Resumo Executivo

11 de maio de 2026

Alimentação saudável em cantinas escolares: percepção dos pais

Milena Casagrande Silvello; Lorena Hernández Mastrapa

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

O ritmo acelerado da vida moderna tem levado muitas famílias a enfrentarem desafios crescentes em relação à alimentação, especialmente no que diz respeito à nutrição infantil. O aumento das responsabilidades cotidianas e a consequente escassez de tempo tornaram-se fatores determinantes na organização das rotinas domésticas, afetando diretamente a qualidade das refeições consumidas no núcleo familiar (Ministério da Saúde, 2014). Estima-se que aproximadamente 75% das mães de crianças em idade escolar exerçam atividades profissionais fora de casa, o que transfere para o ambiente escolar uma responsabilidade ampliada sobre o desenvolvimento nutricional dos alunos, tornando as refeições realizadas na escola pontos críticos para a saúde infantil (Mahan et al., 2012). Dados provenientes do Sistema Nacional de Vigilância Alimentar e Nutricional indicam uma mudança preocupante nos padrões alimentares das crianças brasileiras, caracterizada pela substituição progressiva de alimentos in natura, como frutas, legumes e verduras, por opções industrializadas de baixo valor nutricional (Ministério da Saúde, 2021). Essa transição nutricional foi corroborada por levantamentos da Pesquisa de Orçamentos Familiares em diferentes períodos, evidenciando um declínio sistemático no consumo de alimentos frescos e caseiros em paralelo ao aumento expressivo de produtos processados e ultraprocessados (IBGE, 2020).

A literatura científica demonstra que o consumo frequente de alimentos ultraprocessados está intrinsecamente associado à piora da qualidade nutricional da dieta infantil, visto que tais produtos apresentam elevada densidade calórica, altos teores de açúcares livres e gorduras prejudiciais, além de serem deficientes em fibras, proteínas e micronutrientes essenciais para o crescimento (Louzada et al., 2018). Em contrapartida, a oferta de alimentos nutritivos no ambiente escolar contribui significativamente para o desempenho acadêmico e para a consolidação de hábitos alimentares saudáveis que podem perdurar por toda a vida adulta (Monteiro et al., 2019). Nesse contexto, a implementação de estratégias que promovam a oferta de alimentos equilibrados em cantinas escolares torna-se uma necessidade premente, visando impactar positivamente o bem-estar das crianças. A introdução de novas opções alimentares em uma cantina pode ser compreendida sob a ótica da gestão de projetos, sendo definida como uma iniciativa temporária voltada à criação de um resultado específico e exclusivo (PMI, 2021). Tal processo envolve diversos stakeholders, incluindo os alunos, que influenciam a aceitação das opções apesar da limitada autonomia; os pais, que atuam como decisores centrais quanto à viabilidade financeira; o corpo docente, que apoia a educação nutricional; e os gestores da cantina, responsáveis pela execução operacional das mudanças.

A gestão de mudanças em ambientes educacionais exige um planejamento rigoroso que considere a transição de um processo existente para uma nova realidade, avaliando impactos, riscos e a viabilidade econômica necessária para o sucesso da implementação (PMI, 2021). Em instituições de ensino particular, a preocupação dos responsáveis com o consumo de ultraprocessados é crescente, mas a incerteza sobre a aceitação das crianças e o impacto nos custos operacionais muitas vezes retarda a evolução dos cardápios. Portanto, torna-se fundamental analisar a percepção dos principais interessados para fundamentar decisões estratégicas que alinhem as expectativas familiares às necessidades nutricionais dos estudantes. O objetivo central desta investigação concentra-se em avaliar a percepção dos pais de alunos do ensino fundamental de uma escola particular sobre a implementação de alternativas alimentares menos processadas e de maior teor nutricional no cardápio da cantina escolar, buscando identificar barreiras e oportunidades para essa transição.

A metodologia adotada para a realização deste estudo fundamentou-se em uma abordagem quantitativa de natureza descritiva, técnica adequada para a avaliação de opiniões, atitudes e crenças de grupos específicos (Gil, 2002). O procedimento técnico caracterizou-se como uma pesquisa de levantamento, na qual foram solicitadas informações diretamente à comunidade escolar para esclarecer as motivações e dificuldades relacionadas ao problema central da alimentação na cantina (Gil, 2002). O local objeto de estudo foi uma escola particular situada no município de Piracicaba, interior do estado de São Paulo, que atende alunos da educação infantil ao ensino fundamental. A estrutura física da instituição conta com uma cantina terceirizada que funciona como ponto de apoio alimentar, oferecendo produtos prontos para consumo, como salgados, doces, sucos e lanches naturais. Embora a unidade já disponibilizasse algumas opções saudáveis, como frutas e sucos integrais, o cardápio era predominantemente composto por itens de alto apelo comercial e reduzido valor nutricional, o que motivou a investigação sobre a ampliação de alternativas equilibradas.

A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário estruturado e padronizado, elaborado para garantir a sistemática na obtenção das informações e facilitar a análise quantitativa subsequente. O instrumento foi desenvolvido na plataforma Google Forms e composto por 19 perguntas, sendo 17 fechadas, utilizando formatos de múltipla escolha simples, múltipla escolha múltipla e escalas ordinais, além de duas perguntas abertas destinadas a captar percepções subjetivas e sugestões dos participantes. O tempo médio de preenchimento foi estimado entre 5 e 7 minutos, visando garantir a adesão dos respondentes. O questionário foi estruturado em quatro eixos principais de investigação. O primeiro eixo focou no perfil dos alunos e hábitos de consumo, questionando o ano escolar (1º ao 5º ano), a frequência de consumo na cantina (desde nunca até todos os dias) e os tipos de alimentos mais adquiridos, como salgados fritos ou assados, doces, refrigerantes e frutas. O segundo eixo avaliou as percepções dos pais sobre a qualidade atual da cantina e o grau de preocupação com a alimentação dos filhos, utilizando escalas de quatro e cinco pontos.

O terceiro eixo de investigação abordou a aceitação e as barreiras percebidas para a introdução de alimentos saudáveis, coletando opiniões sobre a oferta de novas opções e identificando desafios como preço elevado, falta de interesse dos alunos ou falta de atratividade dos produtos. Também foram exploradas estratégias de engajamento, como degustações, kits promocionais e a participação dos alunos na escolha dos itens. O quarto eixo concentrou-se na disposição financeira e no apoio às mudanças, verificando a percepção de preços, o valor diário considerado adequado para gastos na cantina (em faixas de até R$ 5,00 a mais de R$ 15,00) e a disposição em pagar um prêmio por produtos de melhor qualidade nutricional. A construção das perguntas foi rigorosamente alinhada às práticas de gestão de projetos, seguindo diretrizes para o levantamento de requisitos, análise de riscos e gerenciamento de stakeholders (PMI, 2021). Além disso, utilizou-se o modelo Project Model Canvas para estruturar as necessidades e restrições percebidas pelos responsáveis (Finoccio Junior, 2013).

A coleta de dados estendeu-se por um período de quatro semanas, com o envio do link do questionário aos pais de crianças matriculadas entre o 1º e o 5º ano do ensino fundamental. A participação foi voluntária e a seleção da amostra ocorreu de forma não probabilística, baseada na disponibilidade e interesse dos participantes, resultando em um grupo de 34 respostas válidas. O estudo seguiu rigorosamente os princípios éticos e a Lei Geral de Proteção de Dados, garantindo o anonimato e a confidencialidade das informações coletadas, com o consentimento formalizado de todos os participantes antes do início da pesquisa. A análise dos dados foi realizada por meio de estatística descritiva, permitindo a organização e síntese das informações para a identificação de padrões de consumo e tendências de opinião entre os responsáveis.

Os resultados obtidos revelaram que a maior participação na pesquisa adveio de pais de alunos dos anos finais do ensino fundamental I, com 35% das respostas correspondentes ao 5º ano e 29% ao 4º ano. Esse dado sugere que os alunos dessas séries fazem uso mais frequente da cantina, possivelmente devido a uma maior autonomia no consumo e na escolha de seus lanches. Em contrapartida, os anos iniciais apresentaram menor engajamento, com o 1º ano representando apenas 6% e o 3º ano 12% da amostra, o que pode refletir um controle parental mais rígido sobre a alimentação ou um menor interesse pela cantina nesse estágio escolar. Esse achado indica que estratégias de introdução de alimentos saudáveis devem priorizar o engajamento dos alunos mais velhos, sem negligenciar a sensibilização dos pais de alunos mais novos para estimular hábitos adequados desde o início da vida escolar.

Quanto aos hábitos de consumo, verificou-se que a maioria dos alunos (59%) costuma adquirir alimentos na cantina escolar. Entre esses consumidores, a frequência predominante situa-se entre uma a três vezes por semana, enquanto o consumo diário é restrito a apenas 15% da amostra. Esses dados indicam que a cantina desempenha um papel complementar na alimentação escolar para a maior parte das famílias, não sendo a fonte principal de refeições diárias. No que tange aos tipos de alimentos mais procurados, observou-se um equilíbrio relativo entre escolhas positivas e negativas. Os salgados assados e os sucos integrais foram os itens mais citados, ambos com oito menções, superando os salgados fritos (quatro menções) e os refrigerantes (seis menções). No entanto, a preferência por doces (sete menções) superou o consumo de frutas (cinco menções), evidenciando um risco nutricional e a necessidade de intervenções para promover escolhas mais equilibradas.

A percepção dos responsáveis sobre a necessidade de melhorias nutricionais no cardápio foi contundente, com 71% dos participantes considerando a oferta de alimentos mais saudáveis como altamente necessária. Apenas 3% entenderam que não há tal demanda, o que reforça a pertinência do projeto e sugere uma elevada aceitação inicial para a implementação de alternativas nutricionalmente equilibradas. Curiosamente, apesar do desejo por melhorias, a satisfação geral com a cantina é positiva: 25 responsáveis avaliaram as opções atuais como muito boas e oito como boas. Esse paradoxo sugere que, embora os pais apreciem o serviço prestado, eles identificam uma lacuna clara no que diz respeito à saúde e à qualidade nutricional dos produtos oferecidos.

No aspecto econômico, os resultados apontaram uma propensão favorável ao investimento em saúde. Cerca de 65% dos respondentes declararam estar dispostos a pagar um valor adicional por produtos de melhor qualidade nutricional, enquanto 29% condicionaram essa aceitação ao valor final cobrado. Apenas 6% demonstraram resistência a aumentos de preço. Esses achados indicam que mudanças no cardápio são financeiramente viáveis, desde que planejadas de forma compatível com a realidade das famílias. Sobre o valor diário considerado adequado para gastos na cantina, a maioria (59%) assinalou o intervalo entre R$ 10,00 e R$ 15,00 como viável, enquanto 23% preferem valores até R$ 5,00. Apenas uma pequena parcela de 6% aceitaria gastar mais de R$ 15,00 por dia.

A aceitação da proposta de ampliação de opções saudáveis foi expressiva, com 73% dos pais declarando-se totalmente favoráveis e 18% favoráveis. No entanto, os desafios para a adesão dos filhos foram claramente identificados. O fator mais citado como barreira foi a aceitação das próprias crianças (13 menções), seguido pela falta de atratividade dos produtos saudáveis (sete menções) e pelo custo elevado (seis menções). Para mitigar essas barreiras, os pais sugeriram estratégias como a divulgação e apresentação dos alimentos por meio de cartazes ilustrativos ou degustações (15 menções) e a criação de kits promocionais com combinações fixas e variadas (13 menções). O preço foi apontado por 12 respondentes como o principal fator de influência na decisão de apoiar a mudança, seguido pela qualidade nutricional (oito menções) e pelo sabor (cinco menções).

A discussão dos resultados permite inferir que existe uma demanda latente por uma reforma nutricional no ambiente escolar, alinhada às diretrizes do Guia Alimentar para a População Brasileira, que preconiza a priorização de alimentos in natura e a redução de ultraprocessados (Ministério da Saúde, 2021). A disposição dos pais em incentivar os filhos a optarem por alternativas como iogurtes, saladas de frutas e sanduíches naturais demonstra uma tendência favorável à diversificação do cardápio. Contudo, a viabilidade do projeto depende não apenas da percepção dos pais, mas de um engajamento ativo dos alunos e de uma estrutura de preços que não inviabilize o consumo. A aplicação de conceitos de gestão de projetos mostra-se essencial para coordenar essas variáveis, garantindo que a transição seja sustentável e atenda aos requisitos de todos os stakeholders envolvidos (PMI, 2021). As limitações do estudo, como o tamanho reduzido da amostra e a ausência de uma análise de margens de lucro da cantina, sugerem que pesquisas futuras devem aprofundar a viabilidade financeira operacional e realizar projetos-piloto para testar a aceitação prática dos novos itens.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a percepção dos pais revelou uma alta receptividade e apoio à implementação de opções alimentares saudáveis na cantina escolar. A análise demonstrou que a maioria dos responsáveis considera a mudança necessária e está disposta a apoiar financeiramente a transição, desde que os novos produtos sejam atrativos para as crianças e mantenham preços competitivos, preferencialmente na faixa de R$ 10,00 a R$ 15,00. Identificou-se que a aceitação infantil e a atratividade dos alimentos são os principais riscos ao sucesso do projeto, demandando estratégias de marketing nutricional como degustações e kits promocionais. O estudo reforça que a gestão de mudanças baseada em dados e no engajamento dos stakeholders é fundamental para transformar o ambiente alimentar escolar em um espaço promotor de saúde e bem-estar.

Referências Bibliográficas:

Finoccio Junior, J. 2013. Project Model Canvas: gerenciamento de projetos sem burocracia. 1. ed. Rio de Janeiro: Brasport.

Gil, A. C. 2002. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas.

Instituto Brasileiro De Geografia E Estatística [IBGE]. 2020. Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018: avaliação nutricional da disponibilidade domiciliar de alimentos no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE. Disponível em: < https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101742.pdf>. Acesso em: 25 mar. 2025.

Louzada, M. L. C.; Ricardo, C. Z.; Steele, E. M.; Levy, R. B.; Cannon, G.; Monteiro, C. A. 2018.The share of ultra-processed foods determines the overall nutritional quality of diets in Brazil. Public Health Nutrition, v: 21, p. 94-102.

Mahan, L. K.; Escott-Stump, S.; Raymond J. L. 2012. Krause: Alimentos, nutrição e dietoterapia. 13. ed. São Paulo: Elsevier, p. 805.

Ministério da Saúde [MS]. 2014. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: < https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf>. Acesso em: 25 mar. 2025.

Ministério da Saúde [MS]. 2021. Fascículo 4 – Protocolo de uso do Guia Alimentar para a População Brasileira na orientação alimentar de crianças de 2 a 10 anos. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Disponível em: < https://aps.saude.gov.br/biblioteca/visualizar/4747>. Acesso em: 25 mar. 2025.

Monteiro, C. A. et al 2019. Ultra-processed foods: what they are and how to identify them. Public Health Nutrition, v. 22, n. 5, p. 926-941.

Project Management Institute. 2021. Um guia do conhecimento em gerenciamento de projetos (Guia PMBOK): guia definitivo do PMI para gerenciamento de projetos. 7. ed. Newtown Square, PA: Project Management Institute.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq

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