
05 de março de 2026
A Percepção da Ascensão Social no Contexto da Educação Básica: Desafios e Possibilidades de Mobilidade Social
Franciéli Cavalheiro de Araujo; José Vaidergorn
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A educação básica configura-se como uma das principais ferramentas para a promoção da mobilidade social, especialmente em cenários marcados por profundas desigualdades estruturais. Por meio do ambiente escolar, torna-se viável a busca pela ascensão social, superando barreiras históricas que limitam o acesso a condições dignas de vida. No entanto, essa perspectiva enfrenta desafios multifacetados que influenciam as reais possibilidades de transformação. Fatores como a disparidade no acesso ao ensino de qualidade, a escassez de recursos em determinadas regiões geográficas e a limitação de oportunidades objetivas dificultam a trajetória daqueles que dependem exclusivamente da escola pública para melhorar sua posição na estrutura social. A proteção dos direitos fundamentais no Brasil é garantida constitucionalmente, destacando a igualdade como princípio central. O Artigo 6º da Constituição Federal de 1988 assegura a educação como um direito social acessível a todos, posicionando-a como prioridade do Estado. A análise dos marcos legais revela que a legislação consagra a igualdade no acesso aos direitos sociais, visando garantir que todos os cidadãos tenham oportunidades equitativas de desenvolvimento. Assim, a escolarização não é apenas um recurso de crescimento pessoal, mas um dever estatal essencial para a construção de uma sociedade inclusiva (Brasil, 1988).
No contexto educacional, o Artigo 205 da Carta Magna estabelece que a educação deve ser promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Essa declaração enfatiza a importância do ensino como pilar fundamental na formação de indivíduos capacitados para atuar ativamente na coletividade. O compromisso coletivo, envolvendo o Estado, a família e a comunidade, torna-se indispensável para assegurar o acesso a um padrão mínimo de qualidade nas instituições de ensino. A educação, portanto, não apenas transmite conhecimentos técnicos, mas desenvolve habilidades e competências necessárias para a vida em sociedade, funcionando como um motor de desenvolvimento social e individual. No Brasil, esse direito é reforçado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, promulgada em 1996, que estabelece um conjunto de normas para promover uma experiência educativa justa. Em sintonia com esses preceitos, o Estatuto da Criança e do Adolescente define os direitos à educação para fortalecer a permanência dos alunos nas instituições, implementando iniciativas como a distribuição de material didático e a facilitação de serviços de transporte e alimentação (Brasil, 1990).
A busca pela universalização do acesso avançou significativamente com a Lei 13.005 de 2014, que introduziu metas focadas na redução da evasão escolar e no estabelecimento de padrões ambiciosos para a conclusão dos estudos. A meta número seis dessa legislação visa prolongar o tempo de permanência dos alunos na escola, com o objetivo de elevar a qualidade da educação básica em pelo menos 50%. O reconhecimento de que um maior tempo de aprendizado está diretamente relacionado ao desenvolvimento de competências é fundamental para o futuro dos estudantes. Além disso, a Agenda 2030, estabelecida pela Organização das Nações Unidas, reforça esse compromisso global por meio do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número quatro, que busca assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade (Onu, 2015). Para compreender o impacto da ascensão social no ambiente escolar, é necessário examinar os protagonistas e a natureza de suas interações. Processos sociais são mecanismos que possibilitam a interação entre indivíduos e grupos, e na escola, esses processos possuem o potencial de fomentar a inclusão ou provocar divisões (Piletti, 1985). A educação escolar desempenha papel essencial na alfabetização e no letramento, sendo o veículo pelo qual os estudantes cultivam uma perspectiva crítica, permitindo a interpretação de suas próprias vivências e da realidade social (Durkheim, 1968).
A trajetória metodológica para investigar as percepções docentes sobre esse fenômeno fundamenta-se em uma abordagem qualitativa, que se distingue pela imersão e observação detalhada do objeto de análise. A pesquisa qualitativa dedica-se a explorar o universo de significados, razões, aspirações, crenças e valores (Minayo, 2012). Optou-se por um delineamento exploratório, modalidade que visa proporcionar proximidade e uma visão abrangente sobre o objeto de estudo, permitindo um mapeamento profundo das nuances envolvidas no cotidiano escolar (Gil, 2008). O cenário da investigação compreendeu escolas públicas localizadas nas regiões dos Vales do Paranhana e Germânico, no estado do Rio Grande do Sul. A amostra foi composta por três educadoras que atuam em diferentes etapas do ensino fundamental, selecionadas estrategicamente por desempenharem papéis significativos na rede municipal de ensino. As participantes possuem idades entre 40 e 55 anos e apresentam um tempo de exercício profissional que varia de 11 a 21 anos. Todas as docentes possuem formação em nível de graduação e cursos de especialização, o que confere densidade técnica às suas percepções sobre o sistema educacional.
O instrumento utilizado para a produção de informações foi um questionário online, composto por um conjunto de questões fechadas e abertas submetidas às participantes com o propósito de obter dados sobre conhecimentos e expectativas (Gil, 2008). As perguntas fechadas permitiram caracterizar o perfil demográfico das respondentes, enquanto as perguntas abertas formaram a base da análise qualitativa, possibilitando a expressão livre de opiniões e reflexões sobre a prática pedagógica. O foco central da coleta de dados residiu na atuação das professoras nos programas de Laboratório de Aprendizagem e Complementação de Aprendizagem. O primeiro programa atende alunos do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental, enquanto o segundo é voltado para estudantes do sexto ao nono ano. Ambos os programas oferecem atendimento pedagógico no contraturno escolar, com foco no reforço dos conteúdos curriculares, especialmente em Língua Portuguesa e Matemática. As atividades desenvolvidas incluem jogos educativos, dinâmicas lúdicas e estratégias diferenciadas, visando tornar o processo de aprendizagem mais significativo e favorecer o desenvolvimento cognitivo e socioemocional de estudantes que apresentam dificuldades de aprendizagem.
A análise das informações coletadas foi conduzida por meio do método de Análise de Textos Discursivos, que se estrutura em três fases distintas: unitarização, categorização e elaboração de metatextos (Moraes; Galiazzi, 2016). Na fase de unitarização, o texto foi fragmentado em unidades de significado, permitindo uma análise detalhada de cada depoimento. Posteriormente, na categorização, essas unidades foram agrupadas em categorias a priori, alinhadas com os objetivos do estudo. Por fim, a elaboração de metatextos permitiu a construção de uma narrativa analítica que integra os dados empíricos à base teórica. As categorias definidas buscaram explorar a concepção dos professores sobre a ascensão social, as situações vivenciadas no cotidiano docente que evidenciam esse fenômeno e as estratégias desenvolvidas para potencializar as oportunidades dos estudantes. Esse rigor metodológico garantiu que a investigação não apenas mapeasse a realidade local, mas contribuísse para uma compreensão mais ampla das dinâmicas educacionais em contextos de vulnerabilidade.
Os resultados obtidos revelam que as docentes compreendem a ascensão social como um processo de transformação progressiva e gradual. Para uma das participantes, esse fenômeno é caracterizado pela oferta de oportunidades de aprendizagem que permitem ao sujeito mudar sua condição atual. Outra docente destaca que a ascensão envolve um processo de conscientização e posterior ajuste sutil, porém profundo, nas raízes de crenças e valores de gerações. Nesse sentido, a escola é percebida como um ambiente educacional que desempenha papel crucial como agente de mudança social, sendo um local privilegiado para promover o aprimoramento de habilidades e a expansão de perspectivas. Ao proporcionar acesso ao conhecimento, a instituição escolar cumpre sua função fundamental na criação de caminhos promissores, especialmente para indivíduos em situações de vulnerabilidade. A educação, portanto, exerce um papel libertador ao promover a consciência crítica, possibilitando que as pessoas entendam e intervenham em sua própria realidade (Freire, 1996).
No que tange às situações vivenciadas no cotidiano escolar, as manifestações das professoras indicam que a ascensão social se manifesta em pequenas e grandes conquistas dos alunos, especialmente quando se consegue romper as barreiras impostas pelas desigualdades sociais. Uma das docentes observou que a melhoria na infraestrutura e nas condições socioeconômicas do bairro onde a escola está localizada reflete diretamente no desempenho e nas expectativas dos estudantes. Foi relatado que muitos alunos inicialmente sonhavam apenas em reproduzir o contexto de seus pais ou parentes, mas, ao longo do processo educativo, passaram a vislumbrar novas perspectivas de mundo. A educação atua, nesse cenário, como um divisor de águas e uma bússola que oferece a possibilidade de alcançar autonomia na busca por um futuro viável. A colaboração entre a escola e os responsáveis é apontada como um fator que aumenta as chances de sucesso no processo de ensino e aprendizagem, beneficiando o rendimento acadêmico e o crescimento socioemocional dos alunos (Alcará, 2014). O envolvimento ativo das famílias contribui para uma atuação docente mais eficiente, incentivando a corresponsabilidade no acompanhamento do percurso escolar.
As estratégias pedagógicas desenvolvidas para potencializar a ascensão social focam primordialmente no acolhimento e na democratização do acesso ao saber. As docentes enfatizam que, para contribuir com esse processo, é necessário agir com responsabilidade, dedicação e amor por cada vida colocada sob sua orientação. O acolhimento educacional é considerado fundamental para combater as desigualdades, sendo essencial estabelecer laços afetivos e adotar práticas inclusivas que ajudem a valorizar o indivíduo e a reconstruir sua autoestima. O acolhimento institucional, quando combinado com ações educativas que considerem as particularidades dos alunos, serve como um espaço para ressignificar trajetórias de vida (Vasconcelos, 2015). Desse modo, a escola expande sua função social ao desempenhar o papel de intermediadora de oportunidades. As professoras buscam fomentar valores como ética e respeito em resposta às demandas discentes, criando oportunidades para que os alunos se sintam dignamente acolhidos e motivados a prosseguir em seus estudos.
No âmbito do Laboratório de Aprendizagem, as estratégias incluem a aplicação de atividades variadas com distintos graus de complexidade, o acompanhamento personalizado e a promoção do protagonismo estudantil. A aplicação dessas metodologias visa evitar o fracasso escolar e elevar a autoconfiança dos estudantes, auxiliando-os a reconhecer a importância do saber em suas vidas. É fundamental adotar estratégias de ensino diversificadas para atender à heterogeneidade encontrada em sala de aula, uma vez que os alunos possuem ritmos e interesses diferentes (Libâneo, 2013). Ao desenvolver metodologias que levam em conta essas particularidades, o docente promove a construção do conhecimento de maneira mais significativa. O uso de recursos diversos e o acompanhamento individualizado são medidas que ajudam a superar as dificuldades de aprendizagem e reforçam a função da escola como um ambiente de equidade. Os dados demonstram que a percepção docente está intrinsecamente ligada à crença de que a escolarização qualificada pode mitigar os efeitos do declínio educacional e social.
A discussão dos resultados aponta que, embora a educação sozinha não seja capaz de eliminar todas as barreiras estruturais da sociedade, ela constitui um instrumento indispensável na construção de uma realidade mais justa. A ascensão social manifesta-se tanto nas conquistas acadêmicas quanto no desenvolvimento da autonomia e da consciência crítica. Os professores demonstram um compromisso ético com a formação integral dos estudantes, adotando estratégias que visam mitigar os efeitos das desigualdades. No entanto, reconhece-se que o potencial emancipador da educação depende da articulação entre políticas públicas eficazes, práticas pedagógicas intencionais e um sistema que valorize a diversidade. As limitações do estudo residem no número reduzido de participantes, o que sugere a necessidade de investigações futuras que ampliem o debate para diferentes contextos regionais e realidades educacionais. O protagonismo docente emerge como um elemento central na garantia do direito à educação de qualidade, reforçando a necessidade de investimentos contínuos na formação e valorização desses profissionais.
A análise detalhada das respostas das educadoras permitiu identificar que a mobilidade social é percebida não apenas como uma mudança de status econômico, mas como uma ampliação do capital cultural e simbólico dos estudantes. As vivências relatadas no Laboratório de Aprendizagem e na Complementação de Aprendizagem evidenciam que o atendimento individualizado permite identificar lacunas que muitas vezes passam despercebidas no ensino regular. Ao preencher essas lacunas, o professor não apenas ensina conteúdos de Língua Portuguesa ou Matemática, mas reconstrói a relação do aluno com o ato de aprender. Essa ressignificação é o primeiro passo para a ascensão social, pois permite que o estudante se perceba como sujeito capaz de transformar sua própria história. A escola pública, apesar das carências estruturais mencionadas, permanece como o principal, e por vezes único, espaço de acesso a bens culturais e oportunidades de desenvolvimento para as classes populares.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que se compreendeu como os professores da educação básica percebem a ascensão social como um processo gradual de transformação humana e acadêmica. O estudo evidenciou que a atuação docente nos programas de reforço pedagógico é fundamental para proporcionar equidade e mitigar desigualdades, utilizando o acolhimento e a adaptação metodológica como ferramentas de inclusão. A percepção dos educadores reforça que a escola desempenha um papel de bússola social, orientando os estudantes para trajetórias mais promissoras e autônomas. Embora existam limitações estruturais, o compromisso ético dos professores e a implementação de políticas públicas voltadas para o tempo integral e o apoio pedagógico mostram-se essenciais para que a educação cumpra sua função de promover a mobilidade social e a justiça coletiva.
Referências Bibliográficas:
ALCARÁ, J. S. P. (2014). As concepções de desigualdade social dos professores de uma escola pública com alto Ideb. Dissertação (Mestrado em Educação), Universidade Católica Dom Bosco, Campo Grande, MS.
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DURKHEIM, E. (1978). Educação e sociologia. São Paulo: Melhoramentos.
FREIRE, P. (1967). Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
GIL, A. C. (2008). Método e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas.
LIBÂNEO, José Carlos. (2013). Didática. 23. ed. São Paulo: Cortez.
MINAYO, M. C. de S. (2012). O desafio da pesquisa social. In: MINAYO, M. C. de S. et al. (orgs.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 32. ed. Petrópolis: Vozes.
MORAES, R.; GALIAZZI, M. do C. (2016). Análise textual discursiva. 3. ed. Ijuí: UNIJUÍ.
ONU. (2015). Organização das Nações Unidas. Transformando nosso mundo: a agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável.
PILETTI, Nelson. (1985). Sociologia da Educação. 2. ed. São Paulo: Ática.
VASCONCELOS, M. G. da S. (2015). Políticas públicas e atendimento educacional: o papel da Casa da Mamãe Margarida junto a crianças e adolescentes em situação de acolhimento e vulnerabilidade social. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Amazonas, Manaus.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em MBA em Gestão Escolar
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