Resumo Executivo

11 de maio de 2026

Gestão de projetos e equipes na tokenização imobiliária

Mila Santos Oliveira; Walter S. Kussano

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

A gestão de ativos imobiliários consolidou-se, ao longo das últimas décadas, como um campo de elevada complexidade técnica e estratégica, demandando abordagens integradas para a convergência de variáveis jurídicas, financeiras, urbanísticas e tecnológicas. Este cenário revela-se particularmente desafiador em holdings vinculadas ao sistema bancário, as quais administram extensas carteiras de imóveis e necessitam conciliar objetivos de rentabilidade com rigorosos critérios de governança e conformidade. O controle físico dos bens de uma entidade constitui um dos instrumentos fundamentais da gestão patrimonial, devendo ser exercido por meio do registro detalhado de dados de cada ativo, definindo responsabilidades organizacionais nos diversos eventos que envolvem tais bens (Dutra, 2023). A prática da gestão patrimonial tem passado por um processo acelerado de digitalização e automação, incorporando tecnologias capazes de conferir agilidade e precisão à valorização dos ativos. Nesse contexto, a gestão de ativos imobiliários abrange o conjunto de estratégias voltadas à administração e rentabilização de imóveis pertencentes a pessoas físicas, jurídicas ou instituições financeiras, tratando-se de um processo contínuo que envolve desde a aquisição e regularização até o desenvolvimento e a alienação.

A gestão de projetos apresenta-se como um meio eficaz para integrar múltiplas disciplinas e alinhar esforços organizacionais em direção a metas comuns (Kerzner, 2021). Entre as inovações que impactam o setor, a tokenização de ativos imobiliários surge como uma das propostas mais promissoras, consistindo na representação digital de frações de um imóvel por meio de tokens registrados em tecnologia blockchain. Tal inovação permite que cotas imobiliárias sejam negociadas com maior transparência e segurança, ampliando o acesso a investimentos anteriormente restritos a grandes agentes de mercado e aumentando a liquidez patrimonial. A implementação da tokenização não ocorre de forma isolada, dependendo da atuação coordenada de áreas jurídicas, tecnológicas, financeiras e comerciais, cada qual com linguagens e prioridades distintas. O papel do gerente de projetos, portanto, transcende a execução técnica, atuando como facilitador da governança e assegurando a coerência na comunicação entre departamentos com interesses diversos (Kerzner, 2021).

A figura do gerente de projetos torna-se central para a definição de escopo e objetivos estratégicos, articulando equipes multidisciplinares para garantir que a inovação esteja em conformidade com requisitos regulatórios e operacionais. A gestão de projetos consiste na aplicação de conhecimentos, habilidades e técnicas para atender aos requisitos de um esforço temporário voltado à geração de um produto ou serviço único (PMI, 2021). Organizações que adotam práticas maduras nessa área conseguem converter objetivos estratégicos em resultados mensuráveis, assegurando o alinhamento entre inovação e conformidade (Kerzner, 2021). Em setores regulados, como o bancário e o imobiliário, essa prática tornou-se um instrumento estratégico para viabilizar a transformação digital. Projetos de tokenização exigem planejamento estruturado e o uso de metodologias capazes de conciliar governança com flexibilidade, permitindo ciclos de entregas curtas e adaptação rápida às mudanças de mercado ou evoluções normativas.

A metodologia adotada para a investigação do tema caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa e exploratória, adequada para o estudo de fenômenos emergentes que carecem de estruturação teórica consolidada. A abordagem qualitativa permitiu captar a complexidade das interações entre as áreas envolvidas na tokenização, enquanto o caráter exploratório justificou-se pela natureza inovadora do tema no contexto brasileiro. A coleta de dados fundamentou-se em três frentes complementares para garantir uma visão integrada do fenômeno. A primeira frente consistiu em uma revisão bibliográfica e documental exaustiva, consultando livros, artigos acadêmicos, relatórios técnicos e normas regulatórias, incluindo ofícios da Comissão de Valores Mobiliários e guias de boas práticas como o PMBOK em suas 6ª e 7ª edições, além do PMI Disciplined Agile. Foram analisados estudos sobre blockchain e publicações de instituições financeiras e órgãos reguladores para embasar a fundamentação teórica.

A segunda frente metodológica envolveu a realização de entrevistas com 10 especialistas atuantes em áreas críticas para o processo de tokenização. O grupo de entrevistados incluiu um administrador de empresas com 15 anos de experiência como CEO em corporate real estate (N.1), uma advogada especialista em direito imobiliário com 23 anos de atuação (N.2), um gerente sênior de tecnologia com 17 anos de experiência no setor bancário (N.3) e uma gerente financeira com 23 anos de atuação em grandes instituições bancárias (N.4). Também foram consultadas uma advogada com 20 anos de experiência em advocacia imobiliária (N.5), um engenheiro civil com 13 anos de atuação no mercado imobiliário (N.6), um advogado com 35 anos de experiência (N.7), um engenheiro civil com 30 anos de atuação no setor bancário (N.8), um gerente financeiro com 21 anos de experiência (N.9) e uma advogada especialista em direito registrário e imobiliário (N.10). O roteiro de entrevistas utilizou perguntas abertas, permitindo a exploração de percepções práticas e recomendações sobre a integração de equipes e a gestão de riscos.

A terceira frente metodológica baseou-se nas percepções práticas decorrentes da atuação profissional em uma holding imobiliária de um banco multinacional, o que conferiu ao estudo uma perspectiva aplicada e realista sobre os desafios operacionais. A estratégia de análise dos dados seguiu a triangulação de fontes, garantindo consistência e validade interna. As etapas contemplaram a análise de conteúdo das entrevistas para identificação de padrões e divergências, a comparação entre modelos tradicionais de gestão patrimonial e o modelo baseado em tokenização, e o mapeamento de riscos técnicos e regulatórios. O processo operacional de análise buscou sintetizar as informações em um modelo de atuação para o gerente de projetos, incorporando práticas de gestão tradicional e metodologias ágeis para responder aos desafios de um ambiente altamente regulado.

Os resultados da investigação demonstram que a gestão de projetos consolidou-se como ferramenta essencial para a execução de iniciativas complexas em ambientes de incerteza. No contexto da tokenização de ativos imobiliários, a figura do gerente de projetos assume importância vital, pois o processo envolve desafios tecnológicos, jurídicos, financeiros e de governança simultâneos. Em holdings imobiliárias e instituições financeiras, a tokenização não representa apenas um incremento técnico, mas uma estratégia de transformação digital onde o gerente de projetos atua como o elo entre as áreas, garantindo que os objetivos estratégicos sejam convertidos em entregas concretas dentro dos prazos e custos definidos. A ausência de uma liderança dedicada compromete a coerência e a integração das atividades multidisciplinares.

Dentre as competências essenciais identificadas para o sucesso da tokenização, destacam-se as habilidades de caráter interpessoal, como comunicação clara, negociação e visão sistêmica. A capacidade de mediação entre partes interessadas com linguagens distintas é fundamental para evitar retrabalhos e mitigar riscos regulatórios. A gestão de riscos, abrangendo a identificação e o monitoramento de incertezas tecnológicas e mercadológicas, é um elemento central da atuação do gerente (PMI, 2021). É imprescindível que este profissional domine as normas da Comissão de Valores Mobiliários, as orientações das Corregedorias e as exigências cartoriais, garantindo a aderência ao sistema registral brasileiro. A liderança colaborativa e o incentivo à troca de conhecimento entre equipes internas e externas são apontados como fatores determinantes para o engajamento dos stakeholders.

A aplicação de metodologias híbridas revelou-se a abordagem mais adequada para projetos de tokenização. Enquanto o planejamento estruturado fornece as bases para a definição de escopo e custos, as práticas ágeis, como o uso de squads multidisciplinares, favorecem a comunicação e aceleram as entregas (Highsmith, 2010). A divisão do projeto em equipes com metas integradas permite que ajustes rápidos sejam incorporados durante o desenvolvimento tecnológico sem que se perca o controle sobre o cronograma. Conforme observado nas entrevistas, traduzir os interesses das áreas jurídica, tecnológica e financeira em fluxos coesos e executáveis representa um desafio constante, o que reforça a necessidade de uma gestão que equilibre o rigor documental com a flexibilidade operacional.

A tokenização de ativos é um processo que converte bens físicos em representações digitais registradas em blockchain, conferindo ao detentor do token direitos econômicos proporcionais ao valor do ativo. Esse modelo revoluciona a comercialização e o financiamento de imóveis ao permitir o fracionamento da propriedade e facilitar a negociação de ativos historicamente considerados ilíquidos. A viabilização jurídica dessa operação exige um arcabouço normativo sólido. Embora o Brasil ainda não possua legislação específica abrangente, o Ofício Circular CVM/SSE 11/2022 reconhece que determinados tokens podem ser enquadrados como valores mobiliários. Na prática, utiliza-se frequentemente veículos intermediários, como Sociedades de Propósito Específico ou Fundos de Investimento Imobiliário, para a emissão de cotas tokenizadas.

Os benefícios estratégicos da tokenização incluem a ampliação da base de investidores, permitindo a participação de pequenos agentes em ativos de alto valor, e a modernização da gestão patrimonial por meio do uso de contratos inteligentes. Tais contratos são autoexecutáveis e programados para agir conforme condições preestabelecidas, como a distribuição automática de rendimentos de aluguel. No entanto, a implementação enfrenta obstáculos significativos, como a necessidade de integração com o sistema registral imobiliário e a complexidade da segurança da informação. A documentação do ativo deve estar impecável, com matrícula atualizada e ausência de ônus, sob pena de inviabilizar a emissão dos tokens. A blockchain deve ser compreendida como uma camada de suporte tecnológico e não como substituta do registro eletrônico oficial, que é o único capaz de garantir validade perante terceiros.

A comparação entre a gestão patrimonial tradicional e a gestão tokenizada evidencia que, enquanto o modelo convencional possui liquidez baixa e processos lentos de venda, o modelo tokenizado oferece alta liquidez e possibilidade de negociação em mercado secundário. A transparência no modelo tradicional é limitada e as informações são dispersas, ao passo que a tokenização proporciona registros públicos e auditáveis em blockchain. Os custos operacionais tendem a ser reduzidos no modelo inovador devido à automação via contratos inteligentes e à redução de intermediários. O papel do gerente de projetos no modelo tradicional costuma ter foco operacional e técnico com escopo limitado, enquanto na tokenização ele assume um papel estratégico, integrador e inovador, com alto grau de transversalidade.

A análise dos dados coletados aponta que a consolidação da tokenização no Brasil exigirá ajustes legislativos e uma integração profunda ao sistema registral para garantir segurança jurídica. A tendência é que o mercado imobiliário seja progressivamente transformado por soluções digitais, cabendo às instituições financeiras a adequação a esse cenário para manter a competitividade. A gestão de projetos robusta é capaz de sincronizar as atividades jurídicas e financeiras, mitigando riscos e assegurando a entrega de um ativo digital seguro. A educação do investidor e do mercado também é um fator crítico para superar barreiras culturais e aumentar a confiança na tecnologia. O sucesso do modelo depende do alinhamento regulatório contínuo com as normas das Corregedorias e demais órgãos reguladores, além da adoção de uma governança sólida desde a concepção do projeto.

O roteiro de boas práticas desenvolvido a partir da pesquisa sugere que o projeto de tokenização deve seguir etapas rigorosas, iniciando pela regularização jurídica do imóvel e definição da estrutura societária alinhada à regulamentação da Comissão de Valores Mobiliários. O desenvolvimento da plataforma tecnológica deve prever a integração com blockchain e o planejamento de marketing deve assegurar o cumprimento das normas de divulgação. A emissão e distribuição dos tokens devem ser acompanhadas por auditorias jurídicas e tecnológicas constantes. A atuação estruturada do gerente de projetos permite que a inovação seja implantada sem comprometer a confiabilidade do processo, mantendo as instituições em posição de vanguarda no mercado. A gestão de riscos deve abranger análises qualitativas e quantitativas para a definição de respostas preventivas a ameaças regulatórias e tecnológicas.

Conclui-se que o objetivo foi atingido ao evidenciar que o gerente de projetos exerce um papel determinante como articulador de equipes multidisciplinares na implementação da tokenização de ativos imobiliários. A pesquisa demonstrou que a integração entre as áreas jurídica, tecnológica e financeira, sob uma liderança com visão sistêmica, é o fator crítico para superar a ausência de regulamentação específica e as barreiras culturais do mercado. A adoção de metodologias híbridas permite equilibrar o rigor necessário em ambientes regulados com a agilidade exigida pela inovação tecnológica. A tokenização apresenta-se não apenas como uma ferramenta de ampliação de liquidez e democratização do acesso a investimentos, mas como um vetor de transformação digital que demanda competências estratégicas de governança e gestão de riscos. O fortalecimento do diálogo entre órgãos reguladores e o investimento em capacitação profissional e infraestrutura tecnológica interoperável são recomendações fundamentais para que a tokenização se torne uma prática consolidada e segura no setor imobiliário e bancário brasileiro.

Referências Bibliográficas:

CVM – COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS. Ofício Circular CVM/SSE 11/2022: trata da tokenização como valor mobiliário. Rio de Janeiro: CVM, 2022.

DUTRA, René Gomes. Gestão patrimonial: ativo imobilizado como foco principal. São Paulo: Freitas Bastos, 2023.

HIGHSMITH, Jim. Agile project management: creating innovative products. Boston: Addison-Wesley, 2010.

KERZNER, Harold. Gestão de projetos: as melhores práticas. Porto Alegre: Bookman, 2021.

PMI – PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. A guide to the project management body of knowledge (PMBOK guide). 7. ed. Newtown Square: PMI, 2021.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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