Resumo Executivo

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25 de março de 2026

Saúde mental no campo: endividamento e instabilidade climática

Anaylen Violin; Pedro Henrique Rodrigues da Silva

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

O agronegócio brasileiro consolidou-se, ao longo das últimas décadas, como um dos pilares fundamentais da economia nacional, sendo responsável por aproximadamente 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Em termos monetários, essa relevância traduziu-se, no ano de 2024, em uma movimentação superior a R$ 2,7 trilhões, dos quais R$ 1,9 trilhão originaram-se especificamente do ramo agrícola (CNA, 2024). No entanto, por trás desses números superlativos que garantem a segurança alimentar e o saldo positivo da balança comercial, existe uma realidade humana marcada por vulnerabilidades crescentes. Enquanto o PIB nacional apresentou um crescimento de 3,4% no período recente, o setor agropecuário enfrentou uma retração de 3,2% em comparação ao ano anterior (CNA, 2024). Essa retração não é um dado isolado, mas o reflexo de uma instabilidade produtiva, financeira e, sobretudo, climática que tem pressionado o cotidiano de quem produz. Eventos climáticos extremos, como estiagens prolongadas e incêndios, provocaram perdas severas na produção de grãos, que recuou 7,2%, e no setor sucroalcooleiro, onde as perdas superaram 60% em determinadas regiões do estado de São Paulo (IBGE, 2024). Tais fenômenos comprometem a sustentabilidade financeira das propriedades e elevam os índices de endividamento, que já atingem 45% dos agricultores brasileiros, com impacto mais profundo sobre os pequenos e médios produtores (CNA, 2022).

A complexidade desse cenário configura o que se pode denominar como uma crise silenciosa no campo. Não se trata apenas de um desequilíbrio contábil ou de uma quebra de safra sazonal, mas de um fenômeno que atinge a integridade psíquica do trabalhador rural. No estado de São Paulo, especificamente na região de Birigui, a predominância de propriedades familiares intensifica essas vulnerabilidades, pois a oscilação dos preços de insumos e os altos custos de produção fundem-se à vida doméstica, transformando o prejuízo econômico em sofrimento emocional. A sensação de impotência diante de fatores incontroláveis, como o clima, e o medo constante da incapacidade de quitar dívidas bancárias geram um estado de exaustão mental. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que o Brasil possui a maior prevalência de depressão da América Latina, atingindo 5,8% da população (OMS, 2023). No meio rural, contudo, esses índices tendem a ser ainda mais alarmantes. Entre os anos de 2007 e 2015, o país registrou mais de 77 mil suicídios, e a taxa de mortalidade por essa causa no setor agropecuário foi identificada como sendo o dobro da média nacional (RIGOTTO, 2019). Instituições de pesquisa apontam que 36% dos produtores rurais manifestam sinais claros de depressão, um contraste severo quando comparado aos 15% observados na população geral (FIOCRUZ, 2022).

A saúde mental no campo permanece como um tema de alta relevância social e científica, embora ainda receba pouca atenção nas formulações de políticas públicas. A sustentabilidade do agronegócio depende não apenas de tecnologia e crédito, mas da saúde daqueles que operam o sistema produtivo. A realidade observada na região de Birigui reflete um quadro de fragilidade econômica e emocional que demanda uma análise técnica rigorosa. O sofrimento psíquico do agricultor é alimentado por um ciclo de incertezas que envolvem desde a preparação do solo até a comercialização final, passando por variáveis climáticas que fogem a qualquer planejamento técnico. O estigma associado às doenças mentais no meio rural, onde a figura do produtor é historicamente ligada à força e à resiliência inabalável, dificulta a busca por auxílio profissional e perpetua o isolamento. Portanto, compreender os fatores econômicos, climáticos e institucionais que contribuem para esse quadro é essencial para garantir a continuidade da atividade produtiva e a dignidade humana no ambiente rural.

Para investigar essa problemática, adotou-se uma abordagem quali-quantitativa de natureza exploratória e descritiva. O delineamento exploratório foi fundamental para ampliar a compreensão sobre um tema que ainda possui pouca densidade de estudos no meio acadêmico brasileiro, especialmente no que tange à correlação direta entre endividamento agrícola e patologias mentais. A vertente descritiva permitiu a caracterização detalhada das condições socioeconômicas e psicológicas da população estudada. A integração de dados numéricos com a interpretação das percepções dos produtores possibilitou uma visão holística do fenômeno. O processo metodológico foi estruturado em duas etapas complementares: uma revisão narrativa da literatura e uma pesquisa de campo direta com os agentes envolvidos na produção rural.

A revisão bibliográfica fundamentou-se em critérios de atualidade e relevância, abrangendo o período de 2010 a 2024. Foram consultadas bases de dados como SciELO, Google Acadêmico e a Biblioteca Virtual em Saúde, além de relatórios técnicos de órgãos oficiais como o Ministério da Agricultura e Pecuária, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil. O material coletado foi submetido a um fichamento temático, organizado em quatro eixos analíticos: o eixo econômico-financeiro, focado em endividamento e preços; o eixo climático-ambiental, tratando de perdas produtivas; o eixo social-institucional, referente ao apoio público; e o eixo cultural-psicológico, que aborda o estigma e a percepção de saúde. Essa estrutura permitiu confrontar a teoria existente com os dados empíricos coletados posteriormente.

A pesquisa de campo consistiu na aplicação de um questionário estruturado, desenvolvido especificamente para este fim, intitulado Perfil Socioeconômico. O instrumento foi composto por 17 questões, mesclando perguntas abertas e fechadas, distribuídas em blocos temáticos que visavam capturar desde o perfil demográfico até sintomas clínicos de sofrimento psíquico. No primeiro bloco, coletaram-se dados sobre idade, gênero, escolaridade, tempo de atividade e regime de posse da terra. O segundo bloco aprofundou a análise sobre o uso do crédito rural, investigando a frequência de tomada de empréstimos, as finalidades do recurso, as dificuldades encontradas no acesso bancário e o nível de endividamento atual. O terceiro bloco focou na saúde mental, questionando a presença de sintomas como ansiedade, insônia e desânimo, além de avaliar a percepção do produtor sobre o reconhecimento social de seu trabalho e o suporte recebido das instituições.

A coleta de dados ocorreu de forma presencial durante o ano de 2024, aproveitando visitas técnicas e atendimentos de rotina realizados junto aos produtores da região de Birigui. A amostra, definida por conveniência e de caráter não probabilístico, contou com a participação voluntária de 52 produtores rurais que aceitaram formalmente contribuir com o estudo. O anonimato e a confidencialidade foram rigorosamente preservados. A escolha por Birigui justificou-se pela relevância econômica da região para o agronegócio paulista e pela predominância de produtores de médio e pequeno porte, que são estatisticamente mais vulneráveis às oscilações de mercado e clima. Os dados quantitativos foram processados por meio de análise descritiva, utilizando frequências e percentuais, enquanto as respostas qualitativas foram interpretadas à luz dos eixos de risco definidos na fase bibliográfica. Embora o tamanho da amostra limite a generalização estatística para todo o território nacional, a triangulação de métodos conferiu validade interna e profundidade aos achados, permitindo identificar padrões de comportamento e sofrimento que ecoam em outras regiões produtoras.

Os resultados obtidos revelam que a saúde mental dos produtores rurais em Birigui é impactada por uma rede multifatorial de pressões. A análise do perfil dos 52 entrevistados indicou uma predominância masculina absoluta de 98%, com uma idade média de 56 anos. Quanto à escolaridade, a maioria concentra-se nos níveis fundamental e médio, o que pode influenciar a capacidade de gestão financeira e a compreensão de mecanismos complexos de crédito e seguro rural. A agricultura é a principal fonte de renda para 78,8% da amostra, seguida pela pecuária com 13,5% e pela produção de leite com 7,7%. Um dado alarmante é que 100% dos participantes já recorreram ao crédito rural em algum momento de sua trajetória produtiva. A frequência de uso desse recurso é considerada alta para 51% dos produtores, média para 19,2% e baixa para 30,7%. O destino principal do crédito é o custeio agrícola, citado por 80,6% dos respondentes, o que demonstra uma dependência estrutural de capital externo para a manutenção básica das atividades safristas.

A relação com as instituições financeiras, entretanto, é marcada por obstáculos. Cerca de 26% dos produtores relataram dificuldades significativas no acesso ao crédito, destacando a exigência excessiva de garantias reais (17,3%), a demora burocrática na liberação dos recursos (5,7%) e as taxas de juros elevadas (1,9%). Apenas 28% dos entrevistados consideram que o crédito recebido é adequado às suas necessidades reais de produção e sobrevivência. Essa inadequação entre a necessidade do campo e a oferta bancária alimenta um ciclo de endividamento recorrente. Constatou-se que 15,5% dos produtores possuem inadimplências que se arrastam por mais de um ano, e 57,6% realizam a maioria de suas compras de insumos a prazo, enquanto apenas 26,9% conseguem efetuar pagamentos à vista. Essa vulnerabilidade financeira correlaciona-se diretamente com os indicadores de saúde mental: 71,2% dos produtores entrevistados relataram sintomas persistentes de ansiedade e dificuldade para dormir, associando esses quadros à pressão por honrar compromissos financeiros e ao medo da perda do patrimônio familiar.

A instabilidade financeira atua como um gatilho para um ciclo de desesperança. Quando o produtor não consegue vislumbrar uma saída para suas dívidas, sua autoestima e capacidade de planejamento futuro são severamente afetadas. Esse cenário é agravado pela falta de acesso a serviços de atenção psicossocial no meio rural. O isolamento geográfico e a ausência de políticas públicas voltadas especificamente para a saúde do trabalhador do campo contribuem para que o sofrimento permaneça invisível. A literatura técnica reforça que a instabilidade financeira recorrente, especialmente entre pequenos produtores, desencadeia sentimentos de fracasso e angústia crônica (BRZOZOWSKI, 2017). A ausência de mecanismos de renegociação de dívidas mais humanos e a falta de um seguro rural que cubra efetivamente as perdas deixam o agricultor em uma posição de abandono institucional.

No eixo climático-ambiental, os dados de 2024 corroboram a percepção de risco elevado. A retração de 3,2% no setor agropecuário nacional, impulsionada por secas e incêndios, teve reflexos diretos na região de São Paulo, onde a produção de cana-de-açúcar sofreu reduções de até 60% em algumas localidades (IBGE, 2024). Para o produtor rural, a perda da safra devido a fatores climáticos não representa apenas um prejuízo financeiro, mas uma violação de seu esforço e dedicação. A exposição recorrente a desastres ambientais está intimamente ligada ao surgimento de transtornos de ansiedade generalizada e estresse pós-traumático (OMS, 2023). A sensação de impotência é o sentimento predominante quando o trabalho de meses é destruído em poucos dias por uma geada ou uma estiagem severa. A falta de previsibilidade climática, somada à ausência de um seguro rural abrangente, gera um estado de alerta constante que impede o relaxamento e o descanso mental.

O componente social e institucional também se mostrou determinante na configuração da crise. Apenas uma pequena parcela dos agricultores recebe acompanhamento técnico ou psicossocial contínuo (MAPA, 2023). O sentimento de invisibilidade foi relatado por grande parte dos entrevistados em Birigui, que sentem que seu papel fundamental na economia não é devidamente reconhecido pela sociedade urbana ou pelo poder público. Essa desvalorização acentua o sentimento de inutilidade e pode evoluir para quadros graves de depressão e ideação suicida. A invisibilidade histórica do sofrimento psíquico no campo é sustentada por um estigma cultural que valoriza a autossuficiência extrema. Na cultura rural, admitir uma fragilidade emocional é muitas vezes interpretado como sinal de fraqueza, o que silencia o produtor e o afasta dos serviços de saúde, mesmo quando estes estão disponíveis. Pesquisas indicam que, embora 36% dos trabalhadores rurais apresentem sintomas depressivos, a maioria evita procurar atendimento por vergonha ou medo do julgamento de seus pares (FIOCRUZ, 2022).

A análise integrada dos dados revela que o endividamento, a perda de renda por causas climáticas e o isolamento institucional formam um contexto sinérgico que favorece o surgimento de transtornos mentais. A dependência do crédito, aliada à dificuldade de acesso a condições justas de financiamento, amplia a vulnerabilidade emocional. A correlação entre a inadimplência e a insônia, relatada por mais de 70% da amostra, confirma que as pressões econômicas são o principal motor do sofrimento psíquico. O produtor rural vive sob a égide de uma produtividade exigida pelo mercado, mas sem as garantias mínimas de proteção social e mental. A pressão cultural por sucesso e a dificuldade de expressão emocional, especialmente entre os homens que compõem a quase totalidade da força de trabalho na região estudada, resultam em transtornos internalizados que muitas vezes culminam em uso abusivo de substâncias ou em atos extremos contra a própria vida.

Diante desse panorama, torna-se evidente que a crise vivida pelos produtores rurais ultrapassa as fronteiras da economia e do clima, configurando-se como uma emergência de saúde pública. Os indicadores de risco identificados — endividamento recorrente, perdas por eventos extremos, falta de apoio institucional e estigma cultural — convergem para um quadro de sofrimento que compromete a sustentabilidade do agronegócio a longo prazo. A saúde mental não pode ser tratada como um tema secundário, mas como um componente essencial da viabilidade produtiva. A vulnerabilidade econômica descrita por autores como Del Grossi (2018) está intrinsecamente ligada ao aumento de sintomas depressivos, especialmente quando o retorno das safras é insuficiente para cobrir os investimentos realizados. A necessidade de políticas públicas integradas, que unam assistência técnica agrícola com suporte psicossocial, é urgente.

A promoção da saúde mental no campo exige uma mudança de paradigma. É necessário desconstruir a imagem do produtor rural como um ser infalível e reconhecer sua humanidade e suas limitações diante de um sistema produtivo cada vez mais exigente e um clima cada vez mais hostil. Programas de capacitação que incluam educação financeira podem auxiliar na gestão das dívidas e reduzir a ansiedade relacionada ao crédito. Simultaneamente, a criação de redes de apoio psicossocial itinerantes, que cheguem até as propriedades rurais, pode romper o ciclo de isolamento e silenciamento. O fortalecimento do seguro rural e a criação de mecanismos de renegociação de dívidas que considerem as especificidades das perdas climáticas são medidas fundamentais para reduzir a pressão sobre o produtor. A valorização do agricultor como agente fundamental do desenvolvimento nacional deve passar, obrigatoriamente, pelo cuidado com sua integridade mental e emocional.

Conclui-se que o objetivo foi atingido, uma vez que a análise identificou o endividamento crescente, a instabilidade climática e a ausência de suporte institucional como os principais vetores do sofrimento psíquico entre os produtores rurais da região de Birigui. Os dados demonstraram que a crise financeira atua como o gatilho primário para sintomas de ansiedade e insônia, afetando a vasta maioria dos entrevistados e evidenciando uma correlação direta entre a saúde do caixa da propriedade e a saúde mental do produtor. A pesquisa reforçou a necessidade imperativa de políticas públicas interdisciplinares que integrem assistência técnica, educação financeira e suporte psicossocial, visando romper o estigma cultural e garantir que o produtor rural disponha de condições dignas para manter sua produtividade e seu equilíbrio emocional diante das adversidades inerentes ao setor.

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA). Brasília, 2024. Disponível em: https://www.ibge.gov.br. Acesso em: 10 jun. 2025.

BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Relatórios técnicos e informações estatísticas. Brasília, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura. Acesso em: 10 jun. 2025.

BRZOZOWSKI, F. S. Saúde mental e trabalho: sofrimento psíquico e suicídio no meio rural. In: SEMINÁRIO NACIONAL DE SAÚDE MENTAL E TRABALHO, 2019, Brasília. Anais…. Brasília: Ministério da Saúde, 2019.

CONFEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO BRASIL. Anuário da Agricultura Brasileira 2024. Brasília: CNA, 2024. Disponível em: https://www.cnabrasil.org.br. Acesso em: 08 jun. 2025.

CONFEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO BRASIL. Anuário da Agricultura Brasileira 2024. Brasília: CNA, 2024. Disponível em: https://www.cnabrasil.org.br. Acesso em: 08 jun. 2025.

DEL GROSSI, Mauro. A situação da agricultura familiar no Brasil e os desafios para o futuro. Cadernos de Estudos e Debates, Brasília, n. 7, p. 13-29, 2018.

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Saúde mental e ruralidades: relatório técnico. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2022. Disponível em: https://www.fiocruz.br. Acesso em: 08 jun. 2025.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Depressão: o que é e como tratar. Genebra, 2023. Disponível em: https://www.who.int. Acesso em: 08 jun. 2025.

RIGOTTO, R. Trabalho rural, saúde mental e suicídio: contribuições para a vigilância em saúde. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, São Paulo, v. 44, 2019. DOI: 10.1590/2317-6369000017319.

Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de MBA em Agronegócios

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