Resumo Executivo

25 de maio de 2026

Análise de Custo da Produção Leiteira Familiar em Muriaé/MG entre 2019 e 2024

Thainá Paredes da Silva; Risely Ferraz Almeida

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo analisou os custos de produção de leite em propriedades de agricultura familiar em Muriaé, Minas Gerais, com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) de 2019 a 2024. O objetivo foi fornecer um quadro da estrutura de custos e perspectivas financeiras para o pequeno produtor, identificando gargalos e a viabilidade econômica da atividade em um período de instabilidades mercadológicas e climáticas. A análise dos componentes de custo, incluindo custos de oportunidade, avalia a rentabilidade e a sustentabilidade do negócio leiteiro familiar na região.

A produção de leite no Brasil envolve mais de um milhão de propriedades, majoritariamente de pequeno e médio porte, em diversos estágios de modernização (Ministério da Agricultura e Pecuária [MAPA], 2025). O setor enfrenta uma transição com projeções de maior concentração e ganhos de eficiência até 2030. Nesse cenário, a permanência dos produtores na atividade está ligada à sua capacidade de adaptação a novas tecnologias, melhorias na gestão e otimização da eficiência técnica e econômica (Araujo et al., 2021). Um desafio crítico é o custo da alimentação do rebanho, que pode representar até 60% dos custos totais. A formulação de uma dieta estratégica, alinhada aos requerimentos nutricionais, é crucial para a produtividade e a lucratividade do empreendimento (Carvalho et al., 2021).

Para superar esses desafios, é indispensável uma gestão robusta, com planejamento, organização, execução e controle zootécnico e econômico. A ausência de registros sistemáticos sobre os animais e a produção é uma falha comum em muitas fazendas, o que impede decisões assertivas (Ferreira e Miranda, 2007). Adicionalmente, o baixo nível de conhecimento técnico de muitos produtores e a carência de assistência especializada limitam o potencial de crescimento (Ervilha et al., 2018). Registrar, quantificar e monitorar os dados da propriedade permite ao produtor identificar pontos de melhoria e tomar decisões estratégicas (Vinholis e Mori, 2022). A gestão é a busca contínua pelos melhores resultados com os recursos disponíveis, sendo o planejamento o alicerce para a definição de objetivos, meios e prazos (Renz, 2023).

A análise do custo de produção de leite é um indicador essencial para avaliar a rentabilidade e para o planejamento estratégico. A partir desse indicador, o gestor pode determinar a produção mínima para cobrir os custos totais, alcançando o ponto de equilíbrio onde a receita se iguala às despesas (Carneiro et al., 2012). A simples ampliação do rebanho ou da produção, sem planejamento, não garante a lucratividade, pois um aumento desordenado pode gerar um crescimento incompatível dos custos. A chave para resultados econômicos satisfatórios reside na busca por uma escala produtiva ótima, que permita diluir os custos fixos sobre uma maior quantidade de litros de leite, otimizando a interação entre fatores zootécnicos e econômicos (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil [CNA], 2024).

A qualificação dos produtores, o aumento da escala de produção e a redução de custos influenciam diretamente a eficiência das propriedades. Uma estrutura de gestão bem definida proporciona maior estabilidade financeira e resiliência para enfrentar os riscos da atividade, como a volatilidade dos preços, políticas públicas e a necessidade de inovação (Bassotto et al., 2022). Este estudo, ao analisar os custos de produção em Muriaé, visa auxiliar o pequeno produtor a compreender a dinâmica de seu negócio, oferecendo uma base de dados para aprimorar sua gestão.

O estudo foi conduzido com base em dados secundários da CONAB (2025a), que forneceu estimativas de custo de produção para propriedades de agricultura familiar em Muriaé, Minas Gerais, de 2019 a 2024. A região, localizada na Zona da Mata Mineira, possui clima Cwa (subtropical úmido com inverno seco e verão quente) e forte presença da agropecuária (Alvares et al., 2013). A bovinocultura de leite é uma atividade predominante, caracterizada por pequenas propriedades de mão de obra familiar. A raça Girolando é a mais comum, e o manejo nutricional é a base de pasto, suplementado com sal mineral, concentrado e silagem (Vasconcelos e Schilindwein, 2018). A produção diária média nas propriedades monitoradas foi fixada em 162 litros, com os custos estimados com base nos preços de março de cada ano.

A metodologia de cálculo de custo de produção da CONAB (2020) divide os custos em explícitos (desembolso efetivo) e implícitos (custos de oportunidade e depreciação). Os componentes econômicos são categorizados em custo variável, custo fixo, custo operacional, renda de fatores e custo total. O custo variável inclui itens que variam com o volume de produção, como insumos (Bacic et al., 2011). O custo fixo engloba despesas que independem do nível de produção a curto prazo, como depreciações (Crepaldi, 2016). O custo operacional é a soma dos custos variáveis e fixos, sendo um indicador de viabilidade a médio prazo. A renda de fatores representa a remuneração esperada sobre o capital fixo e a terra, um custo de oportunidade para avaliar a atratividade do investimento (Beuren, 1993). O custo total, que abrange o custo operacional e a renda de fatores, demonstra a viabilidade econômica da atividade a longo prazo.

Para a análise de viabilidade financeira, o estudo simulou um projeto de investimento de dez anos, considerando os indicadores Valor Presente Líquido (VPL), Taxa Interna de Retorno (TIR) e Payback. O VPL mede o lucro líquido de um investimento a valor presente; um VPL positivo indica que o projeto cria valor (Higgins, 2007). A TIR é a taxa de desconto que zera o VPL; um projeto é rentável se sua TIR for superior à Taxa Mínima de Atratividade (TMA) (Gitman, 2010). O Payback indica o tempo para recuperar o investimento inicial (Casarotto Filho e Kopittke, 2007). A TMA utilizada foi de 8,34%, calculada com base na média da taxa SELIC no período, conforme dados do Banco Central do Brasil (BCB, 2025b).

A simulação foi estruturada em três projeções de receita: negativa, intermediária e positiva, utilizando, respectivamente, os preços mínimo, médio e máximo do leite pagos aos produtores na região de Muriaé entre 2019 e 2024. Essa abordagem permitiu avaliar a sensibilidade do projeto às flutuações de preço, um dos fatores de maior impacto na rentabilidade. A análise desses indicadores fornece uma visão sobre se o investimento na atividade leiteira, nas condições estudadas, é capaz de remunerar o capital e gerar riqueza para o produtor.

Os resultados demonstraram um aumento nos custos variáveis de R$ 65.928,40 em 2019 para R$ 102.749,20 anuais em 2024. O crescimento mais acentuado ocorreu em 2021 (22,52%), seguido por um aumento de 17,98% em 2022. Este cenário foi impulsionado pela volatilidade nos preços de insumos, influenciada pela alta do dólar, conflitos internacionais, a crise da COVID-19 e eventos climáticos (Barreto, 2020; Martins et al., 2022). Os principais componentes que pressionaram os custos variáveis foram a mão de obra e o concentrado. De forma atípica, o custo com mão de obra superou o de concentrado, representando em média 30,7% dos custos de custeio, enquanto a alimentação concentrada representou 17,7%. Geralmente, a alimentação é o item mais oneroso (Carneiro et al., 2012). O custo com concentrado teve um aumento de 66,1% em 2021, refletindo a alta nos preços do milho e da soja (Monteiro, 2022).

Os custos fixos também apresentaram trajetória ascendente, impulsionados pela depreciação de benfeitorias, máquinas e, a partir de 2022, de forrageiras não anuais. A depreciação total cresceu de R$ 11.285,70 em 2019 para R$ 29.477,80 em 2024. Outro componente relevante foram os encargos sociais, que representaram, em média, 80,57% dos outros custos fixos, crescendo com os reajustes do salário-mínimo. A renda de fatores, que representa o custo de oportunidade do capital e da terra, atingiu seu pico em 2023, totalizando R$ 47.193,20. Esse aumento foi influenciado pela elevação da taxa de poupança e por maior investimento em áreas produtivas (BCB, 2025a).

A análise do custo total revelou que os custos variáveis foram o componente mais significativo, representando entre 54,72% e 69,55% do custo total no período. O aumento dos custos de produção em 2021 pode ser relacionado às altas taxas de inflação globais decorrentes da pandemia, que encareceram os insumos agrícolas (Carvalho e Pina, 2021). Em 2022 e 2023, os efeitos de conflitos na Europa e no Oriente Médio, somados a eventos climáticos como La Niña e El Niño, adicionaram pressão sobre os custos, limitando a capacidade financeira dos produtores (Castro, 2023; Grigol, 2022).

Ao comparar o custo total com a receita da venda de leite, a análise de viabilidade mostrou um cenário preocupante. Apenas o ano de 2021 apresentou viabilidade econômica e financeira a longo prazo, com a receita superando o custo total. Nos anos de 2020 a 2024, a receita foi suficiente para cobrir apenas os custos operacionais, indicando uma viabilidade de médio prazo, mas sem remunerar o capital do produtor. O ano de 2019 foi o mais crítico, com a receita cobrindo apenas os custos variáveis, revelando altíssima vulnerabilidade financeira. Essa condição; a receita não cobre os custos operacionais, sinaliza a insustentabilidade do negócio se mantida a longo prazo (Santos et al., 2009).

A simulação de viabilidade para um projeto de dez anos reforçou essa percepção de fragilidade. Na projeção intermediária, que utilizou o preço médio do leite, o VPL foi negativo em R$ -44.384,50, a TIR foi nula (0%) e o Payback descontado ultrapassou os 10 anos. A projeção negativa apresentou resultados piores, com um VPL de R$ -193.938,70. Esses indicadores demonstram que, sob condições de preço médio ou baixo, o investimento não se paga e destrói valor para o produtor.

Apenas a projeção positiva, baseada nos preços máximos de leite, mostrou-se economicamente viável. Nesse cenário, o VPL foi positivo em R$ 127.562,10, a TIR foi de 25%, superando a TMA de 8,34%, e o investimento foi recuperado em aproximadamente cinco anos (Payback descontado). Este resultado evidencia a extrema dependência da atividade leiteira familiar de picos de preço no mercado para alcançar a rentabilidade. Como destacado por Zulpo e Carvalho (2020), o preço do litro do leite é uma das variáveis que mais sensibilizam o sistema produtivo, podendo determinar a viabilidade ou inviabilidade de um projeto.

A análise dos dados revela que a atividade leiteira em Muriaé, para o perfil de produtor estudado, enfrentou um período de grande instabilidade econômica. Os custos de produção, inflados por um cenário macroeconômico adverso, superaram as receitas na maior parte do tempo, resultando em prejuízos. Os principais gargalos identificados foram o elevado custo com mão de obra, que superou os gastos com alimentação, e uma aparente estagnação na produtividade, que impediu a diluição dos custos fixos. A dependência de preços de venda elevados para atingir a viabilidade financeira expõe a alta vulnerabilidade do pequeno produtor.

Para mitigar os prejuízos e viabilizar a atividade, são necessárias mudanças gerenciais estratégicas. Sugere-se o enxugamento de gastos incompatíveis com a escala de produção, a busca por maior poder de barganha através de cooperativas para a compra de insumos, e o investimento em assistência técnica para otimizar a nutrição animal e melhorar os índices de conversão alimentar. Adicionalmente, a adoção de práticas de melhoramento genético, a redução do intervalo entre partos e o investimento em biossegurança podem aumentar a eficiência produtiva. A capacitação contínua dos produtores em gestão rural é fundamental para aprimorar a tomada de decisões e garantir a sustentabilidade do negócio.

Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que o custo de produção de leite em propriedades de agricultura familiar em Muriaé/MG, entre 2019 e 2024, superou as receitas na maior parte do período, tornando a atividade economicamente instável e altamente dependente de preços de venda elevados para alcançar a viabilidade.

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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Agronegócios do MBA USP/Esalq

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