do incremento na produtividade. Para tanto, o gestor rural deve ter clareza sobre os objetivos produtivos e os recursos financeiros e estruturais disponíveis (Ciência, 2011).
A identificação das características intrínsecas de cada fazenda, incluindo a gestão do solo e das pastagens, aliada a uma estratégia de suplementação mineral bem definida, constitui o alicerce para o estabelecimento de índices produtivos satisfatórios (Minervino et al., 2008). No manejo de pastagens, as formas mais usuais de suplementação incluem o sal mineral com ureia, as misturas múltiplas conhecidas como proteinados e a ração para semiconfinamento, organizadas em uma escala crescente de desempenho biológico. Tais alternativas são fundamentais para mitigar as perdas produtivas durante os períodos de baixa oferta forrageira (Ciência, 2011). A implementação correta da suplementação mineral permite que o bovino utilize com maior eficiência os nutrientes ingeridos, potencializando os resultados da exploração pecuária (Guimarães et al., 2023).
O objetivo central do suplemento mineral é compensar as deficiências nutricionais das forrageiras tropicais, que são particularmente acentuadas durante os meses de estiagem (Batistelli et al., 2022). Os elementos minerais são essenciais para manter o equilíbrio osmótico, a integridade estrutural e a eficiência dos processos digestivos, colaborando diretamente para o aumento da produtividade (Cecim et al., 2005). A oferta precisa desses nutrientes reflete-se na melhoria da digestibilidade dos alimentos, no desenvolvimento ósseo adequado e no fortalecimento da função muscular, garantindo o bem-estar animal e o sucesso tanto na pecuária de corte quanto na leiteira (Silva, 2016). Nesse cenário, os pequenos produtores exercem um papel socioeconômico vital, contribuindo para a segurança alimentar, a geração de empregos locais e a preservação da biodiversidade por meio de práticas agrícolas sustentáveis (Santos, 2024; Alves et al., 2012).
Para compreender a dinâmica da adoção dessas tecnologias, realizou-se um levantamento de campo com abordagem quanti-qualitativa no município de Campinápolis, localizado na região Centro-Oeste do Brasil, no estado de Mato Grosso. A escolha desta localidade justifica-se pela forte presença da bovinocultura na economia regional e pela viabilidade logística para a coleta de dados primários. A pesquisa envolveu a participação de 70 pecuaristas de pequenas propriedades rurais, todos com idade igual ou superior a 18 anos, selecionados por possuírem conhecimento direto sobre as operações cotidianas de suas unidades produtivas. O instrumento de coleta consistiu em um questionário semiestruturado, elaborado com perguntas abertas e fechadas, distribuído eletronicamente via plataforma Google Forms. A estratégia de engajamento utilizou grupos de comunicação instantânea, como o WhatsApp, para alcançar o maior número possível de respondentes dentro do período compreendido entre maio e julho de 2025.
O questionário foi estruturado em três blocos fundamentais para garantir a profundidade da análise. O primeiro bloco dedicou-se ao perfil sociodemográfico dos produtores, coletando informações sobre gênero, idade, estado civil, origem e nível de escolaridade. O segundo bloco focou na caracterização das propriedades rurais, investigando o tipo de exploração predominante, o sistema de criação adotado, as fontes de acesso a água para o gado, as espécies de pastagens cultivadas e a presença ou ausência de assistência técnica especializada. O terceiro bloco, o mais detalhado, buscou investigar o manejo da suplementação mineral propriamente dito. Foram questionados aspectos como a frequência de oferta, o conhecimento sobre os diferentes tipos de suplementos, os critérios utilizados para a escolha dos produtos, as barreiras percebidas para o uso do sal mineral, os resultados observados no rebanho e os modos de fornecimento adotados na rotina da fazenda.
Os dados coletados foram organizados em um banco de dados digital e processados com o auxílio do software Microsoft Excel, versão 2025. A análise estatística descritiva permitiu a tabulação de frequências e percentuais, facilitando a interpretação das tendências e comportamentos do grupo estudado. A amostra de 70 participantes revelou uma composição de gênero majoritariamente masculina, com 48 homens representando 68,6% do total, enquanto 22 mulheres compuseram 31,4% da amostra. Embora a predominância masculina seja evidente, a presença feminina sinaliza uma participação crescente e relevante das mulheres na gestão do agronegócio regional. No que tange à faixa etária, o grupo mais expressivo situa-se entre 31 e 40 anos, totalizando 24 indivíduos (34,3%), seguido de perto por produtores entre 18 e 30 anos, com 22 respondentes (31,4%). Aqueles com idade entre 41 e 50 anos somaram 12 pessoas (17,1%), enquanto a faixa de 51 a 65 anos contou com 10 participantes (14,3%) e apenas dois produtores (2,9%) possuíam mais de 65 anos.
A análise do nível de escolaridade revelou um perfil educacional diversificado e surpreendentemente qualificado para a região. Observou-se que 21 participantes (30%) possuem pós-graduação, 19 (27,1%) completaram o ensino superior, 15 (21,4%) possuem ensino médio e cinco (7,1%) cursaram o ensino fundamental. Esse cenário difere de estudos realizados em outras regiões, como em Pombal-PB, onde o nível de instrução dos pecuaristas era predominantemente baixo (Andrade et al., 2018). Quanto à renda familiar bruta mensal, 34 produtores (48,6%) relataram ganhos entre dois e cinco salários mínimos. Outros 17 participantes (24,3%) recebem de seis a 10 salários, 13 (18,6%) possuem renda superior a 10 salários mínimos e seis indivíduos (8,6%) sobrevivem com até um salário mínimo por mês. Notou-se também que a maioria dos respondentes, totalizando 45 pessoas (64,3%), reside na zona urbana, enquanto 25 (35,7%) moram efetivamente na propriedade rural.
Em relação à atividade produtiva, a pecuária de corte é a principal vocação da região, sendo praticada por 43 produtores (61,4%). A pecuária leiteira exclusiva é a opção de 13 respondentes (20%), e outros 13 (18,6%) trabalham com o sistema de dupla aptidão, integrando corte e leite. A literatura indica que o uso de tecnologias como o sal mineral proteinado pode elevar a produção leiteira em até 20% ao dia e proporcionar ganhos de até duas arrobas mensais na pecuária de corte (De Paula Silveira, 2017). No que se refere às fases da criação, o sistema de ciclo completo (cria, recria e engorda) é o mais comum, adotado por 22 participantes (31,4%), seguido pela fase de cria isolada com 16 adeptos (22,9%), cria e recria com 15 (21,4%), recria e engorda com 11 (15,7%) e apenas cria e engorda com seis produtores (8,6%).
O sistema de criação extensivo, baseado exclusivamente no gado a pasto, é a realidade de 48 participantes (68,6%). O modelo semi-intensivo, que utiliza piquetes menores e suplementação estratégica, é empregado por 21 produtores (30%), enquanto apenas um pecuarista (1,4%) utiliza o sistema intensivo de confinamento. Um dado alarmante revelado pela pesquisa refere-se à assistência técnica: 31 pecuaristas (44,3%) declararam não receber qualquer tipo de orientação profissional em suas propriedades. Entre os que possuem suporte, 20 (28,6%) são atendidos pelo SENAR, 13 (18,6%) contratam consultorias particulares e seis (8,6%) recebem auxílio de técnicos vinculados a cooperativas. A ausência de assistência técnica qualificada impacta negativamente a produtividade e a rentabilidade, impedindo a melhoria dos indicadores de eficiência (Pacheco et al., 2023; Gomes et al., 2018).
Quanto à base forrageira, as pastagens do gênero Brachiaria são as mais cultivadas, seguidas pelo capim Andropogon e pelo capim Mombaça. A produção de silagem, estratégia crucial para o enfrentamento da entressafra, é praticada por apenas 24 produtores (34,3%), o que indica uma vulnerabilidade significativa do rebanho durante os períodos de escassez de forragem. A qualidade e a oferta de volumoso influenciam diretamente o potencial de resposta do animal à suplementação mineral (Borges e Junior, 2016). Como as forrageiras tropicais raramente contêm todos os minerais necessários em concentrações adequadas, a complementação via cocho torna-se obrigatória para evitar distúrbios metabólicos e quedas no desempenho (De Paula Silveira, 2017).
A adesão ao uso de suplementos minerais em Campinápolis é alta, com 68 participantes (97,1%) afirmando ofertar algum tipo de mineral ao gado. O produto mais utilizado é o suplemento mineral convencional, citado por 39 respondentes (57,4%), seguido pelo suplemento mineral com proteico (39,7%), suplemento mineral com ureia (25%), sal branco (25%) e suplemento mineral proteico-energético (25%). A preferência pelo suplemento mineral simples reflete, em parte, a tradição e o menor custo imediato, embora opções proteicas e energéticas ofereçam ganhos médios diários superiores (Borges e Junior, 2016). Sobre a forma de oferta, apenas 31 produtores (45,6%) realizam o fornecimento de maneira adequada, considerando a categoria animal, a região e a qualidade da pastagem. A maioria, composta por 37 indivíduos (54,4%), fornece o sal de forma constante e à vontade, sem um critério técnico rigoroso. Além disso, 39 participantes (57,4%) afirmaram diferenciar o suplemento conforme a fase de vida do animal (cria, recria ou engorda).
A percepção de importância sobre a suplementação é elevada, visto que 49 produtores (72,1%) consideram a prática muito importante para o sucesso da atividade. No entanto, o consumo de minerais não é uniforme ao longo do ano. A estação do inverno, compreendida entre março e junho, foi identificada por 44 respondentes (64,7%) como o período de maior consumo, o que coincide com a fase de menor valor nutricional das pastagens. Na primavera, o consumo elevado foi relatado por 20 produtores (29,4%), no verão por 16 (23,5%) e no outono por 13 (19,1%). Quanto aos critérios de escolha do produto, 34 participantes (50%) baseiam-se em conhecimento próprio, enquanto 33 (48,5%) seguem recomendações de técnicos ou profissionais da área. Outros fatores influenciadores incluem o preço (27,9%), indicação de amigos (23,5%), indicação de vendedores (23,5%) e tradição da marca (11,8%).
As dificuldades para a aquisição e uso dos suplementos são reais e impactam a gestão. O preço e o custo elevado foram citados por 35 produtores (51,5%) como o principal entrave. Por outro lado, 29 respondentes (42,6%) afirmaram não encontrar dificuldades no processo. Barreiras menores, mas existentes, incluem o desconhecimento técnico sobre os tipos de minerais (4,4%) e a dificuldade de encontrar o produto desejado no mercado local (1,5%). Essa realidade corrobora a tese de que a indústria de suplementos muitas vezes não atende às especificidades regionais de um país com dimensões continentais como o Brasil, deixando lacunas nutricionais não preenchidas (De Paula Silveira, 2017).
Os resultados percebidos pelos produtores após a implementação da suplementação mineral são amplamente positivos. O ganho de peso foi observado por 44 participantes (64,7%), enquanto a melhoria na saúde geral dos animais foi relatada por 41 respondentes (60,3%). Outros benefícios notados incluíram o aumento na produtividade de carne ou leite (41,2%), melhoria nos índices de fertilidade (32,4%) e uma percepção favorável da relação custo-benefício (20,6%). Nenhum produtor afirmou não ter obtido resultados positivos, o que reforça a eficácia da prática mesmo quando realizada sem o rigor técnico ideal. A análise detalhada dos dados sugere que, embora a consciência sobre a necessidade da mineralização esteja consolidada, a execução técnica ainda carece de aprimoramento, especialmente no que diz respeito à escolha de produtos específicos para cada fase produtiva e época do ano.
A discussão dos dados revela que a pecuária em Campinápolis caminha para uma modernização, impulsionada pelo nível de escolaridade elevado dos produtores, mas ainda esbarra na falta de assistência técnica contínua. A dependência do sistema extensivo e a baixa produção de silagem tornam o uso do sal mineral ainda mais crítico, pois ele passa a ser a principal ferramenta de ajuste nutricional durante a seca. A predominância da escolha do suplemento baseada no conhecimento próprio, em detrimento da orientação técnica, pode levar a gastos desnecessários ou a resultados subestimados. É imperativo que as políticas de fomento e as empresas do setor foquem na capacitação do produtor, demonstrando que o investimento em suplementos mais tecnológicos, como os proteicos e energéticos, pode oferecer retornos financeiros superiores ao sal mineral convencional.
A limitação deste estudo reside no tamanho da amostra e na natureza autodeclarada das informações, o que pode omitir detalhes operacionais precisos. Pesquisas futuras devem focar na análise bromatológica das pastagens da região para confrontar as deficiências reais do solo com os suplementos mais vendidos, permitindo a formulação de produtos customizados para o Vale do Araguaia. Além disso, estudos longitudinais poderiam mensurar o impacto econômico direto da introdução de assistência técnica em propriedades que hoje operam de forma empírica. A integração entre academia, empresas de extensão rural e produtores é o caminho para transformar o potencial produtivo de Campinápolis em resultados econômicos sustentáveis e competitivos no mercado global de proteína animal.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a percepção dos produtores rurais de Campinápolis sobre a suplementação mineral foi detalhadamente mapeada, revelando uma alta taxa de adesão ao uso de sais minerais, embora com lacunas significativas no suporte técnico especializado. A pesquisa evidenciou que a maioria dos pecuaristas reconhece a importância vital da mineralização para o ganho de peso e a saúde do rebanho, especialmente durante o período de inverno, mas ainda enfrenta barreiras econômicas relacionadas ao custo dos insumos e à falta de orientação profissional para a escolha do suplemento mais adequado a cada ciclo produtivo. A predominância do sistema extensivo e a baixa adoção de estratégias de conservação de forragem, como a silagem, reforçam a necessidade de intervenções educativas e de políticas de assistência técnica que capacitem o produtor a otimizar o manejo nutricional. Portanto, a implementação de programas de acompanhamento técnico contínuo e a disseminação de conhecimentos sobre a relação custo-benefício de suplementos mais tecnológicos são fundamentais para aprimorar os índices produtivos da região, garantindo a sustentabilidade econômica e o bem-estar animal na bovinocultura local.
Referências Bibliográficas:
Barros, D.C. 2024. Estratégias de suplementação na recria e engorda de bovinos de corte.
Bulle, M.L.D.M.; Ribeiro, F.G.; Leme, P.R.; Titto, E.A.L., & Lanna, D.P.D. 1999. Uso do bagaço de cana-de-açucar como único volumoso em dietas de alto teor de concentrado. 1. Desempenho. Anais.
De Carvalho Ribeiro, A.C.; & Barbero, R.P. 2022. Suplementação para bovinos de corte na estação chuvosa: revisão. Brazilian Journal of Animal and Environmental Research, 5(1), 625-6
Galvão, R. 2024. Adição de minerais na ração e sua influência nos índices reprodutivos em ruminantes.
Gomes, A.P.; Ervilha, G.T.; de Freitas, L.F.; & Nascif, C. 2018. Assistência técnica, eficiência e rentabilidade na produção de leite. Revista de Política Agrícola, 27(2), 79-79.
Silva, D.F.D.P. 2022. Manejo de recria e terminação de bovinos de corte ultilizando sistema de confinamento/sequestro de bezerros.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq
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