Resumo Executivo

04 de maio de 2026

Gestão de Portfólio na Expansão de Padaria Artesanal em São Paulo

Lilian Aguiar Giuntini; Maria do Carmo Assis Todorov

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

O pão representa um alimento fundamental na trajetória da humanidade há mais de seis mil anos, com registros históricos que remontam à civilização egípcia, período em que a técnica de fermentação do trigo conferiu ao produto um valor simbólico e cultural profundo, associando-o a esferas de poder e sofisticação social. No território brasileiro, a introdução do pão ocorreu por intermédio dos colonizadores portugueses durante o século XVI, enfrentando desafios iniciais significativos devido ao fato de o trigo não ser uma cultura nativa. As condições climáticas e de solo exigiram adaptações produtivas e geraram uma dependência histórica de importações, consolidando o cultivo principalmente nas regiões de clima mais ameno no Sul do país. Conforme aponta a literatura especializada, a evolução das padarias no Brasil reflete as transformações urbanas e sociais, especialmente a partir do século XIX, quando o pão se tornou um símbolo de modernidade nas metrópoles em crescimento (Lana, 2023; Almeida Neto, 2017).

Atualmente, o mercado de panificação brasileiro demonstra uma robustez expressiva, movimentando aproximadamente seis milhões de toneladas de produtos anualmente, o que resulta em um consumo médio per capita de 22,6 kg (Abip, 2021; Sinditrigo, 2021). No contexto específico da cidade de São Paulo, a densidade desse setor é notável, com a existência de cerca de 18.324 estabelecimentos vinculados à panificação e confeitaria, englobando desde grandes operações até microempreendedores. Entretanto, a formalização ainda representa um desafio, visto que apenas 5.200 desses locais possuem registro formal (Folha de SP, 2025). Observa-se, concomitantemente, uma transformação qualitativa no comportamento do consumidor paulistano, que passa a priorizar produtos com apelo à saudabilidade e processos produtivos artesanais. O crescimento do segmento de fermentação natural, ou sourdough, é impulsionado pelo reconhecimento de propriedades nutricionais superiores e melhor digestibilidade em comparação aos métodos industriais (Gobbetti et al., 2015; Pétel et al., 2017).

Estudos contemporâneos reforçam que a maioria dos consumidores identifica os pães artesanais como opções mais saborosas e benéficas à saúde, embora a disponibilidade desses produtos no mercado ainda encontre barreiras de distribuição (Souza et al., 2025; Melo, 2018). Este cenário de demanda latente e valorização do frescor indica um potencial elevado para a expansão de negócios que operam no nicho artesanal, especialmente em centros urbanos caracterizados por alta competitividade e público com poder aquisitivo relevante. A transição de um modelo de produção caseira ou de pequena escala para uma operação comercial estruturada exige, contudo, um rigoroso planejamento estratégico para mitigar os riscos inerentes ao setor de alimentos e bebidas.

A relevância das micro e pequenas empresas para a economia nacional é inquestionável, mas a carência de gestão eficiente permanece como um dos principais fatores para o encerramento precoce de atividades nessas organizações (Sobral et al., 2022). Nesse sentido, o gerenciamento de portfólio de projetos apresenta-se como uma ferramenta estratégica vital, permitindo que a organização identifique, selecione e priorize iniciativas que maximizem o valor entregue ao cliente e garantam a sustentabilidade financeira. A administração adequada de recursos humanos, produtivos e financeiros torna-se o alicerce para a continuidade do negócio, oferecendo segurança operacional diante das incertezas do mercado. O portfólio de projetos atua como o elo entre as decisões estratégicas da alta gestão e as operações cotidianas, assegurando que cada investimento de tempo e capital esteja estritamente alinhado à missão organizacional (Project Builder, 2020).

O objetivo central desta análise consiste em propor estratégias fundamentadas de gestão de portfólio e de recursos para fortalecer a identidade de marca e ampliar o faturamento de uma unidade produtiva artesanal, denominada Padaria X, visando a viabilização de um novo ponto de venda físico na capital paulista. Para tanto, busca-se identificar iniciativas de crescimento que guardem sinergia com a proposta de valor da empresa e avaliar minuciosamente a capacidade instalada e as necessidades de recursos materiais e humanos. A integração entre a análise de tendências de consumo e práticas estruturadas de gestão visa fornecer um roteiro sólido para a tomada de decisão, contribuindo para a competitividade em um setor em constante evolução.

A abordagem metodológica adotada caracteriza-se como aplicada e qualitativa, sustentando-se nos princípios de gestão de projetos preconizados internacionalmente (PMI, 2021). A escolha desta estrutura justifica-se pela necessidade premente de transpor conceitos teóricos de gerenciamento de portfólio e recursos para a realidade prática de uma empresa em fase de expansão. O objeto de estudo, a Padaria X, iniciou suas operações no ano de 2020 em São Paulo, especializando-se em panificação de fermentação natural. O modelo de negócio inicial baseou-se na comercialização em feiras semanais situadas em condomínios residenciais de alto padrão e em um sistema de entregas programadas às sextas-feiras. Desde a fundação, a empresa registrou um crescimento constante em seu faturamento, o que motivou a investigação sobre a viabilidade de uma loja física para consolidar sua presença no mercado.

Para a investigação do gerenciamento de portfólio, realizou-se uma pesquisa de campo abrangente, envolvendo a aplicação de questionários presenciais com clientes durante 20 eventos em feiras de condomínios. Esta coleta de dados ocorreu ao longo de duas semanas e alcançou uma amostra de 220 participantes, permitindo mapear preferências de consumo, demandas por novos itens e a percepção geral sobre a qualidade da marca. O detalhamento desta etapa foi crucial para fornecer subsídios quantitativos e qualitativos que orientaram a priorização das iniciativas estratégicas. Além da pesquisa com clientes, foram conduzidas entrevistas semiestruturadas com o gestor e os colaboradores da unidade produtiva ao longo de 14 dias, focando na identificação de gargalos operacionais e competências internas.

O processo operacional de gerenciamento de portfólio envolveu a seleção e o alinhamento de projetos como a expansão do canal de vendas, a ampliação do mix de produtos — com foco em confeitaria fina —, o aumento da capacidade produtiva por meio de novos equipamentos e o investimento em branding digital. Cada uma dessas iniciativas passou por uma avaliação rigorosa baseada em critérios de valor agregado, risco operacional, retorno financeiro estimado e aderência aos valores da empresa. Utilizou-se uma matriz de decisão multicritério para hierarquizar as ações, garantindo que os projetos com maior potencial de sinergia estratégica recebessem prioridade na alocação de capital e esforço da equipe.

No âmbito do gerenciamento de recursos, o detalhamento focou no dimensionamento e na otimização dos ativos humanos, materiais e financeiros. O mapeamento de competências permitiu identificar que, embora a equipe possua alta capacidade técnica, a sobrecarga em períodos de pico compromete a eficiência global. A metodologia incluiu a projeção de necessidades futuras de contratação, o planejamento de insumos e a infraestrutura necessária para a nova unidade, além da elaboração de um orçamento detalhado com mecanismos de controle de custos. Considerou-se a capacidade produtiva atual frente aos horários de pico de demanda e a necessidade de parcerias estratégicas para o fornecimento de matérias-primas de alta qualidade, como farinhas especiais e manteigas artesanais.

A integração de instrumentos como planilhas de avaliação de portfólio, análise de dados secundários sobre a concorrência e um cronograma físico-financeiro permitiu uma visão holística do cenário de expansão. A análise do mercado de alimentos frescos em São Paulo indicou que a conveniência aliada à qualidade é o principal driver de compra (Nielseniq e Foodbiz Brazil, 2025). Assim, a metodologia aplicada buscou garantir que as práticas de gestão fossem implementadas de maneira estruturada, fornecendo subsídios concretos para a transição do modelo de negócio e para o fortalecimento da marca no competitivo cenário da panificação artesanal paulistana.

Os resultados obtidos revelam que a análise de portfólio identificou seis iniciativas estratégicas fundamentais para o crescimento da organização. A priorização máxima foi atribuída à aquisição de um gerador de energia. Esta decisão fundamenta-se na necessidade crítica de neutralizar as interrupções no fornecimento elétrico, que historicamente resultam em perdas de estoque de massas em fermentação e comprometem o cronograma de produção. Em um processo de fermentação natural, a estabilidade térmica é essencial, e a ausência de energia por períodos prolongados pode invalidar lotes inteiros de produção, impactando diretamente o faturamento e a confiança do cliente.

A segunda iniciativa priorizada foi a implementação de um sistema de autoatendimento e pagamento, do tipo pick and pay, para as operações em feiras. Este projeto visa mitigar a perda de vendas em situações de ausência ocasional do vendedor e otimizar o fluxo de atendimento em momentos de alta concentração de público. O sistema permite que o consumidor selecione os produtos embalados, registre a compra em uma interface digital e realize o pagamento de forma autônoma. A justificativa para esta ação reside na melhoria da experiência do usuário e no controle rigoroso das vendas, evitando discrepâncias de inventário.

A abertura da loja física, embora classificada como uma iniciativa de alto impacto, foi posicionada como um projeto que exige planejamento cauteloso devido à sua complexidade financeira e operacional. Os dados coletados indicam que 86% dos clientes preferem realizar compras de forma presencial, e a estimativa é que a unidade física possa ampliar a receita mensal em uma faixa entre 40% e 60%. Contudo, o cronograma físico-financeiro aponta que a loja levará cerca de quatro meses para atingir a plena operacionalidade, exigindo uma gestão de fluxo de caixa rigorosa durante o período de implantação.

O lançamento de novos produtos, especificamente na área de confeitaria e massas de pizza de fermentação natural, também recebeu alta prioridade. Esta demanda foi identificada diretamente na pesquisa com os 220 participantes, onde 36% manifestaram interesse em bases de pizza e 28% em tortas e doces folhados. A diversificação do portfólio permite aumentar o ticket médio das vendas e fidelizar o cliente que busca uma solução completa de panificação em um único local. Complementarmente, o fortalecimento da marca digital foi identificado como uma ação de baixo custo e alto impacto para a expansão da base de clientes e manutenção do relacionamento pós-venda.

Quanto ao levantamento de recursos, a estrutura atual da equipe conta com três profissionais: um mestre padeiro, um auxiliar de produção e um responsável pela logística de entregas e atendimento. A análise de capacidade demonstrou que a operação de uma loja física com atendimento de segunda-feira a sábado exigirá a contratação de pelo menos um segundo mestre padeiro, um atendente de balcão e um auxiliar de produção adicional. A necessidade de treinamento em boas práticas de manipulação de alimentos e excelência no atendimento ao cliente foi destacada como um requisito essencial para manter o padrão de qualidade percebido pela clientela atual.

No que tange aos recursos materiais, a expansão demanda a aquisição de dois novos fornos de lastro, um freezer de alta capacidade e balcões refrigerados para a exposição de produtos de confeitaria. A identificação de pontos comerciais em bairros com alto potencial de consumo é uma etapa crítica que deve considerar não apenas o fluxo de pedestres, mas também a infraestrutura elétrica e hidráulica disponível. O investimento inicial estimado para a instalação e os primeiros seis meses de operação da loja física situa-se entre R$ 242 mil e R$ 280 mil. Este cálculo abrange custos de aluguel, adequação de espaço, salários, encargos e despesas fixas, assumindo um cenário de imóvel entregue sem revestimentos ou instalações completas.

As observações qualitativas reforçam a viabilidade da expansão. O nível de fidelização é expressivo, com 72% dos clientes afirmando que aguardam especificamente o dia da semana em que a padaria está presente na feira para realizar suas compras. Além disso, 81% dos entrevistados classificam a qualidade dos produtos como alta, destacando o sabor e a digestibilidade como diferenciais competitivos. A demanda latente por um ponto físico é confirmada por 55% dos clientes, que indicaram alta probabilidade de consumir produtos em uma loja própria da marca. Estes dados sugerem que a marca possui uma base sólida de defensores, o que reduz o risco de mercado associado à abertura do novo ponto de venda.

A discussão dos resultados permite inferir que a expansão deve ser conduzida de forma gradual, priorizando inicialmente as soluções que resolvam gargalos operacionais na estrutura atual. A aquisição do gerador e a implementação do sistema de pagamento autônomo funcionam como etapas de estabilização operacional. Somente após a consolidação destes processos e o reforço da presença digital, a organização estará apta a absorver a complexidade de uma loja física. A gestão eficiente de recursos humanos surge como o desafio mais sensível, dado que a qualidade do produto artesanal depende intrinsecamente da habilidade técnica da equipe. Portanto, a retenção de talentos e o treinamento contínuo devem ser tratados como investimentos estratégicos.

A integração entre o gerenciamento de portfólio e de recursos oferece um roteiro claro para a Padaria X. A aplicação das ferramentas do PMI (2021) demonstrou ser eficaz mesmo em um contexto de pequena empresa, permitindo uma visão baseada em dados que substitui o empirismo na tomada de decisão. A análise detalhada dos custos e prazos, aliada à percepção do cliente, minimiza as incertezas financeiras e posiciona a empresa de forma competitiva no mercado de panificação artesanal de São Paulo. O reconhecimento das limitações operacionais atuais é o primeiro passo para um crescimento sustentável que não comprometa a qualidade que define a marca.

Conclui-se que o objetivo foi atingido ao propor estratégias estruturadas de gestão de portfólio e recursos que fundamentam a expansão da Padaria X. A hierarquização das iniciativas permitiu identificar que investimentos em infraestrutura básica e tecnologia de vendas devem preceder a abertura da loja física para garantir a estabilidade do negócio. O levantamento detalhado de recursos evidenciou a necessidade de ampliação da equipe e de um aporte financeiro significativo, estimado entre R$ 242 mil e R$ 280 mil, para viabilizar o novo ponto de venda. A alta fidelização dos clientes e a demanda por novos produtos confirmam o potencial de mercado e a força da marca no segmento de fermentação natural. O estudo demonstra que a aplicação de metodologias rigorosas de gestão de projetos é essencial para transformar uma operação artesanal em um negócio escalável e sustentável, sugerindo-se que pesquisas futuras aprofundem a análise de cenários financeiros e a viabilidade de expansão para outras regiões da capital paulista.

Referências Bibliográficas:

Almeida Neto, Augusto Cezar. 2017. Evolução das Padarias no Brasil. Max Foods Comunicação Empresarial. A História da Panificação Brasileira – Fantástica História do Pão Editora. São Paulo, SP, Brasil.

Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (ABIP). 2021. Panificação brasileira em números. São Paulo: Abip, 2021. Disponível em: https://www.abip.org.br. Acesso em: 26 jun. 2025

Folha de SP. 2025. Fã de padarias, paulistano pode comprar pães de 18,3 estabelecimentos. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2025/01/fa-de-padarias-paulistano-pode-comprar-pao-de-183-mil-estabelecimentos.shtml. Acesso em: 28 jun. 2025.

Gobbetti, M., De Angelis, M., Di Cagno, R., Calasso, M., Archetti, G., Rizzello, C.G. 2015. Novel insights on the functional/nutritional features of the sourdough fermentation. International Journal of Food Microbiology, 213, 103–113.

Lana, Ana Lucia Duarte. 2023. Comer o pão, viver a cidade. Publicado por Alameda Casa. ISBN 978-65-5966-184-8 (recurso eletrônico).

Melo, B.C., et al. 2018. Desenvolvimento de pão de fermentação natural com alegações funcionais e avaliação de suas características físico-químicas. Revista Brasileira de Tecnologia Agroindustrial, 12(2), 2567–2583.

Nielseniq e Foodbiz Brazil. 2025.Tendências de consumo de alimentos frescos no Brasil. São Paulo: NielsenIQ; Foodbiz Brazil, 2025. Disponível em: https://www.foodbizbrasil.com.br. Acesso em: 27 jul. 2025.

Project Builder. 2020. Guia completo do gerenciamento de portfólio. São Paulo: Project Builder. Disponível em: https://www.projectbuilder.com.br/Downloads/ebook-gratuito-guia-completo-do-gerenciamento-de-portfolio.pdf. Acesso em: 26 set. 2025.

Project Management Institute [PMI]. 2021. Um guia do conhecimento em gerenciamento de projetos. 7ed. Project Management Institute, Newtown Square, PA, EUA.

Pétel et al. 2017. Sourdough volatile compounds and their contribution to bread: A review – ScienceDirect. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0924224416302758. Acesso em: 24 set. 2025.

Sindicato da Indústria do Trigo no Estado de São Paulo (Sinditrigo). 2021. Consumo de pão no Brasil. São Paulo: Sinditrigo, 2021. Disponível em: https://www.sinditrigo.com.br. Acesso em: 26 jun. 2025.

Sobral, A. V. S.; Santos, E. B. P.; Lima, F. G. 2022. Gestão de micro e pequenas empresas: uma revisão bibliográfica. Centro Universitário Brasileiro – Unibra.

Souza, L. L. G. F., dos Santos Filho, M. T. C., de Oliveira, J. P. L., Rodrigues, J. F. 2025. Sourdough bread: Consumer perceptions and attitudes. Research, Society and Development, 14(5), e8614548867-e8614548867.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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