11 de maio de 2026
Ingresso e permanência no ensino superior privado do ABC Paulista
Mylena Mendes Caldas; José Eduardo Vilas Bôas
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
O ensino superior brasileiro consolidou-se como um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento econômico e social do país, exercendo influência direta sobre a qualificação da mão de obra e a produtividade nacional. No cenário contemporâneo, a definição de prioridades para o setor exige um acompanhamento rigoroso das transformações globais e nacionais, conforme apontado por estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA, 2022). Durante as primeiras décadas do século XXI, observou-se uma expansão significativa das Instituições de Ensino Superior, impulsionada pela criação de novas universidades federais e por políticas públicas de fomento ao acesso. Programas como o Fundo de Financiamento Estudantil e o Programa Universidade para Todos ampliaram as possibilidades de ingresso e permanência, estimulando a democratização do ensino tanto na rede pública quanto na privada (Santos et al., 2023). Dados do Censo da Educação Superior revelam que, entre os anos de 2010 e 2023, o número de instituições cresceu 8,49%, com um avanço mais acentuado na rede pública, que registrou 13,66% de aumento, frente a 7,81% na rede particular. No entanto, o volume de ingressantes apresentou um salto muito mais expressivo de 127,33% no mesmo período, sendo que as instituições privadas lideraram esse movimento com um crescimento de 157,13%, enquanto a rede pública avançou 19,59%. O indicador de matrículas totais, que abrange ingressantes, veteranos e reingressos, subiu 55,70%, evidenciando que a rede privada domina o setor com 65,67% das participações (INEP, 2023).
A expansão da Educação a Distância surge como um fenômeno central nesse processo, apresentando um crescimento vertiginoso de 771,32% em novos ingressantes e 427,78% no total de matrículas entre 2010 e 2023. Essa preferência pela modalidade remota e pela rede privada decorre, em grande medida, de políticas de financiamento, processos seletivos menos concorridos e uma oferta massiva de cursos (INEP, 2023). Contudo, a trajetória acadêmica é marcada pelo desafio persistente da evasão. Ao mesmo tempo em que o número de concluintes aumenta, as desistências também crescem, muitas vezes motivadas pela inadimplência, que no primeiro semestre de 2024 atingiu 9,33% no setor privado, representando uma alta de 3,4% em relação ao ano anterior (INEP, 2023). Relatórios da Comissão Especial de Estudos sobre Evasão indicam que o abandono escolar é um fenômeno complexo, influenciado por condições socioeconômicas, falta de preparação acadêmica prévia e dificuldades de adaptação aos avanços tecnológicos e exigências do mercado de trabalho (MEC, 1997). Modelos teóricos de retenção buscam compreender essas dinâmicas sob perspectivas sociológicas, institucionais e psicológicas (Costa e Gouveia, 2018). A integração acadêmica e social é apontada como fator determinante para o compromisso do discente com a instituição (Tinto, 1975). Para garantir a permanência, as instituições devem desenvolver mecanismos que considerem a relação entre estudantes, docentes e a estrutura disponível (Nora et al., 2005). Além disso, a imagem social e o posicionamento de mercado da instituição são fundamentais para fortalecer o vínculo com o aluno (Mirgorodskaya et al., 2023). Nesse contexto, compreender os fatores que influenciam o ingresso e a continuidade dos estudos na Região Metropolitana do ABC Paulista torna-se essencial, dado o peso econômico da região, historicamente ligada aos setores automotivo e químico (Araujo et al., 2021).
A operacionalização desta investigação fundamentou-se em uma abordagem de pesquisa aplicada, com natureza quantitativa, visando a mensuração e análise de dados para responder às hipóteses sobre o comportamento estudantil (Creswell e Creswell, 2021). O delineamento caracterizou-se como descritivo, utilizando o levantamento de campo como estratégia principal para identificar as opiniões e perfis de um grupo específico (Gil, 2019). O processo metodológico envolveu três frentes complementares: pesquisa bibliográfica, documental e a aplicação de um questionário estruturado do tipo survey. A etapa bibliográfica sustentou a análise teórica por meio de oito livros, 11 artigos científicos e seis relatórios institucionais publicados majoritariamente entre 2020 e 2025, focando em temas como marketing educacional e retenção (Fernandes, 2015). A pesquisa documental recorreu a bases de dados oficiais, como o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira e o Sistema Estadual de Análise de Dados, para contextualizar os indicadores educacionais e demográficos (Richardson, 2017). O instrumento de coleta de dados foi disponibilizado via Google Forms entre os meses de maio e agosto de 2025, utilizando uma amostragem não probabilística por conveniência. O questionário foi organizado em cinco blocos temáticos: caracterização do grupo, possibilidades de financiamento, desafios do abandono, fatores de retenção e imagem institucional.
Para garantir a integridade da amostra, estabeleceram-se critérios rigorosos de inclusão e exclusão. Inicialmente, 348 voluntários participaram da coleta, mas 212 foram excluídos por não atenderem aos requisitos estabelecidos. Entre os descartados, 14 eram menores de idade, 129 não pretendiam cursar o ensino superior na região do ABC Paulista, 22 já estavam matriculados em outras regiões, 18 buscavam exclusivamente universidades públicas, três já possuíam graduação completa e 29 não finalizaram o preenchimento do formulário. Assim, a amostra final validada contou com 133 participantes. Antes da aplicação definitiva, o instrumento passou por uma fase de validação com quatro voluntários do público-alvo, que testaram a clareza e a funcionalidade das questões, resultando em um feedback positivo que dispensou ajustes estruturais. A pesquisa seguiu rigorosamente as normas da Resolução nº 510 de 2016, assegurando o anonimato e a ética no tratamento das informações por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os dados coletados foram processados com métodos de estatística descritiva e tabulação em planilhas eletrônicas, permitindo a realização de análises cruzadas entre as variáveis sociodemográficas e as percepções dos respondentes sobre as instituições de ensino superior da região.
A análise do perfil sociodemográfico revelou que a maioria dos respondentes, correspondendo a 65,4%, possui idade entre 18 e 24 anos, enquanto 21,8% situam-se na faixa de 25 a 30 anos. A predominância geográfica recai sobre São Bernardo do Campo, com 67,7% da amostra, seguida por Santo André com 15% e Diadema com 6,8%. No que tange à situação ocupacional, 48,1% trabalham em regime de tempo integral e 20,3% atuam como estagiários. Quanto ao status acadêmico, 78,9% já estão matriculados em uma instituição privada da região, enquanto 21,1% planejam ingressar nos próximos 12 meses. A renda familiar mensal concentra-se nas faixas de até dois salários-mínimos para 23,3% dos participantes e entre dois e três salários para 22,6%. Sobre o financiamento dos estudos, 54,9% utilizam recursos próprios, mas a dependência de auxílios é notável entre os alunos de 25 a 30 anos, onde 58,6% recorrem a bolsas. O Programa Universidade para Todos atende 16,5% da amostra com bolsas integrais, enquanto bolsas institucionais por mérito são utilizadas por 23,3%. O valor da mensalidade mostrou-se um fator crítico na decisão de escolha para 36,1% dos respondentes, exercendo maior pressão sobre aqueles que pretendem ingressar do que sobre os já matriculados.
As motivações para buscar o ensino superior estão fortemente atreladas à qualificação profissional, citada por 23,6% dos indivíduos, e ao aumento da renda, mencionado por 16,2%. A estabilidade no mercado e a realização pessoal aparecem empatadas com 13% cada. As áreas de maior interesse são as Engenharias, com 37,6%, seguidas por Negócios e Administração com 21,1% e Tecnologia da Informação com 11,3%. No campo da retenção, 36,8% dos estudantes afirmaram nunca ter pensado em desistir do curso, porém, entre os que cogitaram o abandono, os principais motivos foram a dificuldade em conciliar estudos e obrigações profissionais para 15,4% e questões financeiras para 14,7%. A análise cruzada indicou que os alunos que custeiam os próprios estudos sentem mais o peso do cansaço e da sobrecarga financeira. Em relação à modalidade de ensino, o presencial noturno é o preferido por 52,6% da amostra, devido à necessidade de trabalhar durante o dia, enquanto o semipresencial atrai 15% dos respondentes.
A qualidade do ensino foi apontada como o principal fator de permanência por 28,7% dos participantes, seguida pela infraestrutura física, como laboratórios e salas equipadas, com 16,6%. Oportunidades de empregabilidade foram decisivas para 15,2%. Quando questionados sobre o que define uma instituição de qualidade, 25,2% destacaram a qualificação do corpo docente e 19,3% a clareza na organização das aulas. A infraestrutura tecnológica e os serviços de apoio também receberam avaliações elevadas, com destaque para a orientação de estágios e empregos, considerada importante por 94,7% dos respondentes, e o plantão de dúvidas, valorizado por 86,5%. No que se refere à imagem institucional, a reputação e a qualidade reconhecida foram os critérios de escolha para 23,5% da amostra. O Centro Universitário FEI destacou-se como a instituição mais citada, com 42,1% de preferência, evidenciando uma forte liderança regional consolidada por meio de indicações de familiares e amigos, que representam 20,4% dos canais de conhecimento da marca.
A discussão dos resultados permite inferir que o preço da mensalidade atua como uma barreira de entrada significativa, mas perde protagonismo para a qualidade percebida uma vez que o aluno já está matriculado. Essa dinâmica corrobora a tese de que a retenção não é explicada apenas por variáveis econômicas, mas por um equilíbrio entre suporte institucional e integração social (Costa e Gouveia, 2018). O fato de estudantes mais velhos dependerem mais de bolsas sugere que as instituições devem personalizar suas estratégias de comunicação e auxílio financeiro de acordo com a faixa etária e o perfil socioeconômico. A educação é percebida como um investimento de retorno esperado, onde o valor atribuído depende da relação entre o esforço despendido e os benefícios colhidos, como empregabilidade e prestígio social (Kotler e Fox, 1994). A forte valorização de atributos como laboratórios modernos e professores qualificados reforça que a percepção de qualidade é o que sustenta o vínculo de longo prazo.
As instituições que desejam reduzir a evasão precisam transformar o auxílio financeiro em um ponto de partida para a criação de laços duradouros baseados na credibilidade (Nora et al., 2005). O marketing de relacionamento torna-se uma ferramenta estratégica, pois a fidelização não decorre apenas do serviço educacional em si, mas da soma de experiências positivas e do sentimento de pertencimento (Kotler e Keller, 2016). A reputação institucional funciona como um atalho cognitivo que reduz a incerteza do candidato no momento da escolha, exercendo influência superior à própria qualidade acadêmica isolada (Amoozegar et al., 2025). No ABC Paulista, a articulação entre canais digitais e a indicação interpessoal fortalece a imagem das instituições líderes, sugerindo que a presença consistente em múltiplos pontos de contato é essencial para a competitividade (Mota Júnior, 2023). A evasão deve ser compreendida como um fenômeno multifatorial que exige respostas integradas, desde o suporte psicossocial até a flexibilidade de horários para atender ao perfil do estudante trabalhador (Pinheiro, 2023).
Conclui-se que o objetivo foi atingido ao identificar que o ingresso no ensino superior privado do ABC Paulista é condicionado primordialmente por fatores socioeconômicos e pelo valor das mensalidades, enquanto a permanência está vinculada à qualidade do ensino, à infraestrutura e à reputação da instituição. A pesquisa demonstrou que a decisão de escolha é fortemente influenciada por indicações pessoais e pela percepção de suporte acadêmico, como orientação de carreira e qualificação docente. Observou-se que a inadimplência e a dificuldade de conciliar a jornada de trabalho com os estudos são os principais riscos para a evasão, exigindo que as instituições desenvolvam estratégias de retenção mais robustas e personalizadas. O estudo evidenciou a liderança de marcas tradicionais na região e a importância de um posicionamento institucional que alinhe excelência acadêmica com responsabilidade social e acessibilidade financeira. Conclui-se que o objetivo foi atingido ao fornecer subsídios para que gestores educacionais possam aprimorar suas políticas de captação e fidelização de discentes.
Referências Bibliográficas:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Marketing do MBA USP/Esalq
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