Resumo Executivo

30 de abril de 2026

Otimização do OTIF na Logística de Bebidas

Júlia Oliveira Sathler Garcia; Adilson do Carmo Bassan

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A logística moderna consolidou-se como um dos pilares fundamentais para a sustentabilidade e competitividade das organizações, especialmente em mercados caracterizados por alta complexidade de distribuição e exigências crescentes de nível de serviço. No cenário contemporâneo, a gestão eficiente do fluxo de bens e informações, desde a origem até o consumidor final, busca não apenas a redução de custos, mas a satisfação plena das demandas dos clientes (Ballou, 2006). No setor de bebidas, essa dinâmica assume contornos ainda mais críticos devido à natureza intensiva da cadeia de suprimentos, que exige entregas frequentes, pontuais e com integridade total dos produtos. A busca por eficiência operacional e a mitigação de gargalos logísticos tornaram-se imperativos para garantir que a disponibilidade de produto no ponto de venda não seja comprometida por falhas nos processos de carregamento ou roteirização. De acordo com Christopher (2016), a logística deve ser orientada para a criação de valor ao cliente, integrando processos que permitam uma resposta rápida e flexível às variações do mercado.

Dentro das etapas que compõem a distribuição física, o carregamento de veículos e a roteirização de entregas emergem como processos de impacto direto tanto na estrutura de custos operacionais quanto na percepção de qualidade pelo consumidor. O planejamento adequado do carregamento visa maximizar a ocupação do espaço cúbico disponível nos veículos, respeitando restrições operacionais e garantindo a estabilidade da carga para evitar avarias (Tavares e Gonçalves, 2013). Simultaneamente, a roteirização eficiente busca definir os trajetos que minimizem o tempo e a quilometragem percorrida, considerando janelas de atendimento e limites de jornada. A complexidade dessas variáveis exige o uso de técnicas estruturadas e ferramentas de gestão que permitam o controle e a previsibilidade da operação (Ballou, 2006). Quando esses processos falham, os resultados manifestam-se em desperdício de capacidade, aumento de custos com combustível e, fundamentalmente, no descumprimento de prazos.

Para mensurar a eficácia dessas operações, o indicador OTIF (On Time In Full) destaca-se como uma métrica de desempenho robusta, pois avalia a entrega sob duas perspectivas indissociáveis: a pontualidade e a completude do pedido. O OTIF sintetiza a qualidade da entrega percebida pelo cliente, refletindo a eficiência de toda a cadeia logística anterior ao momento da entrega (Moura, 2018). Em um ambiente de autosserviço, onde as entregas são realizadas diretamente em supermercados e atacadistas, a precisão do OTIF é determinante para a manutenção de parcerias comerciais sólidas. Diante da necessidade de otimizar esse indicador, a gestão de projetos oferece um conjunto de ferramentas e técnicas que possibilitam o mapeamento de falhas, a identificação de causas raiz e a implementação de melhorias contínuas. Conforme as diretrizes do Project Management Institute (PMI, 2021), o uso de práticas estruturadas permite controlar variações orçamentárias e implementar ações corretivas de forma ágil, contribuindo para a sustentabilidade econômica e operacional da logística.

A fundamentação teórica que sustenta a melhoria de processos logísticos baseia-se na integração de conceitos de gestão da qualidade e engenharia de produção. A aplicação do ciclo PDCA (Plan-Do-Check-Act) é essencial para garantir que as intervenções não sejam apenas pontuais, mas parte de um sistema de evolução constante (Falconi, 2014). No contexto da distribuição de bebidas, a complexidade é acentuada pela diversidade de canais e pela rigidez das janelas de recebimento dos grandes varejistas. A gestão de custos, nesse sentido, deve focar na identificação de centros de custo improdutivos, como o tempo de espera excessivo e a ociosidade da frota. O gerenciamento sistemático do escopo e dos recursos permite estabelecer metas realistas e monitorar o progresso das iniciativas de otimização, garantindo que os objetivos estratégicos da organização sejam atingidos por meio de operações táticas bem executadas (PMI, 2021).

A metodologia adotada para a análise e otimização dos processos logísticos fundamenta-se em um estudo de caso aplicado em uma organização de grande porte do setor de bebidas, com foco específico no segmento de autosserviço. A pesquisa caracteriza-se como aplicada e exploratória, utilizando uma abordagem mista que combina a análise quantitativa de indicadores de desempenho com a avaliação qualitativa dos processos operacionais (Gil, 2017). A estratégia de estudo de caso único permitiu uma investigação profunda dos fenômenos inseridos em seu contexto real, facilitando a identificação de limites e interdependências entre as etapas de carregamento, roteirização e entrega (Yin, 2015). A coleta de dados foi realizada exclusivamente por meio de análise documental e consulta a bancos de dados internos da empresa, abrangendo relatórios de desempenho, planilhas de carregamento e registros de roteiros de entrega.

O tratamento dos dados quantitativos envolveu o uso de ferramentas de análise descritiva para avaliar variáveis como tempo de carregamento, taxa de ocupação dos veículos, quilometragem rodada e custo por rota. O indicador OTIF foi estabelecido como a métrica central, sendo desdobrado em suas componentes On Time e In Full para permitir uma visão granular das falhas. A estrutura de análise seguiu rigorosamente as etapas do ciclo PDCA. Na fase de planejamento, foi elaborado um contrato de projeto para formalizar o escopo, as metas e as responsabilidades, garantindo o alinhamento entre as partes interessadas (PMI, 2021). O cronograma foi estruturado por meio de um gráfico de Gantt, permitindo o acompanhamento temporal das atividades e o controle rigoroso dos prazos de implementação (Kerzner, 2017).

Para o mapeamento dos macroprocessos logísticos, utilizou-se a ferramenta SIPOC (Suppliers, Inputs, Process, Outputs, Customers), que possibilitou a identificação de entradas críticas e saídas esperadas em cada etapa da cadeia (George et al., 2005). A análise do SIPOC revelou que o gerenciamento de entrega era o processo mais sensível e diretamente relacionado às variações do OTIF. Complementarmente, foram utilizados gráficos de tendência (Run Charts) para visualizar a evolução histórica do indicador e identificar padrões de sazonalidade, especialmente nos meses do segundo semestre, que historicamente apresentavam resultados inferiores. A variabilidade dos dados foi analisada por meio de BoxPlots, que permitiram comparar o desempenho de diferentes anos e identificar a estabilização dos resultados no período mais recente.

A identificação das causas raiz dos problemas logísticos foi realizada por meio de sessões de brainstorming com profissionais da área, cujas percepções foram estruturadas em um Diagrama de Ishikawa. Esse diagrama categorizou as causas potenciais em seis dimensões: medida, ambiente, comportamento, métodos, máquina e qualidade. A partir dessa visão sistêmica, aplicou-se uma matriz de criticidade para priorizar as etapas do processo que demandavam intervenção imediata. As etapas foram pontuadas com base no impacto sobre o processo, autoridade para intervir e dificuldade de execução, utilizando uma escala de dois, três e cinco. Esse método permitiu identificar que a entrega no cliente e o descarregamento do caminhão eram os pontos de maior criticidade devido à exposição a variáveis externas e internas (Slack et al., 2013).

A decomposição das atividades em tarefas granulares permitiu localizar gargalos específicos, como a tratativa de notas fiscais e a conferência de pedidos. Para selecionar as ações de melhoria mais viáveis, utilizou-se a Matriz Esforço x Impacto, priorizando iniciativas de alto impacto e baixo esforço, que oferecem retornos rápidos com menor consumo de recursos (Coutinho, 2023). Na fase de verificação do PDCA, análises de correlação foram executadas para validar hipóteses sobre os fatores que impactavam o desempenho, como a relação entre a quantidade de entregas por roteiro e o índice de pernoites. Por fim, a padronização das melhorias foi consolidada através de checklists operacionais, servindo como instrumento de apoio para assegurar a continuidade das boas práticas e a sustentabilidade dos resultados alcançados (Souza, 2023).

Os resultados obtidos após a implementação das ações de melhoria demonstram uma evolução significativa no desempenho logístico da organização. Entre janeiro e julho de 2025, o indicador OTIF apresentou um crescimento consistente, partindo de 74,22% e atingindo 82,29%. Esse incremento de 8,07 pontos percentuais reflete a eficácia da abordagem estruturada de gestão de projetos. A análise detalhada das componentes do indicador revela que, enquanto o On Time manteve uma estabilidade acima de 86%, o fator determinante para o sucesso global foi a evolução do In Full, que saltou de 84,70% para 91,28% no mesmo período. Esse comportamento indica que as ações focadas na acuracidade do carregamento e na redução de erros de expedição foram fundamentais para elevar a confiabilidade das entregas.

A melhoria no índice In Full está diretamente associada à revisão das coordenadas dos pontos de venda e à definição de acordos de nível de serviço (SLAs) mais rigorosos com os clientes. A imprecisão nos dados de localização e a falta de clareza sobre as janelas de recebimento geravam inconsistências operacionais que frequentemente resultavam em devoluções ou entregas parciais. Ao alinhar as expectativas entre a empresa e a rede varejista, foi possível reduzir drasticamente as falhas de comunicação e os erros de processamento de pedidos. Conforme destaca Christopher (2016), a integração entre fornecedores e clientes por meio de acordos claros é um elemento crítico para reduzir rupturas no abastecimento e aumentar a percepção de valor.

Outro fator de impacto positivo foi a implementação de critérios de priorização para veículos com carga compartilhada. A combinação estratégica de lojas com alta rigidez de recebimento e pontos de entrega mais flexíveis proporcionou uma fluidez superior às rotas, reduzindo o tempo total de ciclo e minimizando os atrasos. O uso racional da capacidade de transporte não apenas melhorou o nível de serviço, mas também contribuiu para a redução de custos variáveis relacionados ao consumo de combustível e manutenção da frota (Ballou, 2006). A análise dos dados de estadia externa corroborou essa percepção, evidenciando que roteiros com duas entregas eram os mais suscetíveis a pernoites quando não devidamente planejados. A intervenção direta nessa configuração de rota permitiu mitigar os impactos negativos sobre o KPI On Time.

A problemática do pernoite, identificada como uma das causas principais de atrasos nas rotas subsequentes, foi tratada por meio da revisão dos lead times de entrega, especialmente para clientes localizados em regiões de longa distância ou que exigiam tratativas fiscais antecipadas. A adequação do planejamento de expedição a essas particularidades aumentou a previsibilidade da operação e reduziu a ocorrência de veículos retidos fora do centro de distribuição. A seleção adequada do modal logístico e do perfil de veículo para cada tipo de rota também se mostrou determinante para a completude das entregas, reduzindo reentregas e cancelamentos parciais. Para Slack et al. (2013), a compatibilidade entre os recursos logísticos e as exigências da demanda é essencial para garantir a consistência em cadeias de suprimento complexas.

A introdução de checklists operacionais e a padronização de processos garantiram que as melhorias implementadas não fossem perdidas ao longo do tempo. A análise crítica das atividades permitiu o redesenho de fluxos com foco no valor agregado, eliminando tarefas redundantes e otimizando o tempo de descarregamento no cliente. A utilização da Matriz de Priorização foi essencial para direcionar os esforços da equipe para os problemas de maior impacto, garantindo que os recursos limitados fossem aplicados onde poderiam gerar o maior retorno para o desempenho logístico. A estabilização do OTIF em patamares superiores a 80% a partir de maio de 2025 confirma que a fase de execução do projeto atingiu a maturidade necessária para sustentar os ganhos operacionais (Moura, 2018).

A discussão dos resultados permite inferir que a aplicação de metodologias de gestão de projetos no contexto logístico transcende a simples correção de falhas técnicas. A utilização do ciclo PDCA proporcionou uma estrutura lógica que facilitou a identificação de gargalos que, embora conhecidos empiricamente pela operação, careciam de evidências baseadas em dados para serem priorizados. A integração de ferramentas como o SIPOC e o Diagrama de Ishikawa permitiu uma visão holística da operação, revelando que a eficiência da entrega final dependia criticamente de processos de suporte, como a tratativa de notas fiscais e o cadastro correto de leads de entrega. Essa percepção reforça a necessidade de uma gestão integrada, onde a logística não é vista como um departamento isolado, mas como um fluxo contínuo de valor (Christopher, 2016).

A análise da variabilidade por meio de BoxPlots demonstrou que, além de elevar a média do OTIF, o projeto conseguiu reduzir a dispersão dos resultados, tornando a operação mais estável e confiável. Uma gestão inconstante, como a observada em anos anteriores, gera incerteza no planejamento de vendas e compromete a relação com o varejo. A estabilização alcançada em 2025 sugere que a padronização das rotinas e o monitoramento contínuo dos indicadores são os pilares da resiliência operacional. A importância de monitorar períodos historicamente críticos, como o segundo semestre, foi evidenciada pela série histórica, permitindo que a organização se antecipasse a sazonalidades que tendem a pressionar a capacidade de entrega.

As limitações deste estudo residem no fato de ter sido conduzido em uma única operação logística, o que sugere cautela na generalização absoluta dos dados para outros setores. No entanto, a lógica metodológica e as ferramentas empregadas possuem alto potencial de replicabilidade. A integração de tecnologias emergentes, como sistemas avançados de roteirização e análise preditiva, surge como uma oportunidade para desdobramentos futuros, visando potencializar ainda mais os ganhos de eficiência identificados. A sustentabilidade das ações implementadas depende da manutenção da cultura de melhoria contínua e do uso rigoroso de instrumentos de controle, como os checklists desenvolvidos (Falconi, 2014).

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a aplicação estruturada de ferramentas de gestão de projetos e análise de processos resultou na otimização do indicador OTIF, elevando-o de 74,22% para 82,29% e superando a meta estabelecida de 80%. A identificação e mitigação de gargalos críticos, como o tempo de pernoite e as falhas no cadastro de leads, foram fundamentais para aumentar a acuracidade das entregas e a pontualidade da operação. A integração entre a teoria logística e as práticas de gestão da qualidade permitiu não apenas a resolução de problemas pontuais, mas a criação de uma base operacional sólida e padronizada, capaz de sustentar níveis elevados de serviço no setor de bebidas e garantir a satisfação dos clientes no segmento de autosserviço.

Referências Bibliográficas:

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SOUZA, Gabriel Marques de. 2023. Análise do nível de maturidade das operações logísticas de empresas brasileiras sob o contexto da quarta revolução industrial. Dissertação de Mestrado em Engenharia de Transportes. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

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YIN, R.K. 2015. Estudo de caso: planejamento e métodos. 5ed. Bookman, Porto Alegre, RS, Brasil.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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