Resumo Executivo

11 de maio de 2026

Satisfação de carreira de monitores de pesquisa clínica no Brasil

Milenna Castanho; Walter Shuiti Kussano

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Os Clinical Research Associates, também conhecidos como monitores de pesquisa clínica, desempenham um papel fundamental na condução de estudos clínicos, sendo responsáveis por garantir que os centros de pesquisa sejam selecionados de forma criteriosa e que os contratos estabelecidos estejam em plena conformidade legal e operacional. A atuação desses profissionais envolve a coleta rigorosa de documentos regulatórios, a supervisão da manutenção de medicamentos nos centros e a verificação constante de que os protocolos experimentais sejam seguidos à risca, assegurando a integridade dos dados coletados e, primordialmente, a segurança dos participantes de pesquisa (Chin; Lee, 2008). Diante da complexidade inerente ao setor de saúde e ao desenvolvimento de novas terapias, a satisfação profissional surge como um fator determinante para a retenção de talentos e para o desempenho organizacional. No âmbito da pesquisa clínica, esse tema tem despertado interesse crescente devido às elevadas taxas de rotatividade e aos obstáculos enfrentados na evolução das carreiras, o que exige uma compreensão profunda dos elementos que afetam o bem-estar dos trabalhadores (Lamberti; Dirks, 2022). A satisfação no trabalho é um constructo multidimensional influenciado por oportunidades de crescimento, pelo equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, pela remuneração e pelo reconhecimento conferido pela organização. Estudos indicam que a ausência de clareza na definição de funções e na progressão de carreira pode resultar em frustrações significativas, elevando os índices de turnover (Knapke et al., 2022). Além disso, a elevada carga de trabalho e a escassez de suporte organizacional são frequentemente apontadas como causas primordiais de insatisfação na profissão (Lamberti; Dirks, 2022).

A estabilidade no emprego e as possibilidades de desenvolvimento contínuo representam aspectos críticos para a permanência desses especialistas no setor. A implementação de modelos de gestão baseados em competências tem demonstrado um impacto positivo na retenção, ao fornecer caminhos estruturados para a progressão e o reconhecimento dentro da trajetória profissional (Stroo et al., 2020). Contudo, a exigência de experiência prévia excessiva permanece como uma barreira para novos ingressantes, o que limita a renovação do quadro de talentos e dificulta a construção de uma força de trabalho sustentável a longo prazo (Acrp, 2023). A satisfação de carreira repercute não apenas na motivação individual, mas também na qualidade técnica dos processos organizacionais. No contexto específico da pesquisa clínica, a desmotivação pode levar à perda de conhecimento acumulado e a falhas na conformidade regulatória, gerando riscos à continuidade das investigações científicas (Vieira; Castro; Schuch Júnior, 2010). Baixos níveis de satisfação comprometem o engajamento e a produtividade, resultando em custos adicionais para as empresas e potenciais atrasos no lançamento de medicamentos essenciais (Getz, 2013). Embora existam pesquisas internacionais que abordam a sobrecarga de trabalho e a pressão por prazos, os dados sobre a realidade brasileira ainda são escassos, o que justifica a necessidade de avaliar a percepção dos profissionais que atuam no Brasil (Parrish; Minns, 2025).

O delineamento metodológico adotado consistiu em uma pesquisa de levantamento de campo, do tipo survey, com abordagem quantitativa e comparativa. Este método é amplamente reconhecido em estudos sociais e organizacionais por permitir a coleta padronizada de dados junto a um número expressivo de participantes, possibilitando a mensuração objetiva de percepções e atitudes em diferentes contextos (Babbie, 2011). A utilização de um questionário estruturado distribuído de forma online favoreceu a abrangência geográfica da amostra, permitindo que profissionais de diversas regiões do território nacional pudessem contribuir com suas experiências. O instrumento de coleta baseou-se na escala de satisfação de carreira desenvolvida por Greenhaus, Parasuraman e Wormley (1990), a qual passou por um rigoroso processo de tradução e adaptação para o contexto brasileiro. O procedimento de tradução envolveu dois tradutores independentes com fluência comprovada nos idiomas inglês e português, que geraram versões separadas da escala. Posteriormente, uma versão de consenso foi estabelecida por meio de um processo de reconciliação, que contou com o suporte de ferramentas de inteligência artificial para assegurar a clareza semântica e reduzir potenciais vieses de interpretação. Essa etapa de sintetização foi crucial para garantir que os termos utilizados fossem compreensíveis e adequados à realidade técnica dos monitores de pesquisa clínica no Brasil, seguindo recomendações internacionais para a adaptação de instrumentos psicométricos.

A coleta de dados foi realizada por meio da plataforma Google Forms, garantindo praticidade e agilidade no preenchimento. O período de coleta iniciou-se em 30 de agosto de 2025, estendendo-se com seis rodadas de acompanhamento realizadas nos dias 02, 04, 06, 08, 10 e 12 de setembro do mesmo ano. Esse esforço contínuo de follow-up visou mitigar a baixa taxa de retorno que é característica de pesquisas conduzidas via internet (Vieira; Castro; Schuch Júnior, 2010). O tempo médio estimado para a conclusão do questionário foi de 10 minutos, o que contribuiu para a redução da taxa de desistência durante o preenchimento. A amostragem foi composta por profissionais que atuam como monitores de pesquisa clínica no Brasil, sem restrição quanto ao tempo de experiência, embora essa variável tenha sido coletada para fins de análise comparativa. O recrutamento ocorreu de forma voluntária, utilizando redes profissionais, contatos diretos e canais de divulgação digital voltados à comunidade científica. Ao final do período estipulado, obteve-se um total de 70 respostas válidas. Os dados foram exportados para planilhas eletrônicas e analisados com o auxílio da linguagem de programação Python, versão 3.11, utilizando bibliotecas especializadas como pandas, numpy e scipy. A análise estatística incluiu o teste de Shapiro-Wilk para verificar a normalidade da distribuição das variáveis. Diante da constatação de que os dados não seguiam uma distribuição normal, optou-se pela aplicação de testes não paramétricos, especificamente o teste de Mann-Whitney U, para a comparação entre grupos independentes. Além disso, foram calculados intervalos de confiança de 95%, proporcionando maior precisão às médias estimadas e robustez à interpretação dos resultados.

As considerações éticas foram rigorosamente observadas, garantindo o anonimato e a confidencialidade das informações fornecidas pelos participantes. Os dados foram tratados de forma consolidada, impedindo qualquer identificação individual ou das organizações às quais os profissionais estão vinculados. No que tange ao perfil demográfico da amostra, observou-se um predomínio expressivo do sexo feminino, representando 87,1% dos respondentes, enquanto o sexo masculino correspondeu a 12,9%. Essa característica de gênero está em consonância com tendências observadas em estudos internacionais que destacam a forte presença feminina no campo da pesquisa clínica (Vasisht et al., 2021). Em relação à faixa etária, a maior concentração de profissionais situou-se entre 36 e 40 anos, abrangendo 35,7% da amostra, seguida pelas faixas de 31 a 35 anos com 24,3% e 26 a 30 anos com 18,6%. Esses dados sugerem que a carreira atrai indivíduos que se encontram em um estágio intermediário de sua trajetória profissional, o que pode influenciar diretamente suas expectativas em relação à estabilidade e ao reconhecimento. O nível de escolaridade identificado foi elevado: 51,4% dos participantes possuem curso superior completo e 38,6% detêm títulos de mestrado ou MBA. Outras formações, como doutorado e especializações lato sensu, também foram registradas, evidenciando que a profissão exige uma qualificação técnica de alto nível e uma busca constante por aperfeiçoamento acadêmico.

Quanto à atuação profissional, 51,4% dos monitores possuem até cinco anos de experiência no cargo, enquanto 32,9% atuam na área entre seis e 10 anos, e 15,7% possuem mais de 10 anos de carreira. A maioria dos respondentes, totalizando 87,1%, trabalha em grandes empresas, o que reflete a estrutura do mercado de pesquisa clínica no Brasil, dominado por organizações de grande porte. No que se refere ao tipo de empresa, 48,6% estão alocados em Organizações de Pesquisa Clínica que atendem a um único patrocinador, 28,6% trabalham diretamente em empresas farmacêuticas patrocinadoras e 22,9% atuam em organizações que prestam serviços a múltiplos patrocinadores. Ao analisar a satisfação de carreira, as médias obtidas situaram-se em um patamar moderado, variando entre 2,51 e 2,67 em uma escala de 1 a 5. O item referente ao desenvolvimento de novas habilidades obteve a maior pontuação média, com 2,67 e um intervalo de confiança entre 2,37 e 2,95, indicando que os profissionais percebem a carreira como uma oportunidade contínua de aprendizado técnico. Por outro lado, a satisfação com a remuneração e o salário apresentou a menor média, atingindo 2,51, o que revela uma discrepância entre as responsabilidades exercidas e a compensação financeira recebida. Esses achados corroboram a literatura internacional, que aponta a estagnação salarial como um dos principais fatores de desmotivação e aumento do turnover no setor (Parrish; Minns, 2025).

A percepção de sucesso alcançado na carreira obteve média de 2,54, enquanto o progresso em direção aos objetivos gerais de carreira registrou 2,58. O avanço e a promoção profissional apresentaram média de 2,60. Esses valores sugerem que, embora os profissionais não estejam totalmente insatisfeitos, existe um sentimento de estagnação que pode comprometer o engajamento a longo prazo. A variação modesta nos resultados reforça a necessidade de as organizações revisarem suas políticas de retenção e planos de carreira. A análise do suporte oferecido pelos supervisores também revelou dados importantes. A média mais alta nesta dimensão foi atribuída ao apoio para a obtenção de treinamento ou educação adicional, com 2,77, sinalizando que as empresas investem na capacitação técnica de seus colaboradores. A orientação para aprimorar o desempenho obteve média de 2,69, e o fornecimento de feedback sobre o trabalho realizado registrou 2,64. No entanto, o reconhecimento das conquistas profissionais foi o item pior avaliado, com média de 2,46. Essa lacuna no reconhecimento interpessoal é um fator desmotivador crítico, especialmente em uma profissão que exige alto nível de precisão e responsabilidade (Lamberti; Dirks, 2022). A falta de valorização dos sucessos individuais pode gerar um clima organizacional de indiferença, impactando negativamente a saúde mental e a disposição dos profissionais para enfrentar os desafios cotidianos da monitoria.

A discussão dos resultados permite inferir que a insatisfação com a carreira, quando aliada à percepção de baixo suporte gerencial, cria um ambiente propício para a rotatividade. A alta rotatividade de monitores de pesquisa clínica é uma preocupação global, pois acarreta a perda de conhecimento institucional e pode comprometer a qualidade dos dados clínicos (Getz, 2013). No Brasil, a urgência por planos de retenção que incluam salários mais competitivos e lideranças capazes de fornecer feedbacks construtivos é evidente. É crucial que as organizações busquem compatibilizar os objetivos individuais de carreira com as estratégias de gestão, incentivando não apenas o desenvolvimento de habilidades técnicas, mas também promovendo um ambiente de reconhecimento e valorização pessoal. A satisfação moderada identificada neste estudo serve como um alerta para a indústria farmacêutica e para as organizações de pesquisa clínica que operam no país. A necessidade de estratégias de gestão de pessoas mais eficazes é premente para garantir a sustentabilidade do setor e a excelência na condução dos estudos clínicos. Embora os profissionais valorizem as oportunidades de aprendizado, a ausência de uma perspectiva clara de crescimento financeiro e de reconhecimento formal atua como um limitador do potencial produtivo.

As limitações deste estudo incluem o tamanho da amostra e a natureza do autorrelato, que pode estar sujeito a vieses de percepção individual. No entanto, os dados fornecem um panorama valioso sobre a realidade dos monitores de pesquisa clínica no Brasil, preenchendo uma lacuna na literatura acadêmica nacional. Pesquisas futuras poderiam expandir esta análise para outros países da América Latina, permitindo comparações regionais e a identificação de padrões culturais que influenciam a satisfação de carreira. Além disso, estudos longitudinais seriam úteis para observar como as mudanças nas políticas organizacionais impactam a percepção dos profissionais ao longo do tempo. A análise estatística realizada demonstrou que a ausência de normalidade nos dados exige o uso de métodos robustos para futuras investigações comparativas. A contribuição deste estudo reside na identificação de fatores críticos que afetam a permanência dos talentos na área, oferecendo subsídios para que as empresas possam gerir melhor suas equipes e criar estratégias de desenvolvimento de carreira mais alinhadas às expectativas dos colaboradores. A valorização do capital humano na pesquisa clínica é, em última análise, um investimento na qualidade da ciência e na segurança dos pacientes que dependem dos avanços da medicina.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a avaliação da satisfação de carreira dos monitores de pesquisa clínica no Brasil revelou níveis apenas moderados de contentamento, com médias oscilando entre 2,51 e 2,67. O estudo identificou que, embora os profissionais valorizem as oportunidades de aprendizado e o suporte para capacitação técnica oferecido pelos supervisores, existe uma insatisfação significativa em relação à remuneração e ao reconhecimento das conquistas profissionais. A elevada qualificação acadêmica da amostra contrasta com a percepção de estagnação salarial e falta de feedback valorativo, fatores que contribuem para o risco de rotatividade no setor. Os resultados evidenciam a necessidade premente de políticas organizacionais voltadas para a valorização do profissional, a melhoria das condições salariais e o fortalecimento das práticas de gestão de pessoas, visando garantir a retenção de talentos e a manutenção da qualidade técnica na condução de estudos clínicos no território brasileiro.

Referências Bibliográficas:

ASSOCIATION OF CLINICAL RESEARCH PROFESSIONALS (ACRP). Barriers to Bridges: Addressing the Urgent Need for a Diverse, Research-Ready Workforce Within the Clinical Research Profession. Disponível em: https://acrpnet.org/acrp-partners-advancing-the-clinical-research-workforce/models-making-a-difference/. Acesso em: 27 de fevereiro de 2025

BABBIE, Earl. The Basics of Social Research. 5. ed. Belmont: Wadsworth Cengage Learning, 2011.

CHIN, Richard; LEE, Bruce Y. Study Execution. In: CHIN, Richard; LEE, Bruce Y. (ed.). Principles and Practice of Clinical Trial Medicine. San Diego: Academic Press, 2008. p. 233-282. ISBN 9780123736956. DOI: https://doi.org/10.1016/B978-0-12-373695-6.00012-0.

GETZ, Kenneth A. Protocol design trends and their impact on clinical trial performance. Regulatory Rapporteur, v. 10, n. 9, p. 4-8, 2013.

GREENHAUS, JEFFREY H.; PARASURAMAN, SAROJ; WORMLEY, WAYNE M. Effects of Race on Organizational Experiences, Job Performance Evaluations, and Career Outcomes. Academy of Management Journal, v. 33, n. 1, p. 64-86, 1990. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/270135735. Acesso em: 27 de fevereiro de 2025

KNAPKE, J. M. et al. Issues for recruitment and retention of clinical research professionals at academic medical centers: Part 1 – collaborative conversations Un-Meeting findings. Journal of Clinical and Translational Science, v. 6, p. e80, 2022. DOI: 10.1017/cts.2022.411. Acesso em: 27 de fevereiro de 2025

LAMBERTI, M. J.; DIRKS, A. An Examination of the Role of the Clinical Research Associate and Factors Impacting Performance and Experience. Applied Clinical Trials, 22 dez. 2022. Disponível em: https://www.appliedclinicaltrialsonline.com. Acesso em: 27 de fevereiro de 2025

PARRISH, STEPHANIE; MINNS, JESSICA. CRA TURNOVER WITHIN CONTRACT RESEARCH ORGANIZATIONS: A CROSS-SECTIONAL STUDY. 2025.

STROO, MARISSA; ASFAW, KIRUBEL; DEETER, CHRISTINE; FREEL, STEPHANIE A.; BROUWER, REBECCA J. N.; HAMES, Betsy; SNYDER, Denise C. Impact of implementing a competency-based job framework for clinical research professionals on employee turnover. Journal of Clinical and Translational Science, v. 4, p. 331-335, 2020. DOI: 10.1017/cts.2020.22.

VASISHT, K. P. et al. Progress and opportunities for women in clinical trials. 2021.

VIEIRA, HENRIQUE CORRÊA; CASTRO, ALINE EGGRES DE; SCHUCH JÚNIOR, VITOR FRANCISCO. O uso de questionários via e-mail em pesquisas acadêmicas sob a ótica dos respondentes. 2010. Disponível em: <http://www.pucrs.br/ciencias/viali/recursos/online/inquiries/O uso de questionários via e-mail em pesquisas acadêmicas sob a ótica dos.pdf>.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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