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19 de fevereiro de 2026

Análise financeira de empresas de turismo na B3 no período 2020-2024

Thamiris Viana dos Santos Mesquita; Rogiene Batista dos Santos

Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.

Este estudo analisa o desempenho dos indicadores financeiros de cinco empresas do setor de turismo listadas na B3 — AZUL, CVC, GOL, São Paulo Turismo (SPTuris) e Hotéis Othon — entre 2020 e 2024. O objetivo é compreender como fatores externos, como a pandemia de COVID-19, flutuações cambiais e a sazonalidade, influenciaram os resultados e operações dessas companhias. A seleção estratégica das empresas abrange transporte aéreo, agenciamento de viagens, hotelaria e lazer, para proporcionar uma visão comparativa dos efeitos da crise.

O setor de turismo é crucial para a economia brasileira, gerando efeitos multiplicadores que representam cerca de 8% do Produto Interno Bruto (PIB) e o posicionam como um dos maiores geradores de emprego (Silva, 2024). A importância do setor é reconhecida pelo Plano Nacional de Turismo 2024-2027, que estabelece metas para ampliar o número de turistas, criar mais de um milhão de empregos e aumentar a receita com visitantes estrangeiros, focando no desenvolvimento sustentável.

Apesar de seu potencial, o setor de turismo é vulnerável a fatores exógenos como flutuações sazonais, oscilações cambiais, riscos meteorológicos e epidêmicos, que podem desestabilizar suas operações (Sousa et al., 2024). A pandemia de COVID-19, iniciada em 2020, representou um choque sem precedentes. Medidas de contenção como fechamento de fronteiras, interrupção de redes hoteleiras e cancelamento de voos resultaram em queda drástica na demanda e perdas financeiras substanciais. Como apontam Junior e Petri (2022), uma pandemia ocasiona uma queda expressiva na atividade econômica, e o turismo é invariavelmente um dos mais afetados.

O impacto da crise sanitária afetou toda a economia, elevando o desemprego, reduzindo a disponibilidade de insumos e paralisando setores, o que atingiu o poder aquisitivo da população. Consequentemente, setores considerados secundários, como o turismo, sofreram de forma desproporcional (Silva Santos, 2023). A volatilidade do câmbio no período agravou o cenário, pois a alta do dólar encareceu viagens ao exterior e afetou negativamente agências e companhias aéreas com custos dolarizados. O turismo está entre os setores mais sensíveis à variação cambial (Susin, 2022).

A análise dos indicadores financeiros é, portanto, indispensável para diagnosticar a saúde das empresas e compreender sua recuperação no período de 2020 a 2024, marcado por desafios e estratégias de sobrevivência. Este estudo busca identificar as movimentações econômicas mais relevantes do período, oferecendo um panorama sobre a resiliência e as fragilidades de cada segmento do setor.

A pesquisa adota uma abordagem quantitativa e exploratória para a análise do desempenho financeiro. A metodologia quantitativa foi escolhida para a aplicação de métodos estatísticos aos dados numéricos das demonstrações contábeis, permitindo uma análise objetiva (Marconi e Lakatos, 2021). A caracterização exploratória justifica-se pela busca de maior entendimento sobre o fenômeno de crise e recuperação. O universo da pesquisa foi definido a partir da consulta ao site da B3, selecionando-se cinco companhias para garantir uma visualização abrangente do setor: AZUL e GOL (transporte aéreo), CVC (agência de viagens), Hotéis Othon (hotelaria) e SPTuris (lazer e eventos). Os dados financeiros foram coletados das demonstrações contábeis consolidadas publicadas nos websites das empresas, cobrindo o período de 2020 a 2024. Para a SPTuris, a análise se restringiu a 2020-2023 por indisponibilidade de dados. Os valores foram planilhados para o cálculo dos indicadores.

A análise de balanços, conforme Assaf Neto (2023), visa relatar a posição econômico-financeira, identificar causas de sua evolução e projetar tendências. Foram selecionados seis indicadores chave: Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE), que mede a eficiência na geração de lucro a partir do capital dos acionistas (Lima, 2017); Retorno sobre o Ativo (ROA), que avalia a rentabilidade dos ativos; Grau de Alavancagem Financeira (GAF), que mensura o impacto do endividamento sobre o capital próprio; Capital Circulante Líquido (CCL), indicador da saúde financeira de curto prazo; Margem EBITDA, que demonstra a rentabilidade operacional (Torres e Carmo, 2023); e o Prazo Médio de Recebimento de Vendas (PMRV), que determina o tempo para converter vendas em caixa (Silva, 2024). Para complementar, foram revisadas as notas explicativas e relatórios de auditoria, fornecendo contexto qualitativo para correlacionar os resultados numéricos com os fatores externos. A utilização de múltiplos indicadores permitiu uma avaliação multidimensional, seguindo a prática consolidada de análise contábil-financeira por meio de medidas de desempenho (Ribeiro, Macedo e Marques, 2012).

A análise do Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) revelou alta volatilidade e resultados paradoxais, especialmente para AZUL e GOL. Ambas apresentaram ROE matematicamente positivo em diversos períodos, mesmo com prejuízos líquidos. Este fenômeno é explicado pela presença de um patrimônio líquido negativo, condição em que um prejuízo líquido, sendo proporcionalmente menor que o montante negativo do capital próprio, resulta em um indicador positivo. Essa distorção evidencia a severa deterioração do capital próprio dessas empresas, consumido pelos prejuízos acumulados entre 2020 e 2021. Para a CVC, o ROE foi exorbitantemente negativo em 2020 (-2128%), refletindo o impacto inicial da crise, mas mostrou melhora gradual nos anos seguintes, embora permanecendo negativo. Em contraste, a SPTuris, após anos de perdas, alcançou um ROE genuinamente positivo de 107% em 2023, indicando uma recuperação robusta. Um ROE negativo para empresas deste setor demonstra ineficiência operacional, agravada pela pandemia (Santos, 2023).

O Retorno sobre o Ativo (ROA), que mede a capacidade de gerar lucro a partir dos recursos totais, mostrou um quadro desafiador. Para AZUL e GOL, o ROA foi consistentemente negativo, atingindo -35% e -25%, respectivamente, em 2024. Este desempenho reflete a subutilização de seus principais ativos e uma recuperação da demanda ainda insuficiente para cobrir os altos custos operacionais. A CVC também apresentou ROA negativo em todos os anos, mas com melhora notável, passando de -24% em 2020 para -3% em 2024, sugerindo um avanço na eficiência. Em contrapartida, SPTuris e Hotéis Othon demonstraram uma recuperação mais efetiva, revertendo o ROA negativo para valores positivos de 19% (SPTuris em 2023) e 16% (Othon em 2024), indicando que suas estruturas de ativos mais enxutas permitiram uma retomada mais rápida. De modo geral, os percentuais permaneceram estavelmente negativos para os segmentos mais impactados, corroborando achados de estudos similares (Massoqueto et al., 2023).

A análise do Grau de Alavancagem Financeira (GAF) revelou o alto endividamento das companhias aéreas. Para AZUL e GOL, o GAF foi frequentemente nulo ou negativo, indicando que as despesas financeiras superaram o lucro operacional. Este resultado é consequência do aumento do endividamento para financiar a sobrevivência durante a pandemia, o que elevou os custos financeiros e anulou o potencial de alavancagem positiva. A CVC também apresentou um GAF baixo, com piora a partir de 2022. A SPTuris manteve um GAF neutro de 1, enquanto a Hotéis Othon mostrou uma evolução positiva, com o GAF subindo para 2 em 2023 e 2024, sinalizando que a alavancagem começou a contribuir positivamente para a rentabilidade. Um GAF igual ou menor que zero é decorrente da baixa rentabilidade operacional e da queda na atividade econômica (Holanda, 2024).

O Capital Circulante Líquido (CCL) revelou uma situação de liquidez extremamente desfavorável para AZUL e GOL. Ambas registraram CCL negativo e com tendência de forte deterioração, alcançando -15,68 bilhões de reais para a AZUL e -19,19 bilhões para a GOL em 2024. Esses números indicam que os passivos de curto prazo superam em muito os ativos de curto prazo, sinalizando um risco de liquidez muito elevado. A CVC também operou com CCL negativo em todos os anos, demonstrando desafios persistentes na gestão de sua liquidez. Em forte contraste, a SPTuris conseguiu reverter um CCL negativo para valores positivos e crescentes em 2022 e 2023. A Hotéis Othon, embora ainda com CCL negativo, mostrou uma melhora significativa, reduzindo o déficit de forma consistente. Um CCL negativo evidencia a escassez de recursos circulantes para o pagamento das obrigações de curto prazo (Barros, 2023).

Apesar do cenário adverso em liquidez e endividamento, a análise da Margem EBITDA refletiu a recuperação da rentabilidade operacional. Observou-se uma notável e generalizada melhora para todas as empresas após os impactos iniciais da pandemia. A AZUL saiu de uma margem negativa de -3% em 2020 para uma robusta margem de 31% em 2024. A GOL recuperou-se para 27% em 2024. A CVC e a Hotéis Othon protagonizaram reviravoltas expressivas, revertendo margens massivamente negativas (-191% e -183%, respectivamente) para margens positivas de 22% e 33% em 2024. A SPTuris também alcançou margens positivas em 2022 e 2023. Essa tendência sinaliza uma melhoria na eficiência operacional e na capacidade de geração de caixa, impulsionada pela retomada da demanda e por medidas de controle de custos. Contudo, essa melhora não se traduziu automaticamente em lucro líquido positivo, devido ao peso das despesas financeiras, depreciação e impostos. Empresas do setor de consumo cíclico, como o turismo, geralmente apresentam rentabilidades voláteis, e mesmo após a pandemia, as companhias podem apresentar margens imprevistas (Neves e Pereira, 2025).

O Prazo Médio de Recebimento de Vendas (PMRV) indicou diferentes ciclos de conversão de vendas em caixa. AZUL e GOL mantiveram PMRVs relativamente curtos, típicos do setor aéreo. A CVC, por outro lado, apresentou um PMRV consistentemente alto, registrando 229 dias em 2024. Este ciclo alongado, reflexo de seu modelo de negócios, representa um desafio para sua liquidez. A Hotéis Othon manteve um PMRV moderado, enquanto a SPTuris teve um prazo volátil. Um PMRV longo pode indicar não apenas uma política de prazos estendidos, mas também dificuldades com a inadimplência. Resultados com valores expressivos para o PMRV estão frequentemente associados à operação específica da empresa (Kich, 2021).

A análise dos indicadores revela que o setor de turismo atravessou um período de adversidade extrema, com impactos profundos na rentabilidade, endividamento e liquidez. A recuperação tem sido gradual e desigual entre os segmentos. As companhias aéreas, em particular, continuam a enfrentar desafios em suas estruturas de capital e liquidez, apesar da melhora no desempenho operacional. A sustentabilidade de longo prazo dependerá da capacidade de reestruturar passivos e fortalecer os balanços.

Este estudo, ao analisar o desempenho financeiro do setor de turismo entre 2020 e 2024, conclui que fatores externos como a pandemia e a volatilidade cambial não apenas impactaram o desempenho, mas expuseram e aprofundaram fragilidades estruturais na liquidez e na estrutura de capital, especialmente no segmento aéreo. A principal conclusão é que a recuperação operacional do setor, visível na Margem EBITDA, ainda é insuficiente para sanar os desequilíbrios financeiros acumulados, como o alto endividamento e o capital circulante líquido negativo, tornando a sustentabilidade de longo prazo incerta para os players mais alavancados. As implicações desses achados são multifacetadas. Para gestores e investidores, o estudo alerta que a performance operacional isolada não é suficiente para avaliar a saúde de uma empresa, sendo crucial a análise da estrutura de capital e da liquidez. Para o poder público, evidencia-se a necessidade de políticas que fortaleçam a resiliência do setor. Para o consumidor, o reflexo é um ambiente de maior risco e instabilidade. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que o desempenho financeiro das empresas de turismo foi severamente impactado por fatores externos, revelando uma recuperação operacional que ainda não se traduziu em estabilidade financeira e liquidez para todos os segmentos.

Referências:
Barros, D. F. D. S. (2023). Análise dinâmica do capital de giro das empresas do setor hotéis e restaurantes listadas na B3.
Holanda, Nayane Tomé. (2024). Análise do grau de alavancagem financeira das empresas listadas na B3 durante o período de pré-pandemia e pandemia.
Junior, C. J. M. (2022). Aviação Civil no Brasil e crise da COVID-19: Análise dos Indicadores Financeiros das empresas de Aviação da B3.
Kich, Mara Cristine. (2021). Indicadores econômico-financeiros: uma análise da correlação entre os indicadores das maiores empresas do setor calçadista de capital aberto listadas na B3.
Lima Neves, Leonardo; Pereira dos Santos, Alefi. (2026). Efeito da COVID-19 nos Índices e Econômico-financeiros: um estudo das empresas de consumo cíclico e não cíclico listadas na b3. Contabilometria, v. 13, n. 2.
Lima, V. D. S. S. (2017). Determinantes dos índices de rentabilidade: ROA, ROE, ROI.
MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. (2021). Fundamentos de metodologia científica. 9. ed. atual São Paulo: Atlas.
Massoquetto, K., Souza, L. P. de., Garcia, B. E. S., & Santos, D. C. dos. (2023). Impactos da COVID-19 sobre os indicadores econômicos e financeiros das empresas de consumo cíclico listadas na B3. CAFI, 6(2), 164–182.
Neto, Alexandre Assaf. (2023). Estrutura e Análise de Balanços: Um Enfoque Econômico-Financeiro. 13. Ed. Barueri, São Paulo: Atlas.
Ribeiro, M. G. C., da Silva Macedo, M. a., & da Costa Marques, J. A. V. (2012). Análise da relevância de indicadores financeiros e não financeiros na avaliação de desempenho organizacional: um estudo exploratório no setor brasileiro de distribuição de energia elétrica. Revista de Contabilidade e Organizações, 6(15), 60-79.
Santos, L. M. S. (2023). Análise dos indicadores econômico-financeiros das empresas dos setores de transporte aéreo, turismo e locação de veículos listados na B3 entre os anos de 2018 a 2021.
Silva, M. M. A. S. (2024). TURISMO: v. 9 n. 364, novembro, 2024. Caderno Setorial ETENE, 9.
Sousa, G. A. R., Bispo, L. C. S., do Amaral, A. C. F., Neto, J. E. B., & Castro, P. P. (2024). Impacto da pandemia do COVID-19 nos indicadores estrutura de capital e liquidez: um estudo de caso da empresa cvc brasil operadora e agência de viagens SA. ALTUS CIÊNCIA, 22(22), 251-266.
Susin, T. F. (2022). Benefícios e desvantagens do marco legal cambial e seus impactos na economia brasileira com foco nas operações cambiais de comércio exterior e turismo.
Torres, R. D. A., & Carmo, C. T. D. (2023). Proposta de aplicação do método Topsis para análise de carteira de ações de siderurgia e metalurgia na BOVESPA.


Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq

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