Imagem Desempenho financeiro de siderúrgicas listadas na B3: pandemia e transição pós-pandemia

26 de fevereiro de 2026

Desempenho financeiro de siderúrgicas listadas na B3: pandemia e transição pós-pandemia

João Victor de Barros Penteado Furlan; Carlos Alberto dos Santos Silva

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este trabalho analisou o desempenho de indicadores financeiros de três das principais siderúrgicas brasileiras de capital aberto (Empresa X, Y e Z) entre 2020 e 2024, período que abrange a pandemia e a transição pós-pandemia. A pesquisa buscou compreender como essas companhias, intensivas em capital e sensíveis a ciclos econômicos, navegaram por um período de instabilidade marcado pela retração inicial da atividade e pela subsequente valorização das commodities, que reconfigurou o cenário de preços e rentabilidade.

O setor siderúrgico é um pilar da indústria nacional, caracterizado por grandes empresas verticalizadas que atuam desde a transformação do minério de ferro até produtos acabados (CGEE, 2010). Trata-se de um ramo intensivo em capital, com elevadas barreiras à entrada e longos períodos de maturação de investimentos (Viana, 2023). Seus produtos são bens intermediários para setores como construção civil e automobilístico, tornando seu desempenho um termômetro da economia e altamente sensível a flutuações na atividade econômica, investimentos e câmbio (CADE, 2022). A ciclicidade é uma marca do setor, que amplifica os movimentos de crescimento ou recessão da economia (Damodaran, 2012).

A pandemia de Covid-19, declarada em março de 2020 (OMS, 2020), provocou uma retração da atividade econômica e desorganizou as cadeias de suprimento globais (BCB, 2020). No Brasil, o PIB caiu 3,3% em 2020, com a indústria recuando 3,0% (IBGE, 2022). O setor siderúrgico sentiu o impacto inicial, com redução de 3,5% na produção de aço bruto e de 8% no número de colaboradores no mesmo ano (Instituto Aço Brasil, 2024). Este cenário adverso, contudo, foi rapidamente transformado.

Contrariando as expectativas, o período 2020-2021 foi marcado por uma expressiva valorização das commodities. A recuperação econômica da China, impulsionada por estímulos fiscais, gerou uma assimetria entre oferta e demanda global, enquanto rupturas nas cadeias de suprimento pressionaram os preços do minério de ferro e do aço (Arezki & Matsumoto, 2018). Essa tendência, aliada à desvalorização cambial, permitiu que as empresas reajustassem preços e recompusessem margens (Viana, 2021). O resultado foi um crescimento de 14,8% na produção brasileira de aço bruto em 2021, evidenciando uma recuperação robusta (Instituto Aço Brasil, 2022).

A transição pós-pandêmica trouxe novos desafios: normalização das cadeias de suprimento, desaceleração da economia chinesa, aumento das taxas de juros globais e, mais recentemente, a sobreoferta de aço chinês no mercado internacional, que pressionaram os preços para baixo. Essa conjuntura exigiu das empresas uma readequação de suas estratégias financeiras, tornando a análise comparativa de seu desempenho pertinente para investidores e gestores.

A pesquisa é descritiva, pois descreve e analisa a performance financeira das companhias com base em seus dados contábeis (Gil, 2025). Adotou-se um estudo de métodos mistos com abordagem sequencial explanatória, priorizando a análise quantitativa e usando a qualitativa de forma complementar (Creswell & Creswell, 2021). O delineamento é um estudo de casos múltiplos, analisando as três empresas selecionadas (Empresa X, Y e Z) para produzir evidências mais robustas e permitir uma análise comparativa (Yin, 2015). A coleta de dados foi documental, a partir de demonstrações contábeis, relatórios anuais e informações de proventos. O período de análise (2020-2024) foi segmentado em “período pandêmico” (2020-2022) e “transição pós-pandemia” (2023-2024), tendo como marcos as declarações da OMS (2020; 2023).

As empresas selecionadas (X, Y e Z) representam, em conjunto, 37,4% da produção de aço bruto no Brasil em 2024, garantindo a representatividade da amostra (Instituto Aço Brasil, 2025). Para uma avaliação abrangente, foram definidos seis indicadores financeiros (Assaf Neto, 2014): margem EBITDA para eficiência operacional (Costa & Lund, 2018); liquidez corrente para capacidade de pagamento de curto prazo (Ross et al., 2022); Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) para rentabilidade do capital dos acionistas (Gitman, 2010); relação dívida líquida/EBITDA para risco financeiro (Albanez & Schiozer, 2020); Necessidade de Capital de Giro (NCG) para gestão do ciclo financeiro (Fleuriet & Zeidan, 2015); e o payout distribuído para examinar a política de distribuição de recursos aos acionistas (Galvão et al., 2018).

A metodologia de cálculo seguiu as definições teóricas. A margem EBITDA foi calculada como EBITDA/Receita Líquida. A liquidez corrente foi obtida por Ativo Circulante/Passivo Circulante. O ROE foi determinado pela razão Lucro Líquido/Patrimônio Líquido. A relação dívida líquida/EBITDA foi calculada dividindo-se a dívida financeira líquida pelo EBITDA. A NCG foi apurada pela diferença entre ativos cíclicos e passivos cíclicos. O payout distribuído foi calculado como (dividendos + JSCP)/Lucro Líquido. Todos os dados foram extraídos das fontes documentais mencionadas.

A análise da eficiência operacional, medida pela margem EBITDA, revelou uma trajetória similar entre as empresas. O ano de 2021 foi o pico de desempenho, impulsionado pelo aumento no volume de vendas e por um ambiente de preços favorável (Viana, 2022). A Empresa X apresentou a maior margem em 2021 (47,3%), seguida pela Z (37,0%) e Y (30,2%). A partir de 2022, iniciou-se um declínio, acentuado na transição pós-pandemia. A deterioração foi causada pela pressão de custos, queda nos preços do aço, desaceleração global e, em 2024, pela importação de aço chinês (Viana, 2025). Em 2024, todas registraram suas menores margens, com a Empresa Z apresentando o desempenho mais fraco (6,7%).

A rentabilidade, avaliada pelo ROE, seguiu padrão semelhante, com pico em 2021 e queda consistente. Em 2021, a Empresa X atingiu um ROE de 58,2%, a Z de 41,3% e a Y de 36,3%. A queda subsequente foi drástica. A Empresa X viu seu ROE despencar para 9,9% em 2022 e tornar-se negativo (-10,0%) em 2024, indicando destruição de valor para o acionista devido a prejuízo líquido. A Empresa Z também sofreu queda acentuada, com seu ROE chegando a 0,01% em 2024, impactado por perdas cambiais. A Empresa Y, embora em declínio, demonstrou maior resiliência, mantendo-se a mais rentável a partir de 2022 e encerrando 2024 com ROE positivo de 7,9%. A sensibilidade do lucro líquido a preços, custos e câmbio explica a maior volatilidade do ROE (Dornbusch et al., 2013).

A análise do endividamento (dívida líquida/EBITDA) também teve 2021 como melhor ano. A forte geração de caixa permitiu que todas as empresas reduzissem sua alavancagem. A Empresa Z registrou índice negativo (-0,06), indicando posição de caixa líquido, e a Y atingiu um nível baixo (0,31). A partir de 2022, os caminhos se divergiram. Enquanto Y e Z mantiveram o endividamento controlado, a Empresa X apresentou deterioração contínua, com o indicador subindo de 0,74 em 2021 para 4,48 em 2024, sugerindo maior vulnerabilidade e risco financeiro.

Em contrapartida, a liquidez corrente demonstrou estabilidade e melhoria ao longo do período. As três empresas mantiveram o indicador consistentemente acima de 1,0, sinalizando capacidade de honrar obrigações de curto prazo (Assaf Neto, 2020). A Empresa Z se destacou com os maiores índices, atingindo pico de 3,78 em 2022. A Empresa Y apresentou melhoria contínua, alcançando 3,01 em 2024. A Empresa X, embora com índices menores, mostrou recuperação em 2024. O desempenho sugere que as empresas preservaram uma posição de liquidez confortável. A análise de Santos et al. (2024) para 2019-2021 também destacou a robustez da liquidez no setor, e os presentes resultados estendem essa observação.

A gestão do capital de giro (NCG) revelou estratégias distintas. A Empresa X foi um caso favorável, registrando NCG negativa na maior parte do período, indicando que financiou seu ciclo operacional com recursos de terceiros, uma característica de um ciclo financeiro eficiente (Fleuriet et al., 2003). Em contraste, Y e Z apresentaram NCGs positivas e crescentes durante a pandemia, sinalizando maior necessidade de investimento próprio. Na transição pós-pandemia, a Empresa Z conseguiu reduzir sua NCG, enquanto a Y manteve uma alta necessidade de capital de giro.

A política de distribuição de recursos aos acionistas (payout) mostrou grande variabilidade. A Empresa Y demonstrou a política mais consistente, com payouts entre 30% e 53%. A Empresa Z foi a mais conservadora, com payouts baixos e não distribuindo proventos em 2024. A Empresa X apresentou a maior volatilidade. Após payouts moderados, o indicador saltou para 104% em 2022 e 883% em 2023, indicando distribuição muito superior ao lucro gerado. Em 2024, com prejuízo líquido, o payout tornou-se negativo, levantando preocupações sobre a sustentabilidade financeira.

Em síntese, a análise revela que 2021 foi um ano atípico para o setor, com desempenho excepcional em eficiência, rentabilidade e desalavancagem, impulsionado pelo cenário macroeconômico favorável às commodities. A partir de 2022, os resultados se deterioraram, refletindo novos desafios como queda de preços e concorrência. A Empresa Y demonstrou maior resiliência, mantendo rentabilidade positiva e endividamento controlado. A Empresa X, apesar da boa gestão de capital de giro, enfrentou desafios em rentabilidade e alavancagem. A Empresa Z teve desempenho misto, com alta liquidez e baixo endividamento, mas com margens e rentabilidade pressionadas no período recente.

O estudo contribui para a literatura ao fornecer uma análise comparativa do desempenho financeiro das principais siderúrgicas brasileiras durante um período de profundas transformações econômicas. A utilização de múltiplos indicadores revelou que, enquanto alguns aspectos do desempenho se deterioraram, outros, como a liquidez, permaneceram robustos. As diferentes trajetórias das empresas evidenciam que estratégias de gestão e estruturas operacionais individuais são cruciais na determinação dos resultados, mesmo sob as mesmas pressões macroeconômicas.

Conclui-se que o desempenho financeiro das siderúrgicas analisadas foi heterogêneo, com um período de forte expansão em 2021, seguido por uma fase de ajuste e deterioração em indicadores de eficiência e rentabilidade na transição pós-pandemia, ao passo que a liquidez se manteve em níveis saudáveis. As particularidades de cada empresa em termos de endividamento, gestão de capital de giro e política de dividendos resultaram em respostas distintas aos desafios impostos pelo cenário econômico. Para pesquisas futuras, sugere-se a ampliação do período de análise para incluir os anos pré-pandemia, permitindo uma comparação mais completa entre os diferentes ciclos econômicos e aprofundando a compreensão sobre a resiliência e a capacidade de adaptação do setor siderúrgico brasileiro. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que o desempenho financeiro das siderúrgicas analisadas apresentou uma melhora expressiva em 2021, seguida por uma deterioração em indicadores de eficiência e rentabilidade na transição pós-pandemia, enquanto a liquidez se manteve robusta.

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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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