
19 de fevereiro de 2026
Benefícios e avanços da plataforma Drex na perspectiva de participantes do piloto
Thais Fagundes da Paz; Marco Antonio Alves de Souza Junior
Resumo elaborado pela ferramenta ResumeAI, solução de inteligência artificial desenvolvida pelo Instituto Pecege voltada à síntese e redação.
Este estudo identifica, na perspectiva de profissionais do projeto piloto, os benefícios e progressos da Plataforma Drex. A investigação foca nos ganhos de eficiência, economia, liquidez e segurança, mapeando os desafios técnicos e regulatórios da iniciativa do Banco Central do Brasil. A análise da experiência dos agentes envolvidos avalia o potencial da plataforma para transformar o sistema financeiro nacional, alinhado à modernização global. A pesquisa captura percepções práticas sobre a implementação de contratos inteligentes e a tokenização de ativos, detalhando avanços e obstáculos da fase inicial.
A transformação digital impulsiona bancos centrais a modernizar suas economias. A história do dinheiro (Vieira, 2017) avança com as Tecnologias de Registro Distribuído (DLTs), como a Blockchain, que revolucionaram o setor desde o Bitcoin (Soares e Costa, 2018). Tais tecnologias permitem a criação de contratos inteligentes, Moedas Digitais de Bancos Centrais (CBDCs) e a tokenização de ativos, que é a transformação de bens em frações digitais negociáveis (Ferraz e Guimarães, 2023). Este cenário orienta as ações do Banco Central do Brasil (BACEN), cujos objetivos estratégicos incluem finanças sustentáveis, concorrência e inovação.
Nesse contexto, o BACEN liderou iniciativas como o PIX e o Open Finance. A mais recente é o desenvolvimento do Real Digital, materializado na Plataforma Drex. A Drex visa digitalizar a moeda e criar um ecossistema para negociação de ativos digitais e execução de contratos inteligentes. A plataforma foi projetada para aumentar a participação social, a eficiência e a segurança, representando um avanço na agenda de inovação do Banco Central (Banco Central do Brasil [BACEN], 2025). A proposta, baseada em DLT, estabelece que instituições financeiras autorizadas atuarão como intermediários, convertendo depósitos de clientes para a carteira Drex e viabilizando transações.
O projeto piloto da Plataforma Drex, iniciado em março de 2023, é uma fase crucial de testes da infraestrutura e dos modelos de negócio. O piloto já concluiu a segunda rodada de testes com instituições do Sistema Financeiro Nacional, embora a data de lançamento ao público não esteja definida. A análise dos resultados desta fase é fundamental para avaliar o potencial da Drex como catalisador de transformações no sistema financeiro. A compreensão dos benefícios e desafios oferece subsídios para o aprimoramento da plataforma e para a formulação de políticas regulatórias, garantindo uma transição segura, eficiente e inclusiva.
A relevância desta investigação está em documentar uma das principais inovações financeiras do Brasil a partir da perspectiva de seus implementadores. Ao capturar as percepções dos participantes do piloto, o estudo oferece uma visão interna sobre a viabilidade operacional, a aplicabilidade dos casos de uso e as expectativas de impacto. A análise dos avanços em programabilidade, privacidade e descentralização, bem como dos obstáculos regulatórios e de segurança, contribui para um debate informado sobre a digitalização da economia brasileira e o papel das CBDCs.
A metodologia adotada foi exploratória e qualitativa, adequada para um tema pouco estudado, permitindo aprofundar a compreensão do fenômeno (Gil, 2002). A abordagem qualitativa foi escolhida por sua capacidade de capturar a complexidade das percepções e experiências dos participantes. A coleta de dados ocorreu por meio de pesquisa documental e entrevistas semiestruturadas, permitindo a triangulação das informações e uma análise mais robusta.
O universo da pesquisa compreendeu as 16 instituições autorizadas pelo Banco Central para participar dos testes. O estudo contou com dois profissionais técnicos de uma mesma instituição financeira em Ribeirão Preto, São Paulo, selecionados por conveniência. Um entrevistado é gerente de tecnologia, com atuação na Fase I do piloto, e o outro é diretor de risco e controladoria, envolvido na Fase II, proporcionando perspectivas complementares.
A coleta de dados iniciou-se com pesquisa documental em materiais de domínio público do Banco Central, como relatórios e webinars sobre o Drex, para construir um panorama da iniciativa. Em seguida, realizou-se um levantamento documental na instituição participante para obter evidências sobre os testes, manuais de operação e cronogramas das Fases I e II. Essa análise de dados secundários contextualizou a experiência prática e subsidiou a elaboração do roteiro de entrevista.
Com base na análise documental, foi desenvolvido um roteiro de entrevista semiestruturada para explorar as percepções dos profissionais sobre benefícios, avanços e desafios da Plataforma Drex. O roteiro abordou a experiência de uso, desafios técnicos e regulatórios, benefícios em eficiência e segurança, avanços operacionais e expectativas futuras. As duas entrevistas, com duração de 40 minutos cada, foram gravadas e transcritas para análise de conteúdo, buscando identificar convergências e divergências entre as visões dos profissionais.
O desenvolvimento do Real Digital começou em agosto de 2020, com um grupo de trabalho do BACEN para estudar CBDCs. O foco era avaliar os benefícios e impactos de uma moeda digital brasileira, analisando modelos de emissão, segurança cibernética, proteção de dados e conformidade regulatória. O estudo também analisou como uma CBDC poderia influenciar a inclusão financeira, a estabilidade do sistema e a política monetária (Banco Central do Brasil [BACEN], 2020). O projeto foi visto como estratégico, com estimativas de que a moeda digital poderia reduzir os custos do ciclo do dinheiro físico, de aproximadamente R$ 90 bilhões anuais. As diretrizes oficiais, publicadas em 2021, estabeleceram como pilares a promoção de novos modelos de negócio e a maior eficiência nos pagamentos de varejo (Banco Central do Brasil [BACEN], 2021).
Para garantir a robustez do projeto, as diretrizes foram estruturadas nos âmbitos jurídico e tecnológico. Legalmente, previu-se a adaptação do arcabouço normativo para assegurar o sigilo bancário, a conformidade com a LGPD e a prevenção a ilícitos. As premissas tecnológicas incluíram a adoção de padrões de interoperabilidade e alta resiliência a ataques cibernéticos (Banco Central do Brasil [BACEN], 2021). Para ampliar o debate, o BACEN promoveu seminários e, em novembro de 2021, lançou o LIFT Challenge Real Digital. A iniciativa atraiu 43 empresas de oito países e selecionou nove projetos que exploraram casos de uso como entrega contra pagamento (DvP), internet das coisas (IoT) e finanças descentralizadas (DeFi), com testes iniciados em setembro de 2022 (Banco Central do Brasil [BACEN], 2022). A experiência levou ao anúncio do projeto piloto em 2023 e, em agosto do mesmo ano, à revelação da identidade do projeto: Drex (Banco Central do Brasil [BACEN], 2023).
A plataforma Drex é construída sobre a tecnologia Hyperledger Besu, uma rede DLT permissionada onde apenas instituições reguladas pelo SFN podem operar. O Real Digital terá o mesmo valor do real físico, com acesso intermediado por instituições autorizadas. Diferente do PIX, focado em pagamentos, o Drex visa democratizar o acesso a serviços financeiros complexos, como empréstimos e investimentos, por meio de contratos inteligentes (Banco Central do Brasil [BACEN], 2025). A plataforma operará com o Drex de atacado (interbancário) e o Drex de varejo (token de depósitos para clientes finais) (Banco Central do Brasil [BACEN], 2023). O Piloto Drex foi concebido para testar a viabilidade da plataforma, focando no “trilema” de conciliar privacidade, programabilidade e descentralização. A Fase I do piloto testou a emissão, transferência e resgate de Drex de Atacado, Drex de Varejo e Título Público Federal Tokenizado (TPFt), com testes concluídos com sucesso, embora a privacidade ainda demandasse soluções avançadas (Banco Central do Brasil [BACEN], 2023).
A análise documental na instituição participante revelou que os testes da Fase I foram considerados intuitivos e eficientes. Abrangeram a criação de clientes e carteiras fictícias, gestão de carteiras e operações com Drex de Atacado e Varejo. Um ponto central foi o teste de compra e venda de TPFt, utilizando o mecanismo de “Delivery versus Payment” (DvP), que elimina o risco de contraparte ao garantir a simultaneidade da transferência do ativo e do valor. A documentação confirmou que todos os cenários da Fase I, realizados entre julho de 2023 e maio de 2024, foram concluídos com êxito. A Fase II, iniciada em setembro de 2024, avançou para a implementação de serviços via contratos inteligentes, com a instituição focando em transações com Cédulas de Crédito Bancário (CCBt) tokenizadas e operações de crédito colateralizado em Títulos Públicos (Banco Central do Brasil [BACEN], 2024).
As entrevistas com os profissionais validaram os achados documentais. Ambos relataram uma dificuldade inicial de compreensão da plataforma, superada após ajustes. O principal desafio técnico foi adequar a tecnologia DLT às leis de privacidade, como o Sigilo Bancário e a LGPD. Outro desafio foi a carência de um arcabouço regulatório específico para os novos produtos e serviços. Apesar disso, os benefícios percebidos foram numerosos, destacando-se o potencial de aumento de eficiência e segurança em transações complexas, como a compra e venda de automóveis e imóveis; a programabilidade dos contratos inteligentes garante a execução simultânea das obrigações.
Os entrevistados também apontaram a redução de custos operacionais como um benefício central. Funções como registro, custódia e auditoria poderiam ser automatizadas, diminuindo a necessidade de intermediários e simplificando processos, o que poderia levar a produtos mais baratos para o consumidor. Outro benefício foi o aumento de liquidez para ativos como CCBs, que, ao serem tokenizados, podem ser fracionados e negociados com maior facilidade. A confiabilidade das garantias tokenizadas também foi citada como vantagem. Como avanços, a capacidade de reunir múltiplos players para testes de volumetria, emissão e negociação de tokens, e a execução bem-sucedida dos casos de uso com CCBs e TPFt, foram vistos como marcos que comprovam a robustez da tecnologia.
As expectativas futuras para a plataforma são otimistas. Os profissionais acreditam que o Drex pode consolidar a modernização do sistema financeiro, criando um ambiente seguro e regulado para novos modelos de negócio. A plataforma é vista como uma nova infraestrutura que permitirá a criação de uma gama inédita de serviços financeiros. A percepção é que, assim como o PIX revolucionou os pagamentos, o Drex tem o potencial de revolucionar a oferta de produtos e serviços financeiros, desde que os desafios de privacidade e regulação sejam endereçados.
A análise dos resultados da Fase II, com base na documentação interna, mostrou que a instituição concluiu etapas importantes para os casos de uso de crédito colateralizado em TPFt e transações com CCBt, como a elaboração de especificações funcionais e a definição da arquitetura. No entanto, atividades cruciais como o desenvolvimento final da solução, a implementação dos mecanismos de privacidade e os testes integrados na Rede Drex ainda estavam em andamento. Este achado reforça a percepção sobre a complexidade técnica do projeto, especialmente na conciliação entre a transparência da blockchain e as exigências de sigilo.
Este estudo identificou os benefícios e avanços da Plataforma Drex a partir da visão de participantes do piloto. Os resultados demonstram que a plataforma possui elevado potencial para modernizar o sistema financeiro nacional. Os principais benefícios incluem a redução de custos operacionais, o aumento da liquidez de ativos via tokenização e a possibilidade de criar produtos financeiros mais inovadores e seguros, impulsionados por contratos inteligentes. A capacidade da plataforma de garantir a execução segura de transações complexas foi apontada como uma de suas maiores vantagens.
No entanto, a concretização desses benefícios está condicionada à superação de desafios significativos. O principal obstáculo reside na complexidade técnica e jurídica de implementar soluções de privacidade que cumpram a legislação brasileira, como a LGPD e a Lei do Sigilo Bancário, sem comprometer a funcionalidade da DLT. Adicionalmente, a pesquisa aponta a necessidade de uma evolução no arcabouço regulatório para acomodar os novos modelos de negócio e ativos digitais. Uma limitação desta pesquisa é o número reduzido de entrevistados, o que impede a generalização dos resultados. Sugere-se que estudos futuros ampliem a amostra e explorem com maior profundidade o desenvolvimento de soluções de privacidade, além de acompanhar a evolução das normas. Conclui-se que o objetivo foi atingido: demonstrou-se que, na perspectiva dos participantes, a Plataforma Drex apresenta elevado potencial de transformação do sistema financeiro, com benefícios concretos em eficiência e segurança, embora sua implementação dependa da superação de desafios técnicos e normativos.
Referências:
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Resumo executivo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Finanças e Controladoria do MBA USP/Esalq
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