Imagem Relação entre alavancagem financeira e desempenho de empresas brasileiras do setor de proteínas

19 de fevereiro de 2026

Relação entre alavancagem financeira e desempenho de empresas brasileiras do setor de proteínas

Thalita Cristina Domenici; Marco Antonio Alves de Souza Junior

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

O objetivo deste estudo é analisar o impacto da alavancagem financeira no desempenho econômico-financeiro de três empresas brasileiras de capital aberto do setor de proteínas (Empresa A, B e C) de 2018 a 2023. A pesquisa busca identificar como diferentes estratégias de endividamento influenciam indicadores de rentabilidade, liquidez, risco e estrutura de capital, fornecendo uma visão comparativa sobre a gestão financeira no setor. A análise visa oferecer subsídios para gestores e investidores sobre as implicações das decisões de financiamento no valor e sustentabilidade das organizações, especialmente em um ambiente macroeconômico de juros e demanda voláteis.

A alavancagem financeira é uma ferramenta para potencializar investimentos com capital de terceiros. A premissa, segundo Brigham & Ehrhardt (2017), é que o retorno dos ativos financiados supere o custo da dívida. Contudo, a estratégia eleva o risco financeiro ao aumentar os compromissos fixos, o que pode pressionar a liquidez e comprometer a solvência em cenários adversos (Assaf Neto, 2020). Em um contexto de volatilidade das taxas de juros no Brasil, a compreensão da dinâmica entre alavancagem e desempenho é crucial. Juros baixos podem incentivar o endividamento, mas exigem rigor na gestão de riscos para assegurar a estabilidade dos resultados.

A literatura acadêmica explora a relação entre estrutura de capital e performance. Estudos como o de Albuquerque (2013) apontam que alto endividamento pode restringir o crescimento de empresas brasileiras não financeiras. No agronegócio, Leite, Guse e Hein (2017) demonstram que a alavancagem pode ser benéfica ou prejudicial, dependendo das condições econômicas. A importância da estrutura de capital é reforçada por Vieira et al. (2016). Pesquisas recentes, como a de Silva e Pereira (2022), indicam que a redução da Selic reconfigurou o financiamento das empresas no Brasil, incentivando o uso de capital de terceiros. No entanto, Costa e Almeida (2023) alertam que, embora o endividamento possa impulsionar retornos, ele amplifica o risco financeiro, demandando gestão criteriosa.

O cenário recente acentua a relevância do tema. Um estudo da FTI Consulting (2024) revelou que o risco médio de inadimplência das empresas brasileiras atingiu seu maior nível histórico. Fatores como instabilidade cambial e juros elevados em mercados globais exigem cautela. O setor de proteínas, intensivo em capital e influenciado por variáveis como câmbio e preços de commodities, torna a gestão da alavancagem um fator crítico de sucesso. A capacidade de equilibrar o uso de dívida para financiar expansão sem comprometer a saúde financeira é um diferencial competitivo.

A pesquisa se justifica pela necessidade de aprofundar o entendimento sobre os efeitos da alavancagem em um setor vital para a economia. Ao analisar e comparar as estratégias de três líderes de mercado, o estudo oferece insights sobre como as decisões de financiamento se traduzem em desempenho. A análise comparativa permite identificar padrões e melhores práticas, contribuindo para a tomada de decisão de gestores, que buscam otimizar a estrutura de capital, e de investidores, que avaliam o perfil de risco-retorno. A investigação fornece uma base empírica para compreender as interações entre dívida, risco e rentabilidade no setor de proteínas.

A metodologia é quantitativa, descritiva e comparativa, analisando três empresas de capital aberto do setor de proteínas (A, B e C). A pesquisa baseou-se em dados secundários de balanços patrimoniais, DREs, DFCs e relatórios de administração, coletados nos sites de relações com investidores das companhias. O período de coleta abrangeu de 2018 a 2023, permitindo uma análise longitudinal das tendências.

Para a análise, foram calculados indicadores econômico-financeiros. A alavancagem financeira foi medida pela relação Passivo Oneroso/Patrimônio Líquido (P/PL), essencial para avaliar a dependência de capital de terceiros (Gitman, 2010). A estrutura de financiamento foi avaliada pela proporção de capital próprio e de terceiros, crucial para minimizar o custo médio ponderado de capital (WACC), conforme Brealey, Myers e Allen (2019). A rentabilidade foi analisada pelo Retorno sobre o Capital Próprio (ROE) e o Retorno sobre os Ativos (ROA). Ross, Westerfield e Jordan (2021) e Damodaran (2020) destacam a importância de analisar ambos para compreender o impacto da alavancagem.

Adicionalmente, o estudo incorporou o Grau de Alavancagem Financeira (GAF), calculado pela razão ROE/ROA, para quantificar o efeito multiplicador da dívida. A saúde financeira de curto prazo foi avaliada pelo Índice de Liquidez Corrente, que indica a capacidade de honrar obrigações de curto prazo (Marion, 2012). A análise do endividamento foi aprofundada com a Composição do Endividamento (proporção de dívidas de curto prazo) e o Grau de Endividamento Geral (relação capital de terceiros/patrimônio líquido), um indicador de autonomia financeira (Assaf Neto, 2012). Por fim, calculou-se o Custo da Dívida (despesas financeiras/passivo oneroso), fundamental para avaliar a atratividade dos financiamentos (Assaf Neto, 2022).

A análise se deu pela comparação sistemática dos indicadores das três empresas ao longo do período, permitindo identificar padrões, divergências estratégicas e as consequências das políticas de alavancagem. As tendências foram interpretadas à luz da teoria de finanças corporativas, buscando estabelecer relações de causa e efeito entre endividamento e resultados. A discussão dos resultados foi estruturada para contrastar os perfis de risco e retorno de cada companhia.

A análise dos resultados revela perfis distintos. A alavancagem financeira (P/PL) da Empresa A demonstrou um perfil conservador, com índices variando moderadamente entre 1,67 e 2,57, indicando gestão de dívida controlada e menor exposição ao risco. Em contraste, a Empresa B apresentou alavancagem mais alta, com o P/PL atingindo um pico de 12,52 em 2019, mas com tendência de queda para 2,24 em 2023, apontando uma gestão que buscou reequilibrar a estrutura de capital. A Empresa C exibiu o cenário mais arriscado, com volatilidade extrema e alavancagem crítica, chegando a 32,68 em 2023. O patrimônio líquido negativo em 2018 e 2019 evidencia profunda fragilidade financeira e dependência quase total de capital externo.

A proporção de capital próprio e de terceiros corrobora essas observações. A Empresa A fortaleceu sua base de capital, com a participação do patrimônio líquido crescendo de 29,48% em 2018 para 46,18% em 2023, indicando uma busca por maior autonomia financeira. A Empresa B melhorou sua posição, partindo de 7,40% de capital próprio em 2019 para 30,84% em 2023, mas ainda revela um histórico de forte alavancagem. A situação da Empresa C é a mais delicada, com a proporção de capital próprio em apenas 2,97% em 2023, significando que mais de 97% de seu financiamento provém de dívidas, o que a coloca em alta vulnerabilidade.

Na rentabilidade, os indicadores ROE e ROA apresentam um quadro complexo. A Empresa C, apesar da frágil estrutura de capital, registrou os ROEs mais elevados, com 59,97% em 2023 e picos como 420,03% em 2018. Contudo, como adverte a teoria (Ross, Westerfield & Jordan, 2002), esses números são inflados pela base patrimonial extremamente pequena, refletindo o alto risco assumido e não uma performance operacional superior. A Empresa B apresentou ROE robusto entre 2018 e 2022 (128,93% em 2020), mas sofreu uma queda para -14,55% em 2023, questionando a sustentabilidade de seu desempenho. A Empresa A teve um ROE volátil e predominantemente negativo (-11,95% em 2023), indicando fraca geração de valor para acionistas, apesar da estrutura de capital mais sólida.

O ROA, que mede a eficiência na utilização dos ativos, oferece uma perspectiva mais clara. A Empresa C apresentou um ROA modesto, mas consistentemente positivo (exceto em 2018), variando entre 1,38% e 4,12% nos últimos anos, sugerindo uma gestão de ativos razoável que não justifica os retornos extraordinários, reforçando o efeito distorcivo da alavancagem. A Empresa B demonstrou forte eficiência operacional em 2020 (ROA de 11,47%) e 2021 (13,85%), mas o indicador tornou-se negativo em 2023 (-2,77%). A Empresa A apresentou o pior desempenho, com ROA consistentemente baixo ou negativo, atingindo -3,26% em 2023, o que evidencia ineficiência operacional.

O Grau de Alavancagem Financeira (GAF) sintetiza a interação entre ROE e ROA. A Empresa C apresentou um GAF extremamente elevado (43,35 em 2023), confirmando que seu alto ROE é produto da alavancagem, não da eficiência. A Empresa B também utilizou a alavancagem intensivamente, com um GAF de 17,77 em 2019. A Empresa A manteve um GAF moderado, mas a falta de retorno operacional positivo fez com que a alavancagem amplificasse os prejuízos. Conforme Silva (2019), o uso de alavancagem só é benéfico quando o retorno operacional supera o custo da dívida, o que não ocorreu consistentemente para a Empresa A.

A liquidez corrente revela uma preocupação transversal, pois nenhuma empresa manteve o índice acima de 1,0, indicando dificuldades para cobrir obrigações de curto prazo. A Empresa B apresentou os índices mais próximos do equilíbrio, a Empresa A ficou em patamar intermediário e a Empresa C registrou os piores indicadores (0,54 em 2023), sinalizando risco de solvência. A composição do endividamento mostrou que a Empresa C concentrou mais dívidas no curto prazo, embora com tendência recente de alongamento. A Empresa A aumentou a concentração de dívidas de curto prazo, elevando seu risco de liquidez. A Empresa B manteve uma política mais equilibrada.

O grau de endividamento geral (Passivo Total/Patrimônio Líquido) confirmou a vulnerabilidade da Empresa C, com um índice de 42,35 em 2023. A Empresa B, apesar de elevada, mostrou maior controle (4,26). A Empresa A apresentou o menor grau (2,66), refletindo sua postura conservadora. O custo da dívida revelou que a Empresa B arcou com os maiores encargos (30,67% em 2023), refletindo maior percepção de risco. A Empresa C, surpreendentemente, conseguiu o menor custo em 2023 (9,72%). A Empresa A ocupou uma posição intermediária, com custo crescente.

Em síntese, a análise evidencia três perfis. A Empresa A é a mais sólida em estrutura de capital, mas falha em gerar rentabilidade, indicando ineficiência operacional. A Empresa B é a mais volátil, com um histórico de alta rentabilidade impulsionada por alavancagem, mas cujo modelo mostrou esgotamento em 2023. A Empresa C opera com altíssimo risco, com estrutura patrimonial frágil e dependência extrema de dívida, gerando um ROE elevado que mascara uma rentabilidade operacional modesta e um risco de insolvência. Os achados reforçam que não existe uma estrutura de capital ótima, mas um trade-off contínuo entre risco e retorno que deve ser gerenciado (Modigliani & Miller, 1958).

A análise da alavancagem e desempenho das empresas A, B e C (2018-2023) revelou que as estratégias de estrutura de capital impactam diretamente os perfis de risco e retorno. A Empresa A, com abordagem conservadora, demonstrou solidez patrimonial ao custo de baixa rentabilidade. A Empresa B utilizou a alavancagem de forma agressiva para potencializar resultados, alcançando alto desempenho, mas com maior volatilidade e retração em 2023. A Empresa C operou com alavancagem extremamente elevada, gerando um ROE expressivo sobre uma base patrimonial frágil, indicando risco sistêmico e sustentabilidade questionável.

As constatações reforçam a importância do equilíbrio entre capital próprio e de terceiros (Gitman, 2010; Assaf Neto, 2012). O estudo demonstrou que o uso excessivo de dívida, sem rentabilidade operacional robusta, pode amplificar perdas e comprometer a saúde financeira. A insuficiência dos índices de liquidez corrente em todas as companhias serve como um alerta para o setor, apontando a necessidade de uma gestão de capital de giro mais rigorosa. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que a alavancagem financeira influencia o desempenho das empresas analisadas de formas distintas, evidenciando a importância de uma gestão equilibrada entre dívida, rentabilidade, liquidez e custo do capital para a sustentabilidade no setor de proteínas.

Referências:
ALBUQUERQUE, A. A. 2013. Alavancagem financeira e investimento: um estudo nas empresas brasileiras não financeiras de capital aberto. Dissertação (Mestrado em Administração) – Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.
ALMEIDA, F. C.; SANTOS, E. A. 2014. Estrutura de capital e risco financeiro em empresas brasileiras. Revista de Administração Contemporânea 18(3): 371–390.
ASSAF NETO, A. 2012. Finanças corporativas e valor. 7ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
ASSAF NETO, A. 2020. Finanças corporativas e valor. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
ASSAF NETO, A. 2022. Estrutura e análise de balanços: um enfoque econômico-financeiro. 12ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
ASSAF NETO, A.; SILVA, C. A. T. 2011. Mercado financeiro. 14ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
BREALEY, R. A.; MYERS, S. C.; ALLEN, F. 2019. Princípios de finanças corporativas. McGraw Hill Brasil, São Paulo, SP, Brasil.
BRIGHAM, E. F.; EHRHARDT, M. C. 2017. Financial management: theory and practice. 15ed. Cengage Learning, Boston, MA, USA.
COSTA, L. F.; ALMEIDA, R. G. 2023. Taxas de juros e reestruturação financeira: uma análise das empresas brasileiras. Revista Brasileira de Finanças 21(1): 45–64.
DAMODARAN, A. 2020. Investment valuation: tools and techniques for determining the value of any asset. 3ed. John Wiley & Sons, Hoboken, NJ, USA.
GITMAN, L. J. 2010. Princípios de administração financeira. 12ed. Pearson Prentice Hall, São Paulo, SP, Brasil.
GITMAN, L. J.; ZUTTER, C. J. 2010. Princípios de administração financeira. 13ed. Pearson Prentice Hall, São Paulo, SP, Brasil.
LEITE, M.; GUSE, J. C.; HEIN, N. 2017. Alavancagem financeira e desempenho econômico-financeiro: análise no agronegócio brasileiro. Custos e @gronegócio on line 13(2): 101–120.
MARION, J. C. 2012. Análise das demonstrações contábeis. 9ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
MARION, J. C. 2016. Contabilidade empresarial. 17ed. Atlas, São Paulo, SP, Brasil.
MODIGLIANI, F.; MILLER, M. H. 1958. The cost of capital, corporation finance and the theory of investment. American Economic Review 48(3): 261–297.
OLIVEIRA, D. et al. 2018. Estrutura de capital e desempenho financeiro: uma análise do setor industrial. Revista Contabilidade & Finanças 29(77): 38–52.
ROSS, S. A.; WESTERFIELD, R. W.; JORDAN, B. D. 2002. Fundamentals of corporate finance. 6ed. McGraw-Hill, New York, NY, USA.
ROSS, S. A.; WESTERFIELD, R. W.; JORDAN, B. D. 2021. Fundamentals of corporate finance. 12ed. McGraw-Hill Education, New York, NY, USA.
SILVA, M. A.; ALMEIDA, J. M. 2017. Análise da rentabilidade e alavancagem em empresas do setor alimentício. Revista de Contabilidade e Finanças 28(73): 314–329.
SILVA, P. R.; PEREIRA, J. L. 2022. Reestruturação de dívidas e desempenho empresarial: uma análise pós-pandemia. Revista de Administração Contemporânea 26(4): 790–808.
SILVA, T. R. 2019. Gestão de risco e retorno financeiro. Saraiva, São Paulo, SP, Brasil.
VIEIRA, K. V. et al. 2016. Alavancagem e desempenho financeiro: uma análise comparativa. Revista de Administração e Contabilidade da Faculdade Anísio Teixeira 8(1): 33–48.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

Saiba mais sobre o curso; clique aqui:

Quem editou este artigo

Você também pode gostar

Quer ficar por dentro das nossas últimas publicações? Inscreva-se em nossa newsletter!

Receba conteúdos e fique sempre atualizado sobre as novidades em gestão, liderança e carreira com a Revista E&S.

Ao preencher o formulário você está ciente de que podemos enviar comunicações e conteúdos da Revista E&S. Confira nossa Política de Privacidade