Resumo Executivo

11 de maio de 2026

Assistência Técnica Rural: Desafios da Qualidade e do Crédito

Milton Luiz de Abreu Junior; João Ricardo Malheiros De Souza

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

O agronegócio brasileiro consolidou-se como um dos pilares fundamentais da economia nacional e das exportações, representando uma parcela significativa do Produto Interno Bruto. Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA, 2025) indicam que foram comercializados US$ 164,4 bilhões em produtos agropecuários, o que configura o segundo maior valor registrado desde o início da série histórica em 1997. Esse volume financeiro expressivo demonstra a resiliência do setor, que mesmo diante de oscilações de preços internacionais, manteve o protagonismo ao responder por 49% das exportações totais do país. A inserção internacional ampliada e a diversificação de destinos materializam a relevância estratégica da produção rural para a balança comercial. No entanto, a manutenção dessa competitividade exige níveis crescentes de eficiência, produtividade e sustentabilidade no uso racional de recursos financeiros, naturais e produtivos. Nesse contexto, a assistência técnica surge como um serviço especializado, contínuo e sistemático, voltado à orientação e ao apoio direto aos produtores rurais na aplicação prática de conhecimentos e tecnologias (MAPA, 2025).

Apesar da importância reconhecida, muitos produtores, especialmente os de pequeno e médio porte, enfrentam barreiras severas no acesso a serviços de assistência técnica adequados. A indisponibilidade de órgãos oficiais em determinadas regiões ou a impossibilidade financeira de contratar consultorias privadas resultam na exclusão de uma parcela relevante do setor produtivo das melhores práticas agropecuárias. Essa lacuna impede a adoção de tecnologias mais seguras e eficientes, além de dificultar a implementação de estratégias de mitigação contra mudanças climáticas. A resistência à adoção desses serviços muitas vezes decorre de desafios estruturais e perceptivos. Segundo Peixoto (2020), persistem deficiências graves na prestação de serviços de extensão rural no Brasil, o que compromete a eficácia das intervenções e a confiança dos produtores no suporte técnico oferecido. Estudos anteriores indicaram que apenas 32,7% dos estabelecimentos rurais utilizaram assistência técnica em períodos recentes, sendo que a maioria recorreu a serviços privados (Garagorry et al., 2002). O fato de 90% dos usuários manifestarem o desejo por serviços de melhor qualidade evidencia que o nível atual de atendimento está aquém das necessidades do campo.

A fundamentação teórica que sustenta a necessidade de assistência técnica qualificada baseia-se na premissa de que a modernização da agricultura depende da disseminação capilarizada de boas práticas. Castro (2015) reforça que esse suporte é fundamental para o desenvolvimento sustentável, contribuindo diretamente para a melhoria da renda e da produtividade. Quando a assistência técnica é integrada às decisões de investimento que utilizam capital de terceiros, ela assume um papel de mitigadora de riscos. A adoção de tecnologias intensivas e a integração de atividades produtivas elevam o volume de capital empregado e, consequentemente, o risco financeiro. Projetos estruturados e análises de viabilidade técnica permitem que o produtor mensure fatores críticos e retornos prováveis, garantindo tomadas de decisão com maior embasamento técnico e menor incerteza. Portanto, a conexão entre a demanda por suporte técnico e a oferta de profissionais qualificados é o ponto central para o fortalecimento do agronegócio nacional.

A metodologia aplicada para a compreensão dessa realidade baseou-se em um levantamento de campo do tipo survey, estruturado para coletar dados quantitativos e qualitativos de três públicos distintos e complementares. O primeiro grupo foi composto por produtores rurais, considerados os clientes potenciais do serviço. O segundo grupo envolveu jovens profissionais e estudantes de ciências agrárias, que representam a oferta potencial de mão de obra. O terceiro grupo integrou gestores de instituições financeiras, que atuam como demandantes e avaliadores da assistência técnica vinculada aos programas oficiais de crédito rural. A elaboração dos questionários seguiu as recomendações metodológicas de Gil (2008), visando colher elementos-chave para identificar percepções, lacunas e oportunidades em diferentes regiões do país. Os critérios de seleção priorizaram áreas com presença agropecuária consolidada ou em expansão, garantindo que os respondentes tivessem contato frequente com a dinâmica produtiva e financeira do setor.

Complementarmente ao levantamento estatístico, foram incorporadas observações diretas não estruturadas realizadas ao longo de seis anos de atuação profissional em instituições financeiras operadoras de crédito agropecuário. Essa vivência prática permitiu o acompanhamento de atividades de campo em estados como Mato Grosso, Espírito Santo e Pernambuco, proporcionando uma visão sistêmica sobre a interação entre produtores, técnicos e bancos. A aplicação da observação direta em contextos reais de atuação, conforme descrito por Lakatos e Marconi (2017), possibilitou a validação de hipóteses sobre a desconexão entre a formação acadêmica e as exigências do mercado de trabalho. A análise dos dados foi realizada por meio da tabulação das respostas e de uma análise comparativa entre os pontos de convergência e divergência dos públicos abordados, correlacionando os achados com a revisão bibliográfica sobre empreendedorismo jovem e extensão rural.

O detalhamento operacional da pesquisa envolveu a análise de uma amostra diversificada de produtores rurais, dos quais 85% afirmaram já ter contratado ou recebido assistência técnica de alguma forma. Esse dado reforça que o serviço está consolidado no rol de consumo do setor, embora sua eficácia seja questionada. A abrangência territorial da amostra incluiu estados como Pernambuco, Bahia, Mato Grosso e Espírito Santo, cobrindo atividades agrícolas, pecuárias e mistas. Na agricultura, o consumo de assistência técnica atingiu 100% dos entrevistados, enquanto na pecuária esse índice foi de 76%. A percepção dos produtores sobre a qualidade do serviço é majoritariamente positiva ou muito positiva, especialmente entre aqueles que possuem propriedades de 21 a 200 hectares e estão na faixa etária de 41 a 60 anos. Esse perfil de produtor tende a valorizar mais o suporte técnico devido à maior experiência acumulada e à dependência de apoio especializado para viabilizar investimentos de médio porte.

A distribuição fundiária observada na amostra reflete, em parte, a realidade nacional descrita por Oxfam Brasil (2019), onde propriedades de até 200 hectares representam a vasta maioria dos estabelecimentos rurais, embora ocupem uma parcela menor da área total em comparação aos grandes latifúndios. Para esses produtores, os benefícios mais valorizados na assistência técnica são o aumento da produtividade e a redução de custos operacionais. Questões como inovação tecnológica, melhor uso de insumos e gestão da propriedade também aparecem como elementos de alto valor percebido, pois influenciam diretamente a rentabilidade no curto prazo. A pressão constante sobre as margens de lucro das atividades agrícolas, conforme destacado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA, 2020), exige que o produtor aumente a eficiência produtiva e a escala de produção para compensar os baixos retornos por unidade produzida. Nesse cenário, a assistência técnica de qualidade deixa de ser um acessório e passa a ser uma necessidade vital para a sobrevivência econômica do empreendimento.

Entretanto, o levantamento identificou lacunas significativas na oferta do serviço. Cerca de 79% dos produtores participantes perceberam a necessidade de mais opções de assistência técnica nos municípios onde atuam. A carência não é apenas quantitativa, mas qualitativa: 46% dos respondentes apontaram a baixa capacitação dos profissionais como o principal problema enfrentado, seguido pelo custo elevado do serviço (31%) e pela falta de resultados visíveis (18%). É relevante notar que, embora o custo seja citado como um obstáculo, 92% dos produtores declararam disposição para pagar pelo serviço caso o retorno financeiro seja claramente percebido. Isso sugere que a insatisfação com o preço está mais ligada à incapacidade dos profissionais em materializar valor e resultados do que ao valor monetário em si. A percepção de que um trabalho bem executado pode melhorar os resultados é compartilhada por 95% da amostra, o que demonstra um mercado potencial vasto para empresas que entreguem excelência técnica.

A perspectiva dos profissionais de instituições financeiras corrobora os achados junto aos produtores. A pesquisa alcançou funcionários de bancos públicos federais (62%) e de cooperativas de crédito (38%), refletindo a representatividade dessas instituições na execução da política nacional de crédito rural. Segundo dados do Banco Central do Brasil (2025), os bancos públicos detêm 57% das contratações de crédito rural no país. A relação entre o financiamento e a assistência técnica é intrínseca, visto que 86% das propostas de crédito são acompanhadas por projetos técnicos habilitados. O Manual de Crédito Rural (Banco Central do Brasil, 2023) estabelece a obrigatoriedade do assessoramento técnico em diversas linhas de crédito oficiais, especialmente aquelas que contam com subsídios governamentais para equalização de taxas de juros. A qualificação desses projetos é, portanto, um fator determinante para a segurança das operações financeiras e para o sucesso dos investimentos no campo.

A qualidade técnica dos projetos apresentados aos bancos, contudo, apresenta margem considerável para melhorias. Apenas 47% dos gestores financeiros avaliam os projetos como de boa qualidade, enquanto 53% os classificam como regulares, ruins ou muito ruins. O problema mais grave identificado por esses profissionais é a falta de acompanhamento do projeto após a liberação do crédito. Esse é o momento mais crítico da atividade produtiva, no qual os riscos se materializam e os resultados planejados devem ser executados. A ausência do técnico nessa fase compromete a rentabilidade do produtor e aumenta o risco de inadimplência para a instituição financeira. Outros problemas recorrentes incluem inconsistências em preços e custos, falta de coerência técnica e inadequação às normas do crédito rural. Apesar dessas falhas, 83% dos gestores reconhecem que a assistência técnica agrega valor ao processo de concessão de crédito, e 46% afirmam que um serviço de qualidade reduz significativamente o risco da operação.

A análise sobre os jovens profissionais e estudantes de ciências agrárias revela um paradoxo. Embora 82% considerem a carreira em assistência técnica atrativa ou muito atrativa, 60% dos respondentes não possuem nenhuma experiência prática na área. A falta de conhecimento prático foi citada por 41% como o principal fator que dificulta o ingresso no setor, seguida pela dificuldade de empreender (38%) e pela percepção de baixa valorização pelo produtor (38%). Existe uma desconexão evidente entre a formação acadêmica e a realidade operacional do campo. Molina et al. (2009) já apontavam que a dificuldade de obter vivências práticas significativas durante a graduação limita a eficácia profissional futura e reduz o impacto dos programas de extensão rural. Para 73% dos estudantes, uma formação técnica mais voltada à prática seria essencial para o sucesso no segmento, enquanto 70% destacam a importância de apoios e iniciativas das instituições financeiras em capacitações.

A carência de profissionais qualificados é uma realidade percebida tanto por produtores quanto por gestores bancários em diversas regiões, especialmente nas menos desenvolvidas. Isso indica que há um mercado em expansão para jovens que estejam dispostos a superar as barreiras iniciais de experiência. A aproximação entre as instituições de ensino e os agentes financeiros pode ser um caminho promissor para preencher essa lacuna. Atividades que tornem as oportunidades de carreira mais visíveis e que ofereçam suporte ao empreendedorismo técnico podem atrair talentos para a área de consultoria. A assistência técnica atua como o elo entre a pesquisa científica e a aplicação prática no campo, sendo o motor da inovação “dentro da porteira”. Sem um corpo técnico preparado e presente, a disseminação de novas tecnologias e a consolidação de práticas sustentáveis tornam-se processos lentos e ineficientes, prejudicando a competitividade global do agronegócio brasileiro.

A discussão dos resultados aponta que o fortalecimento da assistência técnica depende de uma abordagem multifacetada. É necessário melhorar a percepção de valor do serviço perante o produtor, o que só ocorrerá mediante a entrega de resultados financeiros mensuráveis e acompanhamento constante. Por outro lado, as instituições financeiras desempenham um papel indutor ao exigir projetos de alta qualidade e ao fomentar a capacitação de seus parceiros técnicos. Para os novos profissionais, o desafio reside na busca por experiências práticas que complementem a base teórica universitária. A integração dessas frentes é o que garantirá que o crédito rural seja aplicado de forma eficiente, transformando recursos financeiros em produtividade real e sustentabilidade ambiental. A assistência técnica deve ser encarada não como uma exigência burocrática para a obtenção de financiamento, mas como um investimento estratégico indispensável para a gestão moderna da empresa rural (Vieira Filho e Gasques, 2020).

Conclui-se que o objetivo foi atingido ao identificar que a assistência técnica agropecuária é reconhecida como um motor de produtividade e inovação, embora enfrente gargalos críticos relacionados à qualificação profissional e à continuidade do acompanhamento técnico no pós-crédito. A pesquisa demonstrou que existe uma demanda reprimida por serviços de qualidade e um interesse latente de jovens profissionais em ingressar no setor, mas essa conexão é dificultada pela carência de formação prática e por falhas na materialização de resultados econômicos para o produtor. A articulação entre instituições de ensino, agentes financeiros e o setor produtivo revela-se como o fator determinante para reduzir as lacunas de mercado, ampliar as oportunidades de carreira nas ciências agrárias e garantir que o suporte técnico cumpra seu papel estratégico no fortalecimento da competitividade e da sustentabilidade do agronegócio brasileiro.

Referências Bibliográficas:

Banco Central do Brasil (BCB). Manual de Crédito Rural (MCR). Atualização nº 720, de 19 de julho de 2023. Disponível em: https://www3.bcb.gov.br/mcr. Acesso em: 14 ago. 2025.

Banco Central do Brasil (BCB). Matriz de Dados do Crédito Rural (MDCR). Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor). 2025. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/micrrural. Acesso em: 14 ago. 2025.

Castro, C. N. 2015. Desafios da agricultura familiar: o caso da assistência técnica e extensão rural. Disponível em: <https://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/6492/1/BRU_n12_Desafios.pdf>. Acesso em 15 jan. 2025.

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária [EMBRAPA]. (2020). VII Plano Diretor da Embrapa 2020–2030: Agricultura – oportunidades e desafios. Disponível em: < https://www.embrapa.br/vii-plano-diretor/agricultura-oportunidades-e-desafios >. Acesso em 10 jul. 2025.

Garagorry, F. L.; Quirino, T. R.; Sousa, C. P. de; 2002. Diagnóstico sociotécnico da agropecuária brasileira: II. estabelecimentos. Disponível em: <http://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/handle/doc/109641>. Acesso em 19 abr. 2025.

Gil, A. C. 2008. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 6ed. Atlas. São Paulo, SP, Brasil.

Lakatos, E. M.; Marconi, M. A. 2017. Fundamentos de Metodologia Científica. 8ed. Atlas. São Paulo, SP, Brasil.

Ministério da Agricultura e Pecuária [MAPA]. 2025. Balança comercial do agronegócio brasileiro – 2025. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/noticias/balanca-comercial-do-agronegocio-brasileiro-2025. Acesso em: 11 ago. 2025.

Molina, M. C.; Instituto Interamericano de Cooperación para la Agricultura (IICA); Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA). Educação do campo e formação profissional: a experiência do Programa Residência Agrária (PRONERA). 2009. Disponível em: <https://hdl.handle.net/11324/19812>. Acesso em: 14 ago. 2025.

Oxfam Brasil. 2019. Menos de 1% das propriedades agrícolas é dona de quase metade da área rural brasileira. Disponível em: <https://www.oxfam.org.br/publicacao/menos-de-1-das-propriedades-agricolas-e-dona-de-quase-metade-da-area-rural-brasileira/>. Acesso em: 14 ago. 2025.

Peixoto, M. 2020. Extensão rural no Brasil: desafios e oportunidades para o século XXI. Revista de Extensão Rural 27(2): 45-62.

Vieira Filho, J. E. R.; Gasques, J. G. 2020. Uma jornada pelos contrastes do Brasil: cem anos do censo agropecuário. Disponível em: <https://repositorio-dspace.agricultura.gov.br/handle/1/193?locale=pt_br>. Acesso em: 22 abr. 2025.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq

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