Resumo Executivo

05 de março de 2026

Análise do impacto do Programa Pé de Meia na retenção escolar em São Paulo

Gustavo da Silva Delfino; Renata Maria Marè Gogliano

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

O objetivo desta pesquisa foi avaliar a contribuição do Programa Pé de Meia na retenção de estudantes do ensino médio da rede pública estadual de São Paulo, por meio da análise quantitativa da relação entre o incentivo financeiro concedido e os índices de frequência escolar. A investigação buscou fornecer evidências empíricas robustas sobre a eficácia de políticas de transferência de renda condicionada à educação como mecanismo para mitigar a evasão escolar, um desafio estrutural e persistente no cenário educacional brasileiro. A análise se concentrou em mensurar o efeito direto do programa sobre a assiduidade dos alunos, comparando grupos de estudantes com diferentes níveis de elegibilidade e participação, além de realizar uma análise temporal para verificar a variação na frequência antes e depois da implementação do incentivo.

A evasão escolar no ensino médio representa uma das mais graves problemáticas do sistema educacional brasileiro, com consequências profundas tanto para o desenvolvimento individual dos jovens quanto para o progresso socioeconômico do país. Estudos consistentes apontam que a vulnerabilidade social é um dos principais vetores desse fenômeno; a necessidade de ingresso precoce no mercado de trabalho, muitas vezes informal e precário, se sobrepõe à continuidade dos estudos (Menezes Filho; Pinto, 2017). Fatores como a desestruturação familiar, a falta de perspectivas futuras e as dificuldades financeiras crônicas criam um ambiente adverso à permanência na escola, perpetuando ciclos de pobreza e desigualdade (Ribeiro, 2020). Nesse contexto, a educação, que deveria funcionar como um pilar de mobilidade social, acaba por refletir e aprofundar as disparidades existentes na sociedade.

Para enfrentar essa realidade, o governo brasileiro tem implementado diversas políticas públicas, entre as quais se destacam os programas de transferência de renda condicionada (CCT – Conditional Cash Transfers). Essas iniciativas, como o Bolsa Família e, mais recentemente, o Pé de Meia, partem do pressuposto de que um incentivo financeiro direto pode aliviar a pressão econômica sobre as famílias e, ao mesmo tempo, criar um estímulo para que mantenham seus filhos na escola (Almeida & Costa, 2019). O Programa Pé de Meia, especificamente, foi desenhado para atuar diretamente na etapa mais crítica da educação básica, o ensino médio, oferecendo uma poupança mensal aos estudantes de famílias de baixa renda, condicionada à manutenção de uma frequência escolar mínima. A lógica subjacente é que, ao garantir um suporte financeiro, o programa reduz a probabilidade de o aluno abandonar os estudos para trabalhar, promovendo a sua retenção e eventual conclusão do ciclo educacional.

A avaliação de impacto de tais políticas é fundamental para garantir a alocação eficiente de recursos públicos e para o aprimoramento contínuo das estratégias de intervenção social (Worthen et al., 2004). Análises baseadas em evidências permitem não apenas verificar se um programa está atingindo seus objetivos declarados, mas também compreender a magnitude de seus efeitos e identificar quais componentes são mais eficazes. No caso do Pé de Meia, compreender a relação entre o valor do incentivo e o aumento da frequência escolar oferece subsídios concretos para gestores públicos e formuladores de políticas, permitindo ajustes que podem otimizar o alcance e a efetividade do programa. A ciência de dados, com seu arsenal de métodos estatísticos e de modelagem, desempenha um papel crucial nesse processo, transformando grandes volumes de dados administrativos em insights acionáveis (Fávero; Belfiore, 2017).

Portanto, este estudo se insere no campo da avaliação de políticas públicas educacionais, utilizando uma abordagem quantitativa rigorosa para isolar e medir o impacto do Programa Pé de Meia. A pesquisa não se limita a uma constatação superficial, mas aprofunda a análise por meio de testes estatísticos que controlam as diferenças entre grupos e avaliam a evolução temporal do comportamento dos estudantes. Ao focar na rede pública estadual de São Paulo, um dos maiores sistemas de ensino do país, os resultados obtidos possuem alta relevância e potencial de generalização, contribuindo significativamente para o debate acadêmico e para a tomada de decisão informada sobre o combate à evasão escolar no Brasil. A investigação se propõe a responder, com base em dados concretos, se o incentivo financeiro é, de fato, um instrumento poderoso para manter os jovens na escola.

A metodologia empregada nesta pesquisa quantitativa foi estruturada para garantir a robustez e a validade das conclusões. O estudo adotou uma abordagem de análise de aprendizado supervisionado, partindo de variáveis predefinidas (recebimento de incentivo e frequência escolar) para testar hipóteses e quantificar efeitos. A população total do estudo foi composta por 1.327.945 estudantes com matrícula ativa no ensino médio da rede pública estadual de São Paulo durante o período de setembro a novembro de 2024. A partir dessa população, foram definidos grupos amostrais censitários para análise comparativa: a “Amostra Elegível”, com 529.498 estudantes que cumpriam os critérios para receber o benefício do Programa Pé de Meia; e a “Amostra Não Elegível”, com 798.447 estudantes que não se enquadravam nos critérios. A Amostra Elegível foi, por sua vez, subdividida em “Amostra Elegível Com Incentivo” (400.268 alunos que efetivamente receberam o benefício) e “Amostra Elegível Sem Incentivo” (129.230 alunos que, embora elegíveis, não receberam o incentivo no período analisado).

Para a operacionalização da análise, foram construídos dois indicadores principais. O “Índice de Frequência” foi calculado como a média da frequência mensal de cada estudante no período de setembro a novembro, tanto para o ano de 2024 (pós-implementação) quanto para 2023 (pré-implementação), permitindo uma comparação temporal direta. O “Índice de Incentivo” foi definido como a contagem de incentivos mensais recebidos por cada estudante elegível no período de setembro a novembro de 2024, dividida pelo total de incentivos oferecidos, resultando em uma variável que mede a intensidade da participação no programa. Adicionalmente, o “Índice de Impacto do Programa” foi calculado como a proporção de estudantes elegíveis que receberam o incentivo, fornecendo uma medida do alcance efetivo da política pública dentro do seu público-alvo.

O plano de análise estatística foi desenhado para abordar as questões de pesquisa de forma multifacetada. Primeiramente, realizou-se uma análise descritiva para comparar as médias e medianas de frequência entre os diferentes grupos. Para verificar a existência de diferenças estatisticamente significativas na frequência escolar entre os três grupos principais (Não Elegíveis, Elegíveis Com Incentivo e Elegíveis Sem Incentivo), foi aplicado o teste não paramétrico de Kruskal-Wallis. A escolha por um teste não paramétrico se justifica pela distribuição dos dados de frequência, que frequentemente não seguem uma normalidade (Siegel & Castellan, 1988). Em seguida, para identificar quais pares de grupos apresentavam diferenças significativas, foi utilizado o teste post-hoc de Dunn, que realiza comparações par-a-par com ajuste para múltiplas comparações, garantindo o controle da taxa de erro do tipo I.

A análise dos dados revelou um panorama claro sobre o impacto do Programa Pé de Meia. A população total de 1.327.945 estudantes foi segmentada, identificando que 39,87% (529.498 alunos) eram elegíveis ao programa, o que demonstra o alcance expressivo da política sobre uma parcela considerável do corpo discente. Dentro do grupo de elegíveis, o Índice de Impacto do Programa foi de 75,59%, indicando que mais de três quartos dos estudantes aptos efetivamente receberam o incentivo financeiro-educacional. Este dado, por si só, sugere uma implementação bem-sucedida em termos de cobertura do público-alvo, embora também aponte para uma parcela de quase 25% de elegíveis que, por algum motivo, não acessaram o benefício, um ponto que merece investigações futuras.

A análise comparativa das médias de frequência escolar expôs diferenças substanciais entre os grupos. O grupo “Elegível Com Incentivo” apresentou uma frequência média de 87,43%, um patamar significativamente superior ao do grupo “Não Elegível” (68,53%) e drasticamente maior que o do grupo “Elegível Sem Incentivo”, que registrou uma média de apenas 42,33%. Essa disparidade acentuada sugere fortemente que o recebimento do incentivo está associado a uma maior assiduidade. O fato de os elegíveis que não receberam o benefício terem a pior frequência de todos os grupos pode indicar que este subgrupo enfrenta barreiras socioeconômicas ou de engajamento ainda mais severas, tornando-os um foco prioritário para ações de busca ativa e suporte adicional (Santos et al., 2018).

Os testes de inferência estatística confirmaram a robustez dessas observações. O teste de Kruskal-Wallis rejeitou a hipótese nula (p < 0,001), confirmando que existiam diferenças estatisticamente significativas na frequência escolar entre os três grupos analisados. O teste post-hoc de Dunn detalhou essa conclusão, mostrando que todas as comparações par-a-par eram significativas. Notavelmente, a diferença entre o grupo com incentivo e os outros dois grupos foi a mais pronunciada, reforçando a ideia de que o programa não apenas seleciona um público vulnerável, mas atua efetivamente sobre seu comportamento de frequência escolar. Esses resultados alinham-se com evidências de outros programas de CCT, que demonstram um impacto positivo na frequência e na matrícula escolar em diversos contextos (Glewwe & Kremer, 2006).

A análise de associação entre o “Índice de Incentivo” e o “Índice de Frequência” para os estudantes elegíveis, por meio da Correlação de Spearman, produziu um resultado contundente. O coeficiente de correlação encontrado foi de ρ = 0,9162 (p < 0,0001), indicando uma associação positiva muito forte. Este valor, próximo de 1, demonstra uma relação monotônica quase perfeita: à medida que a regularidade no recebimento do incentivo aumenta, a frequência escolar do estudante tende a aumentar de forma consistente e previsível. Essa é uma das evidências mais fortes do estudo, pois não apenas confirma a existência de uma relação, mas também quantifica sua força, sugerindo um mecanismo de causa e efeito direto e robusto. A hipótese nula de ausência de associação foi categoricamente rejeitada.

A análise temporal, que comparou a frequência dos mesmos alunos antes (2023) e depois (2024) do programa, forneceu a evidência mais direta do impacto da intervenção. O Teste de Wilcoxon para amostras pareadas revelou um aumento estatisticamente significativo na frequência escolar após a introdução do incentivo (p < 0,0001). Os dados mostraram que 83,94% dos estudantes que receberam o benefício apresentaram melhora na frequência, com um aumento médio de 33,95 pontos percentuais. Em contraste, apenas 15,29% tiveram redução, e esta foi de menor magnitude (média de -7,00 pontos percentuais). Este resultado demonstra que a mudança positiva não foi marginal, mas sim uma transformação expressiva no padrão de assiduidade da grande maioria dos beneficiários.

Em suma, o conjunto de resultados forma uma narrativa coesa e empiricamente fundamentada. O Programa Pé de Meia não apenas atinge uma parcela significativa de estudantes vulneráveis, mas também gera um impacto positivo, estatisticamente significativo e de grande magnitude prática sobre sua frequência escolar. As evidências quantitativas apresentadas neste estudo oferecem um forte respaldo para a continuidade e potencial expansão do programa, ao mesmo tempo que destacam a necessidade de aprimorar os mecanismos de entrega para alcançar a totalidade do público elegível e maximizar seu potencial transformador.

Apesar dessas ressalvas, as implicações práticas dos achados são inequívocas e oferecem subsídios valiosos para gestores e formuladores de políticas. A tendência geral de aumento significativo na frequência com a implementação do incentivo justifica a manutenção e o aprimoramento do programa. Recomenda-se a investigação dos motivos pelos quais uma parcela dos estudantes elegíveis não acessou o benefício, a fim de remover barreiras e otimizar o alcance da política. Futuras pesquisas poderiam expandir esta análise, incorporando indicadores de desempenho acadêmico para verificar se o aumento da frequência se traduz em melhorias na aprendizagem e na aprovação anual, proporcionando uma visão ainda mais completa do impacto do programa. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que o Programa Pé de Meia contribuiu significativamente para o aumento da frequência escolar dos estudantes do ensino médio da rede pública estadual de São Paulo, validando seu potencial como política pública de retenção.

Referências:
ALMEIDA, B.; COSTA, L. Conditional Cash Transfers and Educational Outcomes: A Review of the Brazilian Experience. Journal of Development Economics, v. 141, p. 102-115, 2019.
COHEN, J. Statistical power analysis for the behavioral sciences. 2. ed. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, 1988.
FÁVERO, Luiz Paulo; BELFIORE, Patrícia. Manual de análise de dados: estatística e modelagem multivariada com Excel, SPSS e Stata. 1. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2017.
GLEWWE, P.; KREMER, M. Schools, Teachers, and Education Outcomes in Developing Countries. In: Handbook of the Economics of Education. v. 2, p. 945-1017, 2006.
HOLM, S. A simple sequentially rejective multiple test procedure. Scandinavian Journal of Statistics, v. 6, n. 2, p. 65-70, 1979.
MENEZES FILHO, Naercio Aquino; PINTO, Cristine Campos de Xavier (Org.). Avaliação econômica de projetos sociais. 3. ed. São Paulo: Fundação Itaú Social, 2017.
NERI, M. C. (Org.). Vozes da Nova Classe Média. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2014.
RIBEIRO, C. A. C. Desigualdade de Oportunidades no Brasil. Belo Horizonte: Argumentum, 2020.
SANTOS, H. G.; LIMA, J. C.; FERREIRA, M. R. Fatores Associados à Evasão Escolar na Educação Básica Brasileira. Cadernos de Pesquisa, v. 48, n. 167, p. 280-305, 2018.
SIEGEL, S.; CASTELLAN, N. J. Nonparametric statistics for the behavioral sciences. 2. ed. New York: McGraw-Hill, 1988.
WORTHEN, Blaine R.; SANDERS, James R.; FITZPATRICK, Jody L.; AZEVEDO, Dinah de Abreu. Avaliação de programas: concepções e práticas. São Paulo: Gente; Edusp, 2004.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq

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