18 de maio de 2026
Sustentabilidade e ESG na Engenharia Automotiva: Práticas e Percepções
Stefane Rodrigues de Figueiredo; Gabriela Scur Almudi
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
A crescente pressão exercida por diversos setores da sociedade, investidores e consumidores finais por práticas corporativas mais sustentáveis tem impulsionado organizações de múltiplos segmentos a incorporarem critérios ambientais, sociais e de governança em suas estratégias centrais e operações cotidianas. No âmbito da indústria automotiva, esse movimento adquire uma força singular diante dos desafios prementes associados à descarbonização, à transição para uma economia circular e à necessidade de inovação responsável, especialmente ao considerar o impacto ambiental expressivo que esse setor gera ao longo de todo o ciclo de vida de seus produtos (Porter; Kramer, 2011). O conceito de sustentabilidade, outrora restrito a ações periféricas de responsabilidade social, evoluiu para o modelo de gestão fundamentado nos pilares ambientais, sociais e de governança, orientando não apenas decisões de investimento no mercado financeiro, mas também processos produtivos internos e o desenvolvimento técnico de novos produtos. Nesse cenário complexo, a área de engenharia automotiva, historicamente focada em métricas de desempenho técnico, eficiência de custos e cumprimento de prazos, é cada vez mais instada a incorporar diretrizes sustentáveis desde as fases mais embrionárias dos projetos, buscando alinhar resultados de engenharia aos compromissos socioambientais assumidos pelas corporações (Silvius; Schipper, 2014).
A integração desses critérios ao ciclo de vida dos projetos automotivos permite uma abordagem mais estratégica, capaz de impulsionar a competitividade por meio da inovação e da conformidade regulatória antecipada (Hartley, 2021). No entanto, apesar do avanço conceitual e da disseminação do discurso institucional, persistem lacunas significativas entre as intenções declaradas pelas empresas e a aplicação prática dessas diretrizes nas rotinas técnicas de engenharia. Estudos indicam que muitas organizações enfrentam dificuldades severas para integrar os critérios de sustentabilidade de forma estruturada, seja pela ausência de indicadores de desempenho claros, pela resistência cultural interna ou pelo desconhecimento técnico sobre como operacionalizar tais conceitos no desenvolvimento de componentes e sistemas (Voltolini, 2022; PMI, 2021). A compreensão profunda de como os profissionais de engenharia percebem e aplicam esses princípios torna-se, portanto, essencial para mapear as práticas vigentes, identificar os obstáculos reais e vislumbrar oportunidades de avanço que alinhem a condução técnica dos projetos às demandas globais por responsabilidade socioambiental.
O desenvolvimento de um veículo segue um ciclo de engenharia rigoroso e bem estruturado, iniciando-se na fase de concepção, onde estudos de mercado e análises de viabilidade técnica e econômica definem os requisitos iniciais. Segue-se o desenvolvimento do produto, fase em que soluções técnicas são criadas e detalhadas por meio de ferramentas de auxílio computacional, como o desenho assistido por computador e a engenharia assistida por computador. A etapa subsequente de validação e prototipagem envolve a construção de protótipos físicos e a realização de testes exaustivos para garantir segurança, desempenho e conformidade normativa. A preparação industrial assegura que o processo fabril, incluindo layout produtivo e cadeia de suprimentos, esteja otimizado antes do marco decisivo do início da produção em série. Mesmo após o lançamento, o monitoramento contínuo do comportamento do veículo em campo fecha o ciclo de retroalimentação da engenharia. A inserção de critérios de sustentabilidade em cada uma dessas etapas é o que define a maturidade de uma organização frente aos desafios contemporâneos (Hartley, 2021).
Para investigar essa realidade, utilizou-se uma pesquisa de natureza aplicada com abordagem mista, combinando elementos quantitativos e qualitativos de caráter descritivo (Gil, 2008). O procedimento metodológico fundamentou-se na aplicação de um questionário estruturado, desenvolvido com base em referenciais teóricos consolidados sobre sustentabilidade corporativa e gestão de projetos (Silvius; Schipper, 2014; PMI, 2021; Voltolini, 2022). O instrumento de coleta foi organizado em quatro blocos distintos para garantir a profundidade da análise. O primeiro bloco dedicou-se a traçar o perfil socioprofissional dos respondentes, identificando o tempo de atuação e o nível de familiaridade com os conceitos de governança e sustentabilidade (Gil, 2008; Samperi; Collado; Lúcio, 2013). O segundo bloco focou no mapeamento das iniciativas práticas presentes nos projetos, subdividindo-se nos eixos ambiental, social e de governança, buscando investigar desde o uso de materiais recicláveis até a aplicação de princípios éticos e transparência nas decisões técnicas (Silvius; Schipper, 2014; Porter; Kramer, 2011). O terceiro bloco visou identificar as barreiras e oportunidades percebidas para a integração desses critérios, enquanto o quarto bloco consistiu em questões abertas para captar percepções subjetivas e sugestões de melhoria (Bardin, 2011).
A coleta de dados ocorreu de forma remota durante os meses de julho e agosto de 2025, utilizando a plataforma Google Forms para o envio de links de acesso via aplicativos de mensagens, garantindo o anonimato e a agilidade no preenchimento. A amostragem foi definida por conveniência, de caráter não probabilístico, abrangendo 15 profissionais atuantes na área de engenharia de uma empresa do setor automotivo, todos diretamente envolvidos com o desenvolvimento de produtos. O perfil da amostra revelou um grupo majoritariamente sênior, com a maior parte dos participantes possuindo mais de cinco anos de experiência direta em projetos de engenharia. Esse nível de senioridade é um fator relevante, pois a vivência prática acumulada permite uma visão mais crítica e fundamentada sobre a maturidade dos processos organizacionais e a eficácia das políticas implementadas (Gil, 2008). A análise dos dados quantitativos foi realizada por meio de estatística descritiva, utilizando frequências e porcentagens, enquanto as respostas abertas foram submetidas à técnica de análise de conteúdo temática, permitindo a identificação de padrões de resposta e categorias de percepção (Bardin, 2011). A combinação dessas técnicas permitiu uma triangulação de dados que reforça a consistência dos achados, conforme preconizado por Sampieri, Collado e Lucio (2013).
No que tange às práticas ambientais, os resultados revelaram uma percepção heterogênea entre os profissionais. Aproximadamente 53% dos respondentes consideram que as iniciativas ambientais na empresa são estruturadas, enquanto 27% as percebem apenas de forma pontual. Uma parcela de 7% indicou a inexistência de tais práticas e 13% não souberam opinar. Esse cenário evidencia que, embora a maioria identifique a presença de ações consistentes, ainda existe uma fragmentação na percepção da sustentabilidade, que muitas vezes é vista como uma série de ações isoladas e não como uma política transversal integrada à estratégia de engenharia (Voltolini, 2022). A participação direta em projetos voltados à redução de impacto ambiental foi confirmada por 66,7% dos profissionais, indicando que a temática já faz parte do cotidiano operacional de grande parte da equipe técnica. No entanto, o fato de mais de 26% não terem atuado em tais frentes sugere que a integração da sustentabilidade ainda não atingiu a totalidade dos processos e equipes, corroborando a tese de que a eficácia da gestão sustentável depende da incorporação desses princípios ao longo de todo o ciclo de vida do projeto (Silvius; Schipper, 2014).
A dimensão social apresentou-se como o pilar menos consolidado dentro da estrutura de projetos de engenharia. Embora 53% dos participantes reconheçam a existência de práticas sociais estruturadas, como programas de diversidade, segurança do trabalho e saúde ocupacional, a participação efetiva dos engenheiros nessas iniciativas é significativamente menor quando comparada ao eixo ambiental. Os dados mostraram que 53,3% dos profissionais declararam nunca ter participado de projetos que contemplem ações sociais de forma clara, enquanto apenas 26,7% confirmaram tal envolvimento. Essa disparidade reforça a percepção de que o eixo social é frequentemente tratado como um complemento institucional ou uma responsabilidade do departamento de recursos humanos, e não como uma variável estratégica a ser considerada no design e na gestão técnica dos produtos (Voltolini, 2022). A ausência de comunicação clara e de indicadores que tornem visível a contribuição social nos projetos de engenharia dificulta a criação de valor compartilhado, conceito defendido por Porter e Kramer (2011) como essencial para a competitividade moderna.
Quanto à governança, 46% dos respondentes identificam a presença de práticas formais nos projetos, enquanto 27% percebem apenas iniciativas informais. A governança é um pilar essencial para garantir a transparência, a ética e a rastreabilidade das decisões técnicas, sendo fundamental para a gestão de riscos em ambientes complexos como o automotivo (PMI, 2021). Contudo, a pesquisa indicou que essa dimensão é frequentemente menos tangível para o corpo técnico, sendo por vezes negligenciada em comparação às exigências ambientais mais imediatas. Ao analisar a integração das três frentes, 47% dos profissionais percebem um equilíbrio entre os pilares, mas 20% destacam a predominância da governança e outros 20% apontam o eixo ambiental como o mais presente. O pilar social foi citado como predominante por apenas 6,7% da amostra, o que confirma sua posição periférica nas prioridades da engenharia automotiva atual. Essa constatação dialoga com as dificuldades apontadas pela literatura em traduzir metas sociais em métricas concretas e mensuráveis dentro do ambiente técnico (Voltolini, 2022).
As práticas mais frequentemente observadas no cotidiano da empresa incluem a redução de emissões e do consumo de energia, citada por 86,7% dos respondentes, seguida pelo reaproveitamento de materiais e ações de diversidade e inclusão, ambas com 80% de menções. A governança e o compliance em decisões de projeto também atingiram o patamar de 80%, demonstrando que existem mecanismos de controle estabelecidos. Por outro lado, o diálogo com a comunidade local foi a prática menos citada, com apenas 26,7%, reforçando a fragilidade da conexão externa do pilar social. No campo dos obstáculos, o conflito com metas de custo e prazo emergiu como a principal barreira, apontada por 80% dos profissionais. A pressão por resultados financeiros imediatos muitas vezes se sobrepõe aos objetivos de sustentabilidade de longo prazo, criando um dilema ético e operacional para os gestores de projeto (Voltolini, 2022). Além disso, a falta de conhecimento técnico sobre como aplicar os critérios de sustentabilidade foi citada por 60% da amostra, enquanto a dificuldade de mensuração dos impactos foi mencionada por 53,3%. Esses dados sugerem que a consolidação da sustentabilidade na engenharia automotiva depende não apenas de vontade política, mas de um investimento robusto em capacitação técnica e no desenvolvimento de métricas confiáveis (Silvius; Schipper, 2014; PMI, 2021).
As sugestões oferecidas pelos profissionais para ampliar a integração da sustentabilidade concentram-se na necessidade de estabelecer indicadores de desempenho claros desde a fase de concepção dos projetos. A criação de metas específicas, como a redução de dióxido de carbono por veículo produzido, e o monitoramento sistêmico ao longo da execução são vistos como passos fundamentais. A demanda por maior divulgação, treinamentos contínuos e uma comunicação mais transparente sobre como cada colaborador contribui para as metas globais da empresa também foi recorrente, indicando que a cultura organizacional desempenha um papel determinante na consolidação dessas práticas (Voltolini, 2022). Além disso, a integração da sustentabilidade à estratégia central do negócio, e não como uma ação isolada, é percebida como o caminho para gerar valor compartilhado e aumentar a competitividade (Porter; Kramer, 2011). Fatores externos, como políticas governamentais de incentivo e o contexto macroeconômico, também foram citados como influenciadores da velocidade de adoção dessas diretrizes.
Sobre a evolução futura, a percepção é predominantemente positiva, impulsionada pela descarbonização e pela transição energética. O avanço dos veículos elétricos e híbridos, o investimento em baterias mais eficientes e a aplicação de conceitos de economia circular são vistos como vetores inevitáveis de transformação do setor (Neder, 2022). A pressão regulatória e a crescente consciência dos consumidores são apontadas como forças que moldarão a competitividade das empresas nos próximos anos. Muitos profissionais já enxergam a aplicação de conceitos para minimizar impactos desde a concepção dos produtos como uma realidade crescente, o que demonstra um alinhamento progressivo com a necessidade de incorporar a sustentabilidade ao ciclo de vida completo dos projetos (Silvius; Schipper, 2014). Entretanto, há uma visão cautelosa que condiciona esse avanço ao fortalecimento da maturidade organizacional e à capacidade das empresas em equilibrar os custos de inovação com as responsabilidades socioambientais.
A análise detalhada dos dados permite concluir que a indústria automotiva se encontra em um estágio de transição, onde o discurso da sustentabilidade começa a se materializar em práticas de engenharia, mas ainda de forma desigual entre os pilares. Enquanto as questões ambientais e de governança possuem mecanismos de controle e execução mais visíveis, o pilar social carece de integração estratégica e operacional. A superação das barreiras de custo e a lacuna de conhecimento técnico são os desafios imediatos para que a gestão de projetos evolua de um modelo tradicional para um modelo genuinamente sustentável. A amostra de 15 profissionais, embora restrita numericamente, ofereceu uma visão representativa e qualificada devido à experiência sênior dos participantes e à vivência prática no setor, permitindo identificar tendências que podem ser aprofundadas em estudos futuros com amostras mais amplas e diversificadas.
Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que se identificou que as práticas ambientais e de governança estão mais consolidadas na engenharia automotiva do que as sociais, sendo o conflito com metas de custo e a falta de conhecimento técnico as principais barreiras para uma integração plena. O estudo evidenciou que a evolução da sustentabilidade no setor é percebida como um caminho irreversível, fortemente atrelado à descarbonização e à inovação tecnológica, mas que demanda o fortalecimento da cultura organizacional, a definição de indicadores claros e um suporte estratégico que equilibre o desempenho econômico com o impacto socioambiental positivo.
Referências Bibliográficas:
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. 1. ed. São Paulo: Edições 70, 2011.
GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
HARTLEY, J. R. Project Management: Principles, Processes and Practices. 2. ed. New York: Routledge, 2021.
NEDER, Thulyo Nascimento. Desafios e perspectivas da transição na indústria automotiva. 2022. Monografia (Graduação em Engenharia Mecânica) – Universidade Federal de Ouro Preto, Ouro Preto, 2022.
PMI – PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. Um guia do conjunto de conhecimentos em gerenciamento de projetos (Guia PMBOK®). 7. ed. Newtown Square, PA: Project Management Institute, 2021.
PORTER, Michael E.; KRAMER, Mark R. Creating shared value. Harvard Business Review, v. 89, n. 1/2, p. 62–77, 2011.
SAMPERI, Roberto Hernández; COLLADO, Carlos Fernández; LUCIO, Pilar Baptista. Metodologia de pesquisa. 5. ed. Porto Alegre: Penso, 2013.
SAMPERI, Roberto Hernández; COLLADO, Carlos Fernández; LUCIO, Pilar Baptista. Metodologia de pesquisa. 5. ed. Porto Alegre: Penso, 2013.
SILVIUS, Gilbert; SCHIPPER, Ron. Sustainability in project management: a literature review and impact analysis. Social and Behavioral Sciences, v. 119, p. 387–395, 2014.
VOLTOLINI, Ricardo. ESG – Ambiental, Social e Governança: o que é e como implementar. 1. ed. São Paulo: Ideia Sustentável, 2022.
Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Gestão de Projetos do MBA USP/Esalq
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