Imagem Desafios da liderança na gestão da diversidade para inclusão de pessoas com deficiência

25 de fevereiro de 2026

Desafios da liderança na gestão da diversidade para inclusão de pessoas com deficiência

Dandara Duque Trindade; Ranyery Segui de Souza Lima

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Esta pesquisa analisou os desafios da liderança na gestão da diversidade, focando na inclusão de pessoas com deficiência (PCDs) na Empresa X, do setor de óleo e gás, para identificar as forças e fragilidades do processo. A investigação buscou compreender as percepções e o preparo dos gestores que atuam com colaboradores com deficiência, mapeando barreiras e facilitadores. A relevância do estudo ancora-se na necessidade de as corporações transcenderem o cumprimento de cotas, evoluindo para uma cultura inclusiva onde a diversidade é um ativo estratégico. Nesse contexto, a liderança é o vetor central para implementar políticas e modelar comportamentos que sustentam um ambiente de trabalho equitativo e psicologicamente seguro.

Diversidade, segundo Fleury (2000), é um conjunto de indivíduos com identidades distintas em um sistema social. Sua essência vai além de ações afirmativas, abrangendo dimensões como gênero, etnia, orientação sexual e deficiência (Milliken e Martins, 1996). A inclusão de PCDs no mercado de trabalho permanece um campo desafiador e comparativamente menos explorado (Mello e Nuernberg, 2012). A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência define este grupo por impedimentos de longo prazo que, em interação com barreiras sociais, podem obstruir sua participação plena. A terminologia “Pessoa com Deficiência” (PCD), consolidada nos anos 1990, é fundamental por enfatizar o indivíduo antes da deficiência.

Avanços legais como a Lei Brasileira de Inclusão não asseguram, por si sós, oportunidades efetivas, exigindo engajamento coletivo e mudança cultural (Ribeiro e Carneiro, 2009). Dados do IBGE (2020) mostram que, em 2019, apenas 28,3% das pessoas com deficiência em idade ativa estavam no mercado de trabalho, com salários inferiores aos de profissionais sem deficiência. Este cenário sublinha a importância da gestão da diversidade como prática estratégica de Recursos Humanos. Organizações que não integram minorias em posições de destaque, incluindo a liderança, arriscam estagnação e perda de capacidade de inovação (Kanter, 1977). Práticas de RH, do recrutamento inclusivo à sensibilização, são cruciais para fomentar um ambiente acolhedor (Maccali et al., 2015).

O setor de óleo e gás, com sua cultura conservadora e ambientes operacionais desafiadores, apresenta barreiras adicionais à inclusão. Justificativas sobre a inadaptabilidade de estruturas, como sondas marítimas, questionam o compromisso da indústria com a acessibilidade. Para que a mudança ocorra, práticas de inclusão robustas são imperativas, mas sua eficácia depende do engajamento da liderança. Programas de diversidade tendem a falhar quando os líderes não se envolvem ativamente na promoção da mudança cultural, dado seu poder de influência (Dobbin e Kalev, 2016).

Esta análise aprofunda a percepção da liderança da Empresa X sobre a inclusão de PCDs. Compreender as forças e fragilidades sob a ótica dos gestores diretos é essencial para aprimorar políticas e práticas. Ao examinar a preparação dos líderes, suas crenças sobre a motivação para a contratação, a eficácia dos treinamentos e a percepção sobre barreiras, a pesquisa oferece um diagnóstico detalhado para subsidiar ações mais assertivas.

A metodologia, baseada em Vergara (1998), classifica-se quanto aos fins como exploratória, descritiva e explicativa. É exploratória por investigar a inclusão de PCDs em um contexto inédito no setor de óleo e gás; descritiva por detalhar a percepção da liderança; e explicativa por buscar contextualizar os desafios correlacionando dados e teoria. Quanto aos meios, foi uma pesquisa bibliográfica e um estudo de caso focado na liderança da Empresa X em Macaé (RJ), que gerencia diretamente PCDs, permitindo uma análise aprofundada da realidade organizacional.

A população-alvo foram os líderes da Empresa X que gerenciam ou gerenciaram PCDs. Utilizou-se amostragem não probabilística por conveniência, com uma amostra final de 8 respondentes, representando mais de 50% do universo de líderes de PCDs na empresa. Os dados foram coletados via questionário online (Google Forms) com perguntas abertas e fechadas, além da técnica de evocação livre sobre o termo “inclusão de pessoa com deficiência”. A análise foi quali-quantitativa: os dados fechados foram analisados com estatísticas da plataforma, e os abertos, por meio de Análise de Conteúdo. Os dados da evocação livre foram processados para análise das representações sociais, com cálculo de frequência e ordem média de evocação, distribuídos em um diagrama de quatro quadrantes.

A amostra de 8 líderes era majoritariamente feminina (62,5%), com faixa etária predominante de 36 a 45 anos (50%). Metade (50%) possui pós-graduação ou MBA. Hierarquicamente, 62,5% são analistas com função de liderança e 37,5% são gerentes. A senioridade é alta, com 62,5% tendo mais de 5 anos de empresa. Em raça/cor, 62,5% se autodeclararam brancos. Crucialmente, 100% dos participantes já lideraram uma pessoa com deficiência, validando suas percepções.

A técnica de evocação livre, com 25 palavras, revelou as representações sociais dos líderes sobre a inclusão de PCDs, agrupadas em quatro categorias: “Valores Humanos e Éticos”, “Direitos e Justiça Social”, “Ações e Práticas Inclusivas” e “Espiritualidade e Humanidade”. A análise do diagrama de quatro quadrantes mostrou que “Valores Humanos e Éticos” (respeito, empatia) constitui o núcleo central da representação, sendo a mais frequente e prontamente evocada. Isso sugere que a inclusão é vista primariamente como uma questão de atitude ética. “Direitos e Justiça Social” aparece como elemento periférico, e “Ações e Práticas Inclusivas” como elemento de contraste, indicando a relevância de ações concretas.

Um achado significativo é o sentimento de preparo da liderança: apenas 36,5% se sentem plenamente preparados para liderar equipes com PCDs, enquanto 62,2% se sentem preparados “em partes”. O dado expõe uma lacuna entre o discurso organizacional e a capacitação efetiva, corroborando Lopes e Pereira (2019) sobre a persistência de barreiras. Essa insegurança pode comprometer a gestão e o desenvolvimento dos colaboradores, sinalizando a necessidade de aprimorar os programas de desenvolvimento de liderança com foco em competências inclusivas.

A percepção sobre ações afirmativas é crítica: 87,5% dos líderes acreditam que, sem a obrigatoriedade da Lei de Cotas, a empresa não contrataria pessoas com deficiência. Isso sugere que a inclusão é percebida mais como conformidade legal do que como valor intrínseco à cultura. Essa dependência de mecanismos legais, embora essenciais, evidencia que a cultura de inclusão não está consolidada, reforçando que a dimensão jurídica isolada é insuficiente para garantir a inclusão efetiva (Ribeiro e Carneiro, 2009).

Apesar dos desafios, a pesquisa identificou pontos positivos. A maioria dos líderes (62,5%) participou de comitês de inclusão, relatando experiências transformadoras que “abriram a mente para enxergar melhor a diversidade” e aumentaram a “consciência sobre o capacitismo”. Tais espaços de diálogo são fundamentais para a construção de uma cultura inclusiva (Bento, 2005). Adicionalmente, 75% dos líderes participaram de treinamentos sobre o tema. Contudo, a eficácia destes recebeu avaliações mistas: alguns os consideraram “muito relevantes e aplicáveis”, enquanto outros apontaram um foco excessivamente teórico (“não auxilia nos desafios do dia a dia”) ou a ausência de abordagem sobre aspectos psicológicos. Isso reforça a necessidade de programas que combinem teoria e prática, abordando dimensões psicossociais (Ferreira e Almeida, 2012).

A percepção sobre a cultura organizacional apresentou nuances. Embora 75% dos líderes acreditem que a cultura da empresa valoriza a diversidade, 62,5% afirmam que limitações estruturais ou de recursos podem comprometer o desempenho de PCDs. Essa contradição sugere que, apesar do discurso favorável, a materialização de um ambiente totalmente acessível ainda é um desafio. Os líderes reconhecem práticas positivas como adequação de espaços e tecnologia assistiva, mas uma resposta destacou a importância de consultar diretamente os profissionais com deficiência para identificar barreiras, alinhando-se à perspectiva da escuta ativa (Camargo et al., 2017).

A pesquisa revelou que os líderes têm clara consciência dos benefícios de uma equipe diversa. As respostas foram unânimes em destacar que a diversidade promove “inovação e criatividade”, “diferentes pontos de vista”, “melhora a tomada de decisão” e cria um “ambiente mais empático”. Essa percepção está alinhada à literatura que aponta equipes heterogêneas como mais inovadoras e eficazes (Milliken e Martins, 1996; Fleury, 2000). O reconhecimento desses benefícios pela liderança é uma força fundamental, constituindo um pilar motivacional para o engajamento genuíno com a inclusão, para além da obrigação legal.

Em síntese, a Empresa X possui mecanismos formais para a inclusão de PCDs, como comitês e treinamentos, mas sua eficácia ainda não se traduz em pleno preparo da liderança. A percepção de que a inclusão é majoritariamente impulsionada por ações afirmativas, somada à identificação de barreiras estruturais, indica que a internalização de uma cultura genuinamente inclusiva está em curso. Por outro lado, a valorização explícita dos benefícios da diversidade e o impacto positivo dos comitês são forças significativas. A liderança demonstra um entendimento conceitual e ético da inclusão, pré-requisito para a transformação cultural.

Conclui-se que o objetivo foi atingido: analisou-se os desafios da liderança na gestão da diversidade com foco na inclusão de pessoas com deficiência, identificando as forças e fragilidades do processo na Empresa X. O estudo demonstrou que a organização apresenta um processo de inclusão com práticas formais eficientes, mas em construção quanto à consolidação cultural e à capacitação integral dos líderes. As principais fragilidades são a insegurança dos gestores, a percepção de uma inclusão reativa à legislação e a existência de barreiras físicas. As forças residem no reconhecimento dos benefícios da diversidade, no engajamento gerado por iniciativas participativas e no esforço contínuo da empresa em oferecer recursos de capacitação. A pesquisa contribui para a compreensão do tema no setor de óleo e gás e reforça a necessidade de um alinhamento mais robusto entre políticas, cultura e desenvolvimento de lideranças para que a gestão da diversidade seja verdadeiramente efetiva e transformadora.

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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Gestão de Pessoas do MBA USP/Esalq

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