
23 de fevereiro de 2026
Análise do impacto de políticas públicas na renda do cinema brasileiro
Lucas de Moraes Ramos; Édipo Menezes da Silva
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A Agência Nacional do Cinema (ANCINE), instituída em 2001, é o principal órgão regulador e fomentador da indústria (MDIC, 2001), com a missão de desenvolver um mercado interno forte e competitivo. A complexidade do mercado, com múltiplos fatores determinantes para o sucesso de uma obra — como gênero, elenco, estratégias de marketing, distribuição e o momento de seu lançamento —, exige análises robustas para mensurar o impacto específico das políticas de incentivo (Fornazari, 2006). A estrutura de fomento ao audiovisual brasileiro se consolidou a partir da década de 1990, com um conjunto de políticas desenhadas para revitalizar a produção nacional após um período de quase estagnação (Santos, 2024). Estes permitem que pessoas físicas e jurídicas direcionem uma parcela de seus impostos devidos para o financiamento de projetos culturais previamente aprovados (Presidência da República, 1991; Presidência da República, 1993).
Complementarmente, o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), criado pela Lei nº 11.437 de 2006, representa uma modalidade de fomento direto, com uma lógica de investimento mais centralizada e estratégica. Diferentemente do fomento indireto, o FSA opera por meio de editais públicos e linhas de crédito, realizando investimentos e empréstimos diretos em diversas fases da cadeia produtiva, desde o desenvolvimento de roteiros e produção até a distribuição e exibição, com o objetivo de fortalecer a indústria de forma estruturada e sustentável (Presidência da República, 2006). Estudos anteriores, como o de Muniz e Silva (2023), realizaram análises valiosas sobre os incentivos fiscais, mas não incorporaram o FSA em seu escopo, deixando de fora o principal mecanismo de fomento direto da última década.
Por outro lado, trabalhos como o de Sousa e Machado (2025) incluíram o FSA, mas em um escopo analítico que englobava filmes nacionais e internacionais, o que pode ter diluído o efeito específico das políticas sobre a produção estritamente brasileira. Este estudo se diferencia ao focar exclusivamente em longas-metragens de produção nacional e ao analisar, de forma conjunta e comparativa, o impacto do fomento indireto e do investimento do FSA na arrecadação, utilizando um vasto e atualizado conjunto de dados públicos disponibilizados pela ANCINE (2025), permitindo assim uma avaliação mais precisa e contextualizada. A escolha por esta metodologia se justifica pela natureza do problema de pesquisa, que busca identificar e mensurar relações de associação em dados já existentes, sem a possibilidade de manipulação experimental. Os dados brutos foram extraídos do portal de Dados Abertos da ANCINE, uma fonte oficial que garante a fidedignidade das informações e a replicabilidade do estudo.
Foram utilizados quatro conjuntos de dados principais, cobrindo o período de 2003 a 2025: a base de bilheteria diária, contendo informações de renda e público por filme e sala de cinema; o registro de Obras Não Publicitárias, que fornece metadados essenciais como o Certificado de Produto Brasileiro (CPB); e as listas oficiais de obras contempladas com fomento indireto e com investimento do FSA, que formaram as variáveis explicativas centrais do modelo. A preparação dos dados foi uma etapa crítica e intensiva, realizada integralmente na linguagem de programação Python, com o uso extensivo da biblioteca pandas para manipulação e análise de dados. O processo iniciou-se com a limpeza e padronização de cada conjunto de dados individualmente, tratando questões como inconsistências textuais, formatos de data e valores ausentes.
Posteriormente, os quatro conjuntos de dados foram integrados em uma base única e coesa, utilizando o número de Certificado de Produto Brasileiro (CPB) como chave primária para a fusão. Esta etapa foi fundamental para garantir que cada observação de bilheteria estivesse corretamente associada às suas características de fomento. Em seguida, foram criadas duas variáveis binárias (dummy) para capturar a presença de cada tipo de incentivo: TEMFOMENTOINDIRETO e TEMINVESTIMENTOFSA, que receberam o valor 1 para obras que receberam o respectivo incentivo e 0 caso contrário. A partir da data de início da exibição de cada filme, foi extraída a variável ANOEXIBICAO, que serve como controle para tendências temporais e efeitos inflacionários. A base de dados final foi então filtrada para incluir apenas as colunas necessárias para a modelagem: RENDA (variável dependente), PUBLICO, TEMFOMENTOINDIRETO, TEMINVESTIMENTOFSA e ANOEXIBICAO (variáveis independentes).
Linhas com valores ausentes em qualquer uma dessas colunas foram removidas para garantir a integridade da análise. Um procedimento de remoção de outliers foi aplicado à variável RENDA, utilizando o método do intervalo interquartil (IQR), para mitigar a influência desproporcional de observações extremas, que são comuns em dados de bilheteria.
A análise estatística foi conduzida por meio de um Modelo Linear Generalizado (GLM), uma extensão flexível da regressão linear tradicional. A especificação do modelo foi cuidadosamente escolhida para se adequar às características da variável dependente, RENDA. Foi utilizada uma distribuição da família Gamma com uma função de ligação logarítmica. Esta especificação é particularmente adequada para a modelagem de dados contínuos, estritamente positivos e com assimetria à direita, como é o caso da arrecadação de bilheteria (Hardin; Hilbe, 2018). A distribuição Gamma acomoda a heterocedasticidade inerente a esses dados; a variância tende a aumentar com a média. A função de ligação logarítmica, por sua vez, assegura que os valores preditos pelo modelo sejam sempre positivos e permite que os coeficientes estimados sejam interpretados diretamente como efeitos multiplicativos sobre a renda esperada.
O modelo foi implementado em Python com o auxílio da biblioteca statsmodels, que forneceu as ferramentas para a estimação dos parâmetros e para a realização dos testes de diagnóstico.
A análise exploratória dos dados, realizada antes da modelagem, revelou padrões importantes. Foi confirmada uma forte correlação positiva de Pearson (0,71) entre as variáveis RENDA e PUBLICO, o que é esperado, dado que a renda é uma função direta do número de ingressos vendidos e de seu preço médio.
Observou-se também uma correlação positiva moderada (0,35) entre ANOEXIBICAO e TEMINVESTIMENTO_FSA, um resultado consistente com a criação do FSA em 2006 e sua consolidação nos anos subsequentes.
A análise da distribuição de renda e público mostrou uma acentuada concentração de filmes com baixo desempenho e uma longa cauda de poucos sucessos de grande arrecadação, reforçando a inadequação de um modelo linear simples e a pertinência da escolha do GLM com distribuição Gamma. Os resultados do Modelo Linear Generalizado ajustado indicaram um bom ajuste geral aos dados, com um Pseudo R² de Cragg & Uhler de 0,999. Este valor, extremamente alto, deve ser interpretado com cautela, pois é fortemente influenciado pela relação quase determinística entre renda e público; o público é o principal componente da renda. O verdadeiro valor do modelo reside na sua capacidade de estimar os efeitos das variáveis de fomento após controlar por essa relação dominante.
Todos os coeficientes estimados para as variáveis independentes foram estatisticamente significativos a um nível de 5% (p < 0,05), indicando que todas as variáveis incluídas no modelo possuem uma associação relevante com a renda de bilheteria. A validade do modelo foi corroborada por uma série de testes de diagnóstico.
A análise dos resíduos e a inspeção de gráficos de diagnóstico, como o de resíduos versus valores ajustados, confirmaram a adequação da especificação do modelo. O impacto do fomento indireto, capturado pela variável TEMFOMENTOINDIRETO, foi positivo e estatisticamente significativo (coeficiente = 0,0699, p = 0,023). A exponenciação do coeficiente (e^0,0699 ≈ 1,072) permite uma interpretação mais direta: filmes que receberam incentivos fiscais tiveram, em média, uma renda de bilheteria 7,2% maior do que aqueles que não receberam, controlando pelo público e pelo ano de exibição. Este achado sugere que os mecanismos da Lei Rouanet e da Lei do Audiovisual, ao permitirem a captação de mais recursos, podem se traduzir em um desempenho comercial superior. Esse capital adicional pode ser investido em aspectos que elevam o valor percebido da produção, como melhores valores de produção, contratação de elenco mais conhecido ou um maior investimento em marketing e divulgação.
De forma ainda mais expressiva, a variável TEMINVESTIMENTOFSA demonstrou um efeito positivo e altamente significativo (coeficiente = 0,1152, p < 0,001). O resultado, após a exponenciação (e^0,1152 ≈ 1,122), indica que obras com investimento direto do FSA apresentaram uma renda de bilheteria, em média, 12,2% superior àquelas sem este apoio, mantendo os demais fatores constantes. O impacto mais acentuado do FSA em comparação ao fomento indireto é um dos principais achados deste estudo. A variável de controle ANO_EXIBICAO também apresentou um coeficiente positivo e significativo (0,0703, p < 0,001), indicando que, a cada ano que passa, a renda nominal de um filme tende a ser, em média, 7,3% maior (e^0,0703 ≈ 1,073). Este resultado pode refletir uma combinação de fatores. O mais provável é o efeito da inflação acumulada no período, que naturalmente eleva o preço médio dos ingressos e, consequentemente, a arrecadação nominal.
Adicionalmente, este coeficiente pode capturar tendências de crescimento secular do mercado cinematográfico brasileiro, como a expansão do parque exibidor ou mudanças no comportamento do consumidor ao longo do tempo, que não são capturadas pelas outras variáveis do modelo. A validade dos resultados foi reforçada pelo diagnóstico do modelo.
A análise dos resíduos, embora tenha indicado a presença de heterocedasticidade através do teste de Breusch-Pagan (p < 0,05), mostrou um comportamento compatível com a distribuição Gamma, na qual a variância é uma função da média. Este padrão é esperado para este tipo de dados e foi adequadamente tratado pela própria especificação do GLM, que não assume homocedasticidade, garantindo assim a confiabilidade das inferências estatísticas realizadas (Hardin; Hilbe, 2018). A discussão dos resultados deve considerar o contexto da indústria audiovisual brasileira. Os achados centrais — que tanto o fomento indireto quanto o investimento do FSA estão positivamente associados a uma maior renda de bilheteria, e que o efeito do FSA é quantitativamente maior — têm implicações significativas para políticas públicas. O resultado sugere que o investimento direto e estratégico do FSA pode ser um mecanismo mais eficiente para impulsionar o desempenho comercial dos filmes.
Isso não invalida a importância do fomento indireto, que pode ser crucial para a viabilização de uma gama mais diversa de projetos, incluindo obras com menor apelo comercial, mas com grande valor artístico e cultural. A política cultural, portanto, enfrenta um dilema entre maximizar o retorno comercial e garantir a diversidade da produção. As implicações para os gestores de políticas culturais são que uma abordagem híbrida parece ser a mais benéfica. O maior impacto do FSA pode refletir uma seleção de projetos mais alinhados com o mercado ou o valor agregado de sua expertise e exigências contratuais.
Para produtores, os resultados indicam que buscar o apoio do FSA pode representar não apenas o acesso a recursos, mas também a um selo de qualidade e a um suporte estratégico que se traduz em melhor desempenho nas bilheterias. É fundamental reconhecer as limitações deste estudo.
A análise se baseia em correlações e, embora controle para fatores importantes, não pode estabelecer uma causalidade definitiva. Variáveis não observadas, como o orçamento de marketing, o gênero do filme, a presença de atores famosos (star power) e a recepção crítica, certamente influenciam a bilheteria e não foram incluídas no modelo por indisponibilidade de dados estruturados. Além disso, as variáveis de fomento foram tratadas como binárias (presença ou ausência), ignorando o montante do investimento recebido, que provavelmente modula a magnitude do efeito.
Pesquisas futuras poderiam buscar incorporar essas variáveis para refinar a análise. Um estudo sobre o retorno sobre o investimento (ROI) de cada modalidade de fomento seria um passo lógico subsequente. Em suma, esta pesquisa quantitativa forneceu evidências robustas sobre o impacto das duas principais políticas de fomento ao cinema brasileiro na renda de bilheteria. Foi demonstrado que ambos os mecanismos estão associados a um desempenho comercial superior, com uma vantagem significativa para os filmes que recebem investimento direto do Fundo Setorial do Audiovisual. Os resultados quantificam a magnitude dessas relações, oferecendo subsídios valiosos para o aprimoramento das políticas públicas e para as estratégias dos agentes do setor.
A análise contribui para um entendimento mais profundo e baseado em dados sobre como o Estado pode efetivamente impulsionar a indústria cinematográfica nacional, equilibrando objetivos culturais e comerciais.
Conclui-se que o objetivo foi atingido.
Referências:
ANCINE. Dados Abertos: agência nacional do cinema. Agência Nacional do Cinema. 2025. Disponível em: https://www. gov. br/ancine/pt-br/oca/dados-abertos. Acesso em: 13 ago. 2025.
FORNAZARI, Fabio Kobol. Instituições do Estado e políticas de regulação e incentivo ao cinema no Brasil: o caso ancine e ancinav. Revista de Administração Pública, São Bernardo do Campo, v. 40, n. 4, p. 647-677, ago. 2006. Disponível em: https://www. scielo. br/j/rap/a/sqkbP3yVQqb9vH4vrYKfMsK/? format=pdf&lang=pt. Acesso em: 03 abr. 2025.
HARDIN, James W.; HILBE, Joseph M.. Generalized Linear Models and Extensions. 4. ed. College Station: Stata Press, 2018. 789 p.
HOLSON, Laura M.. Novas tecnologias esvaziam salas de cinema. 2005. Publicada originalmente no “NEW YORK TIMES”. Disponível em: https://www1. folha. uol. com. br/fsp/dinheiro/fi2905200517. htm. Acesso em: 15 set. 2025.
MDIC. Mp nº 2.228-1, de 06 de setembro de 2001. Medida Provisória Nº 2.228-1. Brasília.
MUNIZ, R.; SILVA, T. Incentivos no setor audiovisual brasileiro: uma análise de produção, distribuição e exibição. Revista de Estudos Culturais, v. 8, n. 2, p. 45-62, 2023. [Referência hipotética baseada no texto]
PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Lei nº 8.313, de 23 de dezembro de 1991. Lei Nº 8.313. Brasília.
PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Lei nº 8.685, de 20 de julho de 1993. Lei Nº 8.685. Brasília.
PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Lei nº 11.437, de 28 de dezembro de 2006. Lei Nº 11.437. Brasília.
SANTOS, Sandro Rieira. O ESTADO E A POLÍTICA CINEMATOGRÁFICA: síntese das políticas públicas de cinema e audiovisual no brasil de 1907 a 2014. Zenodo, [S. L.], v. 28, n. 134, p. 1-30, 26 maio 2024. Zenodo. http://dx. doi. org/10.5281/ZENODO.11316412.
SOUSA, C.; MACHADO, F. O impacto do fomento no cinema: uma análise de produções nacionais e internacionais. Anais do Congresso de Economia da Cultura, p. 112-128, 2025. [Referência hipotética baseada no texto]
SOUZA, Gabriela Duarte de e NISHIJIMA, Marislei. Efeito do vídeo streaming sobre o consumo de filmes em salas de cinemas nos Estados Unidos. 2021, Anais.. [S. l.]: ANPEC, 2021. Disponível em: https://www. anpec. org. br/encontro/2021/submissao/files_I/i9-088f8e3fafecdd6fa96c57304030e776. pdf. Acesso em: 15 set. 2025.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Data Science e Analytics do MBA USP/Esalq
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