05 de maio de 2026
Gestão Híbrida na Refrigeração OEM: Gargalos e Diretrizes Operacionais
Lucas Fernandes Limeira; Ricardo Antônio Câmara Da Silva
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A gestão de cronogramas em ambientes industriais de alta complexidade, como o setor de refrigeração sob regime Original Equipment Manufacturer (OEM), exige uma coordenação precisa entre customização técnica e fluxos produtivos. Projetos dessa natureza caracterizam-se por sequências de aprovação intersetoriais e uma dependência crítica de interações entre as áreas comercial, engenharia, compras, planejamento e controle da produção, qualidade e logística. Instrumentos clássicos de planejamento, como o Método do Caminho Crítico (CPM) e diagramas de Gantt, permanecem fundamentais para estabelecer a sequência lógica das atividades (PMI, 2021). No entanto, em contextos de elevada customização, enfoques puramente tradicionais apresentam baixa adaptabilidade frente a variações operacionais (SEBRAE, 2021). A coexistência de sistemas centrais de gestão com controles paralelos em planilhas eletrônicas frequentemente resulta em discrepâncias de informação que prejudicam a confiabilidade das métricas e a agilidade na tomada de decisão. A ausência de um modelo de gestão adaptado às especificidades do setor de refrigeração, capaz de conciliar a disciplina do macro-planejamento com mecanismos de flexibilidade operacional, provoca desvios recorrentes de prazo e retrabalhos.
A fundamentação teórica para a estruturação de modelos de gestão em ambientes customizados remete à necessidade de integrar previsibilidade e agilidade. Kerzner (2017) reforça que a maturidade em gestão de projetos depende da capacidade de alinhar processos formais às necessidades dinâmicas do negócio. No cenário OEM, essa dinâmica é tensionada por aprovações técnicas externas demoradas e lead times variáveis de componentes importados ou sob encomenda. A aplicação da Teoria das Restrições permite identificar e proteger os recursos limitantes do fluxo por meio de buffers estratégicos (Goldratt & Cox, 1984). Complementarmente, os princípios da produção enxuta fundamentam a redução de desperdícios e a padronização de processos para diminuir a variabilidade (Womack & Jones, 1996). A integração dessas abordagens sustenta a criação de um modelo híbrido, onde o cronograma mestre oferece a visão de longo prazo enquanto práticas ágeis, como o Kanban e ciclos de sprints, gerenciam as incertezas do cotidiano operacional. Maximiano (2017) destaca que a eficácia em projetos está diretamente ligada a uma estrutura de governança clara e regras de decisão bem definidas, elementos que muitas vezes faltam em processos industriais fragmentados.
O delineamento metodológico adotado para a análise do fluxo de desenvolvimento e proposição de melhorias consistiu em um estudo qualitativo, de caráter exploratório e natureza aplicada, estruturado sob o formato de estudo de caso único com triangulação de fontes (Gil, 2017). A investigação buscou compreender em profundidade as dinâmicas operacionais que afetam o controle de cronogramas em uma unidade fabril de refrigeração. O processo de coleta de dados iniciou-se com uma análise documental exaustiva, focada em cronogramas internos exportados do sistema Tangram CRM Suite e relatórios de desempenho gerados em Power BI. Foram examinados cronogramas com detalhamento entre 80 e 140 linhas, permitindo a extração e padronização de timestamps para o cálculo de lead times reais por etapa. Essa etapa documental visou mapear sequências de atividades, dependências intersetoriais e padrões sistemáticos de atraso observáveis nos artefatos de planejamento existentes. A validade das inferências foi reforçada pelo confronto entre os dados sistêmicos e a realidade percebida no chão de fábrica (Yin, 2014).
Complementando a análise documental, foram realizadas observações de campo e entrevistas semiestruturadas com 10 profissionais das áreas-chave do fluxo OEM, incluindo engenharia de produto, comercial, cadastro, engenharia de processo, compras, planejamento, qualidade, produção e logística. Os participantes foram selecionados por amostragem intencional, priorizando aqueles com experiência operacional direta no processo. As entrevistas, ocorridas em junho de 2025, tiveram duração média de 35 minutos e foram documentadas em notas de campo e resumos analíticos. O roteiro abordou as responsabilidades no fluxo, pontos de atraso recorrentes, ferramentas de controle utilizadas e sugestões de melhoria. A atuação em regime de observador participante permitiu o acesso a reuniões técnicas e atividades cotidianas, oferecendo uma visão detalhada das práticas informais e dos gargalos não registrados nos sistemas oficiais. Para mitigar potenciais vieses, adotou-se um registro sistemático das decisões analíticas e o confronto crítico dos achados com a literatura especializada.
A análise dos dados qualitativos seguiu procedimentos de análise temática, onde as transcrições e notas foram codificadas para identificar categorias recorrentes. Os achados foram triangulados com as evidências quantitativas extraídas dos cronogramas para verificar convergências. O mapeamento do fluxo operacional revelou que o processo inicia-se com a criação da Solicitação de Engenharia (SE) pela área comercial, seguida por um comitê de aprovação que atua como um gate inicial. A etapa de desenho e engenharia de produto possui um prazo padrão de quatro dias úteis, mas frequentemente enfrenta solicitações incompletas que geram retrabalho. A aprovação técnica do cliente, uma dependência externa crítica, apresenta variabilidade acentuada, oscilando entre três e 30 dias úteis. As etapas subsequentes envolvem o cadastro de itens, engenharia de processo, cotação de compras, planejamento de ordens de produção, fabricação, inspeção de qualidade e logística. Cada uma dessas fases foi minuciosamente detalhada para identificar os pontos de fricção que comprometem a data final de entrega.
Os resultados demonstram que a engenharia de produto enfrenta uma elevada carga de trabalho com especificações frequentemente inconsistentes. Silva (2019) observa que projetos de engenharia industrial comumente sofrem com a necessidade de validações técnicas constantes, o que corrobora a situação identificada de aumento no tempo médio de elaboração de desenhos e riscos de não conformidade na fabricação. Para mitigar esse efeito, a implementação de um gate denominado “SE completa” torna-se essencial. Trata-se de um checklist obrigatório que bloqueia a entrada de itens no fluxo até que todos os dados essenciais, como desenhos referenciais, especificações de materiais, tolerâncias e prazos desejados, estejam devidamente preenchidos. Essa medida preventiva visa reduzir entradas imaturas e diminuir o custo e o tempo de retrabalho logo no início do ciclo de vida do projeto.
Na interface comercial, a variabilidade no tempo de aprovação técnica pelo cliente introduz janelas de incerteza que deslocam o caminho crítico. A formalização de Service Level Agreements (SLAs) contratuais, estabelecendo, por exemplo, um prazo de resposta de até cinco dias úteis, é uma diretriz central para aumentar a previsibilidade. Associado ao SLA, um protocolo de escalonamento deve ser ativado quando o prazo é rompido, notificando a gerência comercial em 48 h e a diretoria em sete dias. Esses mecanismos de governança devem ser integrados a buffers pré-posicionados no cronograma, como um acréscimo de cinco dias na fase de compras e três dias antes da fabricação. A combinação de SLAs e buffers calibrados protege os marcos críticos sem a necessidade de replanejamentos constantes a cada pequena variação exógena.
A área de cadastro, operando com equipe reduzida de três pessoas e rotinas manuais, gera filas de processamento que atrasam a alimentação de informações para o planejamento e compras. Recomenda-se a automação de formulários de entrada e a alocação temporária de recursos em picos de demanda. Já na engenharia de processo, o acúmulo de backlog e a capacidade limitada de quatro pessoas exigem critérios claros de priorização. A adoção do método Weighted Shortest Job First (WSJF) permite priorizar itens de maior valor e menor esforço. Além disso, a aplicação de práticas ágeis, como a limitação do Work In Progress (WIP) por meio de um quadro Kanban, reduz trocas de contexto e sobrecarga, nivelando a produção. Anderson (2010) reforça que a cadência Kanban favorece a evolução incremental e a melhoria contínua, elementos vitais para gerenciar o backlog de engenharia.
O setor de compras apresentou prazos médios de cotação de cinco dias úteis e de amostras de até 10 dias úteis, com uma prática recorrente de depender de fornecedores únicos para itens críticos. Essa baixa concorrência reduz a resiliência do suprimento. Uma política de procurement mais robusta deve exigir o mínimo de três cotações para componentes de risco elevado e instituir programas de qualificação de fornecedores estratégicos. No planejamento e controle da produção, a dificuldade em datar ordens de produção decorre da variabilidade das etapas anteriores. A integração do planejamento com indicadores de lead time e criticidade permite decisões mais automatizadas. Na esfera da qualidade e metrologia, a rotatividade de pessoal e a dependência de equipamentos específicos ampliaram o tempo de inspeção para até quatro dias úteis, contra um referencial teórico de um dia. Programas de treinamento cruzado e manutenção preventiva são necessários para reduzir essa variabilidade.
Durante a fabricação, o ciclo padrão é de aproximadamente 10 dias úteis, mas erros de interpretação de desenho e seleção inadequada de materiais frequentemente causam retrabalhos. A introdução de checkpoints de inspeção intermediária, realizados nos dias três e sete da ordem de produção, permite a detecção precoce de erros. Esses pontos de controle, com critérios claros de aceitação, reduzem os custos finais e aumentam a confiabilidade do lead time produtivo. Na logística e expedição, a dependência de transporte e documentação adequada impacta o indicador de On-Time Delivery (OTD). A coordenação antecipada com transportadoras e a padronização documental visam reduzir variações na última milha do cronograma. A área de custo, por sua vez, atua como facilitadora, com tempos de resposta ágeis de um dia útil, contribuindo para análises de viabilidade.
A governança da informação surge como condição imprescindível para que as ferramentas de visualização convertam visibilidade em previsibilidade. A fragmentação de dados entre o sistema Tangram e planilhas locais reduz a confiabilidade das métricas e exige reconciliações manuais exaustivas. Recomenda-se a migração de todos os controles críticos para uma fonte única de dados, estabelecendo proprietários por domínio e regras rigorosas de versionamento. Dashboards em Power BI devem apresentar séries temporais de lead time médio e percentis 90 (p90) para capturar riscos de cauda. O uso do p90 é recomendado para calibrar buffers, pois reflete o tempo necessário para cobrir a grande maioria das variações históricas. A regra prática para o buffer inicial consiste em definir o valor como a diferença entre o p90 e a mediana de cada etapa crítica.
A implementação do modelo híbrido proposto deve ocorrer de forma faseada, iniciando por ações de baixo custo e alto impacto, as chamadas “quick wins”. No horizonte imediato de 30 dias, devem ser priorizados o gate “SE completa”, os checklists de fabricação e a política de cotações. No curto prazo, de um a três meses, a infraestrutura de governança deve ser ampliada com a migração de controles para o Power BI e treinamentos das equipes. O médio prazo, entre três e seis meses, envolve a calibração fina de buffers e SLAs com base nos dados coletados e a expansão do Kanban para áreas críticas. Por fim, no longo prazo, de seis a 12 meses, as práticas devem ser institucionalizadas por meio de procedimentos operacionais padrão e revisões contratuais de SLAs com clientes estratégicos. A validação do modelo deve ser realizada por meio de pilotos em três projetos de complexidades distintas, permitindo a comparação de indicadores antes e depois da intervenção.
A comparação entre as evidências empíricas e a literatura mostra convergência quanto à necessidade de modelos híbridos que combinem a disciplina do planejamento macro com mecanismos adaptativos no nível operacional. Marcos formais e checkpoints intersetoriais funcionam como instrumentos eficazes de governança (Kerzner, 2017; PMI, 2021). Contudo, emergem divergências importantes: enquanto a literatura frequentemente pressupõe um controle maior sobre variáveis internas, o contexto OEM de refrigeração é fortemente impactado por fatores exógenos e restrições de capacidade técnica. Isso demanda que o modelo não seja apenas uma estrutura de controle, mas um sistema de proteção contra incertezas. A integração entre o método do caminho crítico no macro e o Kanban no micro transforma a visibilidade em previsibilidade real.
Para garantir a sustentabilidade das melhorias, é necessário estabelecer um ciclo de governança em três níveis. No nível operacional, reuniões semanais devem tratar exceções e acionar ações imediatas com base nos dashboards. No nível tático, reuniões mensais entre o escritório de projetos e os donos de área devem revisar os indicadores de desempenho e avaliar a eficácia dos buffers. No nível estratégico, a diretoria deve realizar revisões trimestrais para aprovar mudanças de política e investimentos em capacidade. A coleta contínua de dados por dois a três meses é o período mínimo necessário para uma calibração empírica robusta. Sem essa cadência de acompanhamento e a atribuição explícita de responsabilidades, os ganhos de visibilidade tendem a ser efêmeros e não se convertem em cultura organizacional.
As diretrizes propostas são complementares e atuam em diferentes frentes do problema. Enquanto os gates e SLAs reduzem a variabilidade de entrada, os buffers e checkpoints limitam o impacto de incidentes durante a execução. A governança de dados e o procurement resiliente mitigam riscos sistêmicos, e a microgestão ágil permite correções rápidas. O sucesso dessa abordagem depende da integração técnica entre os sistemas de informação e de um ciclo de aprendizagem sustentado por revisões formais. Reconhecem-se limitações no diagnóstico, uma vez que se baseou em um universo limitado de projetos e entrevistas informais, sem uma coleta longitudinal extensa que permitisse inferir causalidade estatística robusta. No entanto, a robustez da triangulação de dados oferece uma base sólida para a implementação experimental.
Para pesquisas futuras, recomenda-se a realização de estudos longitudinais controlados que testem estatisticamente o impacto das intervenções na redução de lead times e na melhoria do OTD. Análises de custo-benefício sobre a ativação de buffers em diferentes níveis de criticidade e estudos comparativos entre empresas OEM de portes distintos poderiam generalizar as diretrizes aqui propostas. A evolução para modelos de análise preditiva, utilizando algoritmos de aprendizado de máquina sobre a base de dados do Tangram, representa o próximo estágio de maturidade para a gestão de cronogramas no setor. A transição de práticas fragmentadas para um processo governado e previsível é um desafio cultural tanto quanto técnico, exigindo liderança ativa e comunicação clara em todos os níveis da organização.
Conclui-se que o objetivo foi atingido por meio da identificação dos gargalos operacionais e da proposição de um modelo híbrido de gestão adaptado aos projetos OEM de refrigeração. A integração entre a disciplina do macro-planejamento e a flexibilidade da micro-gestão ágil, sustentada por regras operacionais claras como o gate de engenharia, SLAs com escalonamento e buffers calibrados pelo p90, demonstrou ser a estratégia mais eficaz para aumentar a previsibilidade das entregas. O diagnóstico setorial detalhado permitiu a criação de um roteiro de implementação prático e mensurável por indicadores de desempenho específicos. A combinação de ferramentas de visualização de dados com uma estrutura de governança rigorosa converte a visibilidade dos desvios em ações preventivas e corretivas, protegendo os marcos críticos do projeto. A validação preliminar indica que a redução da variabilidade nos processos de entrada e a detecção precoce de falhas na fabricação são os principais motores para a estabilização dos cronogramas. Recomenda-se a execução do plano de implementação faseado e a monitoria contínua dos resultados para a institucionalização definitiva das novas diretrizes operacionais.
Referências Bibliográficas:
ANDERSON, D. J. Kanban: Successful Evolutionary Change for Your Technology Business. Seattle: Blue Hole Press, 2010.
GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2017.
GOLDRATT, E. M.; COX, J. The Goal: a process of ongoing improvement. Great Barrington: North River Press, 1984.
KERZNER, H. Gestão de projetos: as melhores práticas. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, 2017.
MAXIMIANO, A. C. A. Administração de projetos: como transformar ideias em resultados. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2017.
PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE (PMI). Um guia do conhecimento em gerenciamento de projetos (Guia PMBOK®). 7. ed. Newtown Square, PA: Project Management Institute, 2021.
SEBRAE. Metodologia ágil: conceitos e aplicação no ambiente empresarial. Brasília: SEBRAE, 2021. Disponível em: https://www.sebrae.com.br. Acesso em: 10 jun. 2025.
SILVA, J. C. da. Gestão de projetos de engenharia industrial: teoria e prática. Belo Horizonte: EdUFMG, 2019.
WOMACK, J. P.; JONES, D. T. Lean Thinking: Banish Waste and Create Wealth in Your Corporation. New York: Simon & Schuster, 1996.
YIN, R. K. Case study research: design and methods. 5. ed. Thousand Oaks: SAGE Publications, 2014
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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